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TODA MULHER É LOUCA

Certos homens agridem as namoradas na maior cara de pau, e falam da amiga louca. Disseminam preconceitos estéticos e raciais, disfarçando tudo isso de “gosto pessoal”, e falam da professora louca. Saem com qualquer uma que conhecem em qualquer lugar, e falam da colega de trabalho louca. Enchem a cara e agem feito uns idiotas, e falam da esposa louca. Praticam sexo não consentido com mulheres desacordadas ou vulneráveis –  vulgo estupro, sabe? – e falam da irmã louca. Não desfazem laços com caras que já fizeram o mesmo (e os legitimam socialmente), e só julgam a cunhada louca. Desumanizam as garotas com quem saem, separando-as entre as que merecem respeito e as que não merecem, e falam da mãe louca.  Arrumam briga e promovem atos violentos por motivos banais e fúteis, mas louca é aquela tia distante, que vez ou outra vem visitar. Chegam a machucar e até a matar mulheres e também outros homens, simplesmente porque não sabem lidar com diferenças e frustração, mas o foco da conversa? É a ex-namorada louca, claro. Abandonam a família, e apontam o dedo para a cantora louca. Incentivam a rivalidade feminina, fazem comparações entre mulheres e chamam de louca aquela garçonete que trabalha o dia inteiro no restaurante da esquina. Não lavam uma louça, e reclamam da diarista que aparece toda segunda-feira, que é louca. Apesar de adultos, namoram meninas adolescentes e facilmente manipuláveis – e diz para elas tomarem cuidado com as colegas de classe, que são loucas. Fingem que são bonzinhos e abusam de crianças, e falam da ativista louca. Se fazem de pobres coitados, frágeis, abandonados e doentes, mas a prima é que é louca. Exploram funcionários e chamam isso de trabalho, e falam da avó louca. Assediam mulheres em shoppings, hospitais e igrejas, e riem da moradora de rua louca. Dirigem rápido, achando que a vida é um filme de ação, e conversam sobre a vizinha louca. Fazem sexo que nem uma britadeira descontrolada, achando que os ensinamentos da pornografia são válidos, e falam da dentista louca. Aprisionam mulheres em relacionamentos “livres”, e falam da dona de casa louca. São incapazes de demonstrar afeto sem ironia ou constrangimento… E falam que todas, todas, todas, todas, todas as mulheres ao redor, por algum motivo, são loucas.

Desconfiem de adjetivações genéricas, reducionistas, preconceituosas e sem fatos ou análises embasadas como foco. E, não esqueçam: a louca que hoje você ajuda a isolar por acreditar que isso te dará algum tipo de proteção pode ser você amanhã. Mulheres são historicamente taxadas de loucas como forma de controle e dominação. Toda mulher que coloca o privilégio de um homem em risco ou quer romper com as sufocantes regras sociais impostas ao sexo feminino é vista como errada ou perigosa.

Na maioria das vezes, não basta apenas olhar para onde os dedos apontam. É preciso observar também de quem é a mão.

katrene

pintura de kat renee // katrenee.com
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A piada de Alexandre Frota é ele mesmo

Vamos relembrar uma história?

No começo deste ano, Alexandre Frota se meteu em uma “polêmica” por conta de uma entrevista concedida para algum programa ruim de televisão que estava sendo comandado por Rafinha Bastos (aliás, o programa era tããão assistido que uma entrevista de 2014 só foi repercutir em 2015). Na ocasião, ele narrou um estupro violento e deixou muita gente atônita. Aqui é possível assistir o programa na íntegra (a história do estupro começa aos 26 minutos). Porém, cuidado para o seu cérebro não derreter! É quase uma hora de machos sem inteligência alguma discutindo o nada, e eles ainda plagiam de forma totalmente sem graça o duelo de dança do filme “American Pie 3“. O retrato da televisão aberta: vazio e sem criatividade. Depois não diga que não avisei…

Muitas notícias dizem que Alexandre Frota narrou um “suposto estupro” na televisão. No entanto, embora eu entenda que jornalisticamente se deve usar “suposto” quando as pessoas não foram condenadas e não existem provas, até mesmo para se precaver judicialmente, o que Frota narrou foi um estupro. Ele é que é um “suposto estuprador”, pois não existem provas do crime e agora ele diz que tudo aquilo foi piada. Mas o que foi narrado É a descrição de um estupro.

Essa matéria aqui é uma das que mostram a comoção que foi gerada nas redes sociais na época  (mãe, tô no print!).

bastos

Bastos me respondendo no Twitter o clássico foi ~só uma piada~

O contexto da treta

Ano passado, Frota estava em cartaz com um “espetáculo” (se é que podemos chamar assim) no formato stand up chamado “Qual é o negócio?”. De acordo com diversos sites de agenda cultural e venda de ingressos, “é um espetáculo de humor, um ‘stand-up da vida real’, com histórias reais, onde Alexandre Frota, ator, apresentador, diretor de TV, e artista multimídia, conta com muito humor histórias incríveis de bastidores da TV, do teatro e de sua vida polêmica” (alguns exemplos aqui, aqui e aqui).

Vou explicar algo que pode ser muito básico e óbvio pra muita gente, mas que nem todo mundo sabe, principalmente quem não está envolvido com comunicação, cultura e/ou empreendedorismo: quando um espetáculo é lançado, são disparados releases pela própria assessoria de imprensa do evento, com informações gerais. Muitos sites, revistas e jornais acabam usando trechos desses releases, ou eles na íntegra mesmo. Se não usam, ainda assim, coletam informações com a própria assessoria ou produção do evento. LOGO, essas informações são do próprio evento, ok?

E se o stand up “Qual é o negócio?” foi amplamente veiculado como composto por histórias reais, como que Frota se defende dizendo que o estupro que ele narrou é “apenas uma piada” para divulgação do stand up dele? Não faz sentido.

Inclusive, durante a entrevista no programa de Bastos, Frota diz que não sabe fazer stand up (concordo) e que o espetáculo dele é de humor, autoral e B-I-O-G-R-Á-F-I-C-O. Ele afirma que são várias histórias que ACONTECERAM NA VIDA DELE e, para exemplificar, começa a contar quando “comeu” uma mãe-de-santo. Aí que começa toda a “polêmica”. Segundo a história que ele conta, enquanto ele e a mãe-de-santo interagiam, ele ficava pensando se ela era interessante ou não, se “dava jogo” ou não. Ele decidiu que ia “com-ê-la” sem sequer ter rolado um clima, só olhou pro “bundão” dela e pensou: “vou pegar”. Ainda segundo a história, ele diz pra ela que não acredita “nessas paradas” (nos lances religiosos e tal), mas que queria dar uns “pegas” nela. Daí ela fica sem falar nada (consentimento, cadê?) e ele simplesmente vira ela, coloca de quatro, agarra pela nuca e começa a “sapecar”. Frota disse que fez tanta pressão na nuca dela que ela… Dormiu! E então ele e Rafinha Bastos morrem de rir do fato de a mulher ter sido “apagada”.

Frota encerra essa ~piada engraçadíssima~ contando que foi embora e deixou a mulher lá, apagada. É deprimente. E, além disso, esses dois idiotas ridicularizam a mulher o tempo inteiro por ser uma mãe-de-santo, com vários comentários jocosos & preconceituosos envolvendo “macumba”, farofa, essas coisas.

"O negócio é comer cu e buceta, cu e buceta... À força!"

“O negócio é comer cu e buceta, cu e buceta… À força!”

Essa “polêmica” toda (coloco sempre entre aspas porque acho ridículo que muita gente trate esse assunto como mais uma excentricidade de Alexandre Frota e não como algo muito sério) mostra a necessidade de se discutir urgentemente – e de forma cada vez mais ampla – o que é consentimento. Estamos em 2015, e ainda temos que explicar que transar com alguém à força e DESACORDAR ESSA PESSOA é estupro, gente. É revoltante demais. Muitas mulheres ficam paralisadas em situações de violência, outras tentam se defender e, mesmo assim, não conseguem escapar. Se as pessoas não conseguem ver nessa história que uma mulher, que estava interessada em usar apenas seus conhecimentos e crenças para auxiliar alguém, foi violentamente estuprada e desrespeitada, eu realmente não sei qual é a concepção de estupro para esta sociedade então. Se ele precisou segurar a nuca da mulher tão forte a ponto de ela desmaiar, isso já é um dos grandes indícios da falta de consentimento, por exemplo.

E a tentativa de Frota de subestimar a inteligência de quem o critica chega a dar dó, se não fosse algo trágico. Já assisti muitos stand ups e me interesso muito por roteiro em geral. Para Alexandre Frota e Rafinha Bastos, aquele ~causo~ mal contado pode ser considerado um sketch humorístico, mesmo?

Não que eu não duvide que eles realmente achem que aquilo é humor, infelizmente. Muitos humoristas brasileiros disfarçam a própria incapacidade de construir uma narrativa interessante com piadas para crianças da quinta série, tipo “ai, sua mãe é tão gorda que comeu a própria cabeça e explodiu hua hua hua hua”. Mas, ainda assim, aquilo não é um sketch. É claramente Alexandre Frota contando uma história pessoal em um programa de entrevista, como costumam ser programas de entrevista. E ELE MESMO DIZ QUE O STAND UP DELE É BIOGRÁFICO, CARAMBA!

Juntando as peças

Ainda que o relato fosse ~só uma piada~, o que não acredito (pode ser uma história contada com alterações, omissões & ênfases, mas a essência parece real), ser ~só uma piada~ não torna as coisas isentas de discussão, oras. É rindo que vários preconceitos e violências são mantidos. E, pra ser sincera, não consegui identificar onde está a comédia da história até hoje. Tipo, piadas costumam ter algum ponto de surpresa, de virada de história, sei lá. Aquilo ali é só um cara se vangloriando por ter dominado uma mulher. Pior ainda, uma mãe-de-santo, oh!

Mas não acaba aí. Em 2004, Frota foi acusado de estupro por uma prostituta. Ela alega que foi ameaçada e teve que fazer sexo sem preservativo com ele. O caso não foi pra frente, o que não me surpreende. Nem toda prostituta pode se expor, e o caso estava ganhando notoriedade midiática. E nossa sociedade não se importa nem um pouco com violências cometidas contra prostitutas, infelizmente.

Aqui, aqui, aqui e aqui é possível ler sobre o assunto.

E mais. Nessa entrevista aqui, Rita Cadillac conta que, quando foi contracenar com Frota em um filme pornográfico, precisou colocar uma cláusula especial no contrato, porque ele tinha fama de bater nas atrizes. E após o filme, ele fez comentários pejorativos sobre a idade dela. Nada de novo sob o sol:

iG: O Alexandre Frota, que fez um dos filmes com você, disse há pouco tempo no programa do Danilo Gentili que contracenar com você foi “o maior erro” porque “parecia que estava transando com minha avó”. O que você achou disso?
Rita Cadillac: Eu gosto da pessoa Alexandre Frota, não do personagem Alexandre Frota. Não sei por que ele esta falando isso: eu ganhei bem e ele também. Como a fama dele era péssima, eu mandei colocar no meu contrato que, se ele encostasse a mão em mim para me bater, eu ia embora na hora.

iG: E por que isso?
Rita Cadillac: A fama dele na época é que ele batia, entendeu? Eu tinha medo que ele não me respeitasse e acabasse comigo.

Caso você esteja se perguntando o porquê de não vermos notícias sobre violências em sets de filmes pornográficos, vale relembrar: se a sociedade não liga para prostitutas, vai ligar para mulheres que estão fazendo filme pornô? E críticas à esse meio são comumente vistas como “moralismo”, mesmo que estejam geralmente problematizando a violência sofrida por  mulheres. Tanto que já vi muita gente perguntando “ah, cadê essa mãe-de-santo então?”, bem como muita gente deve estar se perguntando agora onde estão as atrizes que apanharam dele ou a prostituta que ele ~supostamente~ coagiu. Não é simples assim colocar a cara à tapa, principalmente se você é uma mulher marginalizada pela sua profissão, religião, cor, condição social, etc. E muitas mulheres que conseguem criar coragem para denunciar abusos são chamadas de aproveitadoras, oportunistas e/ou mentirosas, que é o que Frota está fazendo agora com…

Frota x feministas

…Sâmia Bonfim, uma militante feminista que foi pega para ser bode-expiatório (porque, convenhamos, ela não é a única que acha que ele é um estuprador) e está sendo processada por ele. Ela fez um evento no Facebook reunindo pessoas que ficaram indignadas com a declaração dada por Frota e, em abril, ele tentou intimidá-la por mensagens, como pode ser visto aqui nesse link. Em julho, ela revelou que está sendo processada, por ele, por calúnia e difamação. Estranho, não? Pois, relembrando, ele mesmo disse várias vezes que as histórias do stand up dele são baseadas em fatos reais. Leia aqui  e aqui a história completa do processo.

Em muitos casos de violência contra a mulher, os caras já eram notoriamente misóginos, violentos e abusivos. Eles costumam mostrar, pela forma que agem e falam, o desprezo que possuem por mulheres. Tanto que, até hoje, Frota sequer conseguiu ver o absurdo de sua declaração e nunca articulou uma resposta decente ao debate que foi gerado, a partir de sua declaração, sobre estupro, consentimento, preconceito religioso e possivelmente racial (visto que muitas pessoas praticantes do Candomblé são negras), entre outras questões. Ele só bate nas mesmas teclas: piada, piada, piada, piada. Então ele pode falar o que quiser, mas as mulheres não podem dizer  o que pensam?

Agora, além de continuar recebendo migalhas de atenção midiática por conta do processo que está movendo e mantendo o nobre status de subcelebridade decadente, Frota resolveu transformar a questão em um embate contra as malvadas feministas. Fácil, né? Mulheres já são loucas e exageradas, segundo o imaginário popular. Feministas, então, pior ainda. Então claro que todas essas mulheres que alegam coisas contra ele (e muitas outras que devem existir mas nunca vieram à tona) são apenas umas “loucas”… O que são os relatos de várias mulheres contra a palavra de um homem, não é mesmo? E o comportamento dele mostra como ele ama mulher (só que nunca).

Ser misógino não é ser autêntico, ao contrário do que ele pensa. Até porque a misoginia é epidêmica e praticada de forma generalizada.

A piada de Frota só pode ser ele mesmo.

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Clique aqui para participar de campanha de apoio à Sâmia Bonfim.

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Leia também: “Estupro é invenção de maluca”

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Estupro é invenção de maluca

Claro que não, né?

Mas é o que muita gente acha.

Uma amiga postou um texto no Facebook sobre consentimento (que era uma transcrição desse vídeo aqui). E desabafou sobre a vontade de enviá-lo para “uma longa lista de machos estupradores” que ela conhece. Um rapaz – que até então era nosso amigo, mas deletou a gente, rs – não se solidarizou com o fato de ela saber de tantos casos. Nem buscou entender melhor a questão ou debater de forma adulta. Muito pelo contrário. Ele chegou cheio de ironia questionando se existiam tantos estupradores assim, porque ele não conhecia. Deixou no ar que a minha amiga estava mentindo, exagerando. Mulher. E feminista. Só pode ser uma louca exagerada, não é mesmo?

Ela falou que ele provavelmente não sabia de nada ou não sabe de muitos casos porque nenhuma mulher iria contar pra alguém que já chega duvidando assim. Eu pensei o mesmo, me meti na conversa e especulei uma vista grossa da parte dele. Porque vista grossa é o que todo mundo acaba fazendo, na maioria das vezes. Até mesmo feministas fazem, gente. Homens, então, nem se fala.

Vejam bem, não estou dizendo que a minha amiga é inquestionável, ou eu ou qualquer outra pessoa. Mas esse é um comportamento comum de muitos homens. Eles automaticamente invalidam o que uma mulher diz, de forma arrogante, ~gaslaiteadora~  e infantilizada. “Será?”, “isso aconteceu mesmo?”, “você tem certeza?”, “você não está exagerando?”, “você não está confundindo as coisas?”, “você não entendeu errado?”, “não sei do que você está falando” ou “tá bravinha?” são coisas comuns ditas às mulheres, com o intuito de impedir que elas perturbem, com verdades dolorosas, a ordem estabelecida. Porque é muito mais fácil calar a mulher do que ter que cortar laços com amigos da balada ou acreditar que um determinado cara super profissional no que faz seja um agressor, por exemplo. Mulher sempre foi abusada mesmo… O que é só mais um sexozinho? E qual o problema da falta de consentimento uma vezinha só? Ou duas?

E assim tudo continua como está…

Olha, vou contar uma coisa pra vocês, que era pra ser óbvia, mas não parece ser: ninguém sai gritando por aí algo tipo “olá, que lindo dia, estuprei alguém hoje!”. Como eu já disse uma vez, nesse texto aqui, tem homem que sequer sabe que NÃO EXISTE DIFERENÇA entre sexo sem consentimento e estupro.

*facepalm*

Então aqui vai outra informação óbvia: um cara que tenta ou consegue fazer sexo com uma pessoa sem o consentimento dela, bem… Está tentando estuprar ou está efetivamente estuprando essa pessoa. No texto que acabei de indicar no parágrafo anterior, falo sobre isso. Que consentimento envolve uma pessoa ADULTA, ACORDADA, SEM ESTAR BEBAÇA, DROGADA, SOB EFEITO DE REMÉDIOS, HESITANTE OU DIZENDO NÃO. É bem simples. E, infelizmente, estupro é algo bem democrático: homens de todas as cores, tamanhos ou condições financeiras cometem esse crime, de várias maneiras. Existem caras que se sentem sem poder e se afirmam por meio da violação do corpo alheio. Existem caras que se sentem poderosos demais e acham que podem fazer o que querem por aí. Etc. Poderíamos passar o dia teorizando sobre poder & estupro, coisas extremamente conectadas.

Um outro ponto também, que é importante: o homem acaba se beneficiando do regime machista em que vivemos, que automaticamente coloca tudo que uma mulher diz em dúvida. Se alguém fala algo sobre ele, basta falar que a mina é vadia, que ela se insinuou, foi atrás, provocou, que ela deu em cima, mandou mensagem, que ela é maluca, barraqueira. Sei lá. Qualquer coisa assim. E a vida continua. Ele pode ter o desconforto de ter que lidar com alguns olhares tortos por aí, mas nada demais. Ninguém nem vai se preocupar em confirmar se ele fez algo de errado ou não. Mesmo se for confirmado, não faz diferença. Quem nunca teve que lidar com um agressor no círculo social que atire a primeira pedra. Já a garota ás vezes é extremamente exposta, julgada, isolada socialmente e, como consequência disso tudo, fica traumatizada e se sentindo culpada.

Aliás, hoje em dia eu duvido muito do caráter de caras que precisam ficar xingando mulheres que já estiveram com eles (ou qualquer mulher, na real), seja em namoro, sexo casual, tanto faz. Uma coisa é falar de forma objetiva que uma pessoa fez algo que você não gostou e te chateou, tipo, sei lá, roubou um gibi seu ou nunca mais atendeu suas ligações. Outra coisa é ficar xingando de “vadia”, “piranha” ou justificando (sem ninguém perguntar, muitas vezes) que a garota que ficou atrás ou é do tipo que “pega” todo mundo. Esses comentários sempre me parecem coisa de quem já está preparando terreno para se safar de alguma acusação mais séria, bem naquela lógica do “mas ela estava de vestido curto, mereceu!”.

Eu conheço, inclusive, diversos caras que agem de forma totalmente inaceitável. Que perseguem mulheres, inventam mentiras, adjetivam garotas de forma machista, são homofóbicos, violentos, forçam a barra pra ficar com alguém, levam a falta de comprometimento com parceiras como modus operandi, entre outras coisas. No entanto, eles são tratados como “irreverentes”, “doidinhos”, “excêntricos”. É muito difícil mesmo combater o que se chama de “cultura do estupro”, porque ela não é relacionada apenas ao estupro em si, mas a todos os comportamentos que citei nesse texto que colocam o homem em vantagem e a mulher em desvantagem e, consequentemente, colaboram com esse cenário em que a falta de respeito em relação ao corpo & subjetivo da mulher se torna um tabu, um elefante no meio da sala.

O que as pessoas querem é uma vítima perfeita. Uma que seja virgem, nunca tenha tirado foto pelada, beijado na boca, bebido, mandado mensagem ou falado palavrão. Que não seja lésbica ou nunca tenha viajado. Que não cante, dance em festas ou estude, que nunca tenha trocado de namorado. O que as pessoas querem é uma mulher que não existe, porque as que existem sempre vão dar algum motivo pra merecer algo de ruim – mesmo que o crime delas tenha sido apenas existir perto de um homem.

Tem outra coisa que eu quero contar, mas essa não é tão óbvia. Quando uma mulher é abertamente feminista ou envolvida em grupos e movimentos sociais, ela tem cada vez mais acesso à relatos de violência. Não só por conta de leitura de textos ou relatórios ou pesquisas. Mas porque as mulheres ao redor começam a se sentir confortáveis, percebem que pode rolar mais empatia e um entendimento mais profundo da questão. É um novo mundo que se abre, de compartilhamento de ideias e informações que muitos de vocês, que são homens, nunca vão entender. Mas independente disso, é real. E dói. Porque os números deixam de ser números e viram rostos de pessoas ao seu redor que você nunca imaginaria que tinham sofrido alguma violência.

E um monte de cara legal deixa de ser legal.

E dá raiva. Dá raiva do grupinho de amigos que faz merda com uma mina pra rir dela depois – male bonding por meio da violência, nenhuma novidade. Dá raiva dos urubus de porta de escola que ficam caçando novinhas, dá raiva do fótografo de mulher pelada que só quer tirar uma casquinha (aliás, a cada pedido que leio por aí de ~modelos pra fotos belas artísticas nu feminino~ meus olhos rolam tão fundo que quase afundam). Dá raiva das passadas de mão, dos beijos à força, do cara que trancou a mulher no quarto, que abriu a calça da menina dormindo, que forçou sexo sem camisinha e tirou onda, do stalker se fazendo de coitado apaixonado, dá raiva, dá raiva, dá raiva… Dá raiva e as linhas borram tanto que eu nem sei mais distinguir quem é quem. A conivência também é parte da violência.

E tem outra questão. Sendo o estupro também uma pauta política do feminismo, é preciso discutir estratégias, leis, comportamentos e tudo mais. Porém, o assunto é bem espinhoso, complicado e passa por questões muito subjetivas e por questões de vivência que, ás vezes, teorias e dados não alcançam.

E ainda existe o mito de que estuprador é somente aquele cara que sai do mato com uma faca. Ou é um homem com algum distúrbio psicológico. Essas ideias blindam o “homem comum” de culpa e transformam o estupro em um acontecimento excepcional, sendo que ele é comum e acontece dentro de famílias, entre “amigos” e assim vai. Isso emperra ainda mais a discussão e, ao mesmo tempo, naturaliza a violência que a mulher sofre por parte de conhecidos.

E enquanto debatemos se as mulheres estão mentindo ou não, muita gente corre impune por aí.

E as intolerantes são as que não querem mais ser estupradas e não os estupradores.

Mundo estranho esse.

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