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TODA MULHER É LOUCA

Certos homens agridem as namoradas na maior cara de pau, e falam da amiga louca. Disseminam preconceitos estéticos e raciais, disfarçando tudo isso de “gosto pessoal”, e falam da professora louca. Saem com qualquer uma que conhecem em qualquer lugar, e falam da colega de trabalho louca. Enchem a cara e agem feito uns idiotas, e falam da esposa louca. Praticam sexo não consentido com mulheres desacordadas ou vulneráveis –  vulgo estupro, sabe? – e falam da irmã louca. Não desfazem laços com caras que já fizeram o mesmo (e os legitimam socialmente), e só julgam a cunhada louca. Desumanizam as garotas com quem saem, separando-as entre as que merecem respeito e as que não merecem, e falam da mãe louca.  Arrumam briga e promovem atos violentos por motivos banais e fúteis, mas louca é aquela tia distante, que vez ou outra vem visitar. Chegam a machucar e até a matar mulheres e também outros homens, simplesmente porque não sabem lidar com diferenças e frustração, mas o foco da conversa? É a ex-namorada louca, claro. Abandonam a família, e apontam o dedo para a cantora louca. Incentivam a rivalidade feminina, fazem comparações entre mulheres e chamam de louca aquela garçonete que trabalha o dia inteiro no restaurante da esquina. Não lavam uma louça, e reclamam da diarista que aparece toda segunda-feira, que é louca. Apesar de adultos, namoram meninas adolescentes e facilmente manipuláveis – e diz para elas tomarem cuidado com as colegas de classe, que são loucas. Fingem que são bonzinhos e abusam de crianças, e falam da ativista louca. Se fazem de pobres coitados, frágeis, abandonados e doentes, mas a prima é que é louca. Exploram funcionários e chamam isso de trabalho, e falam da avó louca. Assediam mulheres em shoppings, hospitais e igrejas, e riem da moradora de rua louca. Dirigem rápido, achando que a vida é um filme de ação, e conversam sobre a vizinha louca. Fazem sexo que nem uma britadeira descontrolada, achando que os ensinamentos da pornografia são válidos, e falam da dentista louca. Aprisionam mulheres em relacionamentos “livres”, e falam da dona de casa louca. São incapazes de demonstrar afeto sem ironia ou constrangimento… E falam que todas, todas, todas, todas, todas as mulheres ao redor, por algum motivo, são loucas.

Desconfiem de adjetivações genéricas, reducionistas, preconceituosas e sem fatos ou análises embasadas como foco. E, não esqueçam: a louca que hoje você ajuda a isolar por acreditar que isso te dará algum tipo de proteção pode ser você amanhã. Mulheres são historicamente taxadas de loucas como forma de controle e dominação. Toda mulher que coloca o privilégio de um homem em risco ou quer romper com as sufocantes regras sociais impostas ao sexo feminino é vista como errada ou perigosa.

Na maioria das vezes, não basta apenas olhar para onde os dedos apontam. É preciso observar também de quem é a mão.

katrene

pintura de kat renee // katrenee.com
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Sobre o processo de se transformar em uma publicação impressa

Queria ter escrito este post aqui há mais tempo, porém, ando vivendo uma deliciosa bagunça nômade que me faz morar oficialmente em uma cidade e estudar em outra. Tenho me dividido entre milhares de coisas pra fazer e preocupações excessivas (oi, ansiedade). Além disso, quase assassinei o meu computador pela segunda vez, derramando água de coco nele (a primeira foi quando tive a brilhante ideia de limpar o teclado com lenços umedecidos). Andei também viajando para lugares fora da minha rota, uma das viagens como parte de um lindo projeto educativo e a outra de férias mesmo. E etc, etc e etc. Conto tudo isso apenas para justificar meu sumiço, pois com certeza o que listo aqui não me traz muitos motivos para reclamar (tirando a ansiedade e o computador molhado).

Agora que finalmente parei para sacudir a poeira do blog (estava com saudade), trago boas notícias: realizei um financiamento coletivo entre abril e maio deste ano com o intuito de arrecadar dinheiro para imprimir uma publicação independente. Felizmente, deu tudo certo e, por isso, o conteúdo da Vulva Revolução passou a ser algo que existe também no papel – é um zine! Como sou fruto dos rolês alternativos e do do-it-yourself, essa foi a linguagem que conheço e decidi utilizar para reunir parte do material escrito por aqui até hoje. E essa foi a maneira que escolhi para dizer que sou uma autora capaz de escrever em diversas plataformas. E, não vou mentir, é mais barato e fácil de produzir do que um livro, heh (que é algo que também está nos meus planos). Mas não quero, com esse comentário, criar nenhuma hierarquia, cada coisa tem sua estética, seu espaço, sua importância e sua razão de ser.

A ideia de fazer uma publicação a partir de textos aqui do blog era alimentada desde o ano passado. Sempre gostei muito de livros, revistas, zines, folhetos e afins. Ouvir o barulho de páginas virando, analisar formatos e o tipo de papel, bem como a beleza ou estranheza das imagens é muito agradável, não é mesmo? A experiência impressa é um romance em si mesma. E, além do mais, o que está no papel me parece ter um tipo de circulação diferente do material online – agora participo de mais eventos, faço vendas & trocas, conheço várias pessoas ao vivo e estou chegando em novos lugares.

zinevulva

Vários zines, oba!

Claro que a internet tem o seu posto essencial de principal divulgadora das minhas ideias – e é o meu habitat. E ela e o papel são meios diferentes, mas que não se anulam. No entanto, o que está impresso ainda me parece, de alguma forma, mais respeitado como “conteúdo de verdade”. É o que te chancela como alguém que realmente produz – principalmente quando o seu principal veículo é um blog totalmente independente. Isso tudo pode até estar mudando, estamos começando a criar o hábito de ler em outros meios (eu mesma já sou adepta do Kindle faz muitos anos), mas minha experiência me mostra um interesse diferente por parte do público em geral quando você começa a organizar o seu próprio material no papel – mas não sei se um e-book ou algo assim causaria o mesmo tipo de reação. São muitas possibilidades, temos muito a pensar.

Planejei tudo sozinha, mas contei com o apoio de várias pessoas durante o processo de nascimento do zine (que teve um protótipo com uma tiragem de 20 unidades realizada no ano passado). Um amigo fez o vídeo para o site do crowdfunding, por exemplo, e mulheres com as quais possuo diferentes graus de proximidade (mas admiro o trabalho de todas) colaboraram com as ilustrações presentes na publicação (e com um dos textos exclusivos), tornando-a coletiva e plural. Aprendi ainda mais sobre as diferentes etapas intelectuais e burocráticas de se produzir algo no papel, o que não é novidade pra mim, por conta da minha profissão e de produções anteriores, mas que foi mais intenso por ser um projeto pessoal cuja existência se deu, inicialmente, por conta do meu próprio interesse. Foi um exercício de aprender a dizer internamente, e para os outros: “o que eu faço importa” e “se eu quero fazer, importa”. Os feedbacks que recebo ajudaram, pois são várias as mulheres que afirmam se sentir contempladas com meus questionamentos (que bom, pois essa é a intenção). E elaborei uma linha narrativa que orientasse o material de modo coerente, editei os textos do blog para o formato impresso, diagramei o zine, fiz orçamentos e pedidos das recompensas prometidas no financiamento coletivo (camisetas, bottons e adesivos), entre outras coisas.

Não vou mentir, fiquei bastante orgulhosa de mim mesma, ainda que uma ou outra pessoa pessimista tenha cruzado o meu caminho com frases como “é só um zine” ou “é só um blog”. Sempre vai aparecer alguém projetando as próprias frustrações no que a gente está fazendo, colocando o foco em pequenos detalhes e não no todo. Deu trabalho e atrasei algumas entregas, pois precisei de mais tempo do que esperava para terminar algumas coisas, mas valeu muito a pena.

No meio disso tudo, fiz um curso de Produção Gráfica com a Aline Valli, que era da Cosac Naify, e foi bom para aprender mais sobre aspectos práticos e estéticos de uma publicação impressa. Mesmo que o meu interesse principal seja a escrita, achei legal ter mais noção de todos os processos que envolvem a realização de um livro – ou de qualquer outro material do tipo. E uma das aulas foi justo no último dia de existência da Cosac, o que deixou a professora bem emocionada. Não fiz o curso por causa do zine, mas pelo interesse geral na área mesmo – tenho um crush no meio editorial como um todo. Só que acabou sendo útil, lógico. Conhecimento nunca é demais.

Acompanhar um financiamento coletivo é bastante agoniante – ainda mais quando você é uma pessoa ansiosa. Isso que o meu nem era assim tão difícil de alcançar, imagina os que contam com uma grana alta? Meu coração não aguentaria. É importante assistir os vídeos e recomendações desses sites de crowndfunding – graças a eles, consegui tirar várias dúvidas e fazer prospecções de metas – e conversar com outras pessoas que já passaram pelo processo (isso me ajudou a aprender bastante com erros e acertos de colegas). Uma divulgação constante é essencial, bem como uma boa comunicação com veículos grandes que se comuniquem com o seu público-alvo. Contei com a ajuda de alguns blogs, sites e páginas, e até mesmo parceria com festa famosinha de Brasília eu fiz, o que não gerou o retorno financeiro esperado, mas foi uma noite muito divertida e que também ajudou na divulgação.

O zine foi lançado oficialmente em Brasília, Rio de Janeiro e Belém e a tiragem inicial foi de 500 unidades. Alguns foram doados para mulheres que realizam projetos que se relacionam com feminismo, educação e afins (tive notícias de alguns sendo utilizados em oficinas de educação e gênero para jovens e adultos, e me emocionei). Paralelamente a isso, várias outras coisas foram e estão sendo feitas, algumas delas pretendo contar por aqui assim que tiver tempo (e ânimo) de novo. São muitas novidades, pensamentos, ideias, mas também muito cansaço e falta de energia, em alguns momentos. De vez em quando, essa era atual faz a gente se sentir sempre a correr sem saber muito bem para onde ir, não é? Tipo, me pego fazendo um monte de coisa e achando que não estou fazendo nada pois esse monte de coisa ainda não é necessariamente aquela idealização da minha cabeça de coisas que imagino que “deveria” estar fazendo. Confuso, eu sei.

Por isso, parei aqui para respirar e relatar esse processo. Meu intuito foi, de certa forma, prestar contas a todo mundo que me apoiou, além de incentivar outras mulheres a tocarem seus projetos e a encararem o que fazem como algo importante – não importa se a sua vibe é escrita, desenho, crochê, pintura, matemática, gastronomia ou games. Nem se é algo para um público grande ou pequeno – até porque isso varia com o tempo. O que importa é a gente existir e falar sobre a nossa realidade, desenvolver competências artísticas, criativas, intelectuais, ganhar experiências e estreitar laços umas com as outras. Gosto muito de assistir ou ler sobre processos alheios – de pequenos quadrinistas independentes a fotógrafos com fama mundial, sei lá  – e essa foi a minha contribuição para quem tem o mesmo tipo de interesse. Como escrevi em muitos dos bilhetinhos que enviei para vários lugares do Brasil, junto com os zines e as recompensas adquiridas: juntas somos mais!

Tem Vulva Revolução no FacebookTwitter e Instagram também, viu?

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Pessoas brancas criticando “Feminismo Branco” perpetuam privilégio branco

O texto a seguir foi escrito em 2015 por Claire Heuchan, autora do blog Sister Outrider. Feminista radical, negra, lésbica e escocesa, ela é também mestranda em literatura com ênfase em estudos de gênero, e sua pesquisa se foca em Teoria Feminista Negra, ativismo e escrita. Se você lê em inglês, vale a pena procurar outros textos dela por aí. A tradução foi feita por mim e pela Carol Correia, que tem feito um ótimo trabalho em traduzir materiais do inglês para o português com o intuito de disseminar mais informações sobre feminismo em nossa língua. 

Gostei do texto por ser curto e direto. E é um convite à reflexão para as feministas brancas. Lutar contra o racismo é um papel de todas nós, mas é preciso uma postura ativa, que promova mudanças reais e eficazes. Não adianta só repetir palavras vazias e discursos simplistas. O racismo é um sistema complexo que embasa a nossa sociedade e precisamos entendê-lo para exterminá-lo. E é um assunto que deve ser tratado com seriedade, e não como um mero atalho para impulsionar a própria imagem de forma positiva. Boa leitura!

Se você se envolve em discussões feministas online, as chances são que você já tenha notado uma expressão particular se tornando cada vez mais comum: Feminismo Branco. Algumas vezes até mesmo um símbolo de marca registrada é adicionado, para dar ênfase. O termo Feminismo Branco tornou-se uma abreviação para certas falhas dentro do movimento feminista;  das mulheres com um determinado grau de privilégio falhando em escutar as irmãs mais marginalizadas; das mulheres com um determinado grau de privilégio falando por cima dessas irmãs; das mulheres com um determinado grau de privilégio centralizando o movimento ao redor de problemas que abrangem apenas a gama das próprias experiências delas. Originalmente, o termo Feminismo Branco era utilizado por mulheres não-brancas para abordar o racismo dentro do movimento feminista – uma crítica válida e necessária.

Ainda que mulheres brancas estejam em desvantagem pessoal e política por conta da ordem social vigente construída em cima de misoginia, elas também se beneficiam com o racismo institucional – queiram elas ou não.  Mesmo mulheres brancas com firmes políticas contra o racismo não podem excluir que se beneficiam do privilégio branco; que mulheres brancas recebem mais (embora deficiente) visibilidade da mídia do que suas irmãs negras e de minorias étnicas; que existe uma diferença salarial extensa em relação às mulheres não-brancas e que existe um aumento significativo do risco de violência policial que molda a realidade vivida por mulheres negras. É assim que o privilégio branco funciona. Nós vivemos em uma cultura impregnada de racismo, com uma grande quantidade de riqueza do nosso país decorrente do tráfico de escravos. Bem como a misoginia, leva-se muito tempo e reflexões conscientes para desaprender o racismo. É um processo de aprendizagem no qual nunca nos graduamos totalmente. Mulheres não-brancas desafiando o racismo de dentro do movimento feminista nos dá a oportunidade de conscientemente nos desligarmos de comportamentos recompensados pela supremacia branca do patriarcado.

No entanto, a expressão Feminismo Branco não está mais sendo usada exclusivamente por mulheres não-brancas para contestar o racismo que enfrentamos. Recentemente, tornou-se socialmente obrigatório para feministas brancas usarem o termo para descartar outras feministas brancas com as quais elas não concordam como incorporadoras do Feminismo Branco. As pessoas brancas começaram a chamar a atenção de outras pessoas brancas pela… branquitude. Não estou brincando. Em um artigo recente para a VICE, de alguma forma irônico, Paris Lees lamenta que “feministas brancas têm maiores plataformas de mídia…”. A artista Molly Crabapple, com plataforma de mídia e renda considerável (a não ser que se juntar à Samsung tenha sido um ato de caridade), fez tweets para invalidar pontos de vista, por conta do privilégio, das “senhoras brancas chiques“. Mas, daqui de onde estou sentada, ambas Paris e Molly parecem muito confortáveis.

Em vez de amplificar as vozes das mulheres não-brancas, ou de usar as próprias plataformas para destacar a intersecção entre raça e gênero, uma série de feministas brancas liberais sequestraram a crítica ao racismo com o intuito de dar suporte à própria imagem de progressistas – como se fossem o tipo certo de feminista, não uma Feminista Branca. Mas a cooptação da análise das mulheres não-brancas sobre o racismo dentro do movimento feminista é exatamente o tipo de comportamento para o qual a expressão “Feminismo Branco” foi criada para impedir. Pessoas brancas criticando “Feminismo Branco” perpetuam o privilégio branco. Priorizar a própria imagem, colocando-a acima da luta anti-racista liderada por mulheres não-brancas é, na melhor das hipóteses, narcisista, e na pior, racista. Essas ações apoiam a noção de que o racismo enfrentado por mulheres não-brancas é uma questão secundária, não uma preocupação principal dentro do movimento feminista.

Mulheres brancas usando o “Feminismo Branco” como uma vara para bater umas nas outras, e não como uma indução para que o próprio racismo seja considerado, é a branquitude em seu auge. Na corrida para “se lavar do privilégio”, as feministas brancas tornam-se as temidas Feministas Brancas por conta da apropriação indevida das palavras de suas irmãs marginalizadas para ganho pessoal.

Texto original aqui.

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imagem via navy-bleu.tumblr.com

 

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Precisamos invadir a política

No fim de semana retrasado, a votação do processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff foi transmitida com ares de jogo da Copa do Mundo. Não poderia ter sido diferente: a agenda midiática mainstream, com seu usual sensacionalismo disfarçado de cobertura jornalística, ajudou a criar esse cenário pouco informativo, mas bastante barulhento. Em Brasília, pichações “Fora Dilma” se transformavam em “Bora Dilma” para, em seguida, se tornarem “Vai emBora Dilma” – rabiscos antagônicos, mas constituídos da mesma base, se atropelando em busca de voz dentro desse mar de polarizações que pouco beneficiaram o debate público. No dia seguinte à votação, o sentimento foi parecido entre as pessoas que conheço e partilham pontos de vista alinhados com os meus: a demagogia que, a cada voto, escorria da televisão, era de causar profundas náuseas até no mais forte dos estômagos. O artista Augusto Botelho sintetizou bem o sentimento que estou falando nesse quadrinho aqui.

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Trecho do quadrinho de Augusto Botelho

A votação foi extremamente violenta e parecia mais uma espécie de programa da Xuxa: deputados mandaram beijos para a família, falaram das “empresas religiosas” que fazem parte (é o que essas igrejas infiltradas na política são), reforçaram os valores machistas e elitistas de nossa sociedade, homenagearam assassinos e fizeram muitos outros comentários que, nas entrelinhas, guardam o desprezo aos direitos humanos, aos direitos trabalhistas e a outros itens essenciais para o bem-estar da população como um todo – e que são recentes, em construção e conquistados com luta. O circo que tomou o lugar de um momento que deveria ser, supostamente, uma discussão política séria, escancarou que essa ideia de impeachment está movida por interesses particulares de grupos que querem impunidade e a manutenção de privilégios econômicos, sociais e afins. Caso contrário, figuras como Cunha, Bolsonazi e outras não estariam tão engajadas na questão. Nesta lista aqui tem algumas das justificativas mais bizarras de votos, vejam. E aqui é possível ler sobre os próximos passos: para que Dilma perca o cargo, são necessários os votos de pelo menos 54 senadores. Muita coisa ainda vai acontecer.

Não sou uma grande entendida do sistema político como um todo. Existem várias camadas que separam o que é dito do que é realmente verdade, e os trâmites são todos muito complicados. Mas é importante ter disposição e vontade de aprender cada vez mais sobre como desvendar essas coisas. Não importa o modelo de sociedade que a gente deseja, o atual é esse, precisamos entendê-lo e a internet está aí pra isso, vamos aproveitá-la! De qualquer forma, não tem como negar que a suposta ~faxina~ no Congresso que muitos ingênuos (ou mentirosos mesmo) ousaram acreditar é mais uma disputa de poder do que vontade de ajudar o povo brasileiro. Basta lembrar do presidente da Riachuelo falando que, sem a Dilma, seria “instantânea” a volta de investimentos no país. E com as pessoas exploradas em empresas terceirizadas contratadas por ele, será que ele se importa? Creio que não devemos nos iludir quando algo assim vai à tona e a empresa diz que vai exigir cumprimento de leis trabalhistas das terceirizadas que contrata, como se tivesse acabado de descobrir o caso. Pelo preço que os produtos são comprados, é possível saber se são oriundos de condições precárias de trabalho ou não – algo que deveria ser verificado antes de qualquer contrato, não é mesmo? Terceirização é uma ótima maneira de lavar as mãos. E a exploração e o trabalho análogo à escravidão são o modus operandi do lucro, e não excessões. Nem emprego em shopping escapa, o McDonald’s que o diga.

E o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), que acha que as leis trabalhistas devem ser flexibilizadas e que os trabalhadores devem ter 15 minutos de almoço, porque nos Estados Unidos é “normal” ter gente que opera máquina com uma mão e come sanduíche com a outra? Será que ele se importa com a população em geral? Será que ele engole o próprio filé mignon com pressa? A Fiesp não quer ‘pagar o pato’, como vem pregando em campanha, mas quer que a gente pague. Só quem nunca trabalhou na vida vai acreditar nessa conversa de que a pessoa poderá ir mais cedo pra casa se o horário de almoço for reduzido, como o cara alegou. E ele fala de outras propostas absurdas de retirada de direitos trabalhistas e inserção de jovens no mercado de um modo que duvido que parta de um viés que priorize os estudos e o desenvolvimento deles (aqui tem a entrevista completa).

A introdução do impeachment na agenda política & midiática do país me parece mais uma birra de machos poderosos que não aceitam brincar se não forem os donos da brincadeira contra uma presidenta eleita democraticamente (para que seja possível tentar entender os dois lados: aqui é possível ler argumentos de quem é contra o impeachmentaqui de quem é a favor). Não vejo pautas que realmente tragam melhorias para a população, e não apenas para empresários e correlatos, sendo abordadas dentro dessa discussão. Temos que lembrar que não é só desenvolvimento econômico a qualquer custo que traduz a qualidade de vida de um país, mas também direito à saúde, moradia, alimentação, educação, respeito à diversidade, livre expressão de gênero e orientação sexual e afins.

No entanto, essa treta toda não é uma surpresa. Em 2014 já fomos avisados que o Congresso eleito atualmente é o mais conservador desde 1964. De acordo com uma pesquisa do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), houve um grande aumento de militares, religiosos e ruralistas na política. “As pessoas não sabem o que fazem as instituições e se você não tem esse domínio, é trágico”, alegou o diretor da instituição na época em que a pesquisa foi divulgada. Infelizmente, marketing, publicidade e celebrização de candidatos parecem ter grande eficácia na batalha eleitoral, o que facilita o lado de quem tem dinheiro e visibilidade. Ideias complexas e que abalem o status quo acabam ganhando menos espaço, porque promovem redistribuições de privilégios que o poder instituído não quer ouvir falar. Por isso, é importante entendermos também o conceito de quociente eleitoral. Não adianta votarmos apenas em indivíduos sem entender o histórico e as propostas deles e que tipo de pessoas podem “puxar” junto.

Tem uma reportagem da Pública que mostra a “dinastia da Câmara”: quase metade dos deputados são membros de famílias que, em alguns casos, possuem poder político desde o período colonial no Brasil. E não só na Câmara é assim, mas também em outras esferas de poder. Leiam a matéria inteira aqui, porque vale a pena. Ela mostra que a política, que era pra ser uma “atividade aberta a todos os cidadãos”, acaba virando um negócio mantido por “clãs” preocupados com enriquecimento pessoal e que já possuem vantagens e conhecimentos sobre as estratégias do jogo. Os especialistas e professores entrevistados afirmam que a desinformação e despolitização são fatores marcantes no processo eleitoral do país e o sistema político brasileiro precisa ser rediscutido – e debatido.

Portanto, é bom tentarmos localizar qual o nosso lugar e a nossa posição dentro disso tudo. Política pode parecer algo muito distante da realidade de muita gente, mas aqueles homens vociferantes declarando absurdos em rede nacional não estão longe de nós. Eles são os nossos chefes, os donos das empresas que nos terceirizam (ou “pejotizam”, no meu caso e no de tantos colegas da área de comunicação e afins), os caras que não estão nem aí para agrotóxicos em nossos alimentos, os que colocam direitos de empresas acima dos de pessoas, os que empurram produtos industrializados para bebês e crianças, os que nos humilham e assediam moralmente e sexualmente nas ruas, faculdades e ambientes de trabalho, os que matam gays e lésbicas ou incitam violências contra essas pessoas, os que são contra cotas porque não querem perder mão-de-obra barata, os que promovem violência policial, os que poluem águas, acumulam terras, constroem catástrofes… Os que lucram com nossos problemas e, por isso, não se interessam em resolvê-los.

Podemos até achar que não entendemos de política, mas ela está entranhada em nosso dia a dia o tempo inteiro. Apenas não temos, muitas vezes, autoestima para achar que nossa percepção tem validade e nem ferramentas necessárias para decodificar os processos políticos, o que significam, de onde vieram, para onde vão. Por isso, o meu objetivo com esse texto não é convencer pessoas a acreditar em x ou y, embora eu tenha deixado evidente uma pequena parte dos meus pontos de vista. Com tanta coisa mudando o tempo inteiro, meu intuito foi apenas refletir superficialmente sobre o cenário atual e incentivar mais gente a participar de discussões desse tipo. Sendo este blog um espaço feminista, acho importante buscar falar sobre essas questões, pois sei que muitas mulheres não tem suas opiniões respeitadas ou levadas a sério e acabam se afastando de alguns debates mais amplos. É um texto para as mina, os mano e as mona pensarem, de forma conjunta, se estamos satisfeitos, se nos sentimentos representados, o que achamos que deve mudar e, principalmente, o que não sabemos e pode ser importante começarmos a saber?

E mais: quais as brechas nos espaços de poder que podem ser aproveitadas? Quais as mudanças que queremos ver não apenas em nossas vidas, mas em nossas comunidades? Quais as prioridades do Brasil atual dentro da nossa perspectiva de militância? Como andam as coisas para as mulheres como um todo, para as mães, para as pessoas negras, para a população LGBT, para os moradores de periferias, para os jovens, para os idosos e vários outros grupos pouco lembrados nas discussões desses homens que se dizem tão preocupados com o futuro do Brasil? Como elas podem ficar? Estas são perguntas que faço não apenas às pessoas que estão lendo esse texto agora, mas a mim mesma. A única certeza que tenho, no momento, é que representatividade importa e é a falta dela nos ambientes de poder que empobrece as discussões atuais e faz com que esse monte de macho, branco, rico, empreiteiro, pastor, traficante, militar, empresário, fazendeiro e afins toquem as demandas deles como as mais importantes.

Informação é poder. Precisamos aproveitar a nossa era, que favorece a comunicação em redes e a construção coletiva de conhecimento, para criar um novo cenário. Vamos tentar?

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Quando o “não” vira sentença de morte

Voltei de uma viagem na última sexta-feira e, assim que pisei em casa, resolvi procrastinar o momento de desfazer as malas dando aquela olhadinha nas redes sociais. Me deparei com um post muito triste de uma moça pedindo ajuda para encontrar a irmã dela, que estava desaparecida desde a noite anterior. Porém, antes que eu pudesse pensar em qualquer hipótese sobre o assunto, pipocavam comentários na postagem desejando força para a família e afins. Cliquei nas notícias linkadas e li sobre a morte cruel da jovem Louise Ribeiro, de 20 anos. A estudante de biologia foi assassinada pelo ex-namorado (e colega de curso) Vinícius Neres, de 19 anos, dentro da Universidade de Brasília (UnB). É uma história muito chocante. Fiquei muito mal, os olhos marejados, o peito apertado… Até quando um homem que não sabe lidar com rejeição e enxerga uma mulher como posse vai se achar no direito de tirar a vida dela? Quando iremos alterar o paradigma desse roteiro tão comum?

Enquanto ainda digeria o acontecido, uma história muito parecida apareceu nos jornais do Distrito Federal menos de 48 horas após a morte de Louise: a estudante de gestão pública Jane Fernandes Cunha, de 20 anos, foi assassinada pelo ex-companheiro Jhonatan Pereira Alves, de 23 anos. O cara atirou nela e, em seguida, se matou. Embora ambos os crimes sejam igualmente terríveis, o caso de Jane possui um agravante: ela já havia feito uma denúncia contra o ex na Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam) por conta de frequentes intimidações. Porém, não adiantou, como em diversos outros casos (um maior uso de dipositivos eletrônicos que apitam, como pulseiras, sendo mais utilizados em casos de medidas protetivas podem auxiliar, será? Algo precisa ser feito, é desesperador). Ele era mais um desses desequilibrados que ~não aceitam o fim do relacionamento~ e, ao invés de assistir uns filmes tristes ou buscar algum tipo de apoio psicológico, preferiu resolver as coisas da pior forma possível. E as mulheres é que são chamadas de “histéricas” e “descontroladas”… Estranho, não?

O caso de Louise está ganhando ampla repercussão por ter acontecido dentro de uma universidade, e entre pessoas muito jovens e de classe média (Jane era da periferia do DF) – e creio que também pelo fato de o assassino estar vivo e não corresponder ao estereótipo que se cria de “bandidos”. Ele tem um visual “nerd”, é frio, indiferente, bem articulado e tem sido protagonista de entrevistas enojantes onde posa feito um popstar narrando um crime brutal com a banalidade de quem está fazendo um novo show. E a mídia carniceira e sensacionalista dá corda e faz perguntas que não levam a lugar algum, desinformam e acabam por tentar tirar o rapaz do lugar que ele pertence: de assassino misógino para um “garoto perturbado”.

Precisamos conversar claramente sobre todas essas questões e acabar de uma vez por todas com o mito de que o agressor é um “monstro” ou um “doente” – a não ser que a gente comece a concordar que a masculinidade em si pode, muitas vezes, ser uma espécie de doença mental epidêmica que é instalada na pessoa do sexo masculino por meio da socialização. Se o Mapa da Violência de 2015 mostra que grande parte da violência contra a mulher – e dos assassinatos – são cometidos por familiares e ex-parceiros, isso significa que existem criminosos aos montes, eles não são exceções. Logo, invocar o “monstro” quando estamos falando de um comportamento corriqueiro é fechar os olhos para uma situação generalizada, como se apenas alguns caras estivessem fazendo algo ruim porque possuem algum problema (embora existam transtornos que façam uma pessoa matar outra, mas isso é outra questão) e não porque estão inseridos em uma cultura onde o valor da mulher é baixo.

Aliás, temos que ir mais longe e radicalizar (lembrando que “radical” tem a ver com ir até a raiz): qualquer homem que seja contra uma mulher livre e autônoma é um agressor em potencial, e isso não é uma hipérbole, mas uma realidade. São muitos os que, de forma explícita ou velada, se incomodam com a existência de mulheres que querem decidir o que fazer, o que vestir, o que estudar, onde trabalhar e com quem se relacionar. E esse incômodo resulta em um alto número de violências físicas, psicológicas e verbais contra as mulheres. Portanto, temos um problema sério em mãos a ser resolvido, e ele envolve mais do que segurança pública, melhoria nos aparatos judiciais ou iluminação nas ruas, mas também muita educação.

Quantas vezes não achamos um cara meio estranho, raivoso, machista e as pessoas ao redor tentam abafar, dizendo que ele é assim mesmo, que está só brincando, que é um pouco exagerado no modo de falar, que teve problema com drogas, está deprimido ou sofreu alguma rejeição? “Apesar de tudo, ele é gente boa”. Nananinanão, parem de inventar desculpas. Misoginia é misoginia, e esse tipo de gente ser levada a sério é um sintoma grave de que odiar mulher não tem problema algum. É um absurdo que a gente viva em uma sociedade conivente com homens que dizem que mulheres são inferiores ou devem ser submissas e que vociferam coisas como “vadias”, “putas”, “piranhas” assim que percebem que não podem controlar comportamentos e sentimentos alheios. A necessidade masculina de afirmar a própria identidade a partir da dominação do sexo feminino – e também do sexo masculino dissidente do estereótipo macho e heterossexual – é tóxica para todos os envolvidos. E a misoginia escorre por todos os lados, inclusive da boca daqueles que pregam respeito às minas, basta prestar atenção nos detalhes.

Pensando na construção histórica do que é ser mulher, que envolve a demarcação do corpo do sexo feminino como menos valioso e violável, é possível perceber que a dualidade sobre a qual somos obrigadas a caminhar desde que nascemos permite com que a gente seja qualquer coisa, menos um ser humano. De santa a puta, de vaca a cachorra, de nobre mãe a vadia degenerada, de musa a bruxa, estamos sempre nos equilibrando sobre a ponta de uma faca que, em algum momento, fura a nossa carne por conta do peso insuportável da pressão. Ou então somos punidas, de alguma maneira, por não cumprir os papeis de gênero pré-determinados. E é necessário muito pouco para ser considerada uma rebelde: ás vezes é só dizer não (aliás, vale muito a pena ler o texto “O não também nos pertence”, escrito por Thaís Campolina).

O pai de Louise disse, em uma matéria, que a jovem era muito estudiosa e não era de baladas. Infelizmente, ao contrário do que muitas pessoas pensam, não existem premissas reais que protejam a mulher de um feminicídio, ainda que ela tente ser um exemplo, uma “moça direita” ou qualquer coisa do tipo. Nascer mulher no mundo atual é um risco por si só, afinal, os homens crescem nos objetificando e achando que podem fazer o que quiser. Eles crescem pensando em carros, status, conquistas profissionais e mulheres (percebam que estamos sempre em um balaio de “coisas”), como se ter tudo o que desejassem fosse um direito garantido a todo ser do sexo masculino que ~performa~ a masculinidade.

Os caras precisam aprender a lidar com frustrações e a culpar os inimigos corretos (tem muito frustrado por questões materiais que desconta em mulher, por exemplo, quando a falta de sucesso dele é causada por um sistema desigual que visa manter o status quo – e as mulheres estão muito longe do topo desse sistema, mesmo as privilegiadas). E precisam também tirar essa visão bélica de cima dos relacionamentos, tratando tudo como uma guerra que tem que ser vencida a qualquer custo. Estar com alguém (seja em um casamento ou em uma ficada de uma noite) é uma construção em conjunto que, em um determinado momento, pode parar de dar certo.

E tem mais: quando termos como friendzone (pra quem não sabe o que é, aqui tem uma explicação com uma visão feminista) são utilizados até mesmo por homens adultos, que já estão bem longe do período da adolescência, é que é possível perceber a naturalização da mulher como objeto sexual. Oras, quem essas “vadias” acham que são para achar que merecem atenção e respeito só por serem legais e inteligentes, não é mesmo? Pra muito cara, amizade com mulher “de graça” não existe. E vários idealizam o ~pegar mulher~ desse modo descartável que a sociedade machista prega como se isso fosse um troféu, mas é uma babaquice sem tamanho, pô. Qual o sentido em perder seu tempo com pessoas que você despreza e sequer considera dignas de respeito? Isso, pra mim, é um claro sinal de ódio por si mesmo que, em algum momento, vai acabar respingando em quem está ao redor e é “inferior” (as mulheres também odeiam a si mesmas, mas isso se manifesta mais contra elas do que contra os outros – até nisso a gente sai “perdendo”).

Rejeição dói, eu sei. Quem nunca tomou um pé na bunda traumatizante que atire a primeira pedra. Mas existem bilhões de pessoas no mundo (e, com a internet, ficou ainda mais fácil acessá-las). Existem mil atividades que podem ser feitas para esfriar a cabeça. Eu entendo, teoricamente, o que move um feminicídio, o sentimento de posse e controle, mas não consigo entender, na prática. Quanto mais penso no assunto, mais meu cérebro trava. Quer dizer, um cara escolhe carregar o peso de ter tirado uma vida pelo simples fato de não saber lidar com um término? Isso é muito surreal, bobo, infantiloide, cruel e inconsequente. Não tem nada mais patético do que a necessidade de lavar a “honra” masculina, porque não lava coisa nenhuma. Só suja mais e contribui com a manutenção de um ciclo de terror e ódio.

niuma

#niunamenos – Maitena

E, como muitas feministas alertam faz tempo: comportamentos abusivos precisam parar de ser romantizados. Não é fofo um cara que dá uma crise de ciúme e puxa a mulher pelo braço pra fora de uma festa, que vigia as redes sociais da namorada, que faz chantagem emocional e tenta diminuir a autoestima de uma mina para mantê-la fragilizada e perto dele. É essa linha de pensamento que contribui com a evolução de um soco para uma facada. A ideia de amor é vendida como essa intensidade que abarca “tapas e beijos”, mas a realidade mostra que a marca dos tapas é muito mais permanente do que o alívio dos beijos. Se tem violência, não tem amor. Não existe “crime passional”, e sim feminicídio. A Lei do Feminicídio, inclusive, completou um ano recentemente e se mostra realmente muito necessária. Para entender mais e o porquê, clique aqui.

Temos que lembrar que a realidade macro é composta também a partir da catalogação de vários acontecimentos dos micro universos se repetindo e se cruzando constantemente. Tipo assim, não é uma piadinha sobre estupro que vai causar diretamente a morte de uma mulher, entende? Mas essa piada faz parte de um cenário em que a violência masculina é tida como normal, a mulher é vista como inferior, roupa curta e bebedeira são usadas como justificativas para assédio sexual, maridos se acham donos das esposas, pessoas do sexo feminino são assassinadas principalmente por homens do próprio convívio, funcionárias são contratadas pela aparência para cargos que precisam apenas de competência, agressores são acobertados, vítimas são expostas, delegacias não sabem lidar com crimes contra as mulheres (mesmo as especializadas), e assim vai. Essa lista, infelizmente, poderia ser imensa, praticamente infinita.

E o que quero dizer com tudo isso é que uma pequena coisa esbarra em outra pequena coisa e, juntas, elas se tornam uma coisa média, que se aglutina com outra e, de repente, temos uma coisa bem grande acabando com a vida de alguém. Não existem acontecimentos isolados, tudo tem uma consequência. Portanto, precisamos desmantelar desde a base uma cultura que é conivente que o estupro e a violência contra a mulher, entre outros absurdos (como racismo, homofobia e afins). Nesse quadrinho maravilhoso da Lovelove6, que desenha a Garota Siririca, é possível refletir sobre essas questões.

O Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê) da UnB contribui com a reflexão sobre a violência contra a mulher e a banalização disso em ambientes que deveriam abrigar e acolher todos os tipos de pessoas, mas acabam sendo excludentes por conta de negligência com as especificidades de cada grupo  (texto na íntegra aqui):

Nos últimos anos, a UnB vem se tornando um espaço cada vez mais marcado por casos de violência contra minorias. Tivemos o caso da “lésbica nojenta” espancada no estacionamento. Tivemos ameaça de bomba porque “na UnB só tem puta e viado”. Tivemos pichação misógina, LGBTfóbica e racista nas paredes de centro acadêmico. Tivemos trote sexista que fez calouras lamberem linguiça com leite condensado. Temos trote homofóbico que berra nos corredores do Minhocão que todo arquiteto é bicha e homem mesmo é engenheiro civil (essa escutei ontem, às 13h30, no ICC norte). Sempre – é bom ressaltar, sempre – tivemos os recorrentes casos de estupro nos matagais no caminho para a L2. Aliás, estupro em festa de CA também não é nenhuma novidade, e nunca vi a polícia dar andamento aos casos denunciados pelas vítimas. Uma vez, a administração superior (a.k.a. Ouvidoria) me informou que no caso de uma denúncia de estupro em festa feita fora da universidade não havia nada para a administração superior fazer, ainda que a festa tenha sido organizada por estudantes, divulgada por estudantes, realizada por estudantes e com o objetivo de “integrá-los”. A violência de gênero sempre esteve presente entre nós. Agora, temos um feminicídio dentro das dependências da universidade. Qual é a resposta institucional que a universidade vai tomar?

E mais: qual a resposta que nós, enquanto sociedade, daremos para essas violências? Eu quero um mundo onde as mulheres possam dizer não sem que isso vire uma sentença de morte – e que “ser mulher” não seja considerado algo pejorativo, engraçado e inferior. Por que é tão difícil assim?

karina

Imagem da artista Karina Buhr. Arte inspirada nesta notícia: http://goo.gl/4B7xns

 

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Nem santas, nem putas: apenas humanas com capacidade de sentir prazer

Quem nunca ouviu algo como “tira a mão daí, menina” ao simplesmente dar uma coçadinha na xoxota que atire a primeira pedra. A vagina, sempre tratada por eufemismos fofos e delicados ou por palavras grosseiras que remetem à esculhambação e mau cheiro, é historicamente demonizada. Por isso, quem nasceu com ela no meio das pernas consequentemente tem o desenvolvimento psicológico, emocional e, ás vezes, até físico afetado por esses conceitos deturpados, que ora infantilizam e romantizam a vagina, ora tratam ela como algo grosseiro e pecaminoso. A misoginia, inclusive, começa com o estereótipo de que vagina (e quem a possui) é inferior, suja e deve ser reprimida, o que contribui com um panorama de mulheres cerceadas não apenas sexualmente, mas em outras esferas da sociedade, como social e econômica. Afinal, se pensarmos bem, minar a autoestima de uma pessoa implantando na cabeça dela inseguranças sobre o próprio corpo – a expressão máxima da existência de alguém no mundo – é um mecanismo de controle bastante eficaz.

O Xotanás, uma parceria entre os blogs Deixa de Banca e Vulva Revolução (eu), surgiu com o objetivo de falar sobre siririca e sexualidade feminina. Mas por que? Bem, resumidamente, a Amanda teve a ideia inicial e me chamou para botar em prática com ela e, juntas, pensamos sobre o assunto. Percebemos que, embora o senso comum acredite na tal história da ~liberação sexual~ e ache que as mulheres já conquistaram tudo o que queriam (quem dera!!!), ainda vivemos dentro de um cenário em que a sexualidade da mulher é regida pelo patriarcado e pela heteronormatividade: ela precisa ser feminina (ou seja, depilada, maquiada, perfeita, sem estrias, usar roupas que realcem as formas do seu corpo – se ela for magra, claro – e inteligente, mas sem tanta opinião) e pensar no prazer do outro. Esse outro é geralmente um homem que irá mudar a vida dela ao penetrá-la com a piroca mágica dele. E a sexualidade da mulher é comumente representada dessa forma, como se o mais importante fosse ser desejada por um homem, fazer um homem gozar, estar cheirosa para um homem, homem, homem, homem…

AFF.

No entanto, recebemos mensagens tão divergentes entre si (acho que o intuito é deixar a gente doida mesmo), que ao mesmo tempo em que somos incentivadas a fazer de tudo porque, uau, liberdade é isso aí, fazer o que os caras querem na cama, ainda existe, no fundo de grande parte das relações heterossexuais, uma mitologia antiga, da mulher que é boa, casta, pura e “para casar”. E enquanto rola um bombardeio sobre as cabeças femininas com mil sugestões diferentes relacionadas a como elas deveriam se comportar, muito pouco é falado sobre a importância do autoconhecimento não apenas para a construção de uma vida sexual satisfatória, mas principalmente para o próprio bem-estar físico e psicológico da mulher, que raramente é aconselhada a pensar nela mesma, apenas nela, e a descobrir o que a faz sentir prazer. Por isso, dentro desse contexto, a gente aqui do Xotanás acredita que siririca tem tudo a ver com autonomia, amor próprio e desconstrução da misoginia internalizada.

Felizmente, essa era internética em que vivemos está colaborando com o nascimento e divulgação de cada vez mais projetos voltados para a sexualidade da mulher. Por meio de textos, desenhos, entrevistas, vídeos e músicas, são travadas diversas discussões que buscam o real empoderamento da sexualidade feminina, sem aquele morde e assopra de revistas que dizem, na primeira página, que toda mulher é linda e poderosa e, na página seguinte, ofertam trezentos produtos de beleza diferentes e ensinam a “segurar” parceiros. Ainda assim, são muitos os relatos que recebemos (estão sendo publicados aos poucos aqui, enviem o de vocês) e que lemos por aí que, ao falar de masturbação, envolvem culpa e repressão familiar.

pollynordevil“The Devil Wears Nada”, ilustração de Polly Nor

Qual será o porquê de todo esse peso jogado em cima do nosso prazer? O livro “Vagina – uma biografia”, lançado pela escritora norte-americana Naomi Wolf recentemente, revela que a concepção ocidental que temos atualmente do órgão sexual feminino, “cheia de vergonha, sexualizada de um modo restrito e funcional, dessacralizada e cientificamente escrutinada”, começou no século XIX. Teorias misóginas de todo o tipo foram disseminadas, como, por exemplo, que o clitóris era a causa da corrupção moral e “boas mulheres” não tinham apetite sexual.  Uma das teorias dizia, inclusive, que permitir que mulheres lessem romances poderia deixá-las com um desejo sexual enlouquecido e descontrolado (ou seja, controle sexual e da emancipação intelectual feminina em uma tacada só).

De acordo com a autora, o clitóris é estudado, esquecido e descoberto novamente desde 1559. No entanto, no período vitoriano a  vagina passou a ser profundamente patologizada e criou-se uma ideia de mulheres “boas” e “más” que vinha da conduta sexual delas: quem não se deixasse afogar pela própria libertinagem poderia ser considerada uma mulher de respeito. E essa libertinagem não estava relacionada apenas ao ato sexual, mas também à masturbação. “Em 1850, os formadores de opinião vitorianos na área médica e social estavam convictos de que a masturbação, para ambos os sexos, levava perigosamente a ‘um espectro de doenças psicológicas terríveis’, que acabariam por levar o masturbador a um estado de loucura”, escreve Wolf.

O livro “A assustadora história do sexo”, do médico e escritor britânico Richard Gordon, mostra retratos clínicos da época, que descreviam pessoas que se masturbavam praticamente como doentes. Ele acredita que isso parte de uma necessidade que a sociedade tem de criar “perigos” que façam as pessoas se sentirem culpadas, pois “um pecado espalhado universalmente tece uma camisa de silício macia” (camisa de silício era uma espécie de túnica incômoda, de tecido grosseiro, utilizada durante penitências). Gordon levanta, inclusive, uma questão interessante: essa culpa sexual (que permanece ainda hoje) tem muito a ver com a culpa “mastigatória” dos tempos atuais, em que médicos advertem contra diversos tipos de comida e o público começa a temer “perigos físicos, estéticos e morais de estarem levemente acima do peso” – o que gera muito lucro para a indústria mundial do emagrecimento.

Homens e mulheres foram torturados em prol da erradicação desse ~grande mal~ que era a masturbação. Porém, assim como as mulheres de hoje são os maiores alvos das “dicas de dietas” (a dieta é o sedativo político mais potente na história da mulher, uma população levemente louca é uma população dócil”, já disse Naomi Wolf em outro livro – “O Mito da Beleza”), a antiga obsessão em erradicar a masturbação era ainda maior se o assunto era siririca, e isso podia ser diretamente relacionado ao medo de educar e emancipar mulheres – o receio geral era de que a leitura pudesse levá-las ao ato de tocar o próprio corpo em busca de prazer. Segundo Wolf, no período pré-vitoriano, mesmo mulheres da elite não eram educadas e nem tinham direito a propriedades, logo, pouco importava se tocavam uma siririca ou não. Só que, no século XIX, as mulheres estavam conquistando mais direitos e a tentativa de frear a autonomia delas – tanto sexual, quando intelectual – talvez fosse uma reação contra isso. “Muitas mulheres, hoje, sentem que sua sexualidade é algo distinto do resto de seu caráter e acabam por privar-se dela em prol de outros papeis mais admiráveis, como o de mães, esposas ou profissionais (…). Esse conjunto de crenças não é uma constante humana – nem mesmo é antigo; isso foi essencialmente inventado quando os críticos culturais na Europa e Estados Unidos ficaram alarmados pela emancipação feminina, e a sexualidade da mulher foi entregue a um profissional masculino, o ginecologista”, conta a autora.

O século XIX criou o problema e a solução: ao mesmo tempo em que patologizava a sexualidade e o corpo feminino, inventava tratamentos e buscava soluções para os “problemas sexuais” das mulheres. A sexualidade feminina era considerada uma grande ameaça à ordem social. Logo, o período vitoriano se viu marcado por avanços científicos que se chocavam com conceitos rasos que buscavam manter a mulher “domada”: o útero era visto como fonte de mau humor feminino, a menstruação era tratada como incapacitante e educar mulheres poderia ser nocivo para elas, porque poderia fazer com que se tornassem masculinizadas e “solteironas”.  Sob o domínio masculino, a ginecologia se desenvolvia; e pelas mãos dos homens, mulheres tiveram seus corpos analisados, estudados e invadidos – o norte-americano J. Marion Sims, por exemplo, criou uma técnica para reparar fístulas vesicovaginais praticando, sem anestesia, em mulheres escravizadas.

“De 1860 a 1890, a brutalidade e a natureza punitiva das práticas ginecológicas masculinas atingiram seu ápice. Nesse período, o uso da clitorectomia se tornou, se não comum, pelo menos não mais inédito no ‘tratamento’ de garotas que insistiam naquele vício pavoroso, a masturbação feminina. O dr. Isaac Baker Brown introduziu a clitorectomia na Inglaterra em 1858, e ainda era muito praticada por ele dez anos depois. O dr. Brown se tornou famoso e muito procurado por sua ‘cura’, que aplicada em garotas fogosas, após a excisão de seu clitóris, fazia que voltassem para suas famílias em um estado de docilidade, mansidão e obediência – um resultado que podemos agora compreender como inquestionavelmente resultante do trauma e também da interrupção da ativação neural. E até mesmo para garotas que não eram ameaçadas com a excisão do clitóris como punição pelo ‘vício solitário’, havia manuais morais e até publicações populares repletas de advertências sobre como uma mulher masturbadora, incitada por ‘romances franceses’ ou ‘novelas sensacionalistas’, poderia ser facilmente identificada por sua lascívia, apatia, palidez, olhos febris e aspecto geral de dissimulação e insatisfação. Havia o entendimento de que a masturbação levava as garotas a uma trajetória cada vez mais descendente, com formas ainda piores de ‘vício’ e lascívia moral; os pais eram aconselhados a ser vigilantes e rígidos com as garotas que persistissem”, explica a escritora.

Para os homens, Gordon relata que a “política de mãos-ao-alto” envolvia ir para a cama com luvas de metal (tipo raladores de cozinha) ou camisa-de-força, uso de cinto que prendia o pênis em molde de metal ou corte de nervo do órgão sexual masculino, entre outras práticas. Embora os rapazes também possam guardar sua parcela de ~culpa masturbatória~ (bom, pelo menos foi o que alguns me disseram), a naturalização da prostituição e pornografia, bem como uma sociedade que atua sob o olhar masculino em grande parte dos seus recortes, são fatos que revelam que a sexualidade masculina é bem menos cerceada – muito pelo contrário, ela é incentivada e celebrada, ainda que de forma doentia, rasa, nociva e extremamente perigosa para mulheres, além física, intelectual e sensorialmente pobre para os homens.

É tudo sobre lucro e dominação.

Como já foi mostrado, resquícios do modelo vitoriano de pensar permanecem em nossa sociedade. Pior ainda: nem sempre são resquícios, muitas vezes são novas roupagens para teorias antigas que buscam demonizar a sexualidade e o corpo feminino e, consequentemente, destruir a autonomia e autoestima de mulheres, porque medo, insegurança, falta de autoconhecimento, vergonha, nojo e culpa são instrumentos que visam nos manter submissas, paralisadas, dóceis e manipuláveis.

Porém, a cada dia, novas pernas femininas ganham as ruas e conquistam espaços pelo mundo, enquanto dedos que na intimidade acariciam o clitóris, em um ritmo suave e gostoso, se levantam, em riste, para sinalizar um grande não a quem grita “tira a mão daí, menina”. Os nossos corpos são nossos, não são sujos e problemáticos e serão explorados por nós mesmas, em uma jornada que celebra o bem-estar feminino. Não somos putas nem santas que merecem mais ou menos respeito, mas apenas humanas com a capacidade de sentir prazer.

Post orginalmente publicado mês passado no Xotanás.

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Sobre hashtags, violência e quebra de silêncios

Nos últimos tempos, as hashtags #primeiroassedio e #meuamigosecreto fizeram muito barulho pela internet. É bom demais ver a união de vozes de diversas mulheres dando destaque para problemas tão sérios como as violências físicas, sexuais e psicológicas que nos rondam a todo momento. E é também doloroso ver tantos relatos terríveis e, infelizmente, comuns. Graças a essas hashtags, foi possível sistematizar de forma mais concreta o que feministas falam o tempo inteiro, que toda mulher tem uma história de horror para contar. Estatísticas sobre violência existem aos montes, porém, com essas campanhas, esses números ganharam rostos e muita gente teve a chance de ver conhecidas, amigas, irmãs, primas, colegas de trabalho, mães e outras pessoas próximas relatando alguma situação ruim.

O machismo e a cultura do estupro pregam que é um direito masculino amedrontar, dominar e possuir sexualmente tudo o que for vulnerável (e assédio, por exemplo, é a lembrança disso, não é “elogio”, como alguns pensam) e que o corpo do sexo feminino é algo público e inferior, principalmente quando não escoltado por um homem. Tanto que o site ThinkOlga, que iniciou a campanha #primeiroassedio após vários caras tecerem, redes sociais afora, comentários nojentos e pedófilos sobre uma participante de 12 anos do MasterChef Jr., analisou milhares de tweets e constatou que a idade média do primeiro assédio na vida de uma mulher, dentro do recorte observado, é aos 9 anos de idade – eu, como muitas de vocês, sabia disso na pele (algo que temos que discutir mais e mais: pedofilia não é exatamente uma patologia nem exceção, mas parte da cultura do estupro, pelo visto).

Já o uso da hashtag #meuamigosecreto foi uma iniciativa do coletivo Não Me Kahlo, que também se espalhou rapidamente e foi bastante divulgada pela mídia nacional (e ganhou espaço até em veículos internacionais). Por meio da hashtag, mulheres puderam relatar comportamentos machistas de ex-companheiros, colegas de trabalho, amigos, figuras públicas e etc.

Um monte de gente (homens, principalmente, claro) tentou esvaziar o assunto, dizendo que os posts não passavam de “mimimi” e indiretas (como se o Facebook, por exemplo, já não fosse um grande mar de indiretas). No entanto, como já escrevi antes pelas redes sociais, achei as campanhas úteis para que mais gente pudesse ter uma visão sistêmica da violência contra a mulher. Não somos indivíduas assediadas porque merecemos passar por isso, mas membras de uma categoria historicamente vista como inferior e violável – e quanto mais gente falando a mesma coisa ao mesmo tempo, mais fácil compreender esse ponto. Por isso, uma consciência coletiva é importante para o fazer político (sem união e percepção de que existem muitas demandas em comum, fica difícil articular ações em grupo), e a internet é uma excelente ferramenta para a criação dessa consciência.

amigosecreto

imagem retirada da página do Facebook chamada Meu Amigo Secreto É:

Dimensão das violências

Com a enxurrada de denúncias, passei a ver ainda mais gente se dando conta de como o assédio contra pessoas do sexo feminino é algo normatizado pela sociedade, mesmo que o alvo sejam crianças. E percebi também que um monte de gente que nunca tinha se interessado por questões feministas antes, participou dos movimentos virtuais e colocou a boca no trombone.

Por mais que esses desabafos tenham acontecido em um espaço limitado, principalmente entre pessoas privilegiadas com acesso à internet e etc, tive esperança da possibilidade de uma mudança de cenário, ainda que em um futuro distante. Quebrar ciclos de silêncio é fundamental para que as mulheres passem a confiar umas nas outras – e para que abusos, assédios, estupros e outras violências sejam nomeadas corretamente ao invés de tratadas como algo que acontece com “quem merece” ou “não se comportou”. O que a gente merece é respeito, oras.

Em um mundo ideal, agressores seriam devidamente punidos e rechaçados e vítimas não precisariam se ausentar de espaços públicos para conseguir segurança física e psicológica. Mas o que a gente vê acontecendo é o contrário: os caras que fazem merda estão por aí, impunes, enquanto mulheres são hostilizadas e culpadas pelas violências cometidas contra elas. E são inúmeros os relatos do despreparo do poder público em lidar com as especificidades das violências que as mulheres sofrem.

Na semana em que o #meuamigosecreto estava bombando, por exemplo, uma mulher foi presa em Brasília por dirigir alcoolizada para denunciar estupros que havia sofrido. O caso ganhou notoriedade porque amigos dela buscaram ajuda pelas redes sociais. A mulher foi para a delegacia de madrugada e só no dia seguinte foi encaminhada aos exames necessários para comprovar os crimes sexuais e tudo mais – e o responsável pelo caso passou a negar que ela foi autuada e que a denúncia de estupro não foi imediatamente levada a sério, o que é bem estranho, visto que quando os amigos dela apareceram pedindo ajuda, a mulher já estava há muitas horas na delegacia e as coisas só mudaram quando advogadas e imprensa foram ao local.

Exposição nominal de “supostos” agressores

Em Brasília, um dos desdobramentos do uso da hashtag #meuamigosecreto foi a exposição nominal de caras que fizeram merda. Mais do que isso: surgiu um blog expondo, além de nomes, fotos e tipos de crimes “supostamente” (olha o resguardo jurídico aí, gente) cometidos por onze rapazes. Se os homens já estavam preocupados com as “indiretas”, a partir daí, começaram a brotar análises masculinas (e algumas de mulheres também) sobre como esse tipo de atitude é errada, precipitada e deveria ser resolvida na justiça. O caso que citei ali em cima, da mulher que foi presa ao dirigir alcoolizada para denunciar os próprios agressores, é um exemplo de como o acesso à justiça é muito mais complicado do que se pensa quando o assunto é violência física, sexual e psicológica contra a mulher (e fica ainda mais complicado se ela for pobre, se tiver se relacionado com o agressor, entre outras inúmeras questões). Além do mais, existem crimes difíceis de tipificar e muitos preconceitos a serem quebrados dentro da nossa cultura.

Como disse uma amiga em resposta a um texto péssimo contra o blog (que mais defendeu homens do que realmente propôs alguma ajuda às vítimas, mas não vou divulgar ele aqui), “esta forma de denunciar violência sexual – sentar em um banco frio de delegacia e relatar a um completo estranho tudo o que se passou com seu corpo, ter de explicar por que estava sozinha, por que vestia aquela roupa, por que bebeu demais em uma festa, por que você se submeteu a toda uma infinidade de fatores que te levou a sofrer a violência – tudo isso foi criado por homens e para homens defenderem sua própria ‘honra’.  As mulheres precisam se desdobrar em mil para provar que são vítimas. Os jornais, ao noticiar um estupro, nunca dizem ‘vítima’, é a SUPOSTA vítima, o SUPOSTO estuprador. Quando uma pessoa é assaltada, não se fala em SUPOSTO assaltante. Ninguém duvida de uma pessoa que foi assaltada. Para declarar a nítida incompetência do Estado em proteger as mulheres, para provar que as denúncias formais não trazem justiça para a maioria de nós, foi por isso que o blog apareceu. Um grito em meio ao silêncio que toda a sociedade faz quando uma mulher é estuprada. As vias judiciais não são eficientes nem eficazes em nos proteger”.

Claro que blogs anônimos abrem uma porta perigosa. Uma coisa são mulheres desamparadas buscando formas de chamar a atenção para seus problemas e outra são homens que já possuem recursos e leis a seu favor utilizando esses meios para difamarem ainda mais mulheres do que eles já difamam (não vamos fingir que isso não acontece, porque acontece o tempo inteiro, a manutenção de privilégios masculinos passa também pela difamação da mulher). E isso pode rolar. Sem contar que se a identidade da autora (ou autoras) do blog for descoberta, é perigoso. E as próprias vítimas podem sofrer retaliação. Mas devemos também pensar mais a fundo: por que será que foi preciso chegar a esse ponto? E mais: por que não existe toda essa mobilização quando é para prevenir ou punir crimes sexuais? Por que a polícia foi tão rápida em abrir inquérito para apurar as ~denúncias de calúnia~ envolvendo o blog  e não tem a mesma velocidade quando denunciamos stalkers ou blogs que disseminam discursos misóginos, homofóbicos e racistas? Por que discursos de ódio não chocam tanto quanto mulheres tentando se proteger? Por que a honra dos caras envolvidos está sendo mais debatida do que a saúde física e psicológica das vítimas?

Um dos caras apontados como agressor se manifestou, assumiu o crime e mandou um “desculpa aí” para a vítima. Nós, mulheres, somos tão pouco valiosas assim para que essas violências sejam vistas com tanta banalidade?

Muitos dos rapazes indignados com a exposição são amigos de agressores e/ou de caras misóginos que desumanizam mulheres e chamam todas de vadias, vagabundas, burras e coisas do tipo (ou eles mesmos são assim). Onde estava essa indignação antes? Não é possível que nunca tenham visto nada de errado nos bróders. Eu mesma faço trabalhinho de formiga há muito tempo (e sei que outras minas fazem), apontando as merdas que vejo, e já ouvi muita justificativa tipo “ai, o fulaninho playboyzinho que assedia meninas alcoolizadas que estão dormindo tem muitos problemas, tadinho” ou “o misógino escroto do rolê usou muita droga e acabou ficando assim meio doidinho, não é por mal”, “o artistinha machista é gente boa, juro”. Passação de pano atrás de passação de pano, enquanto nós nos tornamos as chatas, as doidas, as malucas, as mal-comidas, as que falam demais.

O que me parece é que para a sociedade atual, estupro não é um problema. O problema é ser chamado de estuprador (o mesmo vale para outros crimes). Ninguém se importa com os sentimentos e a dor das vítimas, a misoginia tem raízes tão fortes que o sofrimento real de uma mulher vale menos do que a ‘honra’ de um cara. “Não estraga a vida dele só por isso”, é o que muita mina por aí costuma ouvir quando quer expor sua situação, sendo que esse “só” era a dignidade e integridade física e psicológica dela.

Não tenho respostas definitivas sobre nada, só várias perguntas e convites à reflexão. E gostaria mesmo que se tornasse cada vez mais comum o diálogo sobre violências no momento em que elas acontecem. Vamos parar de fechar os olhos, por favor? Expor é errado? E agredir? Quanto tempo da sua vida você dedicou defendendo um cara? E uma mulher?

Estamos todas no mesmo barco

É muito difícil mapear o meu primeiro assédio porque isso é algo que acontece há muito tempo e o tempo todo. Uma das primeiras vezes que alguém mexeu comigo na rua (das que eu me lembro, pelo menos) e me deixou chocada pela “falta de modos” (pra não dizer pior) foi um senhor de idade, aqui em Brasília. Ele agiu de forma tão sorrateira (murmurou coisas tipo “gostosa” e afins quando não tinha ninguém olhando), que fiquei apenas envergonhada e sem reação, esperando meu ônibus após uma prova do PAS. Homens de faixas etárias diversas – mesmo os que supostamente deveriam ter adquirido alguma empatia ao longo do acúmulo de experiências de vida – podem ser babacas.

E tenho memórias anteriores de acontecimentos bizarros, tipo um conhecido da família que, durante um churrasco, lambeu e mordeu minha bochecha de um jeito muito esquisito, meio lascivo. De estranhos olhando para os meus seios que começavam a crescer, quando eu era pré-adolescente, o que me deixava com muito nojo de mim mesma. De comentários sobre as minhas pernas grossas quando eu era apenas uma criança. Tenho várias outras lembranças, e poderia escrever um livro inteiro só sobre isso. Mas não é fácil lidar com esses assuntos, porque ás vezes envolvem laços sociais e familiares que a gente quer ou precisa manter, envolvem sentimentos mistos de raiva e compaixão com pessoas que convivemos, envolvem questões que não queremos aceitar e falar sobre publicamente, envolvem tantos sentimentos angustiantes e conflitantes, que imagino que o que vemos em textos como este seja apenas a ponta do iceberg, embora pareça muita coisa.

Estive no Rio de Janeiro recentemente e saí com um conhecido de uma banda que gostava e admirava a trajetória. Nos falávamos pela internet e pensei que seria a primeira vez que a gente iria conversar de verdade ao vivo. Adoro música, estou sempre em shows e acompanho o que rola musicalmente em diversos lugares do Brasil e do mundo. Mas ainda não aprendi que ser mulher é difícil em qualquer ‘cena’, mesmo naquelas que se dizem diferentes, descoladas e alternativas. Em um breve resumo (muito breve mesmo): não senti nada pelo cara, que forçou a barra mesmo assim e agiu que nem um idiota, tentando fazer coisas que eu não queria. Ele foi brusco, grosseiro e desesperado. Em um local fechado, (“vamos ali deixar uns discos”), mostrou o pinto sem contexto algum pra isso, ficou apertando meu braço e depois perguntou o porquê de eu estar tão nervosa. Detalhe: ele é gigante e eu sou baixinha e, sim, tinha bebido várias cervejas, o que me tornava mais vulnerável, embora estivesse consciente (se não estivesse, estaria correndo mais risco?).

Além do medo (mas nada além disso aconteceu, felizmente), me senti humilhada por não ter sido levada a sério enquanto uma pessoa que gostava do trabalho dele. A gente mal conversou algo que preste, o cara só me enxergou como uma vagina ambulante mesmo. Minha vontade era de ter gritado loucamente que tive muito medo de ser estuprada, e sair arrancando todos os adesivos feministas que estavam hipocritamente colados no rolê dele. Mas acabei sendo trouxa e fui mais branda do que deveria. E o cara está por aí, postando coisas lindas, fofas e feministas nas redes sociais, achando que ninguém sabe que ele é um mostrador de piroca que ainda por cima maltrata ex-namoradas e dá guitarradas em minas, entre outras coisas que não tenho confirmação (recebi essas informações pelo que os machos chamam de “fofoca”, mas eu chamo de “mulheres traçando perfis na tentativa de criar espaços mais seguros ao redor delas”).

E vocês pensam que esse dia acabou por aí? Não. Peguei um táxi para ir embora. Entrei no carro muito triste e o taxista, talvez tentando surfar na minha aparente vulnerabilidade, começou a puxar conversa, falar que eu era bonita, interessante e chegou ao ponto de pedir pra eu desistir do meu destino e sair com ele naquele momento. Tudo isso em um tom meio ameaçador, quase me coagindo a dizer sim para que a situação parecesse consensual. Passei a viagem inteira segurando para não chorar. Mais uma vez o medo de ser estuprada rondava a minha mente, e eu agia com muito cuidado, tentando não dar muita bola, para ele não usar isso como justificativa, caso fizesse algo contra mim, e não ser muito grossa, para não irritá-lo e não “provocar” uma reação imediata e ruim. A cada resposta negativa, ele insistia mais e mais, e dizia as mil coisas que gostaria de fazer comigo. (Poucos dias depois, li a história de uma menina que foi estuprada brutalmente ao pegar um táxi no Rio e fiquei apavorada – e ouvi histórias do tipo sobre a tia de uma amiga). Argh.

No fim do dia, nada tinha acontecido comigo, fisicamente. Mas passei tanto medo e raiva que, sério, só conseguia pensar no tanto que homem pode ser um lixo. Todos os tipos. Quando desci do táxi, estava tão atordoada que a vontade de chorar passou e não voltou mais. Ela se entranhou em mim e virou uma bola de aço pesando no meu peito. Dormi um pouco, mas logo acordei, com o coração disparado, a respiração abafada (tenho problemas com ansiedade). Bebi água, me alonguei, mas não adiantava. Foram horas de agonia, revivendo não apenas os acontecimentos do dia, como os da minha vida inteira. O que separa um assediador “brando” de um estuprador? A oportunidade? O quê?

Lembrei de quando fui para Cuiabá, ano passado, e levei cantadas de mais de oito caras diferentes (comecei a contar, de tão bizarro que tava), fui perseguida por uma moto em uma rua deserta e, quando finalmente cheguei ao meu destino, comecei a tocar desesperadamente a campainha da casa da minha amiga, enquanto dois homens em um caminhão ficaram me encarando e cochichando entre si, fazendo eu pensar que eles iriam me enfiar lá dentro e fazer alguma coisa. Tudo isso aconteceu em – pasmem – um espaço de tempo de mais ou menos uma hora. E do ~melhor amigo~ de um namorado que tive em São Paulo, que tentou abusar de mim enquanto eu e meu namorado dormíamos, abraçados e bêbados após uma festa muito legal (ou seja, nem a ‘honra’ do macho amigo o moleque respeitou – e outros dois rapazes estavam por perto e não fizeram nada). O imbecil foi pego no flagra pela minha ex-sogra e teve a coragem de dizer que eu tinha dado em cima dele (dormindo?). Ela nem gostava muito de mim, mas enxotou o cara de casa e me apoiou de verdade, pois realmente baniu o rapaz do convívio familiar e achou um absurdo o que ele fez (isso é sororidade, gente). Essa, aliás, foi a minha primeira e última experiência com a Delegacia da Mulher – liguei para ver o que podia ser feito e fui tratada com tanto desdém que desisti. E a pessoa queria, imediatamente, dados do assediador que era impossível eu ter, e foi pouco solícita e gentil. Lembrei também de quando fui dar uma volta de bicicleta e um tarado ficou me mostrando o pinto no Parque da Cidade de Brasília, enquanto se masturbava, e me deixou com medo de andar por lá sozinha até hoje (e seguranças do local disseram que “é assim mesmo”). E dos ~urubus de porta de escola~ (é assim que chamo homens mais velhos que ficam fazendo amizade com gente que ainda está no colégio), que eram escrotos e assediavam amigas, conhecidas e eu.

Lembrei de um amigo, da música de novo, que eu gostava bastante e tinha um discurso lindo, maravilhoso, sensível, feminista, empoderador e incentivador, e que mudou bastante e passou a ser bem grosseiro assim que ele percebeu que não iríamos ter nada. Dos caras que eu andava quando adolescente, que tocavam em bandas de hardcore, eram vegetarianos… E extremamente machistas, misóginos, homofóbicos e racistas – e muitos possuem um histórico sinistro de comportamentos violentos e/ou psicologicamente abusivos. Lembrei de outros caras que adoram falar de desconstrução de comportamentos e novos modelos de vida, mas agem que nem todos os homens que criticam. Estou farta desses homens que se dizem sensíveis, mas só defendem a autonomia-da-mulher-de-dar-pra-eles (mas se for pra outros e pra eles não, daí é tudo ‘vadia’). Todas as nossas outras questões que são muito mais urgentes, principalmente as que passam direto pela mudança de comportamento deles, são esquecidas. Nos levar a sério e prestar atenção no que a gente faz, sem que o nosso corpo seja uma moeda de troca, parece algo fora de cogitação, bem como nos tratar de forma decente mesmo que nossa vagina esteja indisponível – ou já tenha sido consumida, já que pra muitos ela parece mais uma coisa do que parte de um ser humano. A heteronormatividade e toda essa hierarquia e obrigatoriedade sexual que permeiam as relações entre homem e mulher são uma bosta.

(Aliás, liberação sexual é o caralho, eu quero é trabalho digno sem macho do meio cultural que se acha revolucionário me fazendo propostas vergonhosas de emprego e oferecendo salários baixíssimos – e ainda se vangloriando que “só trabalha com mulher”. Quero ser ouvida por pessoas do meu convívio quando aponto que não é legal reforçar estereótipos preconceituosos sem que tentem me pintar como louca porque minha voz abala a estrutura de grupinhos fechados que sobrevivem a base de bullying. Quero poder pagar a porra de uma conta no banco sem que eu precise escutar o que os caras no caminho acham da minha bunda. Quero que ideias e palavras de mulheres preencham jornais, revistas, livros, escolas, palestras, rádio, televisão e o nosso corpo pare de ser visto como entretenimento – a atenção midiática e com prazo de validade dada ao nosso corpo não passa de uma migalha com o intuito de nos enganar, tipo “vejam como vocês já possuem espaço!”, enquanto o real poder continua na mão de homens).

Lembrei de pessoas que amo que foram agredidas por parceiros, abusadas por amigos, violentadas por parentes. De professores que gastavam o precioso tempo em sala de aula disseminando piadas misóginas sobre como pegar mulher ou sobre como somos naturalmente tapadas e malignas. De pais que simplesmente escolhem não exercer a paternidade. Lembrei de mulheres incríveis que tiveram o próprio desenvolvimento intelectual, físico e emocional comprometido, porque precisaram cuidar de pais, irmãos, maridos, filhos – abraçaram o mundo, enquanto ninguém abraçou elas de volta. Lembrei de tanta coisa, tanta coisa mesmo, que resolvi escrever, escrever, escrever. E escrevi muito, mas não tudo. Não o suficiente. Não o bastante. Algumas coisas não consigo nem colocar pra fora. Mas, mesmo assim, consegui transformar a dor em força, ainda que lacunas não preenchidas continuem a existir.

Eu não vou me sentir culpada por ser uma mulher querendo viver a vida, a arte, o amor e o espaço público de forma realmente intensa e autônoma. Os caras que tentam despejar em nós, mulheres, o peso da própria cegueira, falta de autoconhecimento e de uma identidade fragilmente construída em noções cruéis de dominação (mesmo que isso tudo venha disfarçado em uma linda melodia ou obra de arte) que carreguem a culpa de serem os merdas que são (minha coluna, aliás, está cada vez mais ereta, enquanto eles estão cada vez mais corcundas).

Que os silêncios sejam todos quebrados e seus estilhaços rasguem os ciclos de violência.

P.S: Vale ressaltar que esse texto é de uma mulher branca, com ensino superior completo e outros privilégios. Ou seja, a situação de muitas outras mulheres é ainda MUITO PIOR e MAIS DIFÍCIL. E eu sou jornalista e circulo mais em ambientes relacionados à comunicação e cultura, mas todos os meios tem suas histórias de horror pra contar (nem o Itamaraty escapou), só que certos lugares ganham destaque com mais facilidade.

EDIT: Este texto foi escrito em dezembro de 2015. Faço um adendo agora, em novembro de 2016, quase um ano depois, para acrescentar que, em julho, sofri tentativa de agressão física (com inúmeras testemunhas) durante o lançamento de um livro de um amigo, por parte de um colega do ‘cara da música do Rio de Janeiro’ citado acima. Ainda fui “acusada” de provavelmente ser uma ‘chupadora de xoxota’, risos, entre outros insultos lesbofóbicos e extremamente machistas. Ah, e outras mulheres compartilharam seus relatos envolvendo a mesma pessoa.