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Aborto no Brasil: já passou da hora do assunto ser levado a sério

Leia matéria que a Agência Brasil publicou nesta terça-feira:

Quadrilhas envolvidas com abortos chegavam a lucrar R$ 300 mil por mês

A Polícia Civil do Rio de Janeiro desarticulou hoje (14) sete organizações criminosas envolvidas com a prática ilegal de abortos na cidade. Uma delas chegava a lucrar até R$ 300 mil por mês. Segundo o delegado Felipe Bittencourt, da Corregedoria da Polícia Civil, os grupos eram independentes, mas a colaboração entre eles evitava a competição.

Apesar de não terem comando unificado, os grupos respeitavam os territórios de atuação definidos para cada um. Alguns dividiam os bairros de Bonsucesso, Rocha e Tijuca, na zona norte. Outros dois atuavam em Campo Grande e Guadalupe, na zona oeste. Os demais comandavam a prática em Copacabana e Botafogo, na zona sul. Conforme o delegado, 75 pessoas acusadas de integrar as associações criminosas tiveram prisão preventiva decretada pela Justiça.

“O histórico dessas pessoas demonstra que ela atuavam há muitos anos. Alguns haviam sido indiciados na década de 60. É uma história de crimes e de impunidade. Deflagramos hoje uma ação que desmantela vários crimes. A legislação é muito benevolente. Podemos quase afirmar que, pelo retorno financeiro, vale a pena cometer esse crime”, salientou o chefe da polícia fluminense, Fernando Veloso.

Até as 11h30 de hoje, 56 mandados de prisão tinham sido cumpridos. Destes, cinco eram de pessoas que já estavam presas. Entre os presos, estão médicos, policiais civis e militares, advogados e um sargento do Exército.

As clínicas ilegais mantidas pelas organizações criminosas faziam abortos em mulheres com até sete meses de gestação. Os preços variavam de R$ 1 mil (para maiores de 18 anos e em estágio inicial de gravidez) até R$ 7,5 mil (para adolescentes com 23 a 26 semanas de gestação).

O processo conta com depoimentos de 37 mulheres submetidas a procedimentos abortivos. Elas não foram indiciadas pelo crime de aborto, mas poderão responder criminalmente, caso esse seja o entendimento do Judiciário.

Cada grupo tinha um chefe e contava com responsáveis pelas mais variadas tarefas, como procedimento cirúrgico, auxílio de enfermagem, agenciamento das gestantes, segurança do local, medicamentos e transporte das usuárias do serviço clandestino.

Os servidores públicos investigados, entre eles oito policiais civis e quatro militares, seriam responsáveis por tarefas de segurança,  proteção da associação criminosa, administração das clínicas e transporte das gestantes. Além disso, recebiam dinheiro para evitar a repressão ou investigação dos casos.

Entre os crimes apurados, estão aborto (pena de um a quatro anos de prisão), corrupção passiva (dois a 12 anos), exercício ilegal da medicina (seis meses a dois anos), associação para o tráfico (três a dez anos) e associação criminosa armada (um a três anos).

Entre os dez médicos denunciados à Justiça, alguns têm anotações muito antigas por aborto. Um dos acusados, por exemplo, havia sido autuado pela prática em 1962. Uma médica, com processos desde 2001, é suspeita de mais de mil procedimentos.

Secretário estadual de Segurança, José Mariano Beltrame informou que a operação de hoje deve servir para a rediscussão da legislação relativa ao aborto. “Acho o momento muito oportuno para as coisas sereem discutidas. Não vamos dizer o que a lei precisa fazer. Entretanto, a sociedade tem de conhecer o efeito que uma pessoa sofre ao praticar um aborto. É um problema nacional. Temos de acabar com o tabu e recolocar a discussão à mesa”, acrescentou Beltrame.

Acho que, com essa notícia, podemos entender muita coisa. Como funciona todo o processo por trás de um aborto ilegal feito em clínica no Brasil (aliás, no momento que escrevo esse post, passa uma reportagem na televisão falando sobre a operação, frisando as más condições de higiene dessas clínicas). E como manter esse processo na ilegalidade é lucrativo. Tanto que existe toda uma rede de profissionais envolvida, que ganha em cima da falta de amparo que as mulheres sofrem: médicos, policiais, advogados e etc. Vejam bem: UMA clínica chegava a lucrar até R$ 300 mil por mês, o que gera mais de R$ 3 milhões por ano. Sendo cada procedimento entre R$ 1 mil e R$ 7,5 mil, vamos pegar um valor médio de R$ 3500: esse valor significa mais de 80 abortos por mês em, repito, UMA CLÍNICA. Nessa operação, foram desarticuladas SETE organizações, mas claro que existem muitas outras espalhadas pelo país.  Ou seja, os números são muito, muito mais altos do que estes aqui. Então, olha, vamos combinar que não são apenas questões morais que emperram o debate, né!?

Em maio deste ano, o aborto legal entrou para lista de procedimentos do SUS. Isso facilitaria o processo, definindo exatamente qual seria o repasse do governo para os hospitais, entre outras medidas. Porém, pudemos comemorar este avanço por muito pouco tempo: uma semana depois, a portaria que previa a medida foi revogada. O Ministério da Saúde minimizou a questão (que não se sabe se foi causada por pressão de bancada evangélica ou a alegada “falha técnica”), dizendo que era apenas uma mudança burocrática e que o SUS já faz a interrupção da gravidez em casos permitidos pela legislação. No entanto, parte da luta feminista é justamente para colocar a burocracia a favor da mulher, oras. Quanto mais definição e amparo, sem deixar margem para interpretações subjetivas da situação por parte de profissionais que misturam crenças e opiniões onde deveriam ser neutros, mais avanço. Se você quer saber em quais situações o aborto é permitido ou tem outras dúvidas, clique aqui. Existem estimativas de que 1 milhão de abortos aconteçam por ano no Brasil. 

As mortes recentes veiculadas pela mídia de mulheres que foram interromper a gravidez em clínicas clandestinas (leia aqui e aqui), estão trazendo o debate à tona novamente e desmistificam a frase que diz que só mulher pobre morre por conta de aborto. Na verdade, nenhuma mulher está segura. Quem não tem dinheiro está ainda mais vulnerável e exposta à riscos, claro, mas as que têm condições de ir para uma clínica podem se deparar com falsos médicos, entre outros tipos de golpistas, e ambientes sujos. É triste a questão do aborto não ser tratada com a devida urgência.

(Leia: Óbitos em clínicas clandestinas de aborto estimulam debate sobre o tema)

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É preciso acabar com o mito de que facilitar o aborto é “liberar geral, uhu, festa do aborto”. Esse é um procedimento cirúrgico que envolve não apenas o corpo, mas o psicológico da mulher (embora existam as que não sintam culpa ou não sofram em relação ao assunto. Esse é um outro ponto importante também: mesmo quem é a favor do aborto ás vezes espera que as mulheres estejam sempre chorosas e arrependidas, quase como numa espécie de pedido eterno de redenção pelo ato). Aborto é questão de saúde pública. Não importa o que eu faria na minha vida pessoal, a sua religião ou o que o seu vizinho acha moralmente correto. O que importa é a escolha da mulher. Sim, o uso do preservativo deve ser estimulado, educação, planejamento familiar, etcetcetcetc (lembrando que nenhum desses itens é dever apenas da mulher, mesmo que muitos homens se isentem de responsabilidades). No entanto, mulheres engravidam e muitas vezes não podem (ou querem) ter filhos.

E outra, o contexto atual é: muitas mulheres abortam e morrem. De acordo com o DataSUS, o aborto inseguro é a quinta causa de morte materna no Brasil. Como não se importar com a vida dessas mulheres é ser a favor da vida? Como não é muito importante para a sociedade como um todo preservar a vida dessas mulheres?

Clique aqui para ver comparativo sobre as possibilidades legais de aborto em diversos países do mundo (em inglês). Muitos dos países que as pessoas adoram apontar como ~avançados~ e ~desenvolvidos~ estão com as barrinhas completas. Vamos torcer para que não demore para o Brasil preencher todas as barrinhas também.

Clique aqui para ter acesso a guia com 139 perguntas sobre aborto.

Clique aqui para ler “A questão do aborto”.

Clandestinas é um documentário sobre aborto no Brasil onde mulheres contam sua experiência interrompendo uma gravidez. Atrizes interpretam relatos reais.

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Pensamentos soltos sobre jornalismo, mercado & mulher

Oi, gente! Antes de começar o post, gostaria de agradecer quem tem lido, compartilhado e debatido os assuntos que me proponho a falar sobre. Este blog é novinho e ainda está engatinhando, mas teve semana que conseguiu alcançar mais de 20 mil visitas – considero bastante para algo totalmente independente e divulgado no boca a boca, e fico feliz. Eu já fui muito insegura para expor minhas ideias ou mostrar o que escrevo, e é incrível e surpreendente viver nesse tempo dinâmico, de feedbacks imediatos.

E baseada nesses feedbacks, venho prosseguir a discussão sobre mulheres e mídia iniciada neste post aqui. Uma jornalista se incomodou com o fato de eu colocar a culpa de matérias machistas nas costas de nossos (opa, pra quem não sabe: também sou jornalista) colegas de profissão. Parte do comentário dela foi o seguinte:

“Cara, quem alimenta essa indústria dos cliques não somos (só) nós. É um círculo vicioso! Se não houvesse tanta procura – algo que eu queria entender – certamente nossos veículos e diretores não investiriam tanto na produção de conteúdo sobre ‘celebridades’ e derivados”

E ela tem toda razão. Jornalistas não são os únicos culpados, embora eu quisesse dar uma cutucadinha na consciência deles quando falei que deveriam tomar vergonha e ir estudar mais. No jornalismo online, por exemplo, existe uma “indústria de cliques”, como a jornalista disse, que busca atenção rápida e a certeza de que o link será aberto. Quanto mais cliques, mais anúncios. E os anunciantes não parecem muito preocupados com a procedência dos cliques (tem muita matéria ~polêmica~ que rende clique e gera impacto negativo nos leitores – só que, no fim, a marca vai grudar na cabeça e todo mundo vai acabar consumindo de qualquer jeito).

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Ilustração de JoHee Yoon

Conteúdo interessante também atrai, mas os profissionais, em geral, não possuem tempo para procurar boas pautas na rua ou para pesquisar um assunto profundamente. Os prazos são apertados, a demanda por novidades constantes é alta e existem mil tarefas a serem cumpridas ao mesmo tempo, virtualmente e offline. Além do mais, muitos anunciantes de veículos voltados para mulheres são das indústrias de cosméticos, vestuário e etc, o que estimula a criação de necessidades antes inexistentes. Novidades relacionadas a roupa, cabelo, maquiagem e cirurgias plásticas, por exemplo, são mostradas a todo momento não apenas em propagandas, mas nas próprias matérias que saem em sites, revistas, suplementos de jornais ou programas televisivos. Porém, não sei até que ponto isso é “proposital”, numa tentativa de criar tendências, e até que ponto é uma mera assimilação desses produtos e práticas como pertencentes a um suposto “universo feminino” (pretendo fazer, em breve, um post sobre o surgimento da chamada “imprensa feminina”, o que nos ajudará a pensar essa questão). Aliás, nós, mulheres, somos consideradas um público emergente e valioso, com as recentes reconfigurações econômicas e familiares (mães solteiras e chefes de família, por exemplo).

No entanto, acredito que existe também um olhar viciado e preguiça de sair da zona de conforto por parte de alguns jornalistas, e isso faz com eles se ancorem em pontos de vista rasos e em “achismos”. Muitos não conseguem se despir dos próprios preconceitos e acham ok reproduzir o senso comum, ao invés de tentar entender minimamente o outro e suas especificidades, e desmistificar ideias correntes mas nem sempre corretas.

A nota sobre o envelhecimento de Liv Tyler, por exemplo, poderia muito bem ter sido só uma besteira do tipo “Fulana de Tal toma banho de mar”, que é o cúmulo do dizer nada, mas pelo menos não perpetua padrões negativos – e atrai o mesmo tipo de atenção. Isso entra, aliás, em uma outra questão, relacionada a um comentário que também recebi. Comentários, na verdade, pois foi um ponto abordado mais de uma vez: entretenimento e fofoca na internet não é jornalismo.

Hm. Essa questão é complicada. Claro que notas sobre envelhecimento e banhos de mar não são o jornalismo em sua forma “tradicional”. Mas constituem um híbrido entre jornalismo e publicidade onde a “informação” (ou falta de) constitui a própria mercadoria. “O infotenimento é hoje a grande sacada empresarial dos meios de comunicação para alavancar suas vendas e não perder seu público. Mas até que ponto misturar informação e entretenimento pode prejudicar a real função do jornalismo? Que hoje a informação jornalística é considerada uma mercadoria, não há dúvida, mas como é possível, em meio a esse turbilhão de informações, separar o joio do trigo, ou seja, aquilo que realmente é informação daquilo que é apenas distração, fruição?”. 

Eu não sei bem a resposta, mas sei que o tal do infotenimento, muitas vezes, tem status e alcance de jornalismo (mais, até). E vários veículos misturam tudo (notícias, entretenimento, etc), o que dificulta o discernimento do leitor comum (digo comum no sentido de não-jornalista e tal), que tem o hábito de dar (ou não) credibilidade para um veículo como um todo. Então… É algo que deve sim ser analisado. Se uma mensagem está sendo passada, um monte de gente está recebendo essa mensagem. E acho que o jornalismo “tradicional” e o infotenimento se retroalimentam, formando um ciclo que perpetua as mesmas ideias, mas em diferentes níveis.

No infotenimento, os absurdos são mais escancarados (“VEJA O BUMBUM DA CICRANA CHEIO DE CELULITE”), mas o jornalismo “tradicional” não fica atrás. Quantas não foram as matérias que já lemos ao longo da vida falando sobre aparência de mulheres que atuam na política, sobre inovações estéticas que vão ~levantar a auto-estima~ das mulheres, sobre a manifestante “gata”, sobre como o corpo de mulheres esportistas é magro demais, grande demais ou forte demais, entre outras? Quantas não foram as reportagens que tentaram naturalizar a “inferioridade” da mulher ou demonizar conquistas femininas, com apurações dignas de infotenimento, e não de jornalismo “tradicional”?

Não tenho conclusões definitivas. Até porque mulheres são maioria entre jornalistas, mas grandes empresas e veículos costumam ter homens no poder. O olhar por trás das decisões é masculino. Então essa postagem é mais um rascunho, um espaço para escoar as ideias que surgiram sobre o assunto após o post anterior. E um convite à reflexão sobre quais as posições de cada peça nesse grande jogo que é o recorte de interpretações do mundo por meio de produção e disseminação de informações. Vamos pensar juntos?

Ah, fiz uma página no Facebook: www.facebook.com/revolucaovulva 🙂

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O envelhecimento da mulher como um fato incomum

Durante a semana passada, meus olhos sangraram quando me deparei com a seguinte “notícia” circulando pelo Facebook:

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Pois é. Eu sei que é meio ilusório acreditar que o jornalismo é uma atividade responsável por transmitir informações relevantes à sociedade e tal. Era pra ser assim, mas nem sempre é assim. No entanto, não consigo mesmo deixar de me espantar com o fato de Liv Tyler estar envelhecendo ser notícia. Todo mundo envelhece, oras. Se ela tivesse voltado no tempo e, ao invés de ficar mais velha, ficasse cada vez mais jovem até se tornar uma criança de novo, aí sim eu entenderia o alarde. Mas a manchete “Aos 37 anos, Liv Tyler não é mais a mesma; veja a transformação da musa dos anos 90” não diz nada. Acho que aos 37 ninguém é a mesma pessoa que era na década de 90.

Vamos nos focar nos critérios jornalísticos de noticiabilidade, ou seja, o que dá valor-notícia para um fato. Relevância (se a informação afeta a vida do público-alvo), proximidade (se acontece perto ou na cidade das pessoas que receberão a notícia), surpresa (se é algo inesperado, surpreendente), etc e etc, são alguns dos critérios que tornam um acontecimento noticiável. Teoricamente, se vivêssemos em uma sociedade mais justa e que tratasse a mulher com um mínimo de respeito necessário para a manutenção de sua integridade física e psicológica, seria óbvio para todo mundo o quanto essa matéria é absurda.

Só que, infelizmente, vivemos em uma sociedade desigual. Essa assimetria pode ser vista em diversos aspectos que se relacionam, como sexo, economia e cor de pele. E para a sociedade (falo principalmente da ocidental e inserida em um sistema capitalista), ser mulher envolve principalmente ser “bonita”, “desejável”, “atraente”, “sexy”, “obediente”. Lógico que não é assim tão simples. Um determinado setor vai valorizar mais a “beleza natural” (mas o que é vendido como “natural” na verdade costuma ser maquiagem leve que “disfarça imperfeições”). Outro vai dizer que mulher “de verdade” é a de batonzão vermelho e roupa decotada. Independentemente da mitologia vigente no meio em que estamos inseridas, somos bombardeadas por opiniões diretas e indiretas sobre nossa aparência o tempo inteiro. A indústria da beleza lucra com essas ideias e investe capital na mídia, para que o alcance desse discurso seja maior. A mídia dissemina essa ideia e lucra também. Não é à toa que é muito mais fácil enumerar, de cabeça, “divas” conhecidas por sua “beleza” do que mulheres que são famosas por motivos que não estão necessariamente ligados à aparência.

As inseguranças da mulher geram lucro, logo, o corpo da mulher é tratado como capital. E em uma sociedade que trata pessoas mais velhas como improdutivas, a mídia acaba tratando envelhecimento (principalmente o feminino, já que o acúmulo de capital costuma estar na mão de homens mais velhos) como perda. O estereótipo da mulher mais velha é que ela perde cabelo, poder, sedução. Os ganhos são sempre vistos de forma negativa (aumento de peso sendo tratado como algo ruim, por exemplo, e as conquistas pessoais e profissionais são ignoradas). O subjetivo da mulher, no geral, não é levado em conta. O corpo passa a ser tratado como algo à parte, algo descolado de tudo que a mulher é. “O corpo que eu quero ter” passa a ser um desejo tão corriqueiro quanto “a bolsa que eu quero ter”. Nossas experiências impressas nele passam a ser vergonhosas. Queremos ser lisas como um papel intacto – como as mulheres que vemos nas revistas e na televisão.

Porém, essas mulheres das revistas e da televisão também não são “perfeitas” – ninguém é. E em uma sociedade como a nossa, se torna noticiável o fato de uma sex symbol deixar de cumprir a sua função decorativa, porque é praticamente uma tragédia. E funciona como um alerta de que nós, reles mortais, teremos que nos cuidar em dobro, já que até mesmo a Liv Tyler “deu uma engordada” e “está bem diferente do que estamos acostumados”. E o “se cuidar” envolve inúmeros produtos e serviços. Assim, a teia lucrativa gerada por nossas inseguranças permanece ativa, bem como a tentativa de controle sobre nós (tanto que, muitas vezes, quando se tenta silenciar uma mulher é apelando para sua aparência. O clássico “toda feminista é gorda e peluda” é uma prova disso. E daí se formos? O que isso altera na nossa capacidade discursiva?).

Ano passado, após “polêmica” gerada pela mídia ao mostrar foto da atriz Betty Faria, de 72 anos, usando biquini na praia (oh, que absurdo), ela recebeu todos os xingamentos possíveis e precisou manifestar publicamente que tem o direito de ficar velha (infelizmente, suas aparições seguintes em praias foram de maiô. Olha que saco ter que ficar pensando e pensando sobre o que se vai usar em uma praia pra ter que se prevenir de uma enxurrada de hostilidade. Homens  – famosos ou não – simplesmente vestem qualquer merda e vão). Chega a ser bizarro como a mulher que existe para além das aparências ofende. Não se pode ir a praia, se divertir, dançar, nadar… Viver. Uma mulher deve estar sempre atenta se a sua aparência está agradando. Caso seja paquerada, só é respeitada se já for “posse” de algum outro homem. O envelhecimento dela, processo natural no decorrer da vida de todos os seres vivos, é tratado como um acontecimento incomum.

Aliás, se observarmos bem, a mulher mais velha (não apenas as idosas, creio que essa invisibilidade começa bem antes) não tem espaço na mídia. Muitas mães e avós de novelas, filmes e propagandas, que na vida real teriam cabelos brancos, rugas no rosto, ou manchas nas mãos, são retratadas como mulheres bem mais jovens. Não vemos feitos importantes realizados por mulheres sendo celebrados da mesma forma que celebram o fato de uma mulher de 30 parecer ter 25 anos, por exemplo. As idosas, então… Só são lembradas na hora de vender Corega. E o tempo inteiro temos que ler notícias pejorativas sobre como alguma mulher emagreceu ou engordou ou envelheceu ou mostrou a calcinha ou borrou a maquiagem, como se isso fosse algo extremamente relevante. Precisamos reivindicar mais do que uma representação digna e plural. Precisamos reivindicar nossos corpos como parte de nós, como vitrines de nossas histórias. Histórias que devem ser contadas com orgulho, e não apagadas de forma cruel pela mídia e pela indústria.

O corpo que eu quero ter é esse, o que traz marcas de experiências boas e ruins vividas por uma mulher inteira. E esse corpo não vai ser desconectado do meu “eu”.

P.S: Já passou da hora de tantos jornalistas despreparados e incompetentes inundarem sites, revistas, programas de televisão e afins com tanta porcaria. Essa chuva de chorume com certeza vem não apenas da misoginia internalizada, mas também da preguiça de pesquisar assuntos realmente relevantes e da falta de capacidade de gerar conteúdo interessante, que chame a atenção de forma criativa e construtiva. Tomem vergonha e vão estudar.

Algumas ideias desse texto eu tirei de anotações que fiz em um seminário feminista em 2009, de uma mesa chamada “Mídias e Feminismos”, que contou com as professoras Tânia Montoro (Comunicação Social/UnB), Maria Luiza Martins de Mendonça (Comunicação e Biblioteconomia – UFG) e Márcia Coelho Flausino (UCB).

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Dworkin x Ginsberg: uma história que se repete

Ouço falar/leio sobre a Andrea Dworkin já faz alguns anos. Pessoas contra o feminismo adoram usá-la como “mau exemplo”, afinal, ela é a personificação do estereótipo da mulher feminista. Como ousou ser gorda, não pintar ou alisar o cabelo e usar macacões jeans confortáveis durante grande parte da vida? Que crime! Como ousou também nomear homens como agentes das opressões contra as mulheres? E mais: como ousou problematizar a sagrada tríade do P – pedofilia, pornografia e prostituição – em seus trabalhos?

Ao ler a autobiografia dela, intitulada Heartbreak: The Political Memoir of a Feminist Militant (caso leia em inglês, você pode baixar a obra completa de Dworkin neste link), um episódio específico foi bastante simbólico pra mim no que diz respeito à perseguição que ela sofreu e que muitas outras feministas sofrem. E mostra também como homens, independente do que façam, são endeusados, enquanto mulheres estão sempre sendo atacadas.

É o seguinte: a Dworkin era grande amante de música e literatura. Apreciava principalmente blues e jazz. E vários escritores homens. Entre eles, estava Allen Ginsberg, notório poeta da geração beat. Quando adolescente, Dworkin enviava poemas pra ele avaliar e participava de leituras em que o escritor estivesse presente. Certa vez, após uma dessas leituras, ela decidiu se apresentar – Dworkin afirmava ser realmente muitomuito fã de Ginsberg. Trocaram telefones (ele disse “me liga, mas não vá para Nova York apenas para me ligar ou você vai me deixar louco”) e, meses depois, se encontraram e conversaram bastante. Em outro momento, Dworkin ligou mais uma vez. Embora pudesse encontrá-lo de novo, não o encontrou. “Eu não sabia que isso era um movimento perspicaz da minha parte para me tornar a escritora que eu queria ser. Ser escravizada por um ícone te impede de se tornar você mesma”, escreveu.

Em 1974, Dworkin foi fotografada por Elsa Dorfman ao lançar o livro Woman Hating. A fotógrafa se tornou sua amiga e era amiga próxima de Ginsberg também. Dworkin o reencontrou, então, no bar mitzvah do filho de Dorfman, cuja madrinha e padrinho eram respectivamente ela e… Ginsberg (todos eram de família judia). Na época da celebração, Dworkin já havia lançado outros livros. Já era adulta e escritora, logo, sua relação com o poeta não seria mais a de jovem fã deslumbrada.

Andrea Dworkin por Elsa Dorfman, 1974.

Andrea Dworkin por Elsa Dorfman, 1974

No dia do bar mitzvah, os jornais estampavam que a Suprema Corte norte-americana havia proibido pornografia infantil (o que me espantou bastante. Isso foi em algum período dos anos 80 – ou seja, praticamente ontem). Dworkin sabia que Ginsgberg estaria boladão: ele era membro da North American Man/Boy Love Association (NAMBLA), associação que defende que a pedofilia não seja socialmente condenável e que noções sobre consentimento sejam revistas (a partir dos anos 50, aliás, houve uma certa movimentação a favor dessas questões. Felizmente, não é mais uma bandeira política vista com bons olhos. Infelizmente, ainda vivemos em uma sociedade que naturaliza sim a pedofilia. Assunto pra depois). Em site próprio, a organização diz acreditar que existam relações CONSENSUAIS entre homens e garotos. Enfim. Voltando à comemoração, Dworkin não queria desviar o foco de seu afilhado para um debate político. No entanto, Ginsberg a seguia pra todo lado. E ela relata que ele fez comentários desagradáveis durante o evento, tipo perguntar detalhes de abuso sexual sofrido por ela ou apontar pra garotos de 12/13 anos dizendo que eles estavam prontos pra “foder”, entre outras coisas. Ao tocar no assunto do banimento da pornografia infantil, ele disse que a direita queria colocar ele na cadeia e Dworkin respondeu: “sim, eles são muito sentimentais. Eu te mataria”.

Amigas & rivais

Amigas & rivais

As ideias de Dworkin eram incômodas pra todos os homens: de esquerda, direita, apolíticos, heterossexuais, gays, etc. Os mais alinhados com a direita a acusavam de fanática e clamavam por liberdade de expressão (que estava mais pra liberdade de opressão, afinal, a luta dela não era contra discursos apenas, mas contra práticas que confirmadamente estragavam – e ainda estragam – milhares de vidas). E quem era mais de esquerda a aproximava dos direitistas, alegando moralismo caso o debate girasse ao redor de problematizações de práticas sexuais.

Dworkin foi perseguida e rechaçada por várias pessoas, sem nunca ter cometido um ato negativo contra a vida de alguém. Zombaram de violências cometidas contra ela, como acontece com grande parte das mulheres. Seu talento como escritora era e ainda é desacreditado por pessoas que nunca abriram um livro dela por conta de falas deturpadas e estereótipos sobre sua aparência. E Ginsberg? Bom, ele era sim um grande escritor e, antes de qualquer coisa, ele é lembrado por isso. Suas ideias eram tratadas como progressistas e a favor da liberdade de expressão. Sua aparência, também fora do “padrão de beleza”, era pouco questionada. E ele queria transar com garotinhos. Mas Dworkin que era considerada louca, por se opor a esse “direito” sagrado de um homem enfiar o seu pinto onde bem entender. Se observarmos o nosso contexto atual, essa é uma história que se repete o tempo inteiro: feministas que elaboram críticas que acabem com a diversão cruel de homens sempre são tachadas de perigosas e exageradas, porque o isolamento é a melhor forma de silenciamento.  E por isso achei essa história tão simbólica. Por deixar explícito o lugar de cada pessoa de forma bem clara, ainda que o senso comum tente inverter a situação.

Nós estamos de olho.

 

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Por um feminismo para… mulheres

Primeiro, queria dizer uma coisa: andei bastante ocupada, o que acabou adiando um pouco a produtividade que eu pretendia ter com esse blog. Mas, aos poucos, tudo começa a seguir conforme o planejado. FÉ, IRMÃS. E, após ler tanta briga feminista internética extrapolando o limite da discussão de ideias e afetando seriamente a vida pessoal de várias mulheres, pensei um pouco no início da minha relação com o feminismo e no meu crescimento enquanto feminista. Pensei, mais precisamente, no início da minha relação VIRTUAL e ACADÊMICA com o feminismo e na importância da internet e da leitura como plataformas de disseminação de ideias. É nisso que vou focar aqui, e vocês já vão entender o porquê.

É o seguinte. Como filha de “mãe solteira” e membra de uma família recheada de mulheres, cresci um pouco mais ~atrevida~ do que minhas colegas de ~famílias tradicionais~ e tal. Mas ainda assim, era bem tímida e um pouco insegura. Na adolescência, comecei a escutar bandas de riotgrrrls e entrei em contato com meninas e zines feministas em shows “alternativos”. Mas ainda estava amadurecendo toda a questão, e reproduzia coisas como “yay, eu sou livre e escolhi ficar com o cara mais velho”, “me maquio porque gosto”, “prefiro amigo homem”, “fodam-se essas patricinhas” e etc.

No início da faculdade, escolhi o feminismo como tema para um trabalho (o primeiro de muitos). Os primeiros materias acadêmicos que entrei em contato foram os livros “Feminismo – Que história é essa?”, da Daniela Auad, “Breve história do feminismo no Brasil”, da Maria Amélia de Almeida Teles e o artigo “O novo movimento feminista”, da alemã Frigga Haug. Dei também uma lida incompleta no “A mulher na Sociedade de Classes”, da Heleieth Saffioti (que me empurrou, futuramente, para o ótimo “Gênero, Patriarcado e Violência”, dela também). Foi aí que minha ficha caiu de verdade e vi que feminismo era coisa séria. Foi aí que percebi que minhas vivências como mulher não eram “menores” e solitárias, que minhas “escolhas” não eram sempre uma escolha realmente, que meu corpo não era sujo e que eu não tinha culpa por certas coisas que faziam eu me sentir culpada.

Aqui vai o meu testemunho: fiquei viciada e glorifiquei o feminismo de pé! ALELUIA! Graças ao Orkut (sdds), encontrei comunidades em que poderia continuar debatendo & aprendendo. Era muita peça se encaixando na minha cabeça e eu não tinha quase ninguém pra conversar sobre. A comunidade “Feminismo & Libertação” foi a que mais fui ativa (e por meio dela conheci algumas feministas na vida real, que me apresentaram outras e outras e outras). A comunidade “Prática Feminista” era detestada por muitas por ser relativista demais (alguma semelhança com os tempos atuais? Hehe). Aprendi bastante na comunidade “Antipornografia” também. Entrei em contato com mulheres do Brasil inteiro, comecei a ler mil blogs e descobrir mais mil livros e autoras. E via críticas à Teoria Queer, à Judith Butler, à Camille Paglia (acho que essa parte é um consenso geral) e ao “Feminismo Radical”, que não me parecia tão demonizado quanto hoje, mas pode ser só impressão minha (aliás, se o feminismo em geral sofre com o backlash, o feminismo radical tem o seu backlash próprio, que parte, inclusive, de outras feministas). É que me parecia muito mais fácil discutir violências óbvias como pornografia e prostituição uns anos atrás do que agora. Ou a compulsoriedade da heterossexualidade e  da maternidade. Uns anos atrás, quem me chamava de moralista se eu abordasse os aspectos negativos dessas questões eram geralmente homens. Mas continuando. Fiquei triste quando as discussões no Orkut começaram a morrer. Sorte que grupos, páginas e perfis feministas logo começaram a surgir no Facebook e os debates continuaram!

(Por um tempo, me envolvi com questões relacionadas à transexualidade e assimilei parte do discurso. Porém, me deparei com lacunas com falta de evidências verificáveis e passei a questionar pontos desse ativismo. Não por ser “contra” ou desejar o mal de alguém, mas pelo bem da minha própria evolução e sanidade enquanto feminista.  Mais pra frente, pretendo retomar de forma mais aprofundada esse e vários outros pontos desse texto).

Onde quero chegar com tudo isso? É o seguinte:

Eu aprendi com outras mulheres. Seja nos livros, nos shows, na internet, nos zines, nas letras de música, nas conversas de bar ou em almoços de família.

Mais do que aprender, eu me importei com o que elas tinham a dizer. Isso não significa engolir tudo sem reflexão. Mas significa levar a sério o tempo e a dedicação das mulheres. Significa legitimar os nossos sentimentos e a nossa inteligência. A leitura teve um ponto essencial na minha formação porque foi o que ampliou meu conhecimento e me ensinou a pensar certas questões mais abstratas. Foi o que me deixou esperta em relação a manobras mal intencionadas de pessoas antifeministas e outras nem tão abertamente antifeministas assim (o que mais tem é “mascu” e afins criando lista de mulheres que não devem ser lidas porque eram/são “loucas”, “violentas”, isso e aquilo. Tirando a Valerie Solanas – que foi sim uma ótima escritora – que mulher praticou atos violentos notórios contra homens ou contra outras mulheres? Sequer conheço mulheres que pratiquem discurso de ódio. Nunca vi blog com foto de homem morto e dilacerado. Já entre homens celebrados e admirados, como será que fica essa lista?).

Mas leitura não basta. E nem todo mundo pode ou quer ir para a faculdade. Nem todo mundo tem tempo para ler. Nem todo mundo tem vontade ou coragem de participar de discussões. Mas todo mundo pode escutar, com empatia, as mulheres ao redor. História não é só o que está escrito, mas também o que outras pessoas viveram e podem te contar. Me entristece de verdade quando gente que era “mascu” racista e que ainda hoje reproduz misoginia é mais levado em consideração do que feministas que estão há anos ali, cavando o túnel mais à frente para que companheiras de trás andem com mais tranquilidade dentro dele. Claro que as pessoas mudam, mas vamos aprender a respeitar quem demonstra empatia e mantém sua coerência a mais tempo. Não é questão de “carteirada”, mas de preservação do que construímos e estamos construindo, juntas, unidas por um fio de raiva, amor e vivências em comum que nos guia rumo à libertação. Você quer continuar cavando esse túnel? Então não promova o obscurantismo. Não jogue mulheres fora, o patriarcado já tenta fazer isso desde sempre. Leia e conheça outras mulheres antes de excluí-las da sua vida. Não tenha medo de ir contra o que te mandaram fazer. Tire suas próprias conclusões e construa não apenas o “seu” feminismo, mas um feminismo para todas as mulheres.

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Hello, world, I’m your wild girl!

Olá, pessoas. Sejam bem-vindas ao meu primeiro post! Por muito tempo pensei: “deveria este lindo blog chamar-se VULVAREVOLUÇÃO”? Tive medo de um mero trocadilho feito com o intuito de imprimir uma cara feminista à um espaço virtual de assuntos diversos (e com o objetivo de enaltecer a BUCETA também, why not?) ser interpretado de forma errônea. Algumas amigas disseram “uau”, um ex-namorado disse “eu não leria um treco com esse nome” e minha mãe achou esquisito, como acha todo o resto das coisas que eu faço. Sucesso!

Porém, tive medo também de estar sendo ~transfóbica~ ou algo do gênero, colocando a vulva como centro da representação da “mulheridade”. E pra fechar a lista, receei estar sendo boba, rasa ou hipersexual (não que eu ache que falar de vulva seja igual falar de sexo, MAS OLHA O MUNDO QUE A GENTE VIVE, NÉ). Ou sei lá. Já comentei brincando uma vez que ser mulher é ter medo e, putz, isso é bem verdade. Porque além dos perigos reais e concretos à que estamos expostas o tempo inteiro pelo simples fato de sermos mulheres, ainda existem as armadilhas mentais sabotadoras que desenvolvemos por conta de uma sociedade que nos diz que nunca somos boas o suficiente: “e se eu falar/fizer merda?”, “melhor ficar quieta”, “melhor me preservar”, etc. MAS ISSO TUDO PODE SER REVERTIDO! 🙂

Voltando a vulva (que vovó viu — brinks). Não sou apenas ela. E ser mulher não é apenas ter uma. Mas é também, é bastante, é muito. Quando eu era bebê, o médico olhou para minha vági e constatou: “é uma menina”. A partir daí, minha vida foi toda delineada em cima de um conceito compulsório sobre ~ser mulher~, baseado principalmente em construções socioculturais e características do meu corpo. Eu mal tinha chegado ao mundo e FURARAM MINHA ORELHA E COLOCARAM BRINCOS FÓFIS EM MIM, CARAMBA — a palhaçada já começou aí. Depois vieram as demonizações x santificações x pode x não pode… Ah! É um binarismo tão maluco (“seja santa, mas seja sexy”, “cozinhe bem, mas coma pouco”, e assim vai), de deixar qualquer uma desnorteada! Fora o estado constante de terror e pânico, onde uma rua vazia ou até mesmo nossas próprias casas podem se tornar palco de uma situação ruim, tanto por culpa de estranhos quanto de conhecidos. Entre milhões de outras coisas.

Logo, estou aqui para compartilhar um pouco da minha experiência enquanto eu & enquanto mulher, características praticamente impossíveis de serem desconectadas uma da outra nesse momento atual (HOJE CONTEMPORANEIDADE, digo), visto que meu eu foi todo construído em cima da mulher, com muita luta, muito desvio, muita porrada — e muito amor também. E eu precisava de um espaço para canalizar uns pensamentos, amadurecer umas ideias, escrever umas paradas, traduzir uns textos e, claro, dialogar com outras pessoas. Acho que é isso. Bjksssss.

"Pussy rings", da Grimes

“Pussy rings”, da Grimes