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“Pink”: o novo cinema da Índia traz também novas ideias

Dia desses fui a uma mostra maravilhosa que rolou no Centro Cultural Branco do Brasil (CCBB) aqui de Brasília: a “Novo Cinema Indiano”, que passou também por outras cidades – mas infelizmente não está mais em cartaz. Como o nome diz, o objetivo foi evidenciar trabalhos recentes da Índia (os filmes da exibição foram realizados a partir de 2013) e que estejam, em grande maioria, fora do circuito de Bollywood.

O país é, com certeza, bastante rico e diverso em línguas, regiões, religiões e costumes, e a mostra captou isso muito bem ao dar espaço não apenas para produções de diferentes localidades da Índia, como também ao selecionar obras que abordam conflitos contemporâneos marcantes – e importantes.

Dentre os filmes que tive a oportunidade de assistir, quero falar especificamente sobre um que mexeu bastante comigo – e que tem muito a ver com os temas tratados aqui no blog: Pink (2016), dirigido por Aniruddha Roy Chowdhury e escrito por Ritesh Shah. Ele é uma das exceções da programação, por ser, na verdade, bem bollywoodiano. No entanto, é uma espécie de subversão do estilo: como aponta uma matéria da BBC (em inglês), Pink desafia o discurso padrão dessa indústria cinematográfica, que romantiza coisas como ameaça de estupro e stalking, por exemplo, como se fizessem parte dos ritos amorosos – nada muito diferente da tradicional Hollywood, rs.

Atenção: a partir daqui, contém spoilers.

O começo do filme mostra um carro cheio de homens com raiva – um deles com o rosto sangrando – e indo até a um hospital, entre lamúrias e xingamentos. Paralelamente, um táxi leva três amigas bastante apreensivas e nervosas para casa. A história envolve um grupo de garotas que, após um show de rock, vão tomar mais umas com uns rapazes semi-conhecidos. No entanto, o que era pra ser um pós-noite envolvendo diversão e alguns drinks, termina em confusão.

A cada nova cena, vai ficando claro que essa tensão inicial é, na verdade, um fio condutor que permeia toda a trama. Porém, aos poucos, o que aconteceu vai se tornando menos nebuloso: uma das moças machucou um dos rapazes, mas não se sabe ainda o porquê – embora seja possível notar que não houve uma briga justa entre as partes.

As amigas – Minal (Taapsee Pannu), Falak (Kirti Kulhari) e Andrea (Andrea Tariang) – são também colegas de apartamento e começam a sofrer, no dia a dia, as consequências dessa fatídica noite. Os caras tentam difamá-las o tempo inteiro, fazem ligações repletas de ameaças, as perseguem nas ruas (e chegam a sequestrar e abusar do principal alvo: Minal), intimidam e agridem o locador do apartamento delas, na tentativa de convencê-lo a mandá-las embora, entre várias outras coisas. Eles não querem nenhum tipo de conciliação e sim a propagação de um terrorismo – com ataques físicos e psicológicos – que os mantenha no topo de uma hierarquia de poder que foi ameaçada pela agressão de uma das jovens (e também pela rejeição que eles sofreram de todas elas).

Minal, a “agressora” de Rajveer (Angad Bedi), um playboyzinho filho de um influente político, se recusa a pedir desculpas pelo que fez: ao ser agarrada à força, acaba quebrando uma garrafa de vidro na cabeça dele para se defender e conseguir se soltar. Ela não considera que sua legítima defesa seja, de fato, uma agressão, e sim uma reação à violência iniciada por Rajveer, que não respeitou os limites impostos e utilizou força física e coação para forçá-la a ficar com ele.

Quando Minal, que é bastante forte e decidida, finalmente decide ir à polícia, o que começa a rolar exemplifica o porquê de muitas vítimas não terem coragem de realizar denúncias formais: a situação é tratada com extremo descaso e as moças são apontadas como as culpadas por terem “provocado” os rapazes. Fora a corrupção presente em todo lugar: por conta da influência familiar, Rajveer consegue realizar boletins de ocorrência com data adulterada bem como coloca panos quentes nas denúncias das jovens. O intuito final é fazer com que elas sejam incriminadas, e a desigualdade social somada ao machismo vai colaborar com que o foco dos dedos apontados mirem as vítimas, e não os agressores.

As amigas possuem um vizinho um tanto quanto estranho, que está sempre de butuca, acompanhando tudo. À medida que vai sendo revelado que ele é, na verdade, confiável, o filme vai mudando o tom. Enquanto a primeira metade é uma espécie de suspense urbano, a metade seguinte é um dramão de tribunal. O misterioso Deepak Sehgal (Amitabh Bachchan) não representa perigo: é apenas um homem doente, desencantado com a vida e prestes a perder a esposa. Porém, não consegue deixar de se envolver com o caso – e então é revelado que ele é também um advogado famoso e aposentado, que acaba decidindo fazer a defesa das moças. Uhu!

Não tem como negar que a obra tem uma vibe novelesca e melodramática em muitos instantes. Porém, considero isso uma qualidade: achei bom um tema tão importante ser tratado de modo tão acessível, descomplicado, quase esquemático. Pink fala sobre violência contra a mulher e coloca em debate a questão do consentimento, que é destrinchada de forma bastante didática (até demais, ás vezes, mas melhor pecar pelo excesso do que pela falta, nesse caso) durante o julgamento das moças.

No tribunal, as mulheres são acusadas de serem prostitutas que queriam se aproveitar financeiramente dos pobre rapazes, e são também, o tempo todo, acusadas de serem pobres – como se não ter dinheiro fosse crime! A acusação vasculha a vida inteira de cada uma delas, com o intuito de provar que possuem “cárater duvidoso”, e alega que “o aspecto do consentimento foi introduzido pela defesa porque está na moda hoje em dia”. A maior parte do tempo, a discussão gira ao redor das mentiras que os caras inventaram e dos supostos danos que eles sofreram. Tipo na vida real: é mais importante considerar não estragar o futuro de um agressor do que pensar no bem-estar de uma vítima e prevenir novos crimes.

O advogado de defesa dá umas vaciladas no começo, só pra deixar aquele clima de que tudo vai dar errado, mas depois engata e não para mais. Ele explica que mulheres são inferiorizadas o tempo inteiro apenas por serem mulheres, desmascara esquemas de corrupção, coloca em evidência como homens e mulheres que fazem as mesmas coisas – tipo beber, dançar ou sorrir – são vistos de formas diferentes e deixa bem claro que não é sempre não.

É bem emocionante porque é tipo um alívio. Vitórias – e justiça –  para essas questões ás vezes parecem ainda tão distantes…  Portanto, é gostoso enxergá-las pelo menos na ficção, para fins de inspiração, enquanto a gente vai transformando a realidade. E, querendo ou não, o cinema é também uma possível porta para transformações de realidades, não acham?

De acordo com uma das responsáveis pela mostra, Carina Bini, curadora, produtora e jornalista brasileira que já morou um tempão na Índia, um ponto importante para o sucesso da obra foi a escolha de Bachchan – conhecido também como “Big B” – para o papel de advogado de defesa. Considerado um ídolo nacional, o ator está desde os anos 70 nas telinhas e telonas do país, e ajudou a atrair vários espectadores para o cinema. Grande parte das falas mais impactantes que denunciam o machismo da sociedade indiana saem da boca dele, aliás.

Tal explicação me ajudou a ver de maneira mais positiva aspectos que poderiam ter sido interpretados de outra forma caso eu não estivesse ciente do contexto. Porque, assim, em um primeiro instante, chega a soar quase como mansplaining um filme dirigido e roteirizado por homens ter um outro homem falando pelas mulheres que elas precisam ser respeitadas.

No entanto, assistir uma figura admirada na Índia proferindo argumentações que desmontam o discurso machista e senso comum é impactante. E, sendo ele um advogado de defesa, fica mais coerente fazer isso (mas claro que, ainda assim, o cara é meio que colocado como um herói). Aliás, o cinema é ainda um território bastante masculino, como tantos outros. Será que um filme assim, mas feito e protagonizado por mulheres apenas, seria recebido da mesma forma? Vale uma reflexão. Essa resenha aqui (em inglês) do site Feminism in India discute um pouco essa questão e, a partir de uma ótica feminista, levanta alguns problemas existentes em Pink.

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Uma coisa interessante é que o filme trata de uma história que não envolve vítimas virginais e perfeitas. Mostrar mulheres jovens, que vivem sozinhas em um contexto urbano, trabalham e vão para festas talvez facilite a identificação de pessoas de outros países com a obra – e facilite também o entendimento geral de que violências acontecem em todos os lugares e são cometidas/sofridas por pessoas de diferentes recortes sociais.

E, como já falei antes por aqui, essa “mulher perfeita” (que nunca vai existir) em contraste com todas as outras (que são horríveis e usam roupas curtas e são vadias e merecem apanhar e falam demais e deveriam estar em casa lavando a louça) é uma invenção do machismo, seja ele individual ou institucional, para tentar culpar as vítimas pelas violências que sofrem. Gente, existem casos em que as pessoas conseguem arrumar desculpas para culpar até mesmo crianças que foram alvo de violência sexual, argh!

Outro aspecto interessante que é mostrado é o machismo enquanto um acontecimento coletivo. O universo individual respalda o institucional – e vice-versa – e, a partir disso, o senso de impunidade caminha junto com a inferiorização de quem se encontra fora da esfera do poder masculino. Mentiras, corrupção, agressões verbais, físicas e psicológicas: tudo se torna válido para manter o status quo. Porém, fica evidente também que a sede por vingança dos rapazes é bastante infantil e que a masculinidade é algo paradoxalmente forte, quando se pensa nos estragos que são causados por ela, mas bastante frágil, no sentido de identidade.

A sociedade indiana se organiza por um sistema de castas que expõe principalmente mulheres em um nível “inferior” à violência – mas todas estão sujeitas a sofrer algo (qualquer semelhança com nossa pátria amada não é mera coincidência). E, assim como na China, por exemplo, é estimulado o aborto seletivo de fetos do sexo feminino (nem sempre por “escolha”, li relatos envolvendo coação externa), o que ocasionou na diminuição da população de mulheres do país.

Por lá, acontecem muitos estupros, sejam eles individuais ou coletivos, mulheres são atacadas com ácido, existem problemas de exploração sexual e meninas são obrigadas a se casar com adultos, entre várias outras coisas horríveis. A sociedade brasileira adora apontar para essas questões com o intuito de reforçar a “incivilidade” de países que não sejam os Estados Unidos ou lugares famosos da Europa (que também possuem tretas, não se iludam). Até parece que estamos em uma situação assim tão diferente de vários locais que criticamos (e postamos notícias com comentários tipo “ohhh, que absurdo”), né? Então, no fim, sobra muita coisa pra pensar sobre.

Pink ganhou vários prêmios, foi exibido para a polícia do Rajastão, um dos maiores estados da Índia, com o intuito de sensibilizá-la sobre os direitos das mulheres, e foi também convidado para sessão especial na sede da ONU, em Nova York. Clique aqui e veja o catálogo da mostra “Novo Cinema Indiano” para saber mais sobre os outros filmes que foram exibidos.

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