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Grimes dá dicas para mulheres que querem (ou precisam) chefiar

A Tavi Gevinson – editora do fofíssimo site para adolescentes Rookie – vai lançar esse mês uma publicação editada por ela (“Rookie Yearbook Three”) que conta com a contribuição de diversas artistas sobre vários assuntos. A revista Elle publicou trecho de dicas dadas pela Grimes – ou Claire Boucher, artista canadense de vinte e poucos anos que começou a bombar em grande escala já faz uns três anos, produzindo as próprias músicas praticamente sozinha – sobre como ser chefe. São dicas simples, mas que achei interessantes por verem a dificuldade que muitas meninas e mulheres têm quando precisam se impor. E são dicas que valem não só pra quem é da música: se você vende comida de forma autônoma, elabora estampas e vende camisetas em loja virtual, gerencia alguma loja física, é fotógrafa, escritora ou tem qualquer outra relação com criação e/ou algum tipo de empreendimento, você vai precisar gerenciar serviços de outras pessoas. Por isso, traduzi (não sou nenhuma expert, perdoem qualquer erro) o texto, que vem a seguir. Aqui está o link original (em inglês).

Grimes, por Colin Kerrigan

Grimes, por Colin Kerrigan

Algo que eu não percebi quando comecei a fazer música foi que qualquer empreendimento empresarial envolve contratar pessoas, criar uma empresa e se tornar um empresário. Então, enquanto você provavelmente me conhece como artista, na prática eu sou também uma chefe. Sou a CEO de duas empresas, Grimes Creative Corp e Fairy Tour Corp, e acabei de começar a Roco-Prime Productions com o meu irmão. Isso é simultaneamente muito legal e muito estressante. Eu definitivamente não sou a melhor ou a mais experiente chefe. E sou também uma jovem chefe do sexo feminino, o que pode trazer um conjunto muito particular de desafios práticos e emocionais. Compilei aqui uma lista de coisas que têm sido úteis para mim enquanto venho tentando aprender como estar no comando, na esperança de que alguma delas possa ajudar qualquer uma de vocês que estejam fazendo o que estou fazendo (ou seja, “aprendendo enquanto faz”):

  • Você nunca vai ouvir tantas pessoas dizendo que você está errada quanto quando você está sucedendo. Depois que o meu álbum “Visions” foi lançado, eu gastei um tempo realmente longo enlouquecendo porque as pessoas estavam me dizendo que, para dar o “próximo passo” na minha carreira, eu precisaria me tornar uma “música” muito melhor, precisaria de uma banda de apoio, etc. Agora percebo que (a) nenhuma dessas pessoas têm carreiras musicais e (b) eu desperdicei muito tempo tentando fazer coisas que me disseram que eram “importantes para todo músico profissional”, sem perceber que, enquanto fã, eu sempre fui muito mais interessada em coisas que eu nunca tinha visto antes. O ponto é que escutar os haters é inútil. As pessoas julgam tudo – muitas vezes porque se sentem ameaçadas. Ignore-as. Acho que isso se aplica a todo negócio ou coisa criativa, porque o mundo de amanhã não vai se parecer com o de hoje. Fazer algo diferente é provavelmente melhor do que fazer as mesmas coisas que as outras pessoas fazem.
  • Pule corda. É a forma mais eficiente de obter exercício cardiovascular em qualquer tipo de clima, sem ir à academia. Exercícios são muito importantes se você está lidando com depressão ou raiva – e qualquer trabalho na indústria do entretenimento causa ambos.
  • Pare de trabalhar quando você estiver cansada – mas não fique com preguiça. Eu às vezes oscilo entre trabalhar 22 horas seguidas, entrar em colapso e perceber que eu não tenho que aderir a um horário fixo, e assistir todos os episódios de Os Sopranos. Eu não sugiro este sistema. Horários planejados são surpreendentes: oito horas de trabalho, oito horas de sono. As outras oito horas são de uso livre (ainda não sou mestre nisso, mas quando consigo botar em prática me torno muito mais produtiva).
  • Agarre-se em seu trabalho. Certa vez, Elvis Presley quis gravar um cover de “I Will Always Love You”, da Dolly Parton, mas com a condição de que metade dos royalties de difusão – dinheiro que o compositor recebe sempre que alguém toca ou performa sua canção em público – ficassem pra ele. Dolly disse que não e, muitos anos depois, Whitney Houston cantou “I Will Always Love You” em um filme, e essa provavelmente se tornou uma das canções mais memoráveis ​​(e lucrativas) de todos os tempos. Portanto, é muito importante manter a posse de sua propriedade intelectual. Coloque direitos autorais em tudo. NÃO SE ESQUEÇA DE FAZER ISSO. Você pode se ferrar de tantas maneiras se não reivindicar os direitos autorais de seu trabalho. Por outro lado, trate seus colaboradores com respeito e dê a eles o dévido crédito.
  • Seja gentil com as pessoas que trabalham com você. É de extrema importância tratar as pessoas com gentileza, porque você quer que elas trabalhem com empenho e se preocupem com as coisas que vocês estão construindo juntos. No entanto, para que as coisas sejam feitas, às vezes você precisa ser má. Eu sou muito ruim nisso, mas é absolutamente necessário que as pessoas saibam quando algo é inaceitável, ou elas vão continuar fazendo isso e você vai ficar ressentida, o que irá gerar vibrações ruins.
  • Leia/assista biografias de pessoas que você admira. Eu aprendi mais com esta prática do que com qualquer outra coisa, sério. Além disso, se você está perto de alguém que faz o que você quer fazer, faça perguntas e veja de perto o trabalho da pessoa.
  • Bette Midler disse uma vez: “acredito firmemente que com um calçado adequado, se pode governar o mundo”. Eu costumava tentar usar saltos, e foi um desastre. Agora sempre priorizo sapatos confortáveis. Além disso, evite usar branco: pessoas ocupadas não têm tempo para trocar de roupa com frequência, e branco suja rápido (a menos que você seja Olivia Pope). Basta encontrar uma ou duas roupas que pareçam legais e que você possa também dormir com elas.
  • Evite namorar com alguém que faz o mesmo trabalho que você. Se você acabar fazendo isso, certifique-se que a pessoa não ressente o seu sucesso e nem você o dela.
  • Tente namorar com uma pessoa que seja boa na cozinha. Isso vai poupar tempo.
  • Se você está cansada e precisa ser enérgica, beber um pouco de molho de pimenta realmente funciona.
  • Mantenha caneta e papel ao lado de sua mesa de cabeceira. Boas ideias muitas vezes surgem quando você está caindo no sono, e você não vai se lembrar delas de manhã.
  • Só porque alguém tem mais qualificações do que você não significa que essa pessoa é melhor do que você. Vivemos na era da tecnologia, então você pode googlar tudo que não souber fazer. A única coisa que você não pode googlar é como ser original e criativa. Seus pensamentos têm mais valor do que um diploma ou pai/mãe no mesmo campo de atuação ou qualquer outra coisa. Sempre penso no meu avô, que se tornou um engenheiro com apenas a sétima série concluída. É uma coisa muito clichê de se dizer, mas quase tudo é possível se você programa sua mente pra isso.
  • De verdade, a coisa mais importante é eliminar a falta de confiança em si mesma. Isso é basicamente impossível para mim, mas descobri que se eu agir como chefe, eu posso me convencer de que eu sou uma chefe quando preciso ser uma. Copio coisas que já vi políticos e atores fazendo; faço contato visual com as pessoas; tento manter os ombros para trás e cabeça erguida; gesticulo e, por vezes, faço longas pausas (silêncio pode ser muito intimidante). Tento agir como se eu fosse poderosa, no palco e fora dele. Sou, muitas vezes, tratada com desrespeito, mas respondo da forma mais respeitosa que eu puder, porque quando você não tropeça, isso faz com que os trolls pareçam estúpidos. Conforme o tempo vai passando, tenho notado que as pessoas ruins foram gradativamente sumindo e estou cada vez mais cercada por pessoas que confio e que compartilho respeito mútuo – o que, por sinal, gera confiança real.

Já que estamos falando da Grimes, uma curiosidade que se encaixa com o tema do post: o clipe acima foi feito com pouquíssimo dinheiro e dirigido por ela mesma:

Esse foi um vídeo com verdadeiras influências K-pop. O orçamento, de $60, foi todo em álcool. Nós literalmente planejamos ele na noite anterior. Eu só reuni algumas amigas para beber muito e foi tipo “nós vamos fazer movimentos de dança”. Fizemos o vídeo em algumas horas. Eu quase não me importava em como o vídeo ficaria; só queria que parecesse que todo mundo estava se divertindo. Eu queria também que fosse um pouco assustador, por isso tem o lance das coisas pra trás.

(Trecho retirado dessa entrevista – em inglês)

E você aí? Esperando o quê? Junta azamiga, estufa o peito, pede ajuda no que for preciso e tira do papel aquele plano que você achou que nunca daria certo! Se você já toca algum projeto, muita força e continue assim. O mundo também é nosso! ❤

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Pensamentos soltos sobre jornalismo, mercado & mulher

Oi, gente! Antes de começar o post, gostaria de agradecer quem tem lido, compartilhado e debatido os assuntos que me proponho a falar sobre. Este blog é novinho e ainda está engatinhando, mas teve semana que conseguiu alcançar mais de 20 mil visitas – considero bastante para algo totalmente independente e divulgado no boca a boca, e fico feliz. Eu já fui muito insegura para expor minhas ideias ou mostrar o que escrevo, e é incrível e surpreendente viver nesse tempo dinâmico, de feedbacks imediatos.

E baseada nesses feedbacks, venho prosseguir a discussão sobre mulheres e mídia iniciada neste post aqui. Uma jornalista se incomodou com o fato de eu colocar a culpa de matérias machistas nas costas de nossos (opa, pra quem não sabe: também sou jornalista) colegas de profissão. Parte do comentário dela foi o seguinte:

“Cara, quem alimenta essa indústria dos cliques não somos (só) nós. É um círculo vicioso! Se não houvesse tanta procura – algo que eu queria entender – certamente nossos veículos e diretores não investiriam tanto na produção de conteúdo sobre ‘celebridades’ e derivados”

E ela tem toda razão. Jornalistas não são os únicos culpados, embora eu quisesse dar uma cutucadinha na consciência deles quando falei que deveriam tomar vergonha e ir estudar mais. No jornalismo online, por exemplo, existe uma “indústria de cliques”, como a jornalista disse, que busca atenção rápida e a certeza de que o link será aberto. Quanto mais cliques, mais anúncios. E os anunciantes não parecem muito preocupados com a procedência dos cliques (tem muita matéria ~polêmica~ que rende clique e gera impacto negativo nos leitores – só que, no fim, a marca vai grudar na cabeça e todo mundo vai acabar consumindo de qualquer jeito).

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Ilustração de JoHee Yoon

Conteúdo interessante também atrai, mas os profissionais, em geral, não possuem tempo para procurar boas pautas na rua ou para pesquisar um assunto profundamente. Os prazos são apertados, a demanda por novidades constantes é alta e existem mil tarefas a serem cumpridas ao mesmo tempo, virtualmente e offline. Além do mais, muitos anunciantes de veículos voltados para mulheres são das indústrias de cosméticos, vestuário e etc, o que estimula a criação de necessidades antes inexistentes. Novidades relacionadas a roupa, cabelo, maquiagem e cirurgias plásticas, por exemplo, são mostradas a todo momento não apenas em propagandas, mas nas próprias matérias que saem em sites, revistas, suplementos de jornais ou programas televisivos. Porém, não sei até que ponto isso é “proposital”, numa tentativa de criar tendências, e até que ponto é uma mera assimilação desses produtos e práticas como pertencentes a um suposto “universo feminino” (pretendo fazer, em breve, um post sobre o surgimento da chamada “imprensa feminina”, o que nos ajudará a pensar essa questão). Aliás, nós, mulheres, somos consideradas um público emergente e valioso, com as recentes reconfigurações econômicas e familiares (mães solteiras e chefes de família, por exemplo).

No entanto, acredito que existe também um olhar viciado e preguiça de sair da zona de conforto por parte de alguns jornalistas, e isso faz com eles se ancorem em pontos de vista rasos e em “achismos”. Muitos não conseguem se despir dos próprios preconceitos e acham ok reproduzir o senso comum, ao invés de tentar entender minimamente o outro e suas especificidades, e desmistificar ideias correntes mas nem sempre corretas.

A nota sobre o envelhecimento de Liv Tyler, por exemplo, poderia muito bem ter sido só uma besteira do tipo “Fulana de Tal toma banho de mar”, que é o cúmulo do dizer nada, mas pelo menos não perpetua padrões negativos – e atrai o mesmo tipo de atenção. Isso entra, aliás, em uma outra questão, relacionada a um comentário que também recebi. Comentários, na verdade, pois foi um ponto abordado mais de uma vez: entretenimento e fofoca na internet não é jornalismo.

Hm. Essa questão é complicada. Claro que notas sobre envelhecimento e banhos de mar não são o jornalismo em sua forma “tradicional”. Mas constituem um híbrido entre jornalismo e publicidade onde a “informação” (ou falta de) constitui a própria mercadoria. “O infotenimento é hoje a grande sacada empresarial dos meios de comunicação para alavancar suas vendas e não perder seu público. Mas até que ponto misturar informação e entretenimento pode prejudicar a real função do jornalismo? Que hoje a informação jornalística é considerada uma mercadoria, não há dúvida, mas como é possível, em meio a esse turbilhão de informações, separar o joio do trigo, ou seja, aquilo que realmente é informação daquilo que é apenas distração, fruição?”. 

Eu não sei bem a resposta, mas sei que o tal do infotenimento, muitas vezes, tem status e alcance de jornalismo (mais, até). E vários veículos misturam tudo (notícias, entretenimento, etc), o que dificulta o discernimento do leitor comum (digo comum no sentido de não-jornalista e tal), que tem o hábito de dar (ou não) credibilidade para um veículo como um todo. Então… É algo que deve sim ser analisado. Se uma mensagem está sendo passada, um monte de gente está recebendo essa mensagem. E acho que o jornalismo “tradicional” e o infotenimento se retroalimentam, formando um ciclo que perpetua as mesmas ideias, mas em diferentes níveis.

No infotenimento, os absurdos são mais escancarados (“VEJA O BUMBUM DA CICRANA CHEIO DE CELULITE”), mas o jornalismo “tradicional” não fica atrás. Quantas não foram as matérias que já lemos ao longo da vida falando sobre aparência de mulheres que atuam na política, sobre inovações estéticas que vão ~levantar a auto-estima~ das mulheres, sobre a manifestante “gata”, sobre como o corpo de mulheres esportistas é magro demais, grande demais ou forte demais, entre outras? Quantas não foram as reportagens que tentaram naturalizar a “inferioridade” da mulher ou demonizar conquistas femininas, com apurações dignas de infotenimento, e não de jornalismo “tradicional”?

Não tenho conclusões definitivas. Até porque mulheres são maioria entre jornalistas, mas grandes empresas e veículos costumam ter homens no poder. O olhar por trás das decisões é masculino. Então essa postagem é mais um rascunho, um espaço para escoar as ideias que surgiram sobre o assunto após o post anterior. E um convite à reflexão sobre quais as posições de cada peça nesse grande jogo que é o recorte de interpretações do mundo por meio de produção e disseminação de informações. Vamos pensar juntos?

Ah, fiz uma página no Facebook: www.facebook.com/revolucaovulva 🙂