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Achar que o Brasil não é racista já é racismo

Hoje é 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra. E o que isso significa? Bem, a data marca a morte de Zumbi dos Palmares, que foi líder do Quilombo dos Palmares e representa um ícone da resistência negra durante o período de escravidão no país. O dia coloca em evidência a luta da população negra do Brasil contra o preconceito e a discriminação, e serve também para gerar reflexões coletivas na sociedade por meio de debates, resgates históricos e da divulgação da cultura afro-brasileira.

Ainda que a escravidão tenha acabado há algum tempo, as marcas do período continuam presentes em nosso povo: os negros e negras são os que mais possuem desvantagens econômicas e sociais, e são sistematicamente dizimados de forma covarde e silenciosa – esse extermínio é noticiado com menos frequência do que furtos bobos em lojas, casamentos de subcelebridades ou protestos “atrapalhando” o trânsito, por exemplo.

Uma breve – muito breve mesmo – história da escravidão de pessoas negras no Brasil

A raiz da desigualdade racial e social do país está no seu processo de colonização, que teve Portugal como um dos atores principais. Em 1500, o Brasil foi “descoberto” – ou violentamente roubado da população nativa? – e, pouco depois, o território começou a ser moldado de acordo com as vontades e necessidades de seus “novos donos”. Na época, a demanda por mão-de-obra aumentava cada vez mais. Estimativas afirmam que, em trezentos anos de escravidão, mais de 4 milhões de pessoas negras foram retiradas forçadamente do continente africano e trazidas para cá.

Algum tempo atrás, dei uma folheada no livro “Do reclame à comunicação – A pequena história da propaganda no Brasil”, de Ricardo Ramos, e vi anúncios nos classificados de jornais do período da escravidão com pessoas negras sendo vendidas como produtos mesmo: “bons dentes e forte”, “troco escravo por isso e aquilo”, “empresto ama-de-leite”, etc. Horrível demais – embora, infelizmente, não seja nenhuma surpresa. Um pouco de estudo ou uma simples conversa com pessoas que tem antepassados que foram escravizados nos mostra como era pesada, violenta e desumana a realidade da população negra aqui no Brasil – e ainda é, só que de outras formas. O racismo institucional, a discriminação, o difícil acesso a educação formal e a mecanismos de ascensão social e econômica, a exploração da força de trabalho e o extermínio de negros e negras nos mostra que a nossa sociedade ainda carrega uma herança sombria desse passado não muito distante. Vale ressaltar que as mulheres eram – e ainda são – tratadas como objetos sexuais e estupradas de forma repetida.

Além de tudo isso, os africanos não podiam praticar suas próprias religiões e rituais, mas isso não os impediu de manter a cultura africana viva aqui no Brasil. As pessoas escravizadas resistiam, e além das fugas, dos embates e tantos outros acontecimentos, a perpetuação da própria cultura foi também uma forma de resistência. Podemos ver que é possível conectar muito do que aconteceu no passado com a nossa história atual: praticantes de religiões de matriz afro-brasileira, como o Candomblé, são constantemente perseguidos e têm seus terreiros atacados, enquanto igrejas Evangélicas ou Católicas são vistas como os lugares “corretos” para se expressar religiosamente.

Em 1888, foi instituída a Lei Áurea, que previa a extinção da escravidão no Brasil. Ela foi precedida pela Lei do Ventre Livre (1871) e pela Lei dos Sexagenários (1885), que, respectivamente, davam liberdade a filhos de pessoas negras escravizadas e libertava quem tivesse mais de 65 anos. Nada disso aconteceu porque os brancos ficaram bonzinhos de uma hora para a outra e decidiram “libertar” quem estava sendo escravizado, ok? Isso tem muito mais a ver com fatores econômicos: ex-escravos se tornariam um novo mercado consumidor e não dariam mais “prejuízo” por morar “de graça” na casa dos patrões, por exemplo.

No entanto, paralelamente a tais medidas, não existiu o planejamento de ações que qualificassem e incluíssem essa nova classe trabalhadora dentro da sociedade. De escravizados, os negros e negras libertos tornaram-se força de trabalho barata. Quem continuava em vantagem eram os ex-escravocratas, enquanto ex-escravos encontravam-se sem instrução, renumeração justa ou acesso a bens e serviços. Outro agravante à condição da população negra era uma visão institucionalmente racista por parte da sociedade e governo da época (que permanece até hoje), que passou a estimular a vinda de imigrantes europeus para o Brasil, com o intuito de “embranquecer” a população (as teorias eugenistas eram, inclusive, socialmente aceitas e aplicadas). Ao contrário dos africanos, eles receberam incentivos e não foram trazidos à força. Esses imigrantes trabalharam bastante, sim, mas ainda que pudessem se encontrar em situação precária, tiveram acesso a recursos e terras, entre outros benefícios que nunca foram concedidos à população negra. Aliás, por um certo período, foi proibida a entrada de mais negros e também de asiáticos no país.

De acordo com o Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2010, 82 milhões, dos cerca de 200 milhões de habitantes do Brasil, se declararam pardos e 15 milhões, negros. Em comparação com o Censo de 2000, houve aumento na autodeclaração negra e parda no país. Dados da Pesquisa Nacional de Amostras de Domicílios (Pnad) de 2013 mostram que, em dez anos, a população autodeclarada preta no país cresceu e passou de 5,9% do total de brasileiros em 2004 para 8% em 2013. Além dos pretos, cresceu também o número de pessoas autodeclaradas pardas. Ainda de acordo com o Censo de 2010, existe grande diferença entre população negra e branca no que diz respeito ao acesso a educação: entre pessoas de 15 a 24 anos que frequentavam o nível superior, por exemplo 31,1% dos estudantes eram brancos, 12,8% negros e 13,4% pardos. Foram encontradas diferenças salariais também (sendo a população branca a que recebe mais), entre outras.

Leia também: “A história da escravidão negra no Brasil”.

E por que estou falando tudo isso?

Se você acha que não vivemos em um país racista (ou melhor, em um mundo), isso já é racismo. O período da escravidão passou, mas as consequências da época continuam vivas em nossa sociedade. Acreditar em mérito quando o próprio destino já está traçado de forma positiva é fácil. Quem tem a pele branca geralmente tem muito mais chances de frequentar escola, universidade, de ter o que comer, o que vestir, de ver a própria cara representada em produtos midiáticos como sinônimo do sucesso e com mais nuances de personalidade, entre outras questões. É cruel afirmar que racismo não existe e cada um consegue o que quiser se trabalhar para isso, porque não é bem assim. Isso é naturalizar as diferenças, como se elas não tivessem sido geradas por sistemas políticos e sim pela capacidade de cada indivíduo.

É correto afirmar que uma pessoa negra que não veio de uma família que acumula bens há gerações, por exemplo, e que precisou trabalhar em empregos exploradores a vida inteira para sobreviver (o que tirou o tempo de estudo e lazer), além de ter tido a autoestima abalada constantemente por comentários racistas e perdido oportunidades por conta de discriminação não passou no vestibular ou não conseguiu um emprego melhor porque “não conseguiu”? Eu considero que essa pessoa sequer teve a chance de tentar.

Claro que existe quem consiga ultrapassar barreiras que pareciam antes intransponíveis, mas em uma sociedade justa não deveriam ter grupos com enormes obstáculos para vencer, enquanto outros sequer precisam pular um degrauzinho. E por isso é importante revisitarmos nossa própria história, para que a gente não caia no conto de que a vida é feita de indivíduos escolhendo viver como querem e sofrendo as consequências disso. Na real, nem sempre existem escolhas, apenas imposições que são fruto justamente de acontecimentos anteriores vividos por um mesmo grupo.

Estou tratando de assuntos básicos nesse texto porque acho importante lembrar, nessa data de hoje, um pouco das condições que criaram os abismos sociais, econômicos e raciais que temos hoje em nosso país. No último dia 18, aconteceu a Marcha das Mulheres Negras aqui em Brasília (DF), e ficou evidente a vontade de alguns em manter esses abismos: elas foram ameaçadas e atacadas com bombas e tiros por membros daquele acampamento bizarro – praticamente uma milícia – que está montado ali na frente do Congresso já faz um tempão (e que, finalmente, está sendo “convidado a se retirar”, digamos assim).

Além da violência a que essas mulheres foram expostas, acredito que tais atos buscaram tirar o foco dos temas relacionados à elas. Leiam o texto “Mulheres negras em marcha: racistas não passarão!”, de Carmela Zigoni, em que ela informa melhor sobre como foi o dia e destaca as pautas importantes do movimento (e cliquem aqui e aqui para ver fotos maravilhosas dessas guerreiras).

“A Marcha das Mulheres Negras de 2015 defende diversas pautas, dentre estas, o fim do femicídio de mulheres negras, o fim do racismo e do sexismo nos veículos de comunicação e no ambiente de trabalho, a titulação e garantia das terras quilombolas, especialmente em nome das mulheres negras, o fim do desrespeito religioso e a garantia da reprodução cultural de práticas ancestrais de matriz africana. Aqui você encontra o manifesto da marcha com as reivindicações na íntegra” (via página do Ministério da Cultura no Facebook). 

As negras passam por situações específicas relacionadas à aparência, afetividade, oportunidade de estudo e emprego. Muitas vezes, o feminismo, por exemplo, homogeniza as questões das mulheres como se todas estivessem partindo de um mesmo local, com as mesmas experiências (no dia 20 de novembro do ano passado, postei um texto da Sueli Carneiro que fala sobre essa questão: “Enegrecer o Feminismo: A Situação da Mulher Negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero”). Portanto, vamos aproveitar o dia de hoje para refletir as raízes históricas da desigualdade racial em nosso país. Como eu já disse no texto sobre o filme “Que horas ela volta?”, nenhuma pessoa é naturalmente inferior. Chega de racismo e misoginia tentando minar a autonomia e a garantia de direitos das mulheres negras brasileiras.

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Foto por Janine Moraes durante a Marcha das Mulheres Negras de 2015

LEIAM MULHERES NEGRAS:

À Margem do FeminismoBelezas de KiandaBlogueiras Negras; Cidinha da SilvaFavela Potente; Geledés – Instituto da Mulher NegraGorda e Sapatão; Eu, Mulher Preta; Identidade Negra; Mônica Aguiar SouzaMulher Negra & CiaNegra Solidão; Poema Preta; População Negra e SaúdePreta ‘Dotora’Preta & Gorda; Preta MaternaServiço de Preta.

Fiquem à vontade para deixar mais dicas nos comentários! :}

P.S: Em 2009, fiz o curso de extensão “Pensamento Negro Contemporâneo”, na Universidade de Brasília (UnB), com o professor Sales Augusto dos Santos. Foi excelente e meus olhos se abriram de forma que não tem mais volta. Por isso, bato novamente na tecla de que estudar e conhecer a história do nosso país é algo muito importante. E quem realmente entende de racismo é quem passa por ele, não é mesmo?

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Trolls odeiam mulheres, pelos e a insubmissão feminina

Nos últimos dias, a página da Vulva Revolução no Facebook recebeu ataques de trolls por conta de uma postagem antiga que, por algum motivo, voltou a circular. O post em questão é a imagem abaixo, onde escrevi a seguinte legenda: Até quando vamos chamar nossas características de “defeitos”?.

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Desenho por Fernanda Moreira

Como podemos ver, a ilustração traz o desenho de corpos brancos, negros, gordos, magros, com pelos, estrias e outras características. No entanto, o que era pra ser algo corriqueiro, é encarado como um absurdo. Essa simples postagem de caráter motivacional e empoderador recebeu comentários assim:

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Sendo o espaço virtual uma continuação do que chamamos de “vida real” (ou um cruzamento, visto que não existem fronteiras muito bem delimitadas), essa invasão de trolls é um reflexo de como o ~mundo offline~ percebe (e recebe) as mulheres – principalmente as insubmissas e que querem se aceitar como são. Ainda que não seja fisicamente presencial, a internet é um espaço público. E a entrada de mulheres em espaços públicos é recente e, pelo visto, indesejável. Basta analisarmos o tanto de assédio que recebemos em todo lugar, o tempo todo, para perceber isso.

Todos esses tipos de corpos mostrados – e muitos outros – existem de verdade. Mas vivemos em uma sociedade que prefere ver a diferença como uma doença a ser tratada: laser para retirar estrias, massagem para acabar com a celulite, creme para clarear a pele, cirurgia plástica para diminuir o nariz, depilação em qualquer parte do corpo que tenha pelo, shampoo para controlar o volume do cabelo, escova para alisar os fios, pinça para pinicar a sobrancelha, cinta para afinar a cintura, short modelador para esconder o quadril, lipoaspiração para sugar a gordura localizada, dieta para emagrecer… Ufa! É tanta coisa, que eu poderia passar o dia escrevendo, e ainda assim não caberiam todos os procedimentos estéticos, cirúrgicos e afins que existem para ~consertar~ a mulher.

Porém, uma olhada mais atenta aos itens que acabei de listar nos mostra algo muito importante: o padrão estético atual não é apenas misógino, mas também muito racista. A “mulher ideal” é um mito que quase nenhuma de nós vai alcançar – e é justamente isso que torna o mercado da beleza tão lucrativo. Como ratinhas presas em uma gaiola, as mulheres gastam muito tempo e dinheiro rodando loucamente em busca da suposta “perfeição”. E não é necessariamente porque elas querem ou são fúteis, como muita gente gosta de dizer, reforçando estereótipos misóginos: para muitas, não existe emprego, vida afetiva e um pingo de respeito se não houver um mínimo de adequação ao padrão.

Só que quando a gente começa a perceber e questionar esse sistema publicamente, um movimento contrário começa a querer nos parar. Existem inúmeros relatos de mulheres hostilizadas na rua porque deixaram crescer os pelos do corpo, de patrões que mandaram funcionárias alisarem os cabelos crespos, de mulheres gordas que ousaram ir para a balada e foram maltratadas pela casa noturna, de outras feministas que são perseguidas na internet por trolls, etc. E, além dessas agressões diretas, discursos indiretos que chegam até nós por meio de propagandas, comentários de pessoas conhecidas, programas de televisão e milhares de outras formas reforçam que, eww, pelo é sujo, uma gordurinha de nada é doença e celulite é a pior coisa que uma mulher pode ter na vida.

Mas ninguém para pra pensar que, ué, por que uma perna peluda de homem é observada com tanta naturalidade, enquanto uma mulher que faz o mesmo é vista como A Coisa Mais Repulsiva Do Universo? Qual a diferença fundamental entre ambos? Hm. Acho que sei.

Poder.

Como assim? Vou dizer. Vivemos em desigualdade e uma das formas de controlar a mulher é fazer ela acreditar que a meta da vida dela é ser bonita e atraente – para homens, principalmente, claro. Isso a mantém em um papel de passividade e gera lucro. E os homens também acreditam que a função das mulheres é ter uma aparência que os agrade. Tanto que os trolls que invadiram minha página, por exemplo, e tantos outros que já vi por aí, dizem coisas como “mas eu não quero comer uma mulher peluda”, “eu não enfio meu pau em uma gorda”, “não encosto meu pinto em quem tem celulite”, “gosto de buceta assim e assado”, etc. Já ouvi até conhecidos meus dizendo coisas do tipo, putz.

Rapazes, assimilem uma coisa: a piroca de vocês não é parâmetro pra porcaria nenhuma. A gente não tá nem aí com o que vocês fariam ou deixariam de fazer com ela. É violenta essa mania dos caras de achar que só tem valor a mulher que eles “pegariam” – e que a mulher “ao natural” é nojenta. No fim das contas, ambas se fodem, a que eles pegariam ou não: a primeira por ser assediada por babacas desse tipo e a segunda por ser hostilizada por babacas desse tipo. É tudo agressão, em diferentes níveis.

Outros reclamam que estão sendo “obrigados” a achar qualquer mulher bonita, que beleza não é construção social, e falam de evolução dentro dos contextos mais esdrúxulos possíveis, tipo: “o nojo veio para proteger o homem de comer carne podre e por isso ter nojo de pelo de mulher é normal”. Oi??? Qual a relação? Eu JURO que tive que ler isso. E, mais uma vez: pouco importa o que vocês acham. A gente só quer respeito em qualquer situação, é simples. Se o respeito vem com fatores condicionantes (“ai, mas só respeito mulher que…”), não é respeito, é discriminação com as que não cumprem os requisitos surreais e fantásticos impostos.

E a depilação, por exemplo, faz mais mal do que bem: além do gasto que envolve, muitas mulheres têm alergias a cera ou ficam cheia de bolinhas na pele quando passam lâmina. Sem contar que os pelos na região pubiana barram a entrada de microorganismos e protegem contra o atrito causado no ato sexual. Outros procedimentos voltados para a “manutenção da beleza” são ainda mais perigosos para a nossa saúde e colocam a nossa vida em risco. Portanto, é importante sim que a gente desmistifique essa cultura de mulher-de-plástico, para evitar que a mídia & a indústria enfiem o que quiserem em nossas cabeças. Como eu já disse, a busca pela cura dos nossos “defeitos” movimenta um mercado enorme.

O engraçado é que a invasão de trolls começou após algum deles mostrar o post em um grupo chamado “Libertarianismo”. Essa galera adora fingir que respeita liberdade individual da mesma forma que certos “humoristas” defendem a ~liberdade de expressão~: eles falam o que quiser, mas se você falar também, aí sua boca tem que ser calada a força. Ou seja, liberdade individual que abale as estruturas do status quo não pode. É interessante perceber também como esse tipo sempre anda em bando, na internet ou fora dela, agindo de forma agressiva e intolerante. Chega a ser assustador esse senso de coletividade que surge no homem e tira todo o senso crítico dele: como formiguinhas, eles atacam em grupo e cometem barbaridades que vão desde xingamentos até espancamentos e estupros. Tudo faz parte de uma mesma lógica.

A masculinidade é realmente muito frágil e precisa o tempo todo ser reafirmada pela tentativa de subjugação daqueles considerados inferiores. Por mais bobo que seja, por mais que seja “só internet”, essas tretas são um exemplo de como o elo masculino é construído também pela tentativa de derrubar outras pessoas (as guerras que o digam!):

trolls

E eu até entendo. Esse negócio de repensar os padrões estéticos é perigoso mesmo. Daqui a pouco as mulheres não estarão mais se depilando, nem pintando o cabelo, nem passando fome com o intuito de emagrecer. E elas, que já andam se destacando em escolas, universidades, postos de trabalho e outras atividades, podem acabar percebendo que ser musa é o caramba, o negócio é fazer a arte. E que o valor delas está muito além de um casamento falido com caras que buscam, em um pacote só, empregada doméstica, cozinheira e psicóloga grátis. Elas vão perceber que não precisam ter um relacionamento a qualquer custo, muito menos com um homem, até porque estarão financeiramente e emocionalmente empoderadas. Elas irão viajar e tocar projetos pessoais, escrever, dançar e ocupar todos os espaços que desejarem.

E aí quem vai preparar o Toddy de vocês?

Bônus: 

Captura de tela 2015-10-21 às 17.18.46

Um pouco mais desses ~jênios~ da argumentação pra vocês

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A piada de Alexandre Frota é ele mesmo

Vamos relembrar uma história?

No começo deste ano, Alexandre Frota se meteu em uma “polêmica” por conta de uma entrevista concedida para algum programa ruim de televisão que estava sendo comandado por Rafinha Bastos (aliás, o programa era tããão assistido que uma entrevista de 2014 só foi repercutir em 2015). Na ocasião, ele narrou um estupro violento e deixou muita gente atônita. Aqui é possível assistir o programa na íntegra (a história do estupro começa aos 26 minutos). Porém, cuidado para o seu cérebro não derreter! É quase uma hora de machos sem inteligência alguma discutindo o nada, e eles ainda plagiam de forma totalmente sem graça o duelo de dança do filme “American Pie 3”. O retrato da televisão aberta: vazio e sem criatividade. Depois não diga que não avisei…

Muitas notícias dizem que Alexandre Frota narrou um “suposto estupro” na televisão. No entanto, embora eu entenda que jornalisticamente se deve usar “suposto” quando as pessoas não foram condenadas e não existem provas, até mesmo para se precaver judicialmente, o que Frota narrou foi um estupro. Ele é que é um “suposto estuprador”, pois não existem provas do crime e agora ele diz que tudo aquilo foi piada. Mas o que foi narrado É a descrição de um estupro.

Essa matéria aqui é uma das que mostram a comoção que foi gerada nas redes sociais na época  (mãe, tô no print!).

bastos

Bastos me respondendo no Twitter o clássico foi ~só uma piada~

O contexto da treta

Ano passado, Frota estava em cartaz com um “espetáculo” (se é que podemos chamar assim) no formato stand up chamado “Qual é o negócio?”. De acordo com diversos sites de agenda cultural e venda de ingressos, “é um espetáculo de humor, um ‘stand-up da vida real’, com histórias reais, onde Alexandre Frota, ator, apresentador, diretor de TV, e artista multimídia, conta com muito humor histórias incríveis de bastidores da TV, do teatro e de sua vida polêmica” (alguns exemplos aqui, aqui e aqui).

Vou explicar algo que pode ser muito básico e óbvio pra muita gente, mas que nem todo mundo sabe, principalmente quem não está envolvido com comunicação, cultura e/ou empreendedorismo: quando um espetáculo é lançado, são disparados releases pela própria assessoria de imprensa do evento, com informações gerais. Muitos sites, revistas e jornais acabam usando trechos desses releases, ou eles na íntegra mesmo. Se não usam, ainda assim, coletam informações com a própria assessoria ou produção do evento. LOGO, essas informações são do próprio evento, ok?

E se o stand up “Qual é o negócio?” foi amplamente veiculado como composto por histórias reais, como que Frota se defende dizendo que o estupro que ele narrou é “apenas uma piada” para divulgação do stand up dele? Não faz sentido.

Inclusive, durante a entrevista no programa de Bastos, Frota diz que não sabe fazer stand up (concordo) e que o espetáculo dele é de humor, autoral e B-I-O-G-R-Á-F-I-C-O. Ele afirma que são várias histórias que ACONTECERAM NA VIDA DELE e, para exemplificar, começa a contar quando “comeu” uma mãe-de-santo. Aí que começa toda a “polêmica”. Segundo a história que ele conta, enquanto ele e a mãe-de-santo interagiam, ele ficava pensando se ela era interessante ou não, se “dava jogo” ou não.

Ele decidiu que iria “comê-la” sem sequer ter rolado um clima, só olhou pro “bundão” dela e pensou: “vou pegar”. Ainda segundo a história, Frota disse pra ela que não acreditava “nessas paradas” (nos lances religiosos e tal), mas que queria dar uns “pegas” nela. Daí ela fica sem falar nada (consentimento, cadê?) e ele simplesmente vira ela, coloca de quatro, agarra pela nuca e começa a “sapecar”. Frota disse que fez tanta pressão na nuca dela que ela… “Dormiu”! E então ele e Rafinha Bastos morrem de rir do fato de a mulher ter sido “apagada”.

Frota encerra essa ~piada engraçadíssima~ contando que foi embora e deixou a mulher lá, jogada. É deprimente. E, além disso, esses dois idiotas ridicularizam o tempo inteiro o fato de ela ser uma mãe-de-santo e fazem vários comentários jocosos & preconceituosos envolvendo “macumba”, farofa, essas coisas.

"O negócio é comer cu e buceta, cu e buceta... À força!"

“O negócio é comer cu e buceta, cu e buceta… À força!”

Essa “polêmica” toda (coloco sempre entre aspas porque acho ridículo que muita gente trate esse assunto como mais uma excentricidade de Alexandre Frota e não como algo muito sério) mostra a necessidade de se discutir urgentemente – e de forma cada vez mais ampla – o que é consentimento. Estamos em 2015, e ainda temos que explicar que transar com alguém à força e DESACORDAR ESSA PESSOA é estupro, gente. É revoltante demais.

Muitas mulheres ficam paralisadas em situações de violência, outras tentam se defender e, mesmo assim, não conseguem escapar. Se as pessoas não conseguem ver nessa história que uma mulher, que estava interessada em usar apenas seus conhecimentos e crenças para auxiliar alguém, foi violentamente estuprada e desrespeitada, eu realmente não sei qual é a concepção de estupro para esta sociedade então. Se ele precisou segurar a nuca da mulher tão forte a ponto de ela desmaiar, isso já é um dos grandes indícios da falta de consentimento, por exemplo.

E a tentativa de Frota de subestimar a inteligência de quem o critica chega a dar dó, se não fosse algo trágico. Já assisti muitos stand ups e me interesso muito por roteiro em geral. Para Alexandre Frota e Rafinha Bastos, aquele ~causo~ mal contado pode ser considerado um sketch humorístico, mesmo?

Não que eu não duvide que eles realmente achem que aquilo é humor, infelizmente. Muitos humoristas brasileiros disfarçam a própria incapacidade de construir uma narrativa interessante com piadas para crianças da quinta série, tipo “ai, sua mãe é tão gorda que comeu a própria cabeça e explodiu hua hua hua hua”. Mas, ainda assim, aquilo não é um sketch. É claramente Alexandre Frota contando uma história pessoal em um programa de entrevista, como costumam ser programas de entrevista. E ELE MESMO DIZ QUE O STAND UP DELE É BIOGRÁFICO, CARAMBA!

Juntando as peças

Ainda que o relato fosse ~só uma piada~, o que não acredito (pode ser uma história contada com alterações, omissões & ênfases, mas a essência parece real), ser ~só uma piada~ não torna as coisas isentas de discussão, oras. É rindo que vários preconceitos e violências são mantidos. E, pra ser sincera, não consegui identificar onde está a comédia da história até hoje. Tipo, piadas costumam ter algum ponto de surpresa, de virada de história, sei lá. Aquilo ali é só um cara se vangloriando por ter dominado uma mulher. Pior ainda, uma mãe-de-santo, oh!

Mas não acaba aí. Em 2004, Frota foi acusado de estupro por uma prostituta. Ela alega que foi ameaçada e teve que fazer sexo sem preservativo com ele. O caso não foi pra frente, o que não me surpreende. Nem toda prostituta pode se expor, e o caso estava ganhando notoriedade midiática. E nossa sociedade não se importa nem um pouco com violências cometidas contra prostitutas, infelizmente.

Aqui, aqui, aqui e aqui é possível ler sobre o assunto.

E mais. Nessa entrevista aqui, Rita Cadillac conta que, quando foi contracenar com Frota em um filme pornográfico, precisou colocar uma cláusula especial no contrato, porque ele tinha fama de bater nas atrizes. E após o filme, ele fez comentários pejorativos sobre a idade dela. Nada de novo sob o sol:

iG: O Alexandre Frota, que fez um dos filmes com você, disse há pouco tempo no programa do Danilo Gentili que contracenar com você foi “o maior erro” porque “parecia que estava transando com minha avó”. O que você achou disso?
Rita Cadillac: Eu gosto da pessoa Alexandre Frota, não do personagem Alexandre Frota. Não sei por que ele esta falando isso: eu ganhei bem e ele também. Como a fama dele era péssima, eu mandei colocar no meu contrato que, se ele encostasse a mão em mim para me bater, eu ia embora na hora.

iG: E por que isso?
Rita Cadillac: A fama dele na época é que ele batia, entendeu? Eu tinha medo que ele não me respeitasse e acabasse comigo.

Caso você esteja se perguntando o porquê de não vermos notícias sobre violências em sets de filmes pornográficos, vale relembrar: se a sociedade não liga para prostitutas, vai ligar para mulheres que estão fazendo filme pornô? E críticas à esse meio são comumente vistas como “moralismo”, mesmo que estejam geralmente problematizando a violência sofrida por  mulheres. Tanto que já vi muita gente perguntando “ah, cadê essa mãe-de-santo então?”, bem como muita gente deve estar se perguntando agora onde estão as atrizes que apanharam dele ou a prostituta que ele ~supostamente~ coagiu. Não é simples assim colocar a cara à tapa, principalmente se você é uma mulher marginalizada pela sua profissão, religião, cor, condição social, etc. E muitas mulheres que conseguem criar coragem para denunciar abusos são chamadas de aproveitadoras, oportunistas e/ou mentirosas, que é o que Frota está fazendo agora com…

Frota x feministas

…Sâmia Bonfim, uma militante feminista que foi pega para ser bode-expiatório (porque, convenhamos, ela não é a única que acha que ele é um estuprador) e está sendo processada por ele. Ela fez um evento no Facebook reunindo pessoas que ficaram indignadas com a declaração dada por Frota e, em abril, ele tentou intimidá-la por mensagens, como pode ser visto aqui nesse link. Em julho, ela revelou que está sendo processada, por ele, por calúnia e difamação. Estranho, não? Pois, relembrando, ele mesmo disse várias vezes que as histórias do stand up dele são baseadas em fatos reais. Leia aqui  e aqui a história completa do processo.

Em muitos casos de violência contra a mulher, os caras já eram notoriamente misóginos, violentos e abusivos. Eles costumam mostrar, pela forma que agem e falam, o desprezo que possuem por mulheres. Tanto que, até hoje, Frota sequer conseguiu ver o absurdo de sua declaração e nunca articulou uma resposta decente ao debate que foi gerado. Os questionamentos gerais envolvem estupro, consentimento, preconceito religioso e possivelmente racial (visto que muitas pessoas praticantes do Candomblé são negras), entre outros. Ele só bate na mesma tecla: piada, piada, piada, piada.  Frota pode falar o que quiser, mas as mulheres não podem dizer o que pensam?

Agora, além de continuar recebendo migalhas de atenção midiática por conta do processo que está movendo e mantendo o nobre status de subcelebridade decadente, Frota resolveu transformar a questão em um embate contra as malvadas feministas. Fácil, né? Mulheres já são loucas e exageradas, segundo o imaginário popular. Feministas, então, pior ainda. Então claro que todas essas mulheres que alegam coisas contra ele (e muitas outras que devem existir mas nunca vieram à tona) são apenas umas “loucas”… O que são os relatos de várias mulheres contra a palavra de um homem, não é mesmo? E o comportamento dele mostra como ele ama mulher (só que nunca).

Ser misógino não é ser autêntico, ao contrário do que ele pensa. Até porque a misoginia é epidêmica e praticada de forma generalizada.

A piada de Frota só pode ser ele mesmo.

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Clique aqui para participar de campanha de apoio à Sâmia Bonfim.

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Leia também: “Estupro é invenção de maluca”

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Estupro é invenção de maluca

Claro que não, né?

Mas é o que muita gente acha.

Uma amiga postou um texto no Facebook sobre consentimento (que era uma transcrição desse vídeo aqui). E desabafou sobre a vontade de enviá-lo para “uma longa lista de machos estupradores” que ela conhece. Um rapaz – que até então era nosso amigo, mas deletou a gente, rs – não se solidarizou com o fato de ela saber de tantos casos. Nem buscou entender melhor a questão ou debater de forma adulta. Muito pelo contrário. Ele chegou cheio de ironia questionando se existiam tantos estupradores assim, porque ele não conhecia. Deixou no ar que a minha amiga estava mentindo, exagerando. Mulher. E feminista. Só pode ser uma louca exagerada, não é mesmo?

Ela falou que ele provavelmente não sabia de nada ou não sabe de muitos casos porque nenhuma mulher iria contar pra alguém que já chega duvidando assim. Eu pensei o mesmo, me meti na conversa e especulei uma vista grossa da parte dele. Porque vista grossa é o que todo mundo acaba fazendo, na maioria das vezes. Até mesmo feministas fazem, gente. Homens, então, nem se fala.

Vejam bem, não estou dizendo que a minha amiga é inquestionável, ou eu ou qualquer outra pessoa. Mas esse é um comportamento comum de muitos homens. Eles automaticamente invalidam o que uma mulher diz, de forma arrogante, ~gaslaiteadora~  e infantilizada. “Será?”, “isso aconteceu mesmo?”, “você tem certeza?”, “você não está exagerando?”, “você não está confundindo as coisas?”, “você não entendeu errado?”, “não sei do que você está falando” ou “tá bravinha?” são coisas comuns ditas às mulheres, com o intuito de impedir que elas perturbem, com verdades dolorosas, a ordem estabelecida. Porque é muito mais fácil calar a mulher do que ter que cortar laços com amigos da balada ou acreditar que um determinado cara super profissional no que faz seja um agressor, por exemplo. Mulher sempre foi abusada mesmo… O que é só mais um sexozinho? E qual o problema da falta de consentimento uma vezinha só? Ou duas?

E assim tudo continua como está…

Olha, vou contar uma coisa pra vocês, que era pra ser óbvia, mas não parece ser: ninguém sai gritando por aí algo tipo “olá, que lindo dia, estuprei alguém hoje!”. Como eu já disse uma vez, nesse texto aqui, tem homem que sequer sabe que NÃO EXISTE DIFERENÇA entre sexo sem consentimento e estupro.

*facepalm*

Então aqui vai outra informação óbvia: um cara que tenta ou consegue fazer sexo com uma pessoa sem o consentimento dela, bem… Está tentando estuprar ou está efetivamente estuprando essa pessoa. No texto que acabei de indicar no parágrafo anterior, falo sobre isso. Que consentimento envolve uma pessoa ADULTA, ACORDADA, SEM ESTAR BEBAÇA, DROGADA, SOB EFEITO DE REMÉDIOS, HESITANTE OU DIZENDO NÃO. É bem simples. E, infelizmente, estupro é algo bem democrático: homens de todas as cores, tamanhos ou condições financeiras cometem esse crime, de várias maneiras. Existem caras que se sentem sem poder e se afirmam por meio da violação do corpo alheio. Existem caras que se sentem poderosos demais e acham que podem fazer o que querem por aí. Etc. Poderíamos passar o dia teorizando sobre poder & estupro, coisas extremamente conectadas.

Um outro ponto também, que é importante: o homem acaba se beneficiando do regime machista em que vivemos, que automaticamente coloca tudo que uma mulher diz em dúvida. Se alguém fala algo sobre ele, basta falar que a mina é vadia, que ela se insinuou, foi atrás, provocou, que ela deu em cima, mandou mensagem, que ela é maluca, barraqueira. Sei lá. Qualquer coisa assim. E a vida continua. Ele pode ter o desconforto de ter que lidar com alguns olhares tortos por aí, mas nada demais. Ninguém nem vai se preocupar em confirmar se ele fez algo de errado ou não. Mesmo se for confirmado, não faz diferença. Quem nunca teve que lidar com um agressor no círculo social que atire a primeira pedra. Já a garota ás vezes é extremamente exposta, julgada, isolada socialmente e, como consequência disso tudo, fica traumatizada e se sentindo culpada.

Aliás, hoje em dia eu duvido muito do caráter de caras que precisam ficar xingando mulheres que já estiveram com eles (ou qualquer mulher, na real), seja em namoro, sexo casual, tanto faz. Uma coisa é falar de forma objetiva que uma pessoa fez algo que você não gostou e te chateou, tipo, sei lá, roubou um gibi seu ou nunca mais atendeu suas ligações. Outra coisa é ficar xingando de “vadia”, “piranha” ou justificando (sem ninguém perguntar, muitas vezes) que a garota que ficou atrás ou é do tipo que “pega” todo mundo. Esses comentários sempre me parecem coisa de quem já está preparando terreno para se safar de alguma acusação mais séria, bem naquela lógica do “mas ela estava de vestido curto, mereceu!”.

Eu conheço, inclusive, diversos caras que agem de forma totalmente inaceitável. Que perseguem mulheres, inventam mentiras, adjetivam garotas de forma machista, são homofóbicos, violentos, forçam a barra pra ficar com alguém, levam a falta de comprometimento com parceiras como modus operandi, entre outras coisas. No entanto, eles são tratados como “irreverentes”, “doidinhos”, “excêntricos”. É muito difícil mesmo combater o que se chama de “cultura do estupro”, porque ela não é relacionada apenas ao estupro em si, mas a todos os comportamentos que citei nesse texto que colocam o homem em vantagem e a mulher em desvantagem e, consequentemente, colaboram com esse cenário em que a falta de respeito em relação ao corpo & subjetivo da mulher se torna um tabu, um elefante no meio da sala.

O que as pessoas querem é uma vítima perfeita. Uma que seja virgem, nunca tenha tirado foto pelada, beijado na boca, bebido, mandado mensagem ou falado palavrão. Que não seja lésbica ou nunca tenha viajado. Que não cante, dance em festas ou estude, que nunca tenha trocado de namorado. O que as pessoas querem é uma mulher que não existe, porque as que existem sempre vão dar algum motivo pra merecer algo de ruim – mesmo que o crime delas tenha sido apenas existir perto de um homem.

Tem outra coisa que eu quero contar, mas essa não é tão óbvia. Quando uma mulher é abertamente feminista ou envolvida em grupos e movimentos sociais, ela tem cada vez mais acesso à relatos de violência. Não só por conta de leitura de textos ou relatórios ou pesquisas. Mas porque as mulheres ao redor começam a se sentir confortáveis, percebem que pode rolar mais empatia e um entendimento mais profundo da questão. É um novo mundo que se abre, de compartilhamento de ideias e informações que muitos de vocês, que são homens, nunca vão entender. Mas independente disso, é real. E dói. Porque os números deixam de ser números e viram rostos de pessoas ao seu redor que você nunca imaginaria que tinham sofrido alguma violência.

E um monte de cara legal deixa de ser legal.

E dá raiva. Dá raiva do grupinho de amigos que faz merda com uma mina pra rir dela depois – male bonding por meio da violência, nenhuma novidade. Dá raiva dos urubus de porta de escola que ficam caçando novinhas, dá raiva do fótografo de mulher pelada que só quer tirar uma casquinha (aliás, a cada pedido que leio por aí de ~modelos pra fotos belas artísticas nu feminino~ meus olhos rolam tão fundo que quase afundam). Dá raiva das passadas de mão, dos beijos à força, do cara que trancou a mulher no quarto, que abriu a calça da menina dormindo, que forçou sexo sem camisinha e tirou onda, do stalker se fazendo de coitado apaixonado, dá raiva, dá raiva, dá raiva… Dá raiva e as linhas borram tanto que eu nem sei mais distinguir quem é quem. A conivência também é parte da violência.

E tem outra questão. Sendo o estupro também uma pauta política do feminismo, é preciso discutir estratégias, leis, comportamentos e tudo mais. Porém, o assunto é bem espinhoso, complicado e passa por questões muito subjetivas e por questões de vivência que, ás vezes, teorias e dados não alcançam.

E ainda existe o mito de que estuprador é somente aquele cara que sai do mato com uma faca. Ou é um homem com algum distúrbio psicológico. Essas ideias blindam o “homem comum” de culpa e transformam o estupro em um acontecimento excepcional, sendo que ele é comum e acontece dentro de famílias, entre “amigos” e assim vai. Isso emperra ainda mais a discussão e, ao mesmo tempo, naturaliza a violência que a mulher sofre por parte de conhecidos.

E enquanto debatemos se as mulheres estão mentindo ou não, muita gente corre impune por aí.

E as intolerantes são as que não querem mais ser estupradas e não os estupradores.

Mundo estranho esse.

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Mulheres não gostam de sexo ou homens não gostam de mulheres?

Antes de começar esse texto, gostaria de dizer que ele é voltado para relações entre mulheres e homens. E gostaria também de deixar duas frases em destaque:

  • Mulher “dá” quando ela quiser. Ou seja, pode ser no primeiro encontro. Ou no décimo. Ou nunca.
  • Ele só quer transar com você? Cai fora.

Como assim?

Por que estou escrevendo estas coisas? Bem, tenho visto muitos textos circulando por aí enfatizando que mulheres que se relacionam afetiva e sexualmente com homens podem “dar” no primeiro encontro sim. Outros dizem que é de boa que os homens só queiram sexo, se isso for o que a mulher quiser também. Que mulheres também sentem tesão. Etc. Não vou citar nenhum texto específico, porque meu intuito é falar de um problema generalizado, que é algo muito bem explicado nesse texto aqui: “A falácia da liberação sexual e as novas formas de dominação”.

Vejam bem, o fato de que mulher também sente tesão nem deveria estar em jogo. Os problemas que alguns seres humanos vivenciam hoje em dia no âmbito sexual não acontecem por essa questão, em geral (embora exista quem acredite que sim). A maior parte das pessoas – do sexo masculino ou feminino – sente desejos sexuais, se excita e possui a capacidade de alcançar orgasmos. No entanto, construímos narrativas sexuais diferentes para cada sexo. Basicamente, é aquele clichê: o homem tem que ser o garanhão e a mulher uma “dama recatada”. Essa pobreza de nuances deixa todo mundo no prejuízo – principalmente as mulheres, claro. Os homens podem sofrer com problemas eréteis, ejaculação precoce (uma sexóloga me disse uma vez, em uma conversa informal, que a maioria desses problemas é de origem psicológica) e uma pressão tremenda para corresponder a papéis que eles não querem ou conseguem. Mas, ainda assim, se na sociedade como um todo o poder é deles, todos os espaços acabam reproduzindo isso, o que engloba relacionamentos amorosos/sexuais. Logo, as mulheres, por estarem na parte inferior da hierarquia de gênero, estão infinitamente mais suscetíveis a abusos e violências.

(Sem contar que a ideia de “sexo”, no geral, é baseada principalmente no pênis-penetrando-a-vagina, o que torna a vivência sexual de todo mundo pouco ampla).

Se relacionar com homens é um constante risco

O sexo, na vida da mulher, é algo vivenciado de forma muito mais coercitiva e amedrontadora. Tipo, ela não pode transar, porque vai ser chamada de vadia, ao mesmo tempo em que tem que lidar, o tempo todo, com homens forçando a barra para transar com ela – ás vezes, os mesmos que vão chamá-la de vadia depois. É um ciclo confuso. E tem o fato de que ela é induzida a acreditar que o próprio valor vem da sua aparência e da sua capacidade de despertar desejo sexual, embora ela não queira ser resumida apenas a um corpo. E os discursos de liberação sexual buscam desconstruir toda a “repressão” da mulher como se ela fosse ~naturalmente~ reprimida, e não a sociedade que tentasse controlar o corpo dela (mas esquecem de falar da violência do homem). Daí surge um outro paradigma, que é a mulher que faz muito sexo mesmo, que não está nem aí. Porém, ainda assim, a problematização da violência masculina continua de lado e todas as mulheres, independente do que façam, continuam vulneráveis à situações desagradáveis e até mesmo criminosas (infelizmente são muitos os homens que acham que existe diferença entre sexo sem consentimento e estupro, por exemplo).

Quando falo de violência, não me refiro apenas a sexo forçado e outros atos explicitamente violentos. Estou me referindo também a violência psicológica, que se manifesta por meio de mulheres sendo chantageadas, isoladas e difamadas por conta de conduta sexual, mulheres transando sem querer transar, incitação à baixa autoestima feminina, controle e manipulação de corpos e comportamentos das mulheres, entre outras coisas.

Homens são ensinados a objetificar as mulheres

Vamos lá: a socialização do homem envolve a objetificação da mulher e o esvaziamento do subjetivo dela. Muitos homens, por exemplo, conseguem transar com mulheres que desprezam apenas pelo simples prazer de “conquistar” um novo “território”. Não vamos fingir que isso não acontece. A mulher, para ele, é uma coisa, e quanto mais coisas um homem conquista, mais poderoso se sente. Então quando um homem quer só sexo com uma mulher, eu aconselho que ela mantenha os olhos bem abertos.

“Deixa de ser moralista, aff”, você pode estar pensando. Eu já pensei assim também. É muito comum que misturem conservadorismo e críticas à desumanização da mulher em um mesmo balaio, para que a gente se sinta constrangida, chata e uncool e deixe esse papo de querer ser respeitada pra lá (a forma que as críticas contra a pornografia são tratadas são um belo exemplo disso).

Só que, hoje em dia, eu não acredito em “só sexo” (acho que nunca acreditei, na verdade). Com isso, não quero dizer que todas as relações devam se transformar em casamento-felizes-para-sempre. Por favor, né? Quero dizer que quando um homem diz querer só sexo com uma mulher e não se interessa pela maravilhosa pessoa que existe ao redor da vagina dela, isso é sim objetificação. Isso é resumir a mulher a um buraco de prazer (pra ele) cuja opinião ou pensamento não faz diferença. Como postei no Twitter um dia desses:

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Tanto que não são poucos os relatos de mulheres que praticam sexo casual e afins e depois são maltratadas e ignoradas na rua pelos rapazes com quem se relacionaram. Oras, a função delas foi cumprida, o que mais querem? Amizade? Respeito? Isso é algo que só os bróders e as minas-perfeitas-que-não-transam-cagam-falam-andam-opinam (ou seja, nenhuma) merecem, né?

Então, analisando todo esse cenário, é perfeitamente entendível porque muitas mulheres ainda tenham receio de “transar no primeiro encontro”. Uma simples trepadinha pode transformar uma mina na mártir-da-liberação-sexual-feminina e, gente, que preguiça desse alarde, né? Correr o risco de fazer um sexo que nem vale a pena e ainda ter que aturar isso se transformando em um grande embate ideológico cheio de ataques e defesas é de deixar qualquer uma sem vontade alguma de tirar a roupa. Muito drama pra pouca trama.

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“–Como que uma simples trepadinha pode render tanta dor de cabeça? Aff”

Acho que precisamos parar de pressionar as mulheres a transarem mais – ou menos – e começar a pensar nos homens. Por que eles separam mulheres em categorias? Por que eles acreditam que uma mulher só deve ser respeitada se “merecer”? O que é “merecer”, aliás? Por que dizem que não querem rótulos mas anseiam em rotular certas relações como “só sexo” já de cara? Por que eles tratam mulheres como objetos sexuais e não como seres humanas completas, capazes e interessantes? Por que eles riem e se gabam de histórias em que fizeram mal às mulheres (vide o caso recente do nojento do Alexandre Frota relatando praticamente um estupro em rede nacional)?

Ás vezes vejo discursos “empoderadores” incitando mulheres a transarem com quem elas quiserem e, bem, me parece uma forma de jogá-las aos leões, principalmente quando isso é dito para mulheres muito jovens (ainda mais se formos considerar que o número de predadores voando em cima de jovens é altíssimo. ATENÇÃO CARAS, usem a experiência de vocês pra construir algo que preste e não para manipular garotas inexperientes, vocês são ridículos).

Precisamos, primeiramente, conversar sobre consentimento, cuidado e respeito. Precisamos definir bem o que é “querer” e o que é “estar com a autoestima baixa e topar algo que não quer porque é o que tem pra hoje”. Precisamos definir que chantagem e coerção não são a mesma coisa que amor e desejo. Precisamos explicar que existem homens que rotulam mulheres de “putas” para que elas assimilem isso e fiquem com a autoestima ferida e estejam sempre disponíveis sexualmente. Ou fazem elogios frágeis e dizem que elas “são especiais” ou “não são como as outras” para que elas não se aproximem de mais ninguém e se sintam gratas por serem “valorizadas”.

É tudo muito mais complicado do que parece. Não é “frigidez”. Não é recato. Não é moralismo. É uma sociedade baseada em heterossexualidade compulsória e misoginia (e racismo, sempre bom lembrar), e que pratica um gaslighting sinistro contra a mulher, dizendo que ela precisa de homem, mas ela não pode transar, mas ela tem que satisfazer um homem, mas o corpo dela é sujo e imundo e fica cada vez mais sujo e imundo quando ela faz sexo, mas ela precisa fazer sexo, mas não muito, mas não pouco, mas não sem pênis. E o senso comum prega a existência de uma mulher infantilizada, sem pelos, maquiada, “sexy”, com a vagina cheirando a flores, com seios perfeitos, sem estrias, celulite, espinhas. É algo tão fora da realidade, que muitos homens se frustram com a mulher real e chegam a ter nojo dela.

Como eu já disse, é um tanto quanto confuso.

Então tá proibido transar?

Meu intuito aqui não é ser “anti-sexo”, mas discutir a forma que mulheres e homens se relacionam amorosa/sexualmente dentro de um regime machista. Muita mulher acha que, com o tempo, vai “mudar” o cara e fazer ele tratar ela direito e coisas do tipo. Temos que ser realistas: isso não acontece e não vai acontecer. E nem tinha que ser assim, porque mulher alguma deveria ter que provar ser “merecedora” de respeito. Os homens é que precisam começar a enxergá-las como reais e dignas de respeito em qualquer situação.

Para a segurança das mulheres, é preciso discutir sobre comportamentos masculinos recorrentes e danosos. Porque somos praticamente inseridas, sem conhecimento e sem consentimento, em relações desiguais e sádicas.

Logo, não estou contra o sexo, mas a favor do sexo bom de verdade, oras. Ou será utópico demais?

   “I believe in the radical possibilities of pleasure, babe”

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“A verdade inconveniente sobre Teena Brandon”

O texto a seguir é uma tradução enorme, feita com muito suor, sobre Teena Brandon  – ou Brandon Teena. Desde que assisti “Meninos não choram”, fiquei intrigada e passei a pesquisar mais sobre a história. Brandon queria realmente “ser homem”? Ou apenas não correspondia ao que se espera de uma pessoa que nasce com o sexo feminino? O que é “ser homem” afinal? E “ser mulher”? Ah, vamos lembrar que Brandon vivia no interior dos Estados Unidos, com diversas pessoas preconceituosas ao redor, não tinha condições econômicas favoráveis, sofreu abuso e estupro sem nunca ter tido seus traumas devidamente cuidados, internalizou diversos sentimentos ruins sobre si e era muito jovem.  Além disso tudo, os médicos pareciam querer se aproveitar da fragilidade e inadequação de Brandon para realizar experimentos em seu corpo.

Este artigo, de Carolyn Gage, escritora lésbica e feminista, traz análises sólidas, que ajudam a pensar em aspectos da história de Brandon que não são discutidos normalmente. Sempre me identifiquei bastante com a narrativa de diversos homens trans porque, como muita gente que nasce com o corpo do sexo feminino, eu sofri com disforia em diversos momentos da vida. E é realmente enojante o ~tratamento especial~ (pra não dizer abusivo e constrangedor) que se dá a corpos que possuem seios e vagina. Descobri que diversas amigas e colegas compartilham o sentimento, o que mostra que estamos em situações parecidas, mas lidando de formas diferentes. Mas isso é assunto pra depois.

O que Brandon realmente sentia ou queria nunca saberemos. No entanto, é válido pensar como a “casta sexual mulher” é aprisionante, aterrorizante e torna legítimo o acesso não autorizado aos corpos de sexo feminino. Leiam e digam o que acham. Os comentários estão abertos para críticas, opiniões e tudo mais.  Ah, como eu já disse antes, não sou nenhuma expert em tradução, então algumas partes podem estar confusas. Obrigada a todo mundo que ajudou, vocês foram fundamentais.

Segue o texto:

A verdade inconveniente sobre Teena Brandon

Carolyn Gage

Teena Brandon é lembrada nos dias de hoje como o transexual feminino-para-o-masculino vítima de um assassinato brutal motivado por transfobia. Quando ela tinha dezoito anos de idade, três anos antes de sua morte, foi aceita em um centro de crise como consequência de uma overdose, que pode ter sido intencional. No período, ela estava muito abaixo do peso por conta de um transtorno alimentar e tomava sete banhos por dia, com sete trocas completas de roupa. Bebia muito, enfrentou doze acusações pendentes de falsificação de documentos e uma possível acusação de agressão sexual contra uma menor de idade, estava sofrendo por conta de um estupro recente, não declarado e não tratado, e estava envolvida em um relacionamento sexual com uma menina de catorze anos de idade, no qual se passava por homem. Ela alegou aos terapeutas que, quando criança, foi vítima de abuso sexual durante anos, cometido por um membro da família do sexo masculino. De acordo com a pessoa responsável pela sua biografia, ela foi diagnosticada com “leve disforia de identidade de gênero”, e relatou aos amigos e amigas que uma cirurgia de mudança de sexo havia sido sugerida. Eu quero falar sobre uma verdade inconveniente. Eu quero falar sobre o fato da pessoa chamada Teena Brandon ter sido uma sobrevivente de incesto. Você não vai ouvir isso ser mencionado em “Boys Don’t Cry” (“Meninos Não Choram”), e não vai ouvir isso ser mencionado no documentário “The Brandon Teena Story” (“A História de Teena Brandon”). Você não vai ler sobre isso na edição atual da Wikipédia. É, como eu disse, inconveniente.

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Cena do filme “Meninos não choram”

“Inconveniente” significa “causando problemas ou dificuldades”. A verdade inconveniente sobre a história de incesto de Brandon causa problemas porque incorporar informação sobre abuso sexual infantil na narrativa de vida de Brandon patologiza a identidade transgênera que ela adotou e a fez se tornar um ícone. Isso é percebido como desrespeitoso e transfóbico — como um ataque à identidade de Brandon e uma tentativa póstuma de se apropriar da identidade da vítima.

Mas omitir a história de incesto de Brandon é desrespeitoso e fóbico para sobreviventes de abuso sexual infantil. Isso, inclusive, constitui uma tentativa póstuma de apropriação da identidade da vítima. Como uma sobrevivente, eu me sinto perturbada pelas histórias revisionistas de Brandon que omitem o status dela como uma vítima de abuso sexual infantil — e todas as verdades inconvenientes que, consequentemente, acompanham esse status.

Verdades inconvenientes tendem a permanecer desarticuladas, porque elas existem fora do quadro de referência em que foram estabelecidas. A primeira dificuldade que uma pessoa encontra ao falar sobre essa inconveniente verdade de Teena Brandon é a questão dos pronomes. Brandon foi sexualmente abusada como uma menina, nascida biologicamente fêmea, por um agressor adulto do sexo masculino que era um membro da família. O gênero da vítima e do agressor são detalhes clínicos importantes e fundamentais para o entendimento da agressão e do impacto dela em Brandon. Por isso, vou usar pronomes femininos para me referir a Brandon quando criança, ainda que, na vida adulta, Brandon se identificasse como homem. Isso coloca minha narrativa fora do protocolo aceitável para um diálogo respeitoso quando se fala sobre identidade trans.

Neste artigo, vou me referir a ela como “Brandon” porque, na vida adulta, ela escolheu adotar o sobrenome como primeiro nome. No título, usei o nome de registro, “Teena Brandon”. É uma outra verdade inconveniente que Brandon nunca tenha usado o nome “Brandon Teena”. Esse nome foi postumamente atribuído a ela, e então utilizado pela mídia. Era uma mentira conveniente, porque se tratava de uma inversão inteligente do nome de nascimento de Brandon, inverter o nome para corresponder com o gênero invertido. “Brandon Teena” é uma metáfora de experts em relações-públicas … e uma ficção.

O Incesto

Na biografia escrita por Aphrodite Jones, “All She Wanted” (“Tudo O Que Ela Queria”), o primeiro relato de abuso sexual aparece na entrevista com Sara Gapp, melhor amiga de Brandon quando Brandon tinha doze anos.”Ela [Brandon] me contou que um de seus parentes estava fazendo algo com ela que ela não gostava. Ela apenas meio que disse que, você sabe, ele colocava aquilo para fora e brincava um pouco com aquilo… e, ocasionalmente, ela disse, ele fazia ela tocar ele e brincava com ela e dizia ‘Você gosta disso. Você sabe que isso é bom… Você sabe que você não quer que eu pare.'” (Jones, 43) De acordo com Sara, “Naquele momento, ela não queria que ninguém soubesse o que aconteceu. Ela não queria o cara com raiva dela… Ela estava envergonhada. Não importava o que ele fez com ela, ela continuava gostando dele.” (Jones, 43)

O terapeuta de Brandon confirmou mais tarde a história de abuso, adicionando que, de acordo com ela, as sessões de abuso duravam horas e o molestamento aconteceu por muitos anos, entre a infância e a adolescência.  Em uma sessão de aconselhamento, Brandon falou sobre o assunto em um confronto com sua mãe JoAnn, mas pediu para que ela não confrontasse o agressor, que pode ter sido um dos parentes de JoAnn. A irmã de Brandon, Tammy, também uma vítima, confirmou a descrição de Brandon. É possível que esse abuso tenha sido um fator decisivo para Brandon deixar sua casa ao dezesseis anos, arrumar um trabalho e ir morar com sua então namorada, Traci Beels, uma colega de escola mais velha.

Respostas da Vítima ao Incesto

Em seu livro “Victimized Daughters: Incest and the Development of the Female Self” (“Filhas Vitimizadas: Incesto e o Desenvolvimento do Ser Feminino”), Janet Liebman Jacobs diz que o incesto representa “a mais extrema forma de objetificação sexual da criança fêmea na cultura patriarcal” (Jacobs, 11). Ela dá argumentos excelentes para demonstrar que o incesto tem um grande impacto no desenvolvimento da personalidade feminina, incluindo identidade de gênero.

O livro de Jacobs destaca importantes questões de desenvolvimento que influenciam a formação da personalidade de filhas abusadas sexualmente, e entre essas é a identificação com o autor. Anna Freud, filha de Sigmund Freud e fundadora da psicoanálise infantil, discorre sobre esse processo:

A criança introjeta alguma característica de um objeto de ansiedade e então assimila uma experiência de ansiedade pela qual ele [ela] acabou de passar… Ao personificar o agressor, assumindo seus atributos ou imitando sua agressão, a criança transforma a si mesmo [mesma] da pessoa ameaçada para a pessoa que faz a ameaça (Freud, 121). Afastando-se de sua mãe, quem ela entende como uma desonesta traidora-de-suas-iguais, a filha vitimizada se espelha no autor masculino, que, por ser seu abusador, é entendido como poderoso, e quem, por ser homem, ainda tem o potencial para idealização objetiva. “Feminino”, para a filha, se tornou o gênero de vítimas e traidoras. Segundo a pesquisadora de trauma Judith Herman, “em suas tentativas desesperadas de manter a fé em seus pais, a vítima desenvolve imagens altamente idealizadas de pelo menos um dos pais… Mais comumente, a criança idealiza o abusivo e desloca toda sua raiva sobre o inofensivo.” (Herman, 106). Descrevendo sua pesquisa com sobreviventes de incesto pai-filha, Herman nota que “com a exceção daquelas que se tornaram feministas conscientes, a maioria das vítimas de incesto pareciam considerar todas as mulheres, incluindo elas mesmas, desprezíveis” (Herman, “Father-Daughter Incest”  — “Incesto Pai-Filha” — 103).

Rejeitando a mãe e a própria identidade feminina, a filha vitimizada começa a imitar o agressor. E. Sue Blume, autora de “Secret Survivors” (“Sobreviventes Secretas”), descreve como a filha se reinventa através da identificação com o autor.

…vítimas crianças frequentemente se auto-recriam, desenvolvendo alter egos que oferecem uma alternativa positiva para elas próprias. Mais comumente, é uma persona masculina: as pacientes mulheres e sobreviventes podem forjar personalidades masculinas alternativas ou se unir a um companheiro que represente uma fantasia masculina. Isso é simples de entender: como uma vítima, e uma mulher, ela associa seu estado vulnerável com estar sem defesa; homens, no entanto, são vistos como fisicamente mais fortes e como um alvo difícil para a vitimização. (Blume, 85)

Expressão de Gênero de Brandon

Brandon não gostava de usar vestidos para ir para à escola. Quando a sua mãe perguntou a razão disso, Brandon disse que vestidos a deixava com frio (isso era em Nebraska) e que os meninos podiam olhar quando as meninas subiam as escadas. Por frequentar uma escola que exigia uniformes, ela usava calças e gravatas que eram o padrão para os meninos, mas que meninas também podiam usar. De acordo com a melhor amiga dela, Sara Gapp, “as pessoas insistiam em dizer que ela se vestia como um garoto. Ela não se vestia… Ela usava roupas que a deixava confortável. Ela não ia na seção de meninos pra comprar roupas. Eram roupas de mulheres que ela estava usando. Ela só gostava de roupas largas. Ela usava cabelos curtos. Isso faz dela um cara?” (Jones, 55)

A escolha de usar roupas largas é compatível com a escolha de muitas sobreviventes de abuso sexual. A “passabilidade” de Brandon como homem começou mais tarde, como uma brincadeira com uma adolescente que ligou para o número de Brandon por acidente e a confundiu com um menino no telefone. De acordo com Sara, “Até Liz Delano [a menina que ligou errado], se você a chamasse de menino, Teena ficava ofendida. Ela não queria ser reconhecida como um homem. Ela não se sentia como um homem.” (Jones, 54)

Brandon também foi descrita como se envolvendo na encenação do papel masculino. De acordo com sua irmã, Tammy:

A igreja era realmente importante pra ela. Nós estudamos em um colégio católico e eu acho que eles meio que fazem uma lavagem cerebral em você desde o jardim de infância para ser padre ou freira. Eles sempre trazem padres e freiras para falar que receberam o chamado e que você saberá quando o receber também… Teena nunca quis ser uma freira, ela sempre quis ser um padre, e eu achava engraçado porque eu tinha que participar de suas missas, eu ficava entediada a maior parte do tempo, pois ela lia a bíblia e nos fazia cantar. Eu acho que era um jogo que ela gostava, de vez em quando ela dizia ‘quero ser um padre algum dia’ (Jones, 34). Será que Brandon estava se identificando com o poder ou com um gênero? Considerando que a Igreja bania mulheres padres e negava que elas recebessem prestígio, cerimônias oficiais e a oportunidade de receber um cargo de liderança associado ao sacerdócio, seria irresponsável atribuir o desejo de Brandon de ser um padre a uma “disforia de gênero” – um termo que, quando aplicado a mulheres, pode também significar “resistência à casta sexual”. Identificação com papéis de gênero em uma cultura não podem ser separados de identificação com os privilégios que acompanham esses papéis. Como nota uma psicanalista pioneira, Karen Horney, “nós vivemos em uma cultura masculina, i.e estado, economia, arte e ciência são criações de homens e estão portanto preenchidas pelo seu espírito.” (Horney, 152).

O desconforto de Brandon com o desenvolvimento do seu corpo foi documentado. Em seu livro, Aphrodite Jones comenta que Brandon odiava a dor causada pelo crescimento dos seus seios e reclamava da dor de cólicas menstruais e da inconveniência de ter que lidar com uma grande quantidade de sangue mensalmente. Seriam essas as objeções de um “homem preso em corpo de mulher”, ou de uma garota particularmente agressiva e articulada, apavorada pela inconveniência, constrangimento e dor de um corpo adulto feminino?

O desconforto de Brandon é muito mais profundo do que apenas incômodo. Ela comentou que a “deixava enjoada” (Jones, 47) quando alguém encarava seu peito. Novamente, uma menina não precisa ser uma sobrevivente de incesto para demonstrar nojo quando alguém objetifica seu corpo em formação, mas uma sobrevivente de incesto que internalizou um ideal masculino tem de enfrentar um diferente conjunto de obstáculos:

Enquanto a puberdade representa uma época dolorida para muitas adolescentes, para filhas de famílias incestuosas essa transição à feminilidade adulta é especialmente difícil e confusa, pois seu corpo sinaliza não apenas a passagem para a maturidade feminina, mas o reconhecimento que o ideal de masculinidade internalizado é uma fantasia de outro e nunca poderá ser o seu verdadeiro eu. (Jacobs, 86) A rejeição ao seu eu feminino explica a frequência de desordens alimentares durante a puberdade de sobreviventes de incesto. Brandon, na época de sua tentativa de suicídio, foi registrada manifestando sérios transtornos alimentares.

Para a sobrevivente de incesto, o seu corpo se torna o símbolo de sua vitimização e, assim, o foco do seu desejo de controle. Além disso, a obsessão por um corpo magro, de “menino”, no lugar de uma expressão de feminilidade, talvez represente uma rejeição inconsciente do seu eu feminino, através do qual a filha tenta integrar o ego masculino internalizado com uma imagem externa de um corpo de criança masculinizado (Jacobs, 88).

A Lesbofobia de Brandon

Brandon relatou que, em outubro de 1990, foi estuprada. No mesmo outono, quando ela tinha quase dezoito anos, Brandon tentou alistar-se no exército. De acordo com seus amigos, ela estava determinada a fazer parte da Operação Trovão do Deserto. Infelizmente ela não passou no teste escrito. Isso parece ter causado uma reviravolta na vida dela. De acordo com sua mãe, “ela estava realmente chateada… Ela começou a mudar.” (Jones, 47)

Uma das maiores questões sobre as escolhas de Brandon era “por que ela não se reconhecia como lésbica?”. Ela talvez estivesse tentando fazer isso quando tentou se alistar. Por que um homem trans tentaria entrar em um ambiente totalmente feminino e estritamente segregado? O exército, apesar de suas políticas homofóbicas e persecutórias, sempre foi atraente para lésbicas por ter historicamente fornecido um ambiente de trabalho e vivência com pessoas do mesmo sexo por quatro anos.

Embora estupro e assédio sexual ocorram no exército, uma sobrevivente que associa sua violação com isolamento e exposição contínua ao ataque masculino pode sentir que existe segurança em um ambiente totalmente feminino, e especialmente se ela acabou de ser estuprada. Inclusive, as regras de uso de uniformes do exército fornecem cobertura protetora que retira a ênfase das características sexuais e desencoraja a objetificação sexual. Seria ingênuo assumir que Brandon, que na época do ensino médio identificou sua atração sexual por mulheres e até foi morar com uma namorada, não estava ciente da associação de lésbicas com o exército. Ela talvez estivesse procurando por lésbicas, o que talvez explique parte de sua reação extrema ao falhar no exame de admissão.

Se esse fosse o caso, por que então ela não procurou por comunidades lésbicas em sua cidade natal? Porque “não pergunte, não conte” (“don’t ask, don’t tell“) não era uma política que se aplicava a gays e lésbicas de classe baixa em Lincoln, Nebraska, em 1990. A homofobia por lá era evidente e potencialmente fatal. O assédio poderia acontecer por meio de ligações anônimas e obscenas, ameaças e insultos na rua e ataques físicos. Por estupro ser considerado como uma “cura” para o lesbianismo, o assédio muitas vezes poderia tomar forma como ameaça de estupro ou o ato em si.

Para uma jovem que tinha horror à sexualidade masculina e que havia dito aos amigos que estupro era um de seus maiores medos, e que tinha acabado de ser estuprada, a possibilidade desse tipo de assédio devia ser aterrorizante. O estupro de outubro deve, de fato, ter sido uma violência homofóbica dirigida contra ela, por ser uma mulher que não namorava homens e que tinha um histórico de morar junto com uma namorada.

Mas havia outro motivo para que Brandon não se identificasse como lésbica: lesbianismo havia se tornado uma questão de poder entre Brandon e sua mãe.

Em março de 1991, pouco tempo após Brandon ter sido rejeitada pelo exército, uma adolescente chamada Liz Delano ligou para um número errado e chegou até Brandon por engano. Liz achou que Brandon fosse um garoto adolescente, e Brandon entrou no jogo, chamando a si mesma de “Billy”. Como uma piada, ela colocou uma meia na sua roupa íntima e encontrou Liz num rinque de patinação. Liz continuou a ligar para a casa de Brandon e perguntar por “Billy” e JoAnn começou a entender que sua filha estava se passando por um garoto. Ela não estava feliz.

Algumas semanas depois, Brandon começou uma relação com Heather, uma garota de 14 anos e amiga de Liz. Ela foi morar com Heather, se passando por homem e chamando a si mesma de “Ten-a”. JoAnn Brandon entendeu que essa relação era sexual, e começou a telefonar para Heather e para a mãe de Heather, insistindo que o jovem rapaz que estava na casa delas era sua filha. Heather, assim como Brandon, era uma sobrevivente de incesto. De acordo com que conta a biografia de Jones, o foco da relação de Brandon era uma intensa interpretação romântica, sem sexo genital, e Heather respondeu imediatamente com gratidão pelo comportamento atencioso e ausência de pressão sexual. Brandon se ressentiu profundamente com a tentativa de JoAnn de sabotar a relação, e ressentiu especialmente a tentativa da mãe de colocá-la no papel de uma predadora sexual lésbica.

Para explicar as insistentes ligações de sua mãe, Brandon disse para Heather que ela nasceu hermafrodita, mas JoAnn tinha escolhido criá-la como uma mulher para “preservá-la.” (Jones, 89) De acordo com Heather, “ele [Brandon] tinha uma resposta legítima para tudo. Ele me diria que sua mãe não aceitava o fato de que ele era homem, que ela queria duas menininhas, que ela estava apenas pregando uma peça.” (Jones, 67) O conhecimento de hermafroditismo veio de um episódio do programa Phil Donahue.

JoAnn conta uma história diferente: “eu sabia que de repente haveriam festas regadas à cerveja e eu teria uma filha de dezoito anos por lá que não deveria estar bebendo ou fazendo coisa alguma.” (Jones, 67) Ela estava ciente de que qualquer atividade sexual entre Brandon e Heather, então com catorze anos de idade, constituiria em estupro presumido. JoAnn estava escandalizada pela alegação de hermafroditismo de Brandon. “Eu dei à luz ela; eu sei de que sexo ela é. Não tinha nenhum ‘anexo’ a ser removido.” (Jones, 68)

JoAnn começou sua campanha para tirar sua filha “do armário”. Ela mandou duas colegas de trabalho lésbicas para a casa da mãe de Heather. Elas tinham fotos de Brandon quando criança e uma cópia de sua certidão de nascimento. Como resposta, Brandon destruiu cada foto sua que encontrou pela frente. Percebendo que o lesbianismo era usado por sua mãe como tentativa de acabar seu relacionamento, Brandon começou a enfaixar os seios, falar mais baixo e usar o banheiro masculino em público.

Em junho de 1991, Brandon entrou com uma queixa contra sua mãe por assédio. Ela e Heather levaram a fita de sua secretária eletrônica para a polícia. Nela estava uma mensagem de JoAnn chamando-as de lésbicas e ameaçando expô-las. A insistência da mãe sobre o lesbianismo de Brandon tornou-se uma questão de poder tão crítica a ponto de envolver a polícia.

Lesbianismo era um problema familiar em outro sentido. No inverno seguinte à tentativa de Brandon alistar-se, sua irmã Tammy deu um bebê para a adoção — para um casal lésbico de San Francisco. Brandon insistiu para a irmã ficar com o bebê. Ela queria desperadamente ser tia. Mais tarde, um dos amigos gays de Brandon relataria como “ele [Brandon] odiava lésbicas; ele era completamente contra lésbicas” (Jones, 93) citando a adoção como razão para seu ódio.

Naquele mesmo verão, Brandon começou a soltar cheques sem fundo para comprar mantimentos e presentes para Heather. Ela conseguiu uma identidade falsa e estava conseguindo empregos como homem. Ela começou a falar para amigos que passou por uma operação de mudança de sexo em Omaha. Em outubro, ela foi citada em duas acusações de falsificação em segundo grau. As atividades ilegais de Brandon começaram a aumentar, e também seu consumo de álcool, comportamentos compulsivos e distúrbios alimentares. Finalmente, Sara, sua melhor amiga, decidiu ela mesma lidar com estes problemas. Ela encontrou com Heather e explicou a ela que Brandon era uma mulher. Heather acabou o relacionamento e Brandon tentou se matar tomando um vidro de antibióticos. Isto a levou a um centro de crise, e lá, finalmente, ela esteve apta a receber conselho profissional.

mugshot

Mugshot de Brandon

O Diagnóstico de Crise de Identidade de Gênero

Brandon ficou sete dias no centro de crise. O Dr. Laus Hartman escreveu o relatório inicial. O histórico de Brandon teria incluído doze acusações pendentes de falsificação de documentos, uma possível acusação de abuso sexual contra uma menor, um estupro não tratado em outubro de 1990, distúrbios alimentares, consumo excessivo de álcool e um relacionamento sexual em progresso com uma garota de catorze anos. O diagnóstico? Um caso leve de crise de identidade. Depois de apenas alguns dias de terapia, Brandon disse a sua mãe que uma operação de mudança de sexo havia sido sugerida por seu terapeuta.

O transexualismo foi ideia de Brandon ou dos terapeutas? Deb Brodtke, médica clinica em saúde mental, pegou o caso de Brandon no centro de crise e continuou a tratá-la por quase um ano como paciente externa. Há registros de Brandon dizendo a Brodtke que queria ser homem, “para não ter que lidar com as conotações negativas de ser lésbica e por sentir-se menos intimidada por homens quando se apresentava como um.” (Jones,83) Se isso for verdade, o que Brandon disse a ela não foi que se sentia como um homem preso a um corpo de mulher, mas uma mulher presa em um mundo em que é perigoso ser fêmea, e especialmente perigoso ser lésbica.

O livro de Jones não relata nenhuma tentativa da parte de Brodtke de desafiar a lesbofobia internalizada de Brandon. Não existe nenhum registro em sua narrativa de esforços para fornecer a Brandon informações acerca da cultura lésbica ou da história lésbica, informações sobre grupos de aceitação ou grupos para jovens lésbicas. Não existe nenhum registro de tentativas de criar contatos entre Brandon e lésbicas adultas que pudessem aconselhar ela. O diagnóstico de “crise de identidade de gênero” (GID, do inglês Gender Identity Disorder) reflete o histórico heterossexismo do campo da saúde mental, que tem tradicionalmente entendido o desejo gay e lésbico como um desejo de se tornar membra/o do outro sexo.

O diagnóstico de Brandon parece não ter incluído alcoolismo. É interessante notar como prevalece o uso e abuso de álcool no documentário, na biografia e no filme ficcional – e ainda assim, como parece estar ausente do plano de tratamento. Se o abuso de álcool houvesse sido identificado como pelo menos um fator contribuinte para o caos e tormento na vida de Brandon, me parece lógico que deveria ter existido alguma tentativa de incorporar um programa de recuperação no plano de tratamento.

E, finalmente, o diagnóstico de GID dado a Brandon, tão repleto de homofobia e preconceito de gênero, também parece ter ignorado o “elefante no meio da sala” — o incesto. A avaliação do tratamento e diagnóstico de Brandon não parece incluir Transtorno de Estresse Pós-Traumático Complexo, síndrome comumente associada a sobreviventes de abuso na infância, e especialmente sobreviventes de incesto. Isso é notável, dado o fato de que Brandon chega na clínica com um histórico de anos de abuso sexual na infância não tratados, um caso de estupro recente, um aumento gradual de atividades criminosas, um histórico de múltiplas identidades, predação sexual a meninas menores de idade, comportamento de risco extremo, evasão de cuidados médicos por medo de exames de rotina, distúrbios alimentares, idealização de suicídio, terror por estar num corpo de mulher, medo de homens, preferência por roupas que protegessem, quantidade compulsiva de banhos — seis ou sete por dia com mudança de roupa. (A obsessão de Brandon com limpeza continuaria por toda sua vida, e, de acordo com amigas/os, mesmo nos seus últimos anos de vida ela ainda tomava três ou quatro banhos por dia.)

Ao invés de um diagnóstico relacionado a trauma, o terapeuta aparentemente mandou Brandon para casa com informações sobre cirurgias de “redesignação sexual”, que incluiriam procedimentos como suturação da vagina, remoção dos seios, ovários e útero, transplantar os mamilos, construção de um “apêndice” usando pele das coxas e administração de esteroides. Amigas/os de Brandon reportaram que ela expressou acentuada ambivalência em relação a essas recomendações.

Sua irmã, Tammy, lembra da reação da família:

Basicamente, nós estávamos ficando preocupados com Teena. E nós não conseguíamos nenhuma ajuda para ela… você sabe, não para ajudá-la a lidar com o fato de ser gay ou qualquer coisa assim, mas para ajudá-la a encontrar quem ela era. Talvez ela precisasse de aconselhamento. E ela havia mencionado para nós o fato de ter tentado cometer suicídio, então nós meio que usamos isso como forma de colocá-la lá [no Hospital Geral Lincoln], e o psicólogo de lá disse que Teena precisava de ajuda a longo prazo… o que eu não sei se era realmente o caso, mas eles mandaram ela para o centro de crise, e… Eu gostaria de ter realmente sabido o que Teena disse a eles ou o que esses médicos disseram a Teena mas, resumindo, ela saiu de lá dizendo ‘Eu quero mudar de sexo’, e… ‘Eles me disseram que eu preciso fazer isso e aquilo.’ E eles podem ter dito isso a ela, mas eu não sei se era o que ela realmente queria fazer.” (Muska) Ao defender a cirurgia que facilitaria a transição de Brandon, o terapeuta a orientou acerca do estabelecido ano de probação, no qual a paciente seria requerida a viver como homem. Teria Brandon descrito suas estratégias correntes para ser vista como homem nas relações – estratégias que envolviam manipulação e estupro de menores inexperientes e ingênuas, que provavelmente não tinham como ser assertivas ou suficientemente educadas para confrontar os subterfúgios sexuais de Brandon? Se o terapeuta chegou a nomear os problemas éticos, legais e de segurança de tais estratégias, Brandon nunca viu nenhuma razão para questioná-las. De fato, armada com o diagnóstico oficial de “Axis 1: transexualismo,” Brandon aumentou suas manipulações e seduções.

Depois do aconselhamento, seu repertório de mentiras se expandiu e passou a incluir histórias sobre sua avó ter planos de enviá-la para a Europa para fazer a cirurgia, e de datas marcadas para mastectomia bilateral em junho de 1993. Ela disse a suas várias namoradas em diversos momentos que sua vagina havia sido costurada, que “algo” havia sido implantado e eventualmente cresceria como um pênis e que ela havia começado terapia hormonal. Assim como as histórias de hermafroditismo que precederam o diagnóstico de transexualismo, todas eram mentira.

Misoginia, dissociação e GID

De acordo com os estudos de Jacobs e Herman, o repúdio da filha vitimizada pela identidade feminina e sua internalização de um homem idealizado representam respostas para o abuso sexual na infância.

Se gênero é considerado um agregado de marcadores de casta sexual em um sistema de dominação baseado no sexo biológico, então é simplista e enganador caracterizá-lo como “performativo”. Visto no contexto da cultura patriarcal, gênero é um emblemático sistema de dominação no qual mulheres são universalmente oprimidas como uma casta.

A filha vitimizada que adota uma persona masculina não está “fodendo com o gênero”. O gênero é que tem fodido com ela e, em uma tentativa de identificar o poder que tem machucado ela, ela passa a adotar a estratégia de uma criança desesperada cuja única opção é alterar a percepção dela sobre si mesma.

O que o movimento transgênero chama de “foder com o gênero” (“gender-fucking”) é simplesmente um exercício de mover marcadores em vez de realizar qualquer mudança fundamental no gênero. O gênero ainda existe. Ainda é uma estrutura de organização para a sociedade. O que muda é que você apenas “representa” ele de forma diferente: passa a ser permitido anexar o gênero em diferentes corpos. O objetivo das políticas transgêneras é permitir que você “seja” o gênero que você “é”. No entanto, ser o seu gênero ainda significa o que você veste, o que você faz, como você se expressa e ainda é algo ligado à noções fundamentais do que é ser homem e mulher… E não é surpresa alguma que o que é ser homem e o que é ser mulher dentro dessa visão segue exatamente o rastro do que já é definido como mulher e homem. (Corson, 3) As políticas transgêneras não destroem as posições de homens e mulheres na hierarquia de gênero e sim “fazem com que a escolha das mulheres de se opor a essa hierarquia (sendo mulheres e em prol das mulheres) se torne incompreensível.” (Corson, 3)

Além da sua participação no amplo sistema político de dominação masculina, o diagnóstico GID atua também em uma frente mais pessoal, para proteger os autores. Se a “disforia de gênero” da filha vitimizada é uma resposta pós-traumática à violência sexual, ela reflete uma tentativa de dissociar, de arrancar o trauma.

Um trauma que não pode ser adequadamente representado ou narrado permanece escondido. É um pedaço alienado de experiência que resiste a qualquer assimilação da pessoalidade do hospedeiro do qual se alimenta. A dissociação também pode ser entendida como um ato narrativo. Narra a fragmentação, fratura, ruptura, disjunção, e incomensurabilidade. (Epstein e Lefkovitz, 193) A dissociação é uma estratégia de sobrevivência.

Ela fornece uma maneira de sair de uma situação intolerável e psicologicamente incongruente (duplo-cego), ergue barreiras na memória (amnésia) para manter acontecimentos e memórias dolorosos esquecidos, funciona como um analgésico para prevenir que se sinta dor, permite que se escape viver o acontecimento e se escape de responsabilidade/culpa, e pode servir como uma negação hipnótica do sentido do eu. A criança pode começar a usar o mecanismo dissociativo espontaneamente e de forma esporádica. A vitimização repetida e a injunção do duplo-cego, ela se torna crônica.  Talvez futuramente se torne um processo autônomo conforme o indivíduo cresce (Courtois, 155). Dissociação é uma maneira de alterar a consciência. Como milhões de sobreviventes podem atestar, essas memórias dissociadas não foram embora realmente. Se elas jamais vão emergir à mente consciente ou não, elas continuam a exercer sua influência por meio de transtornos somáticos, flashbacks, distúrbios do sono, sonhos inoportunos e transtornos dissociativos. Memórias reprimidas não vão embora só porque alguém deseja que elas desapareçam. A sobrevivente assume o controle de sua vida entendendo e assimilando o trauma reprimido, não reforçando a divisão. E esse é justamente o porquê de o diagnóstico GID ser tão potencialmente pernicioso quando aplicado à filha vitimizada.

Quando o diagnóstico GID substitui identificação e tratamento de Transtorno de Estresse Pós-Traumático Complexo, isso reforça a divisão que foi um resultado do trauma infantil. Por mais “queer” que seja o diagnóstico, não se desvia de um modelo de normatividade baseado em papéis de sexo-casta tradicionais. O diagnóstico GID que recomenda transexualismo como uma “cura” compromete seriamente o potencial de recuperação da filha vitimizada dos efeitos de seu trauma. Ao invés de oferecer técnicas para ajudar a reobtenção de sua memória e reintegração do material dissociado, o diagnóstico GID possibilita e encoraja investimentos ainda mais profundos no transtorno, ao oferecer uma promessa falsa de legitimar essa identidade dissociativa “ahistórica” (sem perspectiva histórica ou contexto) por meio de “redesignação” de gênero. Ao invés de desconstruir, isso explora a síndrome.

Revitimização

Finalmente, quando a identidade transgênera é uma extensão e amplificação da identificação da filha vitimizada com o agressor, uma consciência dividida continua caracterizando a psique de sobrevivência, que coloca-se em cenários de revitimazação.

Tanto na ação quanto na imaginação dos sobreviventes, existe uma relação tênue entre o agressor masculino internalizado e a criança feminina violada. Enquanto a introjeção do agressor pode, por vezes, mascarar a identidade da filha como vítima e, assim, contribuir para a construção de uma personalidade falsa, padrões de revitimização revelam a dimensão em que o eu da fêmea desprotegida e violada também caracterizam a personalidade da filha vitimizada. (Jacobs, 99) Revitimização foi a história da curta vida adulta de Brandon, enquanto ela usava várias identidades fraudulentas que resultaram em detenção e encarceramento, seduzia garotas menores de idade que a rejeitavam quando descobriam o segredo dela, e fazia crescentes e perigosas alianças com homens violentos e homofóbicos. Os fingimentos sexuais de Brandon, fingimentos que se intensificaram após seu diagnóstico oficial como transexual, colocaram suas namoradas em risco de formas bem reais. Suas namoradas em Lincoln foram provocadas e assediadas por seus amigos, mas quando Brandon se mudou para a mais provincial Richardson County, os riscos tornaram-se ainda maiores. Ambas as amigas de Brandon de Humboldt, Lisa Lambert e Lana Tisdel, estavam sendo assediadas em seus locais de trabalho e em eventos sociais. Umas das amigas de Lisa descreveu o dilema de Lisa: “Todo mundo em Humboldt sabia sobre Brandon. Lisa não tentou esconder. Lisa não conseguia acreditar que algo assim tinha acontecido a ela. Ela deixou claro que ela estava muito preocupada para impedir a entrada de Brandon. Ela estava brava e magoada em relação a isso, mas ela não queria machucá-lo [Brandon], não queria colocá-lo nas ruas.” (Jones, 205) Sua compaixão custaria sua vida.

A situação de Lana era complicada por sua amizade com os ex-condenados Tom Nissen e John Lotter. Quando Brandon foi presa por falsificação de cheques em 15 de dezembro de 1993, ela telefonou para Lana para socorrê-la, mas Lana estava horrorizada por descobrir que seu “namorado” estava sendo colocado na ala feminina da cadeia. Ao invés de ir ela mesma, Lana mandou Tom, seu ex-namorado, para socorrer Brandon. A prisão foi anunciada naquela semana pelo Jornal de Falls City, tornando pública a identidade biológica de Brandon como mulher, e, consequentemente, a participação de Lana no que seria percebido como um relacionamento lésbico. Amigos de Brandon acreditam que o socorro foi o início do que acabou em um subsequente estupro. Nissen e Lotter parecem ter se sentido enganados e humilhados pela representação de gênero de Brandon. Nas palavras de um amigo, “Ele [Brandon] representou um jogador e [o jogador] foi vingado por isso.” (email privado, 20 de dezembro de 2004)

lana

Brandon & Lana

No entanto, de acordo com Jones, Lana tentara proteger Brandon, mesmo depois de descobrir ter sido enganada. Ela disse a sua família, a Tom Nissen e a John Lotter que tinha visto o pênis de Brandon. Mas Tom e John não se convenceram, e eles realizaram sua própria investigação — despindo e revistando o corpo dela. Ambos eram homens com histórico de violência, e eles decidiram resolver a questão com as próprias mãos. Pode ser que a segurança de Lana estivesse seriamente comprometida uma vez que havia sido descoberto por esses homens que ela tinha estado em um relacionamento sexual com uma mulher biológica e mentiu para proteger o fato.

Três dias depois, Brandon, por insistência de Lana, foi à polícia denunciar o estupro. A polícia questionou John e Tom, mas não os prendeu. John negou o estupro, mas disse que Lana tinha pedido a ele para encontrar um jeito de definir o sexo de Brandon. Em 30 de dezembro, os dois homens foram à casa de Lana procurando Brandon, mas Brandon, que já não era mais bem-vindo por lá, estava abrigado na chácara de Lisa. Lana relatou que John afirmou que “estava se sentindo afim de matar alguém” e disse que ela, Lana, era a próxima. Isso pode ter sido o porquê da mãe de Lana ter dito a eles onde Brandon estava escondido. Depois que eles foram embora, nenhuma ligação foi feita para alertar Brandon ou Lisa que os homens estavam a caminho. Testemunhos conflituosos sugerem que Lana pode na verdade ter estado no carro, ou até mesmo na casa, na noite dos assassinatos.

Considerações sobre o tratamento

Muitos aspectos da vida de Brandon teriam sido mais fáceis numa cultura que não fosse transfóbica, mas a recuperação do trauma do incesto não seria um desses aspectos.

Recuperação de sexualização traumática… começa com o processo de reintegração pelo qual o trauma original é trazido à consciência. Só então a idealização do autor pode dar lugar à realidade de sua violência sexual. Com a desconstrução de um pai idealizado, a filha pode começar a recuperar e redefinir o eu feminino, diminuindo o impacto do agressor internalizado (Jacobs, 165). Quando a internalização desse ideal se torna incorporada à identidade de gênero da filha vitimizada, especificamente como uma resposta ao trauma, esse tipo de desconstrução é impedida. Essas talvez tenham sido tão machucadas pelo incesto que pode parecer mais oportuno e terapêutico adotar uma identidade de gênero diferente que não seja tão aparentemente carregada com associações traumáticas. Essa identidade, no entanto, não pode – por definição – oferecer a integração que caracteriza recuperação.

Então, como a filha vitimizada se cura? Em “Victimized Daughters” (“Filhas vitimizadas”), Janet Liebman Jacobs apresenta alguns estágios associados à recuperação, notando que nem toda sobrevivente vivenciará essas mudanças (Jacobs, 136):

  • Desconstrução do pai idealizado.
  • Reconhecimento do senso de eu construído ao redor do ideal de masculinidade encarnada no autor.
  • Se distanciar do agressor.
  • Identificação de si mesma como vítima (o que pode incluir identificação com outros membros sem poder da sociedade, o que permite a ela desconstruir o “eu ruim” do cerne de seu desenvolvimento).
  • Reconhecimento da vitimização passada integrada no contexto do trauma sexual original (o que pode resultar em estabelecer e manter melhores limites em relações potencialmente vitimizadoras).
  • Recuperação do eu sexual (como um resultado da desconstrução do autor idealizado e desenvolvimento de um senso de eu separado, o que pode envolver respostas dissociativas controladoras e flashbacks inoportunos, e a reestruturação ou eliminação das fantasias sexuais que mostram a vítima se libertando do agressor).
  • Auto-validação e reconexão com a persona feminina (através de transferência terapêutica que modela cuidados respeitosos, reconexão ou empatia com a mãe, ou identificação com o poder espiritual feminino).
  • Reintegração por meio de imaginação criativa.

Conclusões

Durante a vida adulta, Brandon exibiu comportamentos coerentes com o diagnótico de Transtorno de Estresse Pós-Traumático Complexo, uma síndrome associada a sobreviventes de incesto. Disforia de gênero foi identificada clinicamente como uma resposta ao abuso sexual infantil e incesto, e é lógico que se questione se foi terapêutico, no caso de Teena Brandon, ou não o diagnóstico de transexualismo e recomendação de cirurgia de redesignação sexual em vez de focar no diagnóstico e no tratamento do Transtorno de Estresse Pós-Traumático Complexo. Se a cura de abuso sexual infantil e incesto requerem reobtenção e assimilação de material dissociado, é um forte argumento afirmar que o diagnóstico do transexualismo de Brandon serviu para aumentar sua dissociação, impedindo a recuperação do incesto e permitindo um agravamento de comportamentos de alto risco baseados numa identidade dissociada.

Como uma nota de rodapé final, um conhecido de Brandon dividiu essa história ocorrida aproximadamente na semana entre o estupro e o assassinato:

No dia de natal de 1993, quando Lisa trouxe Brandon de volta… de Falls City, [um amigo] encontrou com ele [Brandon] na porta e disse “oi Brandon”. Em resposta [o amigo] ouviu de Brandon que não existia nenhum Brandon, Brandon se foi. Seu nome é Teena. Aquilo não mudou em nenhum ponto na última semana. (email pessoal, 20 de dezembro de 2004).

Notas de Trabalho

“A verdade inconveniente sobre Teena Brandon” é um artigo inconveniente. Ele tem um histórico de publicações rejeitadas. Ele foi entendido como transfóbico, e tem sido intimidado por romper com princípios da Teoria Queer. Isso já era esperado, porque ele é sobre trauma, e trauma é um trauma especificamente porque resiste ser aceito ou assimilado. Se esse paper se encaixasse perfeitamente nas categorias existentes de identidade, não teria necessidade alguma de escrevê-lo e Teena Brandon talvez ainda estivesse com vida hoje em dia.

Esse artigo pertenceria a uma edição de periódico intitulada “As lésbicas serão exterminadas?”. A resposta é “não”, se isso significa que deveria se insistir no fato de que Teena Brandon era realmente uma lésbica com um caso de identidade mal incompreendida. Esse paper não faz essa reivindicação. O que ele reivindica é o status dela como uma sobrevivente de incesto não recuperada e com Transtorno de Estresse Pós-Traumático Complexo, que parecia estar em síndrome ativa até o momento de sua morte.

Eu acredito que esse paper pertence sim a essa edição de Trivia, e por isso o submeti. Muitas lésbicas são sobreviventes de abuso sexual infantil. Na última década, pode-se observar que está aumentando o número de mulheres biológicas que anteriormente se identificavam como lésbicas (como Brandon) transicionando com o objetivo de reivindicar identidades masculinas. Posições nas comunidades lésbicas e trans se tornaram polarizadas, abrindo profundas divisões entre nós. Acusações de “essencialismo”, “patologização”, “misoginia” e “privilégio patriarcal” são gritados pra lá e pra cá nas linhas de batalha.

Pela minha experiência, conflitos prolongados podem ser um indicativo de contextos condebidos de modos inadequados e pouco precisos. A pesquisa de trauma oferece perspectivas identitárias radicais, tanto para lésbicas quanto trans, e abre um novo espaço para diálogo, espaço com possibilidade de pontos em comum. Instruir sobre trauma pode informar o feminismo radical, e eu escrevi esse paper com essa intenção.

Este é um paper lésbico que pertence a um espaço lésbico? Essa questão pode ser debatida de forma acalorada, e o que melhor qualifica a inclusão?

 

Sobre a autora

Carolyn Gage é uma dramaturga lésbica e feminista, performer, autora e ativista. Autora de nove livros e mais de 25 peças, ela é a vencedora de 2009 do Lambda Literary Award, na categoria drama. Seu site é: www.carolyngage.com.

Clique aqui para ler o texto original.

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DEZ COISAS QUE TODA MULHER ODEIA NOS HOMENS

Direto vejo por aí algum link (ou artigo em revista, etc) que fala sobre coisas que homens não gostam nas mulheres. Ou coisas que homens gostam nas mulheres. Links que nos dizem para usar muita maquiagem. Ou não usar nenhuma. Para ceder às vontades deles. Para não ceder. Para ousar, não ousar, ligar na hora do trabalho, não ligar, expressar nossa opinião com cuidado, não expressar de forma alguma, usar calcinha grande, usar calcinha pequena. Isso quando algum macho não resolve vir falar pessoalmente –  sem a gente nem perguntar – o que acha da nossa aparência, corpo, personalidade, etc. Recebemos mensagens diferentes o tempo todo, algumas delas até mesmo divergentes entre si. Mas todas dizem uma mesma coisa: que devemos nos preocupar com a opinião dos homens sobre nós.

Olha minha cara de preocupada kkkkk

Olha minha cara de preocupada kkkkk

O post de hoje vai ser o contrário. Eu poderia falar sobre combinações desastrosas que alguns homens fazem, como papete e meias ou pochete e sunga, mas nossas urgências, infelizmente, vão muito além disso. Ao contrário de alguns deles, nosso maior problema não é unha, cabelo, bigode ou a porcaria de uma conta de restaurante. Então aqui vai o incrível post sobre as DEZ COISAS QUE TODA MULHER ODEIA NOS HOMENS:

1) NÃO AJUDAM NAS TAREFAS DOMÉSTICAS

Mulheres acabam fazendo jornadas duplas – e até mesmo triplas – de trabalho porque, além de inseridas no mercado, a responsabilidade de cozinhar, manter a casa limpa e cuidar de filhos cai toda sobre elas. Logo, o que vemos são mães, filhas, irmãs e/ou esposas completamente sobrecarregadas enquanto muito homem não consegue nem colocar suco no próprio copo ou lavar um garfo sujo. Não basta ajudar em uma coisa ou outra de vez em quando, cada um tem que no mínimo cuidar do que lhe diz respeito e dividir o resto de forma justa.  Cuidar, lavar, cozinhar e limpar cansa — e muito. Rapazes, saiam do videogame e comecem a esquentar o próprio Toddy. Consigo detectar vocês, os famosos fidivó, até mesmo em almoços entre amigos: geralmente são os que acham que o mundo é uma extensão de suas casas e vontades e ficam esperando que tudo fique magicamente pronto e limpo.

Sobre pesquisa “Trabalho remunerado e trabalho doméstico no cotidiano das mulheres”: “Uma outra questão que a pesquisa traz é que quando os homens estão em casa eles aumentam as tarefas de trabalho das mulheres. Aumentam a demanda do trabalho doméstico ou que então atrapalham sua realização” — Leia mais aqui.

2) DÃO CANTADAS, BUZINADAS & AFINS

Rolou a campanha Chega de Fiufiu, do Think Olga (que em breve vai virar documentário), o vídeo da garota que foi importunada 100 vezes ao andar pelas ruas de Nova York durante dez horas, e mais um monte de coisa. O assunto está sempre em pauta. Reclamamos o tempo todo das cantadas de rua. Elas são grosseiras, ofensivas e, mesmo quando proferidas por meio de belas palavras, são um saco. Nós, mulheres, andamos na rua porque precisamos ir à lugares ou queremos passear. É simples! Ás vezes estamos felizes, outras tristes, ás vezes com pressa e de mau humor. No geral, gostaríamos apenas de ficar em paz. Só que sempre tem um homem (um não, vários) que nos “percebe” e transforma qualquer simples caminhada em um tormento. Essas cantadas são muito mais intimidantes que gentis, quase como uma demarcação de espaço, uma lembrança de que o mundo, para nós mulheres, é ainda mais perigoso. E as buzinadas? Ah, basta ser mulher e andar a pé para levar buzinadas e cantadas de todo tipo (tem carro que joga até luz alta na nossa cara). Além da ofensa em si, cantadas são incômodas porque acionam outros medos: de abuso, estupro, assassinato e outras violências. E eu não digo isso por achismo: eu vivo isso todos os dias. Mas ainda assim, muitos homens tentam justificar esse tipo de coisa o tempo inteiro. E continuam importunando mulheres por aí.

thinkolga

3) SE ORGULHAM DE SER ~POLITICAMENTE INCORRETOS~

Tem aquele ~humorista~ (não vou nem perder tempo citando nomes) que achou super engraçado dizer que estuprador de mulher feia merecia abraço e “comeria” uma cantora famosa grávida e o bebê. Tem aquele outro que ofereceu uma banana a um internauta negro e depois quis acionar o mito da democracia racial com um blábláblá sobre o mundo ser uma caixa de lápis de cor, tentando apagar o fato de que “macaco” é sim um xingamento historicamente usado contra pessoas negras. Tem aquele “conselheiro de relacionamentos” (cof, cof, ótimo eufemismo, hein?) do exterior que acha que humilhar mulher é técnica de sedução. Etcetcetc. A internet nos mostra, diariamente, mil exemplos de homens que seguem esse tipo de comportamento, achando que são super rebeldes, engraçados, chocantes, uau. Deixa eu contar uma coisa, se vocês acham que estão subvertendo alguma coisa perpetuando misoginia, machismo, homofobia e racismo, trago más notícias: vocês estão é colaborando para deixar as coisas do jeitinho que estão. São servos do status quo, nada além, e podemos entender o porquê, né? É intencional. Querem posar de autênticos ou divertidões, mas não querem abrir mão de privilégios. Bradam contra a corrupssaum11!! e clamam por ~mudanças~ (desde que não sejam do tipo que coloquem o filho da empregada doméstica na universidade) só pra disfarçar que, em muitos casos, tudo está bem – e até demais – pra vocês.

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4) PAGAM DE ENGAJADOS (OU “A CASA CAIU, FEMINISTO”)

Tem muito homem (hetero, gay, bi, etc) que consegue entender questões feministas. Eles geralmente manjam de teorias e sabem discutir com certa coerência. Tem muito homem que se diz pró-feminismo, pró-isso, pró-aquilo, mas, na prática, menospreza demandas de grupos minoritários dos quais ele não faz parte, tenta definir quais pautas ele considera mais importantes, acoberta colegas agressores e tenta justificar as agressões (isso quando ele mesmo não é o agressor), se infiltra em espaços de articulação de lutas e ideias com o intuito de liderar e alimentar o próprio ego, trata opiniões e sentimentos de mulheres com indiferença, isola e difama quem for “perigosa”, prega o ~poliamor~ e outras práticas ~livres~ apenas para se isentar de responsabilidades e cuidados com outras pessoas, mistura frustração sexual com política e influência com coação, etc, etc, etc. Aprendi, depois de quebrar a cara algumas vezes com diversos homens (e que já foram inclusive defendidos por mim – quem nunca iuzomou que atire a primeira pedra), como é fácil simular um discurso. E é benéfico pro cara. Ele não apenas paga de engajado, como ainda ganha estrelinha por ser, awn, tão bonzinho. Porém, acaba sendo muito do que ele mesmo critica. Pra esse tipo, nossas causas são meros fetiches intelectuais.

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5) RECUSAM O USO DO PRESERVATIVO

Estatísticas mostram que homens são resistentes em relação ao uso do preservativo. Basta uma googlada para ter acesso a dados diversos e dicas sobre como ~convencer~ o cara usar camisinha, aff. Cem entre cem mulheres que já conversei, que se relacionam com homens, reclamam disso. Os motivos são muitos: “a camisinha não cabe”, “eu broxo de camisinha”, “prefiro sem”, etc. Olha, nada disso é nosso problema, sabe? Mulher tem que ser “mãe” até na hora do sexo? Porque, assim, tem cara que não sabe procurar uma camisinha mais fina sozinho (para algumas pessoas, elas aumentam a sensação de prazer), um psicólogo (certa vez, a mãe de uma amiga, que é sexóloga, disse que grande parte dos problemas de ereção e ejaculação precoce são psicológicos) ou qualquer outra coisa que possa ajudar. Vivemos em uma sociedade falocêntrica que coloca a penetração como a representação máxima do ~fazer sexo~ e com certeza é algo que precisa ser desconstruído. Mas, enquanto isso, não forcem a barra e nem coloquem a saúde de mulheres em risco, caras. Muito menos tentem colocar nelas a culpa dos seus problemas. E gravidez também é um risco de relações sexuais sem preservativo, né? Nem toda mulher pode/quer tomar pílula ou faz uso de algum outro método anticoncepcional.

Clique aqui para acessar o Portal sobre aids, doenças sexualmente transmissíveis e hepatites virais do governo, para saber mais sobre doenças, postos de saúde, distribuição gratuita de medicamentos e preservativos e afins.

Aproveitando a oportunidade, é sempre bom lembrar:

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6) SÃO PAI-QUANDO-DÁ 

O texto Pai quando dá (clique aqui para ler) é certeiro. Conheço bem vários deles. O pai-quando-dá aparece em ocasiões especiais, não faz esforços para ajudar na criação dos filhos e tem sempre outras prioridades quando o assunto é dinheiro. E eles não existem apenas em relações com pais separados. Em lares em que os pais e mães estão juntos acontece bastante de a mãe (e/ou, infelizmente, babás e empregadas domésticas) cuidarem, educarem e alimentarem as crianças, enquanto os pais só aparecem para dar bronca ou brincar um pouquinho. Esse tópico casa com o primeiro: cuidar dos filhos também é dividir tarefas. Mulheres não têm a obrigação de abdicarem da própria vida em favor dos filhos, embora isso seja um mito corrente (e que, mais uma vez, mantém o privilégio masculino). Um fator curioso que já observei é que, com a internet e suas facilidades, tem muito pai-quando-dá que acha que basta postar uma foto do filho ou filha e dizer “PAPAI T AMA NHOMM” para que o mundo acredite em sua ótima atuação na vida desta criança (vejo alguns que sequer moram na mesma cidade que os filhos e não fazem esforço algum para visitá-los usando esse artifício). Só que, opa amigão: like no Facebook ou coraçãozinho no Instagram não coloca leite na mamadeira e nem faz criança dormir, ok? Paternidade acontece na prática, não basta falar sobre o filho.

7) ESTUPRAM

Segundo o Dossiê Mulher 2014, divulgado em agosto deste ano, no estado do Rio de Janeiro, 4.872 mulheres foram estupradas em 2013. Isso significa 13 mulheres atacadas por dia, ou uma a cada duas horas. Com base em informações de 2011 do Sistema de Informações de Agravo de Notificação do Ministério da Saúde (Sinan), pesquisa do IPEA lançada no início deste ano (que causou polêmica por seu resultado – que gerou a campanha “Eu não mereço ser estuprada” – e por errata publicada depois) estima que no mínimo 527 mil pessoas são estupradas por ano no Brasil e que, destes casos, apenas 10% chegam ao conhecimento da polícia. 
Segundo registros do Sinan, 89% das vítimas são do sexo feminino e possuem, em geral, baixa escolaridade. Do total, 70% são crianças e adolescentes. Infelizmente, a ideia geral que se tem é de que um estuprador é aquele cara que sai do mato com um facão, bate na mulher e a obriga a manter relações sexuais com ele. No entanto, isso serve apenas para esconder a realidade: familiares, amigos, vizinhos e outras pessoas próximas oferecem tanto ou mais risco quanto um estranho. E nem sempre a coação envolve força física. Pode envolver chantagem emocional, ameaça, entre outras coisas. Se a pessoa disse não, é estupro. Se a pessoa não tinha condição de dizer não (estava bêbada, dormindo, drogada, é jovem demais e/ou se sentiu intimidada, etc), é estupro. Se ela foi, de alguma forma, forçada, coagida, chantageada, humilhada, ainda que sutilmente, é estupro também.

“O que ainda precisa ser feito? Pensar sobre ajudar vítimas de estupros é uma coisa; pensar sobre acabar com o estupro é outra. E nós precisamos acabar com o estupro. Nós precisamos acabar com o incesto. Nós precisamos acabar com os espancamentos. Nós precisamos dar fim à prostituição e precisamos dar fim à pornografia. Isso significa que nós precisamos nos recusar a aceitar que esses são fenômenos naturais que simplesmente acontecem porque algum cara está tendo um dia ruim”

Trecho do discurso Relembre, resista, não se conforme, de Andrea Dworkin. Clique aqui para ler na íntegra.

8) PRATICAM VIOLÊNCIA DOMÉSTICA 

“A violência contra as mulheres constitui-se em uma das principais formas de violação dos seus direitos humanos, atingindo-as em seus direitos à vida, à saúde e à integridade física. Homens e mulheres são atingidos pela violência de maneira diferenciada. Enquanto os homens tendem a ser vítimas de uma violência predominantemente praticada no espaço público (minha observação: praticadas por eles mesmos e por instituições compostas e legitimadas por eles), as mulheres sofrem cotidianamente com um fenômeno que se manifesta dentro de seus próprios lares, na grande parte das vezes praticado por seus companheiros e familiares. A violência contra as mulheres em todas as suas formas (doméstica, psicológica, física, moral, patrimonial, sexual, tráfico de mulheres, assédio sexual, etc.) é um fenômeno que atinge mulheres de diferentes classes sociais, origens, idades, regiões, estados civis, escolaridade, raças e até mesmo a orientação sexual” — Leia a cartilha Política Nacional de Enfrentamento à Violência Contra as Mulheres na íntegra clicando aqui.

Preciso falar mais?

9) PEDOFILIA E OUTRAS PARAFILIAS

Já li diversas definições para parafilias: perversões, desvios sexuais, preferências anormais, etc. Essa matéria aqui explica um pouco o que são e categoriza algumas. No entanto, esquece de citar coisas importantissímas: são os homens os maiores “portadores” de parafilias, digamos assim. E muitas dessas parafilias envolvem dominação, subjugação, humilhação e tal. Como no caso dos que colocam a pedofilia em prática, dos que exibem suas partes íntimas em público sem o consentimento alheio, se esfregam e/ou se masturbam em cima de mulheres no transporte público e em outros lugares (também sem consentimento). Sem contar os que usam animais ou corpos de pessoas mortas. Ewww. Olha, eu acredito que, no caso dos seres humanos, sexo deve ser praticado com quem tem capacidade de dizer sim. Ou seja, entre pessoas. Vivas. E entre pessoas vivas que possuam idade/maturidade para consentir conscientemente – embora as relações hierárquicas de nossa sociedade torne até mesmo o consentimento de pessoas adultas questionável, caso elas estejam em situação de vulnerabilidade. Vejam bem, até respeito quem curte lamber uns pés, por exemplo, ou se excita vendo balões. Mas usar crianças, animais, pessoas distraídas, desacordadas… Mortas. NÃO! E não entendo como as parafilias, como um todo, são tratadas como situações individuais e não uma questão social que, de alguma forma se relaciona com o modo que a masculinidade é construída — uma construção que de certa forma diz ” é seu direito acessar os corpos que quiser, como quiser”. Esse é um assunto que eu gostaria de outras visões, aliás, pois comecei a pensar sobre não tem muito tempo.

10) COMETEM FEMICÍDIO

“No Brasil, entre 2001 a 2011, estima-se que ocorreram mais de 50 mil feminicídios: ou seja, em média, 5.664 mortes de mulheres por causas violentas a cada ano, 472 a cada mês, 15,52 a cada dia, ou uma morte a cada 1h30. (…) Isto porque além do elevado número de assassinatos por causas violentas – critério adotado no levantamento para indicar o feminicídio – o estudo constatou que o perfil dos óbitos é, em grande parte, compatível com situações relacionadas à violência doméstica e familiar contra a mulher e poderiam ter sido evitadas. Um indicativo nesse sentido é que quase um terço dos óbitos  teve o domicílio como local de ocorrência. (…) “Essa situação é preocupante, uma vez que os feminicídios são eventos completamente evitáveis, que abreviam as vidas de muitas mulheres jovens, causando perdas inestimáveis”, aponta a pesquisa, realizada com base na avaliação e correção de dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde. (…) O feminicídio é definido como crime de homicídio resultante de violência contra a mulher e é caracterizado em quatro circunstâncias: violência doméstica e familiar; violência sexual; mutilação ou desfiguração da vítima; emprego de tortura ou qualquer meio cruel ou degradante” — Leia mais aqui.

Martela, martela, martela o martelão, batendo a mãozinha, na palma da mão

Martela, martela, martela o martelão, batendo a mãozinha, na palma da mão

Bom, tentei ser breve e sucinta (e falhei *risos nervosos*). Com certeza muitas informações poderiam ter sido acrescentadas. Mas espero que este breve apanhado tenha ficado claro. Peguem os seus martelos e entrem no bonde, migas. E continuem acrescentando itens a lista nos comentários! 🙂