“Você pode me chamar de TERF, mas eu não sou transfóbica”

Mentira, não pode não. Mas esse é o título de um texto cuja tradução posto abaixo. Ele fala de um assunto um tanto quanto polêmico dentro do meio feminista virtual: as temidas ~TERFs~. Eu não me considero feminista radical, por me achar bastante leite com pêra, mas me alinho com diversas ideias que giram dentro desse movimento. O feminismo radical vai direto ao ponto quando se fala de patriarcado, violência contra a mulher, prostituição, pedofilia, pornografia, etc. Assuntos ainda urgentes – e ainda hoje negligenciados, mesmo por feministas. Não me apetece o malabarismo retórico que pode ser visto, algumas vezes, dentro do feminismo “mainstream”, feito com o intuito de preservar agentes de violência de culpa e de dissipar categorias em indivíduos, transformando certas ações em meras vontades individuais, ou certas violências em atos descolados de uma estrutura.

Me revolta a violência sofrida por pessoas transexuais. No entanto, pensar em como o conceito de transexualidade se insere dentro do meio feminista, especialmente quando falamos de mulheres transexuais, não significa desejar o mal para essas pessoas ou concordar com agressões. Até mesmo porque são os homens os principais personagens no que diz respeito ao extermínio e exploração de minorias.

Não colabore com a perseguição e o isolamento de mulheres, não subestime a inteligência alheia, não ache que misoginia é algo irrelevante. Debata, discuta, aprenda, ensine. Não jogue fora o conhecimento de outras mulheres. O feminismo agradece. Segue o texto:

Você pode me chamar de TERF, mas eu não sou transfóbica

Aviso: eu aceito que, assim como todo outro grupo no planeta, mulheres trans têm uma pluralidade de pontos de vista teóricos. Eu prezo que muitas são apoiadoras do movimento pela libertação de mulheres, e tenho amigas que o são e de quem ouço e aprendo diariamente. Esse artigo se refere aos pontos de vista dominantes no Twitter.

Quantas vezes por dia eu sou chamada de TERF? Muitas vezes para se contar. Quantas vezes eu vi “você é TERF, sua opinião é irrelevante”? Muitas vezes para se contar. Não vamos fingir que TERF é uma descrição objetiva de um ponto de vista teórico. É um insulto. Um termo abusivo cujo objetivo é minar, dispensar e apagar a voz de mulheres feministas radicais.

TERF é um acrônimo para “Trans Exclusionary Radical Feminists” (inglês para “Feministas Radicais Trans-Excludentes”). Mas o que isso significa? A ênfase é na exclusão – um ato intencional – e a implicação é que isso é baseado em preconceito e na discriminação propositada. Uma coisa ruim. Mas uma análise mais próxima expõe as falhas nessa definição. Excluídas de quê? Feminismo? Da situação de ser mulher? A análise do feminismo radical mantém que o feminismo é o movimento de mulheres para a liberação das mulheres da opressão, e que a realidade biológica feminina é um aspecto que define a experiência de opressão de uma mulher. Isso não exclui mulheres trans com base em preconceitos ou discriminação mais do que exclui homens. TERF também ofusca o fato que a vasta maioria de feministas radicais acredita que TODAS as pessoas deviam trabalhar juntas para acabar com a opressão das mulheres e que muitas acreditam que, uma vez que mulheres trans transicionam, elas experimentam tanto preconceito e discriminação quanto mulheres que nasceram mulheres experimentam. Na realidade, TERF é um termo sem significado baseado no desejo de silenciar a voz de feministas radicais. Em última análise, é misógino.

Então, por que não podemos nos dar bem?

1) Insultos, mentiras, silenciamento & demonização

Então, nós explicamos que toda vez que TERF é usado tem a intenção de insultar. Nós sabemos que você sabe disso. Não é um bom começo para um diálogo produtivo, né? Você pensaria que pessoas trans que se identificam como mulheres seriam compreensivas e abertas a mulheres analisando a opressão que elas enfrentam, mesmo que elas discordem. Ao invés disso, nós somos silenciadas. Uma mulher é designada como “RadFem” e tudo que ela diz não tem valor e ela não é bem-vinda em conversas. Como isso pode não ser interpretado como um espelho do comportamento de homens patriarcais que esperam nos silenciar?

Brincando, muitas RadFems começaram a usar o termo “radfemfobia”. Na verdade não é uma brincadeira. Radfems são constantemente expostas a preconceitos e fanatismos – ou seja, sendo ignoradas, excluídas ou anuladas só porque elas são sabidamente feministas radicais. Panelinhas são criadas só para se opor a elas. Mentiras são constantemente contadas e são prontamente aceitas pela multidão. Eu ainda não vi outro grupo enfrentar tanta hostilidade, tanto da parte de homens quanto da parte de outras mulheres.

A demonização vai tão longe que a narrativa aceita é que o propósito/motivação de feministas radicais é o de atacar mulheres trans. Mas a pista está no título. Feministas radicais querem acabar a opressão de mulheres, esse é o ÚNICO propósito ou motivação. Nós vemos a opressão das mulheres e trabalhamos fortemente para descobrir as ações necessárias a serem tomadas para contra-atacar essa opressão ou as crenças que sustentam a opressão. Novamente, você pode não concordar com a análise, mas interpretar de forma errada a motivação é tanto desonesto quanto manipulador. Mantendo que a análise existe para oprimir “você” diz mais sobre a sua auto-obsessão do que sobre o feminismo radical.

2) Gênero

Feministas radicais começaram a usar “gênero” na década de 1960 (antes disso, o termo raramente era usado). O propósito de distinguir sexo e gênero era para ilustrar “que a condição social de ser uma mulher ou ser um homem não é a mesma coisa que, e não segue “naturalmente”, a condição biológica de ser fêmea ou macho” (http://www.trouble.myzen.co.uk/?page_id=37). Note que isso não significa que homens podem se tornar mulheres e vice-versa. Isso significa que o papel social “mulher” é imposto como um resultado de uma pessoa ser fêmea, como Simone de Beauvior resumiu em sua citação “não se nasce mulher, torna-se”. Então mulher/fêmea e homem/macho são inseparáveis, apesar de que indivíduos esclarecidos e/ou empoderados podem conseguir jogar fora algumas das imposições sociais. Mas o que isso realmente significa é que “gênero” é uma hierarquia nos dizendo como nós “devíamos” nos comportar baseado no nosso sexo e, com todas as coisas “femininas” desvalorizadas, isso serve como a maior ferramenta do patriarcado para manter mulheres como subordinadas. 

Reivindicações de um cérebro, essência, sentimento ou identidade de gênero femininos são essencialistas. Elas apelam a uma ideia que existe uma “mulher” além de sua experiência de opressão baseada em seu sexo e isso confirma crenças patriarcais antiquíssimas de mulheres como “outras”. Este último, identidade de gênero, é frequentemente proposto como uma experiência subjetiva. Na realidade, é a proposição mais perigosa, porque negá-la é uma afronta à crença dominante no individualismo liberal. Mas um apelo à identidade de gênero depende fortemente em um preconceito do que significa se sentir como/ser uma mulher. Em que mais isso pode ser baseado além de influências culturais? Esse é o resultado de estereótipos e misoginia.

3) Essencialismo

Ao promover a transição – envolvendo operações ou não (excluindo aqueles que passam por distúrbio de disforia corporal) –, pessoas trans reafirmam a conexão entre gênero e sexo ao invés de subvertê-la. Revolucionário seria jogar fora as correntes do gênero e ser quem você quiser ser independente do corpo em que você se encontra.

Quando mulheres trans mudam o jeito que elas usam o seu cabelo, removem seus pelos, passam por cirurgias cosméticas, implantes mamários ou criam uma cavidade que elas chamam de “vagina”, estão reduzindo mulheres a seus corpos e as normas sociais impostas sobre esses corpos.

Ao insistir que elas são ou precisam se tornar mulheres, mulheres trans validam ideias arcaicas sobre o sexo feminino. É verdade que muitas mulheres também fazem essa função dentro do mundo, mas isso não nega o impacto. Querer acabar com a opressão feminina requer que se reconheça isso, assim como feministas radicais reconhecem. Muitas mulheres trans também buscam maneiras de expressar suas experiências de forma a não impactar mulheres negativamente. Isso pode ser feito.

4) Apagamento de mulheres

Mulheres têm sido oprimidas desde que temos registros, e com 54% da população mundial é a opressão mais difundida de todas. Nossas ancestrais lutaram durante o último século por todos os direitos e avanços que nós fizemos. Então quando nós ouvimos que direitos reprodutivos etc. não são problema de mulheres, isso machuca. Não só em um nível individual, mas o movimento em si. Isso coloca obstáculos enormes e incorretos numa trilha que ainda está longe de acabar.

Recentemente o nome do blog “Vagenda” e assuntos como menstruação foram rotulados como exclusionários e transfóbicos. Mulheres lutaram por séculos para não só terem uma voz, mas também terem direito de falar sobre assuntos que afetam fêmeas abertamente, sem serem vistas como desimportantes ou tabus. Uma pessoa muito mais sensível que eu disse “se 99.9% das pessoas são afetadas são mulheres, é bastante razoável chamar de uma questão feminina”. Essas são questões femininas. Essas são questões em que o movimento feminista *precisa* focar. Porque, se feministas não o fizerem, ninguém mais o fará. Esse é meio que o ponto do feminismo. Silenciar mulheres nessas questões, o que inclui excluí-las do discurso feminista, é misoginia.

Mulheres estão sendo silenciadas. O novo choro de transfobia só serve para nos atrasar, apagando todo o progresso que foi feito. As oprimidas, aquelas que são socializadas para acreditar que “todos os outros primeiro, por último eu” estão ouvindo isso de novo. E muitas delas estão comprando esse discurso. Pior ainda são mulheres que, falando sobre suas experiências como fêmeas e analisando sua opressão, são alvos de ataque enquanto os verdadeiros transfóbicos são ignorados. “Toda a transfobia que eu já vivenciei foi de TERFs”. Então você está sugerindo que feministas radicais são quem batem, estupram e matam mulheres trans? Não, eu pensei que não. Porque um pequeno grupo de mulheres com pouca ou nenhuma influência está sendo alvo de tal campanha?

Então. Para ser honesta, eu não ligo para como você vive a sua vida. Eu não ligo para como você quer se chamar ou para como você quer se vestir. Eu não ligo se alguns grupos ou espaços femininos te acolhem de braços abertos. Eu fico feliz de lutar ao seu lado pelos seus direitos legais, saúde e segurança apropriados, o que eu acho que todos os seres humanos merecem.

Onde eu começo a ter problemas é onde você nega discussões quando as necessidades e interesses de mulheres e mulheres trans se tornam conflitantes. Onde você me insulta e diz que suas necessidades importam acima de tudo. Onde suas palavras e crenças silenciam vozes de mulheres, apagam a realidade de mulheres e contribuem para a opressão de mulheres. O que, honestamente, como mulher trans ou feminista liberal, eu pensei que você entenderia.

Texto do blog A feminist roarsClique aqui para ler o original em inglês.

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12 comentários sobre ““Você pode me chamar de TERF, mas eu não sou transfóbica”

  1. Texto muito bom, ótimo. Eu me identifico com o feminismo radical, mas com a questão trans sou dividida. Porém não acredito que feministas radicais sérias estejam disseminando o ódio às mulheres trans. Agora acretido mesmo que mulheres estejam sendo silenciadas dentro do movimento feminista, atacadas,chamadas de TERFS e de Radfems(esta última como sentido pejorativo).Acredito mesmo que assuntos ainda tabus milenares ,ligados ao corpo feminino, como vagina, mestruação, aborto, clitóris, orgasmo, sexualidade feminna, homossexualidade feminina, suscetibilidade à doenças DST e etc; estejam sendo evitados por serem considerados “transfóbicos”!. Pergunto então, se o movimento feminista não discuti estes assuntos e colocá los na relevência que merecem, que outro movimento o fará??. É sem dúvida, tem que ser um espaço, nosso espaço de falar e discutir sobre todos estes assuntos.

      • Eu me refiro a aparência é claro. A não ser que vc considere desrespeito o simples fato de comparar a aparência de uma mulher cis da transexual, aí é outra história. Eu acredito que alguém que nasceu homem e quer ser mulher, se pudesse não o faria por causa da sociedade mas o faz pq realmente ele/ela se sente melhor assim. Assim como tem mulheres que querem se tornar homem. Ou vc não acredita que exista trans homem? Eles foram socializadas mulheres mas se consideram homens.

  2. Cara, eu sou terf e sexista. Pra mim, se tem pinto e foi criado como homem é homem. Desconfio sempre de quem tem pinto, e tenho dó de quem tira peito e pinto pra se sentir bem. Se ter buceta não é determinante, porque cortam os pintos? O mesmo pras trans homem, se o que importa é o sentir, o ser, pq tiram os peitos e ficam cicatrizadas usando dildo? Penso que é pq ter peito, pinto e buceta (ainda) significa alguma coisa. Ademais, é cruel aceitar essa modificação de corpos, como “linda” afinal, cirurgias e reposições hormonais tem um custo fisiológico alto, e financeiro também. O SUS não opera nem o básico e financia mudança de sexo? Fútil demais.

    • Que dó de você silenciando homem trans que, segundo seu argumento mesmo, “nasceu com buceta”. Então por passar a se identificar como homem virou inimigo, virou cis? Agora é um “homem com privilégios”? Aonde? no seu mundo de blogs e movimentos né gata? Só se for. Se poupe. Não precisa aceitar no movimento, mas é ridículo ficar inferiorizando porque em algum momento foi um “homem com pau”. Foca na porra do homem cis hetero seja qual raça for, esse sim é o problema.

  3. Quando conheci o feminismo radical, as pessoas que me levaram a conhecê-lo praticamente associavam essa ideia de que toda feminista radical é transfóbica. Como uma pessoa trans vi que muitas não conseguiam aceitar de maneira alguma que mulher trans pudesse ser considerada como mulher e muitas ativistas da causa trans acabam generalizando quando uma página no face está sendo transfóbica. Certos discursos são um pouco dolorosos, mas mesmo assim procurei buscar a origem do motivo. A principal acusação é que toda mulher trans enquanto é lida pela sociedade como homem possui privilégios. Por experiência própria digo que não é toda trans que vive esses privilégios. Quando eu tinha quatro anos e me vestia com as roupas da minha mãe porque me identificava mais com ela, ela me repreendia e brigava comigo falando que eu tinha que ser como meu pai (ela sempre disse que o que ela mais queria era ter um filho homem, mas nunca disse o porque), mas nunca nem cheguei perto das roupas dele porque tinha nojo (que mais tarde percebi que o nojo que eu sentia era pelo masculino).Desde aquela época fui cobrada pela sociedade a ter uma postura agressiva e dominadora, mas como eu não dava esse comportamento, sofri violência psicológica e física. Na escola era o “saco de pancadas”, o alvo preferido de qualquer idiota que quisesse fazer qualquer brincadeira estúpida, e se eu denunciasse, recebia ameaças de morte. Eu não reagia e sempre era motivo para mais. Foi assim da primeira série até o primeiro ano do ensino médio, quando cansei de ser tratada como lixo e finalmente reagi e mesmo saindo sangrando daquela briga, eu finalmente tinha conseguido paz, mas aquilo não me livrou da dificuldade em formar amizades e do medo que tenho de me aproximar das pessoas até hoje (tenho 22). Em casa, meu pai, que foi bem ausente, queria me cobrar satisfação do porque eu ainda não estava namorando, já que os filhos dos colegas machões dele tinham fama de “pegadores”. Como ele traía minha mãe, discuti com ele e disse que não era obrigada a levar o mesmo estilo de vida que ele só porque ele queria eu fosse “homem”. Ele achou que eu crescendo ver ele brigar com minha mãe ia me fazer ficar do lado dele, mas eu tinha era nojo daquilo. Minha mãe só ficou triste com a discussão porque ela sempre quis que eu casasse (desde criança ela falava nisso).
    Posso nunca ter aceitado o fato de que a sociedade me viu e me tratou como homem e sofri por isso, mas claro que isso não chega nem perto do que muitas pessoas que foram declaradas do sexo feminino no nascimento já passaram.
    Quando cansei de viver aquela fantasia masculina e me libertei dos estereótipos de gênero que me foram enfiados guela abaixo a vida toda, fui excluída pela família (exceto pelos pais e uma avó, que mesmo me vendo como doente não vão negar o fato de que são meus pais e avó) e algumas das poucas pessoas que tinha conseguido formar uma amizade se afastaram de mim.

    Vejo que se fala muito sobre apagamento de assuntos referentes às mulheres cis, mas raramente vejo algo assim, porém vejo. Desde antes de conhecer o feminismo eu já discuti algumas vezes com alguns garotos a respeito do aborto (sempre fui a favor e também sobre conversar a respeito), sempre fui contra a prostituição e a pornografia. Quando conheci o feminismo, logo em seguida conheci o radical, e mesclando o que eu li sobre ambos pude entender porque minha mãe sempre quis ter um filho homem e também porque ela evitava ao máximo que eu ouvisse qualquer coisa referente à saúde feminina. Por mais que eu não tenha útero e me sinta mal por isso, nunca deixei de ler sobre assuntos discutidos pelas feministas. Acho desnecessário a briga radfem x trans porque isso segrega e nos impede de ver que se somarmos podemos mais, ter mais voz, acabar com esse sistema patriarcal.
    Conversar e trocar experiências e conhecimento pode acabar ajudando alguém futuramente.

    • Melissa, obrigada por compartilhar sua experiência. Como não tenho tempo para desenvolver um longo comentário agora, vou voltar depois para comentar melhor. Não quero comentar de qualquer jeito! De qualquer forma, fica o meu registro e agradecimento pela abertura de diálogo. =*

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  5. Pingback: Eu sou feminista radical? (II)

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