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Você está pronta para o verão?

Ah, o verão… Estação do ano que é sinônimo de férias ou recesso para algumas pessoas. Cerca de três meses de calor e sol queimando a pele. Água, praia, banho de mangueira, passeios ao ar livre. Sorvete, picolé, chapéu, boné. Roupas leves e chinelo no pé. No entanto, basta o tempo começar a esquentar para que a encheção de saco comece a aumentar. No lugar de dicas de roupas frescas, receitas gostosas pra trocar, lugares legais pra ir ou gente maneira pra paquerar, a pauta geral passa a ser ~se cuidar~ ou ~se preparar~ para o verão.

E o foco do que é chamado de ~se cuidar~ ou ~se preparar~ geralmente consiste mais em perder peso do que beber bastante água, por exemplo. A mídia e a sociedade como um todo pressionam os indivíduos com o intuito de fazê-los acreditar que só podem aparecer em público de roupa de banho se estiverem magros e sarados. Essa pressão é principalmente direcionada às mulheres, mas nem os homens andam escapando. Dentro de uma lógica capitalista, tudo o que puder ser explorado para ser revertido em controle e consumo será aproveitado. Por isso, o chamado “mito da beleza” anda abrangendo cada vez mais grupos de pessoas. Tanto que existe SPA para crianças, adolescentes são induzidas a passarem por cirurgias estéticas cada vez mais cedo e é celebrado o fato de tratamentos estéticos para homens estarem em crescente ascensão – sendo que o ideal era que essas porcarias parassem de ser empurradas para pessoas de qualquer sexo.

De qualquer maneira, no final das contas são as mulheres as maiores prejudicadas pelos padrões, claro. O cabelo tem que ser sempre impecável. Se você for ficar uma semana na praia, é preciso de um monte de produtos para passar na cabeça antes e depois de entrar no mar. Não pode ter celulite, estria ou qualquer outra coisa completamente normal em um corpo do sexo feminino. Barriga, então? É quase um crime. Pelos são considerados sujos. Mas as bolinhas vermelhas ocasionadas pela depilação e contato com areia também não agradam. As unhas precisam estar feitas. O biquíni precisa estar de acordo com o tipo de corpo: se o peito é pequeno, use um sutiã com bojo, se o quadril é largo, vista algo que disfarce. Esse suposto equilíbrio é uma farsa que tem o intuito de nos enlouquecer.

  “I am not as pretty as those girls in magazines”

Somos induzidas a acreditar que o nosso valor vem principalmente da aceitação da nossa aparência, dos elogios que nos qualificam como belas. Porém, os padrões são inalcançáveis justamente para ficarmos nessa corrida eterna, feito as armadilhas com cenouras e coelhos correndo atrás delas que vemos em desenhos animados. Quase nunca alcançaremos as cenouras, porque os padrões vigentes são excludentes, gordofóbicos, racistas, elitistas, etc. A maior parte das mulheres vai ficar de fora por algum motivo – ou por vários: é gorda, o cabelo é crespo, a bunda tem celulite, o dente é amarelo, as roupas não são de marca, as unhas são roídas, o nariz é grande, o peito tem estria, os dedos dos pés são peludos, os cílios são claros, os olhos são pequenos. Nossas características são categorizadas como defeitos. E uma onda geral de baixa autoestima, competição e rivalidade feminina é disseminada, impedindo que as mulheres fiquem em paz com elas mesmas e com as outras. Sem contar a naturalização de transtornos alimentares em prol do “corpo perfeito”. Não pulem refeições, por favor. Comida é amor.

"Como ter um corpo de praia:  1 - Tenha um corpo  2 - Vá à praia"

“Como ter um corpo de praia:
1 – Tenha um corpo
2 – Vá à praia”

Eu queria dizer uma coisa. Você existe para você mesma e não para agradar o olhar de quem está ao redor. Sei que é óbvio, mas é preciso que a gente leia e releia isso várias vezes até assimilar. O seu corpo é muito mais do que um objeto de desejo: é o que te transporta pra lá e pra cá e te permite passar por essa nave louca chamada vida. Não é fácil se desprender da necessidade de aceitação pela aparência – até porque a não aceitação se mostra, muitas vezes, de forma hostil e violenta. Mas podemos tentar olhar para nós mesmas e para as outras com mais amor, celebrando a pluralidade e acabando com a ideia de que características são defeitos. Somos muitas e não existe a possibilidade de nos encaixarmos no mesmo molde. Nossas histórias e características são diversas. Estética não é sinônimo de saúde. E a saúde alheia não é da nossa conta. E já que toquei no assunto ali em cima, posto abaixo um trecho super inspirador do livro “O mito da beleza – Como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres”, da Naomi Wolf (livro completo aqui):

Como as mulheres poderiam agir para além dos limites do mito da beleza? Quem saberia dizer? Talvez nós deixássemos nossos corpos engordar e emagrecer, apreciando as variações sobre o tema, e evitaríamos a dor porque, quando alguma coisa dói, ela começa a nos parecer feia. Quem sabe não passemos a nos enfeitar com verdadeiro prazer, com a impressão de estarmos adornando o que já é lindo. Talvez, quanto menor for a dor a que submetamos o nosso corpo, tanto mais bonito ele nos pareça. Talvez esqueçamos de levar estranhos a nos admirarem, e descubramos que isso não nos faz nenhuma falta. Talvez aguardemos o envelhecimento do nosso rosto com expectativa positiva e nos tornemos incapazes de considerar o nosso corpo um monte de imperfeições, já que não há nada em nós que não nos seja precioso. Pode ser que não queiramos mais ser a mulher do “depois”.

Por onde começar? Vamos perder a vergonha. Ser vorazes. Procurar o prazer. Evitar a dor. Vestir, tocar, beber e comer o que tivermos vontade. Ser tolerantes com as escolhas das outras mulheres. Perseguir o sexo que quisermos e lutar ferozmente contra o que não quisermos. Escolher as nossas próprias causas. E, depois de superarmos e transformarmos as regras de tal forma que o nosso sentido da beleza não possa ser abalado, vamos cantar essa beleza, embelezá-la, exibi-la e nos deleitar com ela. Numa política sensual, ser mulher é bonito.

Uma definição da beleza que tenha amor pelas mulheres supera o desespero com a brincadeira, o narcisismo com o amor a si mesmo, o despedaçamento com a inteireza, a ausência com a presença, a inércia com a animação. Ela admite que as pessoas sejam radiantes: que essa luz seja emitida pelo rosto e pelo corpo, em vez de ser uma luz dirigida para o corpo, ocultando o eu. Essa luz é sexy, variada e surpreendente. Seremos capazes de vê-la em outras mulheres sem medo e afinal poderemos vê-la em nós mesmas.

Dica: O documentário a seguir, com 14 minutos, de duração, mostra brevemente como o monopólio de mídia – que precisa de retorno imediato – usa a idealização da mulher por meio de padrões de beleza e comportamento para gerar audiência e vender produtos. Grande parte das mulheres retratadas em revistas, jornais, programas de televisão, entre outros veículos, são loiras, altas, magras, heterossexuais e hipersexualizadas. O olhar masculino é o molde e a real diversidade que forma a população de mulheres brasileiras é apagada (vale notar, inclusive, que praticamente todas as entrevistadas que apontam essa falta de diversidade são brancas também, o que nos mostra que precisamos discutir sobre representatividade em todos os espaços, não apenas na mídia “tradicional”). Algumas saídas são apontadas, como um debate honesto em relação à democratização da mídia, que sempre é uma ação vista como “censura” e não como uma forma de tornar os produtos midiáticos um espelho que represente minimamente sua audiência.

Leia também: “O envelhecimento da mulher como um fato incomum”

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IT’S MY PARTY AND I WILL CRY IF I WANT TO

De acordo com os tilelês, hoje é dia de mais uma volta ao redor do sol ou algo parecido. As pessoas alegres celebram mais um ano de vida e os pessimistas menos um. Sim, hoje é meu aniversário. E por mais que eu tenha tentado pagar de blasé algumas vezes, dizendo coisas tipo “oh, não ligo para datas comemorativas”, a verdade é que eu ligo sim. Somos ensinados a viver de uma forma tão emocionalmente contida (algo que eu orgulhosamente me recusei a aprender), que vejo de forma positiva algumas das válvulas de escape que as pessoas usam para transmitir bons sentimentos umas às outras (claro que em uma sociedade capitalista todos esses rituais são cooptados – e até mesmo inventados – em prol do consumo, mas essa é outra questão).

Essa é, aliás, uma das partes interessantes de ficar mais velha: começar a perceber (e assumir) o que realmente gosta ou não, o que quer ou não, sem tanta interferência da necessidade de pertencer a um grupo ou manter uma imagem. Quero dizer, conheço pessoas bem mais velhas do que eu que ainda vivem muito atreladas às engrenagens dos mecanismos da vida social e de um pretenso status e não as julgo (mentira, julgo sim, heh). De qualquer forma, acho que todos ficamos mais sábios a medida que acumulamos experiências e refletimos sobre elas.

No entanto, é esquisita a sensação de completar vinte-e-muitos-anos. Todo mundo gosta de lembrar o tempo inteiro que estou mais perto dos trinta que dos vinte anos, como se isso fosse algo assustador. Cada vez mais produtos e procedimentos de beleza são insinuados como necessários. Cada vez mais coisas são esperadas de mim, sendo que mal consigo me referir a mim mesma como “mulher”. Na minha cabeça, “mulheres” sempre foram aquelas pessoas de salto, com filhos, emprego, marido, roupas bem passadas, dotes culinários e sem crises existenciais. Sim, por um tempo eu comprei a ideia da ~mulheridade~ como algo totalmente heteronormativo e castrante, afinal, é isso que nos empurram o tempo todo, não?

E eu, vejam bem… Eu trabalho. E cozinho muito bem. Mas vivo de tênis sujo, roupa amassada, não sei se quero ~constituir família~ e estou sempre por aí, chafurdando na lama da existência. Guardo culpas, mágoas, rancores e tristezas. Tenho ataques de pânico. Fico muito feliz com coisas banais. Canto alto e faço danças ridículas. Me angustio por querer construir algo significativo e não apenas ser uma mera reprodutora de ideias alheias. E não consigo, de forma alguma, assimilar o conceito de vida adulta que me foi apresentado, embora, meu deus, eu seja uma adulta. Uma mulher. Não digo essas coisas me achando única e especial. Sei que a sensação de inadequação é comum e constante em um monte de gente. Não tem como ser diferente vivendo em uma sociedade que vende tanta crueldade e desumanização como sinônimo de sucesso.

Sinto falta de me jogar de peito aberto no mundo e acreditar no melhor das pessoas. O passar dos anos me tornou cínica e desconfiada. Desmontei caixas e certezas de tal maneira que as tênues fronteiras entre dominação e amor, amizade e interesse, preto e branco ou gases, infarto e ataque de pânico me parecem cada vez mais borradas. No entanto, as desconstruções me fizeram também aprender com os meus erros – o que não quer dizer que eu não os cometa mais – e com as histórias dos outros. Experimentei relações, problematizei comportamentos, moldei minha rudeza, exercitei a empatia. E pensei mais em mim.

Essa é uma nova fase. Que eu espero que seja de descobrimento, redescobrimento e canalização de forças e energia. Ainda que sejamos todos seres errantes buscando sentido para coisas que talvez estejam além da nossa compreensão humana, temos o agora para lidar. E o agora pode ser bom. Que eu aprenda a viver o presente com menos angústia e as batidas aceleradas do meu coração se convertam em suaves tum-tuns.

(E você aí, que me lê: obrigada! Ser lida está entre os meus planos e desejos ocultos – mas esse nem é tão oculto assim, né?)

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DEZ COISAS QUE TODA MULHER ODEIA NOS HOMENS

Direto vejo por aí algum link (ou artigo em revista, etc) que fala sobre coisas que homens não gostam nas mulheres. Ou coisas que homens gostam nas mulheres. Links que nos dizem para usar muita maquiagem. Ou não usar nenhuma. Para ceder às vontades deles. Para não ceder. Para ousar, não ousar, ligar na hora do trabalho, não ligar, expressar nossa opinião com cuidado, não expressar de forma alguma, usar calcinha grande, usar calcinha pequena. Isso quando algum macho não resolve vir falar pessoalmente –  sem a gente nem perguntar – o que acha da nossa aparência, corpo, personalidade, etc. Recebemos mensagens diferentes o tempo todo, algumas delas até mesmo divergentes entre si. Mas todas dizem uma mesma coisa: que devemos nos preocupar com a opinião dos homens sobre nós.

Olha minha cara de preocupada kkkkk

Olha minha cara de preocupada kkkkk

O post de hoje vai ser o contrário. Eu poderia falar sobre combinações desastrosas que alguns homens fazem, como papete e meias ou pochete e sunga, mas nossas urgências, infelizmente, vão muito além disso. Ao contrário de alguns deles, nosso maior problema não é unha, cabelo, bigode ou a porcaria de uma conta de restaurante. Então aqui vai o incrível post sobre as DEZ COISAS QUE TODA MULHER ODEIA NOS HOMENS:

1) NÃO AJUDAM NAS TAREFAS DOMÉSTICAS

Mulheres acabam fazendo jornadas duplas – e até mesmo triplas – de trabalho porque, além de inseridas no mercado, a responsabilidade de cozinhar, manter a casa limpa e cuidar de filhos cai toda sobre elas. Logo, o que vemos são mães, filhas, irmãs e/ou esposas completamente sobrecarregadas enquanto muito homem não consegue nem colocar suco no próprio copo ou lavar um garfo sujo. Não basta ajudar em uma coisa ou outra de vez em quando, cada um tem que no mínimo cuidar do que lhe diz respeito e dividir o resto de forma justa.  Cuidar, lavar, cozinhar e limpar cansa — e muito. Rapazes, saiam do videogame e comecem a esquentar o próprio Toddy. Consigo detectar vocês, os famosos fidivó, até mesmo em almoços entre amigos: geralmente são os que acham que o mundo é uma extensão de suas casas e vontades e ficam esperando que tudo fique magicamente pronto e limpo.

Sobre pesquisa “Trabalho remunerado e trabalho doméstico no cotidiano das mulheres”: “Uma outra questão que a pesquisa traz é que quando os homens estão em casa eles aumentam as tarefas de trabalho das mulheres. Aumentam a demanda do trabalho doméstico ou que então atrapalham sua realização” — Leia mais aqui.

2) DÃO CANTADAS, BUZINADAS & AFINS

Rolou a campanha Chega de Fiufiu, do Think Olga (que em breve vai virar documentário), o vídeo da garota que foi importunada 100 vezes ao andar pelas ruas de Nova York durante dez horas, e mais um monte de coisa. O assunto está sempre em pauta. Reclamamos o tempo todo das cantadas de rua. Elas são grosseiras, ofensivas e, mesmo quando proferidas por meio de belas palavras, são um saco. Nós, mulheres, andamos na rua porque precisamos ir à lugares ou queremos passear. É simples! Ás vezes estamos felizes, outras tristes, ás vezes com pressa e de mau humor. No geral, gostaríamos apenas de ficar em paz. Só que sempre tem um homem (um não, vários) que nos “percebe” e transforma qualquer simples caminhada em um tormento. Essas cantadas são muito mais intimidantes que gentis, quase como uma demarcação de espaço, uma lembrança de que o mundo, para nós mulheres, é ainda mais perigoso. E as buzinadas? Ah, basta ser mulher e andar a pé para levar buzinadas e cantadas de todo tipo (tem carro que joga até luz alta na nossa cara). Além da ofensa em si, cantadas são incômodas porque acionam outros medos: de abuso, estupro, assassinato e outras violências. E eu não digo isso por achismo: eu vivo isso todos os dias. Mas ainda assim, muitos homens tentam justificar esse tipo de coisa o tempo inteiro. E continuam importunando mulheres por aí.

thinkolga

3) SE ORGULHAM DE SER ~POLITICAMENTE INCORRETOS~

Tem aquele ~humorista~ (não vou nem perder tempo citando nomes) que achou super engraçado dizer que estuprador de mulher feia merecia abraço e “comeria” uma cantora famosa grávida e o bebê. Tem aquele outro que ofereceu uma banana a um internauta negro e depois quis acionar o mito da democracia racial com um blábláblá sobre o mundo ser uma caixa de lápis de cor, tentando apagar o fato de que “macaco” é sim um xingamento historicamente usado contra pessoas negras. Tem aquele “conselheiro de relacionamentos” (cof, cof, ótimo eufemismo, hein?) do exterior que acha que humilhar mulher é técnica de sedução. Etcetcetc. A internet nos mostra, diariamente, mil exemplos de homens que seguem esse tipo de comportamento, achando que são super rebeldes, engraçados, chocantes, uau. Deixa eu contar uma coisa, se vocês acham que estão subvertendo alguma coisa perpetuando misoginia, machismo, homofobia e racismo, trago más notícias: vocês estão é colaborando para deixar as coisas do jeitinho que estão. São servos do status quo, nada além, e podemos entender o porquê, né? É intencional. Querem posar de autênticos ou divertidões, mas não querem abrir mão de privilégios. Bradam contra a corrupssaum11!! e clamam por ~mudanças~ (desde que não sejam do tipo que coloquem o filho da empregada doméstica na universidade) só pra disfarçar que, em muitos casos, tudo está bem – e até demais – pra vocês.

laerte

4) PAGAM DE ENGAJADOS (OU “A CASA CAIU, FEMINISTO”)

Tem muito homem (hetero, gay, bi, etc) que consegue entender questões feministas. Eles geralmente manjam de teorias e sabem discutir com certa coerência. Tem muito homem que se diz pró-feminismo, pró-isso, pró-aquilo, mas, na prática, menospreza demandas de grupos minoritários dos quais ele não faz parte, tenta definir quais pautas ele considera mais importantes, acoberta colegas agressores e tenta justificar as agressões (isso quando ele mesmo não é o agressor), se infiltra em espaços de articulação de lutas e ideias com o intuito de liderar e alimentar o próprio ego, trata opiniões e sentimentos de mulheres com indiferença, isola e difama quem for “perigosa”, prega o ~poliamor~ e outras práticas ~livres~ apenas para se isentar de responsabilidades e cuidados com outras pessoas, mistura frustração sexual com política e influência com coação, etc, etc, etc. Aprendi, depois de quebrar a cara algumas vezes com diversos homens (e que já foram inclusive defendidos por mim – quem nunca iuzomou que atire a primeira pedra), como é fácil simular um discurso. E é benéfico pro cara. Ele não apenas paga de engajado, como ainda ganha estrelinha por ser, awn, tão bonzinho. Porém, acaba sendo muito do que ele mesmo critica. Pra esse tipo, nossas causas são meros fetiches intelectuais.

sexy

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5) RECUSAM O USO DO PRESERVATIVO

Estatísticas mostram que homens são resistentes em relação ao uso do preservativo. Basta uma googlada para ter acesso a dados diversos e dicas sobre como ~convencer~ o cara usar camisinha, aff. Cem entre cem mulheres que já conversei, que se relacionam com homens, reclamam disso. Os motivos são muitos: “a camisinha não cabe”, “eu broxo de camisinha”, “prefiro sem”, etc. Olha, nada disso é nosso problema, sabe? Mulher tem que ser “mãe” até na hora do sexo? Porque, assim, tem cara que não sabe procurar uma camisinha mais fina sozinho (para algumas pessoas, elas aumentam a sensação de prazer), um psicólogo (certa vez, a mãe de uma amiga, que é sexóloga, disse que grande parte dos problemas de ereção e ejaculação precoce são psicológicos) ou qualquer outra coisa que possa ajudar. Vivemos em uma sociedade falocêntrica que coloca a penetração como a representação máxima do ~fazer sexo~ e com certeza é algo que precisa ser desconstruído. Mas, enquanto isso, não forcem a barra e nem coloquem a saúde de mulheres em risco, caras. Muito menos tentem colocar nelas a culpa dos seus problemas. E gravidez também é um risco de relações sexuais sem preservativo, né? Nem toda mulher pode/quer tomar pílula ou faz uso de algum outro método anticoncepcional.

Clique aqui para acessar o Portal sobre aids, doenças sexualmente transmissíveis e hepatites virais do governo, para saber mais sobre doenças, postos de saúde, distribuição gratuita de medicamentos e preservativos e afins.

Aproveitando a oportunidade, é sempre bom lembrar:

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6) SÃO PAI-QUANDO-DÁ 

O texto Pai quando dá (clique aqui para ler) é certeiro. Conheço bem vários deles. O pai-quando-dá aparece em ocasiões especiais, não faz esforços para ajudar na criação dos filhos e tem sempre outras prioridades quando o assunto é dinheiro. E eles não existem apenas em relações com pais separados. Em lares em que os pais e mães estão juntos acontece bastante de a mãe (e/ou, infelizmente, babás e empregadas domésticas) cuidarem, educarem e alimentarem as crianças, enquanto os pais só aparecem para dar bronca ou brincar um pouquinho. Esse tópico casa com o primeiro: cuidar dos filhos também é dividir tarefas. Mulheres não têm a obrigação de abdicarem da própria vida em favor dos filhos, embora isso seja um mito corrente (e que, mais uma vez, mantém o privilégio masculino). Um fator curioso que já observei é que, com a internet e suas facilidades, tem muito pai-quando-dá que acha que basta postar uma foto do filho ou filha e dizer “PAPAI T AMA NHOMM” para que o mundo acredite em sua ótima atuação na vida desta criança (vejo alguns que sequer moram na mesma cidade que os filhos e não fazem esforço algum para visitá-los usando esse artifício). Só que, opa amigão: like no Facebook ou coraçãozinho no Instagram não coloca leite na mamadeira e nem faz criança dormir, ok? Paternidade acontece na prática, não basta falar sobre o filho.

7) ESTUPRAM

Segundo o Dossiê Mulher 2014, divulgado em agosto deste ano, no estado do Rio de Janeiro, 4.872 mulheres foram estupradas em 2013. Isso significa 13 mulheres atacadas por dia, ou uma a cada duas horas. Com base em informações de 2011 do Sistema de Informações de Agravo de Notificação do Ministério da Saúde (Sinan), pesquisa do IPEA lançada no início deste ano (que causou polêmica por seu resultado – que gerou a campanha “Eu não mereço ser estuprada” – e por errata publicada depois) estima que no mínimo 527 mil pessoas são estupradas por ano no Brasil e que, destes casos, apenas 10% chegam ao conhecimento da polícia. 
Segundo registros do Sinan, 89% das vítimas são do sexo feminino e possuem, em geral, baixa escolaridade. Do total, 70% são crianças e adolescentes. Infelizmente, a ideia geral que se tem é de que um estuprador é aquele cara que sai do mato com um facão, bate na mulher e a obriga a manter relações sexuais com ele. No entanto, isso serve apenas para esconder a realidade: familiares, amigos, vizinhos e outras pessoas próximas oferecem tanto ou mais risco quanto um estranho. E nem sempre a coação envolve força física. Pode envolver chantagem emocional, ameaça, entre outras coisas. Se a pessoa disse não, é estupro. Se a pessoa não tinha condição de dizer não (estava bêbada, dormindo, drogada, é jovem demais e/ou se sentiu intimidada, etc), é estupro. Se ela foi, de alguma forma, forçada, coagida, chantageada, humilhada, ainda que sutilmente, é estupro também.

“O que ainda precisa ser feito? Pensar sobre ajudar vítimas de estupros é uma coisa; pensar sobre acabar com o estupro é outra. E nós precisamos acabar com o estupro. Nós precisamos acabar com o incesto. Nós precisamos acabar com os espancamentos. Nós precisamos dar fim à prostituição e precisamos dar fim à pornografia. Isso significa que nós precisamos nos recusar a aceitar que esses são fenômenos naturais que simplesmente acontecem porque algum cara está tendo um dia ruim”

Trecho do discurso Relembre, resista, não se conforme, de Andrea Dworkin. Clique aqui para ler na íntegra.

8) PRATICAM VIOLÊNCIA DOMÉSTICA 

“A violência contra as mulheres constitui-se em uma das principais formas de violação dos seus direitos humanos, atingindo-as em seus direitos à vida, à saúde e à integridade física. Homens e mulheres são atingidos pela violência de maneira diferenciada. Enquanto os homens tendem a ser vítimas de uma violência predominantemente praticada no espaço público (minha observação: praticadas por eles mesmos e por instituições compostas e legitimadas por eles), as mulheres sofrem cotidianamente com um fenômeno que se manifesta dentro de seus próprios lares, na grande parte das vezes praticado por seus companheiros e familiares. A violência contra as mulheres em todas as suas formas (doméstica, psicológica, física, moral, patrimonial, sexual, tráfico de mulheres, assédio sexual, etc.) é um fenômeno que atinge mulheres de diferentes classes sociais, origens, idades, regiões, estados civis, escolaridade, raças e até mesmo a orientação sexual” — Leia a cartilha Política Nacional de Enfrentamento à Violência Contra as Mulheres na íntegra clicando aqui.

Preciso falar mais?

9) PEDOFILIA E OUTRAS PARAFILIAS

Já li diversas definições para parafilias: perversões, desvios sexuais, preferências anormais, etc. Essa matéria aqui explica um pouco o que são e categoriza algumas. No entanto, esquece de citar coisas importantissímas: são os homens os maiores “portadores” de parafilias, digamos assim. E muitas dessas parafilias envolvem dominação, subjugação, humilhação e tal. Como no caso dos que colocam a pedofilia em prática, dos que exibem suas partes íntimas em público sem o consentimento alheio, se esfregam e/ou se masturbam em cima de mulheres no transporte público e em outros lugares (também sem consentimento). Sem contar os que usam animais ou corpos de pessoas mortas. Ewww. Olha, eu acredito que, no caso dos seres humanos, sexo deve ser praticado com quem tem capacidade de dizer sim. Ou seja, entre pessoas. Vivas. E entre pessoas vivas que possuam idade/maturidade para consentir conscientemente – embora as relações hierárquicas de nossa sociedade torne até mesmo o consentimento de pessoas adultas questionável, caso elas estejam em situação de vulnerabilidade. Vejam bem, até respeito quem curte lamber uns pés, por exemplo, ou se excita vendo balões. Mas usar crianças, animais, pessoas distraídas, desacordadas… Mortas. NÃO! E não entendo como as parafilias, como um todo, são tratadas como situações individuais e não uma questão social que, de alguma forma se relaciona com o modo que a masculinidade é construída — uma construção que de certa forma diz ” é seu direito acessar os corpos que quiser, como quiser”. Esse é um assunto que eu gostaria de outras visões, aliás, pois comecei a pensar sobre não tem muito tempo.

10) COMETEM FEMICÍDIO

“No Brasil, entre 2001 a 2011, estima-se que ocorreram mais de 50 mil feminicídios: ou seja, em média, 5.664 mortes de mulheres por causas violentas a cada ano, 472 a cada mês, 15,52 a cada dia, ou uma morte a cada 1h30. (…) Isto porque além do elevado número de assassinatos por causas violentas – critério adotado no levantamento para indicar o feminicídio – o estudo constatou que o perfil dos óbitos é, em grande parte, compatível com situações relacionadas à violência doméstica e familiar contra a mulher e poderiam ter sido evitadas. Um indicativo nesse sentido é que quase um terço dos óbitos  teve o domicílio como local de ocorrência. (…) “Essa situação é preocupante, uma vez que os feminicídios são eventos completamente evitáveis, que abreviam as vidas de muitas mulheres jovens, causando perdas inestimáveis”, aponta a pesquisa, realizada com base na avaliação e correção de dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde. (…) O feminicídio é definido como crime de homicídio resultante de violência contra a mulher e é caracterizado em quatro circunstâncias: violência doméstica e familiar; violência sexual; mutilação ou desfiguração da vítima; emprego de tortura ou qualquer meio cruel ou degradante” — Leia mais aqui.

Martela, martela, martela o martelão, batendo a mãozinha, na palma da mão

Martela, martela, martela o martelão, batendo a mãozinha, na palma da mão

Bom, tentei ser breve e sucinta (e falhei *risos nervosos*). Com certeza muitas informações poderiam ter sido acrescentadas. Mas espero que este breve apanhado tenha ficado claro. Peguem os seus martelos e entrem no bonde, migas. E continuem acrescentando itens a lista nos comentários! 🙂

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“Enegrecer o Feminismo: A Situação da Mulher Negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero”

Hoje é 20 de novembro, dia da Consciência Negra. Publico abaixo um texto clássico da Sueli Carneiro, que toca em pontos importantes no que diz respeito à necessidade de priorizar as especificidades da vivência da mulher negra para que a luta feminista seja verdadeiramente plural e em busca da libertação de todas as mulheres:

No Brasil e na América Latina, a violação colonial perpetrada pelos senhores brancos contra as mulheres negras e indígenas e a miscigenação daí resultante está na origem de todas as construções de nossa identidade nacional, estruturando o decantado mito da democracia racial latino-americana, que no Brasil chegou até as últimas conseqüências. Essa violência sexual colonial é, também, o “cimento” de todas as hierarquias de gênero e raça presentes em nossas sociedades, configurando aquilo que Ângela Gilliam define como “a grande teoria do esperma em nossa formação nacional”, através da qual, segundo Gilliam: “O papel da mulher negra é negado na formação da cultura nacional; a desigualdade entre homens e mulheres é erotizada; e a violência sexual contra as mulheres negras foi convertida em um romance”.

O que poderia ser considerado como história ou reminiscências do período colonial permanece, entretanto, vivo no imaginário social e adquire novos contornos e funções em uma ordem social supostamente democrática, que mantém intactas as relações de gênero segundo a cor ou a raça instituídas no período da escravidão. As mulheres negras tiveram uma experiência histórica diferenciada que o discurso clássico sobre a opressão da mulher não tem reconhecido, assim como não tem dado conta da diferença qualitativa que o efeito da opressão sofrida teve e ainda tem na identidade feminina das mulheres negras.

Quando falamos do mito da fragilidade feminina, que justificou historicamente a proteção paternalista dos homens sobre as mulheres, de que mulheres estamos falando? Nós, mulheres negras, fazemos parte de um contingente de mulheres, provavelmente majoritário, que nunca reconheceram em si mesmas esse mito, porque nunca fomos tratadas como frágeis. Fazemos parte de um contingente de mulheres que trabalharam durante séculos como escravas nas lavouras ou nas ruas, como vendedoras, quituteiras, prostitutas… Mulheres que não entenderam nada quando as feministas disseram que as mulheres deveriam ganhar as ruas e trabalhar! Fazemos parte de um contingente de mulheres com identidade de objeto. Ontem, a serviço de frágeis sinhazinhas e de senhores de engenho tarados.

São suficientemente conhecidas as condições históricas nas Américas que construíram a relação de coisificação dos negros em geral e das mulheres negras em particular. Sabemos, também, que em todo esse contexto de conquista e dominação, a apropriação social das mulheres do grupo derrotado é um dos momentos emblemáticos de afirmação de superioridade do vencedor.

Hoje, empregadas domésticas de mulheres liberadas e dondocas, ou de mulatas tipo exportação.

Quando falamos em romper com o mito da rainha do lar, da musa idolatrada dos poetas, de que mulheres estamos falando? As mulheres negras fazem parte de um contingente de mulheres que não são rainhas de nada, que são retratadas como antimusas da sociedade brasileira, porque o modelo estético de mulher é a mulher branca. Quando falamos em garantir as mesmas oportunidades para homens e mulheres no mercado de trabalho, estamos garantindo emprego para que tipo de mulher? Fazemos parte de um contingente de mulheres para as quais os anúncios de emprego destacam a frase: “Exige-se boa aparência”.

Quando falamos que a mulher é um subproduto do homem, posto que foi feita da costela de Adão, de que mulher estamos falando? Fazemos parte de um contingente de mulheres originárias de uma cultura que não tem Adão. Originárias de uma cultura violada, folclorizada e marginalizada, tratada como coisa primitiva, coisa do diabo, esse também um alienígena para a nossa cultura. Fazemos parte de um contingente de mulheres ignoradas pelo sistema de saúde na sua especialidade, porque o mito da democracia racial presente em todas nós torna desnecessário o registro da cor dos pacientes nos formulários da rede pública, informação que seria indispensável para avaliarmos as condições de saúde das mulheres negras no Brasil, pois sabemos, por dados de outros países, que as mulheres brancas e negras apresentam diferenças significativas em termos de saúde.

Portanto, para nós se impõe uma perspectiva feminista na qual o gênero seja uma variável teórica, mas como afirmam Linda Alcoff e Elizabeth Potter, que não “pode ser separada de outros eixos de opressão” e que não “é possível em uma única análise. Se o feminismo deve liberar as mulheres, deve enfrentar virtualmente todas as formas de opressão”. A partir desse ponto de vista, é possível afirmar que um feminismo negro, construído no contexto de sociedades multirraciais, pluriculturais e racistas – como são as sociedades latino-americanas – tem como principal eixo articulador o racismo e seu impacto sobre as relações de gênero, uma vez que ele determina a própria hierarquia de gênero em nossas sociedades.

Em geral, a unidade na luta das mulheres em nossas sociedades não depende apenas da nossa capacidade de superar as desigualdades geradas pela histórica hegemonia masculina, mas exige, também, a superação de ideologias complementares desse sistema de opressão, como é o caso do racismo. O racismo estabelece a inferioridade social dos segmentos negros da população em geral e das mulheres negras em particular, operando ademais como fator de divisão na luta das mulheres pelos privilégios que se instituem para as mulheres brancas. Nessa perspectiva, a luta das mulheres negras contra a opressão de gênero e de raça vem desenhando novos contornos para a ação política feminista e anti-racista, enriquecendo tanto a discussão da questão racial, como a questão de gênero na sociedade brasileira.

Esse novo olhar feminista e anti-racista, ao integrar em si tanto as tradições de luta do movimento negro como a tradição de luta do movimento de mulheres, afirma essa nova identidade política decorrente da condição específica do ser mulher negra. O atual movimento de mulheres negras, ao trazer para a cena política as contradições resultantes da articulação das variáveis de raça, classe e gênero, promove a síntese das bandeiras de luta historicamente levantadas pelos movimento negro e de mulheres do país, enegrecendo de um lado, as reivindicações das mulheres, tornando-as assim mais representativas do conjunto das mulheres brasileiras, e, por outro lado, promovendo a feminização das propostas e reivindicações do movimento negro.

Enegrecer o movimento feminista brasileiro tem significado, concretamente, demarcar e instituir na agenda do movimento de mulheres o peso que a questão racial tem na configuração, por exemplo, das políticas demográficas, na caracterização da questão da violência contra a mulher pela introdução do conceito de violência racial como aspecto determinante das formas de violência sofridas por metade da população feminina do país que não é branca; introduzir a discussão sobre as doenças étnicas/raciais ou as doenças com maior incidência sobre a população negra como questões fundamentais na formulação de políticas públicas na área de saúde; instituir a crítica aos mecanismos de seleção no mercado de trabalho como a “boa aparência”, que mantém as desigualdades e os privilégios entre as mulheres brancas e negras.

Tem-se, ainda, estudado e atuado politicamente sobre os aspectos éticos e eugênicos colocados pelos avanços das pesquisas nas áreas de biotecnologia, em particular da engenharia genética. Um exemplo concreto refere-se, por exemplo, às questões de saúde e de população. Se, historicamente, as práticas genocidas tais como a violência policial, o extermínio de crianças, a ausência de políticas sociais que assegurem o exercício dos direitos básicos de cidadania têm sido objetos prioritários da ação política dos movimentos negros, os problemas colocados hoje pelos temas de saúde e de população nos situam num quadro talvez ainda mais alarmante em relação aos processos de genocídio do povo negro no Brasil.

Portanto, esse novo contexto de redução populacional, fruto da esterilização maciça – aliada tanto à progressão da AIDS quanto do uso da droga entre a nossa população – e das novas biotecnologias, em particular a engenharia genética, com as possibilidades que ela oferece de práticas eugênicas, constitui novo e alarmante desafio contra o qual o conjunto do movimento negro precisa atuar.

A importância dessas questões para as populações consideradas descartáveis, como são os negros, e o crescente interesse dos organismos internacionais pelo controle do crescimento dessas populações, levou o movimento de mulheres negras a desenvolver uma perspectiva internacionalista de luta. Essa visão internacionalista está promovendo a diversificação das temáticas, com o desenvolvimento de novos acordos e associações e a ampliação da cooperação interétnica. Cresce ente as mulheres negras a consciência de que o processo de globalização, determinado pela ordem neoliberal que, entre outras coisas, acentua o processo de feminização da pobreza, coloca a necessidade de articulação e intervenção da sociedade civil a nível mundial. Essa nova consciência tem nos levado ao desenvolvimento de ações regionais no âmbito da América Latina, do Caribe, e com as mulheres negras dos países do primeiro mundo, além da participação crescente nos fóruns internacionais, nos quais governos e sociedade civil se defrontam e definem a inserção dos povos terceiro-mundistas no terceiro milênio.

Essa intervenção internacional, em especial nas conferências mundiais convocadas pela ONU a partir da década de 1990, tem nos permitido ampliar o debate sobre a questão racial a nível nacional e internacional e sensibilizar movimentos, governos e a ONU para a inclusão da perspectiva anti-racista e de respeito à diversidade em todos os seus temas. A partir dessa perspectiva, atuamos junto à Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento, realizada no Cairo, em 1994, em relação à qual as mulheres negras operaram a partir da idéia de que “em tempos de difusão do conceito de populações supérfluas, liberdade reprodutiva é essencial para as etnias discriminadas para barrar as políticas controladoras e racistas”.

Assim, estivemos em Viena, na Conferência de Direitos Humanos, da qual saiu o compromisso sugerido pelo governo brasileiro, de realização de uma conferência mundial sobre racismo e outra sobre imigração, para antes do ano 2000.

Atuamos no processo de preparação da Conferência de Beijing, durante o qual foi realizado um conjunto de ações através das quais é possível medir o crescimento da temática racial no movimento de mulheres do Brasil e no mundo. Vale destacar que a Conferência de Viena assumiu que os direitos da mulher são direitos humanos, o que está consubstanciado na Declaração e no Programa de Ação de Viena, que dão grande destaque à questão da mulher e pregam a sua plena participação, em condições de igualdade, na vida política, civil, econômica, social e cultural nos níveis nacional, regional e internacional, e a erradicação de todas as formas de discriminação sexual, considerando-as objetivos prioritários da comunidade internacional.

Se a Declaração de Viena avança na compreensão da universalidade dos direitos humanos das mulheres, para nós mulheres não brancas era fundamental uma referência explícita à violação dos direitos da mulher baseada na discriminação racial. Entendíamos que a Conferência de Beijing deveria fazer uma referência explícita à opressão sofrida por um contingente significativo de mulheres em função da origem étnica ou racial. Essas conferências mundiais se tornaram espaços importantes no processo de reorganização do mundo após a queda do muro de Berlim e constituem hoje fóruns de recomendações de políticas públicas para o mundo.

O movimento feminista internacional tem operado nesses fóruns como o lobby mais eficiente entre os segmentos discriminados do mundo. Isso explica o avanço da Conferência de Direitos Humanos de Viena em relação às questões da mulher, assim como os avanços registrados na Conferência do Cairo e na Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (ECO 92), realizada no Rio de Janeiro em 1992. Nos esforços desenvolvidos pelas mulheres na Conferência de Beijing, um dos resultados foi que o Brasil, pela primeira vez na diplomacia internacional, obstruiu uma reunião do G-77, grupo dos países em desenvolvimento do qual faz parte, para discordar sobre a retirada do termo étnico-racial do Artigo 32 da declaração de Beijing, questão inegociável para as mulheres negras do Brasil e dos países do Norte. A firmeza da posição brasileira assegurou que a redação final do Artigo 32 afirmasse a necessidade de “intensificar esforços para garantir o desfrute, em condições de igualdade, de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais a todas as mulheres e meninas que enfrentam múltiplas barreiras para seu desenvolvimento e seu avanço devido a fatores como raça, idade, origem étnica, cultura, religião…” O próximo passo será a monitoração desses acordos por parte de nossos governos.

Conclusões
A origem branca e ocidental do feminismo estabeleceu sua hegemonia na equação das diferenças de gênero e tem determinado que as mulheres não brancas e pobres, de todas as partes do mundo, lutem para integrar em seu ideário as especificidades raciais, étnicas, culturais, religiosas e de classe social. Até onde as mulheres brancas avançaram nessas questões? As alternativas de esquerda, de direita e de centro se constroem a partir desses paradigmas instituídos pelo feminismo que, segundo Lélia Gonzalez, apresentam dois tipos de dificuldades para as mulheres negras: por um lado, a inclinação eurocentrista do feminismo brasileiro constitui um eixo articulador a mais da democracia racial e do ideal de branqueamento, ao omitir o caráter central da questão da raça nas hierarquias de gênero e ao universalizar os valores de uma cultura particular (a ocidental) para o conjunto das mulheres, sem mediá-los na base da interação entre brancos e não brancos; por outro lado, revela um distanciamento da realidade vivida pela mulher negra ao negar “toda uma história feita de resistência e de lutas, em que essa mulher tem sido protagonista graças à dinâmica de uma memória cultural ancestral (que nada tem a ver com o eurocentrismo desse tipo de feminismo)”. Nesse contexto, quais seriam os novos conteúdos que as mulheres negras poderiam aportar à cena política para além do “toque de cor” nas propostas de gênero? A feminista negra norte-americana Patricia Collins argumenta que o pensamento feminista negro seria “(…) um conjunto de experiências e idéias compartilhadas por mulheres afro-americanas, que oferece um ângulo particular de visão de si, da comunidade e da sociedade… que envolve interpretações teóricas da realidade das mulheres negras por aquelas que a vivem…” A partir dessa visão, Collins elege alguns “temas fundamentais que caracterizariam o ponto de vista feminista negro”. Entre eles, se destacam: o legado de uma história de luta, a natureza interconectada de raça, gênero e classe e o combate aos estereótipos ou “imagens de autoridade”.

Acompanhando o pensamento de Patricia Collins, Luiza Barros usa como paradigma a imagem da empregada doméstica como elemento de análise da condição de marginalização da mulher negra e, a partir dela, busca encontrar especificidades capazes de rearticular os pontos colocados pela feminista norte-americana. Conclui, então, que “essa marginalidade peculiar é o que estimula um ponto de vista especial da mulher negra, (permitindo) uma visão distinta das contradições nas ações e ideologia do grupo dominante”. “A grande tarefa é potencializá-la afirmativamente através da reflexão e da ação política”.

O poeta negro Aimé Cesaire disse que “as duas maneiras de perder-se são: por segregação, sendo enquadrado na particularidade, ou por diluição no universal”. A utopia que hoje perseguimos consiste em buscar um atalho entre uma negritude redutora da dimensão humana e a universalidade ocidental hegemônica que anula a diversidade. Ser negro sem ser somente negro, ser mulher sem ser somente mulher, ser mulher negra sem ser somente mulher negra. Alcançar a igualdade de direitos é converter-se em um ser humano pleno e cheio de possibilidades e oportunidades para além de sua condição de raça e de gênero. Esse é o sentido final dessa luta.

Acredito que nessa década, as mulheres negras brasileiras encontraram seu caminho de autodeterminação política, soltaram as suas vozes, brigaram por espaço e representação e se fizeram presentes em todos os espaços de importância para o avanço da questão da mulher brasileira hoje. Foi sua temática a que mais cresceu politicamente no movimento de mulheres do Brasil, integrando, espera-se que definitivamente, a questão racial no movimento de mulheres. O que impulsiona essa luta é a crença “na possibilidade de construção de um modelo civilizatório humano, fraterno e solidário, tendo como base os valores expressos pela luta anti- racista, feminista e ecológica, assumidos pelas mulheres negras de todos os continentes, pertencentes que somos à mesma comunidade de destinos”. Pela construção de uma sociedade multirracial e pluricultural, onde a diferença seja vivida como equivalência e não mais como inferioridade

Perfil de Sueli Carneiro, por Fundação Palmares:

Sueli Carneiro é doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e fundadora do Geledés – Instituto da Mulher Negra, primeira organização negra e feminista independente de São Paulo. Teórica da questão da mulher negra, criou o único programa brasileiro de orientação na área de saúde física e mental específico para mulheres negras, onde mais de trinta mulheres são atendidas semanalmente por psicólogos e assistentes sociais.

Em 1988 foi convidada a integrar o Conselho Nacional da Condição Feminina, em Brasília. Após denúncias de um grupo de cantores de rap da cidade de São Paulo, que queriam proteção porque eram vítimas frequentes de agressão policial. Ela decidiu criar em 1992 um plano específico para a juventude negra, o Projeto Rappers, onde os jovens são agentes de denúncia e também multiplicadores da consciência de cidadania dos demais jovens.

Sueli-Carneiro-Natura

Ela é também autora da obra “Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil”, que traz uma abordagem crítica dos comportamentos humanos e apresenta os principais avanços na superação das desigualdades criadas pela prática da discriminação racial – indicadores sociais, mercado de trabalho, consciência negra, cotas, miscigenação racial no Brasil, racismo no universo infantil, obrigatoriedade do ensino da História e Cultura Africana e Afro-Brasileira nas escolas públicas do país, entre outros.

O site da Fundação Palmares disponibiliza um mosaico com algumas das mulheres negras que foram ou são protagonistas da luta do movimento negro no Brasil. Clique aqui e acesse.

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“Você pode me chamar de TERF, mas eu não sou transfóbica”

Mentira, não pode não. Mas esse é o título de um texto cuja tradução posto abaixo. Ele fala de um assunto um tanto quanto polêmico dentro do meio feminista virtual: as temidas ~TERFs~. Eu não me considero feminista radical, por me achar bastante leite com pêra, mas me alinho com diversas ideias que giram dentro desse movimento. O feminismo radical vai direto ao ponto quando se fala de patriarcado, violência contra a mulher, prostituição, pedofilia, pornografia, etc. Assuntos ainda urgentes – e ainda hoje negligenciados, mesmo por feministas. Não me apetece o malabarismo retórico que pode ser visto, algumas vezes, dentro do feminismo “mainstream”, feito com o intuito de preservar agentes de violência de culpa e de dissipar categorias em indivíduos, transformando certas ações em meras vontades individuais, ou certas violências em atos descolados de uma estrutura.

Me revolta a violência sofrida por pessoas transexuais. No entanto, pensar em como o conceito de transexualidade se insere dentro do meio feminista, especialmente quando falamos de mulheres transexuais, não significa desejar o mal para essas pessoas ou concordar com agressões. Até mesmo porque são os homens os principais personagens no que diz respeito ao extermínio e exploração de minorias.

Não colabore com a perseguição e o isolamento de mulheres, não subestime a inteligência alheia, não ache que misoginia é algo irrelevante. Debata, discuta, aprenda, ensine. Não jogue fora o conhecimento de outras mulheres. O feminismo agradece. Segue o texto:

Você pode me chamar de TERF, mas eu não sou transfóbica

Aviso: eu aceito que, assim como todo outro grupo no planeta, mulheres trans têm uma pluralidade de pontos de vista teóricos. Eu prezo que muitas são apoiadoras do movimento pela libertação de mulheres, e tenho amigas que o são e de quem ouço e aprendo diariamente. Esse artigo se refere aos pontos de vista dominantes no Twitter.

Quantas vezes por dia eu sou chamada de TERF? Muitas vezes para se contar. Quantas vezes eu vi “você é TERF, sua opinião é irrelevante”? Muitas vezes para se contar. Não vamos fingir que TERF é uma descrição objetiva de um ponto de vista teórico. É um insulto. Um termo abusivo cujo objetivo é minar, dispensar e apagar a voz de mulheres feministas radicais.

TERF é um acrônimo para “Trans Exclusionary Radical Feminists” (inglês para “Feministas Radicais Trans-Excludentes”). Mas o que isso significa? A ênfase é na exclusão – um ato intencional – e a implicação é que isso é baseado em preconceito e na discriminação propositada. Uma coisa ruim. Mas uma análise mais próxima expõe as falhas nessa definição. Excluídas de quê? Feminismo? Da situação de ser mulher? A análise do feminismo radical mantém que o feminismo é o movimento de mulheres para a liberação das mulheres da opressão, e que a realidade biológica feminina é um aspecto que define a experiência de opressão de uma mulher. Isso não exclui mulheres trans com base em preconceitos ou discriminação mais do que exclui homens. TERF também ofusca o fato que a vasta maioria de feministas radicais acredita que TODAS as pessoas deviam trabalhar juntas para acabar com a opressão das mulheres e que muitas acreditam que, uma vez que mulheres trans transicionam, elas experimentam tanto preconceito e discriminação quanto mulheres que nasceram mulheres experimentam. Na realidade, TERF é um termo sem significado baseado no desejo de silenciar a voz de feministas radicais. Em última análise, é misógino.

Então, por que não podemos nos dar bem?

1) Insultos, mentiras, silenciamento & demonização

Então, nós explicamos que toda vez que TERF é usado tem a intenção de insultar. Nós sabemos que você sabe disso. Não é um bom começo para um diálogo produtivo, né? Você pensaria que pessoas trans que se identificam como mulheres seriam compreensivas e abertas a mulheres analisando a opressão que elas enfrentam, mesmo que elas discordem. Ao invés disso, nós somos silenciadas. Uma mulher é designada como “RadFem” e tudo que ela diz não tem valor e ela não é bem-vinda em conversas. Como isso pode não ser interpretado como um espelho do comportamento de homens patriarcais que esperam nos silenciar?

Brincando, muitas RadFems começaram a usar o termo “radfemfobia”. Na verdade não é uma brincadeira. Radfems são constantemente expostas a preconceitos e fanatismos – ou seja, sendo ignoradas, excluídas ou anuladas só porque elas são sabidamente feministas radicais. Panelinhas são criadas só para se opor a elas. Mentiras são constantemente contadas e são prontamente aceitas pela multidão. Eu ainda não vi outro grupo enfrentar tanta hostilidade, tanto da parte de homens quanto da parte de outras mulheres.

A demonização vai tão longe que a narrativa aceita é que o propósito/motivação de feministas radicais é o de atacar mulheres trans. Mas a pista está no título. Feministas radicais querem acabar a opressão de mulheres, esse é o ÚNICO propósito ou motivação. Nós vemos a opressão das mulheres e trabalhamos fortemente para descobrir as ações necessárias a serem tomadas para contra-atacar essa opressão ou as crenças que sustentam a opressão. Novamente, você pode não concordar com a análise, mas interpretar de forma errada a motivação é tanto desonesto quanto manipulador. Mantendo que a análise existe para oprimir “você” diz mais sobre a sua auto-obsessão do que sobre o feminismo radical.

2) Gênero

Feministas radicais começaram a usar “gênero” na década de 1960 (antes disso, o termo raramente era usado). O propósito de distinguir sexo e gênero era para ilustrar “que a condição social de ser uma mulher ou ser um homem não é a mesma coisa que, e não segue “naturalmente”, a condição biológica de ser fêmea ou macho” (http://www.trouble.myzen.co.uk/?page_id=37). Note que isso não significa que homens podem se tornar mulheres e vice-versa. Isso significa que o papel social “mulher” é imposto como um resultado de uma pessoa ser fêmea, como Simone de Beauvior resumiu em sua citação “não se nasce mulher, torna-se”. Então mulher/fêmea e homem/macho são inseparáveis, apesar de que indivíduos esclarecidos e/ou empoderados podem conseguir jogar fora algumas das imposições sociais. Mas o que isso realmente significa é que “gênero” é uma hierarquia nos dizendo como nós “devíamos” nos comportar baseado no nosso sexo e, com todas as coisas “femininas” desvalorizadas, isso serve como a maior ferramenta do patriarcado para manter mulheres como subordinadas. 

Reivindicações de um cérebro, essência, sentimento ou identidade de gênero femininos são essencialistas. Elas apelam a uma ideia que existe uma “mulher” além de sua experiência de opressão baseada em seu sexo e isso confirma crenças patriarcais antiquíssimas de mulheres como “outras”. Este último, identidade de gênero, é frequentemente proposto como uma experiência subjetiva. Na realidade, é a proposição mais perigosa, porque negá-la é uma afronta à crença dominante no individualismo liberal. Mas um apelo à identidade de gênero depende fortemente em um preconceito do que significa se sentir como/ser uma mulher. Em que mais isso pode ser baseado além de influências culturais? Esse é o resultado de estereótipos e misoginia.

3) Essencialismo

Ao promover a transição – envolvendo operações ou não (excluindo aqueles que passam por distúrbio de disforia corporal) –, pessoas trans reafirmam a conexão entre gênero e sexo ao invés de subvertê-la. Revolucionário seria jogar fora as correntes do gênero e ser quem você quiser ser independente do corpo em que você se encontra.

Quando mulheres trans mudam o jeito que elas usam o seu cabelo, removem seus pelos, passam por cirurgias cosméticas, implantes mamários ou criam uma cavidade que elas chamam de “vagina”, estão reduzindo mulheres a seus corpos e as normas sociais impostas sobre esses corpos.

Ao insistir que elas são ou precisam se tornar mulheres, mulheres trans validam ideias arcaicas sobre o sexo feminino. É verdade que muitas mulheres também fazem essa função dentro do mundo, mas isso não nega o impacto. Querer acabar com a opressão feminina requer que se reconheça isso, assim como feministas radicais reconhecem. Muitas mulheres trans também buscam maneiras de expressar suas experiências de forma a não impactar mulheres negativamente. Isso pode ser feito.

4) Apagamento de mulheres

Mulheres têm sido oprimidas desde que temos registros, e com 54% da população mundial é a opressão mais difundida de todas. Nossas ancestrais lutaram durante o último século por todos os direitos e avanços que nós fizemos. Então quando nós ouvimos que direitos reprodutivos etc. não são problema de mulheres, isso machuca. Não só em um nível individual, mas o movimento em si. Isso coloca obstáculos enormes e incorretos numa trilha que ainda está longe de acabar.

Recentemente o nome do blog “Vagenda” e assuntos como menstruação foram rotulados como exclusionários e transfóbicos. Mulheres lutaram por séculos para não só terem uma voz, mas também terem direito de falar sobre assuntos que afetam fêmeas abertamente, sem serem vistas como desimportantes ou tabus. Uma pessoa muito mais sensível que eu disse “se 99.9% das pessoas são afetadas são mulheres, é bastante razoável chamar de uma questão feminina”. Essas são questões femininas. Essas são questões em que o movimento feminista *precisa* focar. Porque, se feministas não o fizerem, ninguém mais o fará. Esse é meio que o ponto do feminismo. Silenciar mulheres nessas questões, o que inclui excluí-las do discurso feminista, é misoginia.

Mulheres estão sendo silenciadas. O novo choro de transfobia só serve para nos atrasar, apagando todo o progresso que foi feito. As oprimidas, aquelas que são socializadas para acreditar que “todos os outros primeiro, por último eu” estão ouvindo isso de novo. E muitas delas estão comprando esse discurso. Pior ainda são mulheres que, falando sobre suas experiências como fêmeas e analisando sua opressão, são alvos de ataque enquanto os verdadeiros transfóbicos são ignorados. “Toda a transfobia que eu já vivenciei foi de TERFs”. Então você está sugerindo que feministas radicais são quem batem, estupram e matam mulheres trans? Não, eu pensei que não. Porque um pequeno grupo de mulheres com pouca ou nenhuma influência está sendo alvo de tal campanha?

Então. Para ser honesta, eu não ligo para como você vive a sua vida. Eu não ligo para como você quer se chamar ou para como você quer se vestir. Eu não ligo se alguns grupos ou espaços femininos te acolhem de braços abertos. Eu fico feliz de lutar ao seu lado pelos seus direitos legais, saúde e segurança apropriados, o que eu acho que todos os seres humanos merecem.

Onde eu começo a ter problemas é onde você nega discussões quando as necessidades e interesses de mulheres e mulheres trans se tornam conflitantes. Onde você me insulta e diz que suas necessidades importam acima de tudo. Onde suas palavras e crenças silenciam vozes de mulheres, apagam a realidade de mulheres e contribuem para a opressão de mulheres. O que, honestamente, como mulher trans ou feminista liberal, eu pensei que você entenderia.

Texto do blog A feminist roarsClique aqui para ler o original em inglês.

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“Não é uma história particular, é um momento histórico”

Após conversa informal com a jornalista Gabriela Sobral – pessoa maravilhosa e uma das minhas melhores amigas –, decidi convidá-la para escrever um pouco do que ela me disse aqui no blog. Ela me fez pensar em um nível mais particular sobre a importância de políticas multiplicadoras, ou seja, que capacitam e empoderam as pessoas e permitem que essa capacitação e empoderamento possam ser repassados. Porque não dá para centralizar poder e dinheiro em uma mão só ou pensar apenas em ensino técnico a fim de se ter uma mão de obra mais qualificada. Precisamos transformar as pessoas em personagens principais das próprias vidas. Outro aspecto interessante que ela abordou é o fato de que temos sim que botar para fora as nossas ideias, debater. Conhecimento é uma coisa que a gente constrói coletivamente e, enquanto mulheres, somos treinadas a achar o que a gente pensa irrelevante. Não é.

Esse é um texto pessoal em um blog pessoal, então caso esperem uma análise política bem técnica, não vai ser aqui, nesse post. E embora eu tenha críticas ao governo atual, como todo mundo (/serracomedor, sdds eleições 2010), acredito que dentro das nossas escolhas atuais, o prosseguimento dele é ideal para a continuação da construção de uma sociedade mais justa. E vamos torcer para que os debates só cresçam e na próxima vez, o poder legislativo eleito no Brasil seja menos triste, conservador, religioso, militar, empresário, zuero, machista, homofóbico, etc.

Fiquem com o texto de Gabriela:

As eleições chegaram e agora já, quase, passaram. Parafraseando Drummond, foram tempos de partidos, foram tempos de mulheres e homens partidos. Contudo, ninguém pode negar que o debate é mais que salutar (claro, aquela conversinha coerente e não o discurso de ódio como vemos na maioria das vezes). Debatendo, você não só afirma os preceitos democráticos, coloca-se na esfera de debate, vê-se como parte da sociedade civil, como também passa a refletir sobre coisas que você acredita, mas que ficavam silenciadas. Por isso, hablar é importante para que sua voz ganhe legitimidade, mesmo que seja ali naquele bolo com café ou no sanduba nojento com a amiga. Ninguém precisa estar na Globo. Acredite, é nos micro espaços que ocorrem as transformações.

Suas percepções políticas se constroem por motivações culturais e pelo conhecimento adquirido, nas instituições rígidas como a escola, universidades ou na convivência familiar, no vai e vem da rua mesmo. O importante é você usar suas experiências, colocando-se num todo, pois é na coletividade que se produz os grandes arranques sociais. Por isso, coloque o seu discurso na roda, nada de risinhos e acenos de sim com a cabeça. Fale! Só assim criamos novos espaços de discussão e legitimamos nossas causas.

Eu respeitei muito isso, nessas eleições, abstive-me algumas vezes, preguiça mesmo. Outras tive que respirar fundo e ir adiante. Não foi fácil ouvir referências à presidenta Dilma como “vagabunda”, “safada”, “cachorra”. Essa misoginia me deixava doente, triste de verdade. Pensava como uma mulher presa e torturada, em um dos períodos mais cruéis, pode ser chamada assim.

Por isso, decidi trazer as coisas nas quais acredito; a minha história de vida para o contexto no qual estou inserida, pois o debate, o lugar da fala é o lugar da construção simbólica, na qual temos que buscar nossa representatividade. Olhando sempre para o lado, analisando sempre o contexto social, pois é nele que se dá a vida. Claro que as criações artificiais são importantes e a questão econômica mais importante ainda. Contudo, acredito que as políticas sociais – isso quer dizer políticas que têm um caráter de alcance e transformação na vida social e não só em termos estruturais – equalizam outras tantas questões que fogem às análises tecnicistas.

Essa coisa de olhar pra fora, de se retroalimentar das experiências, como forma de perceber o que anda acontecendo, eu aprendi desde criança. Minha mãe sempre foi professora. Mas foi graças à expansão e revitalização do ensino universitário, iniciado no governo Lula, que ela pode fazer mestrado e depois prestar concurso para graduação em letras libras na Universidade Federal do Pará. Isso, é claro, melhorou nossa vida financeira, mas melhorou ainda mais a vida da minha mãe, a minha vontade de também me qualificar, a autonomia dela, que, hoje, chefia a faculdade de línguas modernas e estrangeiras da UFPA. Além disso, pude escolher onde estudar, vim morar em Brasília, hoje curso um mestrado profissional, no IPHAN, que também faz parte das novas políticas. Enfim, tive oportunidades imensas, não só porque minha mãe se beneficiou, mas porque houve um investimento no ensino público e porque eu estava imersa em um momento de produção de conhecimento, de auto estima, de mudanças, de um um presente bom e palpável e um futuro a vir .

As políticas públicas são feitas a partir do princípio das escolhas drásticas, no caso, reestruturar o ensino superior. Com isso, não é só a Liza que passa a ser uma funcionária pública e ganhar mais, são os filhos da Liza que passam a ter mais condições de investir em suas carreiras, o filho da Liza que passa a ver a mãe (mulher) como chefe de família, a filha que recupera a tranquilidade e passa a investir na sua vida, a Liza que pode ajudar o neto, a Liza e todos e todas que a cercam passam a viver um momento histórico/social de desenvolvimento pessoal e material. Não é uma história particular, é um momento histórico.

Acho que o discurso do “vamos cortar gastos”, “vamos enxugar a máquina pública”, “a máquina está inflada” é reducionista. O aumento de programas sociais, a criação de programas e políticas públicas requerem uma estrutura burocrática mínima. O Ministério da Justiça, por exemplo, que, antes, só cuidava das suas ações básicas passar a ramificar a sua atuação para alcançar a sociedade civil.

Não funcionando como uma estrutura hermética, mas uma estrutura que incorpora e chega às pessoas. Hoje, ampliou-se as ações da comissão de anistia, com isso criou-se o movimento da comissão da verdade, o ministério passa a ter uma política efetiva contra o tráfico humano. Enfim, para isso, sim, os ministérios vão inflar, crescer. As políticas econômicas tem que ser contempladas? Óbvio. Mas atentemos para esse discurso do corte. Pois, a longo prazo, as políticas sociais que transformam uma sociedade.

Tudo isso mostra que minha história pessoal influi no meu voto? Sim. E isso é bom, pois mostra o quanto eu sou preenchida pelas minhas experiências. Aquele que diz em afastamento ou isenção, parece-me vazio. Agora, isso não significa individualismo. Pelo contrário, foi pela minha vivência e, principalmente, pela trajetória da minha mãe que pude aprender a colocar a Gabriela na prática social e aprender a ver o todo.

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Aborto no Brasil: já passou da hora do assunto ser levado a sério

Leia matéria que a Agência Brasil publicou nesta terça-feira:

Quadrilhas envolvidas com abortos chegavam a lucrar R$ 300 mil por mês

A Polícia Civil do Rio de Janeiro desarticulou hoje (14) sete organizações criminosas envolvidas com a prática ilegal de abortos na cidade. Uma delas chegava a lucrar até R$ 300 mil por mês. Segundo o delegado Felipe Bittencourt, da Corregedoria da Polícia Civil, os grupos eram independentes, mas a colaboração entre eles evitava a competição.

Apesar de não terem comando unificado, os grupos respeitavam os territórios de atuação definidos para cada um. Alguns dividiam os bairros de Bonsucesso, Rocha e Tijuca, na zona norte. Outros dois atuavam em Campo Grande e Guadalupe, na zona oeste. Os demais comandavam a prática em Copacabana e Botafogo, na zona sul. Conforme o delegado, 75 pessoas acusadas de integrar as associações criminosas tiveram prisão preventiva decretada pela Justiça.

“O histórico dessas pessoas demonstra que ela atuavam há muitos anos. Alguns haviam sido indiciados na década de 60. É uma história de crimes e de impunidade. Deflagramos hoje uma ação que desmantela vários crimes. A legislação é muito benevolente. Podemos quase afirmar que, pelo retorno financeiro, vale a pena cometer esse crime”, salientou o chefe da polícia fluminense, Fernando Veloso.

Até as 11h30 de hoje, 56 mandados de prisão tinham sido cumpridos. Destes, cinco eram de pessoas que já estavam presas. Entre os presos, estão médicos, policiais civis e militares, advogados e um sargento do Exército.

As clínicas ilegais mantidas pelas organizações criminosas faziam abortos em mulheres com até sete meses de gestação. Os preços variavam de R$ 1 mil (para maiores de 18 anos e em estágio inicial de gravidez) até R$ 7,5 mil (para adolescentes com 23 a 26 semanas de gestação).

O processo conta com depoimentos de 37 mulheres submetidas a procedimentos abortivos. Elas não foram indiciadas pelo crime de aborto, mas poderão responder criminalmente, caso esse seja o entendimento do Judiciário.

Cada grupo tinha um chefe e contava com responsáveis pelas mais variadas tarefas, como procedimento cirúrgico, auxílio de enfermagem, agenciamento das gestantes, segurança do local, medicamentos e transporte das usuárias do serviço clandestino.

Os servidores públicos investigados, entre eles oito policiais civis e quatro militares, seriam responsáveis por tarefas de segurança,  proteção da associação criminosa, administração das clínicas e transporte das gestantes. Além disso, recebiam dinheiro para evitar a repressão ou investigação dos casos.

Entre os crimes apurados, estão aborto (pena de um a quatro anos de prisão), corrupção passiva (dois a 12 anos), exercício ilegal da medicina (seis meses a dois anos), associação para o tráfico (três a dez anos) e associação criminosa armada (um a três anos).

Entre os dez médicos denunciados à Justiça, alguns têm anotações muito antigas por aborto. Um dos acusados, por exemplo, havia sido autuado pela prática em 1962. Uma médica, com processos desde 2001, é suspeita de mais de mil procedimentos.

Secretário estadual de Segurança, José Mariano Beltrame informou que a operação de hoje deve servir para a rediscussão da legislação relativa ao aborto. “Acho o momento muito oportuno para as coisas sereem discutidas. Não vamos dizer o que a lei precisa fazer. Entretanto, a sociedade tem de conhecer o efeito que uma pessoa sofre ao praticar um aborto. É um problema nacional. Temos de acabar com o tabu e recolocar a discussão à mesa”, acrescentou Beltrame.

Acho que, com essa notícia, podemos entender muita coisa. Como funciona todo o processo por trás de um aborto ilegal feito em clínica no Brasil (aliás, no momento que escrevo esse post, passa uma reportagem na televisão falando sobre a operação, frisando as más condições de higiene dessas clínicas). E como manter esse processo na ilegalidade é lucrativo. Tanto que existe toda uma rede de profissionais envolvida, que ganha em cima da falta de amparo que as mulheres sofrem: médicos, policiais, advogados e etc. Vejam bem: UMA clínica chegava a lucrar até R$ 300 mil por mês, o que gera mais de R$ 3 milhões por ano. Sendo cada procedimento entre R$ 1 mil e R$ 7,5 mil, vamos pegar um valor médio de R$ 3500: esse valor significa mais de 80 abortos por mês em, repito, UMA CLÍNICA. Nessa operação, foram desarticuladas SETE organizações, mas claro que existem muitas outras espalhadas pelo país.  Ou seja, os números são muito, muito mais altos do que estes aqui. Então, olha, vamos combinar que não são apenas questões morais que emperram o debate, né!?

Em maio deste ano, o aborto legal entrou para lista de procedimentos do SUS. Isso facilitaria o processo, definindo exatamente qual seria o repasse do governo para os hospitais, entre outras medidas. Porém, pudemos comemorar este avanço por muito pouco tempo: uma semana depois, a portaria que previa a medida foi revogada. O Ministério da Saúde minimizou a questão (que não se sabe se foi causada por pressão de bancada evangélica ou a alegada “falha técnica”), dizendo que era apenas uma mudança burocrática e que o SUS já faz a interrupção da gravidez em casos permitidos pela legislação. No entanto, parte da luta feminista é justamente para colocar a burocracia a favor da mulher, oras. Quanto mais definição e amparo, sem deixar margem para interpretações subjetivas da situação por parte de profissionais que misturam crenças e opiniões onde deveriam ser neutros, mais avanço. Se você quer saber em quais situações o aborto é permitido ou tem outras dúvidas, clique aqui. Existem estimativas de que 1 milhão de abortos aconteçam por ano no Brasil. 

As mortes recentes veiculadas pela mídia de mulheres que foram interromper a gravidez em clínicas clandestinas (leia aqui e aqui), estão trazendo o debate à tona novamente e desmistificam a frase que diz que só mulher pobre morre por conta de aborto. Na verdade, nenhuma mulher está segura. Quem não tem dinheiro está ainda mais vulnerável e exposta à riscos, claro, mas as que têm condições de ir para uma clínica podem se deparar com falsos médicos, entre outros tipos de golpistas, e ambientes sujos. É triste a questão do aborto não ser tratada com a devida urgência.

(Leia: Óbitos em clínicas clandestinas de aborto estimulam debate sobre o tema)

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É preciso acabar com o mito de que facilitar o aborto é “liberar geral, uhu, festa do aborto”. Esse é um procedimento cirúrgico que envolve não apenas o corpo, mas o psicológico da mulher (embora existam as que não sintam culpa ou não sofram em relação ao assunto. Esse é um outro ponto importante também: mesmo quem é a favor do aborto ás vezes espera que as mulheres estejam sempre chorosas e arrependidas, quase como numa espécie de pedido eterno de redenção pelo ato). Aborto é questão de saúde pública. Não importa o que eu faria na minha vida pessoal, a sua religião ou o que o seu vizinho acha moralmente correto. O que importa é a escolha da mulher. Sim, o uso do preservativo deve ser estimulado, educação, planejamento familiar, etcetcetcetc (lembrando que nenhum desses itens é dever apenas da mulher, mesmo que muitos homens se isentem de responsabilidades). No entanto, mulheres engravidam e muitas vezes não podem (ou querem) ter filhos.

E outra, o contexto atual é: muitas mulheres abortam e morrem. De acordo com o DataSUS, o aborto inseguro é a quinta causa de morte materna no Brasil. Como não se importar com a vida dessas mulheres é ser a favor da vida? Como não é muito importante para a sociedade como um todo preservar a vida dessas mulheres?

Clique aqui para ver comparativo sobre as possibilidades legais de aborto em diversos países do mundo (em inglês). Muitos dos países que as pessoas adoram apontar como ~avançados~ e ~desenvolvidos~ estão com as barrinhas completas. Vamos torcer para que não demore para o Brasil preencher todas as barrinhas também.

Clique aqui para ter acesso a guia com 139 perguntas sobre aborto.

Clique aqui para ler “A questão do aborto”.

Clandestinas é um documentário sobre aborto no Brasil onde mulheres contam sua experiência interrompendo uma gravidez. Atrizes interpretam relatos reais.