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“Pela Moral e os Bons Costumes”

Quem me acompanha sabe que não apenas sou uma grande entusiasta do cenário independente e autoral, mas também me movimento bastante dentro dele, seja frequentando, apoiando, colaborando, escrevendo sobre ou produzindo o meu próprio material. Desde a minha primeira publicação impressa feita enquanto Vulva Revolução, muitas outras surgiram – e ainda vão surgir.

Fui convidada para escrever o texto que apresenta a exposição da MOTIM – Mercado de Produção Independente deste ano, que traz o tema “Pela Moral e os Bons Costumes” e conta com ilustrações diversas, e resolvi compartilhá-lo aqui no blog. O evento acontece em Brasília e, junto com outras iniciativas (como a Feira Dente, que sou muito fã), tem movimentado bastante a produção independente local. Literatura, quadrinhos, fanzines, pôsteres, fine art e música: tudo é possível nesses espaços, onde o que circula surge de mentes e esforços desconectados de uma lógica convencional de mercado.

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Leia o texto, apareça na MOTIM e apoie artistas independentes – ah, e eu vou estar por lá com as minhas coisas, claro! Por mais diálogo e gente que faz, e menos obscurantismo, por favor.

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Para abrir a 4ª edição do MOTIM – Mercado de Produção Independente, a exposição “Pela Moral e os Bons Costumes” traz pôsteres ilustrados por artistas de todo o Brasil. As imagens evocam reflexões sobre o cenário atual do debate político no país, que entre choques e polarizações, anda aflorando bastante os ânimos de uns e outros. Por Deus e pela família, cidadãos e cidadãs de bem rasgam a roupa alheia para limpar as nódoas que mancham os próprios tapetes.

A sujeira que é varrida para os cantos, no entanto, não esconde a moral que acaba por suspender a ética – e se preocupa mais em controlar a individualidade alheia em prol de uma massificação de péssimas práticas disfarçadas de bons costumes. Enquanto problemas concretos se acumulam, secundarizados e sem resolução, o grito agudo do pânico social preenche lacunas com respostas rasas e reducionistas. Ressona alto, é verdade, mas se dissolve no esquecimento na mesma medida em que faz barulho.

Talvez por isso seja tão fácil reciclar slogans que, em uma sociedade que se diz democrática, há tempos deveriam estar enterrados. O autoritarismo de quem quer limar o discurso alheio na porrada é um filho legítimo de um período obscuro do Brasil. Durante a ditadura militar, aparatos de repressão buscavam eliminar as dissidências – fossem elas políticas, sexuais ou sociais – justamente ao defender a tal da moral e dos bons costumes, termos tão abstratos quanto arbitrários no modo em que são utilizados.

Instituições de séculos atrás e figuras de autoridade detentoras de recursos financeiros e poder estão, a todo o momento, tentando disseminar a ideia de que a maior preocupação que possuem é o bem-estar coletivo. Enquanto alistam forças para atuar na linha de frente do ódio e do vigilantismo, trabalham também na sofisticada engrenagem que tem o objetivo de manter o status quo intacto. Artistas são utilizados como bodes expiatórios e taxados de criminosos e canalhas por aqueles que verdadeiramente merecem tais adjetivos.

O mal é tido como uma entidade oculta em manifestações artísticas que descortinam camadas diversas do comportamento humano que, na realidade, merecem análises atentas. Em uma caça maniqueísta que precisa encontrar culpados imediatos, contextualizações são atropeladas por conclusões apressadas e literais que não alcançam subtextos. O deboche, o escracho, a diferença, o desvio ou a crítica, porém, permanecem assinalados – e quem apertar bem os olhos poderá enxergar que estamos todos enrolados na manta de um rei que está nu.

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