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Cartas de amor de três mulheres notáveis da história

No livro Cartas de Amor de Mulheres Notáveis, a inglesa Ursula Doyle reuniu mensagens românticas enviadas por importantes figuras femininas da história mundial. A publicação, que busca mostrar o que sentiam e pensavam algumas mulheres de séculos atrás, é uma resposta ao best seller lançado anteriormente pela mesma organizadora, o Cartas de Amor de Homens Notáveis. Nos dias de hoje tal forma de comunicação perdeu um pouco o espaço para a interação instantânea promovida pelas tecnologias atuais. Mas a ideia de enviar ou receber uma carta de amor não deixa de ser algo que ainda guarda muito charme e beleza, não é mesmo?

Na obra mais recente, Ursula encontrou algumas curiosidades. Enquanto as cartas masculinas variavam de estilo, sentimento e até mesmo sinceridade, visto que alguns homens escreviam de olho na posteridade ou usavam a prática como um exercício para demonstrar o próprio gênio criativo, as mulheres tinham mais prudência nas próprias palavras. Isso não significa que elas fossem necessariamente mais francas, embora aparentassem, sim, mais profundidade. Além disso, é inquestionável que o destino de muitas era definido pelo casamento e isso gerava angústias e reflexões fortes tanto nas que seguiam o curso natural do que era esperado por uma mulher quanto nas que avidamente desafiavam as convenções sociais.

Os homens notáveis enxergavam o “objeto de amor” como mais um aspecto da vida, entre tantos outros. A paixão nem sempre era o centro. Eles possuíam espaço e incentivo para obter realizações em outras esferas, como ciência, política, arte e afins. A notabilidade de muitas mulheres da coletânea, no entanto, está relacionada com os homens que elas se envolveram. Muitas cartas só foram preservadas, nas palavras da organizadora, “graças à ligação das autoras com seus ilustres cônjuges ou descendentes.”

De qualquer modo, o legado de muitas significativas figuras do sexo feminino se perpetuou, mesmo com todas as adversidades que foram encontradas pelo caminho. Vamos espiar um pouco os profundos sentimentos que invadiram o coração dessas mulheres. O amor é algo intenso, mas diverso — e, como afirma Ursula, pode assumir formatos variados: indulgente, equivocado, ambíguo, ambicioso, erótico, casto, alucinado e muitos outros. Confiram:

Mary Wollstonecraft (1759–1797)

A escritora inglesa Mary Wollstonecraft é conhecida como uma das “fundadoras” do movimento feminista como se conhece atualmente. Percursora em perceber e falar sobre as diferenças de gênero, ela escreveu a Reivindicação dos Direitos das Mulheres, por exemplo, como uma resposta à Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão dos revolucionários franceses. Paralelamente à uma prolífica carreira literária, caminhou uma conturbada vida amorosa, que envolveu uma tentativa frustrada de ménage à trois com um pintor bissexual e a esposa dele e uma paixão por Gilbert Imlay, um capitão e empresário norte-americano notório por ser um conquistador infiel e que machucava corações.

Em 1797, a escritora se casou com o filósofo político e novelista William Godwin e o que se sabe é que era um amor mútuo, profundo e mais tranquilo que o anterior. Em agosto do mesmo ano, nasceu Mary Wollstonecraft Godwin, que futuramente tornou-se Mary Shelley (ela mesma, a criadora do clássico Frankenstein) e a mãe infelizmente acabou falecendo pouco após o nascimento por conta de uma febre puerperal.

Mary Wollstonecraft

Foi escolhido um trecho de uma carta para Imlay com o intuito de mostrar que a angústia de amar um homem ausente passa, ah, se passa — e abre espaço para novas paixões:

Para Gibert Imlay

Paris, sexta-feira pela manhã, 1793

(…) Agora a recordação prende meu coração a ti; mas não à tua personalidade ambiciosa, embora não possa ficar seriamente insatisfeita com um esforço que faz crescer minha admiração, ou isso seria o que eu deveria esperar do teu caráter. Não, tenho diante de mim tua expressão honesta — relaxada pela ternura, um pouco ferida por meus caprichos, e teus olhos brilhando de aprovação. Então, teus lábios são mais macios do que a própria maciez, e eu apoio o meu rosto contra o teu, esquecendo o mundo inteiro. Não deixei fora da imagem as cores do amor — o brilho rosado; e creio que a fantasia cobriu dessa tonalidade minha própria face, pois sinto que ela queima, enquanto oscila em meus olhos uma lágrima deliciosa que seria toda tua se uma emoção agradecida dirigida ao Pai da natureza, que assim me despertou para a felicidade, não tivesse dado mais calor ao sentimento compartilhado. Preciso fazer uma pausa por um momento.

Preciso dizer-te que estou tranquila após escrever-te essas palavras? Não sei porque, tenho mais confiança em tua afeição quando estás ausente do que na tua presença; não, penso que deves me amar, pois, com a sinceridade do meu coração, deixa que eu diga, acredito merecer tua ternura porque sou fiel e tenho um grau de sensibilidade que podes ver e saborear.

Sinceramente, Mary.

Emily Dickinson (1830–1886)

Emily Dickinson (IanDagnall Computing/Alamy Stock Photo)

Considerada uma das maiores poetas do século XIX, Emily Dickinson foi uma figura misteriosa que, ao longo da vida, passou a se isolar gradualmente da sociedade — menos da família. A vida de reclusão gerou uma produção intensa, que envolve mais de 1800 poemas. Contudo, uma amizade profunda foi alimentada desde a infância com Susan Gilbert, que Emily conheceu ainda no período escolar.

Mais de trezentas cartas foram escritas para Susan! Embora algumas pessoas enxerguem a prosa florida e intensa trocada entre ambas como algo comum da época, muitos especialistas acreditam que Emily foi apaixonada por Susan — que acabou se tornando cunhada da autora ao casar com o irmão dela e entrar em um matrimônio tido como bem infeliz. De qualquer modo, Emily fez juras de amor verdadeiro à “amiga” diversas vezes. Isso não se faz a qualquer pessoa, não acham? Logo, apreciem um trecho de uma das correspondências trocadas entre elas e tirem suas próprias conclusões:

Para Susan Gilbert (Dickinson), 6 de fevereiro de 1852

Deixarás que eu venha, querida Susie — assim como estou, com o vestido sujo e gasto, meu grande e velho avental e meu cabelo — oh, Susie, o tempo é curto para uma descrição detalhada da minha aparência, porém eu te amo tanto quanto se estivesse bem-cuidada, portanto não te importarás, não é mesmo? Estou tão feliz, querida Susie — que nossos corações estejam sempre limpos, sempre bem cuidados e adoráveis, de modo a não causar vergonha. Esta manhã estive mergulhada no trabalho e deveria estar trabalhando agora, mas não posso negar a mim mesma o prazer de ter um minuto ou dois contigo.

(…) Oh, minha querida, há quanto tempo estás longe de mim, como estou cansada de esperar e procurar e chamar por ti; ás vezes, fecho os olhos e fecho meu coração para ti e me esforço muito por esquecer-te, porque me causas tanta dor, mas nunca irás embora, oh, nunca irás — diz-me, Susie, promete mais uma vez, e eu irei sorrir de leve — e tomar novamente a minha pequena cruz de triste — triste separação. Como parece inútil escrever quando se sabe como sentir — como é muito melhor estar sentada a teu lado, falar contigo, ouvir as inflexões da tua voz; é tão difícil “negar a si mesmo, pegar a cruz e seguir” — dá-me forças, Susie, escreve-me palavras de esperança e amor e de corações que resistiram e grande foi para eles a recompensa do “nosso Pai que está nos Céus”.

(…) Amor sempre, e para sempre, e verdadeiro! Emily.

George Sand (1804–1876)

George Sand

Amandine Aurore Lucile Dupin nasceu em uma rica família da França. Casou-se aos 19 anos. Aos 27, insatisfeita com a relação, deixou o marido e os dois filhos no interior em que moravam e foi para Paris. Na cidade luz, passou a conviver com um grupo de escritores. Em 1832, publicou Indiana, seu primeiro romance, sob o pseudônimo George Sand. O livro criticava desigualdades da lei francesa que regulavam o casamento e clamava por igualdade e educação para mulheres — ousada para a época, hein?

A autora, inclusive, possuía hábitos escandalosos para o período em que esteve ativa: usava roupas masculinas, fumava e tinha muitos amantes, por exemplo. Romances, peças e ensaios foram produzidos aos montes, criando uma aura atraente ao redor de George, que ao mesmo tempo era rechaçada pelas crenças e estilo de vida que possuía. Entre os famosos casos de amor que experimentou, estão um envolvimento com o poeta Alfred de Musset e uma poderosa paixão pelo médico veneziano Pietro Pagello — mas o relacionamento com ele durou bem pouquinho. A carta a seguir, no entanto, mostra uma reflexão profunda e válida até mesmo nos dias atuais:

Para Pietro Pagello

Veneza, 10 de julho de 1834

Nascemos sob céus diferentes e não temos os mesmos pensamentos ou o mesmo idioma — será que teremos corações semelhantes?

O clima suave e enevoado de onde venho dotou-me de sentimentos brandos e melancólicos; com que paixões terás sido agraciado pelo sol generoso que bronzeia tua face? Sei como amar e como sofrer; e tu, o que sabes do amor?

O ardor de teus olhares, o violento amplexo dos teus braços, o fervor do teu desejo são para mim tentações e motivos de temor. Não sei se devo combater tua paixão ou compartilhá-la. Não se ama dessa forma em meu país; a teu lado sou apenas uma estátua pálida que te olha com desejo, com perturbação, com espanto. Não sei e nunca saberei se de fato me amas. Mal conheces algumas palavras de meu idioma, e eu não conheço palavras suficientes do teu para tratar dessas questões sutis.

(…) Talvez tenhas sido criado com a ideia de que as mulheres não têm alma. Acha que elas a têm? Não és cristão ou muçulmano? Civilizado ou bárbaro — és um homem? O que existe nesse peito masculino, por trás dessa fronte soberba, desses olhos leoninos? Alguma vez tens um pensamento mais nobre, mais refinado, um sentimento fraternal? Quando dormes, sonhas que estás voando em direção ao céu? Quando os homens te prejudicam, ainda confias em Deus? Serei tua companheira ou tua escrava? Tu me desejas ou me amas? Quando tua paixão for satisfeita, tu me agradecerás? Quando eu te fizer feliz, saberás como dizer isso?

(…) Quando me olhares com ternura, acreditarei que tua alma olha a minha; quando olhares para o céu, acreditarei que tua mente se volta para a eternidade onde foi gerada. Vamos permanecer assim, não aprendas meu idioma e eu não procurarei encontrar no teu as palavras que expressem minhas dúvidas e meus medos. Quero ignorar o que fazes da tua vida e que papel desempenhas entre teus companheiros. Não quero nem mesmo saber teu nome. Oculta de mim tua alma, para que eu sempre possa acreditá-la bela.

Ouch.

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Texto escrito originalmente para um extinto projeto literário que fiz parte em 2017, e que republico aqui por trazer reflexões que considero pertinentes às questões abarcadas pelo blog. Nos tempos atuais, o amor é um assunto sempre em debate em nossas mentes e corações, não importa o período político que esteja em voga e, portanto, é sempre bom refletir criticamente sobre o tema. É válido ressaltar que, embora o post cite mulheres notáveis da história mundial, o livro mencionado no texto, que é escrito por uma inglesa, acaba por privilegiar figuras europeias.