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8 de março: apagamento histórico

Flores, bombons, cursos de automaquiagem e homenagens que exaltam a beleza, a delicadeza e a generosidade feminina são coisas que começam a pipocar para todo lado assim que o calendário marca 8 de março, data celebrada como o Dia Internacional da Mulher. Observando superficialmente, parece tudo muito bonito e até bem-intencionado, afinal, precisamos presentear e enaltecer essas guerreiras que conseguem trabalhar fora, cuidar dos filhos, dos maridos e da casa, né? E elas fazem tudo isso de salto alto, ainda por cima! Que legal… Será?

É importante contextualizar que a data surgiu no início do século XX com o intuito de gerar reflexões sobre a luta de mulheres operárias que reivindicavam melhorias de vida por meio da garantia e expansão dos próprios direitos. Pouco antes desse período, trabalhadoras de fábricas têxteis, por exemplo, chegavam a passar até 16 horas por dia na labuta – e recebendo, muitas vezes, menos da metade do salário dos homens. A ideia da homenagem surgiu em 1910, a partir de uma sugestão da professora, jornalista e política alemã Clara Zetkin durante a Segunda Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, na Dinamarca.

No entanto, o que acontece hoje em dia é um apagamento histórico desse cenário de luta em prol do consumo e da manutenção de valores que, há muitos anos, diversos grupos de mulheres tentam derrubar. O ato de entregar medalhas àquelas que aguentam jornadas triplas de trabalho e se submetem ao rigoroso padrão de beleza, por exemplo, é uma forma de naturalizar toda a pressão colocada nas costas femininas como algo aceitável e, até mesmo, positivo. Elogiar “boa aparência” e “bom comportamento” é o outro lado de quem xinga mães que frequentam festas; critica esposas que quiseram se divorciar de maridos violentos ao invés de aguentar tudo de forma altruísta, colocando uma relação ruim acima do próprio bem-estar; censura estudantes que denunciam abusos de colegas e professores; chama de “exagerada” a amiga que manifesta desconforto perante comentários machistas e assim vai. A “mulher de verdade” é a que come pouco, mas compra muito, fala quase nada, mas faz bastante coisa (pelos outros, principalmente). Essa sim é celebrada. Mas ela existe?

Plantar a insegurança feminina e depois vender a solução para a vida das mulheres por meio de produtos estéticos e domésticos é a solução perfeita… Para o bolso das empresas. Pra que falar de “coisas chatas”, como divisão de tarefas do lar? Vamos vender aparatos que facilitam a vida da “dona de casa” (e, na verdade, acabam virando mais louça para ela lavar e mais entulho guardado na cozinha). Pra que falar de melhorias nas condições de emprego para mulheres? Isso só vai colocar mais coisa na cabeça dessas empregadas “folgadas” que, vejam só, têm a coragem de querer a própria carteira de trabalho assinada!

O incentivo ao consumo desenfreado e a homenagem genérica e vazia de sentido que a cooptação do 8 de março propõe não cria apenas um nicho muito lucrativo, mas funciona também como estratégia de marketing empresarial ou pessoal para quem quer fingir preocupação com mulheres sem precisar fazer nada que realmente mexa nas estruturas que emperram a vida delas. Chefes, filhos, maridos, pais, irmãos, netos e amigos podem expiar toda a culpa de serem negligentes ou sobrecarregarem as mulheres que convivem com o simples ato de depositar dinheiro em um objeto que represente a importância e o valor da homenageada. Dessa maneira, ações que dependem também de todos aqueles que estão ao redor da mulher saem de cena à francesa. Reflexões e mudanças de atitude não são consideradas tendências porque não são comportamentos vendáveis – e ainda flertam com terrenos perigosos, como o despertar coletivo de consciências.

Texto publicado originalmente na coluna ‘Água & Óleo’ da Revista Traços, na edição de março de 2016. Por conta da limitação de caracteres, o foco foi no apagamento geral e na cooptação mercadológica do dia. No entanto, existem outros aspectos importantes a serem abordados quando se aprofunda no tema, como a historicidade da data (antes Dia da Mulher Trabalhadora), ou a questão das mulheres negras e o trabalho forçado, que acaba naturalizado em seu esquecimento (na mesma coluna e mesma edição, a militante negra e feminista Dalila Fernandes escreveu sobre isso), entre outros. 

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Feminismo suave não liberta, mas gera lucro

Por que o feminismo existe? Puxo essa provocação com o intuito de iniciar uma reflexão ampla e não de buscar uma verdade absoluta. No meu caso, por exemplo, acredito que uma desigualdade histórica entre os sexos – e não necessariamente entre os gêneros apenas – levou (e leva) pessoas do sexo feminino a forçarem o próprio acesso a espaços de educação, poder, lazer e outros. Assim como desigualdades em outros aspectos da sociedade, como a exploração e a discriminação de pessoas negras, fizeram com que grupos que compartilhavam opressões semelhantes precisassem (e ainda precisem) se organizar para conquistar direitos. Aliás, grupos minoritários diversos possuem histórias de luta igualmente diversas para contar. E elas se entrecruzam: existem mulheres negras e lésbicas, por exemplo, o que as tornam possivelmente mais suscetíveis a violências e exclusões motivadas por preconceito.

Claro que estou resumindo bastante questões que são bem complexas e abrangentes, mas faço essa introdução para que a gente possa começar a se entender. O que quero dizer é que o corpo é um território de disputa ou, como diria a artista Barbara Kruger, um campo de batalha. Portanto, dentro de um esquema que envolve a necessidade de domínio de corpos para criação e manutenção de poder, nascem diferentes narrativas sobre grupos sociais específicos com o intuito de confiná-los em papeis previamente determinados. Desse modo, se garante uma engrenagem onde muitas pessoas possuem deveres e poucas possuem direitos – e menos ainda possuem privilégios.

Se formos pensar no feminismo, ele é um movimento social que tem o objetivo de gritar para o mundo que os estereótipos sobre as mulheres estão errados: elas não são fracas, burras, incapazes, fúteis, inferiores, loucas por homens ou nasceram para a maternidade. No entanto, precisamos sempre lembrar do caráter político do movimento. Para que nossa humanidade seja levada em conta, não basta que a gente se sinta humana, não ligue para o que os outros digam e simplesmente aceite continuar vivendo na precariedade. O que busca nos desumanizar são ações específicas e cotidianas e a construção da nossa humanidade parte da destruição dessas ações. Um sentimento por si só não constrói creches ou aprova leis a nosso favor.

No Brasil, por exemplo, enfrentamos problemas como mulheres sendo mortas por parceiros e outros homens próximos, como se fossem objetos descartáveis, apenas por não desejarem mais manter um relacionamento. Existe também um alto nível de violência física, psicológica e sexual contra pessoas do sexo feminino em geral. E desde cedo precisamos nos acostumar com assédio de estranhos nas ruas – o que vejo como uma forma de terrorismo contra nossa “invasão” ao espaço público, que é relativamente recente. No espaço virtual, somos as mais atacadas. O aborto ainda não é descriminalizado no país, embora a pesquisadora Débora Diniz tenha a esperança de ver essa conquista tomar forma por aqui um dia. Mulheres negras ganham menos do que todo mundo e possuem menos acesso ao mercado formal de trabalho – e são as que sempre estiveram aí, na labuta. Adolescentes engravidam de homens mais velhos, mas o senso comum trata a questão como mera “safadeza” da parte delas, e esquece a responsabilidade que adultos deveriam ter. Entre outras coisas.

Em 1999, a pesquisadora Karen Giffin escreveu, em um artigo chamado “Corpo e conhecimento na saúde sexual: uma visão sociológica”, que “agora colocada na agenda feminista como direito, a definição da saúde sexual não tem avançado além do abstrato (…)”. E aponta questões que precisam de atenção, como o “novo perigo da AIDS feminilizada, da prostituição infantil internacionalizada no turismo sexual, da violência sexual globalizada contra mulheres e crianças, etc”. Será que dezoito anos após a publicação do artigo, conseguimos dizer, sem buscar no Google, quais as respostas que temos para tais questões, ainda tão atuais e urgentes?

De cabeça, provavelmente não. Mas se utilizarmos o Google, poderemos perceber que, sim, existem debates, propostas e outros artigos. Mas a maior parte das discussões aprofundadas estão restritas a círculos específicos. Os direitos sexuais e reprodutivos da mulher – que envolvem direito ao próprio corpo e a própria sexualidade, expressa como e com quem quiser – ainda protagonizam ferrenha disputa. A constante reformulação do mito da mulher como máquina-de-fazer-bebês, a pouca atenção que se dá à saúde sexual da mulher lésbica ou a prostituição sendo tratada primordialmente pelo viés da “escolha” mostra que ainda temos muitas batalhas. E que precisamos tomar as rédeas do debate público ao invés de procurar meios de dissolver o feminismo para torná-lo palatável.

Ás vezes me pergunto se estamos cometendo erros estratégicos. Onde estamos falhando? Já é 2017 e ainda é difícil debater questões relacionadas a pornografia, estética, violência sexual ou prostituição sem cair dentro da mesma ladainha de sempre, de que “mulher faz o que quiser”. A mídia mainstream e os homens adoram essa frase, mas apenas quando mulheres-fazendo-o-que-querem significa “liberdade sexual” e nudez (de corpos brancos e magros). Muitas feministas de grande alcance, principalmente as do tipo que utilizam o movimento para impulsionar a própria imagem sem necessariamente possuir um comprometimento coletivo, acabam abraçando essa falácia para que não precisem lidar com temas que não são populares. É uncool falar de abuso sexual, apontar agressores, problematizar a indústria da beleza – uma das poucas a não entrar em crise no país – ou desestabilizar muito o status quo, por exemplo. Corre o risco de a coisa fica chata demais.

Aliás, percebo que é nessa junção de mídia e homens (ou instituições historicamente masculinas – ou seja: quase todas, risos) legitimando o feminismo “correto” que um feminismo lavado passa a existir. Um feminismo chique, com roupas de marca, caras, bocas, batom, orgasmos múltiplos e cantoras pop postando fotos do grupo de amigas loiras com legendas tipo “girl power” ao mesmo tempo em que diminuem denúncias de racismo de colegas de profissão negras. Um feminismo que gosta de afirmar que é feminino, que não é como aquelas despenteadas, peludas, histéricas, exageradas, odiadoras de homem – ew, imagina ser confundida com uma lésbica!  Um feminismo que separa mulheres entre boas e más, que menospreza a construção teórica elaborada por pessoas do sexo feminino, que descarta o valor do envelhecimento e da experiência e propaga um sem-fim de frases feitas sem saber o porquê. E não questiona, profundamente, salários, acordos e papeis sociais. Um feminismo que poupa os homens e aponta todos os dedos para as “manas”. E que se estabelece mais como uma tribo urbana do que como um movimento social de fato: legal mesmo é ser uma it girl feminista.

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barbie. se você pode sonhar, você pode ser — uau, agora vai, hein! // propaganda da mattel, de 2014.

Em “Backlash: o contra-ataque na guerra não declarada as mulheres”, de 1991, a escritora Susan Faludi mostra como mídia, políticos, líderes trabalhistas e outras figuras tentaram (e ainda tentam) promover a ideia de que a mulher já conquistou tudo, mas se tornou infeliz por culpa do feminismo – como se tripla jornada ou desilusões amorosas fossem consequências do movimento, por exemplo. No entanto, ela prova como, na época, vários direitos ainda não tinham sido conquistados, mesmo com uma suposta autonomia da mulher sendo celebrada. Quando ela fala sobre “a natureza do backlash de hoje”, referindo-se aquele período, parece que estamos lendo algo sobre o momento em que estamos agora:

A mulher reprimida do atual backlash distingue-se das suas predecessoras pois quer fazer parecer que escolhe a sua condição duas vezes – primeiro como mulher e segundo como feminista. A cultura vitoriana definia “feminilidade” como sendo aquilo que “uma verdadeira mulher” deseja; na estratégia de mercado da cultura contemporânea, também é o que uma mulher “liberada” almeja. Da mesma forma que Reagan assumiu ares populistas para vender um programa político que favorecia os ricos, os políticos, os meios de comunicação e a publicidade adotaram uma retórica feminista para passar adiante políticas que feriam a mulher, revendendo os mesmos velhos produtos de sempre ou escondiam opiniões antifeministas. Bush prometeu “maior poder” para as mulheres pobres – como substituto dos muitos programas de assistência social que ele estava cortando. Até a Playboy afirmou estar do lado do progresso feminino. “As mulheres avançaram tanto”, garantiu o porta-voz da revista à imprensa, “que já não é um estigma posar nua.” A cultura dos anos 80 suprimiu o discurso político das mulheres e depois redirecionou sua auto-expressão para os shopping centers. A consumidora passiva foi reeditada como sucedâneo feminista, exercendo o seu “direito” de comprar produtos, fazendo as suas próprias “escolhas” ao chegar no caixa. “Você pode ter tudo”, prometia um anúncio de cerveja a uma jovem em malha de ginástica – mas por “tudo”, a cervejaria queria dizer que o seu produto não dava a barriguinha de chope. Criticado por dirigir-se a jovens mulheres nos seus anúncios, um indignado vice-presidente da Philip Morris esbravejou que este tipo de censura é “sexualmente discriminatório” pois sugere que “mulheres adultas não têm capacidade para tomar as suas próprias decisões de fumar ou não”. A reivindicação feminista exortando que cada uma siga os próprios instintos tornou-se um apelo publicitário para se obedecer às solicitações do mercado – um apelo que enfraqueceu e aviltou a busca feminina de uma verdadeira autodeterminação. (…)

O atual contra-ataque aos direitos da mulher proporciona ainda outra tática inerente aos livros de estratégia dos antigos contra-ataques: a pose de uma sofisticada e irônica distância dos seus próprios fins destrutivos. A lista de emoções falsas do backlash –piedade pelas mulheres solteiras, preocupação com o esgotamento das que trabalham, envolvimento com os problemas da família –, a ofensiva atual acrescenta um escarnecedor cinismo em relação a quem ousa apontar mensagens discriminatórias ou antifemininas. (…) Ficar falando de injustiça sexual não só é feminino, mas não pega bem porque já não está com nada. A revolta das mulheres, assim, como qualquer outro tipo de revolta social, é alegremente descartada – e não por falta de conteúdo, mas simplesmente por falta de “classe”.

Já é bastante difícil desmascarar sentimentos antifeministas quando eles se vestem com roupas feministas. Mas é muito mais difícil enfrentar um inimigo que diz não se importar. O feminismo “cheira tanto a anos 70”, afirmam com tédio os papas da cultura popular. Agora somos “pós-feministas”, informam, não para dizer que a mulher chegou à igualdade de direitos e ultrapassou essa fase, mas para sugerir que eles mesmos se adiantaram tanto que já não pretendem nem mesmo importar-se com o assunto. É uma falta de compromisso que, no fim, pode representar o golpe mais devastador contra os direitos da mulher.

Logo, é importante pensarmos na raiz das coisas, para não ficarmos eternamente brincando de encenação política, feito hamsters na gaiola, enquanto permanecemos lucrativas. Claro que, dentro do capitalismo, que não irá sucumbir tão cedo, é importante que existam produtos de beleza também para peles escuras ou cabelos crespos ou roupas estilosas para pessoas gordas, e que propagandas sejam questionadas quando são preconceituosas, por exemplo. Não acho que esse tipo de coisa seja irrelevante. Aliás, não julgo ninguém, individualmente, por suas atitudes. Ainda vivemos em um mundo que valoriza muito a aparência, que conecta o “se sentir bem” com “se sentir bonita” e que, em certos momentos, sequer dá alguma chance de a mulher fingir que pode escolher. Existem empregos, por exemplo, que exigem salto e maquiagem, e pronto.

A caminhada ainda é longa, mas a nossa rede e a nossa força possuem potenciais enormes, que nos são mostrados diariamente: querendo ou não, estamos aqui, ainda que os nossos recursos sejam infinitamente menores que os dos detentores do poder. Existem conquistas para trabalhadoras domésticas, existem leis específicas para a violência contra a mulher, a  obstetrícia atual está em debate, entre várias outras coisas, mas claro que poderia ser muito melhor. É importante a gente continuar sempre a pensar na utopia, para que ela se concretize. Desejo que ruas iluminadas (segurança pública também é questão de gênero), para que mulheres igualmente brilhantes andem por elas, sejam uma realidade concreta e metafórica.

Por isso, precisamos entender que uma camiseta em uma loja de departamento com “feminista” escrito nela não significa muita coisa, principalmente se os funcionários continuam trabalhando muito e ganhando pouco, se artistas continuam tendo ilustrações roubadas para estampar produtos e se peças terceirizadas continuam sendo confeccionadas por meio de trabalho escravo. Relativizar depilação ou procedimentos de beleza ou minimizar os pontos negativos de cirurgias plásticas, como riscos ou o processo pós-operatório, também não são coisas que se enquadram exatamente em um viés feminista acolhedor e informativo, funciona mais como propaganda gratuita e marketing espontâneo e positivo para empresas mesmo.

Como analisou a teórica Nancy Fraser, no artigo “O feminismo, o capitalismo e a astúcia da história” (que chegou até mim por meio do coletivo Não Me Kahlo), houve uma fragmentação da crítica feminista que auxiliou na “incorporação seletiva” e “recuperação parcial” de algumas de suas tendências. Ou seja, de acordo com o interesse vigente, uma coisa ou outra é aleatoriamente pinçada sem levar em conta o seu contexto. E isso acaba auxiliando não na construção de uma nova realidade para mulheres, mas em uma nova forma de manter a organização social nos moldes hierárquicos de sempre. E mais:

É dito frequentemente que o sucesso relativo do movimento em transformar cultura permanece em nítido contraste com seu relativo fracasso para transformar instituições. Esta avaliação tem duplo sentido: por um lado, os ideais feministas de igualdade de gênero, tão controversos nas décadas anteriores, agora se acomodam diretamente no mainstream social; por outro lado, eles ainda têm que ser compreendidos na prática. Assim, as críticas feministas de, por exemplo, assédio sexual, tráfico sexual e desigualdade salarial, que pareciam revolucionárias não faz muito tempo, são princípios amplamente apoiados hoje; contudo esta mudança drástica de comportamento no nível das atitudes não tem de forma alguma eliminado essas práticas. E, assim, frequentemente se argumenta: a segunda onda do feminismo tem provocado uma notável revolução cultural, mas a vasta mudança nas mentalités (contudo) não tem se transformado em mudança estrutural institucional.

Acredito que mudar a pintura externa de uma casa não significa necessariamente reformar por dentro. Logo, não podemos nos deslumbrar com a festa feminista que tentam, literalmente, nos vender. Mulheres libertas não geram lucro, corpos autônomos são mais difíceis de controlar e pessoas conscientes da própria complexidade ameaçam a narrativa de papeis unidimensionais. Minha vontade é muito ambiciosa: não quero que as mulheres se sintam lindas e sim que se sintam – e sejam, de fato – livres. Vamos juntas?

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Como conversar com mulheres

Hoje o texto vai para aqueles rapazes que chegam em uma festa e não sabem como se aproximar desses exóticos exemplares da espécie humana: mulheres. Vai para os homens que, em uma fila de banco ou no ambiente de trabalho, não conseguem estabelecer diálogo algum com essas misteriosas criaturas. Ah, mulheres… Só de ler esta palavra, logo somos transportados para um mundo repleto de seres fantásticos e cheios de segredos. Mulheres! Figuras mágicas, divinas e, por vezes, inconstantes. Como entender o que se passa na cabeça dessa complicada parcela da população? O que será que tais mentes arquitetam, quando não estão pensando em batom, novela ou em comprar uma bolsa nova?

Quem nunca se sentiu paralisado diante da beleza feminina que atire a primeira pedra: lindos cabelos com produtos químicos, cílios postiços, seios com silicone… Todos amam a mulher do jeito que ela é! E chegar mais perto de uma delas para trocar uma ideia sempre pode ser, com certeza, muito interessante – desde que a escolhida seja loira, magra, não tenha muitas opiniões e esteja louca para transar, claro. Afinal, você não quer perder o seu tempo, não é mesmo?

Mulheres! Com certeza são a projeção real de suas fantasias, obtidas após muitos filmes, propagandas e sites obscuros acessados na calada da noite – com o volume no mute para a vizinhança não desconfiar de seus hábitos cotidianos. Portanto, venho aqui com o intuito de ser o facão que irá abrir a mata fechada que te impede de caminhar para perto das gatas. E trago boas notícias: adentrar o estranho universo feminino é mais simples do que parece. Quer saber o que você deve fazer para conversar com uma mulher?

  • ABRA A BOCA
  • FALE

Tcharam! Fácil, né? Mulher não é nenhum extraterrestre não, ou. Se você encontra problemas para conseguir falar com uma, não é porque somos difíceis de compreender. O mais provável é que os seus valores relacionados ao sexo feminino sejam tão deturpados, que você realmente acredite que exista um protocolo específico para lidar com a gente. Se os parágrafos anteriores deste texto não foram percebidos como uma completa ironia que simula todo o chorume estereotipante que se escreve – e que se impõe – sobre mulheres por aí, volte muitas casas no jogo da vida.

E mais: se você não consegue aproveitar a diversidade de mulheres ao seu redor para fazer amizades e conhecer coisas novas sem necessariamente uma transação sexual estar embutida nessa troca de ideias, o problema é seu ao se frustrar com uma expectativa não correspondida – e não delas. Você não é o cara legal que imagina ser caso acredite que sexo é uma recompensa obrigatória a ser dada para todos os que não tratam mal uma mulher. Enxergar mulheres primordialmente pela ótica de uma possível foda é deprimente pra vocês, que em 2017 ainda não perceberam que existimos para além disso, e desumanizante pra nós, que temos toda nossa subjetividade reduzida a esse tipo de coisa o tempo todo. Inclusive, acho muito estranha essa concepção masculina de querer planejar tudo previamente, como se estivesse montando uma armadilha, e não buscando viver um momento agradável e natural, que envolva ou não algo mais.

Nessas horas que a gente vê como a coisa tá feia: alguns caras acham que, só por ouvirem o que uma mulher tem a dizer, merecem uma condecoração. E o pior é quando reclamam da falta desse tipo de reconhecimento, como se fosse um sacrifício muito grande lidar com uma mulher ou como se fosse humilhante demais sair um pouco do papel grosseiro que a masculinidade impõe, não sei.

Se tem uma dica séria que posso dar é: não sigam dicas. Repense a sua relação com o sexo feminino e procure, dentro de você, o que pode estar te afastando das mulheres. Um amigo, dia desses, comentou que se ficasse solteiro, seria impossível ficar com alguém de novo, pois não consegue nunca conversar com uma mulher – elas sempre ficam bravas! No mesmo dia, ele havia julgado publicamente a aparência de várias minas e reduzido a tristeza de uma colega a “problemas com homem”. Não é difícil entender o porquê de as mulheres ao redor dele ficarem com raiva…

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allyson gutchell // allysongutchell.tumblr.com

E muitas dicas sobre ~como conversar com mulheres~ que li pela internet afora apenas disseminam estereótipos baratos sobre o sexo feminino (“ela vai gostar de você por causa do seu carro”, por exemplo) e ensinam táticas de manipulação, negging e outros tipos de abusos psicológicos e emocionais. Sabe como é, a gata não pode “se achar” muito, argh. A insegurança masculina é tão grande, que o ideal para muitos é diminuir a das mulheres também. É esse tipo de relação que você quer estabelecer com uma pessoa, mesmo? Dominar uma mulher não é conversar com ela – uma conversa é uma via de mão dupla.

Muitas vezes, mulheres percebem essas táticas de antemão, e se afastam. Ou percebem, mesmo quando não conseguem explicar muito bem, que tem algo de errado na forma que um cara fala sobre e com mulheres. Ou simplesmente não querem nenhum tipo de conversa e aproximação – e isso acontece com todo mundo, de todos os sexos, gêneros, orientações, sério, não apenas com rapazes. Antes de julgar, analise se já não fez o mesmo. Me parece muito mais comum homens sequer valorizarem o que uma mulher que não os atrai (ou que não está “disponível”) tem a dizer do que o contrário. E tem mais: mulher alguma tem a obrigação de disponibilizar tempo para outras pessoas quando ela não está afim. E homens precisam parar de achar que podem perturbar a paz de uma mulher em qualquer lugar e situação, mesmo sem contexto algum.

Por isso, quanto menos apego às fantasias e estereótipos sobre mulheres, mais fácil conversar com elas. Assim como os homens, mulheres são seres complexos, que possuem vários interesses e vontades. Ser uma pessoa mais aberta, sincera, com um timing maneiro e que realmente converse com outras, e não que apenas busque uma escada para a superioridade pisando em cabeças alheias, pode trazer muitas surpresas. Amores, amizades e até mesmo sexos casuais brotam em locais inesperados. E uma coisa eu garanto: ainda que existam muitas diferenças entre as pessoas, todas gostam de ser tratadas com humanidade. É bizarro ter que explicar isso.

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TODA MULHER É LOUCA

Certos homens agridem as namoradas na maior cara de pau, e falam da amiga louca. Disseminam preconceitos estéticos e raciais, disfarçando tudo isso de “gosto pessoal”, e falam da professora louca. Saem com qualquer uma que conhecem em qualquer lugar, e falam da colega de trabalho louca. Enchem a cara e agem feito uns idiotas, e falam da esposa louca. Praticam sexo não consentido com mulheres desacordadas ou vulneráveis –  vulgo estupro, sabe? – e falam da irmã louca. Não desfazem laços com caras que já fizeram o mesmo (e os legitimam socialmente), e só julgam a cunhada louca. Desumanizam as garotas com quem saem, separando-as entre as que merecem respeito e as que não merecem, e falam da mãe louca.  Arrumam briga e promovem atos violentos por motivos banais e fúteis, mas louca é aquela tia distante, que vez ou outra vem visitar. Chegam a machucar e até a matar mulheres e também outros homens, simplesmente porque não sabem lidar com diferenças e frustração, mas o foco da conversa? É a ex-namorada louca, claro. Abandonam a família, e apontam o dedo para a cantora louca. Incentivam a rivalidade feminina, fazem comparações entre mulheres e chamam de louca aquela garçonete que trabalha o dia inteiro no restaurante da esquina. Não lavam uma louça, e reclamam da diarista que aparece toda segunda-feira, que é louca. Apesar de adultos, namoram meninas adolescentes e facilmente manipuláveis – e diz para elas tomarem cuidado com as colegas de classe, que são loucas. Fingem que são bonzinhos e abusam de crianças, e falam da ativista louca. Se fazem de pobres coitados, frágeis, abandonados e doentes, mas a prima é que é louca. Exploram funcionários e chamam isso de trabalho, e falam da avó louca. Assediam mulheres em shoppings, hospitais e igrejas, e riem da moradora de rua louca. Dirigem rápido, achando que a vida é um filme de ação, e conversam sobre a vizinha louca. Fazem sexo que nem uma britadeira descontrolada, achando que os ensinamentos da pornografia são válidos, e falam da dentista louca. Aprisionam mulheres em relacionamentos “livres”, e falam da dona de casa louca. São incapazes de demonstrar afeto sem ironia ou constrangimento… E falam que todas, todas, todas, todas, todas as mulheres ao redor, por algum motivo, são loucas.

Desconfiem de adjetivações genéricas, reducionistas, preconceituosas e sem fatos ou análises embasadas como foco. E, não esqueçam: a louca que hoje você ajuda a isolar por acreditar que isso te dará algum tipo de proteção pode ser você amanhã. Mulheres são historicamente taxadas de loucas como forma de controle e dominação. Toda mulher que coloca o privilégio de um homem em risco ou quer romper com as sufocantes regras sociais impostas ao sexo feminino é vista como errada ou perigosa.

Na maioria das vezes, não basta apenas olhar para onde os dedos apontam. É preciso observar também de quem é a mão.

katrene

pintura de kat renee // katrenee.com
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Sobre o processo de se transformar em uma publicação impressa

Queria ter escrito este post aqui há mais tempo, porém, ando vivendo uma deliciosa bagunça nômade que me faz morar oficialmente em uma cidade e estudar em outra. Tenho me dividido entre milhares de coisas pra fazer e preocupações excessivas (oi, ansiedade). Além disso, quase assassinei o meu computador pela segunda vez, derramando água de coco nele (a primeira foi quando tive a brilhante ideia de limpar o teclado com lenços umedecidos). Andei também viajando para lugares fora da minha rota, uma das viagens como parte de um lindo projeto educativo e a outra de férias mesmo. E etc, etc e etc. Conto tudo isso apenas para justificar meu sumiço, pois com certeza o que listo aqui não me traz muitos motivos para reclamar (tirando a ansiedade e o computador molhado).

Agora que finalmente parei para sacudir a poeira do blog (estava com saudade), trago boas notícias: realizei um financiamento coletivo entre abril e maio deste ano com o intuito de arrecadar dinheiro para imprimir uma publicação independente. Felizmente, deu tudo certo e, por isso, o conteúdo da Vulva Revolução passou a ser algo que existe também no papel – é um zine! Como sou fruto dos rolês alternativos e do do-it-yourself, essa foi a linguagem que conheço e decidi utilizar para reunir parte do material escrito por aqui até hoje. E essa foi a maneira que escolhi para dizer que sou uma autora capaz de escrever em diversas plataformas. E, não vou mentir, é mais barato e fácil de produzir do que um livro, heh (que é algo que também está nos meus planos). Mas não quero, com esse comentário, criar nenhuma hierarquia, cada coisa tem sua estética, seu espaço, sua importância e sua razão de ser.

A ideia de fazer uma publicação a partir de textos aqui do blog era alimentada desde o ano passado. Sempre gostei muito de livros, revistas, zines, folhetos e afins. Ouvir o barulho de páginas virando, analisar formatos e o tipo de papel, bem como a beleza ou estranheza das imagens é muito agradável, não é mesmo? A experiência impressa é um romance em si mesma. E, além do mais, o que está no papel me parece ter um tipo de circulação diferente do material online – agora participo de mais eventos, faço vendas & trocas, conheço várias pessoas ao vivo e estou chegando em novos lugares.

zinevulva

Vários zines, oba!

Claro que a internet tem o seu posto essencial de principal divulgadora das minhas ideias – e é o meu habitat. E ela e o papel são meios diferentes, mas que não se anulam. No entanto, o que está impresso ainda me parece, de alguma forma, mais respeitado como “conteúdo de verdade”. É o que te chancela como alguém que realmente produz – principalmente quando o seu principal veículo é um blog totalmente independente. Isso tudo pode até estar mudando, estamos começando a criar o hábito de ler em outros meios (eu mesma já sou adepta do Kindle faz muitos anos), mas minha experiência me mostra um interesse diferente por parte do público em geral quando você começa a organizar o seu próprio material no papel – mas não sei se um e-book ou algo assim causaria o mesmo tipo de reação. São muitas possibilidades, temos muito a pensar.

Planejei tudo sozinha, mas contei com o apoio de várias pessoas durante o processo de nascimento do zine (que teve um protótipo com uma tiragem de 20 unidades realizada no ano passado). Um amigo fez o vídeo para o site do crowdfunding, por exemplo, e mulheres com as quais possuo diferentes graus de proximidade (mas admiro o trabalho de todas) colaboraram com as ilustrações presentes na publicação (e com um dos textos exclusivos), tornando-a coletiva e plural. Aprendi ainda mais sobre as diferentes etapas intelectuais e burocráticas de se produzir algo no papel, o que não é novidade pra mim, por conta da minha profissão e de produções anteriores, mas que foi mais intenso por ser um projeto pessoal cuja existência se deu, inicialmente, por conta do meu próprio interesse. Foi um exercício de aprender a dizer internamente, e para os outros: “o que eu faço importa” e “se eu quero fazer, importa”. Os feedbacks que recebo ajudaram, pois são várias as mulheres que afirmam se sentir contempladas com meus questionamentos (que bom, pois essa é a intenção). E elaborei uma linha narrativa que orientasse o material de modo coerente, editei os textos do blog para o formato impresso, diagramei o zine, fiz orçamentos e pedidos das recompensas prometidas no financiamento coletivo (camisetas, bottons e adesivos), entre outras coisas.

Não vou mentir, fiquei bastante orgulhosa de mim mesma, ainda que uma ou outra pessoa pessimista tenha cruzado o meu caminho com frases como “é só um zine” ou “é só um blog”. Sempre vai aparecer alguém projetando as próprias frustrações no que a gente está fazendo, colocando o foco em pequenos detalhes e não no todo. Deu trabalho e atrasei algumas entregas, pois precisei de mais tempo do que esperava para terminar algumas coisas, mas valeu muito a pena.

No meio disso tudo, fiz um curso de Produção Gráfica com a Aline Valli, que era da Cosac Naify, e foi bom para aprender mais sobre aspectos práticos e estéticos de uma publicação impressa. Mesmo que o meu interesse principal seja a escrita, achei legal ter mais noção de todos os processos que envolvem a realização de um livro – ou de qualquer outro material do tipo. E uma das aulas foi justo no último dia de existência da Cosac, o que deixou a professora bem emocionada. Não fiz o curso por causa do zine, mas pelo interesse geral na área mesmo – tenho um crush no meio editorial como um todo. Só que acabou sendo útil, lógico. Conhecimento nunca é demais.

Acompanhar um financiamento coletivo é bastante agoniante – ainda mais quando você é uma pessoa ansiosa. Isso que o meu nem era assim tão difícil de alcançar, imagina os que contam com uma grana alta? Meu coração não aguentaria. É importante assistir os vídeos e recomendações desses sites de crowndfunding – graças a eles, consegui tirar várias dúvidas e fazer prospecções de metas – e conversar com outras pessoas que já passaram pelo processo (isso me ajudou a aprender bastante com erros e acertos de colegas). Uma divulgação constante é essencial, bem como uma boa comunicação com veículos grandes que se comuniquem com o seu público-alvo. Contei com a ajuda de alguns blogs, sites e páginas, e até mesmo parceria com festa famosinha de Brasília eu fiz, o que não gerou o retorno financeiro esperado, mas foi uma noite muito divertida e que também ajudou na divulgação.

O zine foi lançado oficialmente em Brasília, Rio de Janeiro e Belém e a tiragem inicial foi de 500 unidades. Alguns foram doados para mulheres que realizam projetos que se relacionam com feminismo, educação e afins (tive notícias de alguns sendo utilizados em oficinas de educação e gênero para jovens e adultos, e me emocionei). Paralelamente a isso, várias outras coisas foram e estão sendo feitas, algumas delas pretendo contar por aqui assim que tiver tempo (e ânimo) de novo. São muitas novidades, pensamentos, ideias, mas também muito cansaço e falta de energia, em alguns momentos. De vez em quando, essa era atual faz a gente se sentir sempre a correr sem saber muito bem para onde ir, não é? Tipo, me pego fazendo um monte de coisa e achando que não estou fazendo nada pois esse monte de coisa ainda não é necessariamente aquela idealização da minha cabeça de coisas que imagino que “deveria” estar fazendo. Confuso, eu sei.

Por isso, parei aqui para respirar e relatar esse processo. Meu intuito foi, de certa forma, prestar contas a todo mundo que me apoiou, além de incentivar outras mulheres a tocarem seus projetos e a encararem o que fazem como algo importante – não importa se a sua vibe é escrita, desenho, crochê, pintura, matemática, gastronomia ou games. Nem se é algo para um público grande ou pequeno – até porque isso varia com o tempo. O que importa é a gente existir e falar sobre a nossa realidade, desenvolver competências artísticas, criativas, intelectuais, ganhar experiências e estreitar laços umas com as outras. Gosto muito de assistir ou ler sobre processos alheios – de pequenos quadrinistas independentes a fotógrafos com fama mundial, sei lá  – e essa foi a minha contribuição para quem tem o mesmo tipo de interesse. Como escrevi em muitos dos bilhetinhos que enviei para vários lugares do Brasil, junto com os zines e as recompensas adquiridas: juntas somos mais!

Tem Vulva Revolução no FacebookTwitter e Instagram também, viu?

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Pessoas brancas criticando “Feminismo Branco” perpetuam privilégio branco

O texto a seguir foi escrito em 2015 por Claire Heuchan, autora do blog Sister Outrider. Feminista radical, negra, lésbica e escocesa, ela é também mestranda em literatura com ênfase em estudos de gênero, e sua pesquisa se foca em Teoria Feminista Negra, ativismo e escrita. Se você lê em inglês, vale a pena procurar outros textos dela por aí. A tradução foi feita por mim e pela Carol Correia, que tem feito um ótimo trabalho em traduzir materiais do inglês para o português com o intuito de disseminar mais informações sobre feminismo em nossa língua. 

Gostei do texto por ser curto e direto. E é um convite à reflexão para as feministas brancas. Lutar contra o racismo é um papel de todas nós, mas é preciso uma postura ativa, que promova mudanças reais e eficazes. Não adianta só repetir palavras vazias e discursos simplistas. O racismo é um sistema complexo que embasa a nossa sociedade e precisamos entendê-lo para exterminá-lo. E é um assunto que deve ser tratado com seriedade, e não como um mero atalho para impulsionar a própria imagem de forma positiva. Boa leitura!

Se você se envolve em discussões feministas online, as chances são que você já tenha notado uma expressão particular se tornando cada vez mais comum: Feminismo Branco. Algumas vezes até mesmo um símbolo de marca registrada é adicionado, para dar ênfase. O termo Feminismo Branco tornou-se uma abreviação para certas falhas dentro do movimento feminista;  das mulheres com um determinado grau de privilégio falhando em escutar as irmãs mais marginalizadas; das mulheres com um determinado grau de privilégio falando por cima dessas irmãs; das mulheres com um determinado grau de privilégio centralizando o movimento ao redor de problemas que abrangem apenas a gama das próprias experiências delas. Originalmente, o termo Feminismo Branco era utilizado por mulheres não-brancas para abordar o racismo dentro do movimento feminista – uma crítica válida e necessária.

Ainda que mulheres brancas estejam em desvantagem pessoal e política por conta da ordem social vigente construída em cima de misoginia, elas também se beneficiam com o racismo institucional – queiram elas ou não.  Mesmo mulheres brancas com firmes políticas contra o racismo não podem excluir que se beneficiam do privilégio branco; que mulheres brancas recebem mais (embora deficiente) visibilidade da mídia do que suas irmãs negras e de minorias étnicas; que existe uma diferença salarial extensa em relação às mulheres não-brancas e que existe um aumento significativo do risco de violência policial que molda a realidade vivida por mulheres negras. É assim que o privilégio branco funciona. Nós vivemos em uma cultura impregnada de racismo, com uma grande quantidade de riqueza do nosso país decorrente do tráfico de escravos. Bem como a misoginia, leva-se muito tempo e reflexões conscientes para desaprender o racismo. É um processo de aprendizagem no qual nunca nos graduamos totalmente. Mulheres não-brancas desafiando o racismo de dentro do movimento feminista nos dá a oportunidade de conscientemente nos desligarmos de comportamentos recompensados pela supremacia branca do patriarcado.

No entanto, a expressão Feminismo Branco não está mais sendo usada exclusivamente por mulheres não-brancas para contestar o racismo que enfrentamos. Recentemente, tornou-se socialmente obrigatório para feministas brancas usarem o termo para descartar outras feministas brancas com as quais elas não concordam como incorporadoras do Feminismo Branco. As pessoas brancas começaram a chamar a atenção de outras pessoas brancas pela… branquitude. Não estou brincando. Em um artigo recente para a VICE, de alguma forma irônico, Paris Lees lamenta que “feministas brancas têm maiores plataformas de mídia…”. A artista Molly Crabapple, com plataforma de mídia e renda considerável (a não ser que se juntar à Samsung tenha sido um ato de caridade), fez tweets para invalidar pontos de vista, por conta do privilégio, das “senhoras brancas chiques“. Mas, daqui de onde estou sentada, ambas Paris e Molly parecem muito confortáveis.

Em vez de amplificar as vozes das mulheres não-brancas, ou de usar as próprias plataformas para destacar a intersecção entre raça e gênero, uma série de feministas brancas liberais sequestraram a crítica ao racismo com o intuito de dar suporte à própria imagem de progressistas – como se fossem o tipo certo de feminista, não uma Feminista Branca. Mas a cooptação da análise das mulheres não-brancas sobre o racismo dentro do movimento feminista é exatamente o tipo de comportamento para o qual a expressão “Feminismo Branco” foi criada para impedir. Pessoas brancas criticando “Feminismo Branco” perpetuam o privilégio branco. Priorizar a própria imagem, colocando-a acima da luta anti-racista liderada por mulheres não-brancas é, na melhor das hipóteses, narcisista, e na pior, racista. Essas ações apoiam a noção de que o racismo enfrentado por mulheres não-brancas é uma questão secundária, não uma preocupação principal dentro do movimento feminista.

Mulheres brancas usando o “Feminismo Branco” como uma vara para bater umas nas outras, e não como uma indução para que o próprio racismo seja considerado, é a branquitude em seu auge. Na corrida para “se lavar do privilégio”, as feministas brancas tornam-se as temidas Feministas Brancas por conta da apropriação indevida das palavras de suas irmãs marginalizadas para ganho pessoal.

Texto original aqui.

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imagem via navy-bleu.tumblr.com

 

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Precisamos invadir a política

No fim de semana retrasado, a votação do processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff foi transmitida com ares de jogo da Copa do Mundo. Não poderia ter sido diferente: a agenda midiática mainstream, com seu usual sensacionalismo disfarçado de cobertura jornalística, ajudou a criar esse cenário pouco informativo, mas bastante barulhento. Em Brasília, pichações “Fora Dilma” se transformavam em “Bora Dilma” para, em seguida, se tornarem “Vai emBora Dilma” – rabiscos antagônicos, mas constituídos da mesma base, se atropelando em busca de voz dentro desse mar de polarizações que pouco beneficiaram o debate público. No dia seguinte à votação, o sentimento foi parecido entre as pessoas que conheço e partilham pontos de vista alinhados com os meus: a demagogia que, a cada voto, escorria da televisão, era de causar profundas náuseas até no mais forte dos estômagos. O artista Augusto Botelho sintetizou bem o sentimento que estou falando nesse quadrinho aqui.

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Trecho do quadrinho de Augusto Botelho

A votação foi extremamente violenta e parecia mais uma espécie de programa da Xuxa: deputados mandaram beijos para a família, falaram das “empresas religiosas” que fazem parte (é o que essas igrejas infiltradas na política são), reforçaram os valores machistas e elitistas de nossa sociedade, homenagearam assassinos e fizeram muitos outros comentários que, nas entrelinhas, guardam o desprezo aos direitos humanos, aos direitos trabalhistas e a outros itens essenciais para o bem-estar da população como um todo – e que são recentes, em construção e conquistados com luta. O circo que tomou o lugar de um momento que deveria ser, supostamente, uma discussão política séria, escancarou que essa ideia de impeachment está movida por interesses particulares de grupos que querem impunidade e a manutenção de privilégios econômicos, sociais e afins. Caso contrário, figuras como Cunha, Bolsonazi e outras não estariam tão engajadas na questão. Nesta lista aqui tem algumas das justificativas mais bizarras de votos, vejam. E aqui é possível ler sobre os próximos passos: para que Dilma perca o cargo, são necessários os votos de pelo menos 54 senadores. Muita coisa ainda vai acontecer.

Não sou uma grande entendida do sistema político como um todo. Existem várias camadas que separam o que é dito do que é realmente verdade, e os trâmites são todos muito complicados. Mas é importante ter disposição e vontade de aprender cada vez mais sobre como desvendar essas coisas. Não importa o modelo de sociedade que a gente deseja, o atual é esse, precisamos entendê-lo e a internet está aí pra isso, vamos aproveitá-la! De qualquer forma, não tem como negar que a suposta ~faxina~ no Congresso que muitos ingênuos (ou mentirosos mesmo) ousaram acreditar é mais uma disputa de poder do que vontade de ajudar o povo brasileiro. Basta lembrar do presidente da Riachuelo falando que, sem a Dilma, seria “instantânea” a volta de investimentos no país. E com as pessoas exploradas em empresas terceirizadas contratadas por ele, será que ele se importa? Creio que não devemos nos iludir quando algo assim vai à tona e a empresa diz que vai exigir cumprimento de leis trabalhistas das terceirizadas que contrata, como se tivesse acabado de descobrir o caso. Pelo preço que os produtos são comprados, é possível saber se são oriundos de condições precárias de trabalho ou não – algo que deveria ser verificado antes de qualquer contrato, não é mesmo? Terceirização é uma ótima maneira de lavar as mãos. E a exploração e o trabalho análogo à escravidão são o modus operandi do lucro, e não excessões. Nem emprego em shopping escapa, o McDonald’s que o diga.

E o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), que acha que as leis trabalhistas devem ser flexibilizadas e que os trabalhadores devem ter 15 minutos de almoço, porque nos Estados Unidos é “normal” ter gente que opera máquina com uma mão e come sanduíche com a outra? Será que ele se importa com a população em geral? Será que ele engole o próprio filé mignon com pressa? A Fiesp não quer ‘pagar o pato’, como vem pregando em campanha, mas quer que a gente pague. Só quem nunca trabalhou na vida vai acreditar nessa conversa de que a pessoa poderá ir mais cedo pra casa se o horário de almoço for reduzido, como o cara alegou. E ele fala de outras propostas absurdas de retirada de direitos trabalhistas e inserção de jovens no mercado de um modo que duvido que parta de um viés que priorize os estudos e o desenvolvimento deles (aqui tem a entrevista completa).

A introdução do impeachment na agenda política & midiática do país me parece mais uma birra de machos poderosos que não aceitam brincar se não forem os donos da brincadeira contra uma presidenta eleita democraticamente (para que seja possível tentar entender os dois lados: aqui é possível ler argumentos de quem é contra o impeachmentaqui de quem é a favor). Não vejo pautas que realmente tragam melhorias para a população, e não apenas para empresários e correlatos, sendo abordadas dentro dessa discussão. Temos que lembrar que não é só desenvolvimento econômico a qualquer custo que traduz a qualidade de vida de um país, mas também direito à saúde, moradia, alimentação, educação, respeito à diversidade, livre expressão de gênero e orientação sexual e afins.

No entanto, essa treta toda não é uma surpresa. Em 2014 já fomos avisados que o Congresso eleito atualmente é o mais conservador desde 1964. De acordo com uma pesquisa do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), houve um grande aumento de militares, religiosos e ruralistas na política. “As pessoas não sabem o que fazem as instituições e se você não tem esse domínio, é trágico”, alegou o diretor da instituição na época em que a pesquisa foi divulgada. Infelizmente, marketing, publicidade e celebrização de candidatos parecem ter grande eficácia na batalha eleitoral, o que facilita o lado de quem tem dinheiro e visibilidade. Ideias complexas e que abalem o status quo acabam ganhando menos espaço, porque promovem redistribuições de privilégios que o poder instituído não quer ouvir falar. Por isso, é importante entendermos também o conceito de quociente eleitoral. Não adianta votarmos apenas em indivíduos sem entender o histórico e as propostas deles e que tipo de pessoas podem “puxar” junto.

Tem uma reportagem da Pública que mostra a “dinastia da Câmara”: quase metade dos deputados são membros de famílias que, em alguns casos, possuem poder político desde o período colonial no Brasil. E não só na Câmara é assim, mas também em outras esferas de poder. Leiam a matéria inteira aqui, porque vale a pena. Ela mostra que a política, que era pra ser uma “atividade aberta a todos os cidadãos”, acaba virando um negócio mantido por “clãs” preocupados com enriquecimento pessoal e que já possuem vantagens e conhecimentos sobre as estratégias do jogo. Os especialistas e professores entrevistados afirmam que a desinformação e despolitização são fatores marcantes no processo eleitoral do país e o sistema político brasileiro precisa ser rediscutido – e debatido.

Portanto, é bom tentarmos localizar qual o nosso lugar e a nossa posição dentro disso tudo. Política pode parecer algo muito distante da realidade de muita gente, mas aqueles homens vociferantes declarando absurdos em rede nacional não estão longe de nós. Eles são os nossos chefes, os donos das empresas que nos terceirizam (ou “pejotizam”, no meu caso e no de tantos colegas da área de comunicação e afins), os caras que não estão nem aí para agrotóxicos em nossos alimentos, os que colocam direitos de empresas acima dos de pessoas, os que empurram produtos industrializados para bebês e crianças, os que nos humilham e assediam moralmente e sexualmente nas ruas, faculdades e ambientes de trabalho, os que matam gays e lésbicas ou incitam violências contra essas pessoas, os que são contra cotas porque não querem perder mão-de-obra barata, os que promovem violência policial, os que poluem águas, acumulam terras, constroem catástrofes… Os que lucram com nossos problemas e, por isso, não se interessam em resolvê-los.

Podemos até achar que não entendemos de política, mas ela está entranhada em nosso dia a dia o tempo inteiro. Apenas não temos, muitas vezes, autoestima para achar que nossa percepção tem validade e nem ferramentas necessárias para decodificar os processos políticos, o que significam, de onde vieram, para onde vão. Por isso, o meu objetivo com esse texto não é convencer pessoas a acreditar em x ou y, embora eu tenha deixado evidente uma pequena parte dos meus pontos de vista. Com tanta coisa mudando o tempo inteiro, meu intuito foi apenas refletir superficialmente sobre o cenário atual e incentivar mais gente a participar de discussões desse tipo. Sendo este blog um espaço feminista, acho importante buscar falar sobre essas questões, pois sei que muitas mulheres não tem suas opiniões respeitadas ou levadas a sério e acabam se afastando de alguns debates mais amplos. É um texto para as mina, os mano e as mona pensarem, de forma conjunta, se estamos satisfeitos, se nos sentimentos representados, o que achamos que deve mudar e, principalmente, o que não sabemos e pode ser importante começarmos a saber?

E mais: quais as brechas nos espaços de poder que podem ser aproveitadas? Quais as mudanças que queremos ver não apenas em nossas vidas, mas em nossas comunidades? Quais as prioridades do Brasil atual dentro da nossa perspectiva de militância? Como andam as coisas para as mulheres como um todo, para as mães, para as pessoas negras, para a população LGBT, para os moradores de periferias, para os jovens, para os idosos e vários outros grupos pouco lembrados nas discussões desses homens que se dizem tão preocupados com o futuro do Brasil? Como elas podem ficar? Estas são perguntas que faço não apenas às pessoas que estão lendo esse texto agora, mas a mim mesma. A única certeza que tenho, no momento, é que representatividade importa e é a falta dela nos ambientes de poder que empobrece as discussões atuais e faz com que esse monte de macho, branco, rico, empreiteiro, pastor, traficante, militar, empresário, fazendeiro e afins toquem as demandas deles como as mais importantes.

Informação é poder. Precisamos aproveitar a nossa era, que favorece a comunicação em redes e a construção coletiva de conhecimento, para criar um novo cenário. Vamos tentar?