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O envelhecimento da mulher como um fato incomum

Durante a semana passada, meus olhos sangraram quando me deparei com a seguinte “notícia” circulando pelo Facebook:

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Pois é. Eu sei que é meio ilusório acreditar que o jornalismo é uma atividade responsável por transmitir informações relevantes à sociedade e tal. Era pra ser assim, mas nem sempre é assim. No entanto, não consigo mesmo deixar de me espantar com o fato de Liv Tyler estar envelhecendo ser notícia. Todo mundo envelhece, oras. Se ela tivesse voltado no tempo e, ao invés de ficar mais velha, ficasse cada vez mais jovem até se tornar uma criança de novo, aí sim eu entenderia o alarde. Mas a manchete “Aos 37 anos, Liv Tyler não é mais a mesma; veja a transformação da musa dos anos 90” não diz nada. Acho que aos 37 ninguém é a mesma pessoa que era na década de 90.

Vamos nos focar nos critérios jornalísticos de noticiabilidade, ou seja, o que dá valor-notícia para um fato. Relevância (se a informação afeta a vida do público-alvo), proximidade (se acontece perto ou na cidade das pessoas que receberão a notícia), surpresa (se é algo inesperado, surpreendente), etc e etc, são alguns dos critérios que tornam um acontecimento noticiável. Teoricamente, se vivêssemos em uma sociedade mais justa e que tratasse a mulher com um mínimo de respeito necessário para a manutenção de sua integridade física e psicológica, seria óbvio para todo mundo o quanto essa matéria é absurda.

Só que, infelizmente, vivemos em uma sociedade desigual. Essa assimetria pode ser vista em diversos aspectos que se relacionam, como sexo, economia e cor de pele. E para a sociedade (falo principalmente da ocidental e inserida em um sistema capitalista), ser mulher envolve principalmente ser “bonita”, “desejável”, “atraente”, “sexy”, “obediente”. Lógico que não é assim tão simples. Um determinado setor vai valorizar mais a “beleza natural” (mas o que é vendido como “natural” na verdade costuma ser maquiagem leve que “disfarça imperfeições”). Outro vai dizer que mulher “de verdade” é a de batonzão vermelho e roupa decotada. Independentemente da mitologia vigente no meio em que estamos inseridas, somos bombardeadas por opiniões diretas e indiretas sobre nossa aparência o tempo inteiro. A indústria da beleza lucra com essas ideias e investe capital na mídia, para que o alcance desse discurso seja maior. A mídia dissemina essa ideia e lucra também. Não é à toa que é muito mais fácil enumerar, de cabeça, “divas” conhecidas por sua “beleza” do que mulheres que são famosas por motivos que não estão necessariamente ligados à aparência.

As inseguranças da mulher geram lucro, logo, o corpo da mulher é tratado como capital. E em uma sociedade que trata pessoas mais velhas como improdutivas, a mídia acaba tratando envelhecimento (principalmente o feminino, já que o acúmulo de capital costuma estar na mão de homens mais velhos) como perda. O estereótipo da mulher mais velha é que ela perde cabelo, poder, sedução. Os ganhos são sempre vistos de forma negativa (aumento de peso sendo tratado como algo ruim, por exemplo, e as conquistas pessoais e profissionais são ignoradas). O subjetivo da mulher, no geral, não é levado em conta. O corpo passa a ser tratado como algo à parte, algo descolado de tudo que a mulher é. “O corpo que eu quero ter” passa a ser um desejo tão corriqueiro quanto “a bolsa que eu quero ter”. Nossas experiências impressas nele passam a ser vergonhosas. Queremos ser lisas como um papel intacto – como as mulheres que vemos nas revistas e na televisão.

Porém, essas mulheres das revistas e da televisão também não são “perfeitas” – ninguém é. E em uma sociedade como a nossa, se torna noticiável o fato de uma sex symbol deixar de cumprir a sua função decorativa, porque é praticamente uma tragédia. E funciona como um alerta de que nós, reles mortais, teremos que nos cuidar em dobro, já que até mesmo a Liv Tyler “deu uma engordada” e “está bem diferente do que estamos acostumados”. E o “se cuidar” envolve inúmeros produtos e serviços. Assim, a teia lucrativa gerada por nossas inseguranças permanece ativa, bem como a tentativa de controle sobre nós (tanto que, muitas vezes, quando se tenta silenciar uma mulher é apelando para sua aparência. O clássico “toda feminista é gorda e peluda” é uma prova disso. E daí se formos? O que isso altera na nossa capacidade discursiva?).

Ano passado, após “polêmica” gerada pela mídia ao mostrar foto da atriz Betty Faria, de 72 anos, usando biquini na praia (oh, que absurdo), ela recebeu todos os xingamentos possíveis e precisou manifestar publicamente que tem o direito de ficar velha (infelizmente, suas aparições seguintes em praias foram de maiô. Olha que saco ter que ficar pensando e pensando sobre o que se vai usar em uma praia pra ter que se prevenir de uma enxurrada de hostilidade. Homens  – famosos ou não – simplesmente vestem qualquer merda e vão). Chega a ser bizarro como a mulher que existe para além das aparências ofende. Não se pode ir a praia, se divertir, dançar, nadar… Viver. Uma mulher deve estar sempre atenta se a sua aparência está agradando. Caso seja paquerada, só é respeitada se já for “posse” de algum outro homem. O envelhecimento dela, processo natural no decorrer da vida de todos os seres vivos, é tratado como um acontecimento incomum.

Aliás, se observarmos bem, a mulher mais velha (não apenas as idosas, creio que essa invisibilidade começa bem antes) não tem espaço na mídia. Muitas mães e avós de novelas, filmes e propagandas, que na vida real teriam cabelos brancos, rugas no rosto, ou manchas nas mãos, são retratadas como mulheres bem mais jovens. Não vemos feitos importantes realizados por mulheres sendo celebrados da mesma forma que celebram o fato de uma mulher de 30 parecer ter 25 anos, por exemplo. As idosas, então… Só são lembradas na hora de vender Corega. E o tempo inteiro temos que ler notícias pejorativas sobre como alguma mulher emagreceu ou engordou ou envelheceu ou mostrou a calcinha ou borrou a maquiagem, como se isso fosse algo extremamente relevante. Precisamos reivindicar mais do que uma representação digna e plural. Precisamos reivindicar nossos corpos como parte de nós, como vitrines de nossas histórias. Histórias que devem ser contadas com orgulho, e não apagadas de forma cruel pela mídia e pela indústria.

O corpo que eu quero ter é esse, o que traz marcas de experiências boas e ruins vividas por uma mulher inteira. E esse corpo não vai ser desconectado do meu “eu”.

P.S: Já passou da hora de tantos jornalistas despreparados e incompetentes inundarem sites, revistas, programas de televisão e afins com tanta porcaria. Essa chuva de chorume com certeza vem não apenas da misoginia internalizada, mas também da preguiça de pesquisar assuntos realmente relevantes e da falta de capacidade de gerar conteúdo interessante, que chame a atenção de forma criativa e construtiva. Tomem vergonha e vão estudar.

Algumas ideias desse texto eu tirei de anotações que fiz em um seminário feminista em 2009, de uma mesa chamada “Mídias e Feminismos”, que contou com as professoras Tânia Montoro (Comunicação Social/UnB), Maria Luiza Martins de Mendonça (Comunicação e Biblioteconomia – UFG) e Márcia Coelho Flausino (UCB).

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