Pensamentos soltos sobre jornalismo, mercado & mulher

Oi, gente! Antes de começar o post, gostaria de agradecer quem tem lido, compartilhado e debatido os assuntos que me proponho a falar sobre. Este blog é novinho e ainda está engatinhando, mas teve semana que conseguiu alcançar mais de 20 mil visitas – considero bastante para algo totalmente independente e divulgado no boca a boca, e fico feliz. Eu já fui muito insegura para expor minhas ideias ou mostrar o que escrevo, e é incrível e surpreendente viver nesse tempo dinâmico, de feedbacks imediatos.

E baseada nesses feedbacks, venho prosseguir a discussão sobre mulheres e mídia iniciada neste post aqui. Uma jornalista se incomodou com o fato de eu colocar a culpa de matérias machistas nas costas de nossos (opa, pra quem não sabe: também sou jornalista) colegas de profissão. Parte do comentário dela foi o seguinte:

“Cara, quem alimenta essa indústria dos cliques não somos (só) nós. É um círculo vicioso! Se não houvesse tanta procura – algo que eu queria entender – certamente nossos veículos e diretores não investiriam tanto na produção de conteúdo sobre ‘celebridades’ e derivados”

E ela tem toda razão. Jornalistas não são os únicos culpados, embora eu quisesse dar uma cutucadinha na consciência deles quando falei que deveriam tomar vergonha e ir estudar mais. No jornalismo online, por exemplo, existe uma “indústria de cliques”, como a jornalista disse, que busca atenção rápida e a certeza de que o link será aberto. Quanto mais cliques, mais anúncios. E os anunciantes não parecem muito preocupados com a procedência dos cliques (tem muita matéria ~polêmica~ que rende clique e gera impacto negativo nos leitores – só que, no fim, a marca vai grudar na cabeça e todo mundo vai acabar consumindo de qualquer jeito).

johee-yoon

Ilustração de JoHee Yoon

Conteúdo interessante também atrai, mas os profissionais, em geral, não possuem tempo para procurar boas pautas na rua ou para pesquisar um assunto profundamente. Os prazos são apertados, a demanda por novidades constantes é alta e existem mil tarefas a serem cumpridas ao mesmo tempo, virtualmente e offline. Além do mais, muitos anunciantes de veículos voltados para mulheres são das indústrias de cosméticos, vestuário e etc, o que estimula a criação de necessidades antes inexistentes. Novidades relacionadas a roupa, cabelo, maquiagem e cirurgias plásticas, por exemplo, são mostradas a todo momento não apenas em propagandas, mas nas próprias matérias que saem em sites, revistas, suplementos de jornais ou programas televisivos. Porém, não sei até que ponto isso é “proposital”, numa tentativa de criar tendências, e até que ponto é uma mera assimilação desses produtos e práticas como pertencentes a um suposto “universo feminino” (pretendo fazer, em breve, um post sobre o surgimento da chamada “imprensa feminina”, o que nos ajudará a pensar essa questão). Aliás, nós, mulheres, somos consideradas um público emergente e valioso, com as recentes reconfigurações econômicas e familiares (mães solteiras e chefes de família, por exemplo).

No entanto, acredito que existe também um olhar viciado e preguiça de sair da zona de conforto por parte de alguns jornalistas, e isso faz com eles se ancorem em pontos de vista rasos e em “achismos”. Muitos não conseguem se despir dos próprios preconceitos e acham ok reproduzir o senso comum, ao invés de tentar entender minimamente o outro e suas especificidades, e desmistificar ideias correntes mas nem sempre corretas.

A nota sobre o envelhecimento de Liv Tyler, por exemplo, poderia muito bem ter sido só uma besteira do tipo “Fulana de Tal toma banho de mar”, que é o cúmulo do dizer nada, mas pelo menos não perpetua padrões negativos – e atrai o mesmo tipo de atenção. Isso entra, aliás, em uma outra questão, relacionada a um comentário que também recebi. Comentários, na verdade, pois foi um ponto abordado mais de uma vez: entretenimento e fofoca na internet não é jornalismo.

Hm. Essa questão é complicada. Claro que notas sobre envelhecimento e banhos de mar não são o jornalismo em sua forma “tradicional”. Mas constituem um híbrido entre jornalismo e publicidade onde a “informação” (ou falta de) constitui a própria mercadoria. “O infotenimento é hoje a grande sacada empresarial dos meios de comunicação para alavancar suas vendas e não perder seu público. Mas até que ponto misturar informação e entretenimento pode prejudicar a real função do jornalismo? Que hoje a informação jornalística é considerada uma mercadoria, não há dúvida, mas como é possível, em meio a esse turbilhão de informações, separar o joio do trigo, ou seja, aquilo que realmente é informação daquilo que é apenas distração, fruição?”. 

Eu não sei bem a resposta, mas sei que o tal do infotenimento, muitas vezes, tem status e alcance de jornalismo (mais, até). E vários veículos misturam tudo (notícias, entretenimento, etc), o que dificulta o discernimento do leitor comum (digo comum no sentido de não-jornalista e tal), que tem o hábito de dar (ou não) credibilidade para um veículo como um todo. Então… É algo que deve sim ser analisado. Se uma mensagem está sendo passada, um monte de gente está recebendo essa mensagem. E acho que o jornalismo “tradicional” e o infotenimento se retroalimentam, formando um ciclo que perpetua as mesmas ideias, mas em diferentes níveis.

No infotenimento, os absurdos são mais escancarados (“VEJA O BUMBUM DA CICRANA CHEIO DE CELULITE”), mas o jornalismo “tradicional” não fica atrás. Quantas não foram as matérias que já lemos ao longo da vida falando sobre aparência de mulheres que atuam na política, sobre inovações estéticas que vão ~levantar a auto-estima~ das mulheres, sobre a manifestante “gata”, sobre como o corpo de mulheres esportistas é magro demais, grande demais ou forte demais, entre outras? Quantas não foram as reportagens que tentaram naturalizar a “inferioridade” da mulher ou demonizar conquistas femininas, com apurações dignas de infotenimento, e não de jornalismo “tradicional”?

Não tenho conclusões definitivas. Até porque mulheres são maioria entre jornalistas, mas grandes empresas e veículos costumam ter homens no poder. O olhar por trás das decisões é masculino. Então essa postagem é mais um rascunho, um espaço para escoar as ideias que surgiram sobre o assunto após o post anterior. E um convite à reflexão sobre quais as posições de cada peça nesse grande jogo que é o recorte de interpretações do mundo por meio de produção e disseminação de informações. Vamos pensar juntos?

Ah, fiz uma página no Facebook: www.facebook.com/revolucaovulva 🙂

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