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Pelo direito de ser complexa: uma conversa sobre feminismo

Finalmente estou tirando a poeira do blog e fazendo o primeiro post de 2018. São tantas coisas acontecendo que, às vezes, me sinto tonta, inútil e paro de ver o sentido de ficar postando minhas ideias na internet. Contudo, navegar é preciso, não é mesmo? Por isso, tenho a honra de receber aqui mais uma conversa entre eu e duas mulheres que admiro muito: Clarissa Wolff, do canal A Redoma de Livros e da incrível coluna na Carta Capital com o mesmo título, além de autora do blog Doce (Catárticos); e Amanda V. (Deixa de Banca), jornalista e a mente por trás de um dos blogs mais divertidos que conheço.

Esse formato foi proposto pela Amanda e tem sido muito agradável poder abordar temas importantes de forma descontraída. Espero que vocês estejam gostando de nos conhecer desse modo um pouco mais íntimo! Em nossa primeira conversa, falamos sobre aquilo que nos une: escrever na internet. A segunda abordou reflexões sobre beleza. Agora, na terceira, relembramos como entramos em contato com o feminismo pela primeira vez e discutimos os desdobramentos que o tema trouxe para nossas realidades.

A gente debateu sobre questões atuais que envolvem o feminismo no contexto da internet e de uma sociedade consumista, que dissolve movimentos com o intuito de torná-los palatáveis, e enfatizamos a constante necessidade de práticas realmente politizadas, que priorizem as urgências atuais e tenham um posicionamento ético como norteador. Não deixamos de abordar também contradições e complexidades inerentes ao ser humano! Se liguem:

FEMINISMO CONVERSA.jpg

Vulva Revolução: Oi, gente! Eu queria falar sobre como o feminismo começou a fazer parte de nossas vidas. E discutir como a relação com o movimento, teoria e afins acaba influenciando tanto a nossa forma de se relacionar com o mundo, quanto como o mundo se relaciona com a gente. Falar de cobranças, exigências de perfeição, benefícios e muito mais.

Pra começar: quando vocês entraram em contato com o feminismo, inicialmente?

Deixa de Banca: Acho que a primeira vez que entrei em contato com o feminismo foi lendo “O diário da princesa”, rs, um livro do começo dos anos 2000. A personagem principal se considera feminista. Um dos conflitos da história inclusive é ela querer ser uma “mulher independente” mas acabar desejando coisas que reconhece como misóginas. Como eu gostava muito desse livro, eu acabei não antagonizando o feminismo, eu o reconhecia como uma parada massa e da qual eu queria fazer parte.

Clarissa Wolff: Minha mãe sempre falou que era feminista, e eu cresci convivendo com essa palavra. Ela não estudava a fundo teoria de gênero na época como veio a estudar mais tarde, era aquele feminismo zero acadêmico, mas muito material: mulher pode fazer tudo que homem pode etc.

Vulva Revolução: Comecei a ler muito cedo e passava muito tempo sozinha lendo livros da biblioteca pessoal do meu tio. Foi assim que descobri o que era, tinha livro que citava ironizando, tinha livro que citava apoiando… Mas foi adolescente que comecei a ouvir bandas feministas, tipo Bikini Kill, e entender mais, embora eu também tenha crescido com essa ideia de que mulheres podem tudo. Ou melhor, quase tudo, pois sofri cerceamentos em um misto de conservadorismo familiar e senso de proteção das mulheres da minha família, que sabiam na pele que estamos expostas à violências específicas e, do modo que consideravam certo, tentavam alertar as mais novas.

Deixa de Banca: Minha mãe nunca se reconheceu como feminista, eu nem ouvia esse termo lá em casa… Mas ela sempre me incentivou a investir na minha carreira e a ter independência financeira em vez de priorizar casar ou ter filhos.

Vulva Revolução: Sobre “O diário da princesa”, o livro falava especificamente de misoginia e esses termos? Eu nunca li, então fico boiando.

Deixa de Banca: Fala sim! Elas falam sobre como a mídia é misógina, zoam os meninos da escola, hahaha. O livro é beeeeem moderno, me faz pensar em como estamos em momento de backlash mesmo.

Vulva Revolução: Gente, e eu sempre olhei com preconceito. Tá vendo que coisa feia, a gente às vezes descarta coisas que parecem “de menininha” automaticamente, rs.

Deixa de Banca: Bridget Jones também fala sobre feminismo aliás, haha.

Clarissa Wolff: Eu li ambos e não lembro disso.

Deixa de Banca: Mas naquela linha pós-feminista, acho que na época era bem forte esse conflito entre sentir que você precisa ser “independente” mas ao mesmo tempo querer viver um amor romântico, ser bonita etc.

Vulva Revolução: Que é o feminismo que a maioria de nós entra em contato primeiramente, não é? Essa ideia que “lava” os preceitos fundamentais do movimento para que ele permaneça vendável e a gente continue pensando a partir de um viés que privilegie a heteronorma e agrade o olhar masculino.

Deixa de Banca: Sim! Na adolescência foi bem forte pra mim essa visão do feminismo enquanto “liberdade sexual”, de poder transar “com quem quiser”.

Clarissa Wolff: Siiiiiim!

Vulva Revolução: Isso me faz pensar que, sei lá, às vezes nossas avós dizendo “não vá sair com esse cara, menina” porque sabem que um desconhecido (e até mesmo conhecido, convenhamos) pode nos causar males que a gente sequer imagina acaba sendo mais feminista na prática do que o que a gente absorve do feminismo mainstream que nos mantém na engrenagem que o sistema quer. Pra falar de liberdade sexual entre quem se relaciona com homens, por exemplo, tem que alertar sobre violência masculina, não tem jeito. É o nosso tempo ainda, infelizmente.

Deixa de Banca: Com certeza! Minha mãe ficava super preocupada comigo, falava que eu não podia confiar nos homens, que eles iam ficar falando mal de mim. E eu ficava com raiva porque achava que ela tava sendo conservadora, haha, mas hoje entendo que ela estava certa. Só mais velha fui ver que não era liberdade nenhuma, eu só tava colaborando com a minha própria objetificação. O que ajudou a despertar pra isso foi ler “Female Pigs Chauvinists”, da Ariel Levy, e o “Intercourse”, da [Andrea] Dworkin.

Clarissa Wolff: Mesma coisa comigo. O que me levou pra uma leitura mais estrutural das coisas foi refletir sobre anorexia e padrão de beleza. Fui ler coisas sobre esses processos, li [Michel] Foucault na época (de novo por causa da mamãe). Foi com essa consciência mais de classe que comecei a refletir as outras, e daí veio a liberação sexual e aquele meu texto que ficou famoso [“A falácia da liberação sexual e as novas formas de dominação”]. Mas sempre primeiro com essas pautas “classe média” que doíam em mim. E daí li esses mesmos livros.

Deixa de Banca: Caramba! Nossa, eu fico muito frustrada com esse ódio que é destilado contra a Dworkin na internet. Muita gente chama ela de desatualizada também. Mas tenho certeza que qualquer mulher que se relaciona com homens pegar um livro dela pra ler vai se identificar de alguma forma

Vulva Revolução: Eu gosto muito daquele texto, Clarissa! Ele super me inspirou a escrever um com desdobramentos do mesmo tema, o “Mulheres não gostam de sexo ou homens não gostam de mulheres?” e até hoje vem gente falar que sentia essas coisas todas, mas não sabia como dizer. Ou pensava que era conservadorismo sentir essas coisas.

Clarissa Wolff: (opa vou ler!)

As pessoas chamam a Dworkin de desatualizada?

Deixa de Banca: Sim, ela e feministas da segunda onda em geral… São “velhas”, a teoria “não se aplica mais” à nossa realidade…

Vulva Revolução: Nossa, sim. E o que me entristece sobre o ódio destilado contra a Dworkin é que foi uma estratégia de desmoralização orquestrada principalmente pela direita norte-americana e por veículos de mídia tipo a Playboy, que faziam charges e textos ridicularizando não apenas as ideias dela, mas a aparência. E isso até hoje reverbera! Até mesmo feministas compram essas ideias de que ela é um ser temível.

Clarissa Wolff: Já vi gente falando que a Dworkin é conservadora (por ser antipornografia etc), mas nunca desatualizada. O argumento não faz nem sentido. Mas tá, ignorando isso…

Deixa de Banca: Sim! Essa ideia de que ela é uma conservadora radical que odeia homens contaminou muitas feministas… E aí muita gente deixa de LER o trabalho dela pra formar uma opinião, que é justamente o objetivo dessa estratégia.

Clarissa Wolff: …eu acho que a Dworkin foi muito diabolizada por ser radical e também porque ela trabalha com conceitos bastante complicados e as pessoas não se aprofundam pra entender. Ler o “Intercourse” de cara é difícil sem ter nada de bagagem teórica anterior. Por isso tem macho que aparece falando que ela dizia que sexo é estupro, quando até na página da WIKIPEDIA tem citação dela dizendo que nunca disse isso.

Vulva Revolução: Vejo pessoas falando que o feminismo dos anos 1970 é desatualizado como um todo. Se for assim, ninguém vai ler nada de filosofia, sociologia e afins nunca mais então, porque sempre é preciso resgatar ideias antigas para pensar o agora.

Deixa de Banca: Exato! Como construir conhecimento sem olhar para o que foi produzido no passado? E às vezes na internet rola muito essa lógica de que se uma parada é “problemática” a gente não deveria ter contato algum com ela… O que é tão contraprodutivo! Porque até pra criticar a gente precisa ter um conhecimento profundo das opiniões adversárias

Clarissa Wolff: Sim!!!!

Deixa de Banca: E foi bem nesse clima que a internet estava quando eu comecei a usar mais redes sociais. Nos grupos “feministas” era quase só briga e gente postando nude, hahaha.

Clarissa Wolff: Hahahaha, caramba! É verdade, rolavam muitos nudes. Em Porto Alegre a gente tinha um grupo mais organizado que foi o primeiro grupo que a gente realmente discutia coisas mais profundas – com briga, mas com argumento teórico, discussão e etc.

Vulva Revolução: Nossa, tinha muito isso mesmo e era bastante desgastante ver tanta gente depositando energia em busca de treta. Sou um pouco mais velha, então peguei uma fase boa no Orkut, com fóruns mais bem organizados e temas sendo discutidos com um pouco mais de profundidade. Tinha um grupo chamado “Feminismo e libertação” que era excelente, me ensinou muita coisa e conheço algumas meninas de lá ao vivo e mantenho contato até hoje. O Facebook deixou tudo mais chato, acho que pelo próprio formato dele. Parece uma arena com um monte de gente falando aleatoriamente com um megafone em busca de visibilidade para si e não em prol de uma construção coletiva de conhecimento…

Deixa de Banca: Sim! Era um uso bem individualista de conceitos que são coletivos. Então era fácil mobilizar as pessoas umas contra outras por tretas individuais como se isso fosse uma grande ação política.

Vulva Revolução: Já participei de lista de emails também que eram bem legais e informativas, mas hoje é tanta coisa o tempo todo que não consigo mais me organizar. Eu abro meu email e tem tanta propaganda, tanta coisa, me sinto zonza. Talvez realmente seja a hora de a gente aprender a organizar o conteúdo que já tem e não só de produzir mais conteúdo? Não sei…

Deixa de Banca: Nossa, sim! Eu também sinto que meu principal problema é não conseguir me organizar pra consumir o conteúdo que eu tenho interesse de consumir. Acaba que eu passo muito tempo lendo potoca no Twitter por já ter me acostumado com esse processo mais passivo das redes sociais, que já fazem toda uma curadoria pra gente

Clarissa Wolff: Eita, como assim?

Vulva Revolução: Não sei, só sinto uma enxurrada de informação me golpeando a todo o instante e às vezes acho que não consigo absorver ou me concentrar em algo como já consegui antes.

Deixa de Banca: Eu nunca usei Google Reader, mas direto vejo gente falando que sente saudade porque ajudava nisso de se organizar

Vulva Revolução: Acho que isso acaba facilitando esse momento atual de dissolução do feminismo e de outros movimentos, né? Todo mundo consumindo manchetes loucamente, todo mundo nessa desorganização e excesso, nesse bombardeio de spam e propaganda, tentando fazer algo útil, mas se sentindo soterrado e absorvendo mais facilmente um feminismo mais clean, prático, rápido.

Clarissa Wolff: Mas será que não foi sempre um pouco assim? O consumo de televisão e revista e jornal e toda a lógica publicitária e de hierarquia de informação existe há 100 anos, fico nervosa com o fatalismo da análise do momento atual, hahahah. Eu acho que qualquer ferramenta é passível de manipulação que gere usos “negativos”.

Vulva Revolução: Ah, sempre! Mas acho que estamos numa transição de modelos e isso traz algumas novidades, embora nem tão novas assim…

Sobre isso de “mobilizar as pessoas umas contra outras por tretas individuais como se isso fosse uma grande ação política”, isso é muito real e me causa muita tristeza. Claro que desnudar machistas, racistas e buscar combater desigualdades e opressões expondo esses comportamentos é importante. Mas vejo essa estratégia sendo usada às vezes com um fundo de rivalidade feminina, quando é contra mulheres, ou com um senso de incompreensão da complexidade humana, exigindo figuras perfeitas.

Clarissa Wolff: A lógica da lacração, né? Nossa, me incomoda muito também.

Deixa de Banca: Nossa, sim. E o pior é ver quem chama esse comportamento de “militância” kkkkkk. Taí mais uma palavra que teve o significado esvaziado.

Vulva Revolução: Uma vez uma moça que mal conheço veio me mostrar prints de uma briga boba que ela teve com outra. Era uma questão que poderia ter sido resolvida entre ambas, envolvia desconfianças e coisas que não eram tão “graves” e tal. Como confiar nessa moça e continuar conversando com ela, por exemplo? Como saber o contexto real daqueles prints? Por que, aliás, eu estava entrando em contato com prints de pessoas que sequer conheço pessoalmente? A gente tem que ficar sempre atenta, porque realmente, há muita confusão entre o que é prática política ou não.

Clarissa Wolff: SIM.

Deixa de Banca: Sim! Pensando nisso, uma coisa que me interessa muito é a recepção ao trabalho criativo de mulheres… Porque se você já fala de uma experiência feminina por um viés um pouquinho mais crítico já colocam aquela etiqueta de FEMINISTA e com ela todo aquele peso que a Vulva falou mais cedo, aquela cobrança de perfeição.

Vulva Revolução: E quando falo dessas coisas, não é em momento algum visando dar munição pra conservadores e pessoas contra o feminismo. Mas pra alertar a nós mesmas sobre como podemos nos machucar, às vezes. A impressão que tenho em alguns momentos é que os homens se unem contra as mulheres, e as mulheres se unem contra elas mesmas. Ou seja, estamos sempre em desvantagem. Queria um senso de ética mais forte entre a gente, de proteção, de saber resolver nossos problemas com diálogo franco e privado, pois nossa liberdade é muito frágil e sempre tem urubus à espreita querendo uma chance pra nos atacar.

Clarissa Wolff: Esses tempos eu entrevistei a Giovana Madalosso, escritora, e ela me falou algo que eu gostei muito. Ela disse “eu sou feminista, minha literatura não”. Porque o trabalho criativo pode ser isento de intenção, saca?

Deixa de Banca: Eu vi essa entrevista! Muito boa. Me identifiquei bastante! Porque a arte não precisa ter um caráter prescritivo, né? E quando a gente entra no campo da política inevitavelmente estaremos discutindo como as coisas deveriam ou não ser. Sem contar que nem sempre a vida pessoal da pessoa vai ser exemplar porque todo mundo é meio confuso… Já vi falarem que a Frida Kahlo não é “feminista” por causa do relacionamento dela com o Diego [Rivera]. Pra começar, por que a gente precisa discutir se a Frida era ou não feminista? Por que a gente não pode entender quem ela é e o que o trabalho dela era, em vez de tentar encaixar ela em expectativas do que uma mulher “forte” ou “livre” deveria ser?

Clarissa Wolff: Sem falar que existe uma diferença entre a nossa compreensão racional e o quanto o nosso emocional nos permite desconstruir na nossa vida. O ser humano é naturalmente incoerente, sabe?

Vulva Revolução: Sim!! Não sei se concordo que o trabalho criativo é isento de intenção exatamente, mas sei que ele pode, muitas vezes, estar trazendo outras facetas que existem dentro de uma pessoa. E a gente precisa complexificar mais o nosso olhar, para entender a complexidade alheia, ao invés de ficar desejando ícones perfeitos e que dialoguem com os nossos anseios de uma forma literal, didática, tatibitati.

Clarissa Wolff: Sim! A gente tem uma tendência de necessidade de ídolos, né? Sobre ser isenta de intenção, me corrijo: não é que ela obrigatoriamente seja, mas pode ser.

Vulva Revolução: Tem aquela moça do Carne Doce, que sempre criticam uma música dela, “Passivo” e, tipo, embora eu nem concorde com muita coisa que já vi ela defendendo, entendo que, enquanto artista, ela explora o que quiser dentro dela e joga pro mundo. Ela não está cantando que quer apanhar enquanto uma líder da ONU, mas enquanto uma artista investigando e apresentando lados diversos de sexualidade e violência, sei lá? Já vi também criticarem uma quadrinista que conheço por ser “falocêntrica” sendo que a personagem que ELA CRIOU está explorando um caminho único que não tem o intuito de ser a representação de todas as mulheres do mundo.

Deixa de Banca: Sim! E essa confusão entre ativista e figuras públicas é prejudicial pra quem de fato se engaja com militância, que tem seu trabalho ignorado

Vulva Revolução: Exatamente! Torna invisível quem está realmente trabalhando para representar ou ser a voz de um grupo. Creio que certas exigências são um tiro no pé por deixarem mulheres que criam de mãos atadas. Acho que tudo é passível de crítica sim, mas a gente tem que criticar com contextualizações. Tentando entender a trajetória da pessoa e não apenas levando em conta nossas expectativas de consumir produtos 100% “empoderados”, rs.

Clarissa Wolff: Exaaaato! Eu acho que existe uma diferença também da mulher falar da experiência PRÓPRIA x o homem falar da experiência do outro, da mulher. Tipo: uma coisa é a mulher falar que (pela condição de mulher e tudo que ela viveu) pode sentir vontade de ser submissa, outra coisa é o homem falar que quer uma mulher submissa. Mas, ao mesmo tempo, tenho um pé atrás com arte que normatiza situações de opressão, tipo “Cinquenta tons de cinza”, porque acho que a cultura e a arte são formas muito poderosas de mudanças e acho que a manutenção da ideologia do status quo passa muito pela arte e pelo entretenimento

Vulva Revolução: Ah, claro! Também acho e critico várias coisas, aliás. Só fico pensando que, às vezes, as mulheres tem um grau de exigência muito alto, tipo “VOCÊ NÃO PODE DIZER ISSO OU DIZER QUE SENTE ISSO” e, sei lá… Eu entendo a análise feminista que fala sobre a mulher erotizar a própria opressão e, ao mesmo tempo, já pedi pra levar uns tapas na hora do sexo?????? Ainda somos frutos desse tempo, em alguns momentos, por mais sofisticados que sejam os nossos pontos de vista, kkkkkkkk.

Clarissa Wolff: Ah, sim, com certeza. E retornando o que foi dito lá em cima, evitar 100% nem sempre é a solução. Me lembra aquele episódio da nova temporada de Black Mirror que a mãe censura o que a filha vê.

Vulva Revolução: Não assisti, mas minha mãe me deu os spoilers todos, rs. Sobre esse lance da perfeição, vocês se sentem cobradas por serem feministas?

Clarissa Wolff: Quando eu ainda era ativa na militância, sim. Hoje em dia que tô afastada, bem menos.

Vulva Revolução: É claro que, assim, com o florescimento da minha consciência feminista, passei a me esforçar pra ser cada vez mais uma pessoa melhor, mais ética e justa. E é muito bom esse sentimento, porque ele parte de um profundo senso de respeito ao próximo e não por medo ou coisas que religiões, por exemplo, tentam impor.

Deixa de Banca: Não. Eu sinto um conflito grande entre querer ter autonomia e ser codependente em relação a homens, mas não vejo em termos de estar sendo menos ou mais feminista. Mas eu nunca tive envolvimento com ativismo feminista, só leio livros sobre o tema e tento aplicar na minha vida pessoal mesmo.

Clarissa Wolff: Mas você não sente essa cobrança externa? As pessoas chegam pra você xingando “como pode gostar de x se é feminista”?

Deixa de Banca: Já rolou cobrança externa sim, por conta de alguns textos que escrevi, mas não me lembro de ter internalizado. Eu sou bem segura comigo mesma nesse ponto (em outros nem tanto). Mas acho que pode ser também porque nunca me envolvi com ativismo, então nunca fui cobrada a um nível que eu realmente considerasse importante. Gente me xingando na internet sempre tá falando besteira, nunca é uma cobrança que eu considerasse de fato válida

Vulva Revolução: Eu sinto que tem gente que tenta usar contra mim. Já me xingaram com termos misóginos, por exemplo, e depois me mandaram artigos acadêmicos sobre ressignificação de xingamentos e se eu fosse feminista mesmo, deveria aceitar e entender, rs. E sempre tentam me colocar nessa berlinda do “se você for feminista mesmo” e aí me empurram uma vontade meramente arbitrária e individual. E isso me deixa até confusa, pois feministas são as piores pessoas do mundo aos olhos do senso comum, mas ao mesmo tempo o senso comum espera as melhores coisas delas.

Você já teve envolvimento com ativismo feminista, Clarissa? Nesses moldes de se envolver politicamente? Eu sempre tive dificuldade, nunca fiz parte de nada organizado e presencial, tipo movimentos, grupos de mulheres, essas coisas. Nos últimos anos comecei a fazer mais eventos relacionados ao blog ou participar de eventos de outras pessoas, tenho um grupo de leitura feminista com outras mulheres, faço atividades em escolas ocasionalmente, ou oficinas em outros lugares, produzo material impresso, mas me sinto sempre muito sozinha. Ou, melhor dizendo, autônoma, independente?

Clarissa Wolff: Eu já, mas meio à distância. Ia em alguns encontros, mas não todos, saca? Também fazia muita coisa por mim, tipo ia em um protesto, fotografava e disponibilizava as fotos, ou produzia festa e doava os lucros. Eram coisas que mantinham um pouco uma distância, porque eu sou uma pessoa muito sozinha, não gosto de sair demais pra coisas presenciais. Então eu ia no que conseguia, tipo uma vez a cada dois meses.

Vulva Revolução: Nunca me sinto bem de me definir enquanto ativista, por nunca ter sido de um coletivo ou algo assim, mas ao mesmo tempo considero minha atuação importante. Acho que, de certo modo, nós todas temos uma personalidade parecida nesse aspecto! De ser mais pra dentro, não pra fora. Pra ser de coletivos e movimentos presenciais tem que ter um fôlego que eu não tenho, perdi o medo de falar em público tem pouquíssimo tempo.

Mas sempre fiquei muito tempo com minhas ideias e acho que a internet é fundamental nesse aspecto, porque se não fosse de outro jeito, eu não sei se estaria me articulando com tanta gente.

Deixa de Banca: Também tenho dificuldade de me relacionar com grupos de pessoas e essa é a questão que mais me afasta de um envolvimento com ativismo.

Clarissa Wolff: Eu acho também que qualquer grupo que constrói algo junto gera muita briga de ego, e isso também me manteve afastada.

Vulva Revolução: Nossa, sim! E nem sempre as pessoas estão na mesma página ou se dedicam com o mesmo afinco a algo que foi decidido conjuntamente. É muito complicado. Entendo que nem todo mundo tenha tempo ou disposição emocional pra se envolver com temas mais abertamente politizados, mas não dá pra negar que às vezes falta uma noção maior de responsabilidade sobre si mesmo. E sobre as próprias ações…

E o ser humano já é complicado por natureza, então acho que quando está lidando com questões tão dolorosas, pessoais, que envolvem direitos, experiências negativas, descobrimentos, tudo fica ainda mais difícil, porque cada pessoa está em uma fase diferente, enfrentando questões diferentes… Só político branco e rico mesmo que consegue achar que política não envolve áreas profundas do próprio subjetivo e fala toda hora em termos técnicos e supostamente imparciais, kkkkkk (cada k uma lágrima).

Clarissa Wolff: kkkkkkk (aqui também).

Vulva Revolução: Mas vamos falar de uma coisa boa: o impacto positivo do feminismo em nossas vidas. Porque temos críticas e anseios, mas acho que é um tipo de conhecimento que traz muita libertação também.

Deixa de Banca: Vamos! Acho que o feminismo foi muito importante para que eu pudesse me desprender de varias expectativas que me faziam mal. Como necessidade de estar maquiada, depilada, de ser sempre compassiva, de não valorizar minha produção intelectual, de antagonizar outras mulheres, de buscar aprovação masculina o tempo todo… E também foi pelo feminismo que eu reconheci meu racismo e consegui desenvolver empatia pelo movimento negro

Vulva Revolução: Eu melhorei minha relação comigo mesma, com os outros, com minha aparência, peso (uau, quem vê pensa que tô vendendo shake da Herbalife) e desconstruí muitas certezas sobre o mundo ao meu redor que me deixaram com um olhar mais aberto para novos modelos de relações amorosas, amizades, que me fizeram entender mais outras mulheres, inclusive as da minha própria família.

Deixa de Banca: Nossa, isso de entender mulheres da família foi muito forte pra mim também. Parei de antagonizar a minha mãe depois do feminismo. Nossa relação ficou muito melhor.

Clarissa Wolff: Eu melhorei muito a minha autoestima, minha relação com o mundo e também entendi melhor quem eu quero ser e como me posicionar pelo que eu acredito. Acho que a relação com as outras pessoas também muda, vira mais verdadeira e a gente perde menos tempo com relações superficiais

Vulva Revolução: A gente para de culpar nossas mães por tudo, né? E começa a entender que elas sofreram ou podem ter sofrido todas as mesmas coisas que outras mulheres por aí, infelizmente (aliás, a gente sempre acaba mencionando nossas mães nessas conversas! Só uma observação curiosa).

Clarissa Wolff: Hahahahaha, é verdade. E, sim, o foco deixa de ser o conflito.

Vulva Revolução: Eu acho legal a gente abordar a parte boa, pra que fique claro que as críticas visam apenas reflexões que tragam melhorias para todo mundo. Já não tenho mais paciência pra umbiguismos, pra mulher branca sendo tratada como universal e mais importante, então se a gente pensa em como as alterações individuais podem ajudar nas mudanças coletivas, a gente vai guiando nosso trem pra trilhos mais firmes…

Clarissa Wolff: Eu admiro muito mulheres como a Gail Dines que seguem firmes no fazer político mesmo depois de tanto tempo.

Vulva Revolução: Nossa, e mesmo com tanta pedrada.

Essa parte de não antagonizar mulheres que a Deixa de Banca falou foi muito importante pra mim, até porque além do bem-estar causado por alimentar amizades profundas, existe também uma parte política importante no agrupamento entre mulheres. A gente ganha mais voz e força mesmo nos âmbitos mais individuais da vida. Só acho que isso precisa agora ser rompido com mais força quando se fala em brancas e não-brancas de modo geral. Às vezes me irrito quando alguém me fala “precisamos levar o feminismo para a periferia” e sempre respondo “você é que precisa conhecer o feminismo feito na periferia”.

Deixa de Banca: Concordo 100%!

Clarissa Wolff: Sim!

Vulva Revolução: Pois enquanto mulheres brancas, percebo que não temos que “levar conhecimento” desse modo paternalista, mas ajudar outras mulheres a ter acesso ao que temos. A maioria das mulheres sabe que não “merece” apanhar, mas não tem acesso aos próprios direitos, não é amparada por leis como deveria, não conhece os trâmites burocráticos (que é diferente de não entender a situação em que se encontra).

Clarissa Wolff: Você falou em Bikini Kill, a Kathleen Hannah largou o riot grrrl por coisas assim.

Vulva Revolução: Sério? Li uma entrevista muito boa dela naquele livro “Não devemos nada a você” em que ela estava em um período de muitos dilemas, mas não sabia. O que ela disse sobre o movimento?

Clarissa Wolff: Eu li no livro “Girls to the front” como o racismo impactou, ela acabou saindo por causa de coisas assim.

Vulva Revolução: Nossa, não sabia! Eu facilitei uma roda de conversa em um espaço no Rio de Janeiro [Motim] e a Bah Lutz, do Bertha Lutz [banda punk e feminista de Minas Gerais], desenvolve um projeto em forma de zine chamado “Preta & Riot” em que ela mapeia mulheres negras envolvidas com o riot grrrl no Brasil. Ela falou bastante sobre a invisibilidade negra nesse meio e sobre a canonização da Kathleen Hanna que acaba centrada nessa cultura de idolização e celebrização que tanto queremos acabar. Isso me fez ver que eu mesma conhecia poucas mulheres negras envolvidas com o riot grrrl e comecei a pesquisar mais e mais, com a ajuda do material dela, inclusive.

Deixa de Banca: Aliás, uma coisa que me incomoda é essa percepção de que o feminismo é branco quando, na real, sempre existiram mulheres negras organizadas para defender os seus interesses. A diferença é que as brancas têm mais credibilidade e visibilidade na sociedade. A bell hooks fala muito sobre isso em “Ain’t I a Woman”. Então às vezes uma crítica ao feminismo que se entende como racialmente consciente na verdade está invisibilizando mais ainda o trabalho de mulheres negras

Vulva Revolução: Sim, isso é! Existem mulheres negras organizadas desde sempre e que precisam de visibilidade enquanto grupo, e às vezes o discurso branco fica se repetindo muito entre “precisamos reconhecer nossos privilégios” e “precisamos incluir mulheres negras” (como se elas estivessem de fora e não como se já estivessem organizadas). Precisamos ler, consumir, assistir, naturalizar a intelectualidade negra e os feitos de pessoas negras em nosso cotidiano, e não só falar da nossa culpa branca e aceitar uma e outra.

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Por uma sensibilidade que seja mais do que mera ferramenta estética

Ser mulher não é fácil, mesmo em meios alternativos. Assim como muita gente, sempre enxerguei cenários independentes como mais do que um lugar para se estar quando não se consegue fazer parte do mainstream. O considerado alternativo é – ou deveria ser – uma construção que visa peitar a hegemonia de discursos que se baseiam primordialmente em lucro excessivo, padrões impostos e o mito do sucesso individual.

Zines, discos gravados em estúdios caseiros, composições que contestam valores negativos vigentes, blogs, editoras pequenas, shows organizados por amigos ou o simples fato de explorar uma estética visual ou sonora específica porque se identifica e acha interessante constituem maneiras de não apenas fazer valer a própria voz, mas também de tentar orientar o mundo atual para um novo rumo.

Faça-você-mesmo, coletivize, expanda, integre – toda e qualquer pessoa é uma enorme potência.

Porém, estamos inseridos em uma realidade machista, racista, misógina, homofóbica e tudo mais. E isso acaba sendo reproduzido mesmo em ambientes que estão dispostos – pelo menos na teoria – a eliminar discriminações e violências. Daí o que acaba sendo criado pode funcionar mais como uma máscara do que como uma proposta real de ruptura com preconceitos e modelos ultrapassados. Palavras de ordem são esvaziadas em prol de marketing pessoal.

Claro que estou, para fins de entendimento, reduzindo e polarizando questões que são complexas. Na vida real, não é tão fácil assim traçar a linha entre quem está de um lado “bom” ou não, até porque discutir o que se passa em meios alternativos é ir para além de maniqueísmos. Qualquer pessoa pode fazer ou falar merda um dia, somos todos humanos – e a humanidade está fadada à imperfeição. No entanto, existem fatores que devem ser observados: vacilos isolados (desde que não extremos, claro) são coisas bem diferentes da escrotidão como modus operandi.

Muitos homens, infelizmente, repetem constantemente o modo de ser da masculinidade hegemônica em espaços independentes. Construir e somar vira uma simples ideia bonita que, na prática, é substituída por dominação e apropriação – das causas alheias, da força de trabalho alheia, do corpo alheio, do sentimento alheio, que seja. E ao mesmo tempo em que muitos deles agem sem cuidado com o outro, alimentam uma suposta imagem de diferentões e preocupados com causas sociais que só serve para benefício próprio – e também como escudo contra críticas e denúncias.

Certa vez, a artista londrina Polly Nor – que faz ilustrações incríveis, aliás, e quem acompanha o blog já deve ter percebido que sou fã – postou o seguinte comentário irônico no Twitter:

“Ele é um cara muito legal, é apenas meio merdão com as garotas” = Meu colega é ruim com outros seres humanos. Mas só com mulheres. Então quem liga? Eu não.

É exatamente assim que funciona. E é exatamente o que não aguentamos mais.

Mulheres não querem ser objetos, a população LGBTQI não quer ser alívio cômico e pessoas negras não querem ser invisíveis e excluídas. Portanto, é muito importante que artistas tenham em mente que a sensibilidade deve ser mais do que uma ferramenta estética. Mais do que um modo de emocionar, cativar e criar identificação. Para que haja verdade no que se diz e no que se faz, é preciso ser, de fato, sensível. A pluralidade existe, e os meios independentes precisam abraçá-la de forma realmente humana, e não com a mentalidade de usar e descartar – que é o que já acontece, de maneira geral, em diferentes situações.

Contudo, minha concepção de ~sensível~ não envolve andar de roupas brancas em um campo verdejante e sorrindo para os pássaros. Ou simplesmente falar de energias, vibes e amor. O que quero dizer é que é preciso, justamente, escapar desse clichê raso. Valorizar o trabalho alheio, tratar bem quem integra sua comunidade, desmistificar justificativas pessoais que colaborem com um estado contínuo de vacilação, falar sobre sentimentos reais – sejam eles tristes ou felizes – e se colocar em uma posição de escuta e troca de ideias já é um bom começo.

Felizmente, cada vez mais mulheres – e minorias em geral – estão tomando as rédeas da criação artística e ganhando espaço. Ou melhor, conquistando na marra mesmo, à custa de muito suor. Ainda há muito a ser trilhado, obtido e problematizado (de acordo com o recorte que se escolhe analisar, novas questões importantes emergem, em um árduo caminho sem fim), e é essencial estar sempre em movimento, desconstruindo e construindo, para que o próximo passo não seja dado em um buraco sem chão – ou no piso de sempre.

Para finalizar este post, deixo a dica desse vídeo maravilhoso com a cantora, poeta e mil outras coisas, Tatiana Nascimento. Ele foca mais em literatura, mas com certeza vale pra outras áreas também. Ela é uma artista brasiliense, negra e lésbica, que já foi de bandas de hardcore, é doutora em literatura, cuida da Padê Editorial, por onde se autopublicou e publica pessoas LGBTQI, criou a mostra Palavra Preta, que coloca autoras e compositoras negras em evidência, entre muitas outras atividades. Tive a honra de trabalhar com ela em alguns projetos esse ano e foi inspirador. Como afirmou na filmagem, é preciso essa “(…) coisa de ter uma política de anúncio de mundo novo que seja junta, colada, com a de denuncismo das estruturas velhas, que precisam ser derrubadas”. Avante!

Aproveitem também para conhecer mais trabalhos atuais de minas do cenário independente brasileiro. Tem muita coisa boa rolando por aí. Deixo aqui umas dicas de links que possuem várias referências legais de serem aprofundadas e pesquisadas individualmente:

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DEZ COISAS QUE NÃO CAUSAM ESTUPRO

O estupro é uma violência que possui dois lados. A sociedade trata a questão como um crime horrível, pelo menos na teoria e se a situação envolver uma “vítima perfeita”. No entanto, uma simples lida nos jornais diários mostra os inúmeros casos de crianças, adolescentes e mulheres sendo estupradas por familiares, amigos, desconhecidos, colegas de trabalho ou conhecidos da igreja, faculdade, balada, entre outros (pena que a abordagem no geral é tão sensacionalista e pouco profunda nas raízes da questão). Pessoas do sexo masculino são as que mais cometem esse tipo de agressão e pessoas do sexo feminino são as que mais sofrem – o que não impede que existam situações em que violências sexuais ocorram seguindo outro roteiro.

A discussão sobre o assunto acontece por vários meios, informalmente ou de modo organizado. Porém, muitos preconceitos e simplismos acabam sendo disseminados nesse debate, e questões importantes são deixadas de lado. Por isso, vou abordar aqui neste post as dez hipóteses mais estúpidas entre as que já li como as possíveis causas de estupro (mas existem muito mais), e propor uma conversa mais centrada na realidade: a culpa é sempre do estuprador. E ponto final.

1) Roupa curta não causa estupro

Isso é um consenso que feministas estão cansadas de repetir: a mulher tem o direito de usar a roupa que quiser. Pode ser um vestido rosa e curtinho, tipo o da Geisy Arruda, biquíni grande ou fio dental, burca, camiseta larga, shortinho, saia longa ou qualquer outro tipo de vestimenta. Achou o look feio, bonito, atraente, repulsivo, muito descolado ou super brega? Problema seu. Se você for homem, deixe esse espírito de predador sexual com pinceladas de crítico de moda no armário, porque roupa não justifica agressão. Se for mulher, não jogue pedras nas outras para provar o próprio valor ou achar que isso vai te proteger de alguma coisa (spoiler: não vai). E a tentativa de encontrar alguma desculpa que tire a culpa do estuprador e transfira para a roupa da vítima é uma forma de naturalizar não apenas o comportamento violento do homem, mas a ideia de que respeito é algo que a mulher deve “merecer” para ter. Sem contar que pessoas usando todos os tipos de roupa aqui citados já foram estupradas, o que mostra que o problema está muito além de qualquer vestimenta.

2) Bebidas ou drogas não causam estupro

Muita gente acha que uma mulher alcoolizada ou sob efeito de drogas “merece” ser estuprada. Aposto que, alguma vez na vida, você já ouviu alguém falar que “cu de bêbado não tem dono”, não é mesmo? Se as pessoas começassem a frequentar botecos e baladas com o intuito de buscar homens bêbados para serem empalados com cabos de vassoura, isso não seria uma violência terrível? No entanto, por que mulheres na mesma situação são estupradas com o aval da sociedade? Pessoas bebem ou consomem substâncias para se divertir, afogar as mágoas, por vício, depressão ou outros motivos, e você não precisa concordar com isso – dá para problematizar o uso de álcool e drogas por um ângulo de saúde pública ou do tráfico, por exemplo. Mas culpar uma vítima de estupro que estava entorpecida é, mais uma vez, defender o estuprador e a ideia de que homem é um animal descontrolado.

No mais, uma pessoa viciada precisa de ajuda, uma pessoa dormindo precisa de sono e uma pessoa com a consciência alterada não consegue responder por si mesma. De novo: desliga aí o suposto instinto predador, homem, porque sexo nessas condições não é ‘sexo fácil’, é estupro mesmo (caso sua empatia falhe ainda assim, aqui vai mais um incentivo: e é crime). E se você tem impulsos agressivos e violentos quando usa alguma coisa (ou não), procure ajuda (ou se tranque em casa, obrigada). Ah, vale lembrar que alguns caras colocam sedativos na bebida de mulheres ou as obrigam a inalar substâncias entorpecentes também – algo que, somado à violência sexual que sucede tais práticas, contabiliza uma dupla quebra de consentimento.

3) Ruas pouco movimentadas também não causam estupro

Vários fatores tornam a rua um ambiente inseguro para mulheres: homens, primeiramente, e coisas como iluminação ruim, falta de movimento e de segurança, demora no transporte público e outros itens que as colocam em situação de vulnerabilidade. Portanto, o ideal é que sejam elaboradas estratégias de educação e segurança pública que tornem a rua um espaço menos hostil para pessoas do sexo feminino. Tenho uma fantasia que envolve um toque de recolher para homens até que eles, enquanto categoria, se eduquem, rs. Mas tô brincando. Queria mesmo era um monte de poste, gente e ônibus pra todo lado e, principalmente, pessoas com a consciência humana aflorada.

E vale lembrar que a ideia do estupro como algo que só acontece em um local ermo, com um cara ameaçando a mulher com uma faca, não é necessariamente o retrato fiel da situação: muitos algozes estão dentro da casa da vítima ou nas redondezas, o que significa que ~tomar cuidado por onde se anda~ não é sempre o necessário para evitar uma agressão sexual (mas a gente toma mesmo assim).

4) A falta de uma ~bola de cristal~ não causa estupro

Algumas vítimas são cobradas por não terem se preparado para enfrentar a agressão sexual e escutam coisas como: “mas por que você não gritou?”, “devia ter saído correndo”, “não percebeu que ele ia chegar perto de você?”, “você não anda com spray de pimenta na bolsa?”, “por que ficou sozinha em casa com ele?”, “não sabia que isso podia acontecer?” e etc. Frases do tipo não fazem o tempo voltar, cada pessoa tem uma reação diferente quando está em perigo e existem casos em que não é muito seguro reagir a uma situação de violência (e não tem como saber, de antemão, quais). Não vamos cair, mais uma vez, na armadilha de culpar quem não tem culpa. No caso de estupros cometidos por amigos, parentes ou vizinhos, como a vítima iria descobrir as reais intenções de homens, teoricamente, “de confiança”? E se a violência for cometida por um estranho em um local inusitado ou em uma situação inesperada, como a vítima poderia adivinhar? E tem mais: nem sempre um estupro acontece de forma explícitamente agressiva. Cada caso é um caso – e o que todos possuem em comum é que a culpa não é da vítima. E não existe uma bola de cristal capaz de prever quando um estupro pode ocorrer.

5) Crise ou pobreza não causam estupro

Lembram quando o responsável pela Secretaria de Segurança de São Paulo, Mágino Alves Barbosa Filho, falou que a crise econômica tem a ver com estupro, porque o cara acaba ficando frustrado demais, sem emprego, bebendo e cometendo esse tipo de coisa?  Isso é uma estratégia que busca voltar o debate público para a criminalização de pessoas pobres, e não para a busca de soluções efetivas para os problemas que as mulheres enfrentam. Breaking news: filhinhos de papai que nunca precisaram sequer pensar em trabalho também estupram. Jovens universitários de classe média também estupram. Autoridades de governo também estupram. Cantores famosos também estupram. Filhos de donos de grupos de comunicação também estupram. Sabe o que não estupra? Ah, essa pergunta eu deixo no ar…

Essa relação entre pobreza e violência já foi desmistificada pelas ciências sociais há pelo menos três décadas. A socióloga feminista Helleieth Saffioti bem dizia que a violência contra a mulher é extremamente democrática porque ela atinge a todas as classes sociais.

Um homem que perde o emprego não é um estuprador em potencial. Homens numa sociedade patriarcal são estupradores em potencial porque têm uma certa legitimidade social (ainda que não legal) para violar os direitos de uma mulher, violar sua integridade e sua dignidade, seu corpo e sua vida. O que acontece em geral é que nas classes altas, a violência contra a mulher e o estupro são escondidos sob um manto de hipocrisia e dupla moral, onde não se registra, não se denuncia e não se expõe homens ricos, homens de altos cargos, frente a suas práticas violentas. Existe um silêncio e uma impunidade brutal com um professor universitário, um juiz, um político – o que não acontece com um pedreiro, um motorista de ônibus ou um trabalhador das classes populares, por exemplo.

Izabel Solyszko, feminista, assistente social, professora e doutora em Serviço Social pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Leia mais opiniões de especialistas aqui. 

6) Funk não causa estupro

Esse é outro argumento que tenta colocar pessoas negras e pobres como as únicas culpadas por agressões sexuais. O objetivo, mais uma vez, não é o bem-estar de mulheres, mas calar a cultura que surge na periferia, encarcerar essas pessoas e criar uma diferenciação entre os “homens de bem e civilizados” e os estupradores. No entanto, a lista de astros do rock que cantam letras machistas de música – e/ou estupraram adolescentes e mulheres  – é grande, por exemplo. Não precisa nem ser um astro, o meio independente está cheio desses exemplares também. Música popular brasileira, música brega, sertanejo, música pop… Se a gente cavar, acha coisas problemáticas em todos os estilos. Não estou dizendo que não existam funks machistas e com letras horríveis, ou funkeiros com comportamentos questionáveis, só quero chamar atenção para o fato de que isso não é exclusividade do gênero – que, como todos os outros, tem partes ruins e boas.

Existe um machismo no funk que não é exclusivo no funk. É que sua linguagem é muito direta em relação a tudo. Não há floreio, a batida é reta, seja para falar de amor, sexo e violência. É sempre uma linguagem muito direta, o papo reto, como dizem. Com o machismo, não é diferente. E existe uma reação escancarada a ele. Com as mulheres falando de sua liberdade sexual, da escolha de parceiros, sobre o que fazer com o corpo e exercitar seu desejo. E elas abordam todos esses assuntos em um ambiente masculino, como é o da música popular — ressalta Adriana [Facina, antropóloga e professora da UFRJ], que destaca a ascensão das mulheres dentro do cenário funk nos últimos anos. Leia mais aqui.

7) Não é a falta de armamento que causa estupro

Mais uma vez, a pauta conservadora tenta cooptar os debates feministas. Alguém realmente acha que é assim que as coisas vão ser resolvidas? A jornalista Nana Queiroz pesquisou o assunto e constatou o que a gente já imaginava: essa não é a solução. Muitos estupradores são pessoas próximas, o fator “surpresa” dos ataques dificulta a ação, mulheres são socializadas para serem mais passivas e, quando em ambientes violentos, assimilam aquela situação como normal, entre vários outros fatores. Leia a matéria aqui.

Uma sociedade toda armada mas carregando os mesmos valores de sempre vai resultar em um constante tiroteio, gente. Só isso. Antes de qualquer coisa, temos que começar grandes campanhas nacionais para discutir sobre papeis de gênero e afins. E, de acordo com a jornalista, “a maioria dos casos de estupro à brasileira não é fruto de problemas de segurança pública, mas de uma cultura machista que prega um poder do homem sobre a mulher. O crime de estupro tem uma característica no Brasil: a cifra negra. A expressão ‘cifra negra’ significa que um número muito pequeno de ocorrências de um determinado crime chega ao conhecimento das autoridades. Deste já pequeno número, uma ínfima parcela chega ao conhecimento do judiciário, e uma menor ainda resulta em condenações”.

8) ~Excesso de libido~ masculina não causa estupro

Não é o ~excesso de desejo~ masculino que faz com que as mulheres sejam estupradas (aliás, engraçado como são as feministas as que mais batem na tecla de que os homens não são “animais irracionais” e as mais acusadas de vê-los como tais). A sexualidade do ser humano é um terreno complexo e envolve mais do que a mera vontade de transar. Existe toda uma construção de ideias anterior ao ato sexual – e à violência sexual também – que faz com que o sexo seja algo que vai muito além dos órgãos genitais. Portanto, propostas que envolvem a castração química, por exemplo, vindas de pessoas que querem impedir que a sociedade discuta e debata questões de gênero, ainda por cima, estão muito mais perto de algum tipo de fetiche com violência e tortura do que de empatia com vítimas de estupro.

Em uma reportagem do Uol, o psiquiatra Danilo Baltieri, coordenador do Ambulatório de Transtornos da Sexualidade da Faculdade de Medicina do ABC, afirma que o termo “castração química” é, inclusive, mentiroso. O que ocorre, na realidade, é uma diminuição de impulsos sexuais. Porém, o interesse continua. “Em casos de estupradores não é apenas uma questão orgânica que importa, o problema também é ‘intelectual’. É claro que a castração não cura, não transforma a ideologia. Mesmo se não tiver ereção, o agressor pode praticar violência sexual de outras maneiras”. Leia a matéria completa aqui 

9) Vida sexual ativa não causa (nem justifica) estupro

Vamos deixar uma coisa bem clara: sexo é o encontro de corpos que se desejam mutuamente. Se não existe consentimento de alguma parte, é estupro. Mesmo que esses corpos já tenham se desejado mutuamente em alguma ocasião anterior, é preciso que o acordo seja reafirmado a cada novo encontro. E se esses corpos já estiveram com outros corpos, não significa que vão querer estar com todo mundo que aparecer pela frente. Tem homem que acha que mulher é igual máquina de refrigerante: se ela já transou com ele ou com outras pessoas alguma vez na vida, ele tem direito a refil automático. Não é assim mesmo. Sexo não é uma obrigação, e sim uma escolha autônoma.

Tem gente que diz coisas tipo “ah, mas ela nem era virgem” e eu sempre fico meio chocada, me perguntando em que século pessoas assim vivem. Vasculhar o passado sexual de vítimas de estupro é reafirmar o corpo da mulher como público e violável. Essa imposição histórica não é natural e, por isso, a luta que busca construir a equidade de gênero e destruir a misoginia (que tem bases profundas na inferiorização do corpo do sexo feminino) é fundamental. E tem mais: mulheres não dizem não querendo dizer sim. Não é não, e não importa o que elas já fizeram antes na cama (ou no chão, no sofá, na barraca de camping ou na areia).

10) Estupro não tem nenhuma justificativa aceitável, na verdade

Falamos em ~construção social~ com o intuito de não essencializar comportamentos ruins, porque acreditamos na possibilidade de humanidade em vocês, homens (algo que, infelizmente, não parece recíproco em muitos momentos). Logo, não acreditamos que um rapaz nasça automaticamente querendo fazer mal às mulheres e sim que ele cresce absorvendo mensagens diversas — da religião à pornografia, passando por esferas como arte, medicina, música, ambiente de trabalho e outros — onde uma hierarquia sexual existe e ele precisa reforçar a própria masculinidade, bem como estreitar laços com outros caras e demarcar seu papel de ‘poderoso’ (no âmbito do controle do espaço público e dos corpos femininos pelo menos) por meio de práticas que inferiorizem e subjuguem o sexo feminino. Por isso, nós, mulheres, precisamos urgentemente do reconhecimento de que somos humanas também.

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Crédito: Eduardo Valente

E se fosse haver algum apelo ou alguma questão nesse grito, seria essa: por que vocês são tão lentos? Por que vocês demoram tanto para entender as coisas mais simples – não as ideologias complicadas. Vocês entendem essas. Mas as coisas simples, os clichês. Que as mulheres são humanas precisamente no mesmo degrau e qualidade que vocês são.

(…) O poder exercido pelos homens no dia a dia é um poder institucionalizado. É protegido por lei. É protegido pela religião e pela prática religiosa. É protegido pelas universidades, que são fortalezas da supremacia masculina. É protegido pela polícia. É protegido por aqueles que Shelley chama de “os legisladores não reconhecidos do mundo”: os poetas, os artistas. E contra todo esse poder, nós temos silêncio.

É uma coisa extraordinária tentar entender e confrontar o motivo pelo qual os homens acreditam – e eles acreditam – que eles têm o direito de estuprar. Eles podem não acreditar quando perguntados diretamente. Quem aqui acha que tem o direito de estuprar, por favor levante a mão. Poucas mãos vão subir. Mas é na vida que os homens acreditam que têm o direito de forçar sexo – que eles não chamam de estupro. E é algo extraordinário tentar entender que homens realmente acreditam que têm o direito de bater e de machucar. E é igualmente extraordinário tentar entender que homens realmente acreditam que têm o direito de comprar o corpo de uma mulher para fazerem sexo – e que isso é o seu direito. E é também surpreendente tentar entender que os homens acreditam que essa indústria de 7 bilhões de dólares, que traz vaginas para as suas vidas, é algo a que eles têm direito.

(…) Eu acho que, se você quer olhar para o que o sistema faz com você, então é aqui que você deveria começar: as políticas sexuais da agressão, as políticas sexuais do militarismo. Os homens estão com medo dos outros homens. Isso é algo que muitas vezes vocês tentam discutir em grupos pequenos, como se, caso mudassem suas atitudes uns com os outros, deixariam de sentir medo.

Mas enquanto sua sexualidade tiver relação com agressão, enquanto seu senso de direito sobre a humanidade significar ser superior a outras pessoas – e tem tanto desprezo e hostilidade nas suas atitudes com mulheres e crianças – como vocês podem não ter medo? Eu acho que vocês percebem, corretamente, mesmo sem conseguir lidar com isso de forma política, que homens são perigosos: porque vocês são.

Andrea Dworkin. Trechos de discurso feito em 1983, intitulado “Eu quero 24 horas sem estupro”. Leia aqui.

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8 de março: apagamento histórico

Flores, bombons, cursos de automaquiagem e homenagens que exaltam a beleza, a delicadeza e a generosidade feminina são coisas que começam a pipocar para todo lado assim que o calendário marca 8 de março, data celebrada como o Dia Internacional da Mulher. Observando superficialmente, parece tudo muito bonito e até bem-intencionado, afinal, precisamos presentear e enaltecer essas guerreiras que conseguem trabalhar fora, cuidar dos filhos, dos maridos e da casa, né? E elas fazem tudo isso de salto alto, ainda por cima! Que legal… Será?

É importante contextualizar que a data surgiu no início do século XX com o intuito de gerar reflexões sobre a luta de mulheres operárias que reivindicavam melhorias de vida por meio da garantia e expansão dos próprios direitos. Pouco antes desse período, trabalhadoras de fábricas têxteis, por exemplo, chegavam a passar até 16 horas por dia na labuta – e recebendo, muitas vezes, menos da metade do salário dos homens. A ideia da homenagem surgiu em 1910, a partir de uma sugestão da professora, jornalista e política alemã Clara Zetkin durante a Segunda Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, na Dinamarca.

No entanto, o que acontece hoje em dia é um apagamento histórico desse cenário de luta em prol do consumo e da manutenção de valores que, há muitos anos, diversos grupos de mulheres tentam derrubar. O ato de entregar medalhas àquelas que aguentam jornadas triplas de trabalho e se submetem ao rigoroso padrão de beleza, por exemplo, é uma forma de naturalizar toda a pressão colocada nas costas femininas como algo aceitável e, até mesmo, positivo. Elogiar “boa aparência” e “bom comportamento” é o outro lado de quem xinga mães que frequentam festas; critica esposas que quiseram se divorciar de maridos violentos ao invés de aguentar tudo de forma altruísta, colocando uma relação ruim acima do próprio bem-estar; censura estudantes que denunciam abusos de colegas e professores; chama de “exagerada” a amiga que manifesta desconforto perante comentários machistas e assim vai. A “mulher de verdade” é a que come pouco, mas compra muito, fala quase nada, mas faz bastante coisa (pelos outros, principalmente). Essa sim é celebrada. Mas ela existe?

Plantar a insegurança feminina e depois vender a solução para a vida das mulheres por meio de produtos estéticos e domésticos é a solução perfeita… Para o bolso das empresas. Pra que falar de “coisas chatas”, como divisão de tarefas do lar? Vamos vender aparatos que facilitam a vida da “dona de casa” (e, na verdade, acabam virando mais louça para ela lavar e mais entulho guardado na cozinha). Pra que falar de melhorias nas condições de emprego para mulheres? Isso só vai colocar mais coisa na cabeça dessas empregadas “folgadas” que, vejam só, têm a coragem de querer a própria carteira de trabalho assinada!

O incentivo ao consumo desenfreado e a homenagem genérica e vazia de sentido que a cooptação do 8 de março propõe não cria apenas um nicho muito lucrativo, mas funciona também como estratégia de marketing empresarial ou pessoal para quem quer fingir preocupação com mulheres sem precisar fazer nada que realmente mexa nas estruturas que emperram a vida delas. Chefes, filhos, maridos, pais, irmãos, netos e amigos podem expiar toda a culpa de serem negligentes ou sobrecarregarem as mulheres que convivem com o simples ato de depositar dinheiro em um objeto que represente a importância e o valor da homenageada. Dessa maneira, ações que dependem também de todos aqueles que estão ao redor da mulher saem de cena à francesa. Reflexões e mudanças de atitude não são consideradas tendências porque não são comportamentos vendáveis – e ainda flertam com terrenos perigosos, como o despertar coletivo de consciências.

Texto publicado originalmente na coluna ‘Água & Óleo’ da Revista Traços, na edição de março de 2016. Por conta da limitação de caracteres, o foco foi no apagamento geral e na cooptação mercadológica do dia. No entanto, existem outros aspectos importantes a serem abordados quando se aprofunda no tema, como a historicidade da data (antes Dia da Mulher Trabalhadora), ou a questão das mulheres negras e o trabalho forçado, que acaba naturalizado em seu esquecimento (na mesma coluna e mesma edição, a militante negra e feminista Dalila Fernandes escreveu sobre isso), entre outros. 

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Feminismo suave não liberta, mas gera lucro

Por que o feminismo existe? Puxo essa provocação com o intuito de iniciar uma reflexão ampla e não de buscar uma verdade absoluta. No meu caso, por exemplo, acredito que uma desigualdade histórica entre os sexos – e não necessariamente entre os gêneros apenas – levou (e leva) pessoas do sexo feminino a forçarem o próprio acesso a espaços de educação, poder, lazer e outros. Assim como desigualdades em outros aspectos da sociedade, como a exploração e a discriminação de pessoas negras, fizeram com que grupos que compartilhavam opressões semelhantes precisassem (e ainda precisem) se organizar para conquistar direitos. Aliás, grupos minoritários diversos possuem histórias de luta igualmente diversas para contar. E elas se entrecruzam: existem mulheres negras e lésbicas, por exemplo, o que as tornam possivelmente mais suscetíveis a violências e exclusões motivadas por preconceito.

Claro que estou resumindo bastante questões que são bem complexas e abrangentes, mas faço essa introdução para que a gente possa começar a se entender. O que quero dizer é que o corpo é um território de disputa ou, como diria a artista Barbara Kruger, um campo de batalha. Portanto, dentro de um esquema que envolve a necessidade de domínio de corpos para criação e manutenção de poder, nascem diferentes narrativas sobre grupos sociais específicos com o intuito de confiná-los em papeis previamente determinados. Desse modo, se garante uma engrenagem onde muitas pessoas possuem deveres e poucas possuem direitos – e menos ainda possuem privilégios.

Se formos pensar no feminismo, ele é um movimento social que tem o objetivo de gritar para o mundo que os estereótipos sobre as mulheres estão errados: elas não são fracas, burras, incapazes, fúteis, inferiores, loucas por homens ou nasceram para a maternidade. No entanto, precisamos sempre lembrar do caráter político do movimento. Para que nossa humanidade seja levada em conta, não basta que a gente se sinta humana, não ligue para o que os outros digam e simplesmente aceite continuar vivendo na precariedade. O que busca nos desumanizar são ações específicas e cotidianas e a construção da nossa humanidade parte da destruição dessas ações. Um sentimento por si só não constrói creches ou aprova leis a nosso favor.

No Brasil, por exemplo, enfrentamos problemas como mulheres sendo mortas por parceiros e outros homens próximos, como se fossem objetos descartáveis, apenas por não desejarem mais manter um relacionamento. Existe também um alto nível de violência física, psicológica e sexual contra pessoas do sexo feminino em geral. E desde cedo precisamos nos acostumar com assédio de estranhos nas ruas – o que vejo como uma forma de terrorismo contra nossa “invasão” ao espaço público, que é relativamente recente. No espaço virtual, somos as mais atacadas. O aborto ainda não é descriminalizado no país, embora a pesquisadora Débora Diniz tenha a esperança de ver essa conquista tomar forma por aqui um dia. Mulheres negras ganham menos do que todo mundo e possuem menos acesso ao mercado formal de trabalho – e são as que sempre estiveram aí, na labuta. Adolescentes engravidam de homens mais velhos, mas o senso comum trata a questão como mera “safadeza” da parte delas, e esquece a responsabilidade que adultos deveriam ter. Entre outras coisas.

Em 1999, a pesquisadora Karen Giffin escreveu, em um artigo chamado “Corpo e conhecimento na saúde sexual: uma visão sociológica”, que “agora colocada na agenda feminista como direito, a definição da saúde sexual não tem avançado além do abstrato (…)”. E aponta questões que precisam de atenção, como o “novo perigo da AIDS feminilizada, da prostituição infantil internacionalizada no turismo sexual, da violência sexual globalizada contra mulheres e crianças, etc”. Será que dezoito anos após a publicação do artigo, conseguimos dizer, sem buscar no Google, quais as respostas que temos para tais questões, ainda tão atuais e urgentes?

De cabeça, provavelmente não. Mas se utilizarmos o Google, poderemos perceber que, sim, existem debates, propostas e outros artigos. Mas a maior parte das discussões aprofundadas estão restritas a círculos específicos. Os direitos sexuais e reprodutivos da mulher – que envolvem direito ao próprio corpo e a própria sexualidade, expressa como e com quem quiser – ainda protagonizam ferrenha disputa. A constante reformulação do mito da mulher como máquina-de-fazer-bebês, a pouca atenção que se dá à saúde sexual da mulher lésbica ou a prostituição sendo tratada primordialmente pelo viés da “escolha” mostra que ainda temos muitas batalhas. E que precisamos tomar as rédeas do debate público ao invés de procurar meios de dissolver o feminismo para torná-lo palatável.

Ás vezes me pergunto se estamos cometendo erros estratégicos. Onde estamos falhando? Já é 2017 e ainda é difícil debater questões relacionadas a pornografia, estética, violência sexual ou prostituição sem cair dentro da mesma ladainha de sempre, de que “mulher faz o que quiser”. A mídia mainstream e os homens adoram essa frase, mas apenas quando mulheres-fazendo-o-que-querem significa “liberdade sexual” e nudez (de corpos brancos e magros). Muitas feministas de grande alcance, principalmente as do tipo que utilizam o movimento para impulsionar a própria imagem sem necessariamente possuir um comprometimento coletivo, acabam abraçando essa falácia para que não precisem lidar com temas que não são populares. É uncool falar de abuso sexual, apontar agressores, problematizar a indústria da beleza – uma das poucas a não entrar em crise no país – ou desestabilizar muito o status quo, por exemplo. Corre o risco de a coisa fica chata demais.

Aliás, percebo que é nessa junção de mídia e homens (ou instituições historicamente masculinas – ou seja: quase todas, risos) legitimando o feminismo “correto” que um feminismo lavado passa a existir. Um feminismo chique, com roupas de marca, caras, bocas, batom, orgasmos múltiplos e cantoras pop postando fotos do grupo de amigas loiras com legendas tipo “girl power” ao mesmo tempo em que diminuem denúncias de racismo de colegas de profissão negras. Um feminismo que gosta de afirmar que é feminino, que não é como aquelas despenteadas, peludas, histéricas, exageradas, odiadoras de homem – ew, imagina ser confundida com uma lésbica!  Um feminismo que separa mulheres entre boas e más, que menospreza a construção teórica elaborada por pessoas do sexo feminino, que descarta o valor do envelhecimento e da experiência e propaga um sem-fim de frases feitas sem saber o porquê. E não questiona, profundamente, salários, acordos e papeis sociais. Um feminismo que poupa os homens e aponta todos os dedos para as “manas”. E que se estabelece mais como uma tribo urbana do que como um movimento social de fato: legal mesmo é ser uma it girl feminista.

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barbie. se você pode sonhar, você pode ser — uau, agora vai, hein! // propaganda da mattel, de 2014.

Em “Backlash: o contra-ataque na guerra não declarada as mulheres”, de 1991, a escritora Susan Faludi mostra como mídia, políticos, líderes trabalhistas e outras figuras tentaram (e ainda tentam) promover a ideia de que a mulher já conquistou tudo, mas se tornou infeliz por culpa do feminismo – como se tripla jornada ou desilusões amorosas fossem consequências do movimento, por exemplo. No entanto, ela prova como, na época, vários direitos ainda não tinham sido conquistados, mesmo com uma suposta autonomia da mulher sendo celebrada. Quando ela fala sobre “a natureza do backlash de hoje”, referindo-se aquele período, parece que estamos lendo algo sobre o momento em que estamos agora:

A mulher reprimida do atual backlash distingue-se das suas predecessoras pois quer fazer parecer que escolhe a sua condição duas vezes – primeiro como mulher e segundo como feminista. A cultura vitoriana definia “feminilidade” como sendo aquilo que “uma verdadeira mulher” deseja; na estratégia de mercado da cultura contemporânea, também é o que uma mulher “liberada” almeja. Da mesma forma que Reagan assumiu ares populistas para vender um programa político que favorecia os ricos, os políticos, os meios de comunicação e a publicidade adotaram uma retórica feminista para passar adiante políticas que feriam a mulher, revendendo os mesmos velhos produtos de sempre ou escondiam opiniões antifeministas. Bush prometeu “maior poder” para as mulheres pobres – como substituto dos muitos programas de assistência social que ele estava cortando. Até a Playboy afirmou estar do lado do progresso feminino. “As mulheres avançaram tanto”, garantiu o porta-voz da revista à imprensa, “que já não é um estigma posar nua.” A cultura dos anos 80 suprimiu o discurso político das mulheres e depois redirecionou sua auto-expressão para os shopping centers. A consumidora passiva foi reeditada como sucedâneo feminista, exercendo o seu “direito” de comprar produtos, fazendo as suas próprias “escolhas” ao chegar no caixa. “Você pode ter tudo”, prometia um anúncio de cerveja a uma jovem em malha de ginástica – mas por “tudo”, a cervejaria queria dizer que o seu produto não dava a barriguinha de chope. Criticado por dirigir-se a jovens mulheres nos seus anúncios, um indignado vice-presidente da Philip Morris esbravejou que este tipo de censura é “sexualmente discriminatório” pois sugere que “mulheres adultas não têm capacidade para tomar as suas próprias decisões de fumar ou não”. A reivindicação feminista exortando que cada uma siga os próprios instintos tornou-se um apelo publicitário para se obedecer às solicitações do mercado – um apelo que enfraqueceu e aviltou a busca feminina de uma verdadeira autodeterminação. (…)

O atual contra-ataque aos direitos da mulher proporciona ainda outra tática inerente aos livros de estratégia dos antigos contra-ataques: a pose de uma sofisticada e irônica distância dos seus próprios fins destrutivos. A lista de emoções falsas do backlash –piedade pelas mulheres solteiras, preocupação com o esgotamento das que trabalham, envolvimento com os problemas da família –, a ofensiva atual acrescenta um escarnecedor cinismo em relação a quem ousa apontar mensagens discriminatórias ou antifemininas. (…) Ficar falando de injustiça sexual não só é feminino, mas não pega bem porque já não está com nada. A revolta das mulheres, assim, como qualquer outro tipo de revolta social, é alegremente descartada – e não por falta de conteúdo, mas simplesmente por falta de “classe”.

Já é bastante difícil desmascarar sentimentos antifeministas quando eles se vestem com roupas feministas. Mas é muito mais difícil enfrentar um inimigo que diz não se importar. O feminismo “cheira tanto a anos 70”, afirmam com tédio os papas da cultura popular. Agora somos “pós-feministas”, informam, não para dizer que a mulher chegou à igualdade de direitos e ultrapassou essa fase, mas para sugerir que eles mesmos se adiantaram tanto que já não pretendem nem mesmo importar-se com o assunto. É uma falta de compromisso que, no fim, pode representar o golpe mais devastador contra os direitos da mulher.

Logo, é importante pensarmos na raiz das coisas, para não ficarmos eternamente brincando de encenação política, feito hamsters na gaiola, enquanto permanecemos lucrativas. Claro que, dentro do capitalismo, que não irá sucumbir tão cedo, é importante que existam produtos de beleza também para peles escuras ou cabelos crespos ou roupas estilosas para pessoas gordas, e que propagandas sejam questionadas quando são preconceituosas, por exemplo. Não acho que esse tipo de coisa seja irrelevante. Aliás, não julgo ninguém, individualmente, por suas atitudes. Ainda vivemos em um mundo que valoriza muito a aparência, que conecta o “se sentir bem” com “se sentir bonita” e que, em certos momentos, sequer dá alguma chance de a mulher fingir que pode escolher. Existem empregos, por exemplo, que exigem salto e maquiagem, e pronto.

A caminhada ainda é longa, mas a nossa rede e a nossa força possuem potenciais enormes, que nos são mostrados diariamente: querendo ou não, estamos aqui, ainda que os nossos recursos sejam infinitamente menores que os dos detentores do poder. Existem conquistas para trabalhadoras domésticas, existem leis específicas para a violência contra a mulher, a  obstetrícia atual está em debate, entre várias outras coisas, mas claro que poderia ser muito melhor. É importante a gente continuar sempre a pensar na utopia, para que ela se concretize. Desejo que ruas iluminadas (segurança pública também é questão de gênero), para que mulheres igualmente brilhantes andem por elas, sejam uma realidade concreta e metafórica.

Por isso, precisamos entender que uma camiseta em uma loja de departamento com “feminista” escrito nela não significa muita coisa, principalmente se os funcionários continuam trabalhando muito e ganhando pouco, se artistas continuam tendo ilustrações roubadas para estampar produtos e se peças terceirizadas continuam sendo confeccionadas por meio de trabalho escravo. Relativizar depilação ou procedimentos de beleza ou minimizar os pontos negativos de cirurgias plásticas, como riscos ou o processo pós-operatório, também não são coisas que se enquadram exatamente em um viés feminista acolhedor e informativo, funciona mais como propaganda gratuita e marketing espontâneo e positivo para empresas mesmo.

Como analisou a teórica Nancy Fraser, no artigo “O feminismo, o capitalismo e a astúcia da história” (que chegou até mim por meio do coletivo Não Me Kahlo), houve uma fragmentação da crítica feminista que auxiliou na “incorporação seletiva” e “recuperação parcial” de algumas de suas tendências. Ou seja, de acordo com o interesse vigente, uma coisa ou outra é aleatoriamente pinçada sem levar em conta o seu contexto. E isso acaba auxiliando não na construção de uma nova realidade para mulheres, mas em uma nova forma de manter a organização social nos moldes hierárquicos de sempre. E mais:

É dito frequentemente que o sucesso relativo do movimento em transformar cultura permanece em nítido contraste com seu relativo fracasso para transformar instituições. Esta avaliação tem duplo sentido: por um lado, os ideais feministas de igualdade de gênero, tão controversos nas décadas anteriores, agora se acomodam diretamente no mainstream social; por outro lado, eles ainda têm que ser compreendidos na prática. Assim, as críticas feministas de, por exemplo, assédio sexual, tráfico sexual e desigualdade salarial, que pareciam revolucionárias não faz muito tempo, são princípios amplamente apoiados hoje; contudo esta mudança drástica de comportamento no nível das atitudes não tem de forma alguma eliminado essas práticas. E, assim, frequentemente se argumenta: a segunda onda do feminismo tem provocado uma notável revolução cultural, mas a vasta mudança nas mentalités (contudo) não tem se transformado em mudança estrutural institucional.

Acredito que mudar a pintura externa de uma casa não significa necessariamente reformar por dentro. Logo, não podemos nos deslumbrar com a festa feminista que tentam, literalmente, nos vender. Mulheres libertas não geram lucro, corpos autônomos são mais difíceis de controlar e pessoas conscientes da própria complexidade ameaçam a narrativa de papeis unidimensionais. Minha vontade é muito ambiciosa: não quero que as mulheres se sintam lindas e sim que se sintam – e sejam, de fato – livres. Vamos juntas?

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Sobre o processo de se transformar em uma publicação impressa

Queria ter escrito este post aqui há mais tempo, porém, ando vivendo uma deliciosa bagunça nômade que me faz morar oficialmente em uma cidade e estudar em outra. Tenho me dividido entre milhares de coisas pra fazer e preocupações excessivas (oi, ansiedade). Além disso, quase assassinei o meu computador pela segunda vez, derramando água de coco nele (a primeira foi quando tive a brilhante ideia de limpar o teclado com lenços umedecidos). Andei também viajando para lugares fora da minha rota, uma das viagens como parte de um lindo projeto educativo e a outra de férias mesmo. E etc, etc e etc. Conto tudo isso apenas para justificar meu sumiço, pois com certeza o que listo aqui não me traz muitos motivos para reclamar (tirando a ansiedade e o computador molhado).

Agora que finalmente parei para sacudir a poeira do blog (estava com saudade), trago boas notícias: realizei um financiamento coletivo entre abril e maio deste ano com o intuito de arrecadar dinheiro para imprimir uma publicação independente. Felizmente, deu tudo certo e, por isso, o conteúdo da Vulva Revolução passou a ser algo que existe também no papel – é um zine! Como sou fruto dos rolês alternativos e do do-it-yourself, essa foi a linguagem que conheço e decidi utilizar para reunir parte do material escrito por aqui até hoje. E essa foi a maneira que escolhi para dizer que sou uma autora capaz de escrever em diversas plataformas. E, não vou mentir, é mais barato e fácil de produzir do que um livro, heh (que é algo que também está nos meus planos). Mas não quero, com esse comentário, criar nenhuma hierarquia, cada coisa tem sua estética, seu espaço, sua importância e sua razão de ser.

A ideia de fazer uma publicação a partir de textos aqui do blog era alimentada desde o ano passado. Sempre gostei muito de livros, revistas, zines, folhetos e afins. Ouvir o barulho de páginas virando, analisar formatos e o tipo de papel, bem como a beleza ou estranheza das imagens é muito agradável, não é mesmo? A experiência impressa é um romance em si mesma. E, além do mais, o que está no papel me parece ter um tipo de circulação diferente do material online – agora participo de mais eventos, faço vendas & trocas, conheço várias pessoas ao vivo e estou chegando em novos lugares.

zinevulva

Vários zines, oba!

Claro que a internet tem o seu posto essencial de principal divulgadora das minhas ideias – e é o meu habitat. E ela e o papel são meios diferentes, mas que não se anulam. No entanto, o que está impresso ainda me parece, de alguma forma, mais respeitado como “conteúdo de verdade”. É o que te chancela como alguém que realmente produz – principalmente quando o seu principal veículo é um blog totalmente independente. Isso tudo pode até estar mudando, estamos começando a criar o hábito de ler em outros meios (eu mesma já sou adepta do Kindle faz muitos anos), mas minha experiência me mostra um interesse diferente por parte do público em geral quando você começa a organizar o seu próprio material no papel – mas não sei se um e-book ou algo assim causaria o mesmo tipo de reação. São muitas possibilidades, temos muito a pensar.

Planejei tudo sozinha, mas contei com o apoio de várias pessoas durante o processo de nascimento do zine (que teve um protótipo com uma tiragem de 20 unidades realizada no ano passado). Um amigo fez o vídeo para o site do crowdfunding, por exemplo, e mulheres com as quais possuo diferentes graus de proximidade (mas admiro o trabalho de todas) colaboraram com as ilustrações presentes na publicação (e com um dos textos exclusivos), tornando-a coletiva e plural. Aprendi ainda mais sobre as diferentes etapas intelectuais e burocráticas de se produzir algo no papel, o que não é novidade pra mim, por conta da minha profissão e de produções anteriores, mas que foi mais intenso por ser um projeto pessoal cuja existência se deu, inicialmente, por conta do meu próprio interesse. Foi um exercício de aprender a dizer internamente, e para os outros: “o que eu faço importa” e “se eu quero fazer, importa”. Os feedbacks que recebo ajudaram, pois são várias as mulheres que afirmam se sentir contempladas com meus questionamentos (que bom, pois essa é a intenção). E elaborei uma linha narrativa que orientasse o material de modo coerente, editei os textos do blog para o formato impresso, diagramei o zine, fiz orçamentos e pedidos das recompensas prometidas no financiamento coletivo (camisetas, bottons e adesivos), entre outras coisas.

Não vou mentir, fiquei bastante orgulhosa de mim mesma, ainda que uma ou outra pessoa pessimista tenha cruzado o meu caminho com frases como “é só um zine” ou “é só um blog”. Sempre vai aparecer alguém projetando as próprias frustrações no que a gente está fazendo, colocando o foco em pequenos detalhes e não no todo. Deu trabalho e atrasei algumas entregas, pois precisei de mais tempo do que esperava para terminar algumas coisas, mas valeu muito a pena.

No meio disso tudo, fiz um curso de Produção Gráfica com a Aline Valli, que era da Cosac Naify, e foi bom para aprender mais sobre aspectos práticos e estéticos de uma publicação impressa. Mesmo que o meu interesse principal seja a escrita, achei legal ter mais noção de todos os processos que envolvem a realização de um livro – ou de qualquer outro material do tipo. E uma das aulas foi justo no último dia de existência da Cosac, o que deixou a professora bem emocionada. Não fiz o curso por causa do zine, mas pelo interesse geral na área mesmo – tenho um crush no meio editorial como um todo. Só que acabou sendo útil, lógico. Conhecimento nunca é demais.

Acompanhar um financiamento coletivo é bastante agoniante – ainda mais quando você é uma pessoa ansiosa. Isso que o meu nem era assim tão difícil de alcançar, imagina os que contam com uma grana alta? Meu coração não aguentaria. É importante assistir os vídeos e recomendações desses sites de crowndfunding – graças a eles, consegui tirar várias dúvidas e fazer prospecções de metas – e conversar com outras pessoas que já passaram pelo processo (isso me ajudou a aprender bastante com erros e acertos de colegas). Uma divulgação constante é essencial, bem como uma boa comunicação com veículos grandes que se comuniquem com o seu público-alvo. Contei com a ajuda de alguns blogs, sites e páginas, e até mesmo parceria com festa famosinha de Brasília eu fiz, o que não gerou o retorno financeiro esperado, mas foi uma noite muito divertida e que também ajudou na divulgação.

O zine foi lançado oficialmente em Brasília, Rio de Janeiro e Belém e a tiragem inicial foi de 500 unidades. Alguns foram doados para mulheres que realizam projetos que se relacionam com feminismo, educação e afins (tive notícias de alguns sendo utilizados em oficinas de educação e gênero para jovens e adultos, e me emocionei). Paralelamente a isso, várias outras coisas foram e estão sendo feitas, algumas delas pretendo contar por aqui assim que tiver tempo (e ânimo) de novo. São muitas novidades, pensamentos, ideias, mas também muito cansaço e falta de energia, em alguns momentos. De vez em quando, essa era atual faz a gente se sentir sempre a correr sem saber muito bem para onde ir, não é? Tipo, me pego fazendo um monte de coisa e achando que não estou fazendo nada pois esse monte de coisa ainda não é necessariamente aquela idealização da minha cabeça de coisas que imagino que “deveria” estar fazendo. Confuso, eu sei.

Por isso, parei aqui para respirar e relatar esse processo. Meu intuito foi, de certa forma, prestar contas a todo mundo que me apoiou, além de incentivar outras mulheres a tocarem seus projetos e a encararem o que fazem como algo importante – não importa se a sua vibe é escrita, desenho, crochê, pintura, matemática, gastronomia ou games. Nem se é algo para um público grande ou pequeno – até porque isso varia com o tempo. O que importa é a gente existir e falar sobre a nossa realidade, desenvolver competências artísticas, criativas, intelectuais, ganhar experiências e estreitar laços umas com as outras. Gosto muito de assistir ou ler sobre processos alheios – de pequenos quadrinistas independentes a fotógrafos com fama mundial, sei lá  – e essa foi a minha contribuição para quem tem o mesmo tipo de interesse. Como escrevi em muitos dos bilhetinhos que enviei para vários lugares do Brasil, junto com os zines e as recompensas adquiridas: juntas somos mais!

Tem Vulva Revolução no FacebookTwitter e Instagram também, viu?

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Nem santas, nem putas: apenas humanas com capacidade de sentir prazer

Quem nunca ouviu algo como “tira a mão daí, menina” ao simplesmente dar uma coçadinha na xoxota que atire a primeira pedra. A vagina, sempre tratada por eufemismos fofos e delicados ou por palavras grosseiras que remetem à esculhambação e mau cheiro, é historicamente demonizada. Por isso, quem nasceu com ela no meio das pernas consequentemente tem o desenvolvimento psicológico, emocional e, ás vezes, até físico afetado por esses conceitos deturpados, que ora infantilizam e romantizam a vagina, ora tratam ela como algo grosseiro e pecaminoso. A misoginia, inclusive, começa com o estereótipo de que vagina (e quem a possui) é inferior, suja e deve ser reprimida, o que contribui com um panorama de mulheres cerceadas não apenas sexualmente, mas em outras esferas da sociedade, como social e econômica. Afinal, se pensarmos bem, minar a autoestima de uma pessoa implantando na cabeça dela inseguranças sobre o próprio corpo – a expressão máxima da existência de alguém no mundo – é um mecanismo de controle bastante eficaz.

O Xotanás, uma parceria entre os blogs Deixa de Banca e Vulva Revolução (eu), surgiu com o objetivo de falar sobre siririca e sexualidade feminina. Mas por que? Bem, resumidamente, a Amanda teve a ideia inicial e me chamou para botar em prática com ela e, juntas, pensamos sobre o assunto. Percebemos que, embora o senso comum acredite na tal história da ~liberação sexual~ e ache que as mulheres já conquistaram tudo o que queriam (quem dera!!!), ainda vivemos dentro de um cenário em que a sexualidade da mulher é regida pelo patriarcado e pela heteronormatividade: ela precisa ser feminina (ou seja, depilada, maquiada, perfeita, sem estrias, usar roupas que realcem as formas do seu corpo – se ela for magra, claro – e inteligente, mas sem tanta opinião) e pensar no prazer do outro. Esse outro é geralmente um homem que irá mudar a vida dela ao penetrá-la com a piroca mágica dele. E a sexualidade da mulher é comumente representada dessa forma, como se o mais importante fosse ser desejada por um homem, fazer um homem gozar, estar cheirosa para um homem, homem, homem, homem…

AFF.

No entanto, recebemos mensagens tão divergentes entre si (acho que o intuito é deixar a gente doida mesmo), que ao mesmo tempo em que somos incentivadas a fazer de tudo porque, uau, liberdade é isso aí, fazer o que os caras querem na cama, ainda existe, no fundo de grande parte das relações heterossexuais, uma mitologia antiga, da mulher que é boa, casta, pura e “para casar”. E enquanto rola um bombardeio sobre as cabeças femininas com mil sugestões diferentes relacionadas a como elas deveriam se comportar, muito pouco é falado sobre a importância do autoconhecimento não apenas para a construção de uma vida sexual satisfatória, mas principalmente para o próprio bem-estar físico e psicológico da mulher, que raramente é aconselhada a pensar nela mesma, apenas nela, e a descobrir o que a faz sentir prazer. Por isso, dentro desse contexto, a gente aqui do Xotanás acredita que siririca tem tudo a ver com autonomia, amor próprio e desconstrução da misoginia internalizada.

Felizmente, essa era internética em que vivemos está colaborando com o nascimento e divulgação de cada vez mais projetos voltados para a sexualidade da mulher. Por meio de textos, desenhos, entrevistas, vídeos e músicas, são travadas diversas discussões que buscam o real empoderamento da sexualidade feminina, sem aquele morde e assopra de revistas que dizem, na primeira página, que toda mulher é linda e poderosa e, na página seguinte, ofertam trezentos produtos de beleza diferentes e ensinam a “segurar” parceiros. Ainda assim, são muitos os relatos que recebemos (estão sendo publicados aos poucos aqui, enviem o de vocês) e que lemos por aí que, ao falar de masturbação, envolvem culpa e repressão familiar.

pollynordevil“The Devil Wears Nada”, ilustração de Polly Nor

Qual será o porquê de todo esse peso jogado em cima do nosso prazer? O livro “Vagina – uma biografia”, lançado pela escritora norte-americana Naomi Wolf recentemente, revela que a concepção ocidental que temos atualmente do órgão sexual feminino, “cheia de vergonha, sexualizada de um modo restrito e funcional, dessacralizada e cientificamente escrutinada”, começou no século XIX. Teorias misóginas de todo o tipo foram disseminadas, como, por exemplo, que o clitóris era a causa da corrupção moral e “boas mulheres” não tinham apetite sexual.  Uma das teorias dizia, inclusive, que permitir que mulheres lessem romances poderia deixá-las com um desejo sexual enlouquecido e descontrolado (ou seja, controle sexual e da emancipação intelectual feminina em uma tacada só).

De acordo com a autora, o clitóris é estudado, esquecido e descoberto novamente desde 1559. No entanto, no período vitoriano a  vagina passou a ser profundamente patologizada e criou-se uma ideia de mulheres “boas” e “más” que vinha da conduta sexual delas: quem não se deixasse afogar pela própria libertinagem poderia ser considerada uma mulher de respeito. E essa libertinagem não estava relacionada apenas ao ato sexual, mas também à masturbação. “Em 1850, os formadores de opinião vitorianos na área médica e social estavam convictos de que a masturbação, para ambos os sexos, levava perigosamente a ‘um espectro de doenças psicológicas terríveis’, que acabariam por levar o masturbador a um estado de loucura”, escreve Wolf.

O livro “A assustadora história do sexo”, do médico e escritor britânico Richard Gordon, mostra retratos clínicos da época, que descreviam pessoas que se masturbavam praticamente como doentes. Ele acredita que isso parte de uma necessidade que a sociedade tem de criar “perigos” que façam as pessoas se sentirem culpadas, pois “um pecado espalhado universalmente tece uma camisa de silício macia” (camisa de silício era uma espécie de túnica incômoda, de tecido grosseiro, utilizada durante penitências). Gordon levanta, inclusive, uma questão interessante: essa culpa sexual (que permanece ainda hoje) tem muito a ver com a culpa “mastigatória” dos tempos atuais, em que médicos advertem contra diversos tipos de comida e o público começa a temer “perigos físicos, estéticos e morais de estarem levemente acima do peso” – o que gera muito lucro para a indústria mundial do emagrecimento.

Homens e mulheres foram torturados em prol da erradicação desse ~grande mal~ que era a masturbação. Porém, assim como as mulheres de hoje são os maiores alvos das “dicas de dietas” (a dieta é o sedativo político mais potente na história da mulher, uma população levemente louca é uma população dócil”, já disse Naomi Wolf em outro livro – “O Mito da Beleza”), a antiga obsessão em erradicar a masturbação era ainda maior se o assunto era siririca, e isso podia ser diretamente relacionado ao medo de educar e emancipar mulheres – o receio geral era de que a leitura pudesse levá-las ao ato de tocar o próprio corpo em busca de prazer. Segundo Wolf, no período pré-vitoriano, mesmo mulheres da elite não eram educadas e nem tinham direito a propriedades, logo, pouco importava se tocavam uma siririca ou não. Só que, no século XIX, as mulheres estavam conquistando mais direitos e a tentativa de frear a autonomia delas – tanto sexual, quando intelectual – talvez fosse uma reação contra isso. “Muitas mulheres, hoje, sentem que sua sexualidade é algo distinto do resto de seu caráter e acabam por privar-se dela em prol de outros papeis mais admiráveis, como o de mães, esposas ou profissionais (…). Esse conjunto de crenças não é uma constante humana – nem mesmo é antigo; isso foi essencialmente inventado quando os críticos culturais na Europa e Estados Unidos ficaram alarmados pela emancipação feminina, e a sexualidade da mulher foi entregue a um profissional masculino, o ginecologista”, conta a autora.

O século XIX criou o problema e a solução: ao mesmo tempo em que patologizava a sexualidade e o corpo feminino, inventava tratamentos e buscava soluções para os “problemas sexuais” das mulheres. A sexualidade feminina era considerada uma grande ameaça à ordem social. Logo, o período vitoriano se viu marcado por avanços científicos que se chocavam com conceitos rasos que buscavam manter a mulher “domada”: o útero era visto como fonte de mau humor feminino, a menstruação era tratada como incapacitante e educar mulheres poderia ser nocivo para elas, porque poderia fazer com que se tornassem masculinizadas e “solteironas”.  Sob o domínio masculino, a ginecologia se desenvolvia; e pelas mãos dos homens, mulheres tiveram seus corpos analisados, estudados e invadidos – o norte-americano J. Marion Sims, por exemplo, criou uma técnica para reparar fístulas vesicovaginais praticando, sem anestesia, em mulheres escravizadas.

“De 1860 a 1890, a brutalidade e a natureza punitiva das práticas ginecológicas masculinas atingiram seu ápice. Nesse período, o uso da clitorectomia se tornou, se não comum, pelo menos não mais inédito no ‘tratamento’ de garotas que insistiam naquele vício pavoroso, a masturbação feminina. O dr. Isaac Baker Brown introduziu a clitorectomia na Inglaterra em 1858, e ainda era muito praticada por ele dez anos depois. O dr. Brown se tornou famoso e muito procurado por sua ‘cura’, que aplicada em garotas fogosas, após a excisão de seu clitóris, fazia que voltassem para suas famílias em um estado de docilidade, mansidão e obediência – um resultado que podemos agora compreender como inquestionavelmente resultante do trauma e também da interrupção da ativação neural. E até mesmo para garotas que não eram ameaçadas com a excisão do clitóris como punição pelo ‘vício solitário’, havia manuais morais e até publicações populares repletas de advertências sobre como uma mulher masturbadora, incitada por ‘romances franceses’ ou ‘novelas sensacionalistas’, poderia ser facilmente identificada por sua lascívia, apatia, palidez, olhos febris e aspecto geral de dissimulação e insatisfação. Havia o entendimento de que a masturbação levava as garotas a uma trajetória cada vez mais descendente, com formas ainda piores de ‘vício’ e lascívia moral; os pais eram aconselhados a ser vigilantes e rígidos com as garotas que persistissem”, explica a escritora.

Para os homens, Gordon relata que a “política de mãos-ao-alto” envolvia ir para a cama com luvas de metal (tipo raladores de cozinha) ou camisa-de-força, uso de cinto que prendia o pênis em molde de metal ou corte de nervo do órgão sexual masculino, entre outras práticas. Embora os rapazes também possam guardar sua parcela de ~culpa masturbatória~ (bom, pelo menos foi o que alguns me disseram), a naturalização da prostituição e pornografia, bem como uma sociedade que atua sob o olhar masculino em grande parte dos seus recortes, são fatos que revelam que a sexualidade masculina é bem menos cerceada – muito pelo contrário, ela é incentivada e celebrada, ainda que de forma doentia, rasa, nociva e extremamente perigosa para mulheres, além física, intelectual e sensorialmente pobre para os homens.

É tudo sobre lucro e dominação.

Como já foi mostrado, resquícios do modelo vitoriano de pensar permanecem em nossa sociedade. Pior ainda: nem sempre são resquícios, muitas vezes são novas roupagens para teorias antigas que buscam demonizar a sexualidade e o corpo feminino e, consequentemente, destruir a autonomia e autoestima de mulheres, porque medo, insegurança, falta de autoconhecimento, vergonha, nojo e culpa são instrumentos que visam nos manter submissas, paralisadas, dóceis e manipuláveis.

Porém, a cada dia, novas pernas femininas ganham as ruas e conquistam espaços pelo mundo, enquanto dedos que na intimidade acariciam o clitóris, em um ritmo suave e gostoso, se levantam, em riste, para sinalizar um grande não a quem grita “tira a mão daí, menina”. Os nossos corpos são nossos, não são sujos e problemáticos e serão explorados por nós mesmas, em uma jornada que celebra o bem-estar feminino. Não somos putas nem santas que merecem mais ou menos respeito, mas apenas humanas com a capacidade de sentir prazer.

Post orginalmente publicado mês passado no Xotanás.