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TODA MULHER É LOUCA

Certos homens agridem as namoradas na maior cara de pau, e falam da amiga louca. Disseminam preconceitos estéticos e raciais, disfarçando tudo isso de “gosto pessoal”, e falam da professora louca. Saem com qualquer uma que conhecem em qualquer lugar, e falam da colega de trabalho louca. Enchem a cara e agem feito uns idiotas, e falam da esposa louca. Praticam sexo não consentido com mulheres desacordadas ou vulneráveis –  vulgo estupro, sabe? – e falam da irmã louca. Não desfazem laços com caras que já fizeram o mesmo (e os legitimam socialmente), e só julgam a cunhada louca. Desumanizam as garotas com quem saem, separando-as entre as que merecem respeito e as que não merecem, e falam da mãe louca.  Arrumam briga e promovem atos violentos por motivos banais e fúteis, mas louca é aquela tia distante, que vez ou outra vem visitar. Chegam a machucar e até a matar mulheres e também outros homens, simplesmente porque não sabem lidar com diferenças e frustração, mas o foco da conversa? É a ex-namorada louca, claro. Abandonam a família, e apontam o dedo para a cantora louca. Incentivam a rivalidade feminina, fazem comparações entre mulheres e chamam de louca aquela garçonete que trabalha o dia inteiro no restaurante da esquina. Não lavam uma louça, e reclamam da diarista que aparece toda segunda-feira, que é louca. Apesar de adultos, namoram meninas adolescentes e facilmente manipuláveis – e diz para elas tomarem cuidado com as colegas de classe, que são loucas. Fingem que são bonzinhos e abusam de crianças, e falam da ativista louca. Se fazem de pobres coitados, frágeis, abandonados e doentes, mas a prima é que é louca. Exploram funcionários e chamam isso de trabalho, e falam da avó louca. Assediam mulheres em shoppings, hospitais e igrejas, e riem da moradora de rua louca. Dirigem rápido, achando que a vida é um filme de ação, e conversam sobre a vizinha louca. Fazem sexo que nem uma britadeira descontrolada, achando que os ensinamentos da pornografia são válidos, e falam da dentista louca. Aprisionam mulheres em relacionamentos “livres”, e falam da dona de casa louca. São incapazes de demonstrar afeto sem ironia ou constrangimento… E falam que todas, todas, todas, todas, todas as mulheres ao redor, por algum motivo, são loucas.

Desconfiem de adjetivações genéricas, reducionistas, preconceituosas e sem fatos ou análises embasadas como foco. E, não esqueçam: a louca que hoje você ajuda a isolar por acreditar que isso te dará algum tipo de proteção pode ser você amanhã. Mulheres são historicamente taxadas de loucas como forma de controle e dominação. Toda mulher que coloca o privilégio de um homem em risco ou quer romper com as sufocantes regras sociais impostas ao sexo feminino é vista como errada ou perigosa.

Na maioria das vezes, não basta apenas olhar para onde os dedos apontam. É preciso observar também de quem é a mão.

katrene

pintura de kat renee // katrenee.com
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Quando o “não” vira sentença de morte

Voltei de uma viagem na última sexta-feira e, assim que pisei em casa, resolvi procrastinar o momento de desfazer as malas dando aquela olhadinha nas redes sociais. Me deparei com um post muito triste de uma moça pedindo ajuda para encontrar a irmã dela, que estava desaparecida desde a noite anterior. Porém, antes que eu pudesse pensar em qualquer hipótese sobre o assunto, pipocavam comentários na postagem desejando força para a família e afins. Cliquei nas notícias linkadas e li sobre a morte cruel da jovem Louise Ribeiro, de 20 anos. A estudante de biologia foi assassinada pelo ex-namorado (e colega de curso) Vinícius Neres, de 19 anos, dentro da Universidade de Brasília (UnB). É uma história muito chocante. Fiquei muito mal, os olhos marejados, o peito apertado… Até quando um homem que não sabe lidar com rejeição e enxerga uma mulher como posse vai se achar no direito de tirar a vida dela? Quando iremos alterar o paradigma desse roteiro tão comum?

Enquanto ainda digeria o acontecido, uma história muito parecida apareceu nos jornais do Distrito Federal menos de 48 horas após a morte de Louise: a estudante de gestão pública Jane Fernandes Cunha, de 20 anos, foi assassinada pelo ex-companheiro Jhonatan Pereira Alves, de 23 anos. O cara atirou nela e, em seguida, se matou. Embora ambos os crimes sejam igualmente terríveis, o caso de Jane possui um agravante: ela já havia feito uma denúncia contra o ex na Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam) por conta de frequentes intimidações. Porém, não adiantou, como em diversos outros casos (um maior uso de dipositivos eletrônicos que apitam, como pulseiras, sendo mais utilizados em casos de medidas protetivas podem auxiliar, será? Algo precisa ser feito, é desesperador). Ele era mais um desses desequilibrados que ~não aceitam o fim do relacionamento~ e, ao invés de assistir uns filmes tristes ou buscar algum tipo de apoio psicológico, preferiu resolver as coisas da pior forma possível. E as mulheres é que são chamadas de “histéricas” e “descontroladas”… Estranho, não?

O caso de Louise está ganhando ampla repercussão por ter acontecido dentro de uma universidade, e entre pessoas muito jovens e de classe média (Jane era da periferia do DF) – e creio que também pelo fato de o assassino estar vivo e não corresponder ao estereótipo que se cria de “bandidos”. Ele tem um visual “nerd”, é frio, indiferente, bem articulado e tem sido protagonista de entrevistas enojantes onde posa feito um popstar narrando um crime brutal com a banalidade de quem está fazendo um novo show. E a mídia carniceira e sensacionalista dá corda e faz perguntas que não levam a lugar algum, desinformam e acabam por tentar tirar o rapaz do lugar que ele pertence: de assassino misógino para um “garoto perturbado”.

Precisamos conversar claramente sobre todas essas questões e acabar de uma vez por todas com o mito de que o agressor é um “monstro” ou um “doente” – a não ser que a gente comece a concordar que a masculinidade em si pode, muitas vezes, ser uma espécie de doença mental epidêmica que é instalada na pessoa do sexo masculino por meio da socialização. Se o Mapa da Violência de 2015 mostra que grande parte da violência contra a mulher – e dos assassinatos – são cometidos por familiares e ex-parceiros, isso significa que existem criminosos aos montes, eles não são exceções. Logo, invocar o “monstro” quando estamos falando de um comportamento corriqueiro é fechar os olhos para uma situação generalizada, como se apenas alguns caras estivessem fazendo algo ruim porque possuem algum problema (embora existam transtornos que façam uma pessoa matar outra, mas isso é outra questão) e não porque estão inseridos em uma cultura onde o valor da mulher é baixo.

Aliás, temos que ir mais longe e radicalizar (lembrando que “radical” tem a ver com ir até a raiz): qualquer homem que seja contra uma mulher livre e autônoma é um agressor em potencial, e isso não é uma hipérbole, mas uma realidade. São muitos os que, de forma explícita ou velada, se incomodam com a existência de mulheres que querem decidir o que fazer, o que vestir, o que estudar, onde trabalhar e com quem se relacionar. E esse incômodo resulta em um alto número de violências físicas, psicológicas e verbais contra as mulheres. Portanto, temos um problema sério em mãos a ser resolvido, e ele envolve mais do que segurança pública, melhoria nos aparatos judiciais ou iluminação nas ruas, mas também muita educação.

Quantas vezes não achamos um cara meio estranho, raivoso, machista e as pessoas ao redor tentam abafar, dizendo que ele é assim mesmo, que está só brincando, que é um pouco exagerado no modo de falar, que teve problema com drogas, está deprimido ou sofreu alguma rejeição? “Apesar de tudo, ele é gente boa”. Nananinanão, parem de inventar desculpas. Misoginia é misoginia, e esse tipo de gente ser levada a sério é um sintoma grave de que odiar mulher não tem problema algum. É um absurdo que a gente viva em uma sociedade conivente com homens que dizem que mulheres são inferiores ou devem ser submissas e que vociferam coisas como “vadias”, “putas”, “piranhas” assim que percebem que não podem controlar comportamentos e sentimentos alheios. A necessidade masculina de afirmar a própria identidade a partir da dominação do sexo feminino – e também do sexo masculino dissidente do estereótipo macho e heterossexual – é tóxica para todos os envolvidos. E a misoginia escorre por todos os lados, inclusive da boca daqueles que pregam respeito às minas, basta prestar atenção nos detalhes.

Pensando na construção histórica do que é ser mulher, que envolve a demarcação do corpo do sexo feminino como menos valioso e violável, é possível perceber que a dualidade sobre a qual somos obrigadas a caminhar desde que nascemos permite com que a gente seja qualquer coisa, menos um ser humano. De santa a puta, de vaca a cachorra, de nobre mãe a vadia degenerada, de musa a bruxa, estamos sempre nos equilibrando sobre a ponta de uma faca que, em algum momento, fura a nossa carne por conta do peso insuportável da pressão. Ou então somos punidas, de alguma maneira, por não cumprir os papeis de gênero pré-determinados. E é necessário muito pouco para ser considerada uma rebelde: ás vezes é só dizer não (aliás, vale muito a pena ler o texto “O não também nos pertence”, escrito por Thaís Campolina).

O pai de Louise disse, em uma matéria, que a jovem era muito estudiosa e não era de baladas. Infelizmente, ao contrário do que muitas pessoas pensam, não existem premissas reais que protejam a mulher de um feminicídio, ainda que ela tente ser um exemplo, uma “moça direita” ou qualquer coisa do tipo. Nascer mulher no mundo atual é um risco por si só, afinal, os homens crescem nos objetificando e achando que podem fazer o que quiser. Eles crescem pensando em carros, status, conquistas profissionais e mulheres (percebam que estamos sempre em um balaio de “coisas”), como se ter tudo o que desejassem fosse um direito garantido a todo ser do sexo masculino que ~performa~ a masculinidade.

Os caras precisam aprender a lidar com frustrações e a culpar os inimigos corretos (tem muito frustrado por questões materiais que desconta em mulher, por exemplo, quando a falta de sucesso dele é causada por um sistema desigual que visa manter o status quo – e as mulheres estão muito longe do topo desse sistema, mesmo as privilegiadas). E precisam também tirar essa visão bélica de cima dos relacionamentos, tratando tudo como uma guerra que tem que ser vencida a qualquer custo. Estar com alguém (seja em um casamento ou em uma ficada de uma noite) é uma construção em conjunto que, em um determinado momento, pode parar de dar certo.

E tem mais: quando termos como friendzone (pra quem não sabe o que é, aqui tem uma explicação com uma visão feminista) são utilizados até mesmo por homens adultos, que já estão bem longe do período da adolescência, é que é possível perceber a naturalização da mulher como objeto sexual. Oras, quem essas “vadias” acham que são para achar que merecem atenção e respeito só por serem legais e inteligentes, não é mesmo? Pra muito cara, amizade com mulher “de graça” não existe. E vários idealizam o ~pegar mulher~ desse modo descartável que a sociedade machista prega como se isso fosse um troféu, mas é uma babaquice sem tamanho, pô. Qual o sentido em perder seu tempo com pessoas que você despreza e sequer considera dignas de respeito? Isso, pra mim, é um claro sinal de ódio por si mesmo que, em algum momento, vai acabar respingando em quem está ao redor e é “inferior” (as mulheres também odeiam a si mesmas, mas isso se manifesta mais contra elas do que contra os outros – até nisso a gente sai “perdendo”).

Rejeição dói, eu sei. Quem nunca tomou um pé na bunda traumatizante que atire a primeira pedra. Mas existem bilhões de pessoas no mundo (e, com a internet, ficou ainda mais fácil acessá-las). Existem mil atividades que podem ser feitas para esfriar a cabeça. Eu entendo, teoricamente, o que move um feminicídio, o sentimento de posse e controle, mas não consigo entender, na prática. Quanto mais penso no assunto, mais meu cérebro trava. Quer dizer, um cara escolhe carregar o peso de ter tirado uma vida pelo simples fato de não saber lidar com um término? Isso é muito surreal, bobo, infantiloide, cruel e inconsequente. Não tem nada mais patético do que a necessidade de lavar a “honra” masculina, porque não lava coisa nenhuma. Só suja mais e contribui com a manutenção de um ciclo de terror e ódio.

niuma

#niunamenos – Maitena

E, como muitas feministas alertam faz tempo: comportamentos abusivos precisam parar de ser romantizados. Não é fofo um cara que dá uma crise de ciúme e puxa a mulher pelo braço pra fora de uma festa, que vigia as redes sociais da namorada, que faz chantagem emocional e tenta diminuir a autoestima de uma mina para mantê-la fragilizada e perto dele. É essa linha de pensamento que contribui com a evolução de um soco para uma facada. A ideia de amor é vendida como essa intensidade que abarca “tapas e beijos”, mas a realidade mostra que a marca dos tapas é muito mais permanente do que o alívio dos beijos. Se tem violência, não tem amor. Não existe “crime passional”, e sim feminicídio. A Lei do Feminicídio, inclusive, completou um ano recentemente e se mostra realmente muito necessária. Para entender mais e o porquê, clique aqui.

Temos que lembrar que a realidade macro é composta também a partir da catalogação de vários acontecimentos dos micro universos se repetindo e se cruzando constantemente. Tipo assim, não é uma piadinha sobre estupro que vai causar diretamente a morte de uma mulher, entende? Mas essa piada faz parte de um cenário em que a violência masculina é tida como normal, a mulher é vista como inferior, roupa curta e bebedeira são usadas como justificativas para assédio sexual, maridos se acham donos das esposas, pessoas do sexo feminino são assassinadas principalmente por homens do próprio convívio, funcionárias são contratadas pela aparência para cargos que precisam apenas de competência, agressores são acobertados, vítimas são expostas, delegacias não sabem lidar com crimes contra as mulheres (mesmo as especializadas), e assim vai. Essa lista, infelizmente, poderia ser imensa, praticamente infinita.

E o que quero dizer com tudo isso é que uma pequena coisa esbarra em outra pequena coisa e, juntas, elas se tornam uma coisa média, que se aglutina com outra e, de repente, temos uma coisa bem grande acabando com a vida de alguém. Não existem acontecimentos isolados, tudo tem uma consequência. Portanto, precisamos desmantelar desde a base uma cultura que é conivente que o estupro e a violência contra a mulher, entre outros absurdos (como racismo, homofobia e afins). Nesse quadrinho maravilhoso da Lovelove6, que desenha a Garota Siririca, é possível refletir sobre essas questões.

O Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê) da UnB contribui com a reflexão sobre a violência contra a mulher e a banalização disso em ambientes que deveriam abrigar e acolher todos os tipos de pessoas, mas acabam sendo excludentes por conta de negligência com as especificidades de cada grupo  (texto na íntegra aqui):

Nos últimos anos, a UnB vem se tornando um espaço cada vez mais marcado por casos de violência contra minorias. Tivemos o caso da “lésbica nojenta” espancada no estacionamento. Tivemos ameaça de bomba porque “na UnB só tem puta e viado”. Tivemos pichação misógina, LGBTfóbica e racista nas paredes de centro acadêmico. Tivemos trote sexista que fez calouras lamberem linguiça com leite condensado. Temos trote homofóbico que berra nos corredores do Minhocão que todo arquiteto é bicha e homem mesmo é engenheiro civil (essa escutei ontem, às 13h30, no ICC norte). Sempre – é bom ressaltar, sempre – tivemos os recorrentes casos de estupro nos matagais no caminho para a L2. Aliás, estupro em festa de CA também não é nenhuma novidade, e nunca vi a polícia dar andamento aos casos denunciados pelas vítimas. Uma vez, a administração superior (a.k.a. Ouvidoria) me informou que no caso de uma denúncia de estupro em festa feita fora da universidade não havia nada para a administração superior fazer, ainda que a festa tenha sido organizada por estudantes, divulgada por estudantes, realizada por estudantes e com o objetivo de “integrá-los”. A violência de gênero sempre esteve presente entre nós. Agora, temos um feminicídio dentro das dependências da universidade. Qual é a resposta institucional que a universidade vai tomar?

E mais: qual a resposta que nós, enquanto sociedade, daremos para essas violências? Eu quero um mundo onde as mulheres possam dizer não sem que isso vire uma sentença de morte – e que “ser mulher” não seja considerado algo pejorativo, engraçado e inferior. Por que é tão difícil assim?

karina

Imagem da artista Karina Buhr. Arte inspirada nesta notícia: http://goo.gl/4B7xns

 

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Estupro é invenção de maluca

Claro que não, né?

Mas é o que muita gente acha.

Uma amiga postou um texto no Facebook sobre consentimento (que era uma transcrição desse vídeo aqui). E desabafou sobre a vontade de enviá-lo para “uma longa lista de machos estupradores” que ela conhece. Um rapaz – que até então era nosso amigo, mas deletou a gente, rs – não se solidarizou com o fato de ela saber de tantos casos. Nem buscou entender melhor a questão ou debater de forma adulta. Muito pelo contrário. Ele chegou cheio de ironia questionando se existiam tantos estupradores assim, porque ele não conhecia. Deixou no ar que a minha amiga estava mentindo, exagerando. Mulher. E feminista. Só pode ser uma louca exagerada, não é mesmo?

Ela falou que ele provavelmente não sabia de nada ou não sabe de muitos casos porque nenhuma mulher iria contar pra alguém que já chega duvidando assim. Eu pensei o mesmo, me meti na conversa e especulei uma vista grossa da parte dele. Porque vista grossa é o que todo mundo acaba fazendo, na maioria das vezes. Até mesmo feministas fazem, gente. Homens, então, nem se fala.

Vejam bem, não estou dizendo que a minha amiga é inquestionável, ou eu ou qualquer outra pessoa. Mas esse é um comportamento comum de muitos homens. Eles automaticamente invalidam o que uma mulher diz, de forma arrogante, ~gaslaiteadora~  e infantilizada. “Será?”, “isso aconteceu mesmo?”, “você tem certeza?”, “você não está exagerando?”, “você não está confundindo as coisas?”, “você não entendeu errado?”, “não sei do que você está falando” ou “tá bravinha?” são coisas comuns ditas às mulheres, com o intuito de impedir que elas perturbem, com verdades dolorosas, a ordem estabelecida. Porque é muito mais fácil calar a mulher do que ter que cortar laços com amigos da balada ou acreditar que um determinado cara super profissional no que faz seja um agressor, por exemplo. Mulher sempre foi abusada mesmo… O que é só mais um sexozinho? E qual o problema da falta de consentimento uma vezinha só? Ou duas?

E assim tudo continua como está…

Olha, vou contar uma coisa pra vocês, que era pra ser óbvia, mas não parece ser: ninguém sai gritando por aí algo tipo “olá, que lindo dia, estuprei alguém hoje!”. Como eu já disse uma vez, nesse texto aqui, tem homem que sequer sabe que NÃO EXISTE DIFERENÇA entre sexo sem consentimento e estupro.

*facepalm*

Então aqui vai outra informação óbvia: um cara que tenta ou consegue fazer sexo com uma pessoa sem o consentimento dela, bem… Está tentando estuprar ou está efetivamente estuprando essa pessoa. No texto que acabei de indicar no parágrafo anterior, falo sobre isso. Que consentimento envolve uma pessoa ADULTA, ACORDADA, SEM ESTAR BEBAÇA, DROGADA, SOB EFEITO DE REMÉDIOS, HESITANTE OU DIZENDO NÃO. É bem simples. E, infelizmente, estupro é algo bem democrático: homens de todas as cores, tamanhos ou condições financeiras cometem esse crime, de várias maneiras. Existem caras que se sentem sem poder e se afirmam por meio da violação do corpo alheio. Existem caras que se sentem poderosos demais e acham que podem fazer o que querem por aí. Etc. Poderíamos passar o dia teorizando sobre poder & estupro, coisas extremamente conectadas.

Um outro ponto também, que é importante: o homem acaba se beneficiando do regime machista em que vivemos, que automaticamente coloca tudo que uma mulher diz em dúvida. Se alguém fala algo sobre ele, basta falar que a mina é vadia, que ela se insinuou, foi atrás, provocou, que ela deu em cima, mandou mensagem, que ela é maluca, barraqueira. Sei lá. Qualquer coisa assim. E a vida continua. Ele pode ter o desconforto de ter que lidar com alguns olhares tortos por aí, mas nada demais. Ninguém nem vai se preocupar em confirmar se ele fez algo de errado ou não. Mesmo se for confirmado, não faz diferença. Quem nunca teve que lidar com um agressor no círculo social que atire a primeira pedra. Já a garota ás vezes é extremamente exposta, julgada, isolada socialmente e, como consequência disso tudo, fica traumatizada e se sentindo culpada.

Aliás, hoje em dia eu duvido muito do caráter de caras que precisam ficar xingando mulheres que já estiveram com eles (ou qualquer mulher, na real), seja em namoro, sexo casual, tanto faz. Uma coisa é falar de forma objetiva que uma pessoa fez algo que você não gostou e te chateou, tipo, sei lá, roubou um gibi seu ou nunca mais atendeu suas ligações. Outra coisa é ficar xingando de “vadia”, “piranha” ou justificando (sem ninguém perguntar, muitas vezes) que a garota que ficou atrás ou é do tipo que “pega” todo mundo. Esses comentários sempre me parecem coisa de quem já está preparando terreno para se safar de alguma acusação mais séria, bem naquela lógica do “mas ela estava de vestido curto, mereceu!”.

Eu conheço, inclusive, diversos caras que agem de forma totalmente inaceitável. Que perseguem mulheres, inventam mentiras, adjetivam garotas de forma machista, são homofóbicos, violentos, forçam a barra pra ficar com alguém, levam a falta de comprometimento com parceiras como modus operandi, entre outras coisas. No entanto, eles são tratados como “irreverentes”, “doidinhos”, “excêntricos”. É muito difícil mesmo combater o que se chama de “cultura do estupro”, porque ela não é relacionada apenas ao estupro em si, mas a todos os comportamentos que citei nesse texto que colocam o homem em vantagem e a mulher em desvantagem e, consequentemente, colaboram com esse cenário em que a falta de respeito em relação ao corpo & subjetivo da mulher se torna um tabu, um elefante no meio da sala.

O que as pessoas querem é uma vítima perfeita. Uma que seja virgem, nunca tenha tirado foto pelada, beijado na boca, bebido, mandado mensagem ou falado palavrão. Que não seja lésbica ou nunca tenha viajado. Que não cante, dance em festas ou estude, que nunca tenha trocado de namorado. O que as pessoas querem é uma mulher que não existe, porque as que existem sempre vão dar algum motivo pra merecer algo de ruim – mesmo que o crime delas tenha sido apenas existir perto de um homem.

Tem outra coisa que eu quero contar, mas essa não é tão óbvia. Quando uma mulher é abertamente feminista ou envolvida em grupos e movimentos sociais, ela tem cada vez mais acesso à relatos de violência. Não só por conta de leitura de textos ou relatórios ou pesquisas. Mas porque as mulheres ao redor começam a se sentir confortáveis, percebem que pode rolar mais empatia e um entendimento mais profundo da questão. É um novo mundo que se abre, de compartilhamento de ideias e informações que muitos de vocês, que são homens, nunca vão entender. Mas independente disso, é real. E dói. Porque os números deixam de ser números e viram rostos de pessoas ao seu redor que você nunca imaginaria que tinham sofrido alguma violência.

E um monte de cara legal deixa de ser legal.

E dá raiva. Dá raiva do grupinho de amigos que faz merda com uma mina pra rir dela depois – male bonding por meio da violência, nenhuma novidade. Dá raiva dos urubus de porta de escola que ficam caçando novinhas, dá raiva do fótografo de mulher pelada que só quer tirar uma casquinha (aliás, a cada pedido que leio por aí de ~modelos pra fotos belas artísticas nu feminino~ meus olhos rolam tão fundo que quase afundam). Dá raiva das passadas de mão, dos beijos à força, do cara que trancou a mulher no quarto, que abriu a calça da menina dormindo, que forçou sexo sem camisinha e tirou onda, do stalker se fazendo de coitado apaixonado, dá raiva, dá raiva, dá raiva… Dá raiva e as linhas borram tanto que eu nem sei mais distinguir quem é quem. A conivência também é parte da violência.

E tem outra questão. Sendo o estupro também uma pauta política do feminismo, é preciso discutir estratégias, leis, comportamentos e tudo mais. Porém, o assunto é bem espinhoso, complicado e passa por questões muito subjetivas e por questões de vivência que, ás vezes, teorias e dados não alcançam.

E ainda existe o mito de que estuprador é somente aquele cara que sai do mato com uma faca. Ou é um homem com algum distúrbio psicológico. Essas ideias blindam o “homem comum” de culpa e transformam o estupro em um acontecimento excepcional, sendo que ele é comum e acontece dentro de famílias, entre “amigos” e assim vai. Isso emperra ainda mais a discussão e, ao mesmo tempo, naturaliza a violência que a mulher sofre por parte de conhecidos.

E enquanto debatemos se as mulheres estão mentindo ou não, muita gente corre impune por aí.

E as intolerantes são as que não querem mais ser estupradas e não os estupradores.

Mundo estranho esse.

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