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Pessoas brancas criticando “Feminismo Branco” perpetuam privilégio branco

O texto a seguir foi escrito em 2015 por Claire Heuchan, autora do blog Sister Outrider. Feminista radical, negra, lésbica e escocesa, ela é também mestranda em literatura com ênfase em estudos de gênero, e sua pesquisa se foca em Teoria Feminista Negra, ativismo e escrita. Se você lê em inglês, vale a pena procurar outros textos dela por aí. A tradução foi feita por mim e pela Carol Correia, que tem feito um ótimo trabalho em traduzir materiais do inglês para o português com o intuito de disseminar mais informações sobre feminismo em nossa língua. 

Gostei do texto por ser curto e direto. E é um convite à reflexão para as feministas brancas. Lutar contra o racismo é um papel de todas nós, mas é preciso uma postura ativa, que promova mudanças reais e eficazes. Não adianta só repetir palavras vazias e discursos simplistas. O racismo é um sistema complexo que embasa a nossa sociedade e precisamos entendê-lo para exterminá-lo. E é um assunto que deve ser tratado com seriedade, e não como um mero atalho para impulsionar a própria imagem de forma positiva. Boa leitura!

Se você se envolve em discussões feministas online, as chances são que você já tenha notado uma expressão particular se tornando cada vez mais comum: Feminismo Branco. Algumas vezes até mesmo um símbolo de marca registrada é adicionado, para dar ênfase. O termo Feminismo Branco tornou-se uma abreviação para certas falhas dentro do movimento feminista;  das mulheres com um determinado grau de privilégio falhando em escutar as irmãs mais marginalizadas; das mulheres com um determinado grau de privilégio falando por cima dessas irmãs; das mulheres com um determinado grau de privilégio centralizando o movimento ao redor de problemas que abrangem apenas a gama das próprias experiências delas. Originalmente, o termo Feminismo Branco era utilizado por mulheres não-brancas para abordar o racismo dentro do movimento feminista – uma crítica válida e necessária.

Ainda que mulheres brancas estejam em desvantagem pessoal e política por conta da ordem social vigente construída em cima de misoginia, elas também se beneficiam com o racismo institucional – queiram elas ou não.  Mesmo mulheres brancas com firmes políticas contra o racismo não podem excluir que se beneficiam do privilégio branco; que mulheres brancas recebem mais (embora deficiente) visibilidade da mídia do que suas irmãs negras e de minorias étnicas; que existe uma diferença salarial extensa em relação às mulheres não-brancas e que existe um aumento significativo do risco de violência policial que molda a realidade vivida por mulheres negras. É assim que o privilégio branco funciona. Nós vivemos em uma cultura impregnada de racismo, com uma grande quantidade de riqueza do nosso país decorrente do tráfico de escravos. Bem como a misoginia, leva-se muito tempo e reflexões conscientes para desaprender o racismo. É um processo de aprendizagem no qual nunca nos graduamos totalmente. Mulheres não-brancas desafiando o racismo de dentro do movimento feminista nos dá a oportunidade de conscientemente nos desligarmos de comportamentos recompensados pela supremacia branca do patriarcado.

No entanto, a expressão Feminismo Branco não está mais sendo usada exclusivamente por mulheres não-brancas para contestar o racismo que enfrentamos. Recentemente, tornou-se socialmente obrigatório para feministas brancas usarem o termo para descartar outras feministas brancas com as quais elas não concordam como incorporadoras do Feminismo Branco. As pessoas brancas começaram a chamar a atenção de outras pessoas brancas pela… branquitude. Não estou brincando. Em um artigo recente para a VICE, de alguma forma irônico, Paris Lees lamenta que “feministas brancas têm maiores plataformas de mídia…”. A artista Molly Crabapple, com plataforma de mídia e renda considerável (a não ser que se juntar à Samsung tenha sido um ato de caridade), fez tweets para invalidar pontos de vista, por conta do privilégio, das “senhoras brancas chiques“. Mas, daqui de onde estou sentada, ambas Paris e Molly parecem muito confortáveis.

Em vez de amplificar as vozes das mulheres não-brancas, ou de usar as próprias plataformas para destacar a intersecção entre raça e gênero, uma série de feministas brancas liberais sequestraram a crítica ao racismo com o intuito de dar suporte à própria imagem de progressistas – como se fossem o tipo certo de feminista, não uma Feminista Branca. Mas a cooptação da análise das mulheres não-brancas sobre o racismo dentro do movimento feminista é exatamente o tipo de comportamento para o qual a expressão “Feminismo Branco” foi criada para impedir. Pessoas brancas criticando “Feminismo Branco” perpetuam o privilégio branco. Priorizar a própria imagem, colocando-a acima da luta anti-racista liderada por mulheres não-brancas é, na melhor das hipóteses, narcisista, e na pior, racista. Essas ações apoiam a noção de que o racismo enfrentado por mulheres não-brancas é uma questão secundária, não uma preocupação principal dentro do movimento feminista.

Mulheres brancas usando o “Feminismo Branco” como uma vara para bater umas nas outras, e não como uma indução para que o próprio racismo seja considerado, é a branquitude em seu auge. Na corrida para “se lavar do privilégio”, as feministas brancas tornam-se as temidas Feministas Brancas por conta da apropriação indevida das palavras de suas irmãs marginalizadas para ganho pessoal.

Texto original aqui.

blackgirls

imagem via navy-bleu.tumblr.com

 

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15 trabalhos de lésbicas maravilhosas – #visibilidadelesbica

Vocês sabiam que 29 de agosto é o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica? Pois é. A data nasceu e 1996, durante o primeiro Seminário Nacional de Lésbicas e Mulheres Bissexuais (Senale), no Rio de Janeiro (RJ). Desde então, foram realizados oito encontros nacionais em diversas cidades do Brasil. O último foi em 2014, em Porto Alegre (RS). No entanto, ainda é longa a caminhada para que mulheres lésbicas consigam direitos, respeito e atenção – e para que a vivência, cultura e identidade delas seja levada a sério! A lesbiandade não é um fetiche sexual, não é uma vergonha, não é “fase” e muito menos “falta de rola”, como muita gente grosseira, imbecil e limitada insiste em dizer.

Com o intuito de celebrar este dia e cumprir a função primordial da data – visibilidade – vou postar aqui 15 trabalhos de lésbicas maravilhosas, para que vocês possam apreciar textos, desenhos, músicas e outras produções de um monte de mulher talentosa. Além disso, quero disseminar o pensamento e a perspectiva de mulheres lésbicas diversas, para auxiliar na reflexão coletiva de questões relacionadas à elas, e também estimular a pesquisa por produção de mulheres lésbicas. Que a partir daqui, muitas pessoas possam buscar outras e outras e outras mulheres. Não é uma lista hierárquica ou definitiva, apenas uma compilação de materiais interessantes que colhi por aí e de trabalhos que já costumo acompanhar faz tempo. Quem tiver dicas interessantes, posta nos comentários, por favor!

1 – “Todas fomos obrigadas a abrir mão das nossas plenas potências de seres humanos porque os homens tornaram secreto nosso discernimento desde a mais tenra infância. Tornaram secretos os símbolos da sexualidade das mulheres e tornaram secretos suas violências sádicas e fetichistas sobre nossos corpos infantis. Os homens violaram muitos dos nossos corpos quando ainda éramos muito, muito pequenas. Talvez sexualmente. Talvez usando a ‘educação corretiva’ como um meio de entendermos que não tínhamos o direito de sermos tão humanas quanto eles porque éramos crianças e, mais precisamente, meninas, aquelas que deveriam aprender a feminilidade. Os homens impuseram sobre as mulheres a cultura do segredo” —– trecho de Uma provocação às lésbicas brasileiras do século XXI”. Clique aqui para ler na íntegra. A autora desse blog (M.I.L.F. WTF?) está lançado um livro independente, o “Língua Inquieta – da heterossexualidade compulsória ao orgulho sapatão”. Para saber mais sobre e encomendar o seu, clique aqui. 

2 – “Assim, ao invés de se preocupar com mulheres lésbicas que seguem enxergando a heterossexualidade como única saída, que estão presas ao regime compulsório no qual foram criadas, o movimento feminista se deixa cooptar e passa a gritar por uma liberdade sexual que de livre não tem nada, num discurso raso que não abrange nem um décimo do que é a vivência lésbica e a importância em negar nossos corpos ao acesso masculino. O feminismo precisa ser lesbocentrado porque a revolução será lesbocentrada ou não será. Isso não quer dizer que toda mulher é ou será lésbica ou que as pautas de mulheres heterossexuais e bissexuais não devem ser atendidas, mas sim que devemos nos reavaliar, colocar nossa sexualidade em questionamento, e tentar ao máximo nos livrar da ideia de que é absurdo ou anormal viver sem homens – porque só entendendo nossos corpos enquanto autônomos poderemos estender esse raciocínio para nossa existência e por consequência nossas atividades, nossa força de trabalho, nossa inteligência e capacidade”  —– trecho de “Lesbofobia e resistência”. Clique aqui para ler o texto completo.

3 – “Queridas pretas lésbicas, por onde vocês andam? Parece que desde que assumi minha identidade preta&lésbica, vocês sumiram. Eu não entendi isso… Me assumo, reivindico e vocês desaparecem? Como assim? Me sinto abandonada. Sem acalento, sem afago. Porque isso agora? Por onde vocês andam, pretas? Não as vejo nas ruas, nas lojas, nos cinemas… Muito menos nas escolas, nas universidades, nas empresas de comunicação social. Não… Acho que já teve uma vez  que as vi… Foi de uma forma muito ruim, zombeteira com a gente. Era retratado um estereótipo bem pesado, sabe? Carregado de duplos sentidos misóginos e racistas, lesbofóbico por regra… Eu não aguentei nos ver diante daquela telinha. Do mais, pra falar a verdade, não lembro se cheguei a vê-las em algum filme na tela grande. Não…. Pode ser que eu lembre e faça um update neste post, mas por enquanto não lembro”—– trecho do texto Onde estão as preta e sapatão?”. Clique aqui para ler na íntegra.

4 – “Closer”, música das irmãs gêmeas (ambas lésbicas) canadenses Tegan & Sara. A faixa esta no Heartthrob, sétimo álbum delas – o último lançado até hoje – e que é o que menos gosto, na real. No entanto, nem sei qual dos outros indicar para quem está iniciando, de tanto amor que sinto por elas – curto desde adolescente. Aliás, porque elas nunca tocaram no Brasil?

5 – Ilustração de Maria Freitas. Veja mais desenhos dela na página “O Mago Rosa”, no Facebook.

mariafreitasilustra

6 – “Eu concordei em participar numa conferência do Instituto de Humanidades da Universidade de New York há um ano, por ter entendido que eu comentaria trabalhos que abordassem o papel da diferença nas vidas das mulheres americanas: diferenças de raça, sexualidade, classe e idade. A ausência dessas considerações enfraquece qualquer discussão feminista sobre o pessoal e o político. É uma arrogância da academia, em particular, assumir qualquer discussão sobre teoria feminista sem examinar nossas várias diferenças, e sem uma perspectiva significativa das mulheres pobres, Negras e Terceiro-Mundistas, e Lésbicas. Ainda assim, coloco-me aqui como uma Negra Lésbica Feminista que foi convidada, nessa conferência, a falar no único painel em que a perspectiva das Negras Feministas e Lésbicas está representada. O que isso diz sobre a visão dessa conferência é triste, num país onde racismo, sexismo e homofobia são inseparáveis. Ler a programação é assumir que mulheres Lésbicas e Negras não têm nada a dizer sobre existencialismo, o erótico, a cultura e silêncio das mulheres, desenvolvimento de teoria feminista, ou heterossexualidade e poder” —– trecho do textoAs Ferramentas do Mestre Nunca Vão Desmantelar a Casa-Grande – Audre Lorde”. Clique aqui para ler na íntegra.

7 – “Visibilidade é termos espaço para falarmos de nós mesmas, de nossas vivências lésbicas, é podermos falar de prevenções sexuais para lésbicas, é conseguirmos que nos vejam como lésbicas e nos respeitem, e que não nos tratem como indecisas, modinha, desviantes que precisam ser ‘corrigidas’. Que tenhamos visibilidade na sociedade, ou seja, que sejamos reconhecidas enquanto lésbicas, e isso implicaria em não termos mais que ter medo de levarmos nossa namorada/companheira conosco a lugares, pois não correríamos mais o risco de sermos rechaçadas e agredidas, em não termos mais que justificar para pessoas heterossexuais o motivo de já termos nos relacionado com homens, e que isso não fizesse com que essas pessoas achassem que têm o direito de nos desrespeitar e de forçar-nos a conhecer homens, visto que, para essas pessoas, só estamos passando por uma fase ‘indecisa’.  É termos nossas relações respeitadas, é termos nossas relações vistas como relações, e não como ‘apenas duas amigas’, ‘colegas’, é termos uma representatividade real, e não essas migalhas estereotipadas que a mídia nos dá como forma de calar a nossa boca” —– trecho do texto “Visibilidade lésbica? Ou invisibilidade?”. Clique aqui e leia completo.

8 – “Dykes to watch out for” é uma série de tirinhas da quadrinista norte-americana Alison Bechdel, autora de livros como “Fun Home” e “ Você é minha mãe?”. Infelizmente, a série nunca foi traduzida para o português (alô, editoras!), mas é ótima e narra diversas histórias interessantes sobre mulheres lésbicas bem diferentes umas das outras. Achei muito legal, porque as personagens são bem multidimensionais – como o ser humano como um todo é, mas ás vezes esquecem isso quando grupos minoritários são o assunto. Mais sobre a série aqui (em inglês).

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9 – A australiana Courtney Barnett acabou de lançar o álbum “Sometimes I sit and think and sometimes I just sit”, e pra quem curte a vibe 90s + um mix de barulho & doçura, recomendo ir fundo. Ela é foda demais. Em “Dead fox”, Courtney começa falando sobre como Jen – de sobrenome Cloher, sua namorada desde 2011 – sempre diz pra elas comprarem vegetais orgânicos e logo começa todo um questionamento tretoso & sagaz sobre agrotóxicos, animais e afins.  “Numbers” foi escrita pelas duas e fala sobre a relação delas. Aqui tem um vídeo onde cantam a música juntas.

10 – Sempre amei esse cover de “Romeo and Juliet” que as Indigo Girls – as norte-americanas Amy Ray e Emily Saliers – fazem da música de Mark Knopfler, é muito melhor do que a original. E sempre pensei na interpretação delas como um romance lésbico, mesmo antes de saber que a dupla era lésbica. Nessa entrevista aqui (em inglês), Amy fala sobre como associar ativismo e música.

11 –  “Audre Lorde foi uma escritora americana de descendência caribenha, feminista lésbica e ativista na luta pelos direitos humanos. Escreveu romances que abordam temáticas como feminismo e opressão, além de direitos humanos. Sua obra poética foi publicada a partir da década de 60. Os temas mais abordados em sua obra são amor, traição, nascimento, classe social, idade, raça, sexualidade, gênero e saúde, haja vista que veio a falecer devido a um câncer de mama. Sua poesia é um espaço também em que ela se afirma como lésbica e feminista negra. Lorde desafiou feministas brancas, questionando seu ponto de vista sobre questões raciais, e se tornou uma voz lésbica negra isolada dentro do movimento feminista, apontando as opressões a que as mulheres brancas submetiam as mulheres negras” —– fonte: Blogueiras Negras. 

NEW SMYRNA BEACH, FL - 1983: Caribbean-American writer, poet and activist Audre Lorde lectures students at the Atlantic Center for the Arts in New Smyrna Beach, Florida. Lorde was a Master Artist in Residence at the Central Florida arts center in 1983. (Photo by Robert Alexander/Archive Photos/Getty Images)

“Mulheres são poderosas e perigosas”

12 – “E foi assim que eu te encontrei. Bonita, peituda, cheirosa, pedante, teimosa. Fazendo fita. De vez em quando você vem, chegando, bulindo, aplaudindo, somando e assumindo. Pintando a sete”, canta Mart’nália em “Tava por aí”. A artista é uma das poucas que me lembro que é famosa no mainstream brasileiro e diz com todas as letras que é lésbica. Nessa entrevista aqui, ela fala, de forma bem-humorada, que o pai dela, Martinho da Vila, tem as mulheres dele (lembram da música? “Já tive mulheres, de todas as cores…” ) e ela as dela.

13 – A cantora Cássia Eller também teve essa coragem de assumir sua lesbiandade para o Brasil inteiro. Leia aqui entrevista deste ano de Maria Eugênia Martins, que foi companheira de Cássia, falando sobre maternidade, Chicão e relação com a cantora. Lembro que estudei com uma sobrinha de Cássia, durante o período escolar, e vivíamos fazendo perguntas sobre a cantora. A menina disse uma vez, no almoço, que ela comia cebola e falava “comi cebola, pra namorar”. Nunca esqueci. Adoro saber as bobeiras alheias!

14 – “Primeiro, é importante lembrar que, alheias aos discursos pós-identitários da contemporaneidade, as violências racista, lesbofóbica, classista se dão em planos discursivos e materiais cotidianamente perceptíveis, e se baseiam em distinções nítidas de ‘nós’ e ‘os outros’ hierarquizantes, às quais o sistema de racialização e generação de corpos tem sido um dos maiores investidores. Cheryl Clarke se refere explicitamente a essa violência e a essa disputa ‘nós’ e ‘os outros’ no poema We are everywhere (2006), traduzido como Nós estamos em toda parte. Aqui, o referencial ‘nós’ vai ser aquelas desde longe constituídas como um ‘outro’ praticamente inadmissível: lésbicas negras visíveis, e autoenunciadas. Outro ponto importante a se lembrar é que Clarke não aceita racializações simplistas de nós negras versus eles brancos. Ela mesma é uma crítica ácida do trabalho de algumas feministas negras, sempre uma questionadora da sororidade compulsória entre mulheres, e uma justa e enfática elogiadora de obras e escritoras que revolucionam dicotomias sexuais, raciais, de gênero, de classe, e disposta a rever críticas anteriores” —– trecho do artigo “Sinais de luta, sinais de triunfo: traduzindo a poesia negra lésbica de Cheryl Clarke”, de Denise Botelho e Tatiana Nascimento dos Santos. Leia aqui. Sou stalker (modo de dizer, gente!) da Tatiana desde adolescente: já li textos que ela escreveu para para zines, blogs e até mesmo trechos da tese de doutorado dela. O que/como ela escreve me impacta e ensina bastante.

15 – “Sim, sou tríbade, sáfica, lésbia, lesbiana, entendida, invertida, transviada, sapatão, sapa, sapata, francha, bolacha, fanchona, paraíba masculina, mulher-macho, gay, sim senhor, machuda, macha, “dyke”, como dizem as americanas, ou como as mexicanas, tortillera, do tupinambá çacoãimbeguira, do latim virago e, brasileiramente falando, roçadeira, saboeira, moquetona, madrinha, pacona, do aló, do babado ou, se preferirem algo mais erudito, ginófila, andrógina, homófila, fricatrix e homossexual. Podem me chamar de tudo isso, eu não me importo. Se me chamam de lésbica ou safista, sinto orgulho e me envaideço: a origem dos termos é nobre. Safo, a grega, foi a maior poeta lírica da Antigüidade, cultuada por Platão e Ovídio e sucesso no Mediterrâneo cinco séculos antes de Cristo. Por acaso, fazia sexo com mulheres, vivia na ilha de Lesbos e, para tocar sua lira e manter as unhas curtas, inventou a palheta, a mesma que roqueiros usam para fazer gemer suas guitarras. Bons dedos e boa lábia. Por que me ofender se me chamam lésbica?” —– trecho de “Ninguém vai me ofender”, texto de Vange Leonel. Leia completo aqui. Autora de livros como “Lésbicas”, “Girls – Garotas iradas” e “Balada para as meninas perdidas”, a cantora e escritora morreu em julho de 2014, em decorrência de um câncer no ovário.