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VULVA LA REVOLUCIÓN!

Eu já pretendia falar sobre o VULVA LA REVOLUCIÓN! por aqui, mas a correria da vida acabou atrasando um pouco esse post. Muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, gente… No entanto, aqui estou, pronta pra contar como foi esse lindo dia. Pra quem não sabe, o VULVA LA REVOLUCIÓN! foi um encontro que rolou 26 de setembro e surgiu com o intuito de estreitar laços entre mulheres e celebrar o primeiro ano de existência aqui do blog – e também a nova e exclusiva identidade visual, criada pela artista brasiliense Nana Bittencourt, que foi também a responsável pela arte do evento. Ela é uma mina muito cuidadosa e talentosa em tudo o que faz, com uma sensibilidade incrível.

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O Espaço Criaticidade – um lugar novo em Brasília (DF), que nasceu com o objetivo de movimentar a cena independente local de artistas & arteiros – foi o escolhido para abrigar uma tarde de feirinha, bebidas, músicas, rodas de conversa, jogos e muito, muito amor femininja. Aproveitei a ocasião para recolher roupas e produtos de higiene pessoal para a Casa Abrigo do DF, e livros para entregar para a galera do Slam das Minas, que realizou atividades relacionadas à literatura e poesia na Colmeia, presídio feminino do DF. Muitas doações foram recebidas! Já entreguei os livros, e essa semana entrego o que vai para a Casa Abrigo.

Tinha algum tempo que eu queria fazer algo do tipo. Porém, quem já produziu qualquer tipo de evento sabe o trabalho que dá: durante o VULVA LA REVOLUCIÓN! foi preciso cuidar de divulgação, decoração, entrar em contato com as mulheres dispostas a participar da feirinha, realizar inscrições para as rodas de conversa, comprar materiais para preparar as atividades propostas, montar os jogos, elaborar playlists de música, conseguir som, conversar com umas pessoas ao vivo, ligar para outras, olhar mensagem no celular, nas redes sociais, responder perguntas, analisar gastos, tirar fotos, entre outras milhões de coisas. E um evento independente & feminista, nossa, é ainda mais difícil. Porque não tem fim lucrativo e nem apelo comercial, sexualizado, VIP, drinks, balada, noite, hype, etc.

De qualquer forma, deu tudo certo. Primeiro, porque já trabalhei com produção – e já produzi coisas minhas antes, como a festa ¡LAS LOCAS!, que coloca minas no front na produção, discotecagem, fotografia e músicas selecionadas. E segundo porque sou rodeada de amigas e amigos maravilhosos, que me ajudaram muito e se envolveram no processo de forma bastante ativa e interessada, respeitando e entendendo minha proposta (aliás, muito obrigada, amo vocês).

Rolaram duas rodas de conversa. A primeira foi “Ecofeminismo, saúde e menstruação”, que teve Ariadne Hamamoto como guia (a outra mediadora infelizmente ficou doente e não conseguiu ir). Ela é estudante de design na Universidade de Brasília (UnB), manja muito sobre ciclo menstrual, trabalha com encadernação e desenvolve o projeto Diário da Lua Vermelha (ou Diário Lunar-Menstrual), que serve pra gente registrar e acompanhar nosso ciclo menstrual e o ciclo da lua. A partir de anotações relacionadas às mudanças físicas, emocionais, mentais e energéticas do corpo, fica mais fácil perceber as quatro fases desse ciclo — a menstruação, a pré-ovulação, a ovulação e a pré-menstruação. “Nascemos em uma cultura que é baseada em ciclos solares e masculinos, que menospreza os ciclos femininos e lunares. O resgate da conexão com o ciclo menstrual é o resgate do poder feminino, é empoderamento sobre nosso corpo e nossa fertilidade, é honrar e fortalecer a nós mesmas e a todas as mulheres”, segundo as próprias palavras de Ariadne.

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Mulherada reunida ❤

A segunda roda, “Conversa sobre museus e feminismo”, foi orientada por Laurem Crossetti, que é daqui de Brasília mas atualmente mora em Portugal. Ela é formada em Artes Visuais pela UnB e é especialista em Arte e Cultura, mestre em Estudos Curatoriais e atualmente desenvolve pesquisa de doutorado na Universidade do Porto. Laurem é também uma das idealizadoras do projeto Nós e o mundo, que reúne arte e literatura do Brasil e de Portugal (tem texto meu na série de cartões postais editada por eles, aliás. Entrem na lojinha do site pra ver – e comprar, heh). A conversa teve como base a seguinte pergunta: quais relações podem existir entre os museus e o feminismo?

Confesso que, embora os temas fossem muito atraentes, fiquei com medo de deixar minhas convidadas falando sozinhas. Será que as pessoas iriam querer bater papo no sábado ao invés de ficar em casa de pernas pro ar? Ainda mais com o calor que estava (e ainda está, socorro) fazendo em Brasília… Fui recebendo diversas inscrições por e-mail e me tranquilizando e, no dia, tudo correu bem. Ufa! Mulheres maravilhosas apareceram para contribuir e trocar ideia. Foi bonito demais, sério, fiquei emocionada. Na primeira roda, compartilhamos informações sobre nosso corpo, ciclo, saúde física e psicológica, anseios, angústias, felicidades, tristezas… Já na segunda, falamos de aspectos mais amplos, relacionados à representatividade, espaço e voz no mundo das artes.

Ambas montaram banquinha no evento, que contou também com a participação de mulheres dos quadrinhos, artes plásticas, cinema e artesanatos diversos. Tinha também gente vendendo coletor menstrual, docinho, tatuagem removível, adesivos e imãs com imagens feministas, etc. O foco principal foi no que é único, artístico, criativo e independente, porque apoiar o que é feito localmente é apoiar a economia local. E apoiar as mina é fortalecer as mina! Tive a oportunidade de conhecer não só um monte de gente legal, como também um monte de trabalho maneiro (nota mental: um dia preciso fazer uma compilação de trabalhos interessantes realizados por mulheres para divulgar aqui, a cada dia descubro algo novo). Até hoje tem gente entrando em contato comigo para mostrar ações, trabalhos, pedir sugestões, indicações… Aliás, o som do evento foi bem elogiado e acho que vou até tirar a poeira do meu perfil no 8tracks.

Durante o VULVA LA REVOLUCIÓN! rolaram brincadeiras também. Fizemos a PEPEKA MALUKA, uma vagina gigante com um buraquinho, pra acertar bolinhas coloridas dentro (a criançada adorou), e uma piñata literalmente escrota, para liberar as tensões causadas pelo sistema patriarcal, rsrs. QUEM NUNCA QUIS BATER EM UM SACO ESCROTAL COM UM TACO DE MADEIRA QUE ATIRE A PRIMEIRA PEDRA11!

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Em uma breve troca de e-mail com a galera da Universidade Livre Feminista, recebi uma dica importante: faltam relatos e sistematizações de experiências que incentivem atividades semelhantes. Por isso estou fazendo esse post aqui, ainda que uma semana depois do evento. Porque quero que mulheres & garotas que me leem saibam que é mais possível e viável do que parece organizar atividades coletivas e presenciais. Dá trabalho, mas vale a pena e é super divertido e enriquecedor. Mesmo nos meios alternativos ainda é raro termos a nossa voz colocada em primeiro lugar, até mesmo esses espaços acabam nos usando como isca, produto ou objeto de decoração. Então é muito importante que a gente se reúna e saiba o que a outra está fazendo, pensando, sentindo. Dessa forma, construímos redes de apoio, amizade e divulgação que passam a correr fora dos meios de ~broderagem~ e necessidade de aprovação masculina. E, olha, só posso dizer que a sensação de ver essas redes surgindo é tipo respirar ar fresco na praia depois de tanto tempo sufocada dentro de um quarto abafado.

Mas, para isso, é preciso também que a gente abandone vícios da socialização feminina, como a rivalidade e a implicância. Isso não significa todas nós temos que nos tornar melhores-amigas-para-sempre, e sim que precisamos começar a enxergar umas as outras com respeito e como seres humanas criativas, fazedoras e capazes, e não como “ain, aquela vaca que beijou o meu namorado em 1997” ou “a mina que usa o cabelo de um jeito estranho” ou “aquela que é metida pra caralho”, sei lá. Deixem os estereótipos rasos para as pessoas rasas, só o regime machista em que vivemos ganha com mulheres desunidas. O isolamento nos aliena de nossa própria condição de isoladas – e confinadas, vigiadas e controladas.

Se reunir fora da internet é fundamental. Não adianta só falar de representatividade, a gente precisa é construir essa representatividade nos espaços presenciais (e é ali, no olho no olho, que você vai descobrindo com quem pode contar). Ainda que um pequeno encontro possa parecer algo muito irrelevante, imaginem o peso de milhares de minas realizando pequenos encontros. Eu era apenas uma adolescente na primeira vez em que fui em um rolê de mulheres ouvir sobre assuntos específicos de nossas vivências e isso abriu muito os meus olhos. Eventos de certa forma pequenos, não em importância, mas talvez em alcance, causaram grandes mudanças em mim. Infelizmente já aconteceu de macho vir me dizer “ah, mas é só uma festa” ou “é só um rolê” quando o assunto era esse tipo de evento, mas eles não sabem o que é passar a vida inteira tendo que aturar o ponto de vista deles sobre nós até mesmo em lugares onde as coisas supostamente deveriam ser diferentes. FáCiL FaLaR, DiFíCiL SeR eU, ok? A vibe do VULVA LA REVOLUCIÓN! foi muito leve, agradável e acolhedora, graças a todo mundo que participou. Valeu demais, galera.

Mais fotos aqui.

Além de Facebook e Twitter, a Vulva Revolução agora também tem Instagram! 🙂

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A piada de Alexandre Frota é ele mesmo

Vamos relembrar uma história?

No começo deste ano, Alexandre Frota se meteu em uma “polêmica” por conta de uma entrevista concedida para algum programa ruim de televisão que estava sendo comandado por Rafinha Bastos (aliás, o programa era tããão assistido que uma entrevista de 2014 só foi repercutir em 2015). Na ocasião, ele narrou um estupro violento e deixou muita gente atônita. Aqui é possível assistir o programa na íntegra (a história do estupro começa aos 26 minutos). Porém, cuidado para o seu cérebro não derreter! É quase uma hora de machos sem inteligência alguma discutindo o nada, e eles ainda plagiam de forma totalmente sem graça o duelo de dança do filme “American Pie 3”. O retrato da televisão aberta: vazio e sem criatividade. Depois não diga que não avisei…

Muitas notícias dizem que Alexandre Frota narrou um “suposto estupro” na televisão. No entanto, embora eu entenda que jornalisticamente se deve usar “suposto” quando as pessoas não foram condenadas e não existem provas, até mesmo para se precaver judicialmente, o que Frota narrou foi um estupro. Ele é que é um “suposto estuprador”, pois não existem provas do crime e agora ele diz que tudo aquilo foi piada. Mas o que foi narrado É a descrição de um estupro.

Essa matéria aqui é uma das que mostram a comoção que foi gerada nas redes sociais na época  (mãe, tô no print!).

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Bastos me respondendo no Twitter o clássico foi ~só uma piada~

O contexto da treta

Ano passado, Frota estava em cartaz com um “espetáculo” (se é que podemos chamar assim) no formato stand up chamado “Qual é o negócio?”. De acordo com diversos sites de agenda cultural e venda de ingressos, “é um espetáculo de humor, um ‘stand-up da vida real’, com histórias reais, onde Alexandre Frota, ator, apresentador, diretor de TV, e artista multimídia, conta com muito humor histórias incríveis de bastidores da TV, do teatro e de sua vida polêmica” (alguns exemplos aqui, aqui e aqui).

Vou explicar algo que pode ser muito básico e óbvio pra muita gente, mas que nem todo mundo sabe, principalmente quem não está envolvido com comunicação, cultura e/ou empreendedorismo: quando um espetáculo é lançado, são disparados releases pela própria assessoria de imprensa do evento, com informações gerais. Muitos sites, revistas e jornais acabam usando trechos desses releases, ou eles na íntegra mesmo. Se não usam, ainda assim, coletam informações com a própria assessoria ou produção do evento. LOGO, essas informações são do próprio evento, ok?

E se o stand up “Qual é o negócio?” foi amplamente veiculado como composto por histórias reais, como que Frota se defende dizendo que o estupro que ele narrou é “apenas uma piada” para divulgação do stand up dele? Não faz sentido.

Inclusive, durante a entrevista no programa de Bastos, Frota diz que não sabe fazer stand up (concordo) e que o espetáculo dele é de humor, autoral e B-I-O-G-R-Á-F-I-C-O. Ele afirma que são várias histórias que ACONTECERAM NA VIDA DELE e, para exemplificar, começa a contar quando “comeu” uma mãe-de-santo. Aí que começa toda a “polêmica”. Segundo a história que ele conta, enquanto ele e a mãe-de-santo interagiam, ele ficava pensando se ela era interessante ou não, se “dava jogo” ou não.

Ele decidiu que iria “comê-la” sem sequer ter rolado um clima, só olhou pro “bundão” dela e pensou: “vou pegar”. Ainda segundo a história, Frota disse pra ela que não acreditava “nessas paradas” (nos lances religiosos e tal), mas que queria dar uns “pegas” nela. Daí ela fica sem falar nada (consentimento, cadê?) e ele simplesmente vira ela, coloca de quatro, agarra pela nuca e começa a “sapecar”. Frota disse que fez tanta pressão na nuca dela que ela… “Dormiu”! E então ele e Rafinha Bastos morrem de rir do fato de a mulher ter sido “apagada”.

Frota encerra essa ~piada engraçadíssima~ contando que foi embora e deixou a mulher lá, jogada. É deprimente. E, além disso, esses dois idiotas ridicularizam o tempo inteiro o fato de ela ser uma mãe-de-santo e fazem vários comentários jocosos & preconceituosos envolvendo “macumba”, farofa, essas coisas.

"O negócio é comer cu e buceta, cu e buceta... À força!"

“O negócio é comer cu e buceta, cu e buceta… À força!”

Essa “polêmica” toda (coloco sempre entre aspas porque acho ridículo que muita gente trate esse assunto como mais uma excentricidade de Alexandre Frota e não como algo muito sério) mostra a necessidade de se discutir urgentemente – e de forma cada vez mais ampla – o que é consentimento. Estamos em 2015, e ainda temos que explicar que transar com alguém à força e DESACORDAR ESSA PESSOA é estupro, gente. É revoltante demais.

Muitas mulheres ficam paralisadas em situações de violência, outras tentam se defender e, mesmo assim, não conseguem escapar. Se as pessoas não conseguem ver nessa história que uma mulher, que estava interessada em usar apenas seus conhecimentos e crenças para auxiliar alguém, foi violentamente estuprada e desrespeitada, eu realmente não sei qual é a concepção de estupro para esta sociedade então. Se ele precisou segurar a nuca da mulher tão forte a ponto de ela desmaiar, isso já é um dos grandes indícios da falta de consentimento, por exemplo.

E a tentativa de Frota de subestimar a inteligência de quem o critica chega a dar dó, se não fosse algo trágico. Já assisti muitos stand ups e me interesso muito por roteiro em geral. Para Alexandre Frota e Rafinha Bastos, aquele ~causo~ mal contado pode ser considerado um sketch humorístico, mesmo?

Não que eu não duvide que eles realmente achem que aquilo é humor, infelizmente. Muitos humoristas brasileiros disfarçam a própria incapacidade de construir uma narrativa interessante com piadas para crianças da quinta série, tipo “ai, sua mãe é tão gorda que comeu a própria cabeça e explodiu hua hua hua hua”. Mas, ainda assim, aquilo não é um sketch. É claramente Alexandre Frota contando uma história pessoal em um programa de entrevista, como costumam ser programas de entrevista. E ELE MESMO DIZ QUE O STAND UP DELE É BIOGRÁFICO, CARAMBA!

Juntando as peças

Ainda que o relato fosse ~só uma piada~, o que não acredito (pode ser uma história contada com alterações, omissões & ênfases, mas a essência parece real), ser ~só uma piada~ não torna as coisas isentas de discussão, oras. É rindo que vários preconceitos e violências são mantidos. E, pra ser sincera, não consegui identificar onde está a comédia da história até hoje. Tipo, piadas costumam ter algum ponto de surpresa, de virada de história, sei lá. Aquilo ali é só um cara se vangloriando por ter dominado uma mulher. Pior ainda, uma mãe-de-santo, oh!

Mas não acaba aí. Em 2004, Frota foi acusado de estupro por uma prostituta. Ela alega que foi ameaçada e teve que fazer sexo sem preservativo com ele. O caso não foi pra frente, o que não me surpreende. Nem toda prostituta pode se expor, e o caso estava ganhando notoriedade midiática. E nossa sociedade não se importa nem um pouco com violências cometidas contra prostitutas, infelizmente.

Aqui, aqui, aqui e aqui é possível ler sobre o assunto.

E mais. Nessa entrevista aqui, Rita Cadillac conta que, quando foi contracenar com Frota em um filme pornográfico, precisou colocar uma cláusula especial no contrato, porque ele tinha fama de bater nas atrizes. E após o filme, ele fez comentários pejorativos sobre a idade dela. Nada de novo sob o sol:

iG: O Alexandre Frota, que fez um dos filmes com você, disse há pouco tempo no programa do Danilo Gentili que contracenar com você foi “o maior erro” porque “parecia que estava transando com minha avó”. O que você achou disso?
Rita Cadillac: Eu gosto da pessoa Alexandre Frota, não do personagem Alexandre Frota. Não sei por que ele esta falando isso: eu ganhei bem e ele também. Como a fama dele era péssima, eu mandei colocar no meu contrato que, se ele encostasse a mão em mim para me bater, eu ia embora na hora.

iG: E por que isso?
Rita Cadillac: A fama dele na época é que ele batia, entendeu? Eu tinha medo que ele não me respeitasse e acabasse comigo.

Caso você esteja se perguntando o porquê de não vermos notícias sobre violências em sets de filmes pornográficos, vale relembrar: se a sociedade não liga para prostitutas, vai ligar para mulheres que estão fazendo filme pornô? E críticas à esse meio são comumente vistas como “moralismo”, mesmo que estejam geralmente problematizando a violência sofrida por  mulheres. Tanto que já vi muita gente perguntando “ah, cadê essa mãe-de-santo então?”, bem como muita gente deve estar se perguntando agora onde estão as atrizes que apanharam dele ou a prostituta que ele ~supostamente~ coagiu. Não é simples assim colocar a cara à tapa, principalmente se você é uma mulher marginalizada pela sua profissão, religião, cor, condição social, etc. E muitas mulheres que conseguem criar coragem para denunciar abusos são chamadas de aproveitadoras, oportunistas e/ou mentirosas, que é o que Frota está fazendo agora com…

Frota x feministas

…Sâmia Bonfim, uma militante feminista que foi pega para ser bode-expiatório (porque, convenhamos, ela não é a única que acha que ele é um estuprador) e está sendo processada por ele. Ela fez um evento no Facebook reunindo pessoas que ficaram indignadas com a declaração dada por Frota e, em abril, ele tentou intimidá-la por mensagens, como pode ser visto aqui nesse link. Em julho, ela revelou que está sendo processada, por ele, por calúnia e difamação. Estranho, não? Pois, relembrando, ele mesmo disse várias vezes que as histórias do stand up dele são baseadas em fatos reais. Leia aqui  e aqui a história completa do processo.

Em muitos casos de violência contra a mulher, os caras já eram notoriamente misóginos, violentos e abusivos. Eles costumam mostrar, pela forma que agem e falam, o desprezo que possuem por mulheres. Tanto que, até hoje, Frota sequer conseguiu ver o absurdo de sua declaração e nunca articulou uma resposta decente ao debate que foi gerado. Os questionamentos gerais envolvem estupro, consentimento, preconceito religioso e possivelmente racial (visto que muitas pessoas praticantes do Candomblé são negras), entre outros. Ele só bate na mesma tecla: piada, piada, piada, piada.  Frota pode falar o que quiser, mas as mulheres não podem dizer o que pensam?

Agora, além de continuar recebendo migalhas de atenção midiática por conta do processo que está movendo e mantendo o nobre status de subcelebridade decadente, Frota resolveu transformar a questão em um embate contra as malvadas feministas. Fácil, né? Mulheres já são loucas e exageradas, segundo o imaginário popular. Feministas, então, pior ainda. Então claro que todas essas mulheres que alegam coisas contra ele (e muitas outras que devem existir mas nunca vieram à tona) são apenas umas “loucas”… O que são os relatos de várias mulheres contra a palavra de um homem, não é mesmo? E o comportamento dele mostra como ele ama mulher (só que nunca).

Ser misógino não é ser autêntico, ao contrário do que ele pensa. Até porque a misoginia é epidêmica e praticada de forma generalizada.

A piada de Frota só pode ser ele mesmo.

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Clique aqui para participar de campanha de apoio à Sâmia Bonfim.

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Leia também: “Estupro é invenção de maluca”

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Escrevendo sobre escrever

Este é um texto sobre escrever. E sobre mim. O que consequentemente acaba sendo um texto sobre eu escrevendo também. Talvez seja um pouco mais pessoal do que de costume e, por isso, essas primeiras linhas estejam tão cheias de enrolação. Estou ganhando tempo. Nunca é fácil falar sobre si mesma de forma objetiva, direta.

Aprendi a ler aos cinco anos. Na sala de aula, eu era deliberadamente excluída das atividades pela própria professora, porque já sabia ler. Estranho, né? A primeira palavra que li na vida, aliás, foi ca-ma, desse jeito assim, separadinho. Lembro exatamente do momento. Fiquei muito orgulhosa e feliz. Sempre gostei muito de livros e acho que é muito positivo rodear crianças com eles, sem ficar forçando a barra para que elas leiam x ou y. Antes de sequer ter completado a maioridade, eu já tinha lido livros maravilhosos para crianças e adolescentes de autores como Lygia Bojunga, Maria José Dupré, Pedro Bloch, Pedro Bandeira, Suzana Dias-Beck, entre outros, bem como várias revistas MAD, Chiclete com Banana e Bundas, biografias do Van Gogh e Chico Buarque e as clássicas revistinhas da Turma da Mônica, Disney, Luluzinha, etc. Não posso dizer se o contato indiscriminado com materiais “apropriados” e “inapropriados” foi positivo, porque é relativo. No entanto, afirmo que, no fim das contas, me tornei, no mínimo, uma pessoa muito sagaz e com um ótimo senso de humor.

Além de ler, sempre gostei de criar, escrever, desenhar. Fiz de tudo na infância: textos, ~programas de televisão~ e histórias em quadrinhos. Fui crescendo e começando a me achar menos capaz, mas ainda assim continuei colocando a criatividade em prática de diversas maneiras. Dizia sempre que seria jornalista (“igual minha mãe”) e, apesar de ter passado um tempo estudando moda, logo percebi a cilada em que havia me metido e acabei me formando em jornalismo mesmo – que, de certa forma, é uma cilada também. Ah, o sistema…

Atualmente, atuo como assessora de comunicação. E escrevo coisas pra mim, pra projetos independentes de amigos, pra blogs e, claro, aqui na Vulva. Gosto também de grupos online de discussão, embora esteja menos ativa nos últimos tempos. E continuo lendo bastante. Ainda assim, sempre tive dificuldade em verbalizar que quero ser uma… escritora. Me parecia algo pretensioso para se almejar. Nunca me senti culta o suficiente, boa o suficiente, produtiva o suficiente, interessante o suficiente. E olha que sempre fui elogiada pelas pessoas ao meu redor e não tenho nenhuma grande história de falta de apoio ou represália familiar. Imagina quem tem?

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Quadrinho de “O mundo de Julhelena”

Mais do que isso. Tenho também o privilégio de ter sido ~bem alfabetizada~, logo, o meu texto não me causa embaraço por conta de erros e as pessoas não julgam minha inteligência baseadas apenas em minha gramática. A sociedade acaba tratando como inferior quem não teve acesso à educação formal, ainda que existam mil maneiras de uma pessoa ser inteligente – e que seguir regrinhas não signifique necessariamente ser inteligente (caso contrário, não existiria tanta gente com doutorado falando besteira por aí).

Estou sempre escrevendo alguma coisa. Ainda que de forma espaçada ou, ás vezes, sem gostar tanto do resultado. Eu tinha um hábito terrível de jogar fora textos, desenhos e outras coisas feitas por mim, e isso acontecia por diversos motivos: medo de ter o meu ~interior~ exposto, caso alguém mexesse em minhas gavetas, medo de ter minha complexidade & subjetivo definidos por um conjunto de palavras péssimas ou rabiscos horríveis, etc. Já cheguei a pensar coisas absurdas tipo “imagina se eu morro e alguém acha essas coisas”.

Este blog é a primeira coisa que eu faço que tanta gente lê. Só consegui porque comecei a divulgá-lo por um perfil de Facebook que não era o meu pessoal, era um fake também chamado Vulva Revolução — minha persona online feminista, de certa forma. Todos os blogs anteriores foram apagados e/ou mostrados pra um número restrito de pessoas. Sempre me senti muito insegura.

E escrever nesses tempos de internet é algo muito confuso. Sou bastante lida e debatida. Pra um blog independente que é tocado nas minhas horas vagas e que não tem dinheiro, anúncio ou compromisso com periodicidade, só posso comemorar o meu alcance e os textos que se tornaram virais e até hoje me trazem milhares e milhares de visitantes. Além disso, tive e terei textos de outros tipos publicados em outros projetos — tanto online quanto “físicos”. Só que nunca publiquei um livro, por exemplo. Nem escrevi com frequência em um jornal ou portal de forma não necessariamente jornalística.

Daí fica a dúvida: sou ou não sou uma escritora? Qual o limite que separa o ser do não ser?

Tem um pessoal da fotografia que reclama que hoje em dia todo mundo pode ser fotógrafo. Uma galera de várias outras profissões faz reclamações parecidas. As facilidades tecnológicas somadas ao alcance que a internet permite que as coisas tenham coloca qualquer pessoa mais próxima de ser uma FAZEDORA e não mais uma mera consumidora de produtos culturais alheios. Todo mundo pode fazer tudo (teoricamente, pois tecnologia e educação não são coisas democratizadas ainda), inclusive escrever. O tanto de blog, site e textão-no-face por aí nos mostra isso. Eu acho ótimo.

Ainda assim, não consigo responder a minha própria pergunta.

Só sei que é preciso fazer. Botar a cara no sol, mona, e mostrar o que está sendo feito. Demorei algum tempo pra me enxergar como capaz de produzir material interessante e/ou relevante (pelo menos dentro dos meus próprios conceitos), como FAZEDORA. Mesmo ciente das minhas capacidades (e todas as pessoas são capazes, realmente acredito nisso), uma voz interna constantemente me falava “você não vai conseguir”, “você é ridícula”. Isso é paralisante e domar essa voz é um sacrifício. Nós, mulheres, somos ensinadas a ficar caladas, quietas, inclusive no que diz respeito à produzir artística ou intelectualmente (muitas mulheres sequer possuem tempo para se desenvolverem nesses aspectos, já que, além da autoestima machucada, precisam trabalhar, cozinhar, cuidar de casa, filhos, maridos, irmãos, etc). Somos ensinadas a ser modestas quando obtemos sucesso com algo, a menosprezar nossos feitos. “Ah, faço umas coisas aí”, “escrevi um lance, mas nem ficou tão bom”, “tô tentando desenhar”, “acho que quero tirar umas fotos” e frases do tipo são comuns. A gente ás vezes nem deixa a outra pessoa interpretar o que a gente faz direito e já vai falando mal do nosso trabalho, numa humildade subserviente que só contribui para nos manter em um papel secundário dentro da sociedade. Usamos palavras que causam a impressão de descrença, incerteza e dúvida. Mas não é nossa culpa. Uma mulher que se comporte da mesma forma confiante que um homem logo é chamada de metida, escrota, prepotente e assim vai. E nem todas possuem paciência ou estutura emocional pra lidar com essas pedradas que muito cara que sempre teve espaço pra fazer merda e experimentar com muito mais tranquilidade categoriza como “frescura”.

Acredito que quem tem privilégio e poder quer se manter assim, logo, existe uma força que busca manter pessoas oprimidas em seu ~devido lugar~. Por isso muitas mulheres, pessoas negras em geral e outros grupos minoritários precisam provar milhões de vezes a mais que são bons em algo para conseguir algum espacinho — isso quando conseguem! Quantos rapazinhos branquinhos de classe média que fazem um trabalho mais ou menos e se consideram grandes artistas vocês já não viram por aí? Vamo combinar: vários, vários e vários. E eles nascem com tanta certeza de que foram feitos pra brilhar, que acabam convencendo muita gente, mesmo que só façam merda. Porque é cultural, eles já são a “cara” da arte, da cultura “superior” (bleeeeergh) e do sucesso.

Muitos homens tentam me “aconselhar” sobre como eles acham que eu devo tocar os meus projetos ou escrever no meu blog. A Grimes já falou sobre como muitos caras se ofereciam pra produzir os trabalhos dela, como se ela precisasse deles:

“Estou cansada de homens que não são profissionais ou nem mesmo músicos de sucesso continuamente me oferecendo ajuda (sem eu pedir), como se eu tivesse feito tudo que fiz por acidente e fosse cair sem eles, ou como se o fato de eu ser mulher me tornasse incapaz de usar tecnologia. Eu nunca vi esse tipo de coisa acontecer com meus colegas do sexo masculino” — tradução livre de um trecho desse texto que ela postou no Tumblr, em 2013.

     “He was just another man trying to teach me something”

Não vou dizer que não tenho conselheiros, porque eu tenho sim uma rede muito legal de homens e mulheres que me apoia, critica, opina e ajuda MUITO em várias coisas. Mas daí existe uma diferença enorme entre eu contar com minha rede de contatos e querer ajuda de qualquer homem que apareça pela minha frente com alguma dica furada que nunca funcionou sequer pra ele só porque ele quer se aproximar, elogiar, fazer parte mas é orgulhoso demais pra se “rebaixar” e assumir. Afinal, posso ser inteligente, mas ainda sou uma mulher, né?

E isso é um outro “problema” pra muita gente que me acompanha. “Ah, legal, milhares de acessos… Mas pena que a maioria é de mulher”. Já ouvi diferentes versões dessa frase várias vezes, vinda de homens e de mulheres também, infelizmente. Parece que existe um mito vigente de que mulher não tem discernimento, então a validação dela não importa. O que eu fizer só vai ser considerado bom de verdade quando rolar uma maioria de homens apoiando. Porém, a Vulva Revolução já diz no nome a que veio, não é mesmo? E é estranho como assunto de homens é universal, mas assunto de mulheres é “mimimi-coisa-de-mulher”. As vivências específicas de corpos do sexo feminino são negligenciadas, um reflexo da forma com que esses corpos são vistos: inferiores.

E tem aquelas pessoas chatas, que acham que você precisa ter lido x, y ou z (geralmente x, y ou z são todos machos brancos que vem sendo endeusados há anos, décadas, séculos) para ~ser alguém na noite~. Claro que muitas obras tidas como ~cânones~ possuem muito valor e são realmente incríveis, inteligentes, atemporais, surpreendentes (embora existam também as que são datadas, inúteis e cheias de preconceito, mas não se pode nem criticar porque, ohhh, é um clássico). No entanto, acredito que essa mania de endeusamento que a nossa sociedade tem contribui pra um cenário em que as pessoas ficam o tempo todo falando das mesmas coisas e marginalizando outras que podem ser sim muito interessantes. Tem discussão que me parece mais uma masturbação coletiva do que uma troca real de ideias.

O que quero com esse texto é incentivar outras mulheres a abandonarem a auto sabotagem. Não tô dizendo pra gente virar um bando de cuzona prepotente que nem milhares de caras por aí. Mas pra gente aprender a aceitar elogios, a destacar nossas qualidades, a estudar e se aprimorar mais e mais, cientes de que somos capazes e a lidar com os nossos defeitos e com a imperfeição de tudo que iremos produzir — nada é perfeito! Gostaria que a “cultura da inimiga” acabasse, e a gente começasse a se articular mais e mais com nossas colegas (eu tenho feito muito isso, é maravilhoso), porque produções coletivas ajudam muito no campo da visibilidade, motivação, força e qualidade. Divergências acontecem, mas isso nem sempre precisa ser um impeditivo para a união entre pessoas que querem fazer coisas parecidas.

E aproveitando o momento presente, me despeço.

Escrevendo bem e sem modéstia.

Faça o mesmo você também!

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Dica:

Recomendo a leitura do texto “A insustentável existência do outro”, que fala sobre mulheres escrevendo, especificamente em um ambiente literário. É muito interessante:

Pergunto então à Regina Dalcastagnè se houve alguma recepção negativa às conclusões de sua pesquisa sobre os “territórios contestados” da literatura brasileira contemporânea. Ela responde com outra questão: “De um modo geral ela foi recebida com muito interesse. Houve algumas leituras equivocadas, como se eu estivesse defendendo uma espécie de patrulha literária ou propondo um manual do romance politicamente correto. Então, alguns escritores e críticos reagiram, brandindo o valor ‘universal’ da literatura. Eu questiono essa ideia de valor universal, a ideia de que uma obra literária é algo fora do tempo e do espaço. Mas mesmo que aceitemos isso, fica a pergunta: por que esse ‘universal’ só é atingido em narrativas sobre intelectuais de classe média? Por que as mulheres pobres, negras, da periferia estão ausentes do ‘universal’?”

Em tempos de identidades manipuladas a favor de neoapartheids e do medo do outro, questionar o que é “universal” e a quem ele serve pode ser o começo de tudo. O elefante começa a se mover na sala de cristal, onde o senhor “universal” repousa inabalado. E para efeito da criação, é sempre bom escutar o barulho das coisas se quebrando.

Leia completo aqui.

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Mulheres não gostam de sexo ou homens não gostam de mulheres?

Antes de começar esse texto, gostaria de dizer que ele é voltado para relações entre mulheres e homens. E gostaria também de deixar duas frases em destaque:

  • Mulher “dá” quando ela quiser. Ou seja, pode ser no primeiro encontro. Ou no décimo. Ou nunca.
  • Ele só quer transar com você? Cai fora.

Como assim?

Por que estou escrevendo estas coisas? Bem, tenho visto muitos textos circulando por aí enfatizando que mulheres que se relacionam afetiva e sexualmente com homens podem “dar” no primeiro encontro sim. Outros dizem que é de boa que os homens só queiram sexo, se isso for o que a mulher quiser também. Que mulheres também sentem tesão. Etc. Não vou citar nenhum texto específico, porque meu intuito é falar de um problema generalizado, que é algo muito bem explicado nesse texto aqui: “A falácia da liberação sexual e as novas formas de dominação”.

Vejam bem, o fato de que mulher também sente tesão nem deveria estar em jogo. Os problemas que alguns seres humanos vivenciam hoje em dia no âmbito sexual não acontecem por essa questão, em geral (embora exista quem acredite que sim). A maior parte das pessoas – do sexo masculino ou feminino – sente desejos sexuais, se excita e possui a capacidade de alcançar orgasmos. No entanto, construímos narrativas sexuais diferentes para cada sexo. Basicamente, é aquele clichê: o homem tem que ser o garanhão e a mulher uma “dama recatada”. Essa pobreza de nuances deixa todo mundo no prejuízo – principalmente as mulheres, claro. Os homens podem sofrer com problemas eréteis, ejaculação precoce (uma sexóloga me disse uma vez, em uma conversa informal, que a maioria desses problemas é de origem psicológica) e uma pressão tremenda para corresponder a papéis que eles não querem ou conseguem. Mas, ainda assim, se na sociedade como um todo o poder é deles, todos os espaços acabam reproduzindo isso, o que engloba relacionamentos amorosos/sexuais. Logo, as mulheres, por estarem na parte inferior da hierarquia de gênero, estão infinitamente mais suscetíveis a abusos e violências.

(Sem contar que a ideia de “sexo”, no geral, é baseada principalmente no pênis-penetrando-a-vagina, o que torna a vivência sexual de todo mundo pouco ampla).

Se relacionar com homens é um constante risco

O sexo, na vida da mulher, é algo vivenciado de forma muito mais coercitiva e amedrontadora. Tipo, ela não pode transar, porque vai ser chamada de vadia, ao mesmo tempo em que tem que lidar, o tempo todo, com homens forçando a barra para transar com ela – ás vezes, os mesmos que vão chamá-la de vadia depois. É um ciclo confuso. E tem o fato de que ela é induzida a acreditar que o próprio valor vem da sua aparência e da sua capacidade de despertar desejo sexual, embora ela não queira ser resumida apenas a um corpo. E os discursos de liberação sexual buscam desconstruir toda a “repressão” da mulher como se ela fosse ~naturalmente~ reprimida, e não a sociedade que tentasse controlar o corpo dela (mas esquecem de falar da violência do homem). Daí surge um outro paradigma, que é a mulher que faz muito sexo mesmo, que não está nem aí. Porém, ainda assim, a problematização da violência masculina continua de lado e todas as mulheres, independente do que façam, continuam vulneráveis à situações desagradáveis e até mesmo criminosas (infelizmente são muitos os homens que acham que existe diferença entre sexo sem consentimento e estupro, por exemplo).

Quando falo de violência, não me refiro apenas a sexo forçado e outros atos explicitamente violentos. Estou me referindo também a violência psicológica, que se manifesta por meio de mulheres sendo chantageadas, isoladas e difamadas por conta de conduta sexual, mulheres transando sem querer transar, incitação à baixa autoestima feminina, controle e manipulação de corpos e comportamentos das mulheres, entre outras coisas.

Homens são ensinados a objetificar as mulheres

Vamos lá: a socialização do homem envolve a objetificação da mulher e o esvaziamento do subjetivo dela. Muitos homens, por exemplo, conseguem transar com mulheres que desprezam apenas pelo simples prazer de “conquistar” um novo “território”. Não vamos fingir que isso não acontece. A mulher, para ele, é uma coisa, e quanto mais coisas um homem conquista, mais poderoso se sente. Então quando um homem quer só sexo com uma mulher, eu aconselho que ela mantenha os olhos bem abertos.

“Deixa de ser moralista, aff”, você pode estar pensando. Eu já pensei assim também. É muito comum que misturem conservadorismo e críticas à desumanização da mulher em um mesmo balaio, para que a gente se sinta constrangida, chata e uncool e deixe esse papo de querer ser respeitada pra lá (a forma que as críticas contra a pornografia são tratadas são um belo exemplo disso).

Só que, hoje em dia, eu não acredito em “só sexo” (acho que nunca acreditei, na verdade). Com isso, não quero dizer que todas as relações devam se transformar em casamento-felizes-para-sempre. Por favor, né? Quero dizer que quando um homem diz querer só sexo com uma mulher e não se interessa pela maravilhosa pessoa que existe ao redor da vagina dela, isso é sim objetificação. Isso é resumir a mulher a um buraco de prazer (pra ele) cuja opinião ou pensamento não faz diferença. Como postei no Twitter um dia desses:

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Tanto que não são poucos os relatos de mulheres que praticam sexo casual e afins e depois são maltratadas e ignoradas na rua pelos rapazes com quem se relacionaram. Oras, a função delas foi cumprida, o que mais querem? Amizade? Respeito? Isso é algo que só os bróders e as minas-perfeitas-que-não-transam-cagam-falam-andam-opinam (ou seja, nenhuma) merecem, né?

Então, analisando todo esse cenário, é perfeitamente entendível porque muitas mulheres ainda tenham receio de “transar no primeiro encontro”. Uma simples trepadinha pode transformar uma mina na mártir-da-liberação-sexual-feminina e, gente, que preguiça desse alarde, né? Correr o risco de fazer um sexo que nem vale a pena e ainda ter que aturar isso se transformando em um grande embate ideológico cheio de ataques e defesas é de deixar qualquer uma sem vontade alguma de tirar a roupa. Muito drama pra pouca trama.

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“–Como que uma simples trepadinha pode render tanta dor de cabeça? Aff”

Acho que precisamos parar de pressionar as mulheres a transarem mais – ou menos – e começar a pensar nos homens. Por que eles separam mulheres em categorias? Por que eles acreditam que uma mulher só deve ser respeitada se “merecer”? O que é “merecer”, aliás? Por que dizem que não querem rótulos mas anseiam em rotular certas relações como “só sexo” já de cara? Por que eles tratam mulheres como objetos sexuais e não como seres humanas completas, capazes e interessantes? Por que eles riem e se gabam de histórias em que fizeram mal às mulheres (vide o caso recente do nojento do Alexandre Frota relatando praticamente um estupro em rede nacional)?

Ás vezes vejo discursos “empoderadores” incitando mulheres a transarem com quem elas quiserem e, bem, me parece uma forma de jogá-las aos leões, principalmente quando isso é dito para mulheres muito jovens (ainda mais se formos considerar que o número de predadores voando em cima de jovens é altíssimo. ATENÇÃO CARAS, usem a experiência de vocês pra construir algo que preste e não para manipular garotas inexperientes, vocês são ridículos).

Precisamos, primeiramente, conversar sobre consentimento, cuidado e respeito. Precisamos definir bem o que é “querer” e o que é “estar com a autoestima baixa e topar algo que não quer porque é o que tem pra hoje”. Precisamos definir que chantagem e coerção não são a mesma coisa que amor e desejo. Precisamos explicar que existem homens que rotulam mulheres de “putas” para que elas assimilem isso e fiquem com a autoestima ferida e estejam sempre disponíveis sexualmente. Ou fazem elogios frágeis e dizem que elas “são especiais” ou “não são como as outras” para que elas não se aproximem de mais ninguém e se sintam gratas por serem “valorizadas”.

É tudo muito mais complicado do que parece. Não é “frigidez”. Não é recato. Não é moralismo. É uma sociedade baseada em heterossexualidade compulsória e misoginia (e racismo, sempre bom lembrar), e que pratica um gaslighting sinistro contra a mulher, dizendo que ela precisa de homem, mas ela não pode transar, mas ela tem que satisfazer um homem, mas o corpo dela é sujo e imundo e fica cada vez mais sujo e imundo quando ela faz sexo, mas ela precisa fazer sexo, mas não muito, mas não pouco, mas não sem pênis. E o senso comum prega a existência de uma mulher infantilizada, sem pelos, maquiada, “sexy”, com a vagina cheirando a flores, com seios perfeitos, sem estrias, celulite, espinhas. É algo tão fora da realidade, que muitos homens se frustram com a mulher real e chegam a ter nojo dela.

Como eu já disse, é um tanto quanto confuso.

Então tá proibido transar?

Meu intuito aqui não é ser “anti-sexo”, mas discutir a forma que mulheres e homens se relacionam amorosa/sexualmente dentro de um regime machista. Muita mulher acha que, com o tempo, vai “mudar” o cara e fazer ele tratar ela direito e coisas do tipo. Temos que ser realistas: isso não acontece e não vai acontecer. E nem tinha que ser assim, porque mulher alguma deveria ter que provar ser “merecedora” de respeito. Os homens é que precisam começar a enxergá-las como reais e dignas de respeito em qualquer situação.

Para a segurança das mulheres, é preciso discutir sobre comportamentos masculinos recorrentes e danosos. Porque somos praticamente inseridas, sem conhecimento e sem consentimento, em relações desiguais e sádicas.

Logo, não estou contra o sexo, mas a favor do sexo bom de verdade, oras. Ou será utópico demais?

   “I believe in the radical possibilities of pleasure, babe”

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“A verdade inconveniente sobre Teena Brandon”

O texto a seguir é uma tradução enorme, feita com muito suor, sobre Teena Brandon  – ou Brandon Teena. Desde que assisti “Meninos não choram”, fiquei intrigada e passei a pesquisar mais sobre a história. Brandon queria realmente “ser homem”? Ou apenas não correspondia ao que se espera de uma pessoa que nasce com o sexo feminino? O que é “ser homem” afinal? E “ser mulher”? Ah, vamos lembrar que Brandon vivia no interior dos Estados Unidos, com diversas pessoas preconceituosas ao redor, não tinha condições econômicas favoráveis, sofreu abuso e estupro sem nunca ter tido seus traumas devidamente cuidados, internalizou diversos sentimentos ruins sobre si e era muito jovem.  Além disso tudo, os médicos pareciam querer se aproveitar da fragilidade e inadequação de Brandon para realizar experimentos em seu corpo.

Este artigo, de Carolyn Gage, escritora lésbica e feminista, traz análises sólidas, que ajudam a pensar em aspectos da história de Brandon que não são discutidos normalmente. Sempre me identifiquei bastante com a narrativa de diversos homens trans porque, como muita gente que nasce com o corpo do sexo feminino, eu sofri com disforia em diversos momentos da vida. E é realmente enojante o ~tratamento especial~ (pra não dizer abusivo e constrangedor) que se dá a corpos que possuem seios e vagina. Descobri que diversas amigas e colegas compartilham o sentimento, o que mostra que estamos em situações parecidas, mas lidando de formas diferentes. Mas isso é assunto pra depois.

O que Brandon realmente sentia ou queria nunca saberemos. No entanto, é válido pensar como a “casta sexual mulher” é aprisionante, aterrorizante e torna legítimo o acesso não autorizado aos corpos de sexo feminino. Leiam e digam o que acham. Os comentários estão abertos para críticas, opiniões e tudo mais.  Ah, como eu já disse antes, não sou nenhuma expert em tradução, então algumas partes podem estar confusas. Obrigada a todo mundo que ajudou, vocês foram fundamentais.

Segue o texto:

A verdade inconveniente sobre Teena Brandon

Carolyn Gage

Teena Brandon é lembrada nos dias de hoje como o transexual feminino-para-o-masculino vítima de um assassinato brutal motivado por transfobia. Quando ela tinha dezoito anos de idade, três anos antes de sua morte, foi aceita em um centro de crise como consequência de uma overdose, que pode ter sido intencional. No período, ela estava muito abaixo do peso por conta de um transtorno alimentar e tomava sete banhos por dia, com sete trocas completas de roupa. Bebia muito, enfrentou doze acusações pendentes de falsificação de documentos e uma possível acusação de agressão sexual contra uma menor de idade, estava sofrendo por conta de um estupro recente, não declarado e não tratado, e estava envolvida em um relacionamento sexual com uma menina de catorze anos de idade, no qual se passava por homem. Ela alegou aos terapeutas que, quando criança, foi vítima de abuso sexual durante anos, cometido por um membro da família do sexo masculino. De acordo com a pessoa responsável pela sua biografia, ela foi diagnosticada com “leve disforia de identidade de gênero”, e relatou aos amigos e amigas que uma cirurgia de mudança de sexo havia sido sugerida. Eu quero falar sobre uma verdade inconveniente. Eu quero falar sobre o fato da pessoa chamada Teena Brandon ter sido uma sobrevivente de incesto. Você não vai ouvir isso ser mencionado em “Boys Don’t Cry” (“Meninos Não Choram”), e não vai ouvir isso ser mencionado no documentário “The Brandon Teena Story” (“A História de Teena Brandon”). Você não vai ler sobre isso na edição atual da Wikipédia. É, como eu disse, inconveniente.

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Cena do filme “Meninos não choram”

“Inconveniente” significa “causando problemas ou dificuldades”. A verdade inconveniente sobre a história de incesto de Brandon causa problemas porque incorporar informação sobre abuso sexual infantil na narrativa de vida de Brandon patologiza a identidade transgênera que ela adotou e a fez se tornar um ícone. Isso é percebido como desrespeitoso e transfóbico — como um ataque à identidade de Brandon e uma tentativa póstuma de se apropriar da identidade da vítima.

Mas omitir a história de incesto de Brandon é desrespeitoso e fóbico para sobreviventes de abuso sexual infantil. Isso, inclusive, constitui uma tentativa póstuma de apropriação da identidade da vítima. Como uma sobrevivente, eu me sinto perturbada pelas histórias revisionistas de Brandon que omitem o status dela como uma vítima de abuso sexual infantil — e todas as verdades inconvenientes que, consequentemente, acompanham esse status.

Verdades inconvenientes tendem a permanecer desarticuladas, porque elas existem fora do quadro de referência em que foram estabelecidas. A primeira dificuldade que uma pessoa encontra ao falar sobre essa inconveniente verdade de Teena Brandon é a questão dos pronomes. Brandon foi sexualmente abusada como uma menina, nascida biologicamente fêmea, por um agressor adulto do sexo masculino que era um membro da família. O gênero da vítima e do agressor são detalhes clínicos importantes e fundamentais para o entendimento da agressão e do impacto dela em Brandon. Por isso, vou usar pronomes femininos para me referir a Brandon quando criança, ainda que, na vida adulta, Brandon se identificasse como homem. Isso coloca minha narrativa fora do protocolo aceitável para um diálogo respeitoso quando se fala sobre identidade trans.

Neste artigo, vou me referir a ela como “Brandon” porque, na vida adulta, ela escolheu adotar o sobrenome como primeiro nome. No título, usei o nome de registro, “Teena Brandon”. É uma outra verdade inconveniente que Brandon nunca tenha usado o nome “Brandon Teena”. Esse nome foi postumamente atribuído a ela, e então utilizado pela mídia. Era uma mentira conveniente, porque se tratava de uma inversão inteligente do nome de nascimento de Brandon, inverter o nome para corresponder com o gênero invertido. “Brandon Teena” é uma metáfora de experts em relações-públicas … e uma ficção.

O Incesto

Na biografia escrita por Aphrodite Jones, “All She Wanted” (“Tudo O Que Ela Queria”), o primeiro relato de abuso sexual aparece na entrevista com Sara Gapp, melhor amiga de Brandon quando Brandon tinha doze anos.”Ela [Brandon] me contou que um de seus parentes estava fazendo algo com ela que ela não gostava. Ela apenas meio que disse que, você sabe, ele colocava aquilo para fora e brincava um pouco com aquilo… e, ocasionalmente, ela disse, ele fazia ela tocar ele e brincava com ela e dizia ‘Você gosta disso. Você sabe que isso é bom… Você sabe que você não quer que eu pare.'” (Jones, 43) De acordo com Sara, “Naquele momento, ela não queria que ninguém soubesse o que aconteceu. Ela não queria o cara com raiva dela… Ela estava envergonhada. Não importava o que ele fez com ela, ela continuava gostando dele.” (Jones, 43)

O terapeuta de Brandon confirmou mais tarde a história de abuso, adicionando que, de acordo com ela, as sessões de abuso duravam horas e o molestamento aconteceu por muitos anos, entre a infância e a adolescência.  Em uma sessão de aconselhamento, Brandon falou sobre o assunto em um confronto com sua mãe JoAnn, mas pediu para que ela não confrontasse o agressor, que pode ter sido um dos parentes de JoAnn. A irmã de Brandon, Tammy, também uma vítima, confirmou a descrição de Brandon. É possível que esse abuso tenha sido um fator decisivo para Brandon deixar sua casa ao dezesseis anos, arrumar um trabalho e ir morar com sua então namorada, Traci Beels, uma colega de escola mais velha.

Respostas da Vítima ao Incesto

Em seu livro “Victimized Daughters: Incest and the Development of the Female Self” (“Filhas Vitimizadas: Incesto e o Desenvolvimento do Ser Feminino”), Janet Liebman Jacobs diz que o incesto representa “a mais extrema forma de objetificação sexual da criança fêmea na cultura patriarcal” (Jacobs, 11). Ela dá argumentos excelentes para demonstrar que o incesto tem um grande impacto no desenvolvimento da personalidade feminina, incluindo identidade de gênero.

O livro de Jacobs destaca importantes questões de desenvolvimento que influenciam a formação da personalidade de filhas abusadas sexualmente, e entre essas é a identificação com o autor. Anna Freud, filha de Sigmund Freud e fundadora da psicoanálise infantil, discorre sobre esse processo:

A criança introjeta alguma característica de um objeto de ansiedade e então assimila uma experiência de ansiedade pela qual ele [ela] acabou de passar… Ao personificar o agressor, assumindo seus atributos ou imitando sua agressão, a criança transforma a si mesmo [mesma] da pessoa ameaçada para a pessoa que faz a ameaça (Freud, 121). Afastando-se de sua mãe, quem ela entende como uma desonesta traidora-de-suas-iguais, a filha vitimizada se espelha no autor masculino, que, por ser seu abusador, é entendido como poderoso, e quem, por ser homem, ainda tem o potencial para idealização objetiva. “Feminino”, para a filha, se tornou o gênero de vítimas e traidoras. Segundo a pesquisadora de trauma Judith Herman, “em suas tentativas desesperadas de manter a fé em seus pais, a vítima desenvolve imagens altamente idealizadas de pelo menos um dos pais… Mais comumente, a criança idealiza o abusivo e desloca toda sua raiva sobre o inofensivo.” (Herman, 106). Descrevendo sua pesquisa com sobreviventes de incesto pai-filha, Herman nota que “com a exceção daquelas que se tornaram feministas conscientes, a maioria das vítimas de incesto pareciam considerar todas as mulheres, incluindo elas mesmas, desprezíveis” (Herman, “Father-Daughter Incest”  — “Incesto Pai-Filha” — 103).

Rejeitando a mãe e a própria identidade feminina, a filha vitimizada começa a imitar o agressor. E. Sue Blume, autora de “Secret Survivors” (“Sobreviventes Secretas”), descreve como a filha se reinventa através da identificação com o autor.

…vítimas crianças frequentemente se auto-recriam, desenvolvendo alter egos que oferecem uma alternativa positiva para elas próprias. Mais comumente, é uma persona masculina: as pacientes mulheres e sobreviventes podem forjar personalidades masculinas alternativas ou se unir a um companheiro que represente uma fantasia masculina. Isso é simples de entender: como uma vítima, e uma mulher, ela associa seu estado vulnerável com estar sem defesa; homens, no entanto, são vistos como fisicamente mais fortes e como um alvo difícil para a vitimização. (Blume, 85)

Expressão de Gênero de Brandon

Brandon não gostava de usar vestidos para ir para à escola. Quando a sua mãe perguntou a razão disso, Brandon disse que vestidos a deixava com frio (isso era em Nebraska) e que os meninos podiam olhar quando as meninas subiam as escadas. Por frequentar uma escola que exigia uniformes, ela usava calças e gravatas que eram o padrão para os meninos, mas que meninas também podiam usar. De acordo com a melhor amiga dela, Sara Gapp, “as pessoas insistiam em dizer que ela se vestia como um garoto. Ela não se vestia… Ela usava roupas que a deixava confortável. Ela não ia na seção de meninos pra comprar roupas. Eram roupas de mulheres que ela estava usando. Ela só gostava de roupas largas. Ela usava cabelos curtos. Isso faz dela um cara?” (Jones, 55)

A escolha de usar roupas largas é compatível com a escolha de muitas sobreviventes de abuso sexual. A “passabilidade” de Brandon como homem começou mais tarde, como uma brincadeira com uma adolescente que ligou para o número de Brandon por acidente e a confundiu com um menino no telefone. De acordo com Sara, “Até Liz Delano [a menina que ligou errado], se você a chamasse de menino, Teena ficava ofendida. Ela não queria ser reconhecida como um homem. Ela não se sentia como um homem.” (Jones, 54)

Brandon também foi descrita como se envolvendo na encenação do papel masculino. De acordo com sua irmã, Tammy:

A igreja era realmente importante pra ela. Nós estudamos em um colégio católico e eu acho que eles meio que fazem uma lavagem cerebral em você desde o jardim de infância para ser padre ou freira. Eles sempre trazem padres e freiras para falar que receberam o chamado e que você saberá quando o receber também… Teena nunca quis ser uma freira, ela sempre quis ser um padre, e eu achava engraçado porque eu tinha que participar de suas missas, eu ficava entediada a maior parte do tempo, pois ela lia a bíblia e nos fazia cantar. Eu acho que era um jogo que ela gostava, de vez em quando ela dizia ‘quero ser um padre algum dia’ (Jones, 34). Será que Brandon estava se identificando com o poder ou com um gênero? Considerando que a Igreja bania mulheres padres e negava que elas recebessem prestígio, cerimônias oficiais e a oportunidade de receber um cargo de liderança associado ao sacerdócio, seria irresponsável atribuir o desejo de Brandon de ser um padre a uma “disforia de gênero” – um termo que, quando aplicado a mulheres, pode também significar “resistência à casta sexual”. Identificação com papéis de gênero em uma cultura não podem ser separados de identificação com os privilégios que acompanham esses papéis. Como nota uma psicanalista pioneira, Karen Horney, “nós vivemos em uma cultura masculina, i.e estado, economia, arte e ciência são criações de homens e estão portanto preenchidas pelo seu espírito.” (Horney, 152).

O desconforto de Brandon com o desenvolvimento do seu corpo foi documentado. Em seu livro, Aphrodite Jones comenta que Brandon odiava a dor causada pelo crescimento dos seus seios e reclamava da dor de cólicas menstruais e da inconveniência de ter que lidar com uma grande quantidade de sangue mensalmente. Seriam essas as objeções de um “homem preso em corpo de mulher”, ou de uma garota particularmente agressiva e articulada, apavorada pela inconveniência, constrangimento e dor de um corpo adulto feminino?

O desconforto de Brandon é muito mais profundo do que apenas incômodo. Ela comentou que a “deixava enjoada” (Jones, 47) quando alguém encarava seu peito. Novamente, uma menina não precisa ser uma sobrevivente de incesto para demonstrar nojo quando alguém objetifica seu corpo em formação, mas uma sobrevivente de incesto que internalizou um ideal masculino tem de enfrentar um diferente conjunto de obstáculos:

Enquanto a puberdade representa uma época dolorida para muitas adolescentes, para filhas de famílias incestuosas essa transição à feminilidade adulta é especialmente difícil e confusa, pois seu corpo sinaliza não apenas a passagem para a maturidade feminina, mas o reconhecimento que o ideal de masculinidade internalizado é uma fantasia de outro e nunca poderá ser o seu verdadeiro eu. (Jacobs, 86) A rejeição ao seu eu feminino explica a frequência de desordens alimentares durante a puberdade de sobreviventes de incesto. Brandon, na época de sua tentativa de suicídio, foi registrada manifestando sérios transtornos alimentares.

Para a sobrevivente de incesto, o seu corpo se torna o símbolo de sua vitimização e, assim, o foco do seu desejo de controle. Além disso, a obsessão por um corpo magro, de “menino”, no lugar de uma expressão de feminilidade, talvez represente uma rejeição inconsciente do seu eu feminino, através do qual a filha tenta integrar o ego masculino internalizado com uma imagem externa de um corpo de criança masculinizado (Jacobs, 88).

A Lesbofobia de Brandon

Brandon relatou que, em outubro de 1990, foi estuprada. No mesmo outono, quando ela tinha quase dezoito anos, Brandon tentou alistar-se no exército. De acordo com seus amigos, ela estava determinada a fazer parte da Operação Trovão do Deserto. Infelizmente ela não passou no teste escrito. Isso parece ter causado uma reviravolta na vida dela. De acordo com sua mãe, “ela estava realmente chateada… Ela começou a mudar.” (Jones, 47)

Uma das maiores questões sobre as escolhas de Brandon era “por que ela não se reconhecia como lésbica?”. Ela talvez estivesse tentando fazer isso quando tentou se alistar. Por que um homem trans tentaria entrar em um ambiente totalmente feminino e estritamente segregado? O exército, apesar de suas políticas homofóbicas e persecutórias, sempre foi atraente para lésbicas por ter historicamente fornecido um ambiente de trabalho e vivência com pessoas do mesmo sexo por quatro anos.

Embora estupro e assédio sexual ocorram no exército, uma sobrevivente que associa sua violação com isolamento e exposição contínua ao ataque masculino pode sentir que existe segurança em um ambiente totalmente feminino, e especialmente se ela acabou de ser estuprada. Inclusive, as regras de uso de uniformes do exército fornecem cobertura protetora que retira a ênfase das características sexuais e desencoraja a objetificação sexual. Seria ingênuo assumir que Brandon, que na época do ensino médio identificou sua atração sexual por mulheres e até foi morar com uma namorada, não estava ciente da associação de lésbicas com o exército. Ela talvez estivesse procurando por lésbicas, o que talvez explique parte de sua reação extrema ao falhar no exame de admissão.

Se esse fosse o caso, por que então ela não procurou por comunidades lésbicas em sua cidade natal? Porque “não pergunte, não conte” (“don’t ask, don’t tell“) não era uma política que se aplicava a gays e lésbicas de classe baixa em Lincoln, Nebraska, em 1990. A homofobia por lá era evidente e potencialmente fatal. O assédio poderia acontecer por meio de ligações anônimas e obscenas, ameaças e insultos na rua e ataques físicos. Por estupro ser considerado como uma “cura” para o lesbianismo, o assédio muitas vezes poderia tomar forma como ameaça de estupro ou o ato em si.

Para uma jovem que tinha horror à sexualidade masculina e que havia dito aos amigos que estupro era um de seus maiores medos, e que tinha acabado de ser estuprada, a possibilidade desse tipo de assédio devia ser aterrorizante. O estupro de outubro deve, de fato, ter sido uma violência homofóbica dirigida contra ela, por ser uma mulher que não namorava homens e que tinha um histórico de morar junto com uma namorada.

Mas havia outro motivo para que Brandon não se identificasse como lésbica: lesbianismo havia se tornado uma questão de poder entre Brandon e sua mãe.

Em março de 1991, pouco tempo após Brandon ter sido rejeitada pelo exército, uma adolescente chamada Liz Delano ligou para um número errado e chegou até Brandon por engano. Liz achou que Brandon fosse um garoto adolescente, e Brandon entrou no jogo, chamando a si mesma de “Billy”. Como uma piada, ela colocou uma meia na sua roupa íntima e encontrou Liz num rinque de patinação. Liz continuou a ligar para a casa de Brandon e perguntar por “Billy” e JoAnn começou a entender que sua filha estava se passando por um garoto. Ela não estava feliz.

Algumas semanas depois, Brandon começou uma relação com Heather, uma garota de 14 anos e amiga de Liz. Ela foi morar com Heather, se passando por homem e chamando a si mesma de “Ten-a”. JoAnn Brandon entendeu que essa relação era sexual, e começou a telefonar para Heather e para a mãe de Heather, insistindo que o jovem rapaz que estava na casa delas era sua filha. Heather, assim como Brandon, era uma sobrevivente de incesto. De acordo com que conta a biografia de Jones, o foco da relação de Brandon era uma intensa interpretação romântica, sem sexo genital, e Heather respondeu imediatamente com gratidão pelo comportamento atencioso e ausência de pressão sexual. Brandon se ressentiu profundamente com a tentativa de JoAnn de sabotar a relação, e ressentiu especialmente a tentativa da mãe de colocá-la no papel de uma predadora sexual lésbica.

Para explicar as insistentes ligações de sua mãe, Brandon disse para Heather que ela nasceu hermafrodita, mas JoAnn tinha escolhido criá-la como uma mulher para “preservá-la.” (Jones, 89) De acordo com Heather, “ele [Brandon] tinha uma resposta legítima para tudo. Ele me diria que sua mãe não aceitava o fato de que ele era homem, que ela queria duas menininhas, que ela estava apenas pregando uma peça.” (Jones, 67) O conhecimento de hermafroditismo veio de um episódio do programa Phil Donahue.

JoAnn conta uma história diferente: “eu sabia que de repente haveriam festas regadas à cerveja e eu teria uma filha de dezoito anos por lá que não deveria estar bebendo ou fazendo coisa alguma.” (Jones, 67) Ela estava ciente de que qualquer atividade sexual entre Brandon e Heather, então com catorze anos de idade, constituiria em estupro presumido. JoAnn estava escandalizada pela alegação de hermafroditismo de Brandon. “Eu dei à luz ela; eu sei de que sexo ela é. Não tinha nenhum ‘anexo’ a ser removido.” (Jones, 68)

JoAnn começou sua campanha para tirar sua filha “do armário”. Ela mandou duas colegas de trabalho lésbicas para a casa da mãe de Heather. Elas tinham fotos de Brandon quando criança e uma cópia de sua certidão de nascimento. Como resposta, Brandon destruiu cada foto sua que encontrou pela frente. Percebendo que o lesbianismo era usado por sua mãe como tentativa de acabar seu relacionamento, Brandon começou a enfaixar os seios, falar mais baixo e usar o banheiro masculino em público.

Em junho de 1991, Brandon entrou com uma queixa contra sua mãe por assédio. Ela e Heather levaram a fita de sua secretária eletrônica para a polícia. Nela estava uma mensagem de JoAnn chamando-as de lésbicas e ameaçando expô-las. A insistência da mãe sobre o lesbianismo de Brandon tornou-se uma questão de poder tão crítica a ponto de envolver a polícia.

Lesbianismo era um problema familiar em outro sentido. No inverno seguinte à tentativa de Brandon alistar-se, sua irmã Tammy deu um bebê para a adoção — para um casal lésbico de San Francisco. Brandon insistiu para a irmã ficar com o bebê. Ela queria desperadamente ser tia. Mais tarde, um dos amigos gays de Brandon relataria como “ele [Brandon] odiava lésbicas; ele era completamente contra lésbicas” (Jones, 93) citando a adoção como razão para seu ódio.

Naquele mesmo verão, Brandon começou a soltar cheques sem fundo para comprar mantimentos e presentes para Heather. Ela conseguiu uma identidade falsa e estava conseguindo empregos como homem. Ela começou a falar para amigos que passou por uma operação de mudança de sexo em Omaha. Em outubro, ela foi citada em duas acusações de falsificação em segundo grau. As atividades ilegais de Brandon começaram a aumentar, e também seu consumo de álcool, comportamentos compulsivos e distúrbios alimentares. Finalmente, Sara, sua melhor amiga, decidiu ela mesma lidar com estes problemas. Ela encontrou com Heather e explicou a ela que Brandon era uma mulher. Heather acabou o relacionamento e Brandon tentou se matar tomando um vidro de antibióticos. Isto a levou a um centro de crise, e lá, finalmente, ela esteve apta a receber conselho profissional.

mugshot

Mugshot de Brandon

O Diagnóstico de Crise de Identidade de Gênero

Brandon ficou sete dias no centro de crise. O Dr. Laus Hartman escreveu o relatório inicial. O histórico de Brandon teria incluído doze acusações pendentes de falsificação de documentos, uma possível acusação de abuso sexual contra uma menor, um estupro não tratado em outubro de 1990, distúrbios alimentares, consumo excessivo de álcool e um relacionamento sexual em progresso com uma garota de catorze anos. O diagnóstico? Um caso leve de crise de identidade. Depois de apenas alguns dias de terapia, Brandon disse a sua mãe que uma operação de mudança de sexo havia sido sugerida por seu terapeuta.

O transexualismo foi ideia de Brandon ou dos terapeutas? Deb Brodtke, médica clinica em saúde mental, pegou o caso de Brandon no centro de crise e continuou a tratá-la por quase um ano como paciente externa. Há registros de Brandon dizendo a Brodtke que queria ser homem, “para não ter que lidar com as conotações negativas de ser lésbica e por sentir-se menos intimidada por homens quando se apresentava como um.” (Jones,83) Se isso for verdade, o que Brandon disse a ela não foi que se sentia como um homem preso a um corpo de mulher, mas uma mulher presa em um mundo em que é perigoso ser fêmea, e especialmente perigoso ser lésbica.

O livro de Jones não relata nenhuma tentativa da parte de Brodtke de desafiar a lesbofobia internalizada de Brandon. Não existe nenhum registro em sua narrativa de esforços para fornecer a Brandon informações acerca da cultura lésbica ou da história lésbica, informações sobre grupos de aceitação ou grupos para jovens lésbicas. Não existe nenhum registro de tentativas de criar contatos entre Brandon e lésbicas adultas que pudessem aconselhar ela. O diagnóstico de “crise de identidade de gênero” (GID, do inglês Gender Identity Disorder) reflete o histórico heterossexismo do campo da saúde mental, que tem tradicionalmente entendido o desejo gay e lésbico como um desejo de se tornar membra/o do outro sexo.

O diagnóstico de Brandon parece não ter incluído alcoolismo. É interessante notar como prevalece o uso e abuso de álcool no documentário, na biografia e no filme ficcional – e ainda assim, como parece estar ausente do plano de tratamento. Se o abuso de álcool houvesse sido identificado como pelo menos um fator contribuinte para o caos e tormento na vida de Brandon, me parece lógico que deveria ter existido alguma tentativa de incorporar um programa de recuperação no plano de tratamento.

E, finalmente, o diagnóstico de GID dado a Brandon, tão repleto de homofobia e preconceito de gênero, também parece ter ignorado o “elefante no meio da sala” — o incesto. A avaliação do tratamento e diagnóstico de Brandon não parece incluir Transtorno de Estresse Pós-Traumático Complexo, síndrome comumente associada a sobreviventes de abuso na infância, e especialmente sobreviventes de incesto. Isso é notável, dado o fato de que Brandon chega na clínica com um histórico de anos de abuso sexual na infância não tratados, um caso de estupro recente, um aumento gradual de atividades criminosas, um histórico de múltiplas identidades, predação sexual a meninas menores de idade, comportamento de risco extremo, evasão de cuidados médicos por medo de exames de rotina, distúrbios alimentares, idealização de suicídio, terror por estar num corpo de mulher, medo de homens, preferência por roupas que protegessem, quantidade compulsiva de banhos — seis ou sete por dia com mudança de roupa. (A obsessão de Brandon com limpeza continuaria por toda sua vida, e, de acordo com amigas/os, mesmo nos seus últimos anos de vida ela ainda tomava três ou quatro banhos por dia.)

Ao invés de um diagnóstico relacionado a trauma, o terapeuta aparentemente mandou Brandon para casa com informações sobre cirurgias de “redesignação sexual”, que incluiriam procedimentos como suturação da vagina, remoção dos seios, ovários e útero, transplantar os mamilos, construção de um “apêndice” usando pele das coxas e administração de esteroides. Amigas/os de Brandon reportaram que ela expressou acentuada ambivalência em relação a essas recomendações.

Sua irmã, Tammy, lembra da reação da família:

Basicamente, nós estávamos ficando preocupados com Teena. E nós não conseguíamos nenhuma ajuda para ela… você sabe, não para ajudá-la a lidar com o fato de ser gay ou qualquer coisa assim, mas para ajudá-la a encontrar quem ela era. Talvez ela precisasse de aconselhamento. E ela havia mencionado para nós o fato de ter tentado cometer suicídio, então nós meio que usamos isso como forma de colocá-la lá [no Hospital Geral Lincoln], e o psicólogo de lá disse que Teena precisava de ajuda a longo prazo… o que eu não sei se era realmente o caso, mas eles mandaram ela para o centro de crise, e… Eu gostaria de ter realmente sabido o que Teena disse a eles ou o que esses médicos disseram a Teena mas, resumindo, ela saiu de lá dizendo ‘Eu quero mudar de sexo’, e… ‘Eles me disseram que eu preciso fazer isso e aquilo.’ E eles podem ter dito isso a ela, mas eu não sei se era o que ela realmente queria fazer.” (Muska) Ao defender a cirurgia que facilitaria a transição de Brandon, o terapeuta a orientou acerca do estabelecido ano de probação, no qual a paciente seria requerida a viver como homem. Teria Brandon descrito suas estratégias correntes para ser vista como homem nas relações – estratégias que envolviam manipulação e estupro de menores inexperientes e ingênuas, que provavelmente não tinham como ser assertivas ou suficientemente educadas para confrontar os subterfúgios sexuais de Brandon? Se o terapeuta chegou a nomear os problemas éticos, legais e de segurança de tais estratégias, Brandon nunca viu nenhuma razão para questioná-las. De fato, armada com o diagnóstico oficial de “Axis 1: transexualismo,” Brandon aumentou suas manipulações e seduções.

Depois do aconselhamento, seu repertório de mentiras se expandiu e passou a incluir histórias sobre sua avó ter planos de enviá-la para a Europa para fazer a cirurgia, e de datas marcadas para mastectomia bilateral em junho de 1993. Ela disse a suas várias namoradas em diversos momentos que sua vagina havia sido costurada, que “algo” havia sido implantado e eventualmente cresceria como um pênis e que ela havia começado terapia hormonal. Assim como as histórias de hermafroditismo que precederam o diagnóstico de transexualismo, todas eram mentira.

Misoginia, dissociação e GID

De acordo com os estudos de Jacobs e Herman, o repúdio da filha vitimizada pela identidade feminina e sua internalização de um homem idealizado representam respostas para o abuso sexual na infância.

Se gênero é considerado um agregado de marcadores de casta sexual em um sistema de dominação baseado no sexo biológico, então é simplista e enganador caracterizá-lo como “performativo”. Visto no contexto da cultura patriarcal, gênero é um emblemático sistema de dominação no qual mulheres são universalmente oprimidas como uma casta.

A filha vitimizada que adota uma persona masculina não está “fodendo com o gênero”. O gênero é que tem fodido com ela e, em uma tentativa de identificar o poder que tem machucado ela, ela passa a adotar a estratégia de uma criança desesperada cuja única opção é alterar a percepção dela sobre si mesma.

O que o movimento transgênero chama de “foder com o gênero” (“gender-fucking”) é simplesmente um exercício de mover marcadores em vez de realizar qualquer mudança fundamental no gênero. O gênero ainda existe. Ainda é uma estrutura de organização para a sociedade. O que muda é que você apenas “representa” ele de forma diferente: passa a ser permitido anexar o gênero em diferentes corpos. O objetivo das políticas transgêneras é permitir que você “seja” o gênero que você “é”. No entanto, ser o seu gênero ainda significa o que você veste, o que você faz, como você se expressa e ainda é algo ligado à noções fundamentais do que é ser homem e mulher… E não é surpresa alguma que o que é ser homem e o que é ser mulher dentro dessa visão segue exatamente o rastro do que já é definido como mulher e homem. (Corson, 3) As políticas transgêneras não destroem as posições de homens e mulheres na hierarquia de gênero e sim “fazem com que a escolha das mulheres de se opor a essa hierarquia (sendo mulheres e em prol das mulheres) se torne incompreensível.” (Corson, 3)

Além da sua participação no amplo sistema político de dominação masculina, o diagnóstico GID atua também em uma frente mais pessoal, para proteger os autores. Se a “disforia de gênero” da filha vitimizada é uma resposta pós-traumática à violência sexual, ela reflete uma tentativa de dissociar, de arrancar o trauma.

Um trauma que não pode ser adequadamente representado ou narrado permanece escondido. É um pedaço alienado de experiência que resiste a qualquer assimilação da pessoalidade do hospedeiro do qual se alimenta. A dissociação também pode ser entendida como um ato narrativo. Narra a fragmentação, fratura, ruptura, disjunção, e incomensurabilidade. (Epstein e Lefkovitz, 193) A dissociação é uma estratégia de sobrevivência.

Ela fornece uma maneira de sair de uma situação intolerável e psicologicamente incongruente (duplo-cego), ergue barreiras na memória (amnésia) para manter acontecimentos e memórias dolorosos esquecidos, funciona como um analgésico para prevenir que se sinta dor, permite que se escape viver o acontecimento e se escape de responsabilidade/culpa, e pode servir como uma negação hipnótica do sentido do eu. A criança pode começar a usar o mecanismo dissociativo espontaneamente e de forma esporádica. A vitimização repetida e a injunção do duplo-cego, ela se torna crônica.  Talvez futuramente se torne um processo autônomo conforme o indivíduo cresce (Courtois, 155). Dissociação é uma maneira de alterar a consciência. Como milhões de sobreviventes podem atestar, essas memórias dissociadas não foram embora realmente. Se elas jamais vão emergir à mente consciente ou não, elas continuam a exercer sua influência por meio de transtornos somáticos, flashbacks, distúrbios do sono, sonhos inoportunos e transtornos dissociativos. Memórias reprimidas não vão embora só porque alguém deseja que elas desapareçam. A sobrevivente assume o controle de sua vida entendendo e assimilando o trauma reprimido, não reforçando a divisão. E esse é justamente o porquê de o diagnóstico GID ser tão potencialmente pernicioso quando aplicado à filha vitimizada.

Quando o diagnóstico GID substitui identificação e tratamento de Transtorno de Estresse Pós-Traumático Complexo, isso reforça a divisão que foi um resultado do trauma infantil. Por mais “queer” que seja o diagnóstico, não se desvia de um modelo de normatividade baseado em papéis de sexo-casta tradicionais. O diagnóstico GID que recomenda transexualismo como uma “cura” compromete seriamente o potencial de recuperação da filha vitimizada dos efeitos de seu trauma. Ao invés de oferecer técnicas para ajudar a reobtenção de sua memória e reintegração do material dissociado, o diagnóstico GID possibilita e encoraja investimentos ainda mais profundos no transtorno, ao oferecer uma promessa falsa de legitimar essa identidade dissociativa “ahistórica” (sem perspectiva histórica ou contexto) por meio de “redesignação” de gênero. Ao invés de desconstruir, isso explora a síndrome.

Revitimização

Finalmente, quando a identidade transgênera é uma extensão e amplificação da identificação da filha vitimizada com o agressor, uma consciência dividida continua caracterizando a psique de sobrevivência, que coloca-se em cenários de revitimazação.

Tanto na ação quanto na imaginação dos sobreviventes, existe uma relação tênue entre o agressor masculino internalizado e a criança feminina violada. Enquanto a introjeção do agressor pode, por vezes, mascarar a identidade da filha como vítima e, assim, contribuir para a construção de uma personalidade falsa, padrões de revitimização revelam a dimensão em que o eu da fêmea desprotegida e violada também caracterizam a personalidade da filha vitimizada. (Jacobs, 99) Revitimização foi a história da curta vida adulta de Brandon, enquanto ela usava várias identidades fraudulentas que resultaram em detenção e encarceramento, seduzia garotas menores de idade que a rejeitavam quando descobriam o segredo dela, e fazia crescentes e perigosas alianças com homens violentos e homofóbicos. Os fingimentos sexuais de Brandon, fingimentos que se intensificaram após seu diagnóstico oficial como transexual, colocaram suas namoradas em risco de formas bem reais. Suas namoradas em Lincoln foram provocadas e assediadas por seus amigos, mas quando Brandon se mudou para a mais provincial Richardson County, os riscos tornaram-se ainda maiores. Ambas as amigas de Brandon de Humboldt, Lisa Lambert e Lana Tisdel, estavam sendo assediadas em seus locais de trabalho e em eventos sociais. Umas das amigas de Lisa descreveu o dilema de Lisa: “Todo mundo em Humboldt sabia sobre Brandon. Lisa não tentou esconder. Lisa não conseguia acreditar que algo assim tinha acontecido a ela. Ela deixou claro que ela estava muito preocupada para impedir a entrada de Brandon. Ela estava brava e magoada em relação a isso, mas ela não queria machucá-lo [Brandon], não queria colocá-lo nas ruas.” (Jones, 205) Sua compaixão custaria sua vida.

A situação de Lana era complicada por sua amizade com os ex-condenados Tom Nissen e John Lotter. Quando Brandon foi presa por falsificação de cheques em 15 de dezembro de 1993, ela telefonou para Lana para socorrê-la, mas Lana estava horrorizada por descobrir que seu “namorado” estava sendo colocado na ala feminina da cadeia. Ao invés de ir ela mesma, Lana mandou Tom, seu ex-namorado, para socorrer Brandon. A prisão foi anunciada naquela semana pelo Jornal de Falls City, tornando pública a identidade biológica de Brandon como mulher, e, consequentemente, a participação de Lana no que seria percebido como um relacionamento lésbico. Amigos de Brandon acreditam que o socorro foi o início do que acabou em um subsequente estupro. Nissen e Lotter parecem ter se sentido enganados e humilhados pela representação de gênero de Brandon. Nas palavras de um amigo, “Ele [Brandon] representou um jogador e [o jogador] foi vingado por isso.” (email privado, 20 de dezembro de 2004)

lana

Brandon & Lana

No entanto, de acordo com Jones, Lana tentara proteger Brandon, mesmo depois de descobrir ter sido enganada. Ela disse a sua família, a Tom Nissen e a John Lotter que tinha visto o pênis de Brandon. Mas Tom e John não se convenceram, e eles realizaram sua própria investigação — despindo e revistando o corpo dela. Ambos eram homens com histórico de violência, e eles decidiram resolver a questão com as próprias mãos. Pode ser que a segurança de Lana estivesse seriamente comprometida uma vez que havia sido descoberto por esses homens que ela tinha estado em um relacionamento sexual com uma mulher biológica e mentiu para proteger o fato.

Três dias depois, Brandon, por insistência de Lana, foi à polícia denunciar o estupro. A polícia questionou John e Tom, mas não os prendeu. John negou o estupro, mas disse que Lana tinha pedido a ele para encontrar um jeito de definir o sexo de Brandon. Em 30 de dezembro, os dois homens foram à casa de Lana procurando Brandon, mas Brandon, que já não era mais bem-vindo por lá, estava abrigado na chácara de Lisa. Lana relatou que John afirmou que “estava se sentindo afim de matar alguém” e disse que ela, Lana, era a próxima. Isso pode ter sido o porquê da mãe de Lana ter dito a eles onde Brandon estava escondido. Depois que eles foram embora, nenhuma ligação foi feita para alertar Brandon ou Lisa que os homens estavam a caminho. Testemunhos conflituosos sugerem que Lana pode na verdade ter estado no carro, ou até mesmo na casa, na noite dos assassinatos.

Considerações sobre o tratamento

Muitos aspectos da vida de Brandon teriam sido mais fáceis numa cultura que não fosse transfóbica, mas a recuperação do trauma do incesto não seria um desses aspectos.

Recuperação de sexualização traumática… começa com o processo de reintegração pelo qual o trauma original é trazido à consciência. Só então a idealização do autor pode dar lugar à realidade de sua violência sexual. Com a desconstrução de um pai idealizado, a filha pode começar a recuperar e redefinir o eu feminino, diminuindo o impacto do agressor internalizado (Jacobs, 165). Quando a internalização desse ideal se torna incorporada à identidade de gênero da filha vitimizada, especificamente como uma resposta ao trauma, esse tipo de desconstrução é impedida. Essas talvez tenham sido tão machucadas pelo incesto que pode parecer mais oportuno e terapêutico adotar uma identidade de gênero diferente que não seja tão aparentemente carregada com associações traumáticas. Essa identidade, no entanto, não pode – por definição – oferecer a integração que caracteriza recuperação.

Então, como a filha vitimizada se cura? Em “Victimized Daughters” (“Filhas vitimizadas”), Janet Liebman Jacobs apresenta alguns estágios associados à recuperação, notando que nem toda sobrevivente vivenciará essas mudanças (Jacobs, 136):

  • Desconstrução do pai idealizado.
  • Reconhecimento do senso de eu construído ao redor do ideal de masculinidade encarnada no autor.
  • Se distanciar do agressor.
  • Identificação de si mesma como vítima (o que pode incluir identificação com outros membros sem poder da sociedade, o que permite a ela desconstruir o “eu ruim” do cerne de seu desenvolvimento).
  • Reconhecimento da vitimização passada integrada no contexto do trauma sexual original (o que pode resultar em estabelecer e manter melhores limites em relações potencialmente vitimizadoras).
  • Recuperação do eu sexual (como um resultado da desconstrução do autor idealizado e desenvolvimento de um senso de eu separado, o que pode envolver respostas dissociativas controladoras e flashbacks inoportunos, e a reestruturação ou eliminação das fantasias sexuais que mostram a vítima se libertando do agressor).
  • Auto-validação e reconexão com a persona feminina (através de transferência terapêutica que modela cuidados respeitosos, reconexão ou empatia com a mãe, ou identificação com o poder espiritual feminino).
  • Reintegração por meio de imaginação criativa.

Conclusões

Durante a vida adulta, Brandon exibiu comportamentos coerentes com o diagnótico de Transtorno de Estresse Pós-Traumático Complexo, uma síndrome associada a sobreviventes de incesto. Disforia de gênero foi identificada clinicamente como uma resposta ao abuso sexual infantil e incesto, e é lógico que se questione se foi terapêutico, no caso de Teena Brandon, ou não o diagnóstico de transexualismo e recomendação de cirurgia de redesignação sexual em vez de focar no diagnóstico e no tratamento do Transtorno de Estresse Pós-Traumático Complexo. Se a cura de abuso sexual infantil e incesto requerem reobtenção e assimilação de material dissociado, é um forte argumento afirmar que o diagnóstico do transexualismo de Brandon serviu para aumentar sua dissociação, impedindo a recuperação do incesto e permitindo um agravamento de comportamentos de alto risco baseados numa identidade dissociada.

Como uma nota de rodapé final, um conhecido de Brandon dividiu essa história ocorrida aproximadamente na semana entre o estupro e o assassinato:

No dia de natal de 1993, quando Lisa trouxe Brandon de volta… de Falls City, [um amigo] encontrou com ele [Brandon] na porta e disse “oi Brandon”. Em resposta [o amigo] ouviu de Brandon que não existia nenhum Brandon, Brandon se foi. Seu nome é Teena. Aquilo não mudou em nenhum ponto na última semana. (email pessoal, 20 de dezembro de 2004).

Notas de Trabalho

“A verdade inconveniente sobre Teena Brandon” é um artigo inconveniente. Ele tem um histórico de publicações rejeitadas. Ele foi entendido como transfóbico, e tem sido intimidado por romper com princípios da Teoria Queer. Isso já era esperado, porque ele é sobre trauma, e trauma é um trauma especificamente porque resiste ser aceito ou assimilado. Se esse paper se encaixasse perfeitamente nas categorias existentes de identidade, não teria necessidade alguma de escrevê-lo e Teena Brandon talvez ainda estivesse com vida hoje em dia.

Esse artigo pertenceria a uma edição de periódico intitulada “As lésbicas serão exterminadas?”. A resposta é “não”, se isso significa que deveria se insistir no fato de que Teena Brandon era realmente uma lésbica com um caso de identidade mal incompreendida. Esse paper não faz essa reivindicação. O que ele reivindica é o status dela como uma sobrevivente de incesto não recuperada e com Transtorno de Estresse Pós-Traumático Complexo, que parecia estar em síndrome ativa até o momento de sua morte.

Eu acredito que esse paper pertence sim a essa edição de Trivia, e por isso o submeti. Muitas lésbicas são sobreviventes de abuso sexual infantil. Na última década, pode-se observar que está aumentando o número de mulheres biológicas que anteriormente se identificavam como lésbicas (como Brandon) transicionando com o objetivo de reivindicar identidades masculinas. Posições nas comunidades lésbicas e trans se tornaram polarizadas, abrindo profundas divisões entre nós. Acusações de “essencialismo”, “patologização”, “misoginia” e “privilégio patriarcal” são gritados pra lá e pra cá nas linhas de batalha.

Pela minha experiência, conflitos prolongados podem ser um indicativo de contextos condebidos de modos inadequados e pouco precisos. A pesquisa de trauma oferece perspectivas identitárias radicais, tanto para lésbicas quanto trans, e abre um novo espaço para diálogo, espaço com possibilidade de pontos em comum. Instruir sobre trauma pode informar o feminismo radical, e eu escrevi esse paper com essa intenção.

Este é um paper lésbico que pertence a um espaço lésbico? Essa questão pode ser debatida de forma acalorada, e o que melhor qualifica a inclusão?

 

Sobre a autora

Carolyn Gage é uma dramaturga lésbica e feminista, performer, autora e ativista. Autora de nove livros e mais de 25 peças, ela é a vencedora de 2009 do Lambda Literary Award, na categoria drama. Seu site é: www.carolyngage.com.

Clique aqui para ler o texto original.

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Você está pronta para o verão?

Ah, o verão… Estação do ano que é sinônimo de férias ou recesso para algumas pessoas. Cerca de três meses de calor e sol queimando a pele. Água, praia, banho de mangueira, passeios ao ar livre. Sorvete, picolé, chapéu, boné. Roupas leves e chinelo no pé. No entanto, basta o tempo começar a esquentar para que a encheção de saco comece a aumentar. No lugar de dicas de roupas frescas, receitas gostosas pra trocar, lugares legais pra ir ou gente maneira pra paquerar, a pauta geral passa a ser ~se cuidar~ ou ~se preparar~ para o verão.

E o foco do que é chamado de ~se cuidar~ ou ~se preparar~ geralmente consiste mais em perder peso do que beber bastante água, por exemplo. A mídia e a sociedade como um todo pressionam os indivíduos com o intuito de fazê-los acreditar que só podem aparecer em público de roupa de banho se estiverem magros e sarados. Essa pressão é principalmente direcionada às mulheres, mas nem os homens andam escapando. Dentro de uma lógica capitalista, tudo o que puder ser explorado para ser revertido em controle e consumo será aproveitado. Por isso, o chamado “mito da beleza” anda abrangendo cada vez mais grupos de pessoas. Tanto que existe SPA para crianças, adolescentes são induzidas a passarem por cirurgias estéticas cada vez mais cedo e é celebrado o fato de tratamentos estéticos para homens estarem em crescente ascensão – sendo que o ideal era que essas porcarias parassem de ser empurradas para pessoas de qualquer sexo.

De qualquer maneira, no final das contas são as mulheres as maiores prejudicadas pelos padrões, claro. O cabelo tem que ser sempre impecável. Se você for ficar uma semana na praia, é preciso de um monte de produtos para passar na cabeça antes e depois de entrar no mar. Não pode ter celulite, estria ou qualquer outra coisa completamente normal em um corpo do sexo feminino. Barriga, então? É quase um crime. Pelos são considerados sujos. Mas as bolinhas vermelhas ocasionadas pela depilação e contato com areia também não agradam. As unhas precisam estar feitas. O biquíni precisa estar de acordo com o tipo de corpo: se o peito é pequeno, use um sutiã com bojo, se o quadril é largo, vista algo que disfarce. Esse suposto equilíbrio é uma farsa que tem o intuito de nos enlouquecer.

  “I am not as pretty as those girls in magazines”

Somos induzidas a acreditar que o nosso valor vem principalmente da aceitação da nossa aparência, dos elogios que nos qualificam como belas. Porém, os padrões são inalcançáveis justamente para ficarmos nessa corrida eterna, feito as armadilhas com cenouras e coelhos correndo atrás delas que vemos em desenhos animados. Quase nunca alcançaremos as cenouras, porque os padrões vigentes são excludentes, gordofóbicos, racistas, elitistas, etc. A maior parte das mulheres vai ficar de fora por algum motivo – ou por vários: é gorda, o cabelo é crespo, a bunda tem celulite, o dente é amarelo, as roupas não são de marca, as unhas são roídas, o nariz é grande, o peito tem estria, os dedos dos pés são peludos, os cílios são claros, os olhos são pequenos. Nossas características são categorizadas como defeitos. E uma onda geral de baixa autoestima, competição e rivalidade feminina é disseminada, impedindo que as mulheres fiquem em paz com elas mesmas e com as outras. Sem contar a naturalização de transtornos alimentares em prol do “corpo perfeito”. Não pulem refeições, por favor. Comida é amor.

"Como ter um corpo de praia:  1 - Tenha um corpo  2 - Vá à praia"

“Como ter um corpo de praia:
1 – Tenha um corpo
2 – Vá à praia”

Eu queria dizer uma coisa. Você existe para você mesma e não para agradar o olhar de quem está ao redor. Sei que é óbvio, mas é preciso que a gente leia e releia isso várias vezes até assimilar. O seu corpo é muito mais do que um objeto de desejo: é o que te transporta pra lá e pra cá e te permite passar por essa nave louca chamada vida. Não é fácil se desprender da necessidade de aceitação pela aparência – até porque a não aceitação se mostra, muitas vezes, de forma hostil e violenta. Mas podemos tentar olhar para nós mesmas e para as outras com mais amor, celebrando a pluralidade e acabando com a ideia de que características são defeitos. Somos muitas e não existe a possibilidade de nos encaixarmos no mesmo molde. Nossas histórias e características são diversas. Estética não é sinônimo de saúde. E a saúde alheia não é da nossa conta. E já que toquei no assunto ali em cima, posto abaixo um trecho super inspirador do livro “O mito da beleza – Como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres”, da Naomi Wolf (livro completo aqui):

Como as mulheres poderiam agir para além dos limites do mito da beleza? Quem saberia dizer? Talvez nós deixássemos nossos corpos engordar e emagrecer, apreciando as variações sobre o tema, e evitaríamos a dor porque, quando alguma coisa dói, ela começa a nos parecer feia. Quem sabe não passemos a nos enfeitar com verdadeiro prazer, com a impressão de estarmos adornando o que já é lindo. Talvez, quanto menor for a dor a que submetamos o nosso corpo, tanto mais bonito ele nos pareça. Talvez esqueçamos de levar estranhos a nos admirarem, e descubramos que isso não nos faz nenhuma falta. Talvez aguardemos o envelhecimento do nosso rosto com expectativa positiva e nos tornemos incapazes de considerar o nosso corpo um monte de imperfeições, já que não há nada em nós que não nos seja precioso. Pode ser que não queiramos mais ser a mulher do “depois”.

Por onde começar? Vamos perder a vergonha. Ser vorazes. Procurar o prazer. Evitar a dor. Vestir, tocar, beber e comer o que tivermos vontade. Ser tolerantes com as escolhas das outras mulheres. Perseguir o sexo que quisermos e lutar ferozmente contra o que não quisermos. Escolher as nossas próprias causas. E, depois de superarmos e transformarmos as regras de tal forma que o nosso sentido da beleza não possa ser abalado, vamos cantar essa beleza, embelezá-la, exibi-la e nos deleitar com ela. Numa política sensual, ser mulher é bonito.

Uma definição da beleza que tenha amor pelas mulheres supera o desespero com a brincadeira, o narcisismo com o amor a si mesmo, o despedaçamento com a inteireza, a ausência com a presença, a inércia com a animação. Ela admite que as pessoas sejam radiantes: que essa luz seja emitida pelo rosto e pelo corpo, em vez de ser uma luz dirigida para o corpo, ocultando o eu. Essa luz é sexy, variada e surpreendente. Seremos capazes de vê-la em outras mulheres sem medo e afinal poderemos vê-la em nós mesmas.

Dica: O documentário a seguir, com 14 minutos, de duração, mostra brevemente como o monopólio de mídia – que precisa de retorno imediato – usa a idealização da mulher por meio de padrões de beleza e comportamento para gerar audiência e vender produtos. Grande parte das mulheres retratadas em revistas, jornais, programas de televisão, entre outros veículos, são loiras, altas, magras, heterossexuais e hipersexualizadas. O olhar masculino é o molde e a real diversidade que forma a população de mulheres brasileiras é apagada (vale notar, inclusive, que praticamente todas as entrevistadas que apontam essa falta de diversidade são brancas também, o que nos mostra que precisamos discutir sobre representatividade em todos os espaços, não apenas na mídia “tradicional”). Algumas saídas são apontadas, como um debate honesto em relação à democratização da mídia, que sempre é uma ação vista como “censura” e não como uma forma de tornar os produtos midiáticos um espelho que represente minimamente sua audiência.

Leia também: “O envelhecimento da mulher como um fato incomum”

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IT’S MY PARTY AND I WILL CRY IF I WANT TO

De acordo com os tilelês, hoje é dia de mais uma volta ao redor do sol ou algo parecido. As pessoas alegres celebram mais um ano de vida e os pessimistas menos um. Sim, hoje é meu aniversário. E por mais que eu tenha tentado pagar de blasé algumas vezes, dizendo coisas tipo “oh, não ligo para datas comemorativas”, a verdade é que eu ligo sim. Somos ensinados a viver de uma forma tão emocionalmente contida (algo que eu orgulhosamente me recusei a aprender), que vejo de forma positiva algumas das válvulas de escape que as pessoas usam para transmitir bons sentimentos umas às outras (claro que em uma sociedade capitalista todos esses rituais são cooptados – e até mesmo inventados – em prol do consumo, mas essa é outra questão).

Essa é, aliás, uma das partes interessantes de ficar mais velha: começar a perceber (e assumir) o que realmente gosta ou não, o que quer ou não, sem tanta interferência da necessidade de pertencer a um grupo ou manter uma imagem. Quero dizer, conheço pessoas bem mais velhas do que eu que ainda vivem muito atreladas às engrenagens dos mecanismos da vida social e de um pretenso status e não as julgo (mentira, julgo sim, heh). De qualquer forma, acho que todos ficamos mais sábios a medida que acumulamos experiências e refletimos sobre elas.

No entanto, é esquisita a sensação de completar vinte-e-muitos-anos. Todo mundo gosta de lembrar o tempo inteiro que estou mais perto dos trinta que dos vinte anos, como se isso fosse algo assustador. Cada vez mais produtos e procedimentos de beleza são insinuados como necessários. Cada vez mais coisas são esperadas de mim, sendo que mal consigo me referir a mim mesma como “mulher”. Na minha cabeça, “mulheres” sempre foram aquelas pessoas de salto, com filhos, emprego, marido, roupas bem passadas, dotes culinários e sem crises existenciais. Sim, por um tempo eu comprei a ideia da ~mulheridade~ como algo totalmente heteronormativo e castrante, afinal, é isso que nos empurram o tempo todo, não?

E eu, vejam bem… Eu trabalho. E cozinho muito bem. Mas vivo de tênis sujo, roupa amassada, não sei se quero ~constituir família~ e estou sempre por aí, chafurdando na lama da existência. Guardo culpas, mágoas, rancores e tristezas. Tenho ataques de pânico. Fico muito feliz com coisas banais. Canto alto e faço danças ridículas. Me angustio por querer construir algo significativo e não apenas ser uma mera reprodutora de ideias alheias. E não consigo, de forma alguma, assimilar o conceito de vida adulta que me foi apresentado, embora, meu deus, eu seja uma adulta. Uma mulher. Não digo essas coisas me achando única e especial. Sei que a sensação de inadequação é comum e constante em um monte de gente. Não tem como ser diferente vivendo em uma sociedade que vende tanta crueldade e desumanização como sinônimo de sucesso.

Sinto falta de me jogar de peito aberto no mundo e acreditar no melhor das pessoas. O passar dos anos me tornou cínica e desconfiada. Desmontei caixas e certezas de tal maneira que as tênues fronteiras entre dominação e amor, amizade e interesse, preto e branco ou gases, infarto e ataque de pânico me parecem cada vez mais borradas. No entanto, as desconstruções me fizeram também aprender com os meus erros – o que não quer dizer que eu não os cometa mais – e com as histórias dos outros. Experimentei relações, problematizei comportamentos, moldei minha rudeza, exercitei a empatia. E pensei mais em mim.

Essa é uma nova fase. Que eu espero que seja de descobrimento, redescobrimento e canalização de forças e energia. Ainda que sejamos todos seres errantes buscando sentido para coisas que talvez estejam além da nossa compreensão humana, temos o agora para lidar. E o agora pode ser bom. Que eu aprenda a viver o presente com menos angústia e as batidas aceleradas do meu coração se convertam em suaves tum-tuns.

(E você aí, que me lê: obrigada! Ser lida está entre os meus planos e desejos ocultos – mas esse nem é tão oculto assim, né?)

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DEZ COISAS QUE TODA MULHER ODEIA NOS HOMENS

Direto vejo por aí algum link (ou artigo em revista, etc) que fala sobre coisas que homens não gostam nas mulheres. Ou coisas que homens gostam nas mulheres. Links que nos dizem para usar muita maquiagem. Ou não usar nenhuma. Para ceder às vontades deles. Para não ceder. Para ousar, não ousar, ligar na hora do trabalho, não ligar, expressar nossa opinião com cuidado, não expressar de forma alguma, usar calcinha grande, usar calcinha pequena. Isso quando algum macho não resolve vir falar pessoalmente –  sem a gente nem perguntar – o que acha da nossa aparência, corpo, personalidade, etc. Recebemos mensagens diferentes o tempo todo, algumas delas até mesmo divergentes entre si. Mas todas dizem uma mesma coisa: que devemos nos preocupar com a opinião dos homens sobre nós.

Olha minha cara de preocupada kkkkk

Olha minha cara de preocupada kkkkk

O post de hoje vai ser o contrário. Eu poderia falar sobre combinações desastrosas que alguns homens fazem, como papete e meias ou pochete e sunga, mas nossas urgências, infelizmente, vão muito além disso. Ao contrário de alguns deles, nosso maior problema não é unha, cabelo, bigode ou a porcaria de uma conta de restaurante. Então aqui vai o incrível post sobre as DEZ COISAS QUE TODA MULHER ODEIA NOS HOMENS:

1) NÃO AJUDAM NAS TAREFAS DOMÉSTICAS

Mulheres acabam fazendo jornadas duplas – e até mesmo triplas – de trabalho porque, além de inseridas no mercado, a responsabilidade de cozinhar, manter a casa limpa e cuidar de filhos cai toda sobre elas. Logo, o que vemos são mães, filhas, irmãs e/ou esposas completamente sobrecarregadas enquanto muito homem não consegue nem colocar suco no próprio copo ou lavar um garfo sujo. Não basta ajudar em uma coisa ou outra de vez em quando, cada um tem que no mínimo cuidar do que lhe diz respeito e dividir o resto de forma justa.  Cuidar, lavar, cozinhar e limpar cansa — e muito. Rapazes, saiam do videogame e comecem a esquentar o próprio Toddy. Consigo detectar vocês, os famosos fidivó, até mesmo em almoços entre amigos: geralmente são os que acham que o mundo é uma extensão de suas casas e vontades e ficam esperando que tudo fique magicamente pronto e limpo.

Sobre pesquisa “Trabalho remunerado e trabalho doméstico no cotidiano das mulheres”: “Uma outra questão que a pesquisa traz é que quando os homens estão em casa eles aumentam as tarefas de trabalho das mulheres. Aumentam a demanda do trabalho doméstico ou que então atrapalham sua realização” — Leia mais aqui.

2) DÃO CANTADAS, BUZINADAS & AFINS

Rolou a campanha Chega de Fiufiu, do Think Olga (que em breve vai virar documentário), o vídeo da garota que foi importunada 100 vezes ao andar pelas ruas de Nova York durante dez horas, e mais um monte de coisa. O assunto está sempre em pauta. Reclamamos o tempo todo das cantadas de rua. Elas são grosseiras, ofensivas e, mesmo quando proferidas por meio de belas palavras, são um saco. Nós, mulheres, andamos na rua porque precisamos ir à lugares ou queremos passear. É simples! Ás vezes estamos felizes, outras tristes, ás vezes com pressa e de mau humor. No geral, gostaríamos apenas de ficar em paz. Só que sempre tem um homem (um não, vários) que nos “percebe” e transforma qualquer simples caminhada em um tormento. Essas cantadas são muito mais intimidantes que gentis, quase como uma demarcação de espaço, uma lembrança de que o mundo, para nós mulheres, é ainda mais perigoso. E as buzinadas? Ah, basta ser mulher e andar a pé para levar buzinadas e cantadas de todo tipo (tem carro que joga até luz alta na nossa cara). Além da ofensa em si, cantadas são incômodas porque acionam outros medos: de abuso, estupro, assassinato e outras violências. E eu não digo isso por achismo: eu vivo isso todos os dias. Mas ainda assim, muitos homens tentam justificar esse tipo de coisa o tempo inteiro. E continuam importunando mulheres por aí.

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3) SE ORGULHAM DE SER ~POLITICAMENTE INCORRETOS~

Tem aquele ~humorista~ (não vou nem perder tempo citando nomes) que achou super engraçado dizer que estuprador de mulher feia merecia abraço e “comeria” uma cantora famosa grávida e o bebê. Tem aquele outro que ofereceu uma banana a um internauta negro e depois quis acionar o mito da democracia racial com um blábláblá sobre o mundo ser uma caixa de lápis de cor, tentando apagar o fato de que “macaco” é sim um xingamento historicamente usado contra pessoas negras. Tem aquele “conselheiro de relacionamentos” (cof, cof, ótimo eufemismo, hein?) do exterior que acha que humilhar mulher é técnica de sedução. Etcetcetc. A internet nos mostra, diariamente, mil exemplos de homens que seguem esse tipo de comportamento, achando que são super rebeldes, engraçados, chocantes, uau. Deixa eu contar uma coisa, se vocês acham que estão subvertendo alguma coisa perpetuando misoginia, machismo, homofobia e racismo, trago más notícias: vocês estão é colaborando para deixar as coisas do jeitinho que estão. São servos do status quo, nada além, e podemos entender o porquê, né? É intencional. Querem posar de autênticos ou divertidões, mas não querem abrir mão de privilégios. Bradam contra a corrupssaum11!! e clamam por ~mudanças~ (desde que não sejam do tipo que coloquem o filho da empregada doméstica na universidade) só pra disfarçar que, em muitos casos, tudo está bem – e até demais – pra vocês.

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4) PAGAM DE ENGAJADOS (OU “A CASA CAIU, FEMINISTO”)

Tem muito homem (hetero, gay, bi, etc) que consegue entender questões feministas. Eles geralmente manjam de teorias e sabem discutir com certa coerência. Tem muito homem que se diz pró-feminismo, pró-isso, pró-aquilo, mas, na prática, menospreza demandas de grupos minoritários dos quais ele não faz parte, tenta definir quais pautas ele considera mais importantes, acoberta colegas agressores e tenta justificar as agressões (isso quando ele mesmo não é o agressor), se infiltra em espaços de articulação de lutas e ideias com o intuito de liderar e alimentar o próprio ego, trata opiniões e sentimentos de mulheres com indiferença, isola e difama quem for “perigosa”, prega o ~poliamor~ e outras práticas ~livres~ apenas para se isentar de responsabilidades e cuidados com outras pessoas, mistura frustração sexual com política e influência com coação, etc, etc, etc. Aprendi, depois de quebrar a cara algumas vezes com diversos homens (e que já foram inclusive defendidos por mim – quem nunca iuzomou que atire a primeira pedra), como é fácil simular um discurso. E é benéfico pro cara. Ele não apenas paga de engajado, como ainda ganha estrelinha por ser, awn, tão bonzinho. Porém, acaba sendo muito do que ele mesmo critica. Pra esse tipo, nossas causas são meros fetiches intelectuais.

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5) RECUSAM O USO DO PRESERVATIVO

Estatísticas mostram que homens são resistentes em relação ao uso do preservativo. Basta uma googlada para ter acesso a dados diversos e dicas sobre como ~convencer~ o cara usar camisinha, aff. Cem entre cem mulheres que já conversei, que se relacionam com homens, reclamam disso. Os motivos são muitos: “a camisinha não cabe”, “eu broxo de camisinha”, “prefiro sem”, etc. Olha, nada disso é nosso problema, sabe? Mulher tem que ser “mãe” até na hora do sexo? Porque, assim, tem cara que não sabe procurar uma camisinha mais fina sozinho (para algumas pessoas, elas aumentam a sensação de prazer), um psicólogo (certa vez, a mãe de uma amiga, que é sexóloga, disse que grande parte dos problemas de ereção e ejaculação precoce são psicológicos) ou qualquer outra coisa que possa ajudar. Vivemos em uma sociedade falocêntrica que coloca a penetração como a representação máxima do ~fazer sexo~ e com certeza é algo que precisa ser desconstruído. Mas, enquanto isso, não forcem a barra e nem coloquem a saúde de mulheres em risco, caras. Muito menos tentem colocar nelas a culpa dos seus problemas. E gravidez também é um risco de relações sexuais sem preservativo, né? Nem toda mulher pode/quer tomar pílula ou faz uso de algum outro método anticoncepcional.

Clique aqui para acessar o Portal sobre aids, doenças sexualmente transmissíveis e hepatites virais do governo, para saber mais sobre doenças, postos de saúde, distribuição gratuita de medicamentos e preservativos e afins.

Aproveitando a oportunidade, é sempre bom lembrar:

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6) SÃO PAI-QUANDO-DÁ 

O texto Pai quando dá (clique aqui para ler) é certeiro. Conheço bem vários deles. O pai-quando-dá aparece em ocasiões especiais, não faz esforços para ajudar na criação dos filhos e tem sempre outras prioridades quando o assunto é dinheiro. E eles não existem apenas em relações com pais separados. Em lares em que os pais e mães estão juntos acontece bastante de a mãe (e/ou, infelizmente, babás e empregadas domésticas) cuidarem, educarem e alimentarem as crianças, enquanto os pais só aparecem para dar bronca ou brincar um pouquinho. Esse tópico casa com o primeiro: cuidar dos filhos também é dividir tarefas. Mulheres não têm a obrigação de abdicarem da própria vida em favor dos filhos, embora isso seja um mito corrente (e que, mais uma vez, mantém o privilégio masculino). Um fator curioso que já observei é que, com a internet e suas facilidades, tem muito pai-quando-dá que acha que basta postar uma foto do filho ou filha e dizer “PAPAI T AMA NHOMM” para que o mundo acredite em sua ótima atuação na vida desta criança (vejo alguns que sequer moram na mesma cidade que os filhos e não fazem esforço algum para visitá-los usando esse artifício). Só que, opa amigão: like no Facebook ou coraçãozinho no Instagram não coloca leite na mamadeira e nem faz criança dormir, ok? Paternidade acontece na prática, não basta falar sobre o filho.

7) ESTUPRAM

Segundo o Dossiê Mulher 2014, divulgado em agosto deste ano, no estado do Rio de Janeiro, 4.872 mulheres foram estupradas em 2013. Isso significa 13 mulheres atacadas por dia, ou uma a cada duas horas. Com base em informações de 2011 do Sistema de Informações de Agravo de Notificação do Ministério da Saúde (Sinan), pesquisa do IPEA lançada no início deste ano (que causou polêmica por seu resultado – que gerou a campanha “Eu não mereço ser estuprada” – e por errata publicada depois) estima que no mínimo 527 mil pessoas são estupradas por ano no Brasil e que, destes casos, apenas 10% chegam ao conhecimento da polícia. 
Segundo registros do Sinan, 89% das vítimas são do sexo feminino e possuem, em geral, baixa escolaridade. Do total, 70% são crianças e adolescentes. Infelizmente, a ideia geral que se tem é de que um estuprador é aquele cara que sai do mato com um facão, bate na mulher e a obriga a manter relações sexuais com ele. No entanto, isso serve apenas para esconder a realidade: familiares, amigos, vizinhos e outras pessoas próximas oferecem tanto ou mais risco quanto um estranho. E nem sempre a coação envolve força física. Pode envolver chantagem emocional, ameaça, entre outras coisas. Se a pessoa disse não, é estupro. Se a pessoa não tinha condição de dizer não (estava bêbada, dormindo, drogada, é jovem demais e/ou se sentiu intimidada, etc), é estupro. Se ela foi, de alguma forma, forçada, coagida, chantageada, humilhada, ainda que sutilmente, é estupro também.

“O que ainda precisa ser feito? Pensar sobre ajudar vítimas de estupros é uma coisa; pensar sobre acabar com o estupro é outra. E nós precisamos acabar com o estupro. Nós precisamos acabar com o incesto. Nós precisamos acabar com os espancamentos. Nós precisamos dar fim à prostituição e precisamos dar fim à pornografia. Isso significa que nós precisamos nos recusar a aceitar que esses são fenômenos naturais que simplesmente acontecem porque algum cara está tendo um dia ruim”

Trecho do discurso Relembre, resista, não se conforme, de Andrea Dworkin. Clique aqui para ler na íntegra.

8) PRATICAM VIOLÊNCIA DOMÉSTICA 

“A violência contra as mulheres constitui-se em uma das principais formas de violação dos seus direitos humanos, atingindo-as em seus direitos à vida, à saúde e à integridade física. Homens e mulheres são atingidos pela violência de maneira diferenciada. Enquanto os homens tendem a ser vítimas de uma violência predominantemente praticada no espaço público (minha observação: praticadas por eles mesmos e por instituições compostas e legitimadas por eles), as mulheres sofrem cotidianamente com um fenômeno que se manifesta dentro de seus próprios lares, na grande parte das vezes praticado por seus companheiros e familiares. A violência contra as mulheres em todas as suas formas (doméstica, psicológica, física, moral, patrimonial, sexual, tráfico de mulheres, assédio sexual, etc.) é um fenômeno que atinge mulheres de diferentes classes sociais, origens, idades, regiões, estados civis, escolaridade, raças e até mesmo a orientação sexual” — Leia a cartilha Política Nacional de Enfrentamento à Violência Contra as Mulheres na íntegra clicando aqui.

Preciso falar mais?

9) PEDOFILIA E OUTRAS PARAFILIAS

Já li diversas definições para parafilias: perversões, desvios sexuais, preferências anormais, etc. Essa matéria aqui explica um pouco o que são e categoriza algumas. No entanto, esquece de citar coisas importantissímas: são os homens os maiores “portadores” de parafilias, digamos assim. E muitas dessas parafilias envolvem dominação, subjugação, humilhação e tal. Como no caso dos que colocam a pedofilia em prática, dos que exibem suas partes íntimas em público sem o consentimento alheio, se esfregam e/ou se masturbam em cima de mulheres no transporte público e em outros lugares (também sem consentimento). Sem contar os que usam animais ou corpos de pessoas mortas. Ewww. Olha, eu acredito que, no caso dos seres humanos, sexo deve ser praticado com quem tem capacidade de dizer sim. Ou seja, entre pessoas. Vivas. E entre pessoas vivas que possuam idade/maturidade para consentir conscientemente – embora as relações hierárquicas de nossa sociedade torne até mesmo o consentimento de pessoas adultas questionável, caso elas estejam em situação de vulnerabilidade. Vejam bem, até respeito quem curte lamber uns pés, por exemplo, ou se excita vendo balões. Mas usar crianças, animais, pessoas distraídas, desacordadas… Mortas. NÃO! E não entendo como as parafilias, como um todo, são tratadas como situações individuais e não uma questão social que, de alguma forma se relaciona com o modo que a masculinidade é construída — uma construção que de certa forma diz ” é seu direito acessar os corpos que quiser, como quiser”. Esse é um assunto que eu gostaria de outras visões, aliás, pois comecei a pensar sobre não tem muito tempo.

10) COMETEM FEMICÍDIO

“No Brasil, entre 2001 a 2011, estima-se que ocorreram mais de 50 mil feminicídios: ou seja, em média, 5.664 mortes de mulheres por causas violentas a cada ano, 472 a cada mês, 15,52 a cada dia, ou uma morte a cada 1h30. (…) Isto porque além do elevado número de assassinatos por causas violentas – critério adotado no levantamento para indicar o feminicídio – o estudo constatou que o perfil dos óbitos é, em grande parte, compatível com situações relacionadas à violência doméstica e familiar contra a mulher e poderiam ter sido evitadas. Um indicativo nesse sentido é que quase um terço dos óbitos  teve o domicílio como local de ocorrência. (…) “Essa situação é preocupante, uma vez que os feminicídios são eventos completamente evitáveis, que abreviam as vidas de muitas mulheres jovens, causando perdas inestimáveis”, aponta a pesquisa, realizada com base na avaliação e correção de dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde. (…) O feminicídio é definido como crime de homicídio resultante de violência contra a mulher e é caracterizado em quatro circunstâncias: violência doméstica e familiar; violência sexual; mutilação ou desfiguração da vítima; emprego de tortura ou qualquer meio cruel ou degradante” — Leia mais aqui.

Martela, martela, martela o martelão, batendo a mãozinha, na palma da mão

Martela, martela, martela o martelão, batendo a mãozinha, na palma da mão

Bom, tentei ser breve e sucinta (e falhei *risos nervosos*). Com certeza muitas informações poderiam ter sido acrescentadas. Mas espero que este breve apanhado tenha ficado claro. Peguem os seus martelos e entrem no bonde, migas. E continuem acrescentando itens a lista nos comentários! 🙂

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“Enegrecer o Feminismo: A Situação da Mulher Negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero”

Hoje é 20 de novembro, dia da Consciência Negra. Publico abaixo um texto clássico da Sueli Carneiro, que toca em pontos importantes no que diz respeito à necessidade de priorizar as especificidades da vivência da mulher negra para que a luta feminista seja verdadeiramente plural e em busca da libertação de todas as mulheres:

No Brasil e na América Latina, a violação colonial perpetrada pelos senhores brancos contra as mulheres negras e indígenas e a miscigenação daí resultante está na origem de todas as construções de nossa identidade nacional, estruturando o decantado mito da democracia racial latino-americana, que no Brasil chegou até as últimas conseqüências. Essa violência sexual colonial é, também, o “cimento” de todas as hierarquias de gênero e raça presentes em nossas sociedades, configurando aquilo que Ângela Gilliam define como “a grande teoria do esperma em nossa formação nacional”, através da qual, segundo Gilliam: “O papel da mulher negra é negado na formação da cultura nacional; a desigualdade entre homens e mulheres é erotizada; e a violência sexual contra as mulheres negras foi convertida em um romance”.

O que poderia ser considerado como história ou reminiscências do período colonial permanece, entretanto, vivo no imaginário social e adquire novos contornos e funções em uma ordem social supostamente democrática, que mantém intactas as relações de gênero segundo a cor ou a raça instituídas no período da escravidão. As mulheres negras tiveram uma experiência histórica diferenciada que o discurso clássico sobre a opressão da mulher não tem reconhecido, assim como não tem dado conta da diferença qualitativa que o efeito da opressão sofrida teve e ainda tem na identidade feminina das mulheres negras.

Quando falamos do mito da fragilidade feminina, que justificou historicamente a proteção paternalista dos homens sobre as mulheres, de que mulheres estamos falando? Nós, mulheres negras, fazemos parte de um contingente de mulheres, provavelmente majoritário, que nunca reconheceram em si mesmas esse mito, porque nunca fomos tratadas como frágeis. Fazemos parte de um contingente de mulheres que trabalharam durante séculos como escravas nas lavouras ou nas ruas, como vendedoras, quituteiras, prostitutas… Mulheres que não entenderam nada quando as feministas disseram que as mulheres deveriam ganhar as ruas e trabalhar! Fazemos parte de um contingente de mulheres com identidade de objeto. Ontem, a serviço de frágeis sinhazinhas e de senhores de engenho tarados.

São suficientemente conhecidas as condições históricas nas Américas que construíram a relação de coisificação dos negros em geral e das mulheres negras em particular. Sabemos, também, que em todo esse contexto de conquista e dominação, a apropriação social das mulheres do grupo derrotado é um dos momentos emblemáticos de afirmação de superioridade do vencedor.

Hoje, empregadas domésticas de mulheres liberadas e dondocas, ou de mulatas tipo exportação.

Quando falamos em romper com o mito da rainha do lar, da musa idolatrada dos poetas, de que mulheres estamos falando? As mulheres negras fazem parte de um contingente de mulheres que não são rainhas de nada, que são retratadas como antimusas da sociedade brasileira, porque o modelo estético de mulher é a mulher branca. Quando falamos em garantir as mesmas oportunidades para homens e mulheres no mercado de trabalho, estamos garantindo emprego para que tipo de mulher? Fazemos parte de um contingente de mulheres para as quais os anúncios de emprego destacam a frase: “Exige-se boa aparência”.

Quando falamos que a mulher é um subproduto do homem, posto que foi feita da costela de Adão, de que mulher estamos falando? Fazemos parte de um contingente de mulheres originárias de uma cultura que não tem Adão. Originárias de uma cultura violada, folclorizada e marginalizada, tratada como coisa primitiva, coisa do diabo, esse também um alienígena para a nossa cultura. Fazemos parte de um contingente de mulheres ignoradas pelo sistema de saúde na sua especialidade, porque o mito da democracia racial presente em todas nós torna desnecessário o registro da cor dos pacientes nos formulários da rede pública, informação que seria indispensável para avaliarmos as condições de saúde das mulheres negras no Brasil, pois sabemos, por dados de outros países, que as mulheres brancas e negras apresentam diferenças significativas em termos de saúde.

Portanto, para nós se impõe uma perspectiva feminista na qual o gênero seja uma variável teórica, mas como afirmam Linda Alcoff e Elizabeth Potter, que não “pode ser separada de outros eixos de opressão” e que não “é possível em uma única análise. Se o feminismo deve liberar as mulheres, deve enfrentar virtualmente todas as formas de opressão”. A partir desse ponto de vista, é possível afirmar que um feminismo negro, construído no contexto de sociedades multirraciais, pluriculturais e racistas – como são as sociedades latino-americanas – tem como principal eixo articulador o racismo e seu impacto sobre as relações de gênero, uma vez que ele determina a própria hierarquia de gênero em nossas sociedades.

Em geral, a unidade na luta das mulheres em nossas sociedades não depende apenas da nossa capacidade de superar as desigualdades geradas pela histórica hegemonia masculina, mas exige, também, a superação de ideologias complementares desse sistema de opressão, como é o caso do racismo. O racismo estabelece a inferioridade social dos segmentos negros da população em geral e das mulheres negras em particular, operando ademais como fator de divisão na luta das mulheres pelos privilégios que se instituem para as mulheres brancas. Nessa perspectiva, a luta das mulheres negras contra a opressão de gênero e de raça vem desenhando novos contornos para a ação política feminista e anti-racista, enriquecendo tanto a discussão da questão racial, como a questão de gênero na sociedade brasileira.

Esse novo olhar feminista e anti-racista, ao integrar em si tanto as tradições de luta do movimento negro como a tradição de luta do movimento de mulheres, afirma essa nova identidade política decorrente da condição específica do ser mulher negra. O atual movimento de mulheres negras, ao trazer para a cena política as contradições resultantes da articulação das variáveis de raça, classe e gênero, promove a síntese das bandeiras de luta historicamente levantadas pelos movimento negro e de mulheres do país, enegrecendo de um lado, as reivindicações das mulheres, tornando-as assim mais representativas do conjunto das mulheres brasileiras, e, por outro lado, promovendo a feminização das propostas e reivindicações do movimento negro.

Enegrecer o movimento feminista brasileiro tem significado, concretamente, demarcar e instituir na agenda do movimento de mulheres o peso que a questão racial tem na configuração, por exemplo, das políticas demográficas, na caracterização da questão da violência contra a mulher pela introdução do conceito de violência racial como aspecto determinante das formas de violência sofridas por metade da população feminina do país que não é branca; introduzir a discussão sobre as doenças étnicas/raciais ou as doenças com maior incidência sobre a população negra como questões fundamentais na formulação de políticas públicas na área de saúde; instituir a crítica aos mecanismos de seleção no mercado de trabalho como a “boa aparência”, que mantém as desigualdades e os privilégios entre as mulheres brancas e negras.

Tem-se, ainda, estudado e atuado politicamente sobre os aspectos éticos e eugênicos colocados pelos avanços das pesquisas nas áreas de biotecnologia, em particular da engenharia genética. Um exemplo concreto refere-se, por exemplo, às questões de saúde e de população. Se, historicamente, as práticas genocidas tais como a violência policial, o extermínio de crianças, a ausência de políticas sociais que assegurem o exercício dos direitos básicos de cidadania têm sido objetos prioritários da ação política dos movimentos negros, os problemas colocados hoje pelos temas de saúde e de população nos situam num quadro talvez ainda mais alarmante em relação aos processos de genocídio do povo negro no Brasil.

Portanto, esse novo contexto de redução populacional, fruto da esterilização maciça – aliada tanto à progressão da AIDS quanto do uso da droga entre a nossa população – e das novas biotecnologias, em particular a engenharia genética, com as possibilidades que ela oferece de práticas eugênicas, constitui novo e alarmante desafio contra o qual o conjunto do movimento negro precisa atuar.

A importância dessas questões para as populações consideradas descartáveis, como são os negros, e o crescente interesse dos organismos internacionais pelo controle do crescimento dessas populações, levou o movimento de mulheres negras a desenvolver uma perspectiva internacionalista de luta. Essa visão internacionalista está promovendo a diversificação das temáticas, com o desenvolvimento de novos acordos e associações e a ampliação da cooperação interétnica. Cresce ente as mulheres negras a consciência de que o processo de globalização, determinado pela ordem neoliberal que, entre outras coisas, acentua o processo de feminização da pobreza, coloca a necessidade de articulação e intervenção da sociedade civil a nível mundial. Essa nova consciência tem nos levado ao desenvolvimento de ações regionais no âmbito da América Latina, do Caribe, e com as mulheres negras dos países do primeiro mundo, além da participação crescente nos fóruns internacionais, nos quais governos e sociedade civil se defrontam e definem a inserção dos povos terceiro-mundistas no terceiro milênio.

Essa intervenção internacional, em especial nas conferências mundiais convocadas pela ONU a partir da década de 1990, tem nos permitido ampliar o debate sobre a questão racial a nível nacional e internacional e sensibilizar movimentos, governos e a ONU para a inclusão da perspectiva anti-racista e de respeito à diversidade em todos os seus temas. A partir dessa perspectiva, atuamos junto à Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento, realizada no Cairo, em 1994, em relação à qual as mulheres negras operaram a partir da idéia de que “em tempos de difusão do conceito de populações supérfluas, liberdade reprodutiva é essencial para as etnias discriminadas para barrar as políticas controladoras e racistas”.

Assim, estivemos em Viena, na Conferência de Direitos Humanos, da qual saiu o compromisso sugerido pelo governo brasileiro, de realização de uma conferência mundial sobre racismo e outra sobre imigração, para antes do ano 2000.

Atuamos no processo de preparação da Conferência de Beijing, durante o qual foi realizado um conjunto de ações através das quais é possível medir o crescimento da temática racial no movimento de mulheres do Brasil e no mundo. Vale destacar que a Conferência de Viena assumiu que os direitos da mulher são direitos humanos, o que está consubstanciado na Declaração e no Programa de Ação de Viena, que dão grande destaque à questão da mulher e pregam a sua plena participação, em condições de igualdade, na vida política, civil, econômica, social e cultural nos níveis nacional, regional e internacional, e a erradicação de todas as formas de discriminação sexual, considerando-as objetivos prioritários da comunidade internacional.

Se a Declaração de Viena avança na compreensão da universalidade dos direitos humanos das mulheres, para nós mulheres não brancas era fundamental uma referência explícita à violação dos direitos da mulher baseada na discriminação racial. Entendíamos que a Conferência de Beijing deveria fazer uma referência explícita à opressão sofrida por um contingente significativo de mulheres em função da origem étnica ou racial. Essas conferências mundiais se tornaram espaços importantes no processo de reorganização do mundo após a queda do muro de Berlim e constituem hoje fóruns de recomendações de políticas públicas para o mundo.

O movimento feminista internacional tem operado nesses fóruns como o lobby mais eficiente entre os segmentos discriminados do mundo. Isso explica o avanço da Conferência de Direitos Humanos de Viena em relação às questões da mulher, assim como os avanços registrados na Conferência do Cairo e na Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (ECO 92), realizada no Rio de Janeiro em 1992. Nos esforços desenvolvidos pelas mulheres na Conferência de Beijing, um dos resultados foi que o Brasil, pela primeira vez na diplomacia internacional, obstruiu uma reunião do G-77, grupo dos países em desenvolvimento do qual faz parte, para discordar sobre a retirada do termo étnico-racial do Artigo 32 da declaração de Beijing, questão inegociável para as mulheres negras do Brasil e dos países do Norte. A firmeza da posição brasileira assegurou que a redação final do Artigo 32 afirmasse a necessidade de “intensificar esforços para garantir o desfrute, em condições de igualdade, de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais a todas as mulheres e meninas que enfrentam múltiplas barreiras para seu desenvolvimento e seu avanço devido a fatores como raça, idade, origem étnica, cultura, religião…” O próximo passo será a monitoração desses acordos por parte de nossos governos.

Conclusões
A origem branca e ocidental do feminismo estabeleceu sua hegemonia na equação das diferenças de gênero e tem determinado que as mulheres não brancas e pobres, de todas as partes do mundo, lutem para integrar em seu ideário as especificidades raciais, étnicas, culturais, religiosas e de classe social. Até onde as mulheres brancas avançaram nessas questões? As alternativas de esquerda, de direita e de centro se constroem a partir desses paradigmas instituídos pelo feminismo que, segundo Lélia Gonzalez, apresentam dois tipos de dificuldades para as mulheres negras: por um lado, a inclinação eurocentrista do feminismo brasileiro constitui um eixo articulador a mais da democracia racial e do ideal de branqueamento, ao omitir o caráter central da questão da raça nas hierarquias de gênero e ao universalizar os valores de uma cultura particular (a ocidental) para o conjunto das mulheres, sem mediá-los na base da interação entre brancos e não brancos; por outro lado, revela um distanciamento da realidade vivida pela mulher negra ao negar “toda uma história feita de resistência e de lutas, em que essa mulher tem sido protagonista graças à dinâmica de uma memória cultural ancestral (que nada tem a ver com o eurocentrismo desse tipo de feminismo)”. Nesse contexto, quais seriam os novos conteúdos que as mulheres negras poderiam aportar à cena política para além do “toque de cor” nas propostas de gênero? A feminista negra norte-americana Patricia Collins argumenta que o pensamento feminista negro seria “(…) um conjunto de experiências e idéias compartilhadas por mulheres afro-americanas, que oferece um ângulo particular de visão de si, da comunidade e da sociedade… que envolve interpretações teóricas da realidade das mulheres negras por aquelas que a vivem…” A partir dessa visão, Collins elege alguns “temas fundamentais que caracterizariam o ponto de vista feminista negro”. Entre eles, se destacam: o legado de uma história de luta, a natureza interconectada de raça, gênero e classe e o combate aos estereótipos ou “imagens de autoridade”.

Acompanhando o pensamento de Patricia Collins, Luiza Barros usa como paradigma a imagem da empregada doméstica como elemento de análise da condição de marginalização da mulher negra e, a partir dela, busca encontrar especificidades capazes de rearticular os pontos colocados pela feminista norte-americana. Conclui, então, que “essa marginalidade peculiar é o que estimula um ponto de vista especial da mulher negra, (permitindo) uma visão distinta das contradições nas ações e ideologia do grupo dominante”. “A grande tarefa é potencializá-la afirmativamente através da reflexão e da ação política”.

O poeta negro Aimé Cesaire disse que “as duas maneiras de perder-se são: por segregação, sendo enquadrado na particularidade, ou por diluição no universal”. A utopia que hoje perseguimos consiste em buscar um atalho entre uma negritude redutora da dimensão humana e a universalidade ocidental hegemônica que anula a diversidade. Ser negro sem ser somente negro, ser mulher sem ser somente mulher, ser mulher negra sem ser somente mulher negra. Alcançar a igualdade de direitos é converter-se em um ser humano pleno e cheio de possibilidades e oportunidades para além de sua condição de raça e de gênero. Esse é o sentido final dessa luta.

Acredito que nessa década, as mulheres negras brasileiras encontraram seu caminho de autodeterminação política, soltaram as suas vozes, brigaram por espaço e representação e se fizeram presentes em todos os espaços de importância para o avanço da questão da mulher brasileira hoje. Foi sua temática a que mais cresceu politicamente no movimento de mulheres do Brasil, integrando, espera-se que definitivamente, a questão racial no movimento de mulheres. O que impulsiona essa luta é a crença “na possibilidade de construção de um modelo civilizatório humano, fraterno e solidário, tendo como base os valores expressos pela luta anti- racista, feminista e ecológica, assumidos pelas mulheres negras de todos os continentes, pertencentes que somos à mesma comunidade de destinos”. Pela construção de uma sociedade multirracial e pluricultural, onde a diferença seja vivida como equivalência e não mais como inferioridade

Perfil de Sueli Carneiro, por Fundação Palmares:

Sueli Carneiro é doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e fundadora do Geledés – Instituto da Mulher Negra, primeira organização negra e feminista independente de São Paulo. Teórica da questão da mulher negra, criou o único programa brasileiro de orientação na área de saúde física e mental específico para mulheres negras, onde mais de trinta mulheres são atendidas semanalmente por psicólogos e assistentes sociais.

Em 1988 foi convidada a integrar o Conselho Nacional da Condição Feminina, em Brasília. Após denúncias de um grupo de cantores de rap da cidade de São Paulo, que queriam proteção porque eram vítimas frequentes de agressão policial. Ela decidiu criar em 1992 um plano específico para a juventude negra, o Projeto Rappers, onde os jovens são agentes de denúncia e também multiplicadores da consciência de cidadania dos demais jovens.

Sueli-Carneiro-Natura

Ela é também autora da obra “Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil”, que traz uma abordagem crítica dos comportamentos humanos e apresenta os principais avanços na superação das desigualdades criadas pela prática da discriminação racial – indicadores sociais, mercado de trabalho, consciência negra, cotas, miscigenação racial no Brasil, racismo no universo infantil, obrigatoriedade do ensino da História e Cultura Africana e Afro-Brasileira nas escolas públicas do país, entre outros.

O site da Fundação Palmares disponibiliza um mosaico com algumas das mulheres negras que foram ou são protagonistas da luta do movimento negro no Brasil. Clique aqui e acesse.

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“Você pode me chamar de TERF, mas eu não sou transfóbica”

Mentira, não pode não. Mas esse é o título de um texto cuja tradução posto abaixo. Ele fala de um assunto um tanto quanto polêmico dentro do meio feminista virtual: as temidas ~TERFs~. Eu não me considero feminista radical, por me achar bastante leite com pêra, mas me alinho com diversas ideias que giram dentro desse movimento. O feminismo radical vai direto ao ponto quando se fala de patriarcado, violência contra a mulher, prostituição, pedofilia, pornografia, etc. Assuntos ainda urgentes – e ainda hoje negligenciados, mesmo por feministas. Não me apetece o malabarismo retórico que pode ser visto, algumas vezes, dentro do feminismo “mainstream”, feito com o intuito de preservar agentes de violência de culpa e de dissipar categorias em indivíduos, transformando certas ações em meras vontades individuais, ou certas violências em atos descolados de uma estrutura.

Me revolta a violência sofrida por pessoas transexuais. No entanto, pensar em como o conceito de transexualidade se insere dentro do meio feminista, especialmente quando falamos de mulheres transexuais, não significa desejar o mal para essas pessoas ou concordar com agressões. Até mesmo porque são os homens os principais personagens no que diz respeito ao extermínio e exploração de minorias.

Não colabore com a perseguição e o isolamento de mulheres, não subestime a inteligência alheia, não ache que misoginia é algo irrelevante. Debata, discuta, aprenda, ensine. Não jogue fora o conhecimento de outras mulheres. O feminismo agradece. Segue o texto:

Você pode me chamar de TERF, mas eu não sou transfóbica

Aviso: eu aceito que, assim como todo outro grupo no planeta, mulheres trans têm uma pluralidade de pontos de vista teóricos. Eu prezo que muitas são apoiadoras do movimento pela libertação de mulheres, e tenho amigas que o são e de quem ouço e aprendo diariamente. Esse artigo se refere aos pontos de vista dominantes no Twitter.

Quantas vezes por dia eu sou chamada de TERF? Muitas vezes para se contar. Quantas vezes eu vi “você é TERF, sua opinião é irrelevante”? Muitas vezes para se contar. Não vamos fingir que TERF é uma descrição objetiva de um ponto de vista teórico. É um insulto. Um termo abusivo cujo objetivo é minar, dispensar e apagar a voz de mulheres feministas radicais.

TERF é um acrônimo para “Trans Exclusionary Radical Feminists” (inglês para “Feministas Radicais Trans-Excludentes”). Mas o que isso significa? A ênfase é na exclusão – um ato intencional – e a implicação é que isso é baseado em preconceito e na discriminação propositada. Uma coisa ruim. Mas uma análise mais próxima expõe as falhas nessa definição. Excluídas de quê? Feminismo? Da situação de ser mulher? A análise do feminismo radical mantém que o feminismo é o movimento de mulheres para a liberação das mulheres da opressão, e que a realidade biológica feminina é um aspecto que define a experiência de opressão de uma mulher. Isso não exclui mulheres trans com base em preconceitos ou discriminação mais do que exclui homens. TERF também ofusca o fato que a vasta maioria de feministas radicais acredita que TODAS as pessoas deviam trabalhar juntas para acabar com a opressão das mulheres e que muitas acreditam que, uma vez que mulheres trans transicionam, elas experimentam tanto preconceito e discriminação quanto mulheres que nasceram mulheres experimentam. Na realidade, TERF é um termo sem significado baseado no desejo de silenciar a voz de feministas radicais. Em última análise, é misógino.

Então, por que não podemos nos dar bem?

1) Insultos, mentiras, silenciamento & demonização

Então, nós explicamos que toda vez que TERF é usado tem a intenção de insultar. Nós sabemos que você sabe disso. Não é um bom começo para um diálogo produtivo, né? Você pensaria que pessoas trans que se identificam como mulheres seriam compreensivas e abertas a mulheres analisando a opressão que elas enfrentam, mesmo que elas discordem. Ao invés disso, nós somos silenciadas. Uma mulher é designada como “RadFem” e tudo que ela diz não tem valor e ela não é bem-vinda em conversas. Como isso pode não ser interpretado como um espelho do comportamento de homens patriarcais que esperam nos silenciar?

Brincando, muitas RadFems começaram a usar o termo “radfemfobia”. Na verdade não é uma brincadeira. Radfems são constantemente expostas a preconceitos e fanatismos – ou seja, sendo ignoradas, excluídas ou anuladas só porque elas são sabidamente feministas radicais. Panelinhas são criadas só para se opor a elas. Mentiras são constantemente contadas e são prontamente aceitas pela multidão. Eu ainda não vi outro grupo enfrentar tanta hostilidade, tanto da parte de homens quanto da parte de outras mulheres.

A demonização vai tão longe que a narrativa aceita é que o propósito/motivação de feministas radicais é o de atacar mulheres trans. Mas a pista está no título. Feministas radicais querem acabar a opressão de mulheres, esse é o ÚNICO propósito ou motivação. Nós vemos a opressão das mulheres e trabalhamos fortemente para descobrir as ações necessárias a serem tomadas para contra-atacar essa opressão ou as crenças que sustentam a opressão. Novamente, você pode não concordar com a análise, mas interpretar de forma errada a motivação é tanto desonesto quanto manipulador. Mantendo que a análise existe para oprimir “você” diz mais sobre a sua auto-obsessão do que sobre o feminismo radical.

2) Gênero

Feministas radicais começaram a usar “gênero” na década de 1960 (antes disso, o termo raramente era usado). O propósito de distinguir sexo e gênero era para ilustrar “que a condição social de ser uma mulher ou ser um homem não é a mesma coisa que, e não segue “naturalmente”, a condição biológica de ser fêmea ou macho” (http://www.trouble.myzen.co.uk/?page_id=37). Note que isso não significa que homens podem se tornar mulheres e vice-versa. Isso significa que o papel social “mulher” é imposto como um resultado de uma pessoa ser fêmea, como Simone de Beauvior resumiu em sua citação “não se nasce mulher, torna-se”. Então mulher/fêmea e homem/macho são inseparáveis, apesar de que indivíduos esclarecidos e/ou empoderados podem conseguir jogar fora algumas das imposições sociais. Mas o que isso realmente significa é que “gênero” é uma hierarquia nos dizendo como nós “devíamos” nos comportar baseado no nosso sexo e, com todas as coisas “femininas” desvalorizadas, isso serve como a maior ferramenta do patriarcado para manter mulheres como subordinadas. 

Reivindicações de um cérebro, essência, sentimento ou identidade de gênero femininos são essencialistas. Elas apelam a uma ideia que existe uma “mulher” além de sua experiência de opressão baseada em seu sexo e isso confirma crenças patriarcais antiquíssimas de mulheres como “outras”. Este último, identidade de gênero, é frequentemente proposto como uma experiência subjetiva. Na realidade, é a proposição mais perigosa, porque negá-la é uma afronta à crença dominante no individualismo liberal. Mas um apelo à identidade de gênero depende fortemente em um preconceito do que significa se sentir como/ser uma mulher. Em que mais isso pode ser baseado além de influências culturais? Esse é o resultado de estereótipos e misoginia.

3) Essencialismo

Ao promover a transição – envolvendo operações ou não (excluindo aqueles que passam por distúrbio de disforia corporal) –, pessoas trans reafirmam a conexão entre gênero e sexo ao invés de subvertê-la. Revolucionário seria jogar fora as correntes do gênero e ser quem você quiser ser independente do corpo em que você se encontra.

Quando mulheres trans mudam o jeito que elas usam o seu cabelo, removem seus pelos, passam por cirurgias cosméticas, implantes mamários ou criam uma cavidade que elas chamam de “vagina”, estão reduzindo mulheres a seus corpos e as normas sociais impostas sobre esses corpos.

Ao insistir que elas são ou precisam se tornar mulheres, mulheres trans validam ideias arcaicas sobre o sexo feminino. É verdade que muitas mulheres também fazem essa função dentro do mundo, mas isso não nega o impacto. Querer acabar com a opressão feminina requer que se reconheça isso, assim como feministas radicais reconhecem. Muitas mulheres trans também buscam maneiras de expressar suas experiências de forma a não impactar mulheres negativamente. Isso pode ser feito.

4) Apagamento de mulheres

Mulheres têm sido oprimidas desde que temos registros, e com 54% da população mundial é a opressão mais difundida de todas. Nossas ancestrais lutaram durante o último século por todos os direitos e avanços que nós fizemos. Então quando nós ouvimos que direitos reprodutivos etc. não são problema de mulheres, isso machuca. Não só em um nível individual, mas o movimento em si. Isso coloca obstáculos enormes e incorretos numa trilha que ainda está longe de acabar.

Recentemente o nome do blog “Vagenda” e assuntos como menstruação foram rotulados como exclusionários e transfóbicos. Mulheres lutaram por séculos para não só terem uma voz, mas também terem direito de falar sobre assuntos que afetam fêmeas abertamente, sem serem vistas como desimportantes ou tabus. Uma pessoa muito mais sensível que eu disse “se 99.9% das pessoas são afetadas são mulheres, é bastante razoável chamar de uma questão feminina”. Essas são questões femininas. Essas são questões em que o movimento feminista *precisa* focar. Porque, se feministas não o fizerem, ninguém mais o fará. Esse é meio que o ponto do feminismo. Silenciar mulheres nessas questões, o que inclui excluí-las do discurso feminista, é misoginia.

Mulheres estão sendo silenciadas. O novo choro de transfobia só serve para nos atrasar, apagando todo o progresso que foi feito. As oprimidas, aquelas que são socializadas para acreditar que “todos os outros primeiro, por último eu” estão ouvindo isso de novo. E muitas delas estão comprando esse discurso. Pior ainda são mulheres que, falando sobre suas experiências como fêmeas e analisando sua opressão, são alvos de ataque enquanto os verdadeiros transfóbicos são ignorados. “Toda a transfobia que eu já vivenciei foi de TERFs”. Então você está sugerindo que feministas radicais são quem batem, estupram e matam mulheres trans? Não, eu pensei que não. Porque um pequeno grupo de mulheres com pouca ou nenhuma influência está sendo alvo de tal campanha?

Então. Para ser honesta, eu não ligo para como você vive a sua vida. Eu não ligo para como você quer se chamar ou para como você quer se vestir. Eu não ligo se alguns grupos ou espaços femininos te acolhem de braços abertos. Eu fico feliz de lutar ao seu lado pelos seus direitos legais, saúde e segurança apropriados, o que eu acho que todos os seres humanos merecem.

Onde eu começo a ter problemas é onde você nega discussões quando as necessidades e interesses de mulheres e mulheres trans se tornam conflitantes. Onde você me insulta e diz que suas necessidades importam acima de tudo. Onde suas palavras e crenças silenciam vozes de mulheres, apagam a realidade de mulheres e contribuem para a opressão de mulheres. O que, honestamente, como mulher trans ou feminista liberal, eu pensei que você entenderia.

Texto do blog A feminist roarsClique aqui para ler o original em inglês.