Pensamentos soltos de uma mulher cansada

Ontem estava chovendo e mais uma vez passei em frente a um muro com um lambe que trazia a imagem de Marielle Franco, um pôster grande que estampava também a fatídica pergunta que tanto se faz por aí em busca de respostas concretas e oficiais do que todo mundo já desconfia e possui indícios aqui e ali: quem a matou? Lembrei do dia em que tudo aconteceu, a tempestade que acompanhava as tristes notícias, a sensação horripilante de que as coisas no país não eram as melhores e podiam ainda piorar.

Claro que, infelizmente, outras figuras políticas e lideranças importantes já foram assassinadas em outras ocasiões. Mas essa morte foi muito marcante e explícita, aconteceu no centro do Rio de Janeiro e em um momento em que minorias com pautas e identidades semelhantes às de Marielle estavam – e estão – em evidência. O crime simboliza também o que viria depois, a ascensão miliciana em um país dominado pelo que tenho chamado de Jesuscracia Neoliberal. Que tempos.

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Disputa de discursos e Marielle

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Eu já andava desanimada com o blog e comecei a escrever cada vez menos por aqui desde então. Tudo me parecia pequeno, bobo, raso. Como falar sobre sexo ou música em um mundo em pleno desmoronamento? Perder a fé na humanidade é uma frase que muita gente bem intencionada utiliza com uma certa constância enquanto passeia pelas notícias trágicas que diariamente povoam as redes sociais virtuais. Contudo, o que sinto não é nem uma perda de sentimentos, mas uma desesperança que é sedimentada a partir da constatação de que disputas violentas de espaço, poder e discurso estão postas e se desdobram de modo difuso e altamente complexo a cada segundo – e já era assim bem antes de sequer existirmos nesse planeta.

Mas chega de ter esperança, como diria o Comitê Invisível, né? Eles alegam no livro Motim e destituição do agora que a esperança acaba por ser uma ferramenta que nos mantém passivamente acreditando em uma solução abstrata que virá do futuro enquanto, na verdade, deveríamos estar construindo algo agora. Agora, aliás, é uma palavra que carrego no corpo, em forma de tatuagem e com a letra de fôrma de um amigo querido, como uma espécie de âncora para uma mente que está sempre se alternando entre o que já foi ou o que ainda pode ser. A ansiedade torna o agora um lugar muito difícil de se estar e ela é também o que fundamenta essa nossa era recheada de imagens, informações, palavras de ordem, capitalismo exacerbado, modelos de aparência e de comportamento, dissolução de valores e repaginação de preconceitos – tudo isso junto e misturado em um grande remix.

A questão é: perder a fé na humanidade me parece, na real, algo até bem otimista considerando que, historicamente, são muitos os fatos que evidenciam motivos para que ela não devesse sequer existir.

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Venho recebendo a newsletter da jornalista Sofia Perpétua, uma mulher incrível que conheci recentemente em um evento de literatura, e me acalenta o coração ler textos tão bem escritos que trazem o que ela vê, o que ela pensa, o que ela gosta, onde ela foi, tudo de modo tão bonito e bem amarrado com belas fotografias. Existem outras newsletters muito interessantes por aí (como as das maravilhosas Stephanie Borges, Aline Valek ou Carla, do Outra Cozinha) e isso tem me feito olhar com ainda mais amor pra esse lance de sistematizar e compartilhar ideias por meio da escrita de um modo mais afetivo.

Para mudar um pouco de ares, me inspirei a voltar aqui hoje e escrever de um jeito mais livre, leve e solto. Sem revisar o texto mil vezes ou demorar uma semana para colocá-lo no ar. Sem a obrigação de destrinchar um tema específico com alguma profundidade. Quero apenas falar sobre aflições e vontades. Mas trazendo sempre a tal da perspectiva feminista, em algum momento, porque é pra isso que este blog existe. Escrevo o tempo todo, profissionalmente e academicamente, mas nem sempre do jeito que eu gostaria. Aqui rola de fazer uns experimentos, né?

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Porém, tenho experimentado também o lado ruim de colocar as próprias ideias online. Existe um forte movimento de apropriação e cooptação do que pequenos grupos estão fazendo. Isso acontece em prol de algum tipo de lucro pessoal que, por vezes, é econômico também. Ou social. Vários tipos de capitais em questão, esses lances. As coisas mudaram e o ambiente virtual, que já foi o esconderijo aconchegante de muita gente, virou uma grande vitrine.

Sinceramente não aguento mais a figura do digital influencer que cospe um monte de besteira genérica em um ritmo frenético e ainda por cima utiliza pautas sociais de modo distorcido e dissolvido apenas para impulsionar a própria imagem. Não aguento mais grifes falsamente inclusivas e cheias de frases prontas. Não aguento mais gente achando que pesquisar conteúdo significa roubar ideias e formatos alheios. Não aguento mais a sensação de que a conversa no ambiente virtual está parecendo mais produção gratuita de conteúdo para empresas (inclusive para as próprias mídias sociais) e pessoas aproveitadoras.

Pesquisa envolve enfiar a cara em livros, revistas e sites, visitas a lugares, passeios pelas ruas, viagens, conversas com pessoas e afins para, a partir daí, construir a própria trajetória – uma trajetória que dê o devido crédito a quem fez parte dela. Então isso acaba sendo outro fator que me deixa desanimada. Fico muito feliz com o reconhecimento que vez ou outra recebo, com o diálogo que estabeleço com pessoas ótimas, mas ver gente ganhando edital, fazendo matérias ou vídeos no YouTube a partir de coisas que pensei, criei, produzi (e sem autorização) me deixa triste. Dinheiro e crédito são coisas importantes nesse mundo. Mas isso não é nenhuma novidade e acontece em movimentos sociais, culturais, artísticos e etc o tempo todo, como uma dança espelhada e esquisita.

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Esse negócio de apropriação me faz pensar também na memória de Marielle Franco, que foi quem abriu este texto. É importante que ela esteja sempre em pauta, mas de modo respeitoso e humano e não como nome de hambúrguer vegano de trinta reais ou de coleção de lingerie. Não de modo superficial e preguiçoso, com uma representação que traga a mera imagem dela repleta de buracos de bala em uma roupa de marca. Tudo isso aconteceu – e é pavoroso. É pavoroso não estar sendo feita metade da reflexão que é necessária em um país que tem suas bases construídas em cima do racismo e da misoginia. No capitalismo tudo é um produto, realmente.

O Dia das Mães passou e, mais uma vez, discutiu-se no âmbito virtual sobre ser mãe de pet (e agora teve até mãe de planta???) ou maternidade compulsória (tema importante, não nego). Quem lembra das mães que possuem a maternidade interditada pelo genocídio de seus filhos negros, por exemplo, para além das próprias militantes do feminismo/movimento negro? Uma amiga minha estudou essa questão e não vejo a hora de essa dissertação estar logo disponível de alguma maneira, para que todos possam ver. E ela cita Marielle, academicamente, resgatando também o legado teórico de uma pessoa que lutou em variadas frentes. Um salve para toda a mulherada que está no corre pensando no coletivo – sejam faxineiras, cozinheiras, pesquisadoras, escritoras, doulas, arquitetas e afins. Não é fácil, mas sempre tem alguém por alguém em algum lugar. E nessas horas até cogito ter a tal da fé.

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Falando em coletividade, recentemente conheci de perto muitas pessoas que admiro e outras que passei a admirar. Me sinto energizada por essa rede de troca que me traz, cotidianamente, tantos novos conhecimentos. Minha amiga de tantas aventuras, a querida Gabriela Sobral, idealizou uma feira de publicação independente intitulada Bancada, que aconteceu no Rio de Janeiro dia desses, e fiz parte da organização e curadoria. Pudemos reunir muitas dessas pessoas inspiradoras em um lugar só. Foi muito legal.

Além das minhas obrigações mais oficiais envolvendo estudo e atuação como jornalista, tenho trabalhado com feiras de publicação independentes, principalmente na parte de assessoria de comunicação. Vez ou outra organizo meus próprios eventos ou dou pitaco nos eventos dos outros. Acho esses rolês muitos potentes, horizontais e importantes: o compartilhamento de experiências é imediato e o público pode se perceber como parte fundamental na construção de um cenário em que grandes empresas e shoppings não precisem sempre ser intermediários entre seres humanos e artefatos culturais. Além disso, gosto de conversas cara a cara, de encontros presenciais. São importantes. São necessários.

Bancadarua

Bancada ❤

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Um sonho: pequenos produtores (de alimentos, livros, roupas e afins) em grande escala e não grandes escalas de coisas sendo produzidas por poucas empresas. Pessoas com tempo para cozinhar, ouvir música, dançar e compartilhar experiências sem esse peso do medo e da insegurança preenchendo corpos, mentes e existências com afetos de tristeza e terror – um quadrinista que sou fã me aconselhou ler Espinosa após me ver surtada no período das eleições, mas ainda sou nova no assunto. A crise é um projeto político, sabemos, e me sinto em uma música da Legião Urbana, com meus amigos procurando emprego, todo mundo sem dinheiro e a sensação de que estamos voltando a viver como anos atrás.

Mas, repito, sei que as coisas não estavam perfeitas. Muito pelo contrário.

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O agora escorre entre meus dedos e tento agarrá-lo. A cada passo que dou, me sinto entrincheirada entre passado e futuro (alô, Boaventura!), quase como em uma espécie de paralisia que nubla meus sentidos e me enche de dúvidas. Mas a dúvida é o combustível de toda caminhada, e a incerteza é a única certeza que podemos ter, não é? Por isso esse post com tantas perguntas, poucas conclusões e muitos acontecimentos soltos.

Respiro fundo e tento me localizar no agora, o agora de agora que não é mais o agora que escrevi a alguns minutos atrás. Que bom é estar aqui nesse instante silencioso em que nada mais existe e tudo importa. De qualquer maneira, ainda assim, me sinto exposta, mesmo estando dentro do meu próprio espaço, apenas porque escrevi de um jeito que nunca escrevi antes por aqui, seguindo a ordem desconexa dos meus próprios pensamentos. Respiro fundo de novo. É estranho viver no caos, mas já não deveríamos estar acostumados?

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Um beijo, um abraço e fiquem bem. <333

4 comentários sobre “Pensamentos soltos de uma mulher cansada

  1. Que caos organizado, claro e encantador o seu, flor.
    Se não é costume escrever sem revisar muito, então deveria, porque foi um ótimo texto de entrada para mim aqui no Vulva Revolução.
    Se o primeiro texto que leio aqui veio tão rico e sincero, certamente os outros são maravilhosos!
    Não se cobre pela publicação constante, que seja prazeroso sempre, já temos aprisionamento demais das nossas vontades.
    Grande beijo!

  2. que texto gostoso de ler maira! tantas reflexões importantes colocadas de forma honesta, sem pretensão de dar respostas e com perguntas afiadas. voce passeia por diversos lugares que de atravessamento que a gente sente e nem sempre consegue perceber. adorei o jesuscracia neoliberal. minha mae tem uma otima habilidade em inventar termos (sapatofone é um dos que eu mais gosto) acho fantástico.

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