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O problema não é o “gênero”

As pautas ditas “morais” são prioridade de quem quer acabar com ~tudo isso aí que tá errado~ e, enquanto todo mundo se preocupa com quem o outro dorme, nossos direitos vão escorrendo pelo ralo. Uma das grandes medidas aprovadas após a retirada de Dilma Rousseff do poder foi a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 241, que congela o gasto com “despesas” do país por alguns anos. Isso significa que serviços públicos de saúde, educação e afins podem sofrer ainda mais baques nos próximos tempos. Contudo, pensando mais profundamente, essas coisas são realmente despesas ou, na verdade, são investimentos? Vários pontos de vista devem ser analisados.

Existem estudos que asseguram que o ideal é que países em crise, enfrentando momentos de austeridade, sigam com práticas de seguridade social para o bem da população e até da economia. Dessa maneira, suicídios podem ser evitados e doenças podem ser controladas. Além disso, levando em consideração um contexto capitalista, trabalhadores sem saúde produzem menos e geram mais demandas aos sistemas públicos. O dinheiro que deixa de ir para saúde ou educação não vai magicamente para o bolso de quem precisa, muito pelo contrário. Cortar política social ou restringir serviço público, por exemplo, não reduz corrupção, até porque favorece corruptos que estão no mercado querendo emplacar os próprios negócios.

Bom, mas o que esperar de uma bancada política altamente conservadora e comprometida com o dinheiro, e não com as pessoas, não é mesmo?

Outras medidas não tão benéficas para a população também estão em destaque, como a reforma da previdência, a flexibilização de leis trabalhistas e afins. A retirada de direitos é um projeto e, para que isso seja acobertado, foi criado um monstro feio e horripilante a ser combatido: a “ideologia de gênero”. Criou-se um mito de que existem professores-doutrinadores passando vídeos pornográficos nas escolas enquanto toca Pabllo Vittar (adoro) e merendas são distribuídas em mamadeiras de pinto. Isso é um desrespeito infinito com a classe educadora do Brasil, que não é reconhecida como merece e ainda precisa lidar com acusações absurdas.

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Gênero: mais polêmico que mamilos! Foto de Lailson Santos (reprodução).

Mas, afinal, o que é gênero?

A resposta para essa pergunta é longa e complexa. Muitas são as pessoas que estudam o tema (sou uma delas) e os conflitos, questionamentos e divergências são variados, mesmo entre quem aparentemente está do mesmo lado. Em um resumo bem rápido, gênero é um termo que floresceu a partir do objetivo de separar o lado biológico e o lado social do ser humano. Um corpo do sexo feminino pode, na maioria dos casos, gestar uma criança, por exemplo. O gênero é a construção social que dita que todo corpo capaz de gestar uma criança é uma mulher, e que toda mulher deve sonhar com ser mãe, ter filhos, agradar o marido e coisas do tipo.

O gênero, portanto, pode ser uma narrativa imposta aos corpos com o intuito de regulá-los de acordo com as expectativas de uma determinada sociedade. Ele não é “natural” e, por isso, é raramente acolhido de forma unânime (mulheres estudando quando era proibido já era um rompimento de barreira, entre vários outros exemplos). Supõe-se, inclusive, que as diferenciações sexuais hierarquizantes nascem como estratégia de controle social, reprodutivo, econômico e tudo mais. Logo, discutir gênero envolve debater um universo inquantificável de assuntos. E eles vão muito além da questão meramente moral (que tem sua importância) e abrangem gravidez, abuso sexual, divisão do trabalho e outros temas que atravessam a vida de todas as pessoas de modo bem concreto.

Desmistificar que “homem que é homem resolve briga na porrada” ou que “mulher tem que aguentar tudo” também significa conversar sobre gênero. Bem como explicitar que uma pessoa com pênis pode ter cabelo grande e adotar um nome considerado feminino ou que uma pessoa com vagina pode jogar futebol e cortar o cabelo bem curto. Existem muitas angústias e violências a serem resolvidas. E as pessoas precisam ter a chance de se sentirem mais confortáveis na própria pele ou de abandonarem papeis que foram empurrados à força. Além disso, desmistificar papeis femininos e masculinos e aliar isso à educação sexual ajuda crianças, adolescentes e jovens a identificarem situações de abuso.

E tem mais: um homem que mata uma mulher porque “não aceitou o fim do relacionamento” é, na verdade, uma pessoa que assimilou a hierarquia de gênero de modo tão profundo e natural que chega se torna legítimo aniquilar a existência de quem não mais quer ser posse dele. E é também alguém que não aprendeu a lidar com frustrações e sentimentos de rejeição de uma forma emocionalmente equilibrada.

Porque “homem não chora”.

Por isso, o debate de gênero envolve, fundamentalmente, o respeito ao próximo, ao corpo do próximo, às vontades do próximo, às escolhas do próximo, à orientação sexual do próximo, à maneira de ser do próximo e assim vai. E falar sobre gênero é falar sobre liberdade de expressão e liberdade para expressar a si mesmo.

Os que falam em combater a tal da “ideologia de gênero” e fingem estar preocupados com a “defesa da família” querem, na verdade, a manutenção do poder patriarcal. E querem as pessoas presas nos papeis de sempre e vigiando umas às outras, porque assim é mais fácil controlá-las. E assim são criados bodes expiatórios e respostas simplistas que serão úteis caso a desigualdade social aumente ainda mais por conta das medidas tomadas pelos tais “defensores da família”. Porém, incitar desconfiança entre semelhantes (não somos todos iguais?) e dificultar a melhoria de vida da população é realmente uma maneira de defender alguém? Ou é uma cortina que busca distrair todo mundo de problemas reais enquanto direciona ódio para quem não tem culpa de nada?

O problema não é o “gênero”, pode acreditar.

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Achar que o Brasil não é racista já é racismo

Hoje é 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra. E o que isso significa? Bem, a data marca a morte de Zumbi dos Palmares, que foi líder do Quilombo dos Palmares e representa um ícone da resistência negra durante o período de escravidão no país. O dia coloca em evidência a luta da população negra do Brasil contra o preconceito e a discriminação, e serve também para gerar reflexões coletivas na sociedade por meio de debates, resgates históricos e da divulgação da cultura afro-brasileira.

Ainda que a escravidão tenha acabado há algum tempo, as marcas do período continuam presentes em nosso povo: os negros e negras são os que mais possuem desvantagens econômicas e sociais, e são sistematicamente dizimados de forma covarde e silenciosa – esse extermínio é noticiado com menos frequência do que furtos bobos em lojas, casamentos de subcelebridades ou protestos “atrapalhando” o trânsito, por exemplo.

Uma breve – muito breve mesmo – história da escravidão de pessoas negras no Brasil

A raiz da desigualdade racial e social do país está no seu processo de colonização, que teve Portugal como um dos atores principais. Em 1500, o Brasil foi “descoberto” – ou violentamente roubado da população nativa? – e, pouco depois, o território começou a ser moldado de acordo com as vontades e necessidades de seus “novos donos”. Na época, a demanda por mão-de-obra aumentava cada vez mais. Estimativas afirmam que, em trezentos anos de escravidão, mais de 4 milhões de pessoas negras foram retiradas forçadamente do continente africano e trazidas para cá.

Algum tempo atrás, dei uma folheada no livro “Do reclame à comunicação – A pequena história da propaganda no Brasil”, de Ricardo Ramos, e vi anúncios nos classificados de jornais do período da escravidão com pessoas negras sendo vendidas como produtos mesmo: “bons dentes e forte”, “troco escravo por isso e aquilo”, “empresto ama-de-leite”, etc. Horrível demais – embora, infelizmente, não seja nenhuma surpresa. Um pouco de estudo ou uma simples conversa com pessoas que tem antepassados que foram escravizados nos mostra como era pesada, violenta e desumana a realidade da população negra aqui no Brasil – e ainda é, só que de outras formas. O racismo institucional, a discriminação, o difícil acesso a educação formal e a mecanismos de ascensão social e econômica, a exploração da força de trabalho e o extermínio de negros e negras nos mostra que a nossa sociedade ainda carrega uma herança sombria desse passado não muito distante. Vale ressaltar que as mulheres eram – e ainda são – tratadas como objetos sexuais e estupradas de forma repetida.

Além de tudo isso, os africanos não podiam praticar suas próprias religiões e rituais, mas isso não os impediu de manter a cultura africana viva aqui no Brasil. As pessoas escravizadas resistiam, e além das fugas, dos embates e tantos outros acontecimentos, a perpetuação da própria cultura foi também uma forma de resistência. Podemos ver que é possível conectar muito do que aconteceu no passado com a nossa história atual: praticantes de religiões de matriz afro-brasileira, como o Candomblé, são constantemente perseguidos e têm seus terreiros atacados, enquanto igrejas Evangélicas ou Católicas são vistas como os lugares “corretos” para se expressar religiosamente.

Em 1888, foi instituída a Lei Áurea, que previa a extinção da escravidão no Brasil. Ela foi precedida pela Lei do Ventre Livre (1871) e pela Lei dos Sexagenários (1885), que, respectivamente, davam liberdade a filhos de pessoas negras escravizadas e libertava quem tivesse mais de 65 anos. Nada disso aconteceu porque os brancos ficaram bonzinhos de uma hora para a outra e decidiram “libertar” quem estava sendo escravizado, ok? Isso tem muito mais a ver com fatores econômicos: ex-escravos se tornariam um novo mercado consumidor e não dariam mais “prejuízo” por morar “de graça” na casa dos patrões, por exemplo.

No entanto, paralelamente a tais medidas, não existiu o planejamento de ações que qualificassem e incluíssem essa nova classe trabalhadora dentro da sociedade. De escravizados, os negros e negras libertos tornaram-se força de trabalho barata. Quem continuava em vantagem eram os ex-escravocratas, enquanto ex-escravos encontravam-se sem instrução, renumeração justa ou acesso a bens e serviços. Outro agravante à condição da população negra era uma visão institucionalmente racista por parte da sociedade e governo da época (que permanece até hoje), que passou a estimular a vinda de imigrantes europeus para o Brasil, com o intuito de “embranquecer” a população (as teorias eugenistas eram, inclusive, socialmente aceitas e aplicadas). Ao contrário dos africanos, eles receberam incentivos e não foram trazidos à força. Esses imigrantes trabalharam bastante, sim, mas ainda que pudessem se encontrar em situação precária, tiveram acesso a recursos e terras, entre outros benefícios que nunca foram concedidos à população negra. Aliás, por um certo período, foi proibida a entrada de mais negros e também de asiáticos no país.

De acordo com o Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2010, 82 milhões, dos cerca de 200 milhões de habitantes do Brasil, se declararam pardos e 15 milhões, negros. Em comparação com o Censo de 2000, houve aumento na autodeclaração negra e parda no país. Dados da Pesquisa Nacional de Amostras de Domicílios (Pnad) de 2013 mostram que, em dez anos, a população autodeclarada preta no país cresceu e passou de 5,9% do total de brasileiros em 2004 para 8% em 2013. Além dos pretos, cresceu também o número de pessoas autodeclaradas pardas. Ainda de acordo com o Censo de 2010, existe grande diferença entre população negra e branca no que diz respeito ao acesso a educação: entre pessoas de 15 a 24 anos que frequentavam o nível superior, por exemplo 31,1% dos estudantes eram brancos, 12,8% negros e 13,4% pardos. Foram encontradas diferenças salariais também (sendo a população branca a que recebe mais), entre outras.

Leia também: “A história da escravidão negra no Brasil”.

E por que estou falando tudo isso?

Se você acha que não vivemos em um país racista (ou melhor, em um mundo), isso já é racismo. O período da escravidão passou, mas as consequências da época continuam vivas em nossa sociedade. Acreditar em mérito quando o próprio destino já está traçado de forma positiva é fácil. Quem tem a pele branca geralmente tem muito mais chances de frequentar escola, universidade, de ter o que comer, o que vestir, de ver a própria cara representada em produtos midiáticos como sinônimo do sucesso e com mais nuances de personalidade, entre outras questões. É cruel afirmar que racismo não existe e cada um consegue o que quiser se trabalhar para isso, porque não é bem assim. Isso é naturalizar as diferenças, como se elas não tivessem sido geradas por sistemas políticos e sim pela capacidade de cada indivíduo.

É correto afirmar que uma pessoa negra que não veio de uma família que acumula bens há gerações, por exemplo, e que precisou trabalhar em empregos exploradores a vida inteira para sobreviver (o que tirou o tempo de estudo e lazer), além de ter tido a autoestima abalada constantemente por comentários racistas e perdido oportunidades por conta de discriminação não passou no vestibular ou não conseguiu um emprego melhor porque “não conseguiu”? Eu considero que essa pessoa sequer teve a chance de tentar.

Claro que existe quem consiga ultrapassar barreiras que pareciam antes intransponíveis, mas em uma sociedade justa não deveriam ter grupos com enormes obstáculos para vencer, enquanto outros sequer precisam pular um degrauzinho. E por isso é importante revisitarmos nossa própria história, para que a gente não caia no conto de que a vida é feita de indivíduos escolhendo viver como querem e sofrendo as consequências disso. Na real, nem sempre existem escolhas, apenas imposições que são fruto justamente de acontecimentos anteriores vividos por um mesmo grupo.

Estou tratando de assuntos básicos nesse texto porque acho importante lembrar, nessa data de hoje, um pouco das condições que criaram os abismos sociais, econômicos e raciais que temos hoje em nosso país. No último dia 18, aconteceu a Marcha das Mulheres Negras aqui em Brasília (DF), e ficou evidente a vontade de alguns em manter esses abismos: elas foram ameaçadas e atacadas com bombas e tiros por membros daquele acampamento bizarro – praticamente uma milícia – que está montado ali na frente do Congresso já faz um tempão (e que, finalmente, está sendo “convidado a se retirar”, digamos assim).

Além da violência a que essas mulheres foram expostas, acredito que tais atos buscaram tirar o foco dos temas relacionados à elas. Leiam o texto “Mulheres negras em marcha: racistas não passarão!”, de Carmela Zigoni, em que ela informa melhor sobre como foi o dia e destaca as pautas importantes do movimento (e cliquem aqui e aqui para ver fotos maravilhosas dessas guerreiras).

“A Marcha das Mulheres Negras de 2015 defende diversas pautas, dentre estas, o fim do femicídio de mulheres negras, o fim do racismo e do sexismo nos veículos de comunicação e no ambiente de trabalho, a titulação e garantia das terras quilombolas, especialmente em nome das mulheres negras, o fim do desrespeito religioso e a garantia da reprodução cultural de práticas ancestrais de matriz africana. Aqui você encontra o manifesto da marcha com as reivindicações na íntegra” (via página do Ministério da Cultura no Facebook). 

As negras passam por situações específicas relacionadas à aparência, afetividade, oportunidade de estudo e emprego. Muitas vezes, o feminismo, por exemplo, homogeniza as questões das mulheres como se todas estivessem partindo de um mesmo local, com as mesmas experiências (no dia 20 de novembro do ano passado, postei um texto da Sueli Carneiro que fala sobre essa questão: “Enegrecer o Feminismo: A Situação da Mulher Negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero”). Portanto, vamos aproveitar o dia de hoje para refletir as raízes históricas da desigualdade racial em nosso país. Como eu já disse no texto sobre o filme “Que horas ela volta?”, nenhuma pessoa é naturalmente inferior. Chega de racismo e misoginia tentando minar a autonomia e a garantia de direitos das mulheres negras brasileiras.

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Foto por Janine Moraes durante a Marcha das Mulheres Negras de 2015

LEIAM MULHERES NEGRAS:

À Margem do FeminismoBelezas de KiandaBlogueiras Negras; Cidinha da SilvaFavela Potente; Geledés – Instituto da Mulher NegraGorda e Sapatão; Eu, Mulher Preta; Identidade Negra; Mônica Aguiar SouzaMulher Negra & CiaNegra Solidão; Poema Preta; População Negra e SaúdePreta ‘Dotora’Preta & Gorda; Preta MaternaServiço de Preta.

Fiquem à vontade para deixar mais dicas nos comentários! :}

P.S: Em 2009, fiz o curso de extensão “Pensamento Negro Contemporâneo”, na Universidade de Brasília (UnB), com o professor Sales Augusto dos Santos. Foi excelente e meus olhos se abriram de forma que não tem mais volta. Por isso, bato novamente na tecla de que estudar e conhecer a história do nosso país é algo muito importante. E quem realmente entende de racismo é quem passa por ele, não é mesmo?

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“Que horas ela volta?” e a noção de que nenhuma pessoa é naturalmente inferior

Finalmente assisti “Que horas ela volta?”, dirigido pela paulista Anna Muylaert. A cineasta tem “É proibido fumar”, “O ano em que meus pais saíram de férias” e “Durval Discos” em sua filmografia, entre outras obras, e foi roteirista de séries de televisão que marcaram a minha infância, como “Mundo da Lua” e “Castelo Rá-tim-bum”. Eu tinha expectativas altas. Andei lendo bastante sobre o “Que horas ela volta?”, que está sendo muito bem recebido não só aqui no Brasil, mas em diversos países – o filme ganhou prêmios nos festivais de Sundance e Berlim, e está cotado para representar o Brasil no Oscar de 2016.

E fico feliz em dizer que minhas expectativas não foram frustradas. Mais do que isso, saí da sala de cinema com lágrimas nos olhos. Aviso que, a partir daqui, vou postar diversos spoilers no texto. Caso ainda não tenha visto o filme, se liga.

“Que horas ela volta?” mostra o dia a dia da pernambucana Val – interpretada por Regina Casé – como empregada doméstica na casa de uma família tradicional e classe média alta que mora em Morumbi, bairro nobre da cidade de São Paulo. Tem mais de uma década que ela trabalha na casa de Bárbara e Carlos – Karine Teles e Lourenço Mutarelli respectivamente – e cuida do filho deles, Fabinho (Michel Joelsas). E é aquela história que nós, brasileiros, conhecemos bem: “ela é como se fosse da família”, mas mora em um quartinho minúsculo e abafado, não pode tomar o sorvete caro dos patrões e mal teve tempo de ver a própria filha crescer, porque estava ocupada cuidando do filho de outra pessoa. No entanto, tudo funciona bem dentro de casa, por meio de uma estrutura frágil em que ninguém realmente se aproxima mas mantém uma aparente relação de afeto e cordialidade. Dessa forma, as hierarquias se neutralizam por meio da naturalização das diferenças – tem gente que nasce pra servir, e tem gente que nasce pra ser servido, tipo isso, sacou?

A empregada doméstica Val, interpretada por Regina Casé no filme

A empregada doméstica Val, interpretada por Regina Casé

Ninguém move um dedo dentro de casa: é Val que coloca pratos na mesa e depois tira, prepara café da manhã, leva isso, leva aquilo, e assim vai. Algumas pessoas podem dizer que, ah, esse é o emprego dela. Mas será mesmo que é um sistema justo esse de servir uma família inteira o dia todo até mesmo em tarefas simples que uma pessoa poderia muito bem executar sozinha? E que tipo de emprego é esse em que uma pessoa “praticamente da família” simplesmente não tem demandas predefinidas e, por um salário fixo (e geralmente baixo), se encarrega de cozinhar, limpar, lavar, cuidar de pessoas, animais, plantas, ser garçonete em festas e tudo mais o que aparecer pela frente? Fica a reflexão.

Ainda assim, tudo segue tranquilamente, até que Val recebe uma notícia: sua filha Jéssica (Camila Márdila), que ela não via há anos, quer prestar o vestibular para a Universidade de São Paulo (USP), a mesma que Fabinho vai tentar ingressar – aliás, o diminutivo no nome do personagem mostra a pessoa que ele representa: o menino rico, branco, extremamente privilegiado e superprotegido. Ele não chega a ser uma má pessoa, e em alguns momentos é até carismático (apesar de bobão), mas é totalmente blindado, ignorante em relação à realidades diferentes da dele, e também mimado e passivo.

E isso é uma coisa forte no filme, aliás, ninguém ali é mau em um sentido óbvio e explicitamente violento, e considero isso um dos métodos que pessoas “de bem” utilizam para perpetuar relações de dominação e exploração. Tudo isso se relaciona com o que eu já falei antes, da naturalização de que existem pessoas inferiores às outras para a manutenção do status quo. Um grande passo para manter uma pessoa dentro do ciclo de pobreza, por exemplo, – e consequentemente torná-la mão-de-obra barata e servil – é fazê-la assimilar essa ideia de que só alguns são capazes, e ela não está entre esses alguns, bem como o de retirar suas possibilidades de autonomia e crescimento com excesso de atividades braçais e/ou mecanizadas mal renumeradas e com pouco tempo para lazer ou estudo.

No entanto, quando Jéssica chega, ela sacode os laços fracos que unem as pessoas e as certezas daquela casa. A família toda se espanta por ela – a filha da empregada – ser ~inteligente~ (de modo formal e “intelectualizado”, digamos), ambiciosa e querer, veja só, estudar arquitetura. Todos concluem que o curso é difícil e ela vai ter que ralar para passar no vestibular, e o menino ainda zomba o sotaque nordestino dela. Porém, a descrença alheia não afeta Jéssica. Ao contrário de Val, ela não demonstra acreditar na veracidade dos papeis hierárquicos e, de repente, a garota logo migra do quartinho da mãe para o quarto de hóspedes da casa e ainda pula na piscina da galera – piscina que Val, por ter introjetado o seu devido lugar na hierarquia daquele lar, nunca ousou entrar.

Porém, Val não tem culpa de sua subserviência, ainda que isso irrite Jéssica. Para sobreviver, – e mandar dinheiro para a filha, que estava sendo criada por outra pessoa em Pernambuco – ela precisou trabalhar anos como empregada doméstica e, devido aos ajustes sociais e econômicos da profissão que precisou exercer, acabou vivendo para aquela família, sem contato com a sua própria. É muito mais fácil cair na armadilha de se inferiorizar quando não se tem escolhas. Jéssica, embora tenha se sentido abandonada pela mãe e sofrido as consequências dessa ausência, teve mais condições – pelo menos em relação a Val – de desenvolver melhor a própria individualidade. Mesmo sendo pobre, sua intelectualidade acaba sendo um valioso capital dentro daquele espaço – e uma prova de que pessoas de diferentes realidades são capazes, o que muda são as oportunidades dadas à cada uma.

Desde a chegada de Jéssica, Carlos fica de olho nela. Em um determinado momento, ele convida a jovem para almoçar com ele, na mesa da sala – lugar que Val considera um ultraje a filha da empregada estar. E ela não apenas senta ali, como recusa o sorvete barato de sobremesa e aceita o “sorvete do Fabinho” que Carlos oferece, um mais caro (e mais gostoso). Isso sintetiza a filosofia de vida da garota, que em uma conversa com a mãe resume: “eu não me acho superior, só não me acho inferior a ninguém”. Porém, para Val, a mentalidade da menina é um absurdo, e ela alerta Jéssica: “quando eles  oferecem algo, é por educação, porque sabem que a gente vai dizer não”, e reafirma que o sorvete que elas devem consumir é o barato, em uma tentativa de fazer a garota assimilar o papel dela naquela hierarquia.

O sorvete do Fabinho é uma caixa-preta que guarda informações importantes sobre as subjetividades das relações existentes ali naquela casa. Jéssica se acha no direito de tomar esse sorvete, Val acha que não. Fabinho, o dono do sorvete, não tá nem aí pra nada. Carlos oferece o sorvete porque está interessado na garota e, a todo momento, tenta criar cenários de troca, onde ele deixa claro que as posses dele podem ser permanentemente acessadas por Jéssica caso ela queira algo com ele. Bárbara recrimina a menina e tenta constrangê-la quando, em outro momento, a encontra tomando o sorvete. A mulher, que até café da manhã preparou para Jéssica, em um dia que Val perdeu a hora e acordou mais tarde, não aguenta mais a moça pela casa e chega até mesmo a pedir para Val mantê-la da cozinha pra dentro – algo que causa uma enorme briga e faz com que Jéssica vá embora em uma noite chuvosa, um dia antes do vestibular.

A cena do café da manhã é, inclusive, bem interessante. É a primeira vez que alguém da casa aparece fazendo alguma coisa doméstica, o que é bastante simbólico, porque é a postura de autoafirmação de Jéssica que causa esse nivelamento nos degraus que Bárbara queria colocar entre elas. A mulher tinha oferecido café da manhã para a jovem apenas por educação. No entanto, quando Jéssica aceitou, Bárbara se viu ali, debruçada sobre a pia e preparando – de maneira irritada – uma refeição matinal para a filha da empregada, que ainda por cima estava sentada na mesa que a família sentava. A mulher sai sem comer, enquanto a garota se delicia tranquilamente – sob os protestos da mãe, sempre preocupada com as consequências de se atravessar as fronteiras preestabelecidas na dinâmica daquele lar.

Se formos olhar mais atentamente, podemos pensar em um lance: se a gente retira o sufixo “filha da empregada” de Jéssica, o que sobra é uma visita de outra cidade passando uns dias para estudar para o vestibular. Qual seria o problema dessa visita dormir no quarto de hóspedes, comer com as outras pessoas da casa, nadar na piscina com Fabinho? O estranhamento que Jéssica causa por querer ser como as outras pessoas denuncia o que as outras pessoas realmente pensam de alguém que elas dizem ser “praticamente da família”. E a rejeição de Bárbara demonstra um misto de elitismo e rivalidade feminina, algo meio “quem essa garota tá pensando que é?”.

E Carlos… Ah, ele tem aquele jeito ~maravilhoso~ (só que não) de homens (principalmente os privilegiados) que acham que tudo na vida pode ser comprado. Desde que Jéssica chega, ele cerca ela, simulando uma amizade que só não descamba praquela conversa ridícula de friendzone porque o cara não tem idade pra isso. É maravilhosa a cena em que Carlos pede Jéssica em casamento e, ao notar o espanto da garota, diz que é brincadeira. Covardia e falta de noção embalados em uma grande dose de constrangimento. Muitos homens, infelizmente, agem assim. O personagem mostra como não é preciso ser violento de uma forma explícita para ser escroto: será que Carlos concederia benefícios a ela se não houvesse interesse sexual da parte dele? Acho que não, hein. E se ela não fosse branca, ou jovem, ou não ostentasse o tipo de inteligência que o meio dele valoriza, será que ele iria tratar Jéssica “bem”? – coloco bem entre aspas por ser questionável; ainda que seja melhor dormir na cama macia de um quarto de hóspedes do que no chão de um cubículo, ninguém merece gentileza como tentativa de moeda de troca “amorosa” (cof, cof, aspas de novo. Posse não é amor).

E gostei muito da forma que Jéssica é retratada: usa tênis, camiseta e em diversos momentos o cabelo aparece preso e/ou bagunçado. A garota é séria e a sensualidade dela não é explorada – a de nenhuma das mulheres, aliás. O que vemos ali são personagens que se vestem, falam e andam como nós costumamos ser na vida real: mulheres que ás vezes estão produzidas e maquiadas, ás vezes não, e que trabalham, estudam, saem e agem por motivações próprias; e não pensando, 24 horas por dia, em como seduzir todos os homens ao redor – coisa que o senso comum parece acreditar. E sobre os os personagens em geral, a interação entre eles, brincadeiras, gírias, tensões, tudo me pareceu bem natural, sabe? Tipo quando Val busca Jéssica no aeroporto e dá um tapinha carinhoso na bunda dela, isso é super uma coisa que eu e minha mãe ou amigas faríamos

Eu já sabia, desde que foi mencionada a palavra vestibular, que Jéssica seria aprovada e Fabinho não. Era algo lógico dentro do que o filme parece propor, que é meio que refletir mudanças que a mobilidade de classes sociais e aumento de autoestima geraram na população brasileira, entre outras questões (a diretora comenta em várias entrevistas que o roteiro começou a ser escrito há 20 anos e, com as mudanças do país, ele também acabou mudando bastante). Mas ainda assim, o filme conseguiu surpreender ao relacionar o que já era esperado com uma cena tão bonita: quando Val, muito feliz com a notícia, finalmente entra na piscina dos patrões. Se meus olhinhos já tinham marejado diversas vezes durante o a sessão, lágrimas pesadas escorreram deles nessas horas. É muito bonito ver as pessoas adquirindo consciência de que elas têm direito de ocupar espaço no mundo – e todos os espaços.

A partir daí, começa uma série de outras mudanças: Val e Jéssica encontram um apartamento para morar, Fabinho vai curar a frustração de não ter passado no vestibular indo passar uma temporada na Austrália, Val descobre que Jéssica tem um filho deixado em Pernambuco – a garota, no fim das contas, foi para São Paulo em busca de uma vida melhor, igual a mãe – e Val decide mudar drasticamente o rumo da sua vida e se demite do emprego na casa de Carlos e Bárbara.

O pai de Jéssica não aparece. Carlos, sempre distante, só demonstra algum interesse por alguém naquela casa quando começa a pensar com o pinto. Não se fala sobre o pai do filho de Jéssica também, que Val se dispõe a buscar e cuidar. Isso é um retrato sintomático de nossa realidade, cujos homens, mesmo perto de seus filhos, enxergam a paternidade como uma opção e não como uma obrigação. Enquanto isso, mães, avós e outras mulheres se encarregam da criação de crianças – ou contratam empregadas e babás. E o filme mostra as consequências que essa omissão paterna e terceirização de cuidados por parte de algumas mulheres privilegiadas pode gerar, como um garoto emocionalmente desconectado dos pais e uma mulher pobre ausente na vida da filha, por exemplo.

Ainda assim, o final é esperançoso, mas de uma forma pé no chão e sem aquelas reviravoltas melosas e novelísticas. Apesar de todos os problemas, Val e Jéssica conseguem caminhar, juntas, rumo à uma vida cada vez mais autônoma.

Saí da sala de cinema pensando nas nuances suaves e específicas do filme, e me deu a curiosidade de saber várias coisas: como será que os estrangeiros veem tudo isso? E os homens, visto que o trabalho doméstico sempre foi executado, ou terceirizado e gerenciado, por mulheres? Como é a experiência de assistir “Que horas ela volta?” para uma empregada doméstica? E para uma pessoa privilegiada que teve, a vida inteira, sua sujeira sendo recolhida por outra pessoa? Embora existam diversos momentos no filme que podem ser deduzidos, isso não é um problema. Como em uma viagem em que a observação do percurso é o que importa, e não apenas o ponto de chegada, a narrativa sutilmente desnuda os bastidores de relações duais, e as intersecções dessas relações (mãe e filha, homem e mulher, rico e pobre, patrão e empregada, etc), a partir dos tensionamentos que vão surgindo.

P.S: Decidi não comentar o caso do debate porque chega de mídia espontânea para dois manés bêbados em um bate-papo, né? Pra muito homem, mídia ruim ainda é mídia – só com mulher que não funciona, porque como existe um movimento muito forte para barrar nossos acessos ao mundo público, nossa reputação é quase de cristal e qualquer coisinha pequena quebra ela. O ocorrido levantou uma questão importante sobre como muito homem fica butthurt com o sucesso de mulher, mas como já postei e discuti o assunto na fanpage da Vulva Revolução no Facebook (curte lá, se ainda não curtiu), preferi focar no que importa: o filme, ué – que além de tudo, tem belas imagens.

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Leia também:

“Quase da família”, por Aline Valek

“Que horas ela volta? – canção para minha mãe”, por Felipe André Silva