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Nem santas, nem putas: apenas humanas com capacidade de sentir prazer

Quem nunca ouviu algo como “tira a mão daí, menina” ao simplesmente dar uma coçadinha na xoxota que atire a primeira pedra. A vagina, sempre tratada por eufemismos fofos e delicados ou por palavras grosseiras que remetem à esculhambação e mau cheiro, é historicamente demonizada. Por isso, quem nasceu com ela no meio das pernas consequentemente tem o desenvolvimento psicológico, emocional e, ás vezes, até físico afetado por esses conceitos deturpados, que ora infantilizam e romantizam a vagina, ora tratam ela como algo grosseiro e pecaminoso. A misoginia, inclusive, começa com o estereótipo de que vagina (e quem a possui) é inferior, suja e deve ser reprimida, o que contribui com um panorama de mulheres cerceadas não apenas sexualmente, mas em outras esferas da sociedade, como social e econômica. Afinal, se pensarmos bem, minar a autoestima de uma pessoa implantando na cabeça dela inseguranças sobre o próprio corpo – a expressão máxima da existência de alguém no mundo – é um mecanismo de controle bastante eficaz.

O Xotanás, uma parceria entre os blogs Deixa de Banca e Vulva Revolução (eu), surgiu com o objetivo de falar sobre siririca e sexualidade feminina. Mas por que? Bem, resumidamente, a Amanda teve a ideia inicial e me chamou para botar em prática com ela e, juntas, pensamos sobre o assunto. Percebemos que, embora o senso comum acredite na tal história da ~liberação sexual~ e ache que as mulheres já conquistaram tudo o que queriam (quem dera!!!), ainda vivemos dentro de um cenário em que a sexualidade da mulher é regida pelo patriarcado e pela heteronormatividade: ela precisa ser feminina (ou seja, depilada, maquiada, perfeita, sem estrias, usar roupas que realcem as formas do seu corpo – se ela for magra, claro – e inteligente, mas sem tanta opinião) e pensar no prazer do outro. Esse outro é geralmente um homem que irá mudar a vida dela ao penetrá-la com a piroca mágica dele. E a sexualidade da mulher é comumente representada dessa forma, como se o mais importante fosse ser desejada por um homem, fazer um homem gozar, estar cheirosa para um homem, homem, homem, homem…

AFF.

No entanto, recebemos mensagens tão divergentes entre si (acho que o intuito é deixar a gente doida mesmo), que ao mesmo tempo em que somos incentivadas a fazer de tudo porque, uau, liberdade é isso aí, fazer o que os caras querem na cama, ainda existe, no fundo de grande parte das relações heterossexuais, uma mitologia antiga, da mulher que é boa, casta, pura e “para casar”. E enquanto rola um bombardeio sobre as cabeças femininas com mil sugestões diferentes relacionadas a como elas deveriam se comportar, muito pouco é falado sobre a importância do autoconhecimento não apenas para a construção de uma vida sexual satisfatória, mas principalmente para o próprio bem-estar físico e psicológico da mulher, que raramente é aconselhada a pensar nela mesma, apenas nela, e a descobrir o que a faz sentir prazer. Por isso, dentro desse contexto, a gente aqui do Xotanás acredita que siririca tem tudo a ver com autonomia, amor próprio e desconstrução da misoginia internalizada.

Felizmente, essa era internética em que vivemos está colaborando com o nascimento e divulgação de cada vez mais projetos voltados para a sexualidade da mulher. Por meio de textos, desenhos, entrevistas, vídeos e músicas, são travadas diversas discussões que buscam o real empoderamento da sexualidade feminina, sem aquele morde e assopra de revistas que dizem, na primeira página, que toda mulher é linda e poderosa e, na página seguinte, ofertam trezentos produtos de beleza diferentes e ensinam a “segurar” parceiros. Ainda assim, são muitos os relatos que recebemos (estão sendo publicados aos poucos aqui, enviem o de vocês) e que lemos por aí que, ao falar de masturbação, envolvem culpa e repressão familiar.

pollynordevil“The Devil Wears Nada”, ilustração de Polly Nor

Qual será o porquê de todo esse peso jogado em cima do nosso prazer? O livro “Vagina – uma biografia”, lançado pela escritora norte-americana Naomi Wolf recentemente, revela que a concepção ocidental que temos atualmente do órgão sexual feminino, “cheia de vergonha, sexualizada de um modo restrito e funcional, dessacralizada e cientificamente escrutinada”, começou no século XIX. Teorias misóginas de todo o tipo foram disseminadas, como, por exemplo, que o clitóris era a causa da corrupção moral e “boas mulheres” não tinham apetite sexual.  Uma das teorias dizia, inclusive, que permitir que mulheres lessem romances poderia deixá-las com um desejo sexual enlouquecido e descontrolado (ou seja, controle sexual e da emancipação intelectual feminina em uma tacada só).

De acordo com a autora, o clitóris é estudado, esquecido e descoberto novamente desde 1559. No entanto, no período vitoriano a  vagina passou a ser profundamente patologizada e criou-se uma ideia de mulheres “boas” e “más” que vinha da conduta sexual delas: quem não se deixasse afogar pela própria libertinagem poderia ser considerada uma mulher de respeito. E essa libertinagem não estava relacionada apenas ao ato sexual, mas também à masturbação. “Em 1850, os formadores de opinião vitorianos na área médica e social estavam convictos de que a masturbação, para ambos os sexos, levava perigosamente a ‘um espectro de doenças psicológicas terríveis’, que acabariam por levar o masturbador a um estado de loucura”, escreve Wolf.

O livro “A assustadora história do sexo”, do médico e escritor britânico Richard Gordon, mostra retratos clínicos da época, que descreviam pessoas que se masturbavam praticamente como doentes. Ele acredita que isso parte de uma necessidade que a sociedade tem de criar “perigos” que façam as pessoas se sentirem culpadas, pois “um pecado espalhado universalmente tece uma camisa de silício macia” (camisa de silício era uma espécie de túnica incômoda, de tecido grosseiro, utilizada durante penitências). Gordon levanta, inclusive, uma questão interessante: essa culpa sexual (que permanece ainda hoje) tem muito a ver com a culpa “mastigatória” dos tempos atuais, em que médicos advertem contra diversos tipos de comida e o público começa a temer “perigos físicos, estéticos e morais de estarem levemente acima do peso” – o que gera muito lucro para a indústria mundial do emagrecimento.

Homens e mulheres foram torturados em prol da erradicação desse ~grande mal~ que era a masturbação. Porém, assim como as mulheres de hoje são os maiores alvos das “dicas de dietas” (a dieta é o sedativo político mais potente na história da mulher, uma população levemente louca é uma população dócil”, já disse Naomi Wolf em outro livro – “O Mito da Beleza”), a antiga obsessão em erradicar a masturbação era ainda maior se o assunto era siririca, e isso podia ser diretamente relacionado ao medo de educar e emancipar mulheres – o receio geral era de que a leitura pudesse levá-las ao ato de tocar o próprio corpo em busca de prazer. Segundo Wolf, no período pré-vitoriano, mesmo mulheres da elite não eram educadas e nem tinham direito a propriedades, logo, pouco importava se tocavam uma siririca ou não. Só que, no século XIX, as mulheres estavam conquistando mais direitos e a tentativa de frear a autonomia delas – tanto sexual, quando intelectual – talvez fosse uma reação contra isso. “Muitas mulheres, hoje, sentem que sua sexualidade é algo distinto do resto de seu caráter e acabam por privar-se dela em prol de outros papeis mais admiráveis, como o de mães, esposas ou profissionais (…). Esse conjunto de crenças não é uma constante humana – nem mesmo é antigo; isso foi essencialmente inventado quando os críticos culturais na Europa e Estados Unidos ficaram alarmados pela emancipação feminina, e a sexualidade da mulher foi entregue a um profissional masculino, o ginecologista”, conta a autora.

O século XIX criou o problema e a solução: ao mesmo tempo em que patologizava a sexualidade e o corpo feminino, inventava tratamentos e buscava soluções para os “problemas sexuais” das mulheres. A sexualidade feminina era considerada uma grande ameaça à ordem social. Logo, o período vitoriano se viu marcado por avanços científicos que se chocavam com conceitos rasos que buscavam manter a mulher “domada”: o útero era visto como fonte de mau humor feminino, a menstruação era tratada como incapacitante e educar mulheres poderia ser nocivo para elas, porque poderia fazer com que se tornassem masculinizadas e “solteironas”.  Sob o domínio masculino, a ginecologia se desenvolvia; e pelas mãos dos homens, mulheres tiveram seus corpos analisados, estudados e invadidos – o norte-americano J. Marion Sims, por exemplo, criou uma técnica para reparar fístulas vesicovaginais praticando, sem anestesia, em mulheres escravizadas.

“De 1860 a 1890, a brutalidade e a natureza punitiva das práticas ginecológicas masculinas atingiram seu ápice. Nesse período, o uso da clitorectomia se tornou, se não comum, pelo menos não mais inédito no ‘tratamento’ de garotas que insistiam naquele vício pavoroso, a masturbação feminina. O dr. Isaac Baker Brown introduziu a clitorectomia na Inglaterra em 1858, e ainda era muito praticada por ele dez anos depois. O dr. Brown se tornou famoso e muito procurado por sua ‘cura’, que aplicada em garotas fogosas, após a excisão de seu clitóris, fazia que voltassem para suas famílias em um estado de docilidade, mansidão e obediência – um resultado que podemos agora compreender como inquestionavelmente resultante do trauma e também da interrupção da ativação neural. E até mesmo para garotas que não eram ameaçadas com a excisão do clitóris como punição pelo ‘vício solitário’, havia manuais morais e até publicações populares repletas de advertências sobre como uma mulher masturbadora, incitada por ‘romances franceses’ ou ‘novelas sensacionalistas’, poderia ser facilmente identificada por sua lascívia, apatia, palidez, olhos febris e aspecto geral de dissimulação e insatisfação. Havia o entendimento de que a masturbação levava as garotas a uma trajetória cada vez mais descendente, com formas ainda piores de ‘vício’ e lascívia moral; os pais eram aconselhados a ser vigilantes e rígidos com as garotas que persistissem”, explica a escritora.

Para os homens, Gordon relata que a “política de mãos-ao-alto” envolvia ir para a cama com luvas de metal (tipo raladores de cozinha) ou camisa-de-força, uso de cinto que prendia o pênis em molde de metal ou corte de nervo do órgão sexual masculino, entre outras práticas. Embora os rapazes também possam guardar sua parcela de ~culpa masturbatória~ (bom, pelo menos foi o que alguns me disseram), a naturalização da prostituição e pornografia, bem como uma sociedade que atua sob o olhar masculino em grande parte dos seus recortes, são fatos que revelam que a sexualidade masculina é bem menos cerceada – muito pelo contrário, ela é incentivada e celebrada, ainda que de forma doentia, rasa, nociva e extremamente perigosa para mulheres, além física, intelectual e sensorialmente pobre para os homens.

É tudo sobre lucro e dominação.

Como já foi mostrado, resquícios do modelo vitoriano de pensar permanecem em nossa sociedade. Pior ainda: nem sempre são resquícios, muitas vezes são novas roupagens para teorias antigas que buscam demonizar a sexualidade e o corpo feminino e, consequentemente, destruir a autonomia e autoestima de mulheres, porque medo, insegurança, falta de autoconhecimento, vergonha, nojo e culpa são instrumentos que visam nos manter submissas, paralisadas, dóceis e manipuláveis.

Porém, a cada dia, novas pernas femininas ganham as ruas e conquistam espaços pelo mundo, enquanto dedos que na intimidade acariciam o clitóris, em um ritmo suave e gostoso, se levantam, em riste, para sinalizar um grande não a quem grita “tira a mão daí, menina”. Os nossos corpos são nossos, não são sujos e problemáticos e serão explorados por nós mesmas, em uma jornada que celebra o bem-estar feminino. Não somos putas nem santas que merecem mais ou menos respeito, mas apenas humanas com a capacidade de sentir prazer.

Post orginalmente publicado mês passado no Xotanás.

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Escrevendo sobre escrever

Este é um texto sobre escrever. E sobre mim. O que consequentemente acaba sendo um texto sobre eu escrevendo também. Talvez seja um pouco mais pessoal do que de costume e, por isso, essas primeiras linhas estejam tão cheias de enrolação. Estou ganhando tempo. Nunca é fácil falar sobre si mesma de forma objetiva, direta.

Aprendi a ler aos cinco anos. Na sala de aula, eu era deliberadamente excluída das atividades pela própria professora, porque já sabia ler. Estranho, né? A primeira palavra que li na vida, aliás, foi ca-ma, desse jeito assim, separadinho. Lembro exatamente do momento. Fiquei muito orgulhosa e feliz. Sempre gostei muito de livros e acho que é muito positivo rodear crianças com eles, sem ficar forçando a barra para que elas leiam x ou y. Antes de sequer ter completado a maioridade, eu já tinha lido livros maravilhosos para crianças e adolescentes de autores como Lygia Bojunga, Maria José Dupré, Pedro Bloch, Pedro Bandeira, Suzana Dias-Beck, entre outros, bem como várias revistas MAD, Chiclete com Banana e Bundas, biografias do Van Gogh e Chico Buarque e as clássicas revistinhas da Turma da Mônica, Disney, Luluzinha, etc. Não posso dizer se o contato indiscriminado com materiais “apropriados” e “inapropriados” foi positivo, porque é relativo. No entanto, afirmo que, no fim das contas, me tornei, no mínimo, uma pessoa muito sagaz e com um ótimo senso de humor.

Além de ler, sempre gostei de criar, escrever, desenhar. Fiz de tudo na infância: textos, ~programas de televisão~ e histórias em quadrinhos. Fui crescendo e começando a me achar menos capaz, mas ainda assim continuei colocando a criatividade em prática de diversas maneiras. Dizia sempre que seria jornalista (“igual minha mãe”) e, apesar de ter passado um tempo estudando moda, logo percebi a cilada em que havia me metido e acabei me formando em jornalismo mesmo – que, de certa forma, é uma cilada também. Ah, o sistema…

Atualmente, atuo como assessora de comunicação. E escrevo coisas pra mim, pra projetos independentes de amigos, pra blogs e, claro, aqui na Vulva. Gosto também de grupos online de discussão, embora esteja menos ativa nos últimos tempos. E continuo lendo bastante. Ainda assim, sempre tive dificuldade em verbalizar que quero ser uma… escritora. Me parecia algo pretensioso para se almejar. Nunca me senti culta o suficiente, boa o suficiente, produtiva o suficiente, interessante o suficiente. E olha que sempre fui elogiada pelas pessoas ao meu redor e não tenho nenhuma grande história de falta de apoio ou represália familiar. Imagina quem tem?

omundodejulhelena

Quadrinho de “O mundo de Julhelena”

Mais do que isso. Tenho também o privilégio de ter sido ~bem alfabetizada~, logo, o meu texto não me causa embaraço por conta de erros e as pessoas não julgam minha inteligência baseadas apenas em minha gramática. A sociedade acaba tratando como inferior quem não teve acesso à educação formal, ainda que existam mil maneiras de uma pessoa ser inteligente – e que seguir regrinhas não signifique necessariamente ser inteligente (caso contrário, não existiria tanta gente com doutorado falando besteira por aí).

Estou sempre escrevendo alguma coisa. Ainda que de forma espaçada ou, ás vezes, sem gostar tanto do resultado. Eu tinha um hábito terrível de jogar fora textos, desenhos e outras coisas feitas por mim, e isso acontecia por diversos motivos: medo de ter o meu ~interior~ exposto, caso alguém mexesse em minhas gavetas, medo de ter minha complexidade & subjetivo definidos por um conjunto de palavras péssimas ou rabiscos horríveis, etc. Já cheguei a pensar coisas absurdas tipo “imagina se eu morro e alguém acha essas coisas”.

Este blog é a primeira coisa que eu faço que tanta gente lê. Só consegui porque comecei a divulgá-lo por um perfil de Facebook que não era o meu pessoal, era um fake também chamado Vulva Revolução — minha persona online feminista, de certa forma. Todos os blogs anteriores foram apagados e/ou mostrados pra um número restrito de pessoas. Sempre me senti muito insegura.

E escrever nesses tempos de internet é algo muito confuso. Sou bastante lida e debatida. Pra um blog independente que é tocado nas minhas horas vagas e que não tem dinheiro, anúncio ou compromisso com periodicidade, só posso comemorar o meu alcance e os textos que se tornaram virais e até hoje me trazem milhares e milhares de visitantes. Além disso, tive e terei textos de outros tipos publicados em outros projetos — tanto online quanto “físicos”. Só que nunca publiquei um livro, por exemplo. Nem escrevi com frequência em um jornal ou portal de forma não necessariamente jornalística.

Daí fica a dúvida: sou ou não sou uma escritora? Qual o limite que separa o ser do não ser?

Tem um pessoal da fotografia que reclama que hoje em dia todo mundo pode ser fotógrafo. Uma galera de várias outras profissões faz reclamações parecidas. As facilidades tecnológicas somadas ao alcance que a internet permite que as coisas tenham coloca qualquer pessoa mais próxima de ser uma FAZEDORA e não mais uma mera consumidora de produtos culturais alheios. Todo mundo pode fazer tudo (teoricamente, pois tecnologia e educação não são coisas democratizadas ainda), inclusive escrever. O tanto de blog, site e textão-no-face por aí nos mostra isso. Eu acho ótimo.

Ainda assim, não consigo responder a minha própria pergunta.

Só sei que é preciso fazer. Botar a cara no sol, mona, e mostrar o que está sendo feito. Demorei algum tempo pra me enxergar como capaz de produzir material interessante e/ou relevante (pelo menos dentro dos meus próprios conceitos), como FAZEDORA. Mesmo ciente das minhas capacidades (e todas as pessoas são capazes, realmente acredito nisso), uma voz interna constantemente me falava “você não vai conseguir”, “você é ridícula”. Isso é paralisante e domar essa voz é um sacrifício. Nós, mulheres, somos ensinadas a ficar caladas, quietas, inclusive no que diz respeito à produzir artística ou intelectualmente (muitas mulheres sequer possuem tempo para se desenvolverem nesses aspectos, já que, além da autoestima machucada, precisam trabalhar, cozinhar, cuidar de casa, filhos, maridos, irmãos, etc). Somos ensinadas a ser modestas quando obtemos sucesso com algo, a menosprezar nossos feitos. “Ah, faço umas coisas aí”, “escrevi um lance, mas nem ficou tão bom”, “tô tentando desenhar”, “acho que quero tirar umas fotos” e frases do tipo são comuns. A gente ás vezes nem deixa a outra pessoa interpretar o que a gente faz direito e já vai falando mal do nosso trabalho, numa humildade subserviente que só contribui para nos manter em um papel secundário dentro da sociedade. Usamos palavras que causam a impressão de descrença, incerteza e dúvida. Mas não é nossa culpa. Uma mulher que se comporte da mesma forma confiante que um homem logo é chamada de metida, escrota, prepotente e assim vai. E nem todas possuem paciência ou estutura emocional pra lidar com essas pedradas que muito cara que sempre teve espaço pra fazer merda e experimentar com muito mais tranquilidade categoriza como “frescura”.

Acredito que quem tem privilégio e poder quer se manter assim, logo, existe uma força que busca manter pessoas oprimidas em seu ~devido lugar~. Por isso muitas mulheres, pessoas negras em geral e outros grupos minoritários precisam provar milhões de vezes a mais que são bons em algo para conseguir algum espacinho — isso quando conseguem! Quantos rapazinhos branquinhos de classe média que fazem um trabalho mais ou menos e se consideram grandes artistas vocês já não viram por aí? Vamo combinar: vários, vários e vários. E eles nascem com tanta certeza de que foram feitos pra brilhar, que acabam convencendo muita gente, mesmo que só façam merda. Porque é cultural, eles já são a “cara” da arte, da cultura “superior” (bleeeeergh) e do sucesso.

Muitos homens tentam me “aconselhar” sobre como eles acham que eu devo tocar os meus projetos ou escrever no meu blog. A Grimes já falou sobre como muitos caras se ofereciam pra produzir os trabalhos dela, como se ela precisasse deles:

“Estou cansada de homens que não são profissionais ou nem mesmo músicos de sucesso continuamente me oferecendo ajuda (sem eu pedir), como se eu tivesse feito tudo que fiz por acidente e fosse cair sem eles, ou como se o fato de eu ser mulher me tornasse incapaz de usar tecnologia. Eu nunca vi esse tipo de coisa acontecer com meus colegas do sexo masculino” — tradução livre de um trecho desse texto que ela postou no Tumblr, em 2013.

     “He was just another man trying to teach me something”

Não vou dizer que não tenho conselheiros, porque eu tenho sim uma rede muito legal de homens e mulheres que me apoia, critica, opina e ajuda MUITO em várias coisas. Mas daí existe uma diferença enorme entre eu contar com minha rede de contatos e querer ajuda de qualquer homem que apareça pela minha frente com alguma dica furada que nunca funcionou sequer pra ele só porque ele quer se aproximar, elogiar, fazer parte mas é orgulhoso demais pra se “rebaixar” e assumir. Afinal, posso ser inteligente, mas ainda sou uma mulher, né?

E isso é um outro “problema” pra muita gente que me acompanha. “Ah, legal, milhares de acessos… Mas pena que a maioria é de mulher”. Já ouvi diferentes versões dessa frase várias vezes, vinda de homens e de mulheres também, infelizmente. Parece que existe um mito vigente de que mulher não tem discernimento, então a validação dela não importa. O que eu fizer só vai ser considerado bom de verdade quando rolar uma maioria de homens apoiando. Porém, a Vulva Revolução já diz no nome a que veio, não é mesmo? E é estranho como assunto de homens é universal, mas assunto de mulheres é “mimimi-coisa-de-mulher”. As vivências específicas de corpos do sexo feminino são negligenciadas, um reflexo da forma com que esses corpos são vistos: inferiores.

E tem aquelas pessoas chatas, que acham que você precisa ter lido x, y ou z (geralmente x, y ou z são todos machos brancos que vem sendo endeusados há anos, décadas, séculos) para ~ser alguém na noite~. Claro que muitas obras tidas como ~cânones~ possuem muito valor e são realmente incríveis, inteligentes, atemporais, surpreendentes (embora existam também as que são datadas, inúteis e cheias de preconceito, mas não se pode nem criticar porque, ohhh, é um clássico). No entanto, acredito que essa mania de endeusamento que a nossa sociedade tem contribui pra um cenário em que as pessoas ficam o tempo todo falando das mesmas coisas e marginalizando outras que podem ser sim muito interessantes. Tem discussão que me parece mais uma masturbação coletiva do que uma troca real de ideias.

O que quero com esse texto é incentivar outras mulheres a abandonarem a auto sabotagem. Não tô dizendo pra gente virar um bando de cuzona prepotente que nem milhares de caras por aí. Mas pra gente aprender a aceitar elogios, a destacar nossas qualidades, a estudar e se aprimorar mais e mais, cientes de que somos capazes e a lidar com os nossos defeitos e com a imperfeição de tudo que iremos produzir — nada é perfeito! Gostaria que a “cultura da inimiga” acabasse, e a gente começasse a se articular mais e mais com nossas colegas (eu tenho feito muito isso, é maravilhoso), porque produções coletivas ajudam muito no campo da visibilidade, motivação, força e qualidade. Divergências acontecem, mas isso nem sempre precisa ser um impeditivo para a união entre pessoas que querem fazer coisas parecidas.

E aproveitando o momento presente, me despeço.

Escrevendo bem e sem modéstia.

Faça o mesmo você também!

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Dica:

Recomendo a leitura do texto “A insustentável existência do outro”, que fala sobre mulheres escrevendo, especificamente em um ambiente literário. É muito interessante:

Pergunto então à Regina Dalcastagnè se houve alguma recepção negativa às conclusões de sua pesquisa sobre os “territórios contestados” da literatura brasileira contemporânea. Ela responde com outra questão: “De um modo geral ela foi recebida com muito interesse. Houve algumas leituras equivocadas, como se eu estivesse defendendo uma espécie de patrulha literária ou propondo um manual do romance politicamente correto. Então, alguns escritores e críticos reagiram, brandindo o valor ‘universal’ da literatura. Eu questiono essa ideia de valor universal, a ideia de que uma obra literária é algo fora do tempo e do espaço. Mas mesmo que aceitemos isso, fica a pergunta: por que esse ‘universal’ só é atingido em narrativas sobre intelectuais de classe média? Por que as mulheres pobres, negras, da periferia estão ausentes do ‘universal’?”

Em tempos de identidades manipuladas a favor de neoapartheids e do medo do outro, questionar o que é “universal” e a quem ele serve pode ser o começo de tudo. O elefante começa a se mover na sala de cristal, onde o senhor “universal” repousa inabalado. E para efeito da criação, é sempre bom escutar o barulho das coisas se quebrando.

Leia completo aqui.