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Por uma sensibilidade que seja mais do que mera ferramenta estética

Ser mulher não é fácil, mesmo em meios alternativos. Assim como muita gente, sempre enxerguei cenários independentes como mais do que um lugar para se estar quando não se consegue fazer parte do mainstream. O considerado alternativo é – ou deveria ser – uma construção que visa peitar a hegemonia de discursos que se baseiam primordialmente em lucro excessivo, padrões impostos e o mito do sucesso individual.

Zines, discos gravados em estúdios caseiros, composições que contestam valores negativos vigentes, blogs, editoras pequenas, shows organizados por amigos ou o simples fato de explorar uma estética visual ou sonora específica porque se identifica e acha interessante constituem maneiras de não apenas fazer valer a própria voz, mas também de tentar orientar o mundo atual para um novo rumo.

Faça-você-mesmo, coletivize, expanda, integre – toda e qualquer pessoa é uma enorme potência.

Porém, estamos inseridos em uma realidade machista, racista, misógina, homofóbica e tudo mais. E isso acaba sendo reproduzido mesmo em ambientes que estão dispostos – pelo menos na teoria – a eliminar discriminações e violências. Daí o que acaba sendo criado pode funcionar mais como uma máscara do que como uma proposta real de ruptura com preconceitos e modelos ultrapassados. Palavras de ordem são esvaziadas em prol de marketing pessoal.

Claro que estou, para fins de entendimento, reduzindo e polarizando questões que são complexas. Na vida real, não é tão fácil assim traçar a linha entre quem está de um lado “bom” ou não, até porque discutir o que se passa em meios alternativos é ir para além de maniqueísmos. Qualquer pessoa pode fazer ou falar merda um dia, somos todos humanos – e a humanidade está fadada à imperfeição. No entanto, existem fatores que devem ser observados: vacilos isolados (desde que não extremos, claro) são coisas bem diferentes da escrotidão como modus operandi.

Muitos homens, infelizmente, repetem constantemente o modo de ser da masculinidade hegemônica em espaços independentes. Construir e somar vira uma simples ideia bonita que, na prática, é substituída por dominação e apropriação – das causas alheias, da força de trabalho alheia, do corpo alheio, do sentimento alheio, que seja. E ao mesmo tempo em que muitos deles agem sem cuidado com o outro, alimentam uma suposta imagem de diferentões e preocupados com causas sociais que só serve para benefício próprio – e também como escudo contra críticas e denúncias.

Certa vez, a artista londrina Polly Nor – que faz ilustrações incríveis, aliás, e quem acompanha o blog já deve ter percebido que sou fã – postou o seguinte comentário irônico no Twitter:

“Ele é um cara muito legal, é apenas meio merdão com as garotas” = Meu colega é ruim com outros seres humanos. Mas só com mulheres. Então quem liga? Eu não.

É exatamente assim que funciona. E é exatamente o que não aguentamos mais.

Mulheres não querem ser objetos, a população LGBTQI não quer ser alívio cômico e pessoas negras não querem ser invisíveis e excluídas. Portanto, é muito importante que artistas tenham em mente que a sensibilidade deve ser mais do que uma ferramenta estética. Mais do que um modo de emocionar, cativar e criar identificação. Para que haja verdade no que se diz e no que se faz, é preciso ser, de fato, sensível. A pluralidade existe, e os meios independentes precisam abraçá-la de forma realmente humana, e não com a mentalidade de usar e descartar – que é o que já acontece, de maneira geral, em diferentes situações.

Contudo, minha concepção de ~sensível~ não envolve andar de roupas brancas em um campo verdejante e sorrindo para os pássaros. Ou simplesmente falar de energias, vibes e amor. O que quero dizer é que é preciso, justamente, escapar desse clichê raso. Valorizar o trabalho alheio, tratar bem quem integra sua comunidade, desmistificar justificativas pessoais que colaborem com um estado contínuo de vacilação, falar sobre sentimentos reais – sejam eles tristes ou felizes – e se colocar em uma posição de escuta e troca de ideias já é um bom começo.

Felizmente, cada vez mais mulheres – e minorias em geral – estão tomando as rédeas da criação artística e ganhando espaço. Ou melhor, conquistando na marra mesmo, à custa de muito suor. Ainda há muito a ser trilhado, obtido e problematizado (de acordo com o recorte que se escolhe analisar, novas questões importantes emergem, em um árduo caminho sem fim), e é essencial estar sempre em movimento, desconstruindo e construindo, para que o próximo passo não seja dado em um buraco sem chão – ou no piso de sempre.

Para finalizar este post, deixo a dica desse vídeo maravilhoso com a cantora, poeta e mil outras coisas, Tatiana Nascimento. Ele foca mais em literatura, mas com certeza vale pra outras áreas também. Ela é uma artista brasiliense, negra e lésbica, que já foi de bandas de hardcore, é doutora em literatura, cuida da Padê Editorial, por onde se autopublicou e publica pessoas LGBTQI, criou a mostra Palavra Preta, que coloca autoras e compositoras negras em evidência, entre muitas outras atividades. Tive a honra de trabalhar com ela em alguns projetos esse ano e foi inspirador. Como afirmou na filmagem, é preciso essa “(…) coisa de ter uma política de anúncio de mundo novo que seja junta, colada, com a de denuncismo das estruturas velhas, que precisam ser derrubadas”. Avante!

Aproveitem também para conhecer mais trabalhos atuais de minas do cenário independente brasileiro. Tem muita coisa boa rolando por aí. Deixo aqui umas dicas de links que possuem várias referências legais de serem aprofundadas e pesquisadas individualmente:

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“Pink”: o novo cinema da Índia traz também novas ideias

Dia desses fui a uma mostra maravilhosa que rolou no Centro Cultural Branco do Brasil (CCBB) aqui de Brasília: a “Novo Cinema Indiano”, que passou também por outras cidades – mas infelizmente não está mais em cartaz. Como o nome diz, o objetivo foi evidenciar trabalhos recentes da Índia (os filmes da exibição foram realizados a partir de 2013) e que estejam, em grande maioria, fora do circuito de Bollywood.

O país é, com certeza, bastante rico e diverso em línguas, regiões, religiões e costumes, e a mostra captou isso muito bem ao dar espaço não apenas para produções de diferentes localidades da Índia, como também ao selecionar obras que abordam conflitos contemporâneos marcantes – e importantes.

Dentre os filmes que tive a oportunidade de assistir, quero falar especificamente sobre um que mexeu bastante comigo – e que tem muito a ver com os temas tratados aqui no blog: Pink (2016), dirigido por Aniruddha Roy Chowdhury e escrito por Ritesh Shah. Ele é uma das exceções da programação, por ser, na verdade, bem bollywoodiano. No entanto, é uma espécie de subversão do estilo: como aponta uma matéria da BBC (em inglês), Pink desafia o discurso padrão dessa indústria cinematográfica, que romantiza coisas como ameaça de estupro e stalking, por exemplo, como se fizessem parte dos ritos amorosos – nada muito diferente da tradicional Hollywood, rs.

Atenção: a partir daqui, contém spoilers.

O começo do filme mostra um carro cheio de homens com raiva – um deles com o rosto sangrando – e indo até a um hospital, entre lamúrias e xingamentos. Paralelamente, um táxi leva três amigas bastante apreensivas e nervosas para casa. A história envolve um grupo de garotas que, após um show de rock, vão tomar mais umas com uns rapazes semi-conhecidos. No entanto, o que era pra ser um pós-noite envolvendo diversão e alguns drinks, termina em confusão.

A cada nova cena, vai ficando claro que essa tensão inicial é, na verdade, um fio condutor que permeia toda a trama. Porém, aos poucos, o que aconteceu vai se tornando menos nebuloso: uma das moças machucou um dos rapazes, mas não se sabe ainda o porquê – embora seja possível notar que não houve uma briga justa entre as partes.

As amigas – Minal (Taapsee Pannu), Falak (Kirti Kulhari) e Andrea (Andrea Tariang) – são também colegas de apartamento e começam a sofrer, no dia a dia, as consequências dessa fatídica noite. Os caras tentam difamá-las o tempo inteiro, fazem ligações repletas de ameaças, as perseguem nas ruas (e chegam a sequestrar e abusar do principal alvo: Minal), intimidam e agridem o locador do apartamento delas, na tentativa de convencê-lo a mandá-las embora, entre várias outras coisas. Eles não querem nenhum tipo de conciliação e sim a propagação de um terrorismo – com ataques físicos e psicológicos – que os mantenha no topo de uma hierarquia de poder que foi ameaçada pela agressão de uma das jovens (e também pela rejeição que eles sofreram de todas elas).

Minal, a “agressora” de Rajveer (Angad Bedi), um playboyzinho filho de um influente político, se recusa a pedir desculpas pelo que fez: ao ser agarrada à força, acaba quebrando uma garrafa de vidro na cabeça dele para se defender e conseguir se soltar. Ela não considera que sua legítima defesa seja, de fato, uma agressão, e sim uma reação à violência iniciada por Rajveer, que não respeitou os limites impostos e utilizou força física e coação para forçá-la a ficar com ele.

Quando Minal, que é bastante forte e decidida, finalmente decide ir à polícia, o que começa a rolar exemplifica o porquê de muitas vítimas não terem coragem de realizar denúncias formais: a situação é tratada com extremo descaso e as moças são apontadas como as culpadas por terem “provocado” os rapazes. Fora a corrupção presente em todo lugar: por conta da influência familiar, Rajveer consegue realizar boletins de ocorrência com data adulterada bem como coloca panos quentes nas denúncias das jovens. O intuito final é fazer com que elas sejam incriminadas, e a desigualdade social somada ao machismo vai colaborar com que o foco dos dedos apontados mirem as vítimas, e não os agressores.

As amigas possuem um vizinho um tanto quanto estranho, que está sempre de butuca, acompanhando tudo. À medida que vai sendo revelado que ele é, na verdade, confiável, o filme vai mudando o tom. Enquanto a primeira metade é uma espécie de suspense urbano, a metade seguinte é um dramão de tribunal. O misterioso Deepak Sehgal (Amitabh Bachchan) não representa perigo: é apenas um homem doente, desencantado com a vida e prestes a perder a esposa. Porém, não consegue deixar de se envolver com o caso – e então é revelado que ele é também um advogado famoso e aposentado, que acaba decidindo fazer a defesa das moças. Uhu!

Não tem como negar que a obra tem uma vibe novelesca e melodramática em muitos instantes. Porém, considero isso uma qualidade: achei bom um tema tão importante ser tratado de modo tão acessível, descomplicado, quase esquemático. Pink fala sobre violência contra a mulher e coloca em debate a questão do consentimento, que é destrinchada de forma bastante didática (até demais, ás vezes, mas melhor pecar pelo excesso do que pela falta, nesse caso) durante o julgamento das moças.

No tribunal, as mulheres são acusadas de serem prostitutas que queriam se aproveitar financeiramente dos pobre rapazes, e são também, o tempo todo, acusadas de serem pobres – como se não ter dinheiro fosse crime! A acusação vasculha a vida inteira de cada uma delas, com o intuito de provar que possuem “cárater duvidoso”, e alega que “o aspecto do consentimento foi introduzido pela defesa porque está na moda hoje em dia”. A maior parte do tempo, a discussão gira ao redor das mentiras que os caras inventaram e dos supostos danos que eles sofreram. Tipo na vida real: é mais importante considerar não estragar o futuro de um agressor do que pensar no bem-estar de uma vítima e prevenir novos crimes.

O advogado de defesa dá umas vaciladas no começo, só pra deixar aquele clima de que tudo vai dar errado, mas depois engata e não para mais. Ele explica que mulheres são inferiorizadas o tempo inteiro apenas por serem mulheres, desmascara esquemas de corrupção, coloca em evidência como homens e mulheres que fazem as mesmas coisas – tipo beber, dançar ou sorrir – são vistos de formas diferentes e deixa bem claro que não é sempre não.

É bem emocionante porque é tipo um alívio. Vitórias – e justiça –  para essas questões ás vezes parecem ainda tão distantes…  Portanto, é gostoso enxergá-las pelo menos na ficção, para fins de inspiração, enquanto a gente vai transformando a realidade. E, querendo ou não, o cinema é também uma possível porta para transformações de realidades, não acham?

De acordo com uma das responsáveis pela mostra, Carina Bini, curadora, produtora e jornalista brasileira que já morou um tempão na Índia, um ponto importante para o sucesso da obra foi a escolha de Bachchan – conhecido também como “Big B” – para o papel de advogado de defesa. Considerado um ídolo nacional, o ator está desde os anos 70 nas telinhas e telonas do país, e ajudou a atrair vários espectadores para o cinema. Grande parte das falas mais impactantes que denunciam o machismo da sociedade indiana saem da boca dele, aliás.

Tal explicação me ajudou a ver de maneira mais positiva aspectos que poderiam ter sido interpretados de outra forma caso eu não estivesse ciente do contexto. Porque, assim, em um primeiro instante, chega a soar quase como mansplaining um filme dirigido e roteirizado por homens ter um outro homem falando pelas mulheres que elas precisam ser respeitadas.

No entanto, assistir uma figura admirada na Índia proferindo argumentações que desmontam o discurso machista e senso comum é impactante. E, sendo ele um advogado de defesa, fica mais coerente fazer isso (mas claro que, ainda assim, o cara é meio que colocado como um herói). Aliás, o cinema é ainda um território bastante masculino, como tantos outros. Será que um filme assim, mas feito e protagonizado por mulheres apenas, seria recebido da mesma forma? Vale uma reflexão. Essa resenha aqui (em inglês) do site Feminism in India discute um pouco essa questão e, a partir de uma ótica feminista, levanta alguns problemas existentes em Pink.

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Uma coisa interessante é que o filme trata de uma história que não envolve vítimas virginais e perfeitas. Mostrar mulheres jovens, que vivem sozinhas em um contexto urbano, trabalham e vão para festas talvez facilite a identificação de pessoas de outros países com a obra – e facilite também o entendimento geral de que violências acontecem em todos os lugares e são cometidas/sofridas por pessoas de diferentes recortes sociais.

E, como já falei antes por aqui, essa “mulher perfeita” (que nunca vai existir) em contraste com todas as outras (que são horríveis e usam roupas curtas e são vadias e merecem apanhar e falam demais e deveriam estar em casa lavando a louça) é uma invenção do machismo, seja ele individual ou institucional, para tentar culpar as vítimas pelas violências que sofrem. Gente, existem casos em que as pessoas conseguem arrumar desculpas para culpar até mesmo crianças que foram alvo de violência sexual, argh!

Outro aspecto interessante que é mostrado é o machismo enquanto um acontecimento coletivo. O universo individual respalda o institucional – e vice-versa – e, a partir disso, o senso de impunidade caminha junto com a inferiorização de quem se encontra fora da esfera do poder masculino. Mentiras, corrupção, agressões verbais, físicas e psicológicas: tudo se torna válido para manter o status quo. Porém, fica evidente também que a sede por vingança dos rapazes é bastante infantil e que a masculinidade é algo paradoxalmente forte, quando se pensa nos estragos que são causados por ela, mas bastante frágil, no sentido de identidade.

A sociedade indiana se organiza por um sistema de castas que expõe principalmente mulheres em um nível “inferior” à violência – mas todas estão sujeitas a sofrer algo (qualquer semelhança com nossa pátria amada não é mera coincidência). E, assim como na China, por exemplo, é estimulado o aborto seletivo de fetos do sexo feminino (nem sempre por “escolha”, li relatos envolvendo coação externa), o que ocasionou na diminuição da população de mulheres do país.

Por lá, acontecem muitos estupros, sejam eles individuais ou coletivos, mulheres são atacadas com ácido, existem problemas de exploração sexual e meninas são obrigadas a se casar com adultos, entre várias outras coisas horríveis. A sociedade brasileira adora apontar para essas questões com o intuito de reforçar a “incivilidade” de países que não sejam os Estados Unidos ou lugares famosos da Europa (que também possuem tretas, não se iludam). Até parece que estamos em uma situação assim tão diferente de vários locais que criticamos (e postamos notícias com comentários tipo “ohhh, que absurdo”), né? Então, no fim, sobra muita coisa pra pensar sobre.

Pink ganhou vários prêmios, foi exibido para a polícia do Rajastão, um dos maiores estados da Índia, com o intuito de sensibilizá-la sobre os direitos das mulheres, e foi também convidado para sessão especial na sede da ONU, em Nova York. Clique aqui e veja o catálogo da mostra “Novo Cinema Indiano” para saber mais sobre os outros filmes que foram exibidos.

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DEZ COISAS QUE NÃO CAUSAM ESTUPRO

O estupro é uma violência que possui dois lados. A sociedade trata a questão como um crime horrível, pelo menos na teoria e se a situação envolver uma “vítima perfeita”. No entanto, uma simples lida nos jornais diários mostra os inúmeros casos de crianças, adolescentes e mulheres sendo estupradas por familiares, amigos, desconhecidos, colegas de trabalho ou conhecidos da igreja, faculdade, balada, entre outros (pena que a abordagem no geral é tão sensacionalista e pouco profunda nas raízes da questão). Pessoas do sexo masculino são as que mais cometem esse tipo de agressão e pessoas do sexo feminino são as que mais sofrem – o que não impede que existam situações em que violências sexuais ocorram seguindo outro roteiro.

A discussão sobre o assunto acontece por vários meios, informalmente ou de modo organizado. Porém, muitos preconceitos e simplismos acabam sendo disseminados nesse debate, e questões importantes são deixadas de lado. Por isso, vou abordar aqui neste post as dez hipóteses mais estúpidas entre as que já li como as possíveis causas de estupro (mas existem muito mais), e propor uma conversa mais centrada na realidade: a culpa é sempre do estuprador. E ponto final.

1) Roupa curta não causa estupro

Isso é um consenso que feministas estão cansadas de repetir: a mulher tem o direito de usar a roupa que quiser. Pode ser um vestido rosa e curtinho, tipo o da Geisy Arruda, biquíni grande ou fio dental, burca, camiseta larga, shortinho, saia longa ou qualquer outro tipo de vestimenta. Achou o look feio, bonito, atraente, repulsivo, muito descolado ou super brega? Problema seu. Se você for homem, deixe esse espírito de predador sexual com pinceladas de crítico de moda no armário, porque roupa não justifica agressão. Se for mulher, não jogue pedras nas outras para provar o próprio valor ou achar que isso vai te proteger de alguma coisa (spoiler: não vai). E a tentativa de encontrar alguma desculpa que tire a culpa do estuprador e transfira para a roupa da vítima é uma forma de naturalizar não apenas o comportamento violento do homem, mas a ideia de que respeito é algo que a mulher deve “merecer” para ter. Sem contar que pessoas usando todos os tipos de roupa aqui citados já foram estupradas, o que mostra que o problema está muito além de qualquer vestimenta.

2) Bebidas ou drogas não causam estupro

Muita gente acha que uma mulher alcoolizada ou sob efeito de drogas “merece” ser estuprada. Aposto que, alguma vez na vida, você já ouviu alguém falar que “cu de bêbado não tem dono”, não é mesmo? Se as pessoas começassem a frequentar botecos e baladas com o intuito de buscar homens bêbados para serem empalados com cabos de vassoura, isso não seria uma violência terrível? No entanto, por que mulheres na mesma situação são estupradas com o aval da sociedade? Pessoas bebem ou consomem substâncias para se divertir, afogar as mágoas, por vício, depressão ou outros motivos, e você não precisa concordar com isso – dá para problematizar o uso de álcool e drogas por um ângulo de saúde pública ou do tráfico, por exemplo. Mas culpar uma vítima de estupro que estava entorpecida é, mais uma vez, defender o estuprador e a ideia de que homem é um animal descontrolado.

No mais, uma pessoa viciada precisa de ajuda, uma pessoa dormindo precisa de sono e uma pessoa com a consciência alterada não consegue responder por si mesma. De novo: desliga aí o suposto instinto predador, homem, porque sexo nessas condições não é ‘sexo fácil’, é estupro mesmo (caso sua empatia falhe ainda assim, aqui vai mais um incentivo: e é crime). E se você tem impulsos agressivos e violentos quando usa alguma coisa (ou não), procure ajuda (ou se tranque em casa, obrigada). Ah, vale lembrar que alguns caras colocam sedativos na bebida de mulheres ou as obrigam a inalar substâncias entorpecentes também – algo que, somado à violência sexual que sucede tais práticas, contabiliza uma dupla quebra de consentimento.

3) Ruas pouco movimentadas também não causam estupro

Vários fatores tornam a rua um ambiente inseguro para mulheres: homens, primeiramente, e coisas como iluminação ruim, falta de movimento e de segurança, demora no transporte público e outros itens que as colocam em situação de vulnerabilidade. Portanto, o ideal é que sejam elaboradas estratégias de educação e segurança pública que tornem a rua um espaço menos hostil para pessoas do sexo feminino. Tenho uma fantasia que envolve um toque de recolher para homens até que eles, enquanto categoria, se eduquem, rs. Mas tô brincando. Queria mesmo era um monte de poste, gente e ônibus pra todo lado e, principalmente, pessoas com a consciência humana aflorada.

E vale lembrar que a ideia do estupro como algo que só acontece em um local ermo, com um cara ameaçando a mulher com uma faca, não é necessariamente o retrato fiel da situação: muitos algozes estão dentro da casa da vítima ou nas redondezas, o que significa que ~tomar cuidado por onde se anda~ não é sempre o necessário para evitar uma agressão sexual (mas a gente toma mesmo assim).

4) A falta de uma ~bola de cristal~ não causa estupro

Algumas vítimas são cobradas por não terem se preparado para enfrentar a agressão sexual e escutam coisas como: “mas por que você não gritou?”, “devia ter saído correndo”, “não percebeu que ele ia chegar perto de você?”, “você não anda com spray de pimenta na bolsa?”, “por que ficou sozinha em casa com ele?”, “não sabia que isso podia acontecer?” e etc. Frases do tipo não fazem o tempo voltar, cada pessoa tem uma reação diferente quando está em perigo e existem casos em que não é muito seguro reagir a uma situação de violência (e não tem como saber, de antemão, quais). Não vamos cair, mais uma vez, na armadilha de culpar quem não tem culpa. No caso de estupros cometidos por amigos, parentes ou vizinhos, como a vítima iria descobrir as reais intenções de homens, teoricamente, “de confiança”? E se a violência for cometida por um estranho em um local inusitado ou em uma situação inesperada, como a vítima poderia adivinhar? E tem mais: nem sempre um estupro acontece de forma explícitamente agressiva. Cada caso é um caso – e o que todos possuem em comum é que a culpa não é da vítima. E não existe uma bola de cristal capaz de prever quando um estupro pode ocorrer.

5) Crise ou pobreza não causam estupro

Lembram quando o responsável pela Secretaria de Segurança de São Paulo, Mágino Alves Barbosa Filho, falou que a crise econômica tem a ver com estupro, porque o cara acaba ficando frustrado demais, sem emprego, bebendo e cometendo esse tipo de coisa?  Isso é uma estratégia que busca voltar o debate público para a criminalização de pessoas pobres, e não para a busca de soluções efetivas para os problemas que as mulheres enfrentam. Breaking news: filhinhos de papai que nunca precisaram sequer pensar em trabalho também estupram. Jovens universitários de classe média também estupram. Autoridades de governo também estupram. Cantores famosos também estupram. Filhos de donos de grupos de comunicação também estupram. Sabe o que não estupra? Ah, essa pergunta eu deixo no ar…

Essa relação entre pobreza e violência já foi desmistificada pelas ciências sociais há pelo menos três décadas. A socióloga feminista Helleieth Saffioti bem dizia que a violência contra a mulher é extremamente democrática porque ela atinge a todas as classes sociais.

Um homem que perde o emprego não é um estuprador em potencial. Homens numa sociedade patriarcal são estupradores em potencial porque têm uma certa legitimidade social (ainda que não legal) para violar os direitos de uma mulher, violar sua integridade e sua dignidade, seu corpo e sua vida. O que acontece em geral é que nas classes altas, a violência contra a mulher e o estupro são escondidos sob um manto de hipocrisia e dupla moral, onde não se registra, não se denuncia e não se expõe homens ricos, homens de altos cargos, frente a suas práticas violentas. Existe um silêncio e uma impunidade brutal com um professor universitário, um juiz, um político – o que não acontece com um pedreiro, um motorista de ônibus ou um trabalhador das classes populares, por exemplo.

Izabel Solyszko, feminista, assistente social, professora e doutora em Serviço Social pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Leia mais opiniões de especialistas aqui. 

6) Funk não causa estupro

Esse é outro argumento que tenta colocar pessoas negras e pobres como as únicas culpadas por agressões sexuais. O objetivo, mais uma vez, não é o bem-estar de mulheres, mas calar a cultura que surge na periferia, encarcerar essas pessoas e criar uma diferenciação entre os “homens de bem e civilizados” e os estupradores. No entanto, a lista de astros do rock que cantam letras machistas de música – e/ou estupraram adolescentes e mulheres  – é grande, por exemplo. Não precisa nem ser um astro, o meio independente está cheio desses exemplares também. Música popular brasileira, música brega, sertanejo, música pop… Se a gente cavar, acha coisas problemáticas em todos os estilos. Não estou dizendo que não existam funks machistas e com letras horríveis, ou funkeiros com comportamentos questionáveis, só quero chamar atenção para o fato de que isso não é exclusividade do gênero – que, como todos os outros, tem partes ruins e boas.

Existe um machismo no funk que não é exclusivo no funk. É que sua linguagem é muito direta em relação a tudo. Não há floreio, a batida é reta, seja para falar de amor, sexo e violência. É sempre uma linguagem muito direta, o papo reto, como dizem. Com o machismo, não é diferente. E existe uma reação escancarada a ele. Com as mulheres falando de sua liberdade sexual, da escolha de parceiros, sobre o que fazer com o corpo e exercitar seu desejo. E elas abordam todos esses assuntos em um ambiente masculino, como é o da música popular — ressalta Adriana [Facina, antropóloga e professora da UFRJ], que destaca a ascensão das mulheres dentro do cenário funk nos últimos anos. Leia mais aqui.

7) Não é a falta de armamento que causa estupro

Mais uma vez, a pauta conservadora tenta cooptar os debates feministas. Alguém realmente acha que é assim que as coisas vão ser resolvidas? A jornalista Nana Queiroz pesquisou o assunto e constatou o que a gente já imaginava: essa não é a solução. Muitos estupradores são pessoas próximas, o fator “surpresa” dos ataques dificulta a ação, mulheres são socializadas para serem mais passivas e, quando em ambientes violentos, assimilam aquela situação como normal, entre vários outros fatores. Leia a matéria aqui.

Uma sociedade toda armada mas carregando os mesmos valores de sempre vai resultar em um constante tiroteio, gente. Só isso. Antes de qualquer coisa, temos que começar grandes campanhas nacionais para discutir sobre papeis de gênero e afins. E, de acordo com a jornalista, “a maioria dos casos de estupro à brasileira não é fruto de problemas de segurança pública, mas de uma cultura machista que prega um poder do homem sobre a mulher. O crime de estupro tem uma característica no Brasil: a cifra negra. A expressão ‘cifra negra’ significa que um número muito pequeno de ocorrências de um determinado crime chega ao conhecimento das autoridades. Deste já pequeno número, uma ínfima parcela chega ao conhecimento do judiciário, e uma menor ainda resulta em condenações”.

8) ~Excesso de libido~ masculina não causa estupro

Não é o ~excesso de desejo~ masculino que faz com que as mulheres sejam estupradas (aliás, engraçado como são as feministas as que mais batem na tecla de que os homens não são “animais irracionais” e as mais acusadas de vê-los como tais). A sexualidade do ser humano é um terreno complexo e envolve mais do que a mera vontade de transar. Existe toda uma construção de ideias anterior ao ato sexual – e à violência sexual também – que faz com que o sexo seja algo que vai muito além dos órgãos genitais. Portanto, propostas que envolvem a castração química, por exemplo, vindas de pessoas que querem impedir que a sociedade discuta e debata questões de gênero, ainda por cima, estão muito mais perto de algum tipo de fetiche com violência e tortura do que de empatia com vítimas de estupro.

Em uma reportagem do Uol, o psiquiatra Danilo Baltieri, coordenador do Ambulatório de Transtornos da Sexualidade da Faculdade de Medicina do ABC, afirma que o termo “castração química” é, inclusive, mentiroso. O que ocorre, na realidade, é uma diminuição de impulsos sexuais. Porém, o interesse continua. “Em casos de estupradores não é apenas uma questão orgânica que importa, o problema também é ‘intelectual’. É claro que a castração não cura, não transforma a ideologia. Mesmo se não tiver ereção, o agressor pode praticar violência sexual de outras maneiras”. Leia a matéria completa aqui 

9) Vida sexual ativa não causa (nem justifica) estupro

Vamos deixar uma coisa bem clara: sexo é o encontro de corpos que se desejam mutuamente. Se não existe consentimento de alguma parte, é estupro. Mesmo que esses corpos já tenham se desejado mutuamente em alguma ocasião anterior, é preciso que o acordo seja reafirmado a cada novo encontro. E se esses corpos já estiveram com outros corpos, não significa que vão querer estar com todo mundo que aparecer pela frente. Tem homem que acha que mulher é igual máquina de refrigerante: se ela já transou com ele ou com outras pessoas alguma vez na vida, ele tem direito a refil automático. Não é assim mesmo. Sexo não é uma obrigação, e sim uma escolha autônoma.

Tem gente que diz coisas tipo “ah, mas ela nem era virgem” e eu sempre fico meio chocada, me perguntando em que século pessoas assim vivem. Vasculhar o passado sexual de vítimas de estupro é reafirmar o corpo da mulher como público e violável. Essa imposição histórica não é natural e, por isso, a luta que busca construir a equidade de gênero e destruir a misoginia (que tem bases profundas na inferiorização do corpo do sexo feminino) é fundamental. E tem mais: mulheres não dizem não querendo dizer sim. Não é não, e não importa o que elas já fizeram antes na cama (ou no chão, no sofá, na barraca de camping ou na areia).

10) Estupro não tem nenhuma justificativa aceitável, na verdade

Falamos em ~construção social~ com o intuito de não essencializar comportamentos ruins, porque acreditamos na possibilidade de humanidade em vocês, homens (algo que, infelizmente, não parece recíproco em muitos momentos). Logo, não acreditamos que um rapaz nasça automaticamente querendo fazer mal às mulheres e sim que ele cresce absorvendo mensagens diversas — da religião à pornografia, passando por esferas como arte, medicina, música, ambiente de trabalho e outros — onde uma hierarquia sexual existe e ele precisa reforçar a própria masculinidade, bem como estreitar laços com outros caras e demarcar seu papel de ‘poderoso’ (no âmbito do controle do espaço público e dos corpos femininos pelo menos) por meio de práticas que inferiorizem e subjuguem o sexo feminino. Por isso, nós, mulheres, precisamos urgentemente do reconhecimento de que somos humanas também.

floripestup

Crédito: Eduardo Valente

E se fosse haver algum apelo ou alguma questão nesse grito, seria essa: por que vocês são tão lentos? Por que vocês demoram tanto para entender as coisas mais simples – não as ideologias complicadas. Vocês entendem essas. Mas as coisas simples, os clichês. Que as mulheres são humanas precisamente no mesmo degrau e qualidade que vocês são.

(…) O poder exercido pelos homens no dia a dia é um poder institucionalizado. É protegido por lei. É protegido pela religião e pela prática religiosa. É protegido pelas universidades, que são fortalezas da supremacia masculina. É protegido pela polícia. É protegido por aqueles que Shelley chama de “os legisladores não reconhecidos do mundo”: os poetas, os artistas. E contra todo esse poder, nós temos silêncio.

É uma coisa extraordinária tentar entender e confrontar o motivo pelo qual os homens acreditam – e eles acreditam – que eles têm o direito de estuprar. Eles podem não acreditar quando perguntados diretamente. Quem aqui acha que tem o direito de estuprar, por favor levante a mão. Poucas mãos vão subir. Mas é na vida que os homens acreditam que têm o direito de forçar sexo – que eles não chamam de estupro. E é algo extraordinário tentar entender que homens realmente acreditam que têm o direito de bater e de machucar. E é igualmente extraordinário tentar entender que homens realmente acreditam que têm o direito de comprar o corpo de uma mulher para fazerem sexo – e que isso é o seu direito. E é também surpreendente tentar entender que os homens acreditam que essa indústria de 7 bilhões de dólares, que traz vaginas para as suas vidas, é algo a que eles têm direito.

(…) Eu acho que, se você quer olhar para o que o sistema faz com você, então é aqui que você deveria começar: as políticas sexuais da agressão, as políticas sexuais do militarismo. Os homens estão com medo dos outros homens. Isso é algo que muitas vezes vocês tentam discutir em grupos pequenos, como se, caso mudassem suas atitudes uns com os outros, deixariam de sentir medo.

Mas enquanto sua sexualidade tiver relação com agressão, enquanto seu senso de direito sobre a humanidade significar ser superior a outras pessoas – e tem tanto desprezo e hostilidade nas suas atitudes com mulheres e crianças – como vocês podem não ter medo? Eu acho que vocês percebem, corretamente, mesmo sem conseguir lidar com isso de forma política, que homens são perigosos: porque vocês são.

Andrea Dworkin. Trechos de discurso feito em em 1983, intitulado “Eu quero 24 horas sem estupro”. Leia aqui.

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8 de março: apagamento histórico

Flores, bombons, cursos de automaquiagem e homenagens que exaltam a beleza, a delicadeza e a generosidade feminina são coisas que começam a pipocar para todo lado assim que o calendário marca 8 de março, data celebrada como o Dia Internacional da Mulher. Observando superficialmente, parece tudo muito bonito e até bem-intencionado, afinal, precisamos presentear e enaltecer essas guerreiras que conseguem trabalhar fora, cuidar dos filhos, dos maridos e da casa, né? E elas fazem tudo isso de salto alto, ainda por cima! Que legal… Será?

É importante contextualizar que a data surgiu no início do século XX com o intuito de gerar reflexões sobre a luta de mulheres operárias que reivindicavam melhorias de vida por meio da garantia e expansão dos próprios direitos. Pouco antes desse período, trabalhadoras de fábricas têxteis, por exemplo, chegavam a passar até 16 horas por dia na labuta – e recebendo, muitas vezes, menos da metade do salário dos homens. A ideia da homenagem surgiu em 1910, a partir de uma sugestão da professora, jornalista e política alemã Clara Zetkin durante a Segunda Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, na Dinamarca.

No entanto, o que acontece hoje em dia é um apagamento histórico desse cenário de luta em prol do consumo e da manutenção de valores que, há muitos anos, diversos grupos de mulheres tentam derrubar. O ato de entregar medalhas àquelas que aguentam jornadas triplas de trabalho e se submetem ao rigoroso padrão de beleza, por exemplo, é uma forma de naturalizar toda a pressão colocada nas costas femininas como algo aceitável e, até mesmo, positivo. Elogiar “boa aparência” e “bom comportamento” é o outro lado de quem xinga mães que frequentam festas; critica esposas que quiseram se divorciar de maridos violentos ao invés de aguentar tudo de forma altruísta, colocando uma relação ruim acima do próprio bem-estar; censura estudantes que denunciam abusos de colegas e professores; chama de “exagerada” a amiga que manifesta desconforto perante comentários machistas e assim vai. A “mulher de verdade” é a que come pouco, mas compra muito, fala quase nada, mas faz bastante coisa (pelos outros, principalmente). Essa sim é celebrada. Mas ela existe?

Plantar a insegurança feminina e depois vender a solução para a vida das mulheres por meio de produtos estéticos e domésticos é a solução perfeita… Para o bolso das empresas. Pra que falar de “coisas chatas”, como divisão de tarefas do lar? Vamos vender aparatos que facilitam a vida da “dona de casa” (e, na verdade, acabam virando mais louça para ela lavar e mais entulho guardado na cozinha). Pra que falar de melhorias nas condições de emprego para mulheres? Isso só vai colocar mais coisa na cabeça dessas empregadas “folgadas” que, vejam só, têm a coragem de querer a própria carteira de trabalho assinada!

O incentivo ao consumo desenfreado e a homenagem genérica e vazia de sentido que a cooptação do 8 de março propõe não cria apenas um nicho muito lucrativo, mas funciona também como estratégia de marketing empresarial ou pessoal para quem quer fingir preocupação com mulheres sem precisar fazer nada que realmente mexa nas estruturas que emperram a vida delas. Chefes, filhos, maridos, pais, irmãos, netos e amigos podem expiar toda a culpa de serem negligentes ou sobrecarregarem as mulheres que convivem com o simples ato de depositar dinheiro em um objeto que represente a importância e o valor da homenageada. Dessa maneira, ações que dependem também de todos aqueles que estão ao redor da mulher saem de cena à francesa. Reflexões e mudanças de atitude não são consideradas tendências porque não são comportamentos vendáveis – e ainda flertam com terrenos perigosos, como o despertar coletivo de consciências.

Texto publicado originalmente na coluna ‘Água & Óleo’ da Revista Traços, na edição de março de 2016. Por conta da limitação de caracteres, o foco foi no apagamento geral e na cooptação mercadológica do dia. No entanto, existem outros aspectos importantes a serem abordados quando se aprofunda no tema, como a historicidade da data (antes Dia da Mulher Trabalhadora), ou a questão das mulheres negras e o trabalho forçado, que acaba naturalizado em seu esquecimento (na mesma coluna e mesma edição, a militante negra e feminista Dalila Fernandes escreveu sobre isso), entre outros. 

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Como conversar com mulheres

Hoje o texto vai para aqueles rapazes que chegam em uma festa e não sabem como se aproximar desses exóticos exemplares da espécie humana: mulheres. Vai para os homens que, em uma fila de banco ou no ambiente de trabalho, não conseguem estabelecer diálogo algum com essas misteriosas criaturas. Ah, mulheres… Só de ler esta palavra, logo somos transportados para um mundo repleto de seres fantásticos e cheios de segredos. Mulheres! Figuras mágicas, divinas e, por vezes, inconstantes. Como entender o que se passa na cabeça dessa complicada parcela da população? O que será que tais mentes arquitetam, quando não estão pensando em batom, novela ou em comprar uma bolsa nova?

Quem nunca se sentiu paralisado diante da beleza feminina que atire a primeira pedra: lindos cabelos com produtos químicos, cílios postiços, seios com silicone… Todos amam a mulher do jeito que ela é! E chegar mais perto de uma delas para trocar uma ideia sempre pode ser, com certeza, muito interessante – desde que a escolhida seja loira, magra, não tenha muitas opiniões e esteja louca para transar, claro. Afinal, você não quer perder o seu tempo, não é mesmo?

Mulheres! Com certeza são a projeção real de suas fantasias, obtidas após muitos filmes, propagandas e sites obscuros acessados na calada da noite – com o volume no mute para a vizinhança não desconfiar de seus hábitos cotidianos. Portanto, venho aqui com o intuito de ser o facão que irá abrir a mata fechada que te impede de caminhar para perto das gatas. E trago boas notícias: adentrar o estranho universo feminino é mais simples do que parece. Quer saber o que você deve fazer para conversar com uma mulher?

  • ABRA A BOCA
  • FALE

Tcharam! Fácil, né? Mulher não é nenhum extraterrestre não, ou. Se você encontra problemas para conseguir falar com uma, não é porque somos difíceis de compreender. O mais provável é que os seus valores relacionados ao sexo feminino sejam tão deturpados, que você realmente acredite que exista um protocolo específico para lidar com a gente. Se os parágrafos anteriores deste texto não foram percebidos como uma completa ironia que simula todo o chorume estereotipante que se escreve – e que se impõe – sobre mulheres por aí, volte muitas casas no jogo da vida.

E mais: se você não consegue aproveitar a diversidade de mulheres ao seu redor para fazer amizades e conhecer coisas novas sem necessariamente uma transação sexual estar embutida nessa troca de ideias, o problema é seu ao se frustrar com uma expectativa não correspondida – e não delas. Você não é o cara legal que imagina ser caso acredite que sexo é uma recompensa obrigatória a ser dada para todos os que não tratam mal uma mulher. Enxergar mulheres primordialmente pela ótica de uma possível foda é deprimente pra vocês, que em 2017 ainda não perceberam que existimos para além disso, e desumanizante pra nós, que temos toda nossa subjetividade reduzida a esse tipo de coisa o tempo todo. Inclusive, acho muito estranha essa concepção masculina de querer planejar tudo previamente, como se estivesse montando uma armadilha, e não buscando viver um momento agradável e natural, que envolva ou não algo mais.

Nessas horas que a gente vê como a coisa tá feia: alguns caras acham que, só por ouvirem o que uma mulher tem a dizer, merecem uma condecoração. E o pior é quando reclamam da falta desse tipo de reconhecimento, como se fosse um sacrifício muito grande lidar com uma mulher ou como se fosse humilhante demais sair um pouco do papel grosseiro que a masculinidade impõe, não sei.

Se tem uma dica séria que posso dar é: não sigam dicas. Repense a sua relação com o sexo feminino e procure, dentro de você, o que pode estar te afastando das mulheres. Um amigo, dia desses, comentou que se ficasse solteiro, seria impossível ficar com alguém de novo, pois não consegue nunca conversar com uma mulher – elas sempre ficam bravas! No mesmo dia, ele havia julgado publicamente a aparência de várias minas e reduzido a tristeza de uma colega a “problemas com homem”. Não é difícil entender o porquê de as mulheres ao redor dele ficarem com raiva…

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allyson gutchell // allysongutchell.tumblr.com

E muitas dicas sobre ~como conversar com mulheres~ que li pela internet afora apenas disseminam estereótipos baratos sobre o sexo feminino (“ela vai gostar de você por causa do seu carro”, por exemplo) e ensinam táticas de manipulação, negging e outros tipos de abusos psicológicos e emocionais. Sabe como é, a gata não pode “se achar” muito, argh. A insegurança masculina é tão grande, que o ideal para muitos é diminuir a das mulheres também. É esse tipo de relação que você quer estabelecer com uma pessoa, mesmo? Dominar uma mulher não é conversar com ela – uma conversa é uma via de mão dupla.

Muitas vezes, mulheres percebem essas táticas de antemão, e se afastam. Ou percebem, mesmo quando não conseguem explicar muito bem, que tem algo de errado na forma que um cara fala sobre e com mulheres. Ou simplesmente não querem nenhum tipo de conversa e aproximação – e isso acontece com todo mundo, de todos os sexos, gêneros, orientações, sério, não apenas com rapazes. Antes de julgar, analise se já não fez o mesmo. Me parece muito mais comum homens sequer valorizarem o que uma mulher que não os atrai (ou que não está “disponível”) tem a dizer do que o contrário. E tem mais: mulher alguma tem a obrigação de disponibilizar tempo para outras pessoas quando ela não está afim. E homens precisam parar de achar que podem perturbar a paz de uma mulher em qualquer lugar e situação, mesmo sem contexto algum.

Por isso, quanto menos apego às fantasias e estereótipos sobre mulheres, mais fácil conversar com elas. Assim como os homens, mulheres são seres complexos, que possuem vários interesses e vontades. Ser uma pessoa mais aberta, sincera, com um timing maneiro e que realmente converse com outras, e não que apenas busque uma escada para a superioridade pisando em cabeças alheias, pode trazer muitas surpresas. Amores, amizades e até mesmo sexos casuais brotam em locais inesperados. E uma coisa eu garanto: ainda que existam muitas diferenças entre as pessoas, todas gostam de ser tratadas com humanidade. É bizarro ter que explicar isso.

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TODA MULHER É LOUCA

Certos homens agridem as namoradas na maior cara de pau, e falam da amiga louca. Disseminam preconceitos estéticos e raciais, disfarçando tudo isso de “gosto pessoal”, e falam da professora louca. Saem com qualquer uma que conhecem em qualquer lugar, e falam da colega de trabalho louca. Enchem a cara e agem feito uns idiotas, e falam da esposa louca. Praticam sexo não consentido com mulheres desacordadas ou vulneráveis –  vulgo estupro, sabe? – e falam da irmã louca. Não desfazem laços com caras que já fizeram o mesmo (e os legitimam socialmente), e só julgam a cunhada louca. Desumanizam as garotas com quem saem, separando-as entre as que merecem respeito e as que não merecem, e falam da mãe louca.  Arrumam briga e promovem atos violentos por motivos banais e fúteis, mas louca é aquela tia distante, que vez ou outra vem visitar. Chegam a machucar e até a matar mulheres e também outros homens, simplesmente porque não sabem lidar com diferenças e frustração, mas o foco da conversa? É a ex-namorada louca, claro. Abandonam a família, e apontam o dedo para a cantora louca. Incentivam a rivalidade feminina, fazem comparações entre mulheres e chamam de louca aquela garçonete que trabalha o dia inteiro no restaurante da esquina. Não lavam uma louça, e reclamam da diarista que aparece toda segunda-feira, que é louca. Apesar de adultos, namoram meninas adolescentes e facilmente manipuláveis – e diz para elas tomarem cuidado com as colegas de classe, que são loucas. Fingem que são bonzinhos e abusam de crianças, e falam da ativista louca. Se fazem de pobres coitados, frágeis, abandonados e doentes, mas a prima é que é louca. Exploram funcionários e chamam isso de trabalho, e falam da avó louca. Assediam mulheres em shoppings, hospitais e igrejas, e riem da moradora de rua louca. Dirigem rápido, achando que a vida é um filme de ação, e conversam sobre a vizinha louca. Fazem sexo que nem uma britadeira descontrolada, achando que os ensinamentos da pornografia são válidos, e falam da dentista louca. Aprisionam mulheres em relacionamentos “livres”, e falam da dona de casa louca. São incapazes de demonstrar afeto sem ironia ou constrangimento… E falam que todas, todas, todas, todas, todas as mulheres ao redor, por algum motivo, são loucas.

Desconfiem de adjetivações genéricas, reducionistas, preconceituosas e sem fatos ou análises embasadas como foco. E, não esqueçam: a louca que hoje você ajuda a isolar por acreditar que isso te dará algum tipo de proteção pode ser você amanhã. Mulheres são historicamente taxadas de loucas como forma de controle e dominação. Toda mulher que coloca o privilégio de um homem em risco ou quer romper com as sufocantes regras sociais impostas ao sexo feminino é vista como errada ou perigosa.

Na maioria das vezes, não basta apenas olhar para onde os dedos apontam. É preciso observar também de quem é a mão.

katrene

pintura de kat renee // katrenee.com
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Quando o “não” vira sentença de morte

Voltei de uma viagem na última sexta-feira e, assim que pisei em casa, resolvi procrastinar o momento de desfazer as malas dando aquela olhadinha nas redes sociais. Me deparei com um post muito triste de uma moça pedindo ajuda para encontrar a irmã dela, que estava desaparecida desde a noite anterior. Porém, antes que eu pudesse pensar em qualquer hipótese sobre o assunto, pipocavam comentários na postagem desejando força para a família e afins. Cliquei nas notícias linkadas e li sobre a morte cruel da jovem Louise Ribeiro, de 20 anos. A estudante de biologia foi assassinada pelo ex-namorado (e colega de curso) Vinícius Neres, de 19 anos, dentro da Universidade de Brasília (UnB). É uma história muito chocante. Fiquei muito mal, os olhos marejados, o peito apertado… Até quando um homem que não sabe lidar com rejeição e enxerga uma mulher como posse vai se achar no direito de tirar a vida dela? Quando iremos alterar o paradigma desse roteiro tão comum?

Enquanto ainda digeria o acontecido, uma história muito parecida apareceu nos jornais do Distrito Federal menos de 48 horas após a morte de Louise: a estudante de gestão pública Jane Fernandes Cunha, de 20 anos, foi assassinada pelo ex-companheiro Jhonatan Pereira Alves, de 23 anos. O cara atirou nela e, em seguida, se matou. Embora ambos os crimes sejam igualmente terríveis, o caso de Jane possui um agravante: ela já havia feito uma denúncia contra o ex na Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam) por conta de frequentes intimidações. Porém, não adiantou, como em diversos outros casos (um maior uso de dipositivos eletrônicos que apitam, como pulseiras, sendo mais utilizados em casos de medidas protetivas podem auxiliar, será? Algo precisa ser feito, é desesperador). Ele era mais um desses desequilibrados que ~não aceitam o fim do relacionamento~ e, ao invés de assistir uns filmes tristes ou buscar algum tipo de apoio psicológico, preferiu resolver as coisas da pior forma possível. E as mulheres é que são chamadas de “histéricas” e “descontroladas”… Estranho, não?

O caso de Louise está ganhando ampla repercussão por ter acontecido dentro de uma universidade, e entre pessoas muito jovens e de classe média (Jane era da periferia do DF) – e creio que também pelo fato de o assassino estar vivo e não corresponder ao estereótipo que se cria de “bandidos”. Ele tem um visual “nerd”, é frio, indiferente, bem articulado e tem sido protagonista de entrevistas enojantes onde posa feito um popstar narrando um crime brutal com a banalidade de quem está fazendo um novo show. E a mídia carniceira e sensacionalista dá corda e faz perguntas que não levam a lugar algum, desinformam e acabam por tentar tirar o rapaz do lugar que ele pertence: de assassino misógino para um “garoto perturbado”.

Precisamos conversar claramente sobre todas essas questões e acabar de uma vez por todas com o mito de que o agressor é um “monstro” ou um “doente” – a não ser que a gente comece a concordar que a masculinidade em si pode, muitas vezes, ser uma espécie de doença mental epidêmica que é instalada na pessoa do sexo masculino por meio da socialização. Se o Mapa da Violência de 2015 mostra que grande parte da violência contra a mulher – e dos assassinatos – são cometidos por familiares e ex-parceiros, isso significa que existem criminosos aos montes, eles não são exceções. Logo, invocar o “monstro” quando estamos falando de um comportamento corriqueiro é fechar os olhos para uma situação generalizada, como se apenas alguns caras estivessem fazendo algo ruim porque possuem algum problema (embora existam transtornos que façam uma pessoa matar outra, mas isso é outra questão) e não porque estão inseridos em uma cultura onde o valor da mulher é baixo.

Aliás, temos que ir mais longe e radicalizar (lembrando que “radical” tem a ver com ir até a raiz): qualquer homem que seja contra uma mulher livre e autônoma é um agressor em potencial, e isso não é uma hipérbole, mas uma realidade. São muitos os que, de forma explícita ou velada, se incomodam com a existência de mulheres que querem decidir o que fazer, o que vestir, o que estudar, onde trabalhar e com quem se relacionar. E esse incômodo resulta em um alto número de violências físicas, psicológicas e verbais contra as mulheres. Portanto, temos um problema sério em mãos a ser resolvido, e ele envolve mais do que segurança pública, melhoria nos aparatos judiciais ou iluminação nas ruas, mas também muita educação.

Quantas vezes não achamos um cara meio estranho, raivoso, machista e as pessoas ao redor tentam abafar, dizendo que ele é assim mesmo, que está só brincando, que é um pouco exagerado no modo de falar, que teve problema com drogas, está deprimido ou sofreu alguma rejeição? “Apesar de tudo, ele é gente boa”. Nananinanão, parem de inventar desculpas. Misoginia é misoginia, e esse tipo de gente ser levada a sério é um sintoma grave de que odiar mulher não tem problema algum. É um absurdo que a gente viva em uma sociedade conivente com homens que dizem que mulheres são inferiores ou devem ser submissas e que vociferam coisas como “vadias”, “putas”, “piranhas” assim que percebem que não podem controlar comportamentos e sentimentos alheios. A necessidade masculina de afirmar a própria identidade a partir da dominação do sexo feminino – e também do sexo masculino dissidente do estereótipo macho e heterossexual – é tóxica para todos os envolvidos. E a misoginia escorre por todos os lados, inclusive da boca daqueles que pregam respeito às minas, basta prestar atenção nos detalhes.

Pensando na construção histórica do que é ser mulher, que envolve a demarcação do corpo do sexo feminino como menos valioso e violável, é possível perceber que a dualidade sobre a qual somos obrigadas a caminhar desde que nascemos permite com que a gente seja qualquer coisa, menos um ser humano. De santa a puta, de vaca a cachorra, de nobre mãe a vadia degenerada, de musa a bruxa, estamos sempre nos equilibrando sobre a ponta de uma faca que, em algum momento, fura a nossa carne por conta do peso insuportável da pressão. Ou então somos punidas, de alguma maneira, por não cumprir os papeis de gênero pré-determinados. E é necessário muito pouco para ser considerada uma rebelde: ás vezes é só dizer não (aliás, vale muito a pena ler o texto “O não também nos pertence”, escrito por Thaís Campolina).

O pai de Louise disse, em uma matéria, que a jovem era muito estudiosa e não era de baladas. Infelizmente, ao contrário do que muitas pessoas pensam, não existem premissas reais que protejam a mulher de um feminicídio, ainda que ela tente ser um exemplo, uma “moça direita” ou qualquer coisa do tipo. Nascer mulher no mundo atual é um risco por si só, afinal, os homens crescem nos objetificando e achando que podem fazer o que quiser. Eles crescem pensando em carros, status, conquistas profissionais e mulheres (percebam que estamos sempre em um balaio de “coisas”), como se ter tudo o que desejassem fosse um direito garantido a todo ser do sexo masculino que ~performa~ a masculinidade.

Os caras precisam aprender a lidar com frustrações e a culpar os inimigos corretos (tem muito frustrado por questões materiais que desconta em mulher, por exemplo, quando a falta de sucesso dele é causada por um sistema desigual que visa manter o status quo – e as mulheres estão muito longe do topo desse sistema, mesmo as privilegiadas). E precisam também tirar essa visão bélica de cima dos relacionamentos, tratando tudo como uma guerra que tem que ser vencida a qualquer custo. Estar com alguém (seja em um casamento ou em uma ficada de uma noite) é uma construção em conjunto que, em um determinado momento, pode parar de dar certo.

E tem mais: quando termos como friendzone (pra quem não sabe o que é, aqui tem uma explicação com uma visão feminista) são utilizados até mesmo por homens adultos, que já estão bem longe do período da adolescência, é que é possível perceber a naturalização da mulher como objeto sexual. Oras, quem essas “vadias” acham que são para achar que merecem atenção e respeito só por serem legais e inteligentes, não é mesmo? Pra muito cara, amizade com mulher “de graça” não existe. E vários idealizam o ~pegar mulher~ desse modo descartável que a sociedade machista prega como se isso fosse um troféu, mas é uma babaquice sem tamanho, pô. Qual o sentido em perder seu tempo com pessoas que você despreza e sequer considera dignas de respeito? Isso, pra mim, é um claro sinal de ódio por si mesmo que, em algum momento, vai acabar respingando em quem está ao redor e é “inferior” (as mulheres também odeiam a si mesmas, mas isso se manifesta mais contra elas do que contra os outros – até nisso a gente sai “perdendo”).

Rejeição dói, eu sei. Quem nunca tomou um pé na bunda traumatizante que atire a primeira pedra. Mas existem bilhões de pessoas no mundo (e, com a internet, ficou ainda mais fácil acessá-las). Existem mil atividades que podem ser feitas para esfriar a cabeça. Eu entendo, teoricamente, o que move um feminicídio, o sentimento de posse e controle, mas não consigo entender, na prática. Quanto mais penso no assunto, mais meu cérebro trava. Quer dizer, um cara escolhe carregar o peso de ter tirado uma vida pelo simples fato de não saber lidar com um término? Isso é muito surreal, bobo, infantiloide, cruel e inconsequente. Não tem nada mais patético do que a necessidade de lavar a “honra” masculina, porque não lava coisa nenhuma. Só suja mais e contribui com a manutenção de um ciclo de terror e ódio.

niuma

#niunamenos – Maitena

E, como muitas feministas alertam faz tempo: comportamentos abusivos precisam parar de ser romantizados. Não é fofo um cara que dá uma crise de ciúme e puxa a mulher pelo braço pra fora de uma festa, que vigia as redes sociais da namorada, que faz chantagem emocional e tenta diminuir a autoestima de uma mina para mantê-la fragilizada e perto dele. É essa linha de pensamento que contribui com a evolução de um soco para uma facada. A ideia de amor é vendida como essa intensidade que abarca “tapas e beijos”, mas a realidade mostra que a marca dos tapas é muito mais permanente do que o alívio dos beijos. Se tem violência, não tem amor. Não existe “crime passional”, e sim feminicídio. A Lei do Feminicídio, inclusive, completou um ano recentemente e se mostra realmente muito necessária. Para entender mais e o porquê, clique aqui.

Temos que lembrar que a realidade macro é composta também a partir da catalogação de vários acontecimentos dos micro universos se repetindo e se cruzando constantemente. Tipo assim, não é uma piadinha sobre estupro que vai causar diretamente a morte de uma mulher, entende? Mas essa piada faz parte de um cenário em que a violência masculina é tida como normal, a mulher é vista como inferior, roupa curta e bebedeira são usadas como justificativas para assédio sexual, maridos se acham donos das esposas, pessoas do sexo feminino são assassinadas principalmente por homens do próprio convívio, funcionárias são contratadas pela aparência para cargos que precisam apenas de competência, agressores são acobertados, vítimas são expostas, delegacias não sabem lidar com crimes contra as mulheres (mesmo as especializadas), e assim vai. Essa lista, infelizmente, poderia ser imensa, praticamente infinita.

E o que quero dizer com tudo isso é que uma pequena coisa esbarra em outra pequena coisa e, juntas, elas se tornam uma coisa média, que se aglutina com outra e, de repente, temos uma coisa bem grande acabando com a vida de alguém. Não existem acontecimentos isolados, tudo tem uma consequência. Portanto, precisamos desmantelar desde a base uma cultura que é conivente que o estupro e a violência contra a mulher, entre outros absurdos (como racismo, homofobia e afins). Nesse quadrinho maravilhoso da Lovelove6, que desenha a Garota Siririca, é possível refletir sobre essas questões.

O Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê) da UnB contribui com a reflexão sobre a violência contra a mulher e a banalização disso em ambientes que deveriam abrigar e acolher todos os tipos de pessoas, mas acabam sendo excludentes por conta de negligência com as especificidades de cada grupo  (texto na íntegra aqui):

Nos últimos anos, a UnB vem se tornando um espaço cada vez mais marcado por casos de violência contra minorias. Tivemos o caso da “lésbica nojenta” espancada no estacionamento. Tivemos ameaça de bomba porque “na UnB só tem puta e viado”. Tivemos pichação misógina, LGBTfóbica e racista nas paredes de centro acadêmico. Tivemos trote sexista que fez calouras lamberem linguiça com leite condensado. Temos trote homofóbico que berra nos corredores do Minhocão que todo arquiteto é bicha e homem mesmo é engenheiro civil (essa escutei ontem, às 13h30, no ICC norte). Sempre – é bom ressaltar, sempre – tivemos os recorrentes casos de estupro nos matagais no caminho para a L2. Aliás, estupro em festa de CA também não é nenhuma novidade, e nunca vi a polícia dar andamento aos casos denunciados pelas vítimas. Uma vez, a administração superior (a.k.a. Ouvidoria) me informou que no caso de uma denúncia de estupro em festa feita fora da universidade não havia nada para a administração superior fazer, ainda que a festa tenha sido organizada por estudantes, divulgada por estudantes, realizada por estudantes e com o objetivo de “integrá-los”. A violência de gênero sempre esteve presente entre nós. Agora, temos um feminicídio dentro das dependências da universidade. Qual é a resposta institucional que a universidade vai tomar?

E mais: qual a resposta que nós, enquanto sociedade, daremos para essas violências? Eu quero um mundo onde as mulheres possam dizer não sem que isso vire uma sentença de morte – e que “ser mulher” não seja considerado algo pejorativo, engraçado e inferior. Por que é tão difícil assim?

karina

Imagem da artista Karina Buhr. Arte inspirada nesta notícia: http://goo.gl/4B7xns