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Achar que o Brasil não é racista já é racismo

Hoje é 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra. E o que isso significa? Bem, a data marca a morte de Zumbi dos Palmares, que foi líder do Quilombo dos Palmares e representa um ícone da resistência negra durante o período de escravidão no país. O dia coloca em evidência a luta da população negra do Brasil contra o preconceito e a discriminação, e serve também para gerar reflexões coletivas na sociedade por meio de debates, resgates históricos e da divulgação da cultura afro-brasileira.

Ainda que a escravidão tenha acabado há algum tempo, as marcas do período continuam presentes em nosso povo: os negros e negras são os que mais possuem desvantagens econômicas e sociais, e são sistematicamente dizimados de forma covarde e silenciosa – esse extermínio é noticiado com menos frequência do que furtos bobos em lojas, casamentos de subcelebridades ou protestos “atrapalhando” o trânsito, por exemplo.

Uma breve – muito breve mesmo – história da escravidão de pessoas negras no Brasil

A raiz da desigualdade racial e social do país está no seu processo de colonização, que teve Portugal como um dos atores principais. Em 1500, o Brasil foi “descoberto” – ou violentamente roubado da população nativa? – e, pouco depois, o território começou a ser moldado de acordo com as vontades e necessidades de seus “novos donos”. Na época, a demanda por mão-de-obra aumentava cada vez mais. Estimativas afirmam que, em trezentos anos de escravidão, mais de 4 milhões de pessoas negras foram retiradas forçadamente do continente africano e trazidas para cá.

Algum tempo atrás, dei uma folheada no livro “Do reclame à comunicação – A pequena história da propaganda no Brasil”, de Ricardo Ramos, e vi anúncios nos classificados de jornais do período da escravidão com pessoas negras sendo vendidas como produtos mesmo: “bons dentes e forte”, “troco escravo por isso e aquilo”, “empresto ama-de-leite”, etc. Horrível demais – embora, infelizmente, não seja nenhuma surpresa. Um pouco de estudo ou uma simples conversa com pessoas que tem antepassados que foram escravizados nos mostra como era pesada, violenta e desumana a realidade da população negra aqui no Brasil – e ainda é, só que de outras formas. O racismo institucional, a discriminação, o difícil acesso a educação formal e a mecanismos de ascensão social e econômica, a exploração da força de trabalho e o extermínio de negros e negras nos mostra que a nossa sociedade ainda carrega uma herança sombria desse passado não muito distante. Vale ressaltar que as mulheres eram – e ainda são – tratadas como objetos sexuais e estupradas de forma repetida.

Além de tudo isso, os africanos não podiam praticar suas próprias religiões e rituais, mas isso não os impediu de manter a cultura africana viva aqui no Brasil. As pessoas escravizadas resistiam, e além das fugas, dos embates e tantos outros acontecimentos, a perpetuação da própria cultura foi também uma forma de resistência. Podemos ver que é possível conectar muito do que aconteceu no passado com a nossa história atual: praticantes de religiões de matriz afro-brasileira, como o Candomblé, são constantemente perseguidos e têm seus terreiros atacados, enquanto igrejas Evangélicas ou Católicas são vistas como os lugares “corretos” para se expressar religiosamente.

Em 1888, foi instituída a Lei Áurea, que previa a extinção da escravidão no Brasil. Ela foi precedida pela Lei do Ventre Livre (1871) e pela Lei dos Sexagenários (1885), que, respectivamente, davam liberdade a filhos de pessoas negras escravizadas e libertava quem tivesse mais de 65 anos. Nada disso aconteceu porque os brancos ficaram bonzinhos de uma hora para a outra e decidiram “libertar” quem estava sendo escravizado, ok? Isso tem muito mais a ver com fatores econômicos: ex-escravos se tornariam um novo mercado consumidor e não dariam mais “prejuízo” por morar “de graça” na casa dos patrões, por exemplo.

No entanto, paralelamente a tais medidas, não existiu o planejamento de ações que qualificassem e incluíssem essa nova classe trabalhadora dentro da sociedade. De escravizados, os negros e negras libertos tornaram-se força de trabalho barata. Quem continuava em vantagem eram os ex-escravocratas, enquanto ex-escravos encontravam-se sem instrução, renumeração justa ou acesso a bens e serviços. Outro agravante à condição da população negra era uma visão institucionalmente racista por parte da sociedade e governo da época (que permanece até hoje), que passou a estimular a vinda de imigrantes europeus para o Brasil, com o intuito de “embranquecer” a população (as teorias eugenistas eram, inclusive, socialmente aceitas e aplicadas). Ao contrário dos africanos, eles receberam incentivos e não foram trazidos à força. Esses imigrantes trabalharam bastante, sim, mas ainda que pudessem se encontrar em situação precária, tiveram acesso a recursos e terras, entre outros benefícios que nunca foram concedidos à população negra. Aliás, por um certo período, foi proibida a entrada de mais negros e também de asiáticos no país.

De acordo com o Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2010, 82 milhões, dos cerca de 200 milhões de habitantes do Brasil, se declararam pardos e 15 milhões, negros. Em comparação com o Censo de 2000, houve aumento na autodeclaração negra e parda no país. Dados da Pesquisa Nacional de Amostras de Domicílios (Pnad) de 2013 mostram que, em dez anos, a população autodeclarada preta no país cresceu e passou de 5,9% do total de brasileiros em 2004 para 8% em 2013. Além dos pretos, cresceu também o número de pessoas autodeclaradas pardas. Ainda de acordo com o Censo de 2010, existe grande diferença entre população negra e branca no que diz respeito ao acesso a educação: entre pessoas de 15 a 24 anos que frequentavam o nível superior, por exemplo 31,1% dos estudantes eram brancos, 12,8% negros e 13,4% pardos. Foram encontradas diferenças salariais também (sendo a população branca a que recebe mais), entre outras.

Leia também: “A história da escravidão negra no Brasil”.

E por que estou falando tudo isso?

Se você acha que não vivemos em um país racista (ou melhor, em um mundo), isso já é racismo. O período da escravidão passou, mas as consequências da época continuam vivas em nossa sociedade. Acreditar em mérito quando o próprio destino já está traçado de forma positiva é fácil. Quem tem a pele branca geralmente tem muito mais chances de frequentar escola, universidade, de ter o que comer, o que vestir, de ver a própria cara representada em produtos midiáticos como sinônimo do sucesso e com mais nuances de personalidade, entre outras questões. É cruel afirmar que racismo não existe e cada um consegue o que quiser se trabalhar para isso, porque não é bem assim. Isso é naturalizar as diferenças, como se elas não tivessem sido geradas por sistemas políticos e sim pela capacidade de cada indivíduo.

É correto afirmar que uma pessoa negra que não veio de uma família que acumula bens há gerações, por exemplo, e que precisou trabalhar em empregos exploradores a vida inteira para sobreviver (o que tirou o tempo de estudo e lazer), além de ter tido a autoestima abalada constantemente por comentários racistas e perdido oportunidades por conta de discriminação não passou no vestibular ou não conseguiu um emprego melhor porque “não conseguiu”? Eu considero que essa pessoa sequer teve a chance de tentar.

Claro que existe quem consiga ultrapassar barreiras que pareciam antes intransponíveis, mas em uma sociedade justa não deveriam ter grupos com enormes obstáculos para vencer, enquanto outros sequer precisam pular um degrauzinho. E por isso é importante revisitarmos nossa própria história, para que a gente não caia no conto de que a vida é feita de indivíduos escolhendo viver como querem e sofrendo as consequências disso. Na real, nem sempre existem escolhas, apenas imposições que são fruto justamente de acontecimentos anteriores vividos por um mesmo grupo.

Estou tratando de assuntos básicos nesse texto porque acho importante lembrar, nessa data de hoje, um pouco das condições que criaram os abismos sociais, econômicos e raciais que temos hoje em nosso país. No último dia 18, aconteceu a Marcha das Mulheres Negras aqui em Brasília (DF), e ficou evidente a vontade de alguns em manter esses abismos: elas foram ameaçadas e atacadas com bombas e tiros por membros daquele acampamento bizarro – praticamente uma milícia – que está montado ali na frente do Congresso já faz um tempão (e que, finalmente, está sendo “convidado a se retirar”, digamos assim).

Além da violência a que essas mulheres foram expostas, acredito que tais atos buscaram tirar o foco dos temas relacionados à elas. Leiam o texto “Mulheres negras em marcha: racistas não passarão!”, de Carmela Zigoni, em que ela informa melhor sobre como foi o dia e destaca as pautas importantes do movimento (e cliquem aqui e aqui para ver fotos maravilhosas dessas guerreiras).

“A Marcha das Mulheres Negras de 2015 defende diversas pautas, dentre estas, o fim do femicídio de mulheres negras, o fim do racismo e do sexismo nos veículos de comunicação e no ambiente de trabalho, a titulação e garantia das terras quilombolas, especialmente em nome das mulheres negras, o fim do desrespeito religioso e a garantia da reprodução cultural de práticas ancestrais de matriz africana. Aqui você encontra o manifesto da marcha com as reivindicações na íntegra” (via página do Ministério da Cultura no Facebook). 

As negras passam por situações específicas relacionadas à aparência, afetividade, oportunidade de estudo e emprego. Muitas vezes, o feminismo, por exemplo, homogeniza as questões das mulheres como se todas estivessem partindo de um mesmo local, com as mesmas experiências (no dia 20 de novembro do ano passado, postei um texto da Sueli Carneiro que fala sobre essa questão: “Enegrecer o Feminismo: A Situação da Mulher Negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero”). Portanto, vamos aproveitar o dia de hoje para refletir as raízes históricas da desigualdade racial em nosso país. Como eu já disse no texto sobre o filme “Que horas ela volta?”, nenhuma pessoa é naturalmente inferior. Chega de racismo e misoginia tentando minar a autonomia e a garantia de direitos das mulheres negras brasileiras.

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Foto por Janine Moraes durante a Marcha das Mulheres Negras de 2015

LEIAM MULHERES NEGRAS:

À Margem do FeminismoBelezas de KiandaBlogueiras Negras; Cidinha da SilvaFavela Potente; Geledés – Instituto da Mulher NegraGorda e Sapatão; Eu, Mulher Preta; Identidade Negra; Mônica Aguiar SouzaMulher Negra & CiaNegra Solidão; Poema Preta; População Negra e SaúdePreta ‘Dotora’Preta & Gorda; Preta MaternaServiço de Preta.

Fiquem à vontade para deixar mais dicas nos comentários! :}

P.S: Em 2009, fiz o curso de extensão “Pensamento Negro Contemporâneo”, na Universidade de Brasília (UnB), com o professor Sales Augusto dos Santos. Foi excelente e meus olhos se abriram de forma que não tem mais volta. Por isso, bato novamente na tecla de que estudar e conhecer a história do nosso país é algo muito importante. E quem realmente entende de racismo é quem passa por ele, não é mesmo?

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15 trabalhos de lésbicas maravilhosas – #visibilidadelesbica

Vocês sabiam que 29 de agosto é o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica? Pois é. A data nasceu e 1996, durante o primeiro Seminário Nacional de Lésbicas e Mulheres Bissexuais (Senale), no Rio de Janeiro (RJ). Desde então, foram realizados oito encontros nacionais em diversas cidades do Brasil. O último foi em 2014, em Porto Alegre (RS). No entanto, ainda é longa a caminhada para que mulheres lésbicas consigam direitos, respeito e atenção – e para que a vivência, cultura e identidade delas seja levada a sério! A lesbiandade não é um fetiche sexual, não é uma vergonha, não é “fase” e muito menos “falta de rola”, como muita gente grosseira, imbecil e limitada insiste em dizer.

Com o intuito de celebrar este dia e cumprir a função primordial da data – visibilidade – vou postar aqui 15 trabalhos de lésbicas maravilhosas, para que vocês possam apreciar textos, desenhos, músicas e outras produções de um monte de mulher talentosa. Além disso, quero disseminar o pensamento e a perspectiva de mulheres lésbicas diversas, para auxiliar na reflexão coletiva de questões relacionadas à elas, e também estimular a pesquisa por produção de mulheres lésbicas. Que a partir daqui, muitas pessoas possam buscar outras e outras e outras mulheres. Não é uma lista hierárquica ou definitiva, apenas uma compilação de materiais interessantes que colhi por aí e de trabalhos que já costumo acompanhar faz tempo. Quem tiver dicas interessantes, posta nos comentários, por favor!

1 – “Todas fomos obrigadas a abrir mão das nossas plenas potências de seres humanos porque os homens tornaram secreto nosso discernimento desde a mais tenra infância. Tornaram secretos os símbolos da sexualidade das mulheres e tornaram secretos suas violências sádicas e fetichistas sobre nossos corpos infantis. Os homens violaram muitos dos nossos corpos quando ainda éramos muito, muito pequenas. Talvez sexualmente. Talvez usando a ‘educação corretiva’ como um meio de entendermos que não tínhamos o direito de sermos tão humanas quanto eles porque éramos crianças e, mais precisamente, meninas, aquelas que deveriam aprender a feminilidade. Os homens impuseram sobre as mulheres a cultura do segredo” —– trecho de Uma provocação às lésbicas brasileiras do século XXI”. Clique aqui para ler na íntegra. A autora desse blog (M.I.L.F. WTF?) está lançado um livro independente, o “Língua Inquieta – da heterossexualidade compulsória ao orgulho sapatão”. Para saber mais sobre e encomendar o seu, clique aqui. 

2 – “Assim, ao invés de se preocupar com mulheres lésbicas que seguem enxergando a heterossexualidade como única saída, que estão presas ao regime compulsório no qual foram criadas, o movimento feminista se deixa cooptar e passa a gritar por uma liberdade sexual que de livre não tem nada, num discurso raso que não abrange nem um décimo do que é a vivência lésbica e a importância em negar nossos corpos ao acesso masculino. O feminismo precisa ser lesbocentrado porque a revolução será lesbocentrada ou não será. Isso não quer dizer que toda mulher é ou será lésbica ou que as pautas de mulheres heterossexuais e bissexuais não devem ser atendidas, mas sim que devemos nos reavaliar, colocar nossa sexualidade em questionamento, e tentar ao máximo nos livrar da ideia de que é absurdo ou anormal viver sem homens – porque só entendendo nossos corpos enquanto autônomos poderemos estender esse raciocínio para nossa existência e por consequência nossas atividades, nossa força de trabalho, nossa inteligência e capacidade”  —– trecho de “Lesbofobia e resistência”. Clique aqui para ler o texto completo.

3 – “Queridas pretas lésbicas, por onde vocês andam? Parece que desde que assumi minha identidade preta&lésbica, vocês sumiram. Eu não entendi isso… Me assumo, reivindico e vocês desaparecem? Como assim? Me sinto abandonada. Sem acalento, sem afago. Porque isso agora? Por onde vocês andam, pretas? Não as vejo nas ruas, nas lojas, nos cinemas… Muito menos nas escolas, nas universidades, nas empresas de comunicação social. Não… Acho que já teve uma vez  que as vi… Foi de uma forma muito ruim, zombeteira com a gente. Era retratado um estereótipo bem pesado, sabe? Carregado de duplos sentidos misóginos e racistas, lesbofóbico por regra… Eu não aguentei nos ver diante daquela telinha. Do mais, pra falar a verdade, não lembro se cheguei a vê-las em algum filme na tela grande. Não…. Pode ser que eu lembre e faça um update neste post, mas por enquanto não lembro”—– trecho do texto Onde estão as preta e sapatão?”. Clique aqui para ler na íntegra.

4 – “Closer”, música das irmãs gêmeas (ambas lésbicas) canadenses Tegan & Sara. A faixa esta no Heartthrob, sétimo álbum delas – o último lançado até hoje – e que é o que menos gosto, na real. No entanto, nem sei qual dos outros indicar para quem está iniciando, de tanto amor que sinto por elas – curto desde adolescente. Aliás, porque elas nunca tocaram no Brasil?

5 – Ilustração de Maria Freitas. Veja mais desenhos dela na página “O Mago Rosa”, no Facebook.

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6 – “Eu concordei em participar numa conferência do Instituto de Humanidades da Universidade de New York há um ano, por ter entendido que eu comentaria trabalhos que abordassem o papel da diferença nas vidas das mulheres americanas: diferenças de raça, sexualidade, classe e idade. A ausência dessas considerações enfraquece qualquer discussão feminista sobre o pessoal e o político. É uma arrogância da academia, em particular, assumir qualquer discussão sobre teoria feminista sem examinar nossas várias diferenças, e sem uma perspectiva significativa das mulheres pobres, Negras e Terceiro-Mundistas, e Lésbicas. Ainda assim, coloco-me aqui como uma Negra Lésbica Feminista que foi convidada, nessa conferência, a falar no único painel em que a perspectiva das Negras Feministas e Lésbicas está representada. O que isso diz sobre a visão dessa conferência é triste, num país onde racismo, sexismo e homofobia são inseparáveis. Ler a programação é assumir que mulheres Lésbicas e Negras não têm nada a dizer sobre existencialismo, o erótico, a cultura e silêncio das mulheres, desenvolvimento de teoria feminista, ou heterossexualidade e poder” —– trecho do textoAs Ferramentas do Mestre Nunca Vão Desmantelar a Casa-Grande – Audre Lorde”. Clique aqui para ler na íntegra.

7 – “Visibilidade é termos espaço para falarmos de nós mesmas, de nossas vivências lésbicas, é podermos falar de prevenções sexuais para lésbicas, é conseguirmos que nos vejam como lésbicas e nos respeitem, e que não nos tratem como indecisas, modinha, desviantes que precisam ser ‘corrigidas’. Que tenhamos visibilidade na sociedade, ou seja, que sejamos reconhecidas enquanto lésbicas, e isso implicaria em não termos mais que ter medo de levarmos nossa namorada/companheira conosco a lugares, pois não correríamos mais o risco de sermos rechaçadas e agredidas, em não termos mais que justificar para pessoas heterossexuais o motivo de já termos nos relacionado com homens, e que isso não fizesse com que essas pessoas achassem que têm o direito de nos desrespeitar e de forçar-nos a conhecer homens, visto que, para essas pessoas, só estamos passando por uma fase ‘indecisa’.  É termos nossas relações respeitadas, é termos nossas relações vistas como relações, e não como ‘apenas duas amigas’, ‘colegas’, é termos uma representatividade real, e não essas migalhas estereotipadas que a mídia nos dá como forma de calar a nossa boca” —– trecho do texto “Visibilidade lésbica? Ou invisibilidade?”. Clique aqui e leia completo.

8 – “Dykes to watch out for” é uma série de tirinhas da quadrinista norte-americana Alison Bechdel, autora de livros como “Fun Home” e “ Você é minha mãe?”. Infelizmente, a série nunca foi traduzida para o português (alô, editoras!), mas é ótima e narra diversas histórias interessantes sobre mulheres lésbicas bem diferentes umas das outras. Achei muito legal, porque as personagens são bem multidimensionais – como o ser humano como um todo é, mas ás vezes esquecem isso quando grupos minoritários são o assunto. Mais sobre a série aqui (em inglês).

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9 – A australiana Courtney Barnett acabou de lançar o álbum “Sometimes I sit and think and sometimes I just sit”, e pra quem curte a vibe 90s + um mix de barulho & doçura, recomendo ir fundo. Ela é foda demais. Em “Dead fox”, Courtney começa falando sobre como Jen – de sobrenome Cloher, sua namorada desde 2011 – sempre diz pra elas comprarem vegetais orgânicos e logo começa todo um questionamento tretoso & sagaz sobre agrotóxicos, animais e afins.  “Numbers” foi escrita pelas duas e fala sobre a relação delas. Aqui tem um vídeo onde cantam a música juntas.

10 – Sempre amei esse cover de “Romeo and Juliet” que as Indigo Girls – as norte-americanas Amy Ray e Emily Saliers – fazem da música de Mark Knopfler, é muito melhor do que a original. E sempre pensei na interpretação delas como um romance lésbico, mesmo antes de saber que a dupla era lésbica. Nessa entrevista aqui (em inglês), Amy fala sobre como associar ativismo e música.

11 –  “Audre Lorde foi uma escritora americana de descendência caribenha, feminista lésbica e ativista na luta pelos direitos humanos. Escreveu romances que abordam temáticas como feminismo e opressão, além de direitos humanos. Sua obra poética foi publicada a partir da década de 60. Os temas mais abordados em sua obra são amor, traição, nascimento, classe social, idade, raça, sexualidade, gênero e saúde, haja vista que veio a falecer devido a um câncer de mama. Sua poesia é um espaço também em que ela se afirma como lésbica e feminista negra. Lorde desafiou feministas brancas, questionando seu ponto de vista sobre questões raciais, e se tornou uma voz lésbica negra isolada dentro do movimento feminista, apontando as opressões a que as mulheres brancas submetiam as mulheres negras” —– fonte: Blogueiras Negras. 

NEW SMYRNA BEACH, FL - 1983: Caribbean-American writer, poet and activist Audre Lorde lectures students at the Atlantic Center for the Arts in New Smyrna Beach, Florida. Lorde was a Master Artist in Residence at the Central Florida arts center in 1983. (Photo by Robert Alexander/Archive Photos/Getty Images)

“Mulheres são poderosas e perigosas”

12 – “E foi assim que eu te encontrei. Bonita, peituda, cheirosa, pedante, teimosa. Fazendo fita. De vez em quando você vem, chegando, bulindo, aplaudindo, somando e assumindo. Pintando a sete”, canta Mart’nália em “Tava por aí”. A artista é uma das poucas que me lembro que é famosa no mainstream brasileiro e diz com todas as letras que é lésbica. Nessa entrevista aqui, ela fala, de forma bem-humorada, que o pai dela, Martinho da Vila, tem as mulheres dele (lembram da música? “Já tive mulheres, de todas as cores…” ) e ela as dela.

13 – A cantora Cássia Eller também teve essa coragem de assumir sua lesbiandade para o Brasil inteiro. Leia aqui entrevista deste ano de Maria Eugênia Martins, que foi companheira de Cássia, falando sobre maternidade, Chicão e relação com a cantora. Lembro que estudei com uma sobrinha de Cássia, durante o período escolar, e vivíamos fazendo perguntas sobre a cantora. A menina disse uma vez, no almoço, que ela comia cebola e falava “comi cebola, pra namorar”. Nunca esqueci. Adoro saber as bobeiras alheias!

14 – “Primeiro, é importante lembrar que, alheias aos discursos pós-identitários da contemporaneidade, as violências racista, lesbofóbica, classista se dão em planos discursivos e materiais cotidianamente perceptíveis, e se baseiam em distinções nítidas de ‘nós’ e ‘os outros’ hierarquizantes, às quais o sistema de racialização e generação de corpos tem sido um dos maiores investidores. Cheryl Clarke se refere explicitamente a essa violência e a essa disputa ‘nós’ e ‘os outros’ no poema We are everywhere (2006), traduzido como Nós estamos em toda parte. Aqui, o referencial ‘nós’ vai ser aquelas desde longe constituídas como um ‘outro’ praticamente inadmissível: lésbicas negras visíveis, e autoenunciadas. Outro ponto importante a se lembrar é que Clarke não aceita racializações simplistas de nós negras versus eles brancos. Ela mesma é uma crítica ácida do trabalho de algumas feministas negras, sempre uma questionadora da sororidade compulsória entre mulheres, e uma justa e enfática elogiadora de obras e escritoras que revolucionam dicotomias sexuais, raciais, de gênero, de classe, e disposta a rever críticas anteriores” —– trecho do artigo “Sinais de luta, sinais de triunfo: traduzindo a poesia negra lésbica de Cheryl Clarke”, de Denise Botelho e Tatiana Nascimento dos Santos. Leia aqui. Sou stalker (modo de dizer, gente!) da Tatiana desde adolescente: já li textos que ela escreveu para para zines, blogs e até mesmo trechos da tese de doutorado dela. O que/como ela escreve me impacta e ensina bastante.

15 – “Sim, sou tríbade, sáfica, lésbia, lesbiana, entendida, invertida, transviada, sapatão, sapa, sapata, francha, bolacha, fanchona, paraíba masculina, mulher-macho, gay, sim senhor, machuda, macha, “dyke”, como dizem as americanas, ou como as mexicanas, tortillera, do tupinambá çacoãimbeguira, do latim virago e, brasileiramente falando, roçadeira, saboeira, moquetona, madrinha, pacona, do aló, do babado ou, se preferirem algo mais erudito, ginófila, andrógina, homófila, fricatrix e homossexual. Podem me chamar de tudo isso, eu não me importo. Se me chamam de lésbica ou safista, sinto orgulho e me envaideço: a origem dos termos é nobre. Safo, a grega, foi a maior poeta lírica da Antigüidade, cultuada por Platão e Ovídio e sucesso no Mediterrâneo cinco séculos antes de Cristo. Por acaso, fazia sexo com mulheres, vivia na ilha de Lesbos e, para tocar sua lira e manter as unhas curtas, inventou a palheta, a mesma que roqueiros usam para fazer gemer suas guitarras. Bons dedos e boa lábia. Por que me ofender se me chamam lésbica?” —– trecho de “Ninguém vai me ofender”, texto de Vange Leonel. Leia completo aqui. Autora de livros como “Lésbicas”, “Girls – Garotas iradas” e “Balada para as meninas perdidas”, a cantora e escritora morreu em julho de 2014, em decorrência de um câncer no ovário.