1

Feminismo suave não liberta, mas gera lucro

Por que o feminismo existe? Puxo essa provocação com o intuito de iniciar uma reflexão ampla e não de buscar uma verdade absoluta. No meu caso, por exemplo, acredito que uma desigualdade histórica entre os sexos – e não necessariamente entre os gêneros apenas – levou (e leva) pessoas do sexo feminino a forçarem o próprio acesso a espaços de educação, poder, lazer e outros. Assim como desigualdades em outros aspectos da sociedade, como a exploração e a discriminação de pessoas negras, fizeram com que grupos que compartilhavam opressões semelhantes precisassem (e ainda precisem) se organizar para conquistar direitos. Aliás, grupos minoritários diversos possuem histórias de luta igualmente diversas para contar. E elas se entrecruzam: existem mulheres negras e lésbicas, por exemplo, o que as tornam possivelmente mais suscetíveis a violências e exclusões motivadas por preconceito.

Claro que estou resumindo bastante questões que são bem complexas e abrangentes, mas faço essa introdução para que a gente possa começar a se entender. O que quero dizer é que o corpo é um território de disputa ou, como diria a artista Barbara Kruger, um campo de batalha. Portanto, dentro de um esquema que envolve a necessidade de domínio de corpos para criação e manutenção de poder, nascem diferentes narrativas sobre grupos sociais específicos com o intuito de confiná-los em papeis previamente determinados. Desse modo, se garante uma engrenagem onde muitas pessoas possuem deveres e poucas possuem direitos – e menos ainda possuem privilégios.

Se formos pensar no feminismo, ele é um movimento social que tem o objetivo de gritar para o mundo que os estereótipos sobre as mulheres estão errados: elas não são fracas, burras, incapazes, fúteis, inferiores, loucas por homens ou nasceram para a maternidade. No entanto, precisamos sempre lembrar do caráter político do movimento. Para que nossa humanidade seja levada em conta, não basta que a gente se sinta humana, não ligue para o que os outros digam e simplesmente aceite continuar vivendo na precariedade. O que busca nos desumanizar são ações específicas e cotidianas e a construção da nossa humanidade parte da destruição dessas ações. Um sentimento por si só não constrói creches ou aprova leis a nosso favor.

No Brasil, por exemplo, enfrentamos problemas como mulheres sendo mortas por parceiros e outros homens próximos, como se fossem objetos descartáveis, apenas por não desejarem mais manter um relacionamento. Existe também um alto nível de violência física, psicológica e sexual contra pessoas do sexo feminino em geral. E desde cedo precisamos nos acostumar com assédio de estranhos nas ruas – o que vejo como uma forma de terrorismo contra nossa “invasão” ao espaço público, que é relativamente recente. No espaço virtual, somos as mais atacadas. O aborto ainda não é descriminalizado no país, embora a pesquisadora Débora Diniz tenha a esperança de ver essa conquista tomar forma por aqui um dia. Mulheres negras ganham menos do que todo mundo e possuem menos acesso ao mercado formal de trabalho – e são as que sempre estiveram aí, na labuta. Adolescentes engravidam de homens mais velhos, mas o senso comum trata a questão como mera “safadeza” da parte delas, e esquece a responsabilidade que adultos deveriam ter. Entre outras coisas.

Em 1999, a pesquisadora Karen Giffin escreveu, em um artigo chamado “Corpo e conhecimento na saúde sexual: uma visão sociológica”, que “agora colocada na agenda feminista como direito, a definição da saúde sexual não tem avançado além do abstrato (…)”. E aponta questões que precisam de atenção, como o “novo perigo da AIDS feminilizada, da prostituição infantil internacionalizada no turismo sexual, da violência sexual globalizada contra mulheres e crianças, etc”. Será que dezoito anos após a publicação do artigo, conseguimos dizer, sem buscar no Google, quais as respostas que temos para tais questões, ainda tão atuais e urgentes?

De cabeça, provavelmente não. Mas se utilizarmos o Google, poderemos perceber que, sim, existem debates, propostas e outros artigos. Mas a maior parte das discussões aprofundadas estão restritas a círculos específicos. Os direitos sexuais e reprodutivos da mulher – que envolvem direito ao próprio corpo e a própria sexualidade, expressa como e com quem quiser – ainda protagonizam ferrenha disputa. A constante reformulação do mito da mulher como máquina-de-fazer-bebês, a pouca atenção que se dá à saúde sexual da mulher lésbica ou a prostituição sendo tratada primordialmente pelo viés da “escolha” mostra que ainda temos muitas batalhas. E que precisamos tomar as rédeas do debate público ao invés de procurar meios de dissolver o feminismo para torná-lo palatável.

Ás vezes me pergunto se estamos cometendo erros estratégicos. Onde estamos falhando? Já é 2017 e ainda é difícil debater questões relacionadas a pornografia, estética, violência sexual ou prostituição sem cair dentro da mesma ladainha de sempre, de que “mulher faz o que quiser”. A mídia mainstream e os homens adoram essa frase, mas apenas quando mulheres-fazendo-o-que-querem significa “liberdade sexual” e nudez (de corpos brancos e magros). Muitas feministas de grande alcance, principalmente as do tipo que utilizam o movimento para impulsionar a própria imagem sem necessariamente possuir um comprometimento coletivo, acabam abraçando essa falácia para que não precisem lidar com temas que não são populares. É uncool falar de abuso sexual, apontar agressores, problematizar a indústria da beleza – uma das poucas a não entrar em crise no país – ou desestabilizar muito o status quo, por exemplo. Corre o risco de a coisa fica chata demais.

Aliás, percebo que é nessa junção de mídia e homens (ou instituições historicamente masculinas – ou seja: quase todas, risos) legitimando o feminismo “correto” que um feminismo lavado passa a existir. Um feminismo chique, com roupas de marca, caras, bocas, batom, orgasmos múltiplos e cantoras pop postando fotos do grupo de amigas loiras com legendas tipo “girl power” ao mesmo tempo em que diminuem denúncias de racismo de colegas de profissão negras. Um feminismo que gosta de afirmar que é feminino, que não é como aquelas despenteadas, peludas, histéricas, exageradas, odiadoras de homem – ew, imagina ser confundida com uma lésbica!  Um feminismo que separa mulheres entre boas e más, que menospreza a construção teórica elaborada por pessoas do sexo feminino, que descarta o valor do envelhecimento e da experiência e propaga um sem-fim de frases feitas sem saber o porquê. E não questiona, profundamente, salários, acordos e papeis sociais. Um feminismo que poupa os homens e aponta todos os dedos para as “manas”. E que se estabelece mais como uma tribo urbana do que como um movimento social de fato: legal mesmo é ser uma it girl feminista.

barbie-propaganda

barbie. se você pode sonhar, você pode ser — uau, agora vai, hein! // propaganda da mattel, de 2014.

Em “Backlash: o contra-ataque na guerra não declarada as mulheres”, de 1991, a escritora Susan Faludi mostra como mídia, políticos, líderes trabalhistas e outras figuras tentaram (e ainda tentam) promover a ideia de que a mulher já conquistou tudo, mas se tornou infeliz por culpa do feminismo – como se tripla jornada ou desilusões amorosas fossem consequências do movimento, por exemplo. No entanto, ela prova como, na época, vários direitos ainda não tinham sido conquistados, mesmo com uma suposta autonomia da mulher sendo celebrada. Quando ela fala sobre “a natureza do backlash de hoje”, referindo-se aquele período, parece que estamos lendo algo sobre o momento em que estamos agora:

A mulher reprimida do atual backlash distingue-se das suas predecessoras pois quer fazer parecer que escolhe a sua condição duas vezes – primeiro como mulher e segundo como feminista. A cultura vitoriana definia “feminilidade” como sendo aquilo que “uma verdadeira mulher” deseja; na estratégia de mercado da cultura contemporânea, também é o que uma mulher “liberada” almeja. Da mesma forma que Reagan assumiu ares populistas para vender um programa político que favorecia os ricos, os políticos, os meios de comunicação e a publicidade adotaram uma retórica feminista para passar adiante políticas que feriam a mulher, revendendo os mesmos velhos produtos de sempre ou escondiam opiniões antifeministas. Bush prometeu “maior poder” para as mulheres pobres – como substituto dos muitos programas de assistência social que ele estava cortando. Até a Playboy afirmou estar do lado do progresso feminino. “As mulheres avançaram tanto”, garantiu o porta-voz da revista à imprensa, “que já não é um estigma posar nua.” A cultura dos anos 80 suprimiu o discurso político das mulheres e depois redirecionou sua auto-expressão para os shopping centers. A consumidora passiva foi reeditada como sucedâneo feminista, exercendo o seu “direito” de comprar produtos, fazendo as suas próprias “escolhas” ao chegar no caixa. “Você pode ter tudo”, prometia um anúncio de cerveja a uma jovem em malha de ginástica – mas por “tudo”, a cervejaria queria dizer que o seu produto não dava a barriguinha de chope. Criticado por dirigir-se a jovens mulheres nos seus anúncios, um indignado vice-presidente da Philip Morris esbravejou que este tipo de censura é “sexualmente discriminatório” pois sugere que “mulheres adultas não têm capacidade para tomar as suas próprias decisões de fumar ou não”. A reivindicação feminista exortando que cada uma siga os próprios instintos tornou-se um apelo publicitário para se obedecer às solicitações do mercado – um apelo que enfraqueceu e aviltou a busca feminina de uma verdadeira autodeterminação. (…)

O atual contra-ataque aos direitos da mulher proporciona ainda outra tática inerente aos livros de estratégia dos antigos contra-ataques: a pose de uma sofisticada e irônica distância dos seus próprios fins destrutivos. A lista de emoções falsas do backlash –piedade pelas mulheres solteiras, preocupação com o esgotamento das que trabalham, envolvimento com os problemas da família –, a ofensiva atual acrescenta um escarnecedor cinismo em relação a quem ousa apontar mensagens discriminatórias ou antifemininas. (…) Ficar falando de injustiça sexual não só é feminino, mas não pega bem porque já não está com nada. A revolta das mulheres, assim, como qualquer outro tipo de revolta social, é alegremente descartada – e não por falta de conteúdo, mas simplesmente por falta de “classe”.

Já é bastante difícil desmascarar sentimentos antifeministas quando eles se vestem com roupas feministas. Mas é muito mais difícil enfrentar um inimigo que diz não se importar. O feminismo “cheira tanto a anos 70”, afirmam com tédio os papas da cultura popular. Agora somos “pós-feministas”, informam, não para dizer que a mulher chegou à igualdade de direitos e ultrapassou essa fase, mas para sugerir que eles mesmos se adiantaram tanto que já não pretendem nem mesmo importar-se com o assunto. É uma falta de compromisso que, no fim, pode representar o golpe mais devastador contra os direitos da mulher.

Logo, é importante pensarmos na raiz das coisas, para não ficarmos eternamente brincando de encenação política, feito hamsters na gaiola, enquanto permanecemos lucrativas. Claro que, dentro do capitalismo, que não irá sucumbir tão cedo, é importante que existam produtos de beleza também para peles escuras ou cabelos crespos ou roupas estilosas para pessoas gordas, e que propagandas sejam questionadas quando são preconceituosas, por exemplo. Não acho que esse tipo de coisa seja irrelevante. Aliás, não julgo ninguém, individualmente, por suas atitudes. Ainda vivemos em um mundo que valoriza muito a aparência, que conecta o “se sentir bem” com “se sentir bonita” e que, em certos momentos, sequer dá alguma chance de a mulher fingir que pode escolher. Existem empregos, por exemplo, que exigem salto e maquiagem, e pronto.

A caminhada ainda é longa, mas a nossa rede e a nossa força possuem potenciais enormes, que nos são mostrados diariamente: querendo ou não, estamos aqui, ainda que os nossos recursos sejam infinitamente menores que os dos detentores do poder. Existem conquistas para trabalhadoras domésticas, existem leis específicas para a violência contra a mulher, a  obstetrícia atual está em debate, entre várias outras coisas, mas claro que poderia ser muito melhor. É importante a gente continuar sempre a pensar na utopia, para que ela se concretize. Desejo que ruas iluminadas (segurança pública também é questão de gênero), para que mulheres igualmente brilhantes andem por elas, sejam uma realidade concreta e metafórica.

Por isso, precisamos entender que uma camiseta em uma loja de departamento com “feminista” escrito nela não significa muita coisa, principalmente se os funcionários continuam trabalhando muito e ganhando pouco, se artistas continuam tendo ilustrações roubadas para estampar produtos e se peças terceirizadas continuam sendo confeccionadas por meio de trabalho escravo. Relativizar depilação ou procedimentos de beleza ou minimizar os pontos negativos de cirurgias plásticas, como riscos ou o processo pós-operatório, também não são coisas que se enquadram exatamente em um viés feminista acolhedor e informativo, funciona mais como propaganda gratuita e marketing espontâneo e positivo para empresas mesmo.

Como analisou a teórica Nancy Fraser, no artigo “O feminismo, o capitalismo e a astúcia da história” (que chegou até mim por meio do coletivo Não Me Kahlo), houve uma fragmentação da crítica feminista que auxiliou na “incorporação seletiva” e “recuperação parcial” de algumas de suas tendências. Ou seja, de acordo com o interesse vigente, uma coisa ou outra é aleatoriamente pinçada sem levar em conta o seu contexto. E isso acaba auxiliando não na construção de uma nova realidade para mulheres, mas em uma nova forma de manter a organização social nos moldes hierárquicos de sempre. E mais:

É dito frequentemente que o sucesso relativo do movimento em transformar cultura permanece em nítido contraste com seu relativo fracasso para transformar instituições. Esta avaliação tem duplo sentido: por um lado, os ideais feministas de igualdade de gênero, tão controversos nas décadas anteriores, agora se acomodam diretamente no mainstream social; por outro lado, eles ainda têm que ser compreendidos na prática. Assim, as críticas feministas de, por exemplo, assédio sexual, tráfico sexual e desigualdade salarial, que pareciam revolucionárias não faz muito tempo, são princípios amplamente apoiados hoje; contudo esta mudança drástica de comportamento no nível das atitudes não tem de forma alguma eliminado essas práticas. E, assim, frequentemente se argumenta: a segunda onda do feminismo tem provocado uma notável revolução cultural, mas a vasta mudança nas mentalités (contudo) não tem se transformado em mudança estrutural institucional.

Acredito que mudar a pintura externa de uma casa não significa necessariamente reformar por dentro. Logo, não podemos nos deslumbrar com a festa feminista que tentam, literalmente, nos vender. Mulheres libertas não geram lucro, corpos autônomos são mais difíceis de controlar e pessoas conscientes da própria complexidade ameaçam a narrativa de papeis unidimensionais. Minha vontade é muito ambiciosa: não quero que as mulheres se sintam lindas e sim que se sintam – e sejam, de fato – livres. Vamos juntas?

0

15 trabalhos de lésbicas maravilhosas – #visibilidadelesbica

Vocês sabiam que 29 de agosto é o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica? Pois é. A data nasceu e 1996, durante o primeiro Seminário Nacional de Lésbicas e Mulheres Bissexuais (Senale), no Rio de Janeiro (RJ). Desde então, foram realizados oito encontros nacionais em diversas cidades do Brasil. O último foi em 2014, em Porto Alegre (RS). No entanto, ainda é longa a caminhada para que mulheres lésbicas consigam direitos, respeito e atenção – e para que a vivência, cultura e identidade delas seja levada a sério! A lesbiandade não é um fetiche sexual, não é uma vergonha, não é “fase” e muito menos “falta de rola”, como muita gente grosseira, imbecil e limitada insiste em dizer.

Com o intuito de celebrar este dia e cumprir a função primordial da data – visibilidade – vou postar aqui 15 trabalhos de lésbicas maravilhosas, para que vocês possam apreciar textos, desenhos, músicas e outras produções de um monte de mulher talentosa. Além disso, quero disseminar o pensamento e a perspectiva de mulheres lésbicas diversas, para auxiliar na reflexão coletiva de questões relacionadas à elas, e também estimular a pesquisa por produção de mulheres lésbicas. Que a partir daqui, muitas pessoas possam buscar outras e outras e outras mulheres. Não é uma lista hierárquica ou definitiva, apenas uma compilação de materiais interessantes que colhi por aí e de trabalhos que já costumo acompanhar faz tempo. Quem tiver dicas interessantes, posta nos comentários, por favor!

1 – “Todas fomos obrigadas a abrir mão das nossas plenas potências de seres humanos porque os homens tornaram secreto nosso discernimento desde a mais tenra infância. Tornaram secretos os símbolos da sexualidade das mulheres e tornaram secretos suas violências sádicas e fetichistas sobre nossos corpos infantis. Os homens violaram muitos dos nossos corpos quando ainda éramos muito, muito pequenas. Talvez sexualmente. Talvez usando a ‘educação corretiva’ como um meio de entendermos que não tínhamos o direito de sermos tão humanas quanto eles porque éramos crianças e, mais precisamente, meninas, aquelas que deveriam aprender a feminilidade. Os homens impuseram sobre as mulheres a cultura do segredo” —– trecho de Uma provocação às lésbicas brasileiras do século XXI”. Clique aqui para ler na íntegra. A autora desse blog (M.I.L.F. WTF?) está lançado um livro independente, o “Língua Inquieta – da heterossexualidade compulsória ao orgulho sapatão”. Para saber mais sobre e encomendar o seu, clique aqui. 

2 – “Assim, ao invés de se preocupar com mulheres lésbicas que seguem enxergando a heterossexualidade como única saída, que estão presas ao regime compulsório no qual foram criadas, o movimento feminista se deixa cooptar e passa a gritar por uma liberdade sexual que de livre não tem nada, num discurso raso que não abrange nem um décimo do que é a vivência lésbica e a importância em negar nossos corpos ao acesso masculino. O feminismo precisa ser lesbocentrado porque a revolução será lesbocentrada ou não será. Isso não quer dizer que toda mulher é ou será lésbica ou que as pautas de mulheres heterossexuais e bissexuais não devem ser atendidas, mas sim que devemos nos reavaliar, colocar nossa sexualidade em questionamento, e tentar ao máximo nos livrar da ideia de que é absurdo ou anormal viver sem homens – porque só entendendo nossos corpos enquanto autônomos poderemos estender esse raciocínio para nossa existência e por consequência nossas atividades, nossa força de trabalho, nossa inteligência e capacidade”  —– trecho de “Lesbofobia e resistência”. Clique aqui para ler o texto completo.

3 – “Queridas pretas lésbicas, por onde vocês andam? Parece que desde que assumi minha identidade preta&lésbica, vocês sumiram. Eu não entendi isso… Me assumo, reivindico e vocês desaparecem? Como assim? Me sinto abandonada. Sem acalento, sem afago. Porque isso agora? Por onde vocês andam, pretas? Não as vejo nas ruas, nas lojas, nos cinemas… Muito menos nas escolas, nas universidades, nas empresas de comunicação social. Não… Acho que já teve uma vez  que as vi… Foi de uma forma muito ruim, zombeteira com a gente. Era retratado um estereótipo bem pesado, sabe? Carregado de duplos sentidos misóginos e racistas, lesbofóbico por regra… Eu não aguentei nos ver diante daquela telinha. Do mais, pra falar a verdade, não lembro se cheguei a vê-las em algum filme na tela grande. Não…. Pode ser que eu lembre e faça um update neste post, mas por enquanto não lembro”—– trecho do texto Onde estão as preta e sapatão?”. Clique aqui para ler na íntegra.

4 – “Closer”, música das irmãs gêmeas (ambas lésbicas) canadenses Tegan & Sara. A faixa esta no Heartthrob, sétimo álbum delas – o último lançado até hoje – e que é o que menos gosto, na real. No entanto, nem sei qual dos outros indicar para quem está iniciando, de tanto amor que sinto por elas – curto desde adolescente. Aliás, porque elas nunca tocaram no Brasil?

5 – Ilustração de Maria Freitas. Veja mais desenhos dela na página “O Mago Rosa”, no Facebook.

mariafreitasilustra

6 – “Eu concordei em participar numa conferência do Instituto de Humanidades da Universidade de New York há um ano, por ter entendido que eu comentaria trabalhos que abordassem o papel da diferença nas vidas das mulheres americanas: diferenças de raça, sexualidade, classe e idade. A ausência dessas considerações enfraquece qualquer discussão feminista sobre o pessoal e o político. É uma arrogância da academia, em particular, assumir qualquer discussão sobre teoria feminista sem examinar nossas várias diferenças, e sem uma perspectiva significativa das mulheres pobres, Negras e Terceiro-Mundistas, e Lésbicas. Ainda assim, coloco-me aqui como uma Negra Lésbica Feminista que foi convidada, nessa conferência, a falar no único painel em que a perspectiva das Negras Feministas e Lésbicas está representada. O que isso diz sobre a visão dessa conferência é triste, num país onde racismo, sexismo e homofobia são inseparáveis. Ler a programação é assumir que mulheres Lésbicas e Negras não têm nada a dizer sobre existencialismo, o erótico, a cultura e silêncio das mulheres, desenvolvimento de teoria feminista, ou heterossexualidade e poder” —– trecho do textoAs Ferramentas do Mestre Nunca Vão Desmantelar a Casa-Grande – Audre Lorde”. Clique aqui para ler na íntegra.

7 – “Visibilidade é termos espaço para falarmos de nós mesmas, de nossas vivências lésbicas, é podermos falar de prevenções sexuais para lésbicas, é conseguirmos que nos vejam como lésbicas e nos respeitem, e que não nos tratem como indecisas, modinha, desviantes que precisam ser ‘corrigidas’. Que tenhamos visibilidade na sociedade, ou seja, que sejamos reconhecidas enquanto lésbicas, e isso implicaria em não termos mais que ter medo de levarmos nossa namorada/companheira conosco a lugares, pois não correríamos mais o risco de sermos rechaçadas e agredidas, em não termos mais que justificar para pessoas heterossexuais o motivo de já termos nos relacionado com homens, e que isso não fizesse com que essas pessoas achassem que têm o direito de nos desrespeitar e de forçar-nos a conhecer homens, visto que, para essas pessoas, só estamos passando por uma fase ‘indecisa’.  É termos nossas relações respeitadas, é termos nossas relações vistas como relações, e não como ‘apenas duas amigas’, ‘colegas’, é termos uma representatividade real, e não essas migalhas estereotipadas que a mídia nos dá como forma de calar a nossa boca” —– trecho do texto “Visibilidade lésbica? Ou invisibilidade?”. Clique aqui e leia completo.

8 – “Dykes to watch out for” é uma série de tirinhas da quadrinista norte-americana Alison Bechdel, autora de livros como “Fun Home” e “ Você é minha mãe?”. Infelizmente, a série nunca foi traduzida para o português (alô, editoras!), mas é ótima e narra diversas histórias interessantes sobre mulheres lésbicas bem diferentes umas das outras. Achei muito legal, porque as personagens são bem multidimensionais – como o ser humano como um todo é, mas ás vezes esquecem isso quando grupos minoritários são o assunto. Mais sobre a série aqui (em inglês).

out100_2012_AlisonBechdel

9 – A australiana Courtney Barnett acabou de lançar o álbum “Sometimes I sit and think and sometimes I just sit”, e pra quem curte a vibe 90s + um mix de barulho & doçura, recomendo ir fundo. Ela é foda demais. Em “Dead fox”, Courtney começa falando sobre como Jen – de sobrenome Cloher, sua namorada desde 2011 – sempre diz pra elas comprarem vegetais orgânicos e logo começa todo um questionamento tretoso & sagaz sobre agrotóxicos, animais e afins.  “Numbers” foi escrita pelas duas e fala sobre a relação delas. Aqui tem um vídeo onde cantam a música juntas.

10 – Sempre amei esse cover de “Romeo and Juliet” que as Indigo Girls – as norte-americanas Amy Ray e Emily Saliers – fazem da música de Mark Knopfler, é muito melhor do que a original. E sempre pensei na interpretação delas como um romance lésbico, mesmo antes de saber que a dupla era lésbica. Nessa entrevista aqui (em inglês), Amy fala sobre como associar ativismo e música.

11 –  “Audre Lorde foi uma escritora americana de descendência caribenha, feminista lésbica e ativista na luta pelos direitos humanos. Escreveu romances que abordam temáticas como feminismo e opressão, além de direitos humanos. Sua obra poética foi publicada a partir da década de 60. Os temas mais abordados em sua obra são amor, traição, nascimento, classe social, idade, raça, sexualidade, gênero e saúde, haja vista que veio a falecer devido a um câncer de mama. Sua poesia é um espaço também em que ela se afirma como lésbica e feminista negra. Lorde desafiou feministas brancas, questionando seu ponto de vista sobre questões raciais, e se tornou uma voz lésbica negra isolada dentro do movimento feminista, apontando as opressões a que as mulheres brancas submetiam as mulheres negras” —– fonte: Blogueiras Negras. 

NEW SMYRNA BEACH, FL - 1983: Caribbean-American writer, poet and activist Audre Lorde lectures students at the Atlantic Center for the Arts in New Smyrna Beach, Florida. Lorde was a Master Artist in Residence at the Central Florida arts center in 1983. (Photo by Robert Alexander/Archive Photos/Getty Images)

“Mulheres são poderosas e perigosas”

12 – “E foi assim que eu te encontrei. Bonita, peituda, cheirosa, pedante, teimosa. Fazendo fita. De vez em quando você vem, chegando, bulindo, aplaudindo, somando e assumindo. Pintando a sete”, canta Mart’nália em “Tava por aí”. A artista é uma das poucas que me lembro que é famosa no mainstream brasileiro e diz com todas as letras que é lésbica. Nessa entrevista aqui, ela fala, de forma bem-humorada, que o pai dela, Martinho da Vila, tem as mulheres dele (lembram da música? “Já tive mulheres, de todas as cores…” ) e ela as dela.

13 – A cantora Cássia Eller também teve essa coragem de assumir sua lesbiandade para o Brasil inteiro. Leia aqui entrevista deste ano de Maria Eugênia Martins, que foi companheira de Cássia, falando sobre maternidade, Chicão e relação com a cantora. Lembro que estudei com uma sobrinha de Cássia, durante o período escolar, e vivíamos fazendo perguntas sobre a cantora. A menina disse uma vez, no almoço, que ela comia cebola e falava “comi cebola, pra namorar”. Nunca esqueci. Adoro saber as bobeiras alheias!

14 – “Primeiro, é importante lembrar que, alheias aos discursos pós-identitários da contemporaneidade, as violências racista, lesbofóbica, classista se dão em planos discursivos e materiais cotidianamente perceptíveis, e se baseiam em distinções nítidas de ‘nós’ e ‘os outros’ hierarquizantes, às quais o sistema de racialização e generação de corpos tem sido um dos maiores investidores. Cheryl Clarke se refere explicitamente a essa violência e a essa disputa ‘nós’ e ‘os outros’ no poema We are everywhere (2006), traduzido como Nós estamos em toda parte. Aqui, o referencial ‘nós’ vai ser aquelas desde longe constituídas como um ‘outro’ praticamente inadmissível: lésbicas negras visíveis, e autoenunciadas. Outro ponto importante a se lembrar é que Clarke não aceita racializações simplistas de nós negras versus eles brancos. Ela mesma é uma crítica ácida do trabalho de algumas feministas negras, sempre uma questionadora da sororidade compulsória entre mulheres, e uma justa e enfática elogiadora de obras e escritoras que revolucionam dicotomias sexuais, raciais, de gênero, de classe, e disposta a rever críticas anteriores” —– trecho do artigo “Sinais de luta, sinais de triunfo: traduzindo a poesia negra lésbica de Cheryl Clarke”, de Denise Botelho e Tatiana Nascimento dos Santos. Leia aqui. Sou stalker (modo de dizer, gente!) da Tatiana desde adolescente: já li textos que ela escreveu para para zines, blogs e até mesmo trechos da tese de doutorado dela. O que/como ela escreve me impacta e ensina bastante.

15 – “Sim, sou tríbade, sáfica, lésbia, lesbiana, entendida, invertida, transviada, sapatão, sapa, sapata, francha, bolacha, fanchona, paraíba masculina, mulher-macho, gay, sim senhor, machuda, macha, “dyke”, como dizem as americanas, ou como as mexicanas, tortillera, do tupinambá çacoãimbeguira, do latim virago e, brasileiramente falando, roçadeira, saboeira, moquetona, madrinha, pacona, do aló, do babado ou, se preferirem algo mais erudito, ginófila, andrógina, homófila, fricatrix e homossexual. Podem me chamar de tudo isso, eu não me importo. Se me chamam de lésbica ou safista, sinto orgulho e me envaideço: a origem dos termos é nobre. Safo, a grega, foi a maior poeta lírica da Antigüidade, cultuada por Platão e Ovídio e sucesso no Mediterrâneo cinco séculos antes de Cristo. Por acaso, fazia sexo com mulheres, vivia na ilha de Lesbos e, para tocar sua lira e manter as unhas curtas, inventou a palheta, a mesma que roqueiros usam para fazer gemer suas guitarras. Bons dedos e boa lábia. Por que me ofender se me chamam lésbica?” —– trecho de “Ninguém vai me ofender”, texto de Vange Leonel. Leia completo aqui. Autora de livros como “Lésbicas”, “Girls – Garotas iradas” e “Balada para as meninas perdidas”, a cantora e escritora morreu em julho de 2014, em decorrência de um câncer no ovário.