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Escrevendo sobre escrever

Este é um texto sobre escrever. E sobre mim. O que consequentemente acaba sendo um texto sobre eu escrevendo também. Talvez seja um pouco mais pessoal do que de costume e, por isso, essas primeiras linhas estejam tão cheias de enrolação. Estou ganhando tempo. Nunca é fácil falar sobre si mesma de forma objetiva, direta.

Aprendi a ler aos cinco anos. Na sala de aula, eu era deliberadamente excluída das atividades pela própria professora, porque já sabia ler. Estranho, né? A primeira palavra que li na vida, aliás, foi ca-ma, desse jeito assim, separadinho. Lembro exatamente do momento. Fiquei muito orgulhosa e feliz. Sempre gostei muito de livros e acho que é muito positivo rodear crianças com eles, sem ficar forçando a barra para que elas leiam x ou y. Antes de sequer ter completado a maioridade, eu já tinha lido livros maravilhosos para crianças e adolescentes de autores como Lygia Bojunga, Maria José Dupré, Pedro Bloch, Pedro Bandeira, Suzana Dias-Beck, entre outros, bem como várias revistas MAD, Chiclete com Banana e Bundas, biografias do Van Gogh e Chico Buarque e as clássicas revistinhas da Turma da Mônica, Disney, Luluzinha, etc. Não posso dizer se o contato indiscriminado com materiais “apropriados” e “inapropriados” foi positivo, porque é relativo. No entanto, afirmo que, no fim das contas, me tornei, no mínimo, uma pessoa muito sagaz e com um ótimo senso de humor.

Além de ler, sempre gostei de criar, escrever, desenhar. Fiz de tudo na infância: textos, ~programas de televisão~ e histórias em quadrinhos. Fui crescendo e começando a me achar menos capaz, mas ainda assim continuei colocando a criatividade em prática de diversas maneiras. Dizia sempre que seria jornalista (“igual minha mãe”) e, apesar de ter passado um tempo estudando moda, logo percebi a cilada em que havia me metido e acabei me formando em jornalismo mesmo – que, de certa forma, é uma cilada também. Ah, o sistema…

Atualmente, atuo como assessora de comunicação. E escrevo coisas pra mim, pra projetos independentes de amigos, pra blogs e, claro, aqui na Vulva. Gosto também de grupos online de discussão, embora esteja menos ativa nos últimos tempos. E continuo lendo bastante. Ainda assim, sempre tive dificuldade em verbalizar que quero ser uma… escritora. Me parecia algo pretensioso para se almejar. Nunca me senti culta o suficiente, boa o suficiente, produtiva o suficiente, interessante o suficiente. E olha que sempre fui elogiada pelas pessoas ao meu redor e não tenho nenhuma grande história de falta de apoio ou represália familiar. Imagina quem tem?

omundodejulhelena

Quadrinho de “O mundo de Julhelena”

Mais do que isso. Tenho também o privilégio de ter sido ~bem alfabetizada~, logo, o meu texto não me causa embaraço por conta de erros e as pessoas não julgam minha inteligência baseadas apenas em minha gramática. A sociedade acaba tratando como inferior quem não teve acesso à educação formal, ainda que existam mil maneiras de uma pessoa ser inteligente – e que seguir regrinhas não signifique necessariamente ser inteligente (caso contrário, não existiria tanta gente com doutorado falando besteira por aí).

Estou sempre escrevendo alguma coisa. Ainda que de forma espaçada ou, ás vezes, sem gostar tanto do resultado. Eu tinha um hábito terrível de jogar fora textos, desenhos e outras coisas feitas por mim, e isso acontecia por diversos motivos: medo de ter o meu ~interior~ exposto, caso alguém mexesse em minhas gavetas, medo de ter minha complexidade & subjetivo definidos por um conjunto de palavras péssimas ou rabiscos horríveis, etc. Já cheguei a pensar coisas absurdas tipo “imagina se eu morro e alguém acha essas coisas”.

Este blog é a primeira coisa que eu faço que tanta gente lê. Só consegui porque comecei a divulgá-lo por um perfil de Facebook que não era o meu pessoal, era um fake também chamado Vulva Revolução — minha persona online feminista, de certa forma. Todos os blogs anteriores foram apagados e/ou mostrados pra um número restrito de pessoas. Sempre me senti muito insegura.

E escrever nesses tempos de internet é algo muito confuso. Sou bastante lida e debatida. Pra um blog independente que é tocado nas minhas horas vagas e que não tem dinheiro, anúncio ou compromisso com periodicidade, só posso comemorar o meu alcance e os textos que se tornaram virais e até hoje me trazem milhares e milhares de visitantes. Além disso, tive e terei textos de outros tipos publicados em outros projetos — tanto online quanto “físicos”. Só que nunca publiquei um livro, por exemplo. Nem escrevi com frequência em um jornal ou portal de forma não necessariamente jornalística.

Daí fica a dúvida: sou ou não sou uma escritora? Qual o limite que separa o ser do não ser?

Tem um pessoal da fotografia que reclama que hoje em dia todo mundo pode ser fotógrafo. Uma galera de várias outras profissões faz reclamações parecidas. As facilidades tecnológicas somadas ao alcance que a internet permite que as coisas tenham coloca qualquer pessoa mais próxima de ser uma FAZEDORA e não mais uma mera consumidora de produtos culturais alheios. Todo mundo pode fazer tudo (teoricamente, pois tecnologia e educação não são coisas democratizadas ainda), inclusive escrever. O tanto de blog, site e textão-no-face por aí nos mostra isso. Eu acho ótimo.

Ainda assim, não consigo responder a minha própria pergunta.

Só sei que é preciso fazer. Botar a cara no sol, mona, e mostrar o que está sendo feito. Demorei algum tempo pra me enxergar como capaz de produzir material interessante e/ou relevante (pelo menos dentro dos meus próprios conceitos), como FAZEDORA. Mesmo ciente das minhas capacidades (e todas as pessoas são capazes, realmente acredito nisso), uma voz interna constantemente me falava “você não vai conseguir”, “você é ridícula”. Isso é paralisante e domar essa voz é um sacrifício. Nós, mulheres, somos ensinadas a ficar caladas, quietas, inclusive no que diz respeito à produzir artística ou intelectualmente (muitas mulheres sequer possuem tempo para se desenvolverem nesses aspectos, já que, além da autoestima machucada, precisam trabalhar, cozinhar, cuidar de casa, filhos, maridos, irmãos, etc). Somos ensinadas a ser modestas quando obtemos sucesso com algo, a menosprezar nossos feitos. “Ah, faço umas coisas aí”, “escrevi um lance, mas nem ficou tão bom”, “tô tentando desenhar”, “acho que quero tirar umas fotos” e frases do tipo são comuns. A gente ás vezes nem deixa a outra pessoa interpretar o que a gente faz direito e já vai falando mal do nosso trabalho, numa humildade subserviente que só contribui para nos manter em um papel secundário dentro da sociedade. Usamos palavras que causam a impressão de descrença, incerteza e dúvida. Mas não é nossa culpa. Uma mulher que se comporte da mesma forma confiante que um homem logo é chamada de metida, escrota, prepotente e assim vai. E nem todas possuem paciência ou estutura emocional pra lidar com essas pedradas que muito cara que sempre teve espaço pra fazer merda e experimentar com muito mais tranquilidade categoriza como “frescura”.

Acredito que quem tem privilégio e poder quer se manter assim, logo, existe uma força que busca manter pessoas oprimidas em seu ~devido lugar~. Por isso muitas mulheres, pessoas negras em geral e outros grupos minoritários precisam provar milhões de vezes a mais que são bons em algo para conseguir algum espacinho — isso quando conseguem! Quantos rapazinhos branquinhos de classe média que fazem um trabalho mais ou menos e se consideram grandes artistas vocês já não viram por aí? Vamo combinar: vários, vários e vários. E eles nascem com tanta certeza de que foram feitos pra brilhar, que acabam convencendo muita gente, mesmo que só façam merda. Porque é cultural, eles já são a “cara” da arte, da cultura “superior” (bleeeeergh) e do sucesso.

Muitos homens tentam me “aconselhar” sobre como eles acham que eu devo tocar os meus projetos ou escrever no meu blog. A Grimes já falou sobre como muitos caras se ofereciam pra produzir os trabalhos dela, como se ela precisasse deles:

“Estou cansada de homens que não são profissionais ou nem mesmo músicos de sucesso continuamente me oferecendo ajuda (sem eu pedir), como se eu tivesse feito tudo que fiz por acidente e fosse cair sem eles, ou como se o fato de eu ser mulher me tornasse incapaz de usar tecnologia. Eu nunca vi esse tipo de coisa acontecer com meus colegas do sexo masculino” — tradução livre de um trecho desse texto que ela postou no Tumblr, em 2013.

     “He was just another man trying to teach me something”

Não vou dizer que não tenho conselheiros, porque eu tenho sim uma rede muito legal de homens e mulheres que me apoia, critica, opina e ajuda MUITO em várias coisas. Mas daí existe uma diferença enorme entre eu contar com minha rede de contatos e querer ajuda de qualquer homem que apareça pela minha frente com alguma dica furada que nunca funcionou sequer pra ele só porque ele quer se aproximar, elogiar, fazer parte mas é orgulhoso demais pra se “rebaixar” e assumir. Afinal, posso ser inteligente, mas ainda sou uma mulher, né?

E isso é um outro “problema” pra muita gente que me acompanha. “Ah, legal, milhares de acessos… Mas pena que a maioria é de mulher”. Já ouvi diferentes versões dessa frase várias vezes, vinda de homens e de mulheres também, infelizmente. Parece que existe um mito vigente de que mulher não tem discernimento, então a validação dela não importa. O que eu fizer só vai ser considerado bom de verdade quando rolar uma maioria de homens apoiando. Porém, a Vulva Revolução já diz no nome a que veio, não é mesmo? E é estranho como assunto de homens é universal, mas assunto de mulheres é “mimimi-coisa-de-mulher”. As vivências específicas de corpos do sexo feminino são negligenciadas, um reflexo da forma com que esses corpos são vistos: inferiores.

E tem aquelas pessoas chatas, que acham que você precisa ter lido x, y ou z (geralmente x, y ou z são todos machos brancos que vem sendo endeusados há anos, décadas, séculos) para ~ser alguém na noite~. Claro que muitas obras tidas como ~cânones~ possuem muito valor e são realmente incríveis, inteligentes, atemporais, surpreendentes (embora existam também as que são datadas, inúteis e cheias de preconceito, mas não se pode nem criticar porque, ohhh, é um clássico). No entanto, acredito que essa mania de endeusamento que a nossa sociedade tem contribui pra um cenário em que as pessoas ficam o tempo todo falando das mesmas coisas e marginalizando outras que podem ser sim muito interessantes. Tem discussão que me parece mais uma masturbação coletiva do que uma troca real de ideias.

O que quero com esse texto é incentivar outras mulheres a abandonarem a auto sabotagem. Não tô dizendo pra gente virar um bando de cuzona prepotente que nem milhares de caras por aí. Mas pra gente aprender a aceitar elogios, a destacar nossas qualidades, a estudar e se aprimorar mais e mais, cientes de que somos capazes e a lidar com os nossos defeitos e com a imperfeição de tudo que iremos produzir — nada é perfeito! Gostaria que a “cultura da inimiga” acabasse, e a gente começasse a se articular mais e mais com nossas colegas (eu tenho feito muito isso, é maravilhoso), porque produções coletivas ajudam muito no campo da visibilidade, motivação, força e qualidade. Divergências acontecem, mas isso nem sempre precisa ser um impeditivo para a união entre pessoas que querem fazer coisas parecidas.

E aproveitando o momento presente, me despeço.

Escrevendo bem e sem modéstia.

Faça o mesmo você também!

—–

Dica:

Recomendo a leitura do texto “A insustentável existência do outro”, que fala sobre mulheres escrevendo, especificamente em um ambiente literário. É muito interessante:

Pergunto então à Regina Dalcastagnè se houve alguma recepção negativa às conclusões de sua pesquisa sobre os “territórios contestados” da literatura brasileira contemporânea. Ela responde com outra questão: “De um modo geral ela foi recebida com muito interesse. Houve algumas leituras equivocadas, como se eu estivesse defendendo uma espécie de patrulha literária ou propondo um manual do romance politicamente correto. Então, alguns escritores e críticos reagiram, brandindo o valor ‘universal’ da literatura. Eu questiono essa ideia de valor universal, a ideia de que uma obra literária é algo fora do tempo e do espaço. Mas mesmo que aceitemos isso, fica a pergunta: por que esse ‘universal’ só é atingido em narrativas sobre intelectuais de classe média? Por que as mulheres pobres, negras, da periferia estão ausentes do ‘universal’?”

Em tempos de identidades manipuladas a favor de neoapartheids e do medo do outro, questionar o que é “universal” e a quem ele serve pode ser o começo de tudo. O elefante começa a se mover na sala de cristal, onde o senhor “universal” repousa inabalado. E para efeito da criação, é sempre bom escutar o barulho das coisas se quebrando.

Leia completo aqui.

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Você está pronta para o verão?

Ah, o verão… Estação do ano que é sinônimo de férias ou recesso para algumas pessoas. Cerca de três meses de calor e sol queimando a pele. Água, praia, banho de mangueira, passeios ao ar livre. Sorvete, picolé, chapéu, boné. Roupas leves e chinelo no pé. No entanto, basta o tempo começar a esquentar para que a encheção de saco comece a aumentar. No lugar de dicas de roupas frescas, receitas gostosas pra trocar, lugares legais pra ir ou gente maneira pra paquerar, a pauta geral passa a ser ~se cuidar~ ou ~se preparar~ para o verão.

E o foco do que é chamado de ~se cuidar~ ou ~se preparar~ geralmente consiste mais em perder peso do que beber bastante água, por exemplo. A mídia e a sociedade como um todo pressionam os indivíduos com o intuito de fazê-los acreditar que só podem aparecer em público de roupa de banho se estiverem magros e sarados. Essa pressão é principalmente direcionada às mulheres, mas nem os homens andam escapando. Dentro de uma lógica capitalista, tudo o que puder ser explorado para ser revertido em controle e consumo será aproveitado. Por isso, o chamado “mito da beleza” anda abrangendo cada vez mais grupos de pessoas. Tanto que existe SPA para crianças, adolescentes são induzidas a passarem por cirurgias estéticas cada vez mais cedo e é celebrado o fato de tratamentos estéticos para homens estarem em crescente ascensão – sendo que o ideal era que essas porcarias parassem de ser empurradas para pessoas de qualquer sexo.

De qualquer maneira, no final das contas são as mulheres as maiores prejudicadas pelos padrões, claro. O cabelo tem que ser sempre impecável. Se você for ficar uma semana na praia, é preciso de um monte de produtos para passar na cabeça antes e depois de entrar no mar. Não pode ter celulite, estria ou qualquer outra coisa completamente normal em um corpo do sexo feminino. Barriga, então? É quase um crime. Pelos são considerados sujos. Mas as bolinhas vermelhas ocasionadas pela depilação e contato com areia também não agradam. As unhas precisam estar feitas. O biquíni precisa estar de acordo com o tipo de corpo: se o peito é pequeno, use um sutiã com bojo, se o quadril é largo, vista algo que disfarce. Esse suposto equilíbrio é uma farsa que tem o intuito de nos enlouquecer.

  “I am not as pretty as those girls in magazines”

Somos induzidas a acreditar que o nosso valor vem principalmente da aceitação da nossa aparência, dos elogios que nos qualificam como belas. Porém, os padrões são inalcançáveis justamente para ficarmos nessa corrida eterna, feito as armadilhas com cenouras e coelhos correndo atrás delas que vemos em desenhos animados. Quase nunca alcançaremos as cenouras, porque os padrões vigentes são excludentes, gordofóbicos, racistas, elitistas, etc. A maior parte das mulheres vai ficar de fora por algum motivo – ou por vários: é gorda, o cabelo é crespo, a bunda tem celulite, o dente é amarelo, as roupas não são de marca, as unhas são roídas, o nariz é grande, o peito tem estria, os dedos dos pés são peludos, os cílios são claros, os olhos são pequenos. Nossas características são categorizadas como defeitos. E uma onda geral de baixa autoestima, competição e rivalidade feminina é disseminada, impedindo que as mulheres fiquem em paz com elas mesmas e com as outras. Sem contar a naturalização de transtornos alimentares em prol do “corpo perfeito”. Não pulem refeições, por favor. Comida é amor.

"Como ter um corpo de praia:  1 - Tenha um corpo  2 - Vá à praia"

“Como ter um corpo de praia:
1 – Tenha um corpo
2 – Vá à praia”

Eu queria dizer uma coisa. Você existe para você mesma e não para agradar o olhar de quem está ao redor. Sei que é óbvio, mas é preciso que a gente leia e releia isso várias vezes até assimilar. O seu corpo é muito mais do que um objeto de desejo: é o que te transporta pra lá e pra cá e te permite passar por essa nave louca chamada vida. Não é fácil se desprender da necessidade de aceitação pela aparência – até porque a não aceitação se mostra, muitas vezes, de forma hostil e violenta. Mas podemos tentar olhar para nós mesmas e para as outras com mais amor, celebrando a pluralidade e acabando com a ideia de que características são defeitos. Somos muitas e não existe a possibilidade de nos encaixarmos no mesmo molde. Nossas histórias e características são diversas. Estética não é sinônimo de saúde. E a saúde alheia não é da nossa conta. E já que toquei no assunto ali em cima, posto abaixo um trecho super inspirador do livro “O mito da beleza – Como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres”, da Naomi Wolf (livro completo aqui):

Como as mulheres poderiam agir para além dos limites do mito da beleza? Quem saberia dizer? Talvez nós deixássemos nossos corpos engordar e emagrecer, apreciando as variações sobre o tema, e evitaríamos a dor porque, quando alguma coisa dói, ela começa a nos parecer feia. Quem sabe não passemos a nos enfeitar com verdadeiro prazer, com a impressão de estarmos adornando o que já é lindo. Talvez, quanto menor for a dor a que submetamos o nosso corpo, tanto mais bonito ele nos pareça. Talvez esqueçamos de levar estranhos a nos admirarem, e descubramos que isso não nos faz nenhuma falta. Talvez aguardemos o envelhecimento do nosso rosto com expectativa positiva e nos tornemos incapazes de considerar o nosso corpo um monte de imperfeições, já que não há nada em nós que não nos seja precioso. Pode ser que não queiramos mais ser a mulher do “depois”.

Por onde começar? Vamos perder a vergonha. Ser vorazes. Procurar o prazer. Evitar a dor. Vestir, tocar, beber e comer o que tivermos vontade. Ser tolerantes com as escolhas das outras mulheres. Perseguir o sexo que quisermos e lutar ferozmente contra o que não quisermos. Escolher as nossas próprias causas. E, depois de superarmos e transformarmos as regras de tal forma que o nosso sentido da beleza não possa ser abalado, vamos cantar essa beleza, embelezá-la, exibi-la e nos deleitar com ela. Numa política sensual, ser mulher é bonito.

Uma definição da beleza que tenha amor pelas mulheres supera o desespero com a brincadeira, o narcisismo com o amor a si mesmo, o despedaçamento com a inteireza, a ausência com a presença, a inércia com a animação. Ela admite que as pessoas sejam radiantes: que essa luz seja emitida pelo rosto e pelo corpo, em vez de ser uma luz dirigida para o corpo, ocultando o eu. Essa luz é sexy, variada e surpreendente. Seremos capazes de vê-la em outras mulheres sem medo e afinal poderemos vê-la em nós mesmas.

Dica: O documentário a seguir, com 14 minutos, de duração, mostra brevemente como o monopólio de mídia – que precisa de retorno imediato – usa a idealização da mulher por meio de padrões de beleza e comportamento para gerar audiência e vender produtos. Grande parte das mulheres retratadas em revistas, jornais, programas de televisão, entre outros veículos, são loiras, altas, magras, heterossexuais e hipersexualizadas. O olhar masculino é o molde e a real diversidade que forma a população de mulheres brasileiras é apagada (vale notar, inclusive, que praticamente todas as entrevistadas que apontam essa falta de diversidade são brancas também, o que nos mostra que precisamos discutir sobre representatividade em todos os espaços, não apenas na mídia “tradicional”). Algumas saídas são apontadas, como um debate honesto em relação à democratização da mídia, que sempre é uma ação vista como “censura” e não como uma forma de tornar os produtos midiáticos um espelho que represente minimamente sua audiência.

Leia também: “O envelhecimento da mulher como um fato incomum”

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