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Quando o “não” vira sentença de morte

Voltei de uma viagem na última sexta-feira e, assim que pisei em casa, resolvi procrastinar o momento de desfazer as malas dando aquela olhadinha nas redes sociais. Me deparei com um post muito triste de uma moça pedindo ajuda para encontrar a irmã dela, que estava desaparecida desde a noite anterior. Porém, antes que eu pudesse pensar em qualquer hipótese sobre o assunto, pipocavam comentários na postagem desejando força para a família e afins. Cliquei nas notícias linkadas e li sobre a morte cruel da jovem Louise Ribeiro, de 20 anos. A estudante de biologia foi assassinada pelo ex-namorado (e colega de curso) Vinícius Neres, de 19 anos, dentro da Universidade de Brasília (UnB). É uma história muito chocante. Fiquei muito mal, os olhos marejados, o peito apertado… Até quando um homem que não sabe lidar com rejeição e enxerga uma mulher como posse vai se achar no direito de tirar a vida dela? Quando iremos alterar o paradigma desse roteiro tão comum?

Enquanto ainda digeria o acontecido, uma história muito parecida apareceu nos jornais do Distrito Federal menos de 48 horas após a morte de Louise: a estudante de gestão pública Jane Fernandes Cunha, de 20 anos, foi assassinada pelo ex-companheiro Jhonatan Pereira Alves, de 23 anos. O cara atirou nela e, em seguida, se matou. Embora ambos os crimes sejam igualmente terríveis, o caso de Jane possui um agravante: ela já havia feito uma denúncia contra o ex na Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam) por conta de frequentes intimidações. Porém, não adiantou, como em diversos outros casos (um maior uso de dipositivos eletrônicos que apitam, como pulseiras, sendo mais utilizados em casos de medidas protetivas podem auxiliar, será? Algo precisa ser feito, é desesperador). Ele era mais um desses desequilibrados que ~não aceitam o fim do relacionamento~ e, ao invés de assistir uns filmes tristes ou buscar algum tipo de apoio psicológico, preferiu resolver as coisas da pior forma possível. E as mulheres é que são chamadas de “histéricas” e “descontroladas”… Estranho, não?

O caso de Louise está ganhando ampla repercussão por ter acontecido dentro de uma universidade, e entre pessoas muito jovens e de classe média (Jane era da periferia do DF) – e creio que também pelo fato de o assassino estar vivo e não corresponder ao estereótipo que se cria de “bandidos”. Ele tem um visual “nerd”, é frio, indiferente, bem articulado e tem sido protagonista de entrevistas enojantes onde posa feito um popstar narrando um crime brutal com a banalidade de quem está fazendo um novo show. E a mídia carniceira e sensacionalista dá corda e faz perguntas que não levam a lugar algum, desinformam e acabam por tentar tirar o rapaz do lugar que ele pertence: de assassino misógino para um “garoto perturbado”.

Precisamos conversar claramente sobre todas essas questões e acabar de uma vez por todas com o mito de que o agressor é um “monstro” ou um “doente” – a não ser que a gente comece a concordar que a masculinidade em si pode, muitas vezes, ser uma espécie de doença mental epidêmica que é instalada na pessoa do sexo masculino por meio da socialização. Se o Mapa da Violência de 2015 mostra que grande parte da violência contra a mulher – e dos assassinatos – são cometidos por familiares e ex-parceiros, isso significa que existem criminosos aos montes, eles não são exceções. Logo, invocar o “monstro” quando estamos falando de um comportamento corriqueiro é fechar os olhos para uma situação generalizada, como se apenas alguns caras estivessem fazendo algo ruim porque possuem algum problema (embora existam transtornos que façam uma pessoa matar outra, mas isso é outra questão) e não porque estão inseridos em uma cultura onde o valor da mulher é baixo.

Aliás, temos que ir mais longe e radicalizar (lembrando que “radical” tem a ver com ir até a raiz): qualquer homem que seja contra uma mulher livre e autônoma é um agressor em potencial, e isso não é uma hipérbole, mas uma realidade. São muitos os que, de forma explícita ou velada, se incomodam com a existência de mulheres que querem decidir o que fazer, o que vestir, o que estudar, onde trabalhar e com quem se relacionar. E esse incômodo resulta em um alto número de violências físicas, psicológicas e verbais contra as mulheres. Portanto, temos um problema sério em mãos a ser resolvido, e ele envolve mais do que segurança pública, melhoria nos aparatos judiciais ou iluminação nas ruas, mas também muita educação.

Quantas vezes não achamos um cara meio estranho, raivoso, machista e as pessoas ao redor tentam abafar, dizendo que ele é assim mesmo, que está só brincando, que é um pouco exagerado no modo de falar, que teve problema com drogas, está deprimido ou sofreu alguma rejeição? “Apesar de tudo, ele é gente boa”. Nananinanão, parem de inventar desculpas. Misoginia é misoginia, e esse tipo de gente ser levada a sério é um sintoma grave de que odiar mulher não tem problema algum. É um absurdo que a gente viva em uma sociedade conivente com homens que dizem que mulheres são inferiores ou devem ser submissas e que vociferam coisas como “vadias”, “putas”, “piranhas” assim que percebem que não podem controlar comportamentos e sentimentos alheios. A necessidade masculina de afirmar a própria identidade a partir da dominação do sexo feminino – e também do sexo masculino dissidente do estereótipo macho e heterossexual – é tóxica para todos os envolvidos. E a misoginia escorre por todos os lados, inclusive da boca daqueles que pregam respeito às minas, basta prestar atenção nos detalhes.

Pensando na construção histórica do que é ser mulher, que envolve a demarcação do corpo do sexo feminino como menos valioso e violável, é possível perceber que a dualidade sobre a qual somos obrigadas a caminhar desde que nascemos permite com que a gente seja qualquer coisa, menos um ser humano. De santa a puta, de vaca a cachorra, de nobre mãe a vadia degenerada, de musa a bruxa, estamos sempre nos equilibrando sobre a ponta de uma faca que, em algum momento, fura a nossa carne por conta do peso insuportável da pressão. Ou então somos punidas, de alguma maneira, por não cumprir os papeis de gênero pré-determinados. E é necessário muito pouco para ser considerada uma rebelde: ás vezes é só dizer não (aliás, vale muito a pena ler o texto “O não também nos pertence”, escrito por Thaís Campolina).

O pai de Louise disse, em uma matéria, que a jovem era muito estudiosa e não era de baladas. Infelizmente, ao contrário do que muitas pessoas pensam, não existem premissas reais que protejam a mulher de um feminicídio, ainda que ela tente ser um exemplo, uma “moça direita” ou qualquer coisa do tipo. Nascer mulher no mundo atual é um risco por si só, afinal, os homens crescem nos objetificando e achando que podem fazer o que quiser. Eles crescem pensando em carros, status, conquistas profissionais e mulheres (percebam que estamos sempre em um balaio de “coisas”), como se ter tudo o que desejassem fosse um direito garantido a todo ser do sexo masculino que ~performa~ a masculinidade.

Os caras precisam aprender a lidar com frustrações e a culpar os inimigos corretos (tem muito frustrado por questões materiais que desconta em mulher, por exemplo, quando a falta de sucesso dele é causada por um sistema desigual que visa manter o status quo – e as mulheres estão muito longe do topo desse sistema, mesmo as privilegiadas). E precisam também tirar essa visão bélica de cima dos relacionamentos, tratando tudo como uma guerra que tem que ser vencida a qualquer custo. Estar com alguém (seja em um casamento ou em uma ficada de uma noite) é uma construção em conjunto que, em um determinado momento, pode parar de dar certo.

E tem mais: quando termos como friendzone (pra quem não sabe o que é, aqui tem uma explicação com uma visão feminista) são utilizados até mesmo por homens adultos, que já estão bem longe do período da adolescência, é que é possível perceber a naturalização da mulher como objeto sexual. Oras, quem essas “vadias” acham que são para achar que merecem atenção e respeito só por serem legais e inteligentes, não é mesmo? Pra muito cara, amizade com mulher “de graça” não existe. E vários idealizam o ~pegar mulher~ desse modo descartável que a sociedade machista prega como se isso fosse um troféu, mas é uma babaquice sem tamanho, pô. Qual o sentido em perder seu tempo com pessoas que você despreza e sequer considera dignas de respeito? Isso, pra mim, é um claro sinal de ódio por si mesmo que, em algum momento, vai acabar respingando em quem está ao redor e é “inferior” (as mulheres também odeiam a si mesmas, mas isso se manifesta mais contra elas do que contra os outros – até nisso a gente sai “perdendo”).

Rejeição dói, eu sei. Quem nunca tomou um pé na bunda traumatizante que atire a primeira pedra. Mas existem bilhões de pessoas no mundo (e, com a internet, ficou ainda mais fácil acessá-las). Existem mil atividades que podem ser feitas para esfriar a cabeça. Eu entendo, teoricamente, o que move um feminicídio, o sentimento de posse e controle, mas não consigo entender, na prática. Quanto mais penso no assunto, mais meu cérebro trava. Quer dizer, um cara escolhe carregar o peso de ter tirado uma vida pelo simples fato de não saber lidar com um término? Isso é muito surreal, bobo, infantiloide, cruel e inconsequente. Não tem nada mais patético do que a necessidade de lavar a “honra” masculina, porque não lava coisa nenhuma. Só suja mais e contribui com a manutenção de um ciclo de terror e ódio.

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#niunamenos – Maitena

E, como muitas feministas alertam faz tempo: comportamentos abusivos precisam parar de ser romantizados. Não é fofo um cara que dá uma crise de ciúme e puxa a mulher pelo braço pra fora de uma festa, que vigia as redes sociais da namorada, que faz chantagem emocional e tenta diminuir a autoestima de uma mina para mantê-la fragilizada e perto dele. É essa linha de pensamento que contribui com a evolução de um soco para uma facada. A ideia de amor é vendida como essa intensidade que abarca “tapas e beijos”, mas a realidade mostra que a marca dos tapas é muito mais permanente do que o alívio dos beijos. Se tem violência, não tem amor. Não existe “crime passional”, e sim feminicídio. A Lei do Feminicídio, inclusive, completou um ano recentemente e se mostra realmente muito necessária. Para entender mais e o porquê, clique aqui.

Temos que lembrar que a realidade macro é composta também a partir da catalogação de vários acontecimentos dos micro universos se repetindo e se cruzando constantemente. Tipo assim, não é uma piadinha sobre estupro que vai causar diretamente a morte de uma mulher, entende? Mas essa piada faz parte de um cenário em que a violência masculina é tida como normal, a mulher é vista como inferior, roupa curta e bebedeira são usadas como justificativas para assédio sexual, maridos se acham donos das esposas, pessoas do sexo feminino são assassinadas principalmente por homens do próprio convívio, funcionárias são contratadas pela aparência para cargos que precisam apenas de competência, agressores são acobertados, vítimas são expostas, delegacias não sabem lidar com crimes contra as mulheres (mesmo as especializadas), e assim vai. Essa lista, infelizmente, poderia ser imensa, praticamente infinita.

E o que quero dizer com tudo isso é que uma pequena coisa esbarra em outra pequena coisa e, juntas, elas se tornam uma coisa média, que se aglutina com outra e, de repente, temos uma coisa bem grande acabando com a vida de alguém. Não existem acontecimentos isolados, tudo tem uma consequência. Portanto, precisamos desmantelar desde a base uma cultura que é conivente que o estupro e a violência contra a mulher, entre outros absurdos (como racismo, homofobia e afins). Nesse quadrinho maravilhoso da Lovelove6, que desenha a Garota Siririca, é possível refletir sobre essas questões.

O Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê) da UnB contribui com a reflexão sobre a violência contra a mulher e a banalização disso em ambientes que deveriam abrigar e acolher todos os tipos de pessoas, mas acabam sendo excludentes por conta de negligência com as especificidades de cada grupo  (texto na íntegra aqui):

Nos últimos anos, a UnB vem se tornando um espaço cada vez mais marcado por casos de violência contra minorias. Tivemos o caso da “lésbica nojenta” espancada no estacionamento. Tivemos ameaça de bomba porque “na UnB só tem puta e viado”. Tivemos pichação misógina, LGBTfóbica e racista nas paredes de centro acadêmico. Tivemos trote sexista que fez calouras lamberem linguiça com leite condensado. Temos trote homofóbico que berra nos corredores do Minhocão que todo arquiteto é bicha e homem mesmo é engenheiro civil (essa escutei ontem, às 13h30, no ICC norte). Sempre – é bom ressaltar, sempre – tivemos os recorrentes casos de estupro nos matagais no caminho para a L2. Aliás, estupro em festa de CA também não é nenhuma novidade, e nunca vi a polícia dar andamento aos casos denunciados pelas vítimas. Uma vez, a administração superior (a.k.a. Ouvidoria) me informou que no caso de uma denúncia de estupro em festa feita fora da universidade não havia nada para a administração superior fazer, ainda que a festa tenha sido organizada por estudantes, divulgada por estudantes, realizada por estudantes e com o objetivo de “integrá-los”. A violência de gênero sempre esteve presente entre nós. Agora, temos um feminicídio dentro das dependências da universidade. Qual é a resposta institucional que a universidade vai tomar?

E mais: qual a resposta que nós, enquanto sociedade, daremos para essas violências? Eu quero um mundo onde as mulheres possam dizer não sem que isso vire uma sentença de morte – e que “ser mulher” não seja considerado algo pejorativo, engraçado e inferior. Por que é tão difícil assim?

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Imagem da artista Karina Buhr. Arte inspirada nesta notícia: http://goo.gl/4B7xns

 

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DEZ COISAS QUE TODA MULHER ODEIA NOS HOMENS

Direto vejo por aí algum link (ou artigo em revista, etc) que fala sobre coisas que homens não gostam nas mulheres. Ou coisas que homens gostam nas mulheres. Links que nos dizem para usar muita maquiagem. Ou não usar nenhuma. Para ceder às vontades deles. Para não ceder. Para ousar, não ousar, ligar na hora do trabalho, não ligar, expressar nossa opinião com cuidado, não expressar de forma alguma, usar calcinha grande, usar calcinha pequena. Isso quando algum macho não resolve vir falar pessoalmente –  sem a gente nem perguntar – o que acha da nossa aparência, corpo, personalidade, etc. Recebemos mensagens diferentes o tempo todo, algumas delas até mesmo divergentes entre si. Mas todas dizem uma mesma coisa: que devemos nos preocupar com a opinião dos homens sobre nós.

Olha minha cara de preocupada kkkkk

Olha minha cara de preocupada kkkkk

O post de hoje vai ser o contrário. Eu poderia falar sobre combinações desastrosas que alguns homens fazem, como papete e meias ou pochete e sunga, mas nossas urgências, infelizmente, vão muito além disso. Ao contrário de alguns deles, nosso maior problema não é unha, cabelo, bigode ou a porcaria de uma conta de restaurante. Então aqui vai o incrível post sobre as DEZ COISAS QUE TODA MULHER ODEIA NOS HOMENS:

1) NÃO AJUDAM NAS TAREFAS DOMÉSTICAS

Mulheres acabam fazendo jornadas duplas – e até mesmo triplas – de trabalho porque, além de inseridas no mercado, a responsabilidade de cozinhar, manter a casa limpa e cuidar de filhos cai toda sobre elas. Logo, o que vemos são mães, filhas, irmãs e/ou esposas completamente sobrecarregadas enquanto muito homem não consegue nem colocar suco no próprio copo ou lavar um garfo sujo. Não basta ajudar em uma coisa ou outra de vez em quando, cada um tem que no mínimo cuidar do que lhe diz respeito e dividir o resto de forma justa.  Cuidar, lavar, cozinhar e limpar cansa — e muito. Rapazes, saiam do videogame e comecem a esquentar o próprio Toddy. Consigo detectar vocês, os famosos fidivó, até mesmo em almoços entre amigos: geralmente são os que acham que o mundo é uma extensão de suas casas e vontades e ficam esperando que tudo fique magicamente pronto e limpo.

Sobre pesquisa “Trabalho remunerado e trabalho doméstico no cotidiano das mulheres”: “Uma outra questão que a pesquisa traz é que quando os homens estão em casa eles aumentam as tarefas de trabalho das mulheres. Aumentam a demanda do trabalho doméstico ou que então atrapalham sua realização” — Leia mais aqui.

2) DÃO CANTADAS, BUZINADAS & AFINS

Rolou a campanha Chega de Fiufiu, do Think Olga (que em breve vai virar documentário), o vídeo da garota que foi importunada 100 vezes ao andar pelas ruas de Nova York durante dez horas, e mais um monte de coisa. O assunto está sempre em pauta. Reclamamos o tempo todo das cantadas de rua. Elas são grosseiras, ofensivas e, mesmo quando proferidas por meio de belas palavras, são um saco. Nós, mulheres, andamos na rua porque precisamos ir à lugares ou queremos passear. É simples! Ás vezes estamos felizes, outras tristes, ás vezes com pressa e de mau humor. No geral, gostaríamos apenas de ficar em paz. Só que sempre tem um homem (um não, vários) que nos “percebe” e transforma qualquer simples caminhada em um tormento. Essas cantadas são muito mais intimidantes que gentis, quase como uma demarcação de espaço, uma lembrança de que o mundo, para nós mulheres, é ainda mais perigoso. E as buzinadas? Ah, basta ser mulher e andar a pé para levar buzinadas e cantadas de todo tipo (tem carro que joga até luz alta na nossa cara). Além da ofensa em si, cantadas são incômodas porque acionam outros medos: de abuso, estupro, assassinato e outras violências. E eu não digo isso por achismo: eu vivo isso todos os dias. Mas ainda assim, muitos homens tentam justificar esse tipo de coisa o tempo inteiro. E continuam importunando mulheres por aí.

thinkolga

3) SE ORGULHAM DE SER ~POLITICAMENTE INCORRETOS~

Tem aquele ~humorista~ (não vou nem perder tempo citando nomes) que achou super engraçado dizer que estuprador de mulher feia merecia abraço e “comeria” uma cantora famosa grávida e o bebê. Tem aquele outro que ofereceu uma banana a um internauta negro e depois quis acionar o mito da democracia racial com um blábláblá sobre o mundo ser uma caixa de lápis de cor, tentando apagar o fato de que “macaco” é sim um xingamento historicamente usado contra pessoas negras. Tem aquele “conselheiro de relacionamentos” (cof, cof, ótimo eufemismo, hein?) do exterior que acha que humilhar mulher é técnica de sedução. Etcetcetc. A internet nos mostra, diariamente, mil exemplos de homens que seguem esse tipo de comportamento, achando que são super rebeldes, engraçados, chocantes, uau. Deixa eu contar uma coisa, se vocês acham que estão subvertendo alguma coisa perpetuando misoginia, machismo, homofobia e racismo, trago más notícias: vocês estão é colaborando para deixar as coisas do jeitinho que estão. São servos do status quo, nada além, e podemos entender o porquê, né? É intencional. Querem posar de autênticos ou divertidões, mas não querem abrir mão de privilégios. Bradam contra a corrupssaum11!! e clamam por ~mudanças~ (desde que não sejam do tipo que coloquem o filho da empregada doméstica na universidade) só pra disfarçar que, em muitos casos, tudo está bem – e até demais – pra vocês.

laerte

4) PAGAM DE ENGAJADOS (OU “A CASA CAIU, FEMINISTO”)

Tem muito homem (hetero, gay, bi, etc) que consegue entender questões feministas. Eles geralmente manjam de teorias e sabem discutir com certa coerência. Tem muito homem que se diz pró-feminismo, pró-isso, pró-aquilo, mas, na prática, menospreza demandas de grupos minoritários dos quais ele não faz parte, tenta definir quais pautas ele considera mais importantes, acoberta colegas agressores e tenta justificar as agressões (isso quando ele mesmo não é o agressor), se infiltra em espaços de articulação de lutas e ideias com o intuito de liderar e alimentar o próprio ego, trata opiniões e sentimentos de mulheres com indiferença, isola e difama quem for “perigosa”, prega o ~poliamor~ e outras práticas ~livres~ apenas para se isentar de responsabilidades e cuidados com outras pessoas, mistura frustração sexual com política e influência com coação, etc, etc, etc. Aprendi, depois de quebrar a cara algumas vezes com diversos homens (e que já foram inclusive defendidos por mim – quem nunca iuzomou que atire a primeira pedra), como é fácil simular um discurso. E é benéfico pro cara. Ele não apenas paga de engajado, como ainda ganha estrelinha por ser, awn, tão bonzinho. Porém, acaba sendo muito do que ele mesmo critica. Pra esse tipo, nossas causas são meros fetiches intelectuais.

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ZzzzzzzzzZZZZZZZZZZzzzzzzzzzzzzzzzzzzz………………….

5) RECUSAM O USO DO PRESERVATIVO

Estatísticas mostram que homens são resistentes em relação ao uso do preservativo. Basta uma googlada para ter acesso a dados diversos e dicas sobre como ~convencer~ o cara usar camisinha, aff. Cem entre cem mulheres que já conversei, que se relacionam com homens, reclamam disso. Os motivos são muitos: “a camisinha não cabe”, “eu broxo de camisinha”, “prefiro sem”, etc. Olha, nada disso é nosso problema, sabe? Mulher tem que ser “mãe” até na hora do sexo? Porque, assim, tem cara que não sabe procurar uma camisinha mais fina sozinho (para algumas pessoas, elas aumentam a sensação de prazer), um psicólogo (certa vez, a mãe de uma amiga, que é sexóloga, disse que grande parte dos problemas de ereção e ejaculação precoce são psicológicos) ou qualquer outra coisa que possa ajudar. Vivemos em uma sociedade falocêntrica que coloca a penetração como a representação máxima do ~fazer sexo~ e com certeza é algo que precisa ser desconstruído. Mas, enquanto isso, não forcem a barra e nem coloquem a saúde de mulheres em risco, caras. Muito menos tentem colocar nelas a culpa dos seus problemas. E gravidez também é um risco de relações sexuais sem preservativo, né? Nem toda mulher pode/quer tomar pílula ou faz uso de algum outro método anticoncepcional.

Clique aqui para acessar o Portal sobre aids, doenças sexualmente transmissíveis e hepatites virais do governo, para saber mais sobre doenças, postos de saúde, distribuição gratuita de medicamentos e preservativos e afins.

Aproveitando a oportunidade, é sempre bom lembrar:

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6) SÃO PAI-QUANDO-DÁ 

O texto Pai quando dá (clique aqui para ler) é certeiro. Conheço bem vários deles. O pai-quando-dá aparece em ocasiões especiais, não faz esforços para ajudar na criação dos filhos e tem sempre outras prioridades quando o assunto é dinheiro. E eles não existem apenas em relações com pais separados. Em lares em que os pais e mães estão juntos acontece bastante de a mãe (e/ou, infelizmente, babás e empregadas domésticas) cuidarem, educarem e alimentarem as crianças, enquanto os pais só aparecem para dar bronca ou brincar um pouquinho. Esse tópico casa com o primeiro: cuidar dos filhos também é dividir tarefas. Mulheres não têm a obrigação de abdicarem da própria vida em favor dos filhos, embora isso seja um mito corrente (e que, mais uma vez, mantém o privilégio masculino). Um fator curioso que já observei é que, com a internet e suas facilidades, tem muito pai-quando-dá que acha que basta postar uma foto do filho ou filha e dizer “PAPAI T AMA NHOMM” para que o mundo acredite em sua ótima atuação na vida desta criança (vejo alguns que sequer moram na mesma cidade que os filhos e não fazem esforço algum para visitá-los usando esse artifício). Só que, opa amigão: like no Facebook ou coraçãozinho no Instagram não coloca leite na mamadeira e nem faz criança dormir, ok? Paternidade acontece na prática, não basta falar sobre o filho.

7) ESTUPRAM

Segundo o Dossiê Mulher 2014, divulgado em agosto deste ano, no estado do Rio de Janeiro, 4.872 mulheres foram estupradas em 2013. Isso significa 13 mulheres atacadas por dia, ou uma a cada duas horas. Com base em informações de 2011 do Sistema de Informações de Agravo de Notificação do Ministério da Saúde (Sinan), pesquisa do IPEA lançada no início deste ano (que causou polêmica por seu resultado – que gerou a campanha “Eu não mereço ser estuprada” – e por errata publicada depois) estima que no mínimo 527 mil pessoas são estupradas por ano no Brasil e que, destes casos, apenas 10% chegam ao conhecimento da polícia. 
Segundo registros do Sinan, 89% das vítimas são do sexo feminino e possuem, em geral, baixa escolaridade. Do total, 70% são crianças e adolescentes. Infelizmente, a ideia geral que se tem é de que um estuprador é aquele cara que sai do mato com um facão, bate na mulher e a obriga a manter relações sexuais com ele. No entanto, isso serve apenas para esconder a realidade: familiares, amigos, vizinhos e outras pessoas próximas oferecem tanto ou mais risco quanto um estranho. E nem sempre a coação envolve força física. Pode envolver chantagem emocional, ameaça, entre outras coisas. Se a pessoa disse não, é estupro. Se a pessoa não tinha condição de dizer não (estava bêbada, dormindo, drogada, é jovem demais e/ou se sentiu intimidada, etc), é estupro. Se ela foi, de alguma forma, forçada, coagida, chantageada, humilhada, ainda que sutilmente, é estupro também.

“O que ainda precisa ser feito? Pensar sobre ajudar vítimas de estupros é uma coisa; pensar sobre acabar com o estupro é outra. E nós precisamos acabar com o estupro. Nós precisamos acabar com o incesto. Nós precisamos acabar com os espancamentos. Nós precisamos dar fim à prostituição e precisamos dar fim à pornografia. Isso significa que nós precisamos nos recusar a aceitar que esses são fenômenos naturais que simplesmente acontecem porque algum cara está tendo um dia ruim”

Trecho do discurso Relembre, resista, não se conforme, de Andrea Dworkin. Clique aqui para ler na íntegra.

8) PRATICAM VIOLÊNCIA DOMÉSTICA 

“A violência contra as mulheres constitui-se em uma das principais formas de violação dos seus direitos humanos, atingindo-as em seus direitos à vida, à saúde e à integridade física. Homens e mulheres são atingidos pela violência de maneira diferenciada. Enquanto os homens tendem a ser vítimas de uma violência predominantemente praticada no espaço público (minha observação: praticadas por eles mesmos e por instituições compostas e legitimadas por eles), as mulheres sofrem cotidianamente com um fenômeno que se manifesta dentro de seus próprios lares, na grande parte das vezes praticado por seus companheiros e familiares. A violência contra as mulheres em todas as suas formas (doméstica, psicológica, física, moral, patrimonial, sexual, tráfico de mulheres, assédio sexual, etc.) é um fenômeno que atinge mulheres de diferentes classes sociais, origens, idades, regiões, estados civis, escolaridade, raças e até mesmo a orientação sexual” — Leia a cartilha Política Nacional de Enfrentamento à Violência Contra as Mulheres na íntegra clicando aqui.

Preciso falar mais?

9) PEDOFILIA E OUTRAS PARAFILIAS

Já li diversas definições para parafilias: perversões, desvios sexuais, preferências anormais, etc. Essa matéria aqui explica um pouco o que são e categoriza algumas. No entanto, esquece de citar coisas importantissímas: são os homens os maiores “portadores” de parafilias, digamos assim. E muitas dessas parafilias envolvem dominação, subjugação, humilhação e tal. Como no caso dos que colocam a pedofilia em prática, dos que exibem suas partes íntimas em público sem o consentimento alheio, se esfregam e/ou se masturbam em cima de mulheres no transporte público e em outros lugares (também sem consentimento). Sem contar os que usam animais ou corpos de pessoas mortas. Ewww. Olha, eu acredito que, no caso dos seres humanos, sexo deve ser praticado com quem tem capacidade de dizer sim. Ou seja, entre pessoas. Vivas. E entre pessoas vivas que possuam idade/maturidade para consentir conscientemente – embora as relações hierárquicas de nossa sociedade torne até mesmo o consentimento de pessoas adultas questionável, caso elas estejam em situação de vulnerabilidade. Vejam bem, até respeito quem curte lamber uns pés, por exemplo, ou se excita vendo balões. Mas usar crianças, animais, pessoas distraídas, desacordadas… Mortas. NÃO! E não entendo como as parafilias, como um todo, são tratadas como situações individuais e não uma questão social que, de alguma forma se relaciona com o modo que a masculinidade é construída — uma construção que de certa forma diz ” é seu direito acessar os corpos que quiser, como quiser”. Esse é um assunto que eu gostaria de outras visões, aliás, pois comecei a pensar sobre não tem muito tempo.

10) COMETEM FEMICÍDIO

“No Brasil, entre 2001 a 2011, estima-se que ocorreram mais de 50 mil feminicídios: ou seja, em média, 5.664 mortes de mulheres por causas violentas a cada ano, 472 a cada mês, 15,52 a cada dia, ou uma morte a cada 1h30. (…) Isto porque além do elevado número de assassinatos por causas violentas – critério adotado no levantamento para indicar o feminicídio – o estudo constatou que o perfil dos óbitos é, em grande parte, compatível com situações relacionadas à violência doméstica e familiar contra a mulher e poderiam ter sido evitadas. Um indicativo nesse sentido é que quase um terço dos óbitos  teve o domicílio como local de ocorrência. (…) “Essa situação é preocupante, uma vez que os feminicídios são eventos completamente evitáveis, que abreviam as vidas de muitas mulheres jovens, causando perdas inestimáveis”, aponta a pesquisa, realizada com base na avaliação e correção de dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde. (…) O feminicídio é definido como crime de homicídio resultante de violência contra a mulher e é caracterizado em quatro circunstâncias: violência doméstica e familiar; violência sexual; mutilação ou desfiguração da vítima; emprego de tortura ou qualquer meio cruel ou degradante” — Leia mais aqui.

Martela, martela, martela o martelão, batendo a mãozinha, na palma da mão

Martela, martela, martela o martelão, batendo a mãozinha, na palma da mão

Bom, tentei ser breve e sucinta (e falhei *risos nervosos*). Com certeza muitas informações poderiam ter sido acrescentadas. Mas espero que este breve apanhado tenha ficado claro. Peguem os seus martelos e entrem no bonde, migas. E continuem acrescentando itens a lista nos comentários! 🙂