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DEZ COISAS QUE NÃO CAUSAM ESTUPRO

O estupro é uma violência que possui dois lados. A sociedade trata a questão como um crime horrível, pelo menos na teoria e se a situação envolver uma “vítima perfeita”. No entanto, uma simples lida nos jornais diários mostra os inúmeros casos de crianças, adolescentes e mulheres sendo estupradas por familiares, amigos, desconhecidos, colegas de trabalho ou conhecidos da igreja, faculdade, balada, entre outros (pena que a abordagem no geral é tão sensacionalista e pouco profunda nas raízes da questão). Pessoas do sexo masculino são as que mais cometem esse tipo de agressão e pessoas do sexo feminino são as que mais sofrem – o que não impede que existam situações em que violências sexuais ocorram seguindo outro roteiro.

A discussão sobre o assunto acontece por vários meios, informalmente ou de modo organizado. Porém, muitos preconceitos e simplismos acabam sendo disseminados nesse debate, e questões importantes são deixadas de lado. Por isso, vou abordar aqui neste post as dez hipóteses mais estúpidas entre as que já li como as possíveis causas de estupro (mas existem muito mais), e propor uma conversa mais centrada na realidade: a culpa é sempre do estuprador. E ponto final.

1) Roupa curta não causa estupro

Isso é um consenso que feministas estão cansadas de repetir: a mulher tem o direito de usar a roupa que quiser. Pode ser um vestido rosa e curtinho, tipo o da Geisy Arruda, biquíni grande ou fio dental, burca, camiseta larga, shortinho, saia longa ou qualquer outro tipo de vestimenta. Achou o look feio, bonito, atraente, repulsivo, muito descolado ou super brega? Problema seu. Se você for homem, deixe esse espírito de predador sexual com pinceladas de crítico de moda no armário, porque roupa não justifica agressão. Se for mulher, não jogue pedras nas outras para provar o próprio valor ou achar que isso vai te proteger de alguma coisa (spoiler: não vai). E a tentativa de encontrar alguma desculpa que tire a culpa do estuprador e transfira para a roupa da vítima é uma forma de naturalizar não apenas o comportamento violento do homem, mas a ideia de que respeito é algo que a mulher deve “merecer” para ter. Sem contar que pessoas usando todos os tipos de roupa aqui citados já foram estupradas, o que mostra que o problema está muito além de qualquer vestimenta.

2) Bebidas ou drogas não causam estupro

Muita gente acha que uma mulher alcoolizada ou sob efeito de drogas “merece” ser estuprada. Aposto que, alguma vez na vida, você já ouviu alguém falar que “cu de bêbado não tem dono”, não é mesmo? Se as pessoas começassem a frequentar botecos e baladas com o intuito de buscar homens bêbados para serem empalados com cabos de vassoura, isso não seria uma violência terrível? No entanto, por que mulheres na mesma situação são estupradas com o aval da sociedade? Pessoas bebem ou consomem substâncias para se divertir, afogar as mágoas, por vício, depressão ou outros motivos, e você não precisa concordar com isso – dá para problematizar o uso de álcool e drogas por um ângulo de saúde pública ou do tráfico, por exemplo. Mas culpar uma vítima de estupro que estava entorpecida é, mais uma vez, defender o estuprador e a ideia de que homem é um animal descontrolado.

No mais, uma pessoa viciada precisa de ajuda, uma pessoa dormindo precisa de sono e uma pessoa com a consciência alterada não consegue responder por si mesma. De novo: desliga aí o suposto instinto predador, homem, porque sexo nessas condições não é ‘sexo fácil’, é estupro mesmo (caso sua empatia falhe ainda assim, aqui vai mais um incentivo: e é crime). E se você tem impulsos agressivos e violentos quando usa alguma coisa (ou não), procure ajuda (ou se tranque em casa, obrigada). Ah, vale lembrar que alguns caras colocam sedativos na bebida de mulheres ou as obrigam a inalar substâncias entorpecentes também – algo que, somado à violência sexual que sucede tais práticas, contabiliza uma dupla quebra de consentimento.

3) Ruas pouco movimentadas também não causam estupro

Vários fatores tornam a rua um ambiente inseguro para mulheres: homens, primeiramente, e coisas como iluminação ruim, falta de movimento e de segurança, demora no transporte público e outros itens que as colocam em situação de vulnerabilidade. Portanto, o ideal é que sejam elaboradas estratégias de educação e segurança pública que tornem a rua um espaço menos hostil para pessoas do sexo feminino. Tenho uma fantasia que envolve um toque de recolher para homens até que eles, enquanto categoria, se eduquem, rs. Mas tô brincando. Queria mesmo era um monte de poste, gente e ônibus pra todo lado e, principalmente, pessoas com a consciência humana aflorada.

E vale lembrar que a ideia do estupro como algo que só acontece em um local ermo, com um cara ameaçando a mulher com uma faca, não é necessariamente o retrato fiel da situação: muitos algozes estão dentro da casa da vítima ou nas redondezas, o que significa que ~tomar cuidado por onde se anda~ não é sempre o necessário para evitar uma agressão sexual (mas a gente toma mesmo assim).

4) A falta de uma ~bola de cristal~ não causa estupro

Algumas vítimas são cobradas por não terem se preparado para enfrentar a agressão sexual e escutam coisas como: “mas por que você não gritou?”, “devia ter saído correndo”, “não percebeu que ele ia chegar perto de você?”, “você não anda com spray de pimenta na bolsa?”, “por que ficou sozinha em casa com ele?”, “não sabia que isso podia acontecer?” e etc. Frases do tipo não fazem o tempo voltar, cada pessoa tem uma reação diferente quando está em perigo e existem casos em que não é muito seguro reagir a uma situação de violência (e não tem como saber, de antemão, quais). Não vamos cair, mais uma vez, na armadilha de culpar quem não tem culpa. No caso de estupros cometidos por amigos, parentes ou vizinhos, como a vítima iria descobrir as reais intenções de homens, teoricamente, “de confiança”? E se a violência for cometida por um estranho em um local inusitado ou em uma situação inesperada, como a vítima poderia adivinhar? E tem mais: nem sempre um estupro acontece de forma explícitamente agressiva. Cada caso é um caso – e o que todos possuem em comum é que a culpa não é da vítima. E não existe uma bola de cristal capaz de prever quando um estupro pode ocorrer.

5) Crise ou pobreza não causam estupro

Lembram quando o responsável pela Secretaria de Segurança de São Paulo, Mágino Alves Barbosa Filho, falou que a crise econômica tem a ver com estupro, porque o cara acaba ficando frustrado demais, sem emprego, bebendo e cometendo esse tipo de coisa?  Isso é uma estratégia que busca voltar o debate público para a criminalização de pessoas pobres, e não para a busca de soluções efetivas para os problemas que as mulheres enfrentam. Breaking news: filhinhos de papai que nunca precisaram sequer pensar em trabalho também estupram. Jovens universitários de classe média também estupram. Autoridades de governo também estupram. Cantores famosos também estupram. Filhos de donos de grupos de comunicação também estupram. Sabe o que não estupra? Ah, essa pergunta eu deixo no ar…

Essa relação entre pobreza e violência já foi desmistificada pelas ciências sociais há pelo menos três décadas. A socióloga feminista Helleieth Saffioti bem dizia que a violência contra a mulher é extremamente democrática porque ela atinge a todas as classes sociais.

Um homem que perde o emprego não é um estuprador em potencial. Homens numa sociedade patriarcal são estupradores em potencial porque têm uma certa legitimidade social (ainda que não legal) para violar os direitos de uma mulher, violar sua integridade e sua dignidade, seu corpo e sua vida. O que acontece em geral é que nas classes altas, a violência contra a mulher e o estupro são escondidos sob um manto de hipocrisia e dupla moral, onde não se registra, não se denuncia e não se expõe homens ricos, homens de altos cargos, frente a suas práticas violentas. Existe um silêncio e uma impunidade brutal com um professor universitário, um juiz, um político – o que não acontece com um pedreiro, um motorista de ônibus ou um trabalhador das classes populares, por exemplo.

Izabel Solyszko, feminista, assistente social, professora e doutora em Serviço Social pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Leia mais opiniões de especialistas aqui. 

6) Funk não causa estupro

Esse é outro argumento que tenta colocar pessoas negras e pobres como as únicas culpadas por agressões sexuais. O objetivo, mais uma vez, não é o bem-estar de mulheres, mas calar a cultura que surge na periferia, encarcerar essas pessoas e criar uma diferenciação entre os “homens de bem e civilizados” e os estupradores. No entanto, a lista de astros do rock que cantam letras machistas de música – e/ou estupraram adolescentes e mulheres  – é grande, por exemplo. Não precisa nem ser um astro, o meio independente está cheio desses exemplares também. Música popular brasileira, música brega, sertanejo, música pop… Se a gente cavar, acha coisas problemáticas em todos os estilos. Não estou dizendo que não existam funks machistas e com letras horríveis, ou funkeiros com comportamentos questionáveis, só quero chamar atenção para o fato de que isso não é exclusividade do gênero – que, como todos os outros, tem partes ruins e boas.

Existe um machismo no funk que não é exclusivo no funk. É que sua linguagem é muito direta em relação a tudo. Não há floreio, a batida é reta, seja para falar de amor, sexo e violência. É sempre uma linguagem muito direta, o papo reto, como dizem. Com o machismo, não é diferente. E existe uma reação escancarada a ele. Com as mulheres falando de sua liberdade sexual, da escolha de parceiros, sobre o que fazer com o corpo e exercitar seu desejo. E elas abordam todos esses assuntos em um ambiente masculino, como é o da música popular — ressalta Adriana [Facina, antropóloga e professora da UFRJ], que destaca a ascensão das mulheres dentro do cenário funk nos últimos anos. Leia mais aqui.

7) Não é a falta de armamento que causa estupro

Mais uma vez, a pauta conservadora tenta cooptar os debates feministas. Alguém realmente acha que é assim que as coisas vão ser resolvidas? A jornalista Nana Queiroz pesquisou o assunto e constatou o que a gente já imaginava: essa não é a solução. Muitos estupradores são pessoas próximas, o fator “surpresa” dos ataques dificulta a ação, mulheres são socializadas para serem mais passivas e, quando em ambientes violentos, assimilam aquela situação como normal, entre vários outros fatores. Leia a matéria aqui.

Uma sociedade toda armada mas carregando os mesmos valores de sempre vai resultar em um constante tiroteio, gente. Só isso. Antes de qualquer coisa, temos que começar grandes campanhas nacionais para discutir sobre papeis de gênero e afins. E, de acordo com a jornalista, “a maioria dos casos de estupro à brasileira não é fruto de problemas de segurança pública, mas de uma cultura machista que prega um poder do homem sobre a mulher. O crime de estupro tem uma característica no Brasil: a cifra negra. A expressão ‘cifra negra’ significa que um número muito pequeno de ocorrências de um determinado crime chega ao conhecimento das autoridades. Deste já pequeno número, uma ínfima parcela chega ao conhecimento do judiciário, e uma menor ainda resulta em condenações”.

8) ~Excesso de libido~ masculina não causa estupro

Não é o ~excesso de desejo~ masculino que faz com que as mulheres sejam estupradas (aliás, engraçado como são as feministas as que mais batem na tecla de que os homens não são “animais irracionais” e as mais acusadas de vê-los como tais). A sexualidade do ser humano é um terreno complexo e envolve mais do que a mera vontade de transar. Existe toda uma construção de ideias anterior ao ato sexual – e à violência sexual também – que faz com que o sexo seja algo que vai muito além dos órgãos genitais. Portanto, propostas que envolvem a castração química, por exemplo, vindas de pessoas que querem impedir que a sociedade discuta e debata questões de gênero, ainda por cima, estão muito mais perto de algum tipo de fetiche com violência e tortura do que de empatia com vítimas de estupro.

Em uma reportagem do Uol, o psiquiatra Danilo Baltieri, coordenador do Ambulatório de Transtornos da Sexualidade da Faculdade de Medicina do ABC, afirma que o termo “castração química” é, inclusive, mentiroso. O que ocorre, na realidade, é uma diminuição de impulsos sexuais. Porém, o interesse continua. “Em casos de estupradores não é apenas uma questão orgânica que importa, o problema também é ‘intelectual’. É claro que a castração não cura, não transforma a ideologia. Mesmo se não tiver ereção, o agressor pode praticar violência sexual de outras maneiras”. Leia a matéria completa aqui 

9) Vida sexual ativa não causa (nem justifica) estupro

Vamos deixar uma coisa bem clara: sexo é o encontro de corpos que se desejam mutuamente. Se não existe consentimento de alguma parte, é estupro. Mesmo que esses corpos já tenham se desejado mutuamente em alguma ocasião anterior, é preciso que o acordo seja reafirmado a cada novo encontro. E se esses corpos já estiveram com outros corpos, não significa que vão querer estar com todo mundo que aparecer pela frente. Tem homem que acha que mulher é igual máquina de refrigerante: se ela já transou com ele ou com outras pessoas alguma vez na vida, ele tem direito a refil automático. Não é assim mesmo. Sexo não é uma obrigação, e sim uma escolha autônoma.

Tem gente que diz coisas tipo “ah, mas ela nem era virgem” e eu sempre fico meio chocada, me perguntando em que século pessoas assim vivem. Vasculhar o passado sexual de vítimas de estupro é reafirmar o corpo da mulher como público e violável. Essa imposição histórica não é natural e, por isso, a luta que busca construir a equidade de gênero e destruir a misoginia (que tem bases profundas na inferiorização do corpo do sexo feminino) é fundamental. E tem mais: mulheres não dizem não querendo dizer sim. Não é não, e não importa o que elas já fizeram antes na cama (ou no chão, no sofá, na barraca de camping ou na areia).

10) Estupro não tem nenhuma justificativa aceitável, na verdade

Falamos em ~construção social~ com o intuito de não essencializar comportamentos ruins, porque acreditamos na possibilidade de humanidade em vocês, homens (algo que, infelizmente, não parece recíproco em muitos momentos). Logo, não acreditamos que um rapaz nasça automaticamente querendo fazer mal às mulheres e sim que ele cresce absorvendo mensagens diversas — da religião à pornografia, passando por esferas como arte, medicina, música, ambiente de trabalho e outros — onde uma hierarquia sexual existe e ele precisa reforçar a própria masculinidade, bem como estreitar laços com outros caras e demarcar seu papel de ‘poderoso’ (no âmbito do controle do espaço público e dos corpos femininos pelo menos) por meio de práticas que inferiorizem e subjuguem o sexo feminino. Por isso, nós, mulheres, precisamos urgentemente do reconhecimento de que somos humanas também.

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Crédito: Eduardo Valente

E se fosse haver algum apelo ou alguma questão nesse grito, seria essa: por que vocês são tão lentos? Por que vocês demoram tanto para entender as coisas mais simples – não as ideologias complicadas. Vocês entendem essas. Mas as coisas simples, os clichês. Que as mulheres são humanas precisamente no mesmo degrau e qualidade que vocês são.

(…) O poder exercido pelos homens no dia a dia é um poder institucionalizado. É protegido por lei. É protegido pela religião e pela prática religiosa. É protegido pelas universidades, que são fortalezas da supremacia masculina. É protegido pela polícia. É protegido por aqueles que Shelley chama de “os legisladores não reconhecidos do mundo”: os poetas, os artistas. E contra todo esse poder, nós temos silêncio.

É uma coisa extraordinária tentar entender e confrontar o motivo pelo qual os homens acreditam – e eles acreditam – que eles têm o direito de estuprar. Eles podem não acreditar quando perguntados diretamente. Quem aqui acha que tem o direito de estuprar, por favor levante a mão. Poucas mãos vão subir. Mas é na vida que os homens acreditam que têm o direito de forçar sexo – que eles não chamam de estupro. E é algo extraordinário tentar entender que homens realmente acreditam que têm o direito de bater e de machucar. E é igualmente extraordinário tentar entender que homens realmente acreditam que têm o direito de comprar o corpo de uma mulher para fazerem sexo – e que isso é o seu direito. E é também surpreendente tentar entender que os homens acreditam que essa indústria de 7 bilhões de dólares, que traz vaginas para as suas vidas, é algo a que eles têm direito.

(…) Eu acho que, se você quer olhar para o que o sistema faz com você, então é aqui que você deveria começar: as políticas sexuais da agressão, as políticas sexuais do militarismo. Os homens estão com medo dos outros homens. Isso é algo que muitas vezes vocês tentam discutir em grupos pequenos, como se, caso mudassem suas atitudes uns com os outros, deixariam de sentir medo.

Mas enquanto sua sexualidade tiver relação com agressão, enquanto seu senso de direito sobre a humanidade significar ser superior a outras pessoas – e tem tanto desprezo e hostilidade nas suas atitudes com mulheres e crianças – como vocês podem não ter medo? Eu acho que vocês percebem, corretamente, mesmo sem conseguir lidar com isso de forma política, que homens são perigosos: porque vocês são.

Andrea Dworkin. Trechos de discurso feito em em 1983, intitulado “Eu quero 24 horas sem estupro”. Leia aqui.

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8 de março: apagamento histórico

Flores, bombons, cursos de automaquiagem e homenagens que exaltam a beleza, a delicadeza e a generosidade feminina são coisas que começam a pipocar para todo lado assim que o calendário marca 8 de março, data celebrada como o Dia Internacional da Mulher. Observando superficialmente, parece tudo muito bonito e até bem-intencionado, afinal, precisamos presentear e enaltecer essas guerreiras que conseguem trabalhar fora, cuidar dos filhos, dos maridos e da casa, né? E elas fazem tudo isso de salto alto, ainda por cima! Que legal… Será?

É importante contextualizar que a data surgiu no início do século XX com o intuito de gerar reflexões sobre a luta de mulheres operárias que reivindicavam melhorias de vida por meio da garantia e expansão dos próprios direitos. Pouco antes desse período, trabalhadoras de fábricas têxteis, por exemplo, chegavam a passar até 16 horas por dia na labuta – e recebendo, muitas vezes, menos da metade do salário dos homens. A ideia da homenagem surgiu em 1910, a partir de uma sugestão da professora, jornalista e política alemã Clara Zetkin durante a Segunda Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, na Dinamarca.

No entanto, o que acontece hoje em dia é um apagamento histórico desse cenário de luta em prol do consumo e da manutenção de valores que, há muitos anos, diversos grupos de mulheres tentam derrubar. O ato de entregar medalhas àquelas que aguentam jornadas triplas de trabalho e se submetem ao rigoroso padrão de beleza, por exemplo, é uma forma de naturalizar toda a pressão colocada nas costas femininas como algo aceitável e, até mesmo, positivo. Elogiar “boa aparência” e “bom comportamento” é o outro lado de quem xinga mães que frequentam festas; critica esposas que quiseram se divorciar de maridos violentos ao invés de aguentar tudo de forma altruísta, colocando uma relação ruim acima do próprio bem-estar; censura estudantes que denunciam abusos de colegas e professores; chama de “exagerada” a amiga que manifesta desconforto perante comentários machistas e assim vai. A “mulher de verdade” é a que come pouco, mas compra muito, fala quase nada, mas faz bastante coisa (pelos outros, principalmente). Essa sim é celebrada. Mas ela existe?

Plantar a insegurança feminina e depois vender a solução para a vida das mulheres por meio de produtos estéticos e domésticos é a solução perfeita… Para o bolso das empresas. Pra que falar de “coisas chatas”, como divisão de tarefas do lar? Vamos vender aparatos que facilitam a vida da “dona de casa” (e, na verdade, acabam virando mais louça para ela lavar e mais entulho guardado na cozinha). Pra que falar de melhorias nas condições de emprego para mulheres? Isso só vai colocar mais coisa na cabeça dessas empregadas “folgadas” que, vejam só, têm a coragem de querer a própria carteira de trabalho assinada!

O incentivo ao consumo desenfreado e a homenagem genérica e vazia de sentido que a cooptação do 8 de março propõe não cria apenas um nicho muito lucrativo, mas funciona também como estratégia de marketing empresarial ou pessoal para quem quer fingir preocupação com mulheres sem precisar fazer nada que realmente mexa nas estruturas que emperram a vida delas. Chefes, filhos, maridos, pais, irmãos, netos e amigos podem expiar toda a culpa de serem negligentes ou sobrecarregarem as mulheres que convivem com o simples ato de depositar dinheiro em um objeto que represente a importância e o valor da homenageada. Dessa maneira, ações que dependem também de todos aqueles que estão ao redor da mulher saem de cena à francesa. Reflexões e mudanças de atitude não são consideradas tendências porque não são comportamentos vendáveis – e ainda flertam com terrenos perigosos, como o despertar coletivo de consciências.

Texto publicado originalmente na coluna ‘Água & Óleo’ da Revista Traços, na edição de março de 2016. Por conta da limitação de caracteres, o foco foi no apagamento geral e na cooptação mercadológica do dia. No entanto, existem outros aspectos importantes a serem abordados quando se aprofunda no tema, como a historicidade da data (antes Dia da Mulher Trabalhadora), ou a questão das mulheres negras e o trabalho forçado, que acaba naturalizado em seu esquecimento (na mesma coluna e mesma edição, a militante negra e feminista Dalila Fernandes escreveu sobre isso), entre outros. 

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TODA MULHER É LOUCA

Certos homens agridem as namoradas na maior cara de pau, e falam da amiga louca. Disseminam preconceitos estéticos e raciais, disfarçando tudo isso de “gosto pessoal”, e falam da professora louca. Saem com qualquer uma que conhecem em qualquer lugar, e falam da colega de trabalho louca. Enchem a cara e agem feito uns idiotas, e falam da esposa louca. Praticam sexo não consentido com mulheres desacordadas ou vulneráveis –  vulgo estupro, sabe? – e falam da irmã louca. Não desfazem laços com caras que já fizeram o mesmo (e os legitimam socialmente), e só julgam a cunhada louca. Desumanizam as garotas com quem saem, separando-as entre as que merecem respeito e as que não merecem, e falam da mãe louca.  Arrumam briga e promovem atos violentos por motivos banais e fúteis, mas louca é aquela tia distante, que vez ou outra vem visitar. Chegam a machucar e até a matar mulheres e também outros homens, simplesmente porque não sabem lidar com diferenças e frustração, mas o foco da conversa? É a ex-namorada louca, claro. Abandonam a família, e apontam o dedo para a cantora louca. Incentivam a rivalidade feminina, fazem comparações entre mulheres e chamam de louca aquela garçonete que trabalha o dia inteiro no restaurante da esquina. Não lavam uma louça, e reclamam da diarista que aparece toda segunda-feira, que é louca. Apesar de adultos, namoram meninas adolescentes e facilmente manipuláveis – e diz para elas tomarem cuidado com as colegas de classe, que são loucas. Fingem que são bonzinhos e abusam de crianças, e falam da ativista louca. Se fazem de pobres coitados, frágeis, abandonados e doentes, mas a prima é que é louca. Exploram funcionários e chamam isso de trabalho, e falam da avó louca. Assediam mulheres em shoppings, hospitais e igrejas, e riem da moradora de rua louca. Dirigem rápido, achando que a vida é um filme de ação, e conversam sobre a vizinha louca. Fazem sexo que nem uma britadeira descontrolada, achando que os ensinamentos da pornografia são válidos, e falam da dentista louca. Aprisionam mulheres em relacionamentos “livres”, e falam da dona de casa louca. São incapazes de demonstrar afeto sem ironia ou constrangimento… E falam que todas, todas, todas, todas, todas as mulheres ao redor, por algum motivo, são loucas.

Desconfiem de adjetivações genéricas, reducionistas, preconceituosas e sem fatos ou análises embasadas como foco. E, não esqueçam: a louca que hoje você ajuda a isolar por acreditar que isso te dará algum tipo de proteção pode ser você amanhã. Mulheres são historicamente taxadas de loucas como forma de controle e dominação. Toda mulher que coloca o privilégio de um homem em risco ou quer romper com as sufocantes regras sociais impostas ao sexo feminino é vista como errada ou perigosa.

Na maioria das vezes, não basta apenas olhar para onde os dedos apontam. É preciso observar também de quem é a mão.

katrene

pintura de kat renee // katrenee.com
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Pessoas brancas criticando “Feminismo Branco” perpetuam privilégio branco

O texto a seguir foi escrito em 2015 por Claire Heuchan, autora do blog Sister Outrider. Feminista radical, negra, lésbica e escocesa, ela é também mestranda em literatura com ênfase em estudos de gênero, e sua pesquisa se foca em Teoria Feminista Negra, ativismo e escrita. Se você lê em inglês, vale a pena procurar outros textos dela por aí. A tradução foi feita por mim e pela Carol Correia, que tem feito um ótimo trabalho em traduzir materiais do inglês para o português com o intuito de disseminar mais informações sobre feminismo em nossa língua. 

Gostei do texto por ser curto e direto. E é um convite à reflexão para as feministas brancas. Lutar contra o racismo é um papel de todas nós, mas é preciso uma postura ativa, que promova mudanças reais e eficazes. Não adianta só repetir palavras vazias e discursos simplistas. O racismo é um sistema complexo que embasa a nossa sociedade e precisamos entendê-lo para exterminá-lo. E é um assunto que deve ser tratado com seriedade, e não como um mero atalho para impulsionar a própria imagem de forma positiva. Boa leitura!

Se você se envolve em discussões feministas online, as chances são que você já tenha notado uma expressão particular se tornando cada vez mais comum: Feminismo Branco. Algumas vezes até mesmo um símbolo de marca registrada é adicionado, para dar ênfase. O termo Feminismo Branco tornou-se uma abreviação para certas falhas dentro do movimento feminista;  das mulheres com um determinado grau de privilégio falhando em escutar as irmãs mais marginalizadas; das mulheres com um determinado grau de privilégio falando por cima dessas irmãs; das mulheres com um determinado grau de privilégio centralizando o movimento ao redor de problemas que abrangem apenas a gama das próprias experiências delas. Originalmente, o termo Feminismo Branco era utilizado por mulheres não-brancas para abordar o racismo dentro do movimento feminista – uma crítica válida e necessária.

Ainda que mulheres brancas estejam em desvantagem pessoal e política por conta da ordem social vigente construída em cima de misoginia, elas também se beneficiam com o racismo institucional – queiram elas ou não.  Mesmo mulheres brancas com firmes políticas contra o racismo não podem excluir que se beneficiam do privilégio branco; que mulheres brancas recebem mais (embora deficiente) visibilidade da mídia do que suas irmãs negras e de minorias étnicas; que existe uma diferença salarial extensa em relação às mulheres não-brancas e que existe um aumento significativo do risco de violência policial que molda a realidade vivida por mulheres negras. É assim que o privilégio branco funciona. Nós vivemos em uma cultura impregnada de racismo, com uma grande quantidade de riqueza do nosso país decorrente do tráfico de escravos. Bem como a misoginia, leva-se muito tempo e reflexões conscientes para desaprender o racismo. É um processo de aprendizagem no qual nunca nos graduamos totalmente. Mulheres não-brancas desafiando o racismo de dentro do movimento feminista nos dá a oportunidade de conscientemente nos desligarmos de comportamentos recompensados pela supremacia branca do patriarcado.

No entanto, a expressão Feminismo Branco não está mais sendo usada exclusivamente por mulheres não-brancas para contestar o racismo que enfrentamos. Recentemente, tornou-se socialmente obrigatório para feministas brancas usarem o termo para descartar outras feministas brancas com as quais elas não concordam como incorporadoras do Feminismo Branco. As pessoas brancas começaram a chamar a atenção de outras pessoas brancas pela… branquitude. Não estou brincando. Em um artigo recente para a VICE, de alguma forma irônico, Paris Lees lamenta que “feministas brancas têm maiores plataformas de mídia…”. A artista Molly Crabapple, com plataforma de mídia e renda considerável (a não ser que se juntar à Samsung tenha sido um ato de caridade), fez tweets para invalidar pontos de vista, por conta do privilégio, das “senhoras brancas chiques“. Mas, daqui de onde estou sentada, ambas Paris e Molly parecem muito confortáveis.

Em vez de amplificar as vozes das mulheres não-brancas, ou de usar as próprias plataformas para destacar a intersecção entre raça e gênero, uma série de feministas brancas liberais sequestraram a crítica ao racismo com o intuito de dar suporte à própria imagem de progressistas – como se fossem o tipo certo de feminista, não uma Feminista Branca. Mas a cooptação da análise das mulheres não-brancas sobre o racismo dentro do movimento feminista é exatamente o tipo de comportamento para o qual a expressão “Feminismo Branco” foi criada para impedir. Pessoas brancas criticando “Feminismo Branco” perpetuam o privilégio branco. Priorizar a própria imagem, colocando-a acima da luta anti-racista liderada por mulheres não-brancas é, na melhor das hipóteses, narcisista, e na pior, racista. Essas ações apoiam a noção de que o racismo enfrentado por mulheres não-brancas é uma questão secundária, não uma preocupação principal dentro do movimento feminista.

Mulheres brancas usando o “Feminismo Branco” como uma vara para bater umas nas outras, e não como uma indução para que o próprio racismo seja considerado, é a branquitude em seu auge. Na corrida para “se lavar do privilégio”, as feministas brancas tornam-se as temidas Feministas Brancas por conta da apropriação indevida das palavras de suas irmãs marginalizadas para ganho pessoal.

Texto original aqui.

blackgirls

imagem via navy-bleu.tumblr.com

 

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Quando o “não” vira sentença de morte

Voltei de uma viagem na última sexta-feira e, assim que pisei em casa, resolvi procrastinar o momento de desfazer as malas dando aquela olhadinha nas redes sociais. Me deparei com um post muito triste de uma moça pedindo ajuda para encontrar a irmã dela, que estava desaparecida desde a noite anterior. Porém, antes que eu pudesse pensar em qualquer hipótese sobre o assunto, pipocavam comentários na postagem desejando força para a família e afins. Cliquei nas notícias linkadas e li sobre a morte cruel da jovem Louise Ribeiro, de 20 anos. A estudante de biologia foi assassinada pelo ex-namorado (e colega de curso) Vinícius Neres, de 19 anos, dentro da Universidade de Brasília (UnB). É uma história muito chocante. Fiquei muito mal, os olhos marejados, o peito apertado… Até quando um homem que não sabe lidar com rejeição e enxerga uma mulher como posse vai se achar no direito de tirar a vida dela? Quando iremos alterar o paradigma desse roteiro tão comum?

Enquanto ainda digeria o acontecido, uma história muito parecida apareceu nos jornais do Distrito Federal menos de 48 horas após a morte de Louise: a estudante de gestão pública Jane Fernandes Cunha, de 20 anos, foi assassinada pelo ex-companheiro Jhonatan Pereira Alves, de 23 anos. O cara atirou nela e, em seguida, se matou. Embora ambos os crimes sejam igualmente terríveis, o caso de Jane possui um agravante: ela já havia feito uma denúncia contra o ex na Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam) por conta de frequentes intimidações. Porém, não adiantou, como em diversos outros casos (um maior uso de dipositivos eletrônicos que apitam, como pulseiras, sendo mais utilizados em casos de medidas protetivas podem auxiliar, será? Algo precisa ser feito, é desesperador). Ele era mais um desses desequilibrados que ~não aceitam o fim do relacionamento~ e, ao invés de assistir uns filmes tristes ou buscar algum tipo de apoio psicológico, preferiu resolver as coisas da pior forma possível. E as mulheres é que são chamadas de “histéricas” e “descontroladas”… Estranho, não?

O caso de Louise está ganhando ampla repercussão por ter acontecido dentro de uma universidade, e entre pessoas muito jovens e de classe média (Jane era da periferia do DF) – e creio que também pelo fato de o assassino estar vivo e não corresponder ao estereótipo que se cria de “bandidos”. Ele tem um visual “nerd”, é frio, indiferente, bem articulado e tem sido protagonista de entrevistas enojantes onde posa feito um popstar narrando um crime brutal com a banalidade de quem está fazendo um novo show. E a mídia carniceira e sensacionalista dá corda e faz perguntas que não levam a lugar algum, desinformam e acabam por tentar tirar o rapaz do lugar que ele pertence: de assassino misógino para um “garoto perturbado”.

Precisamos conversar claramente sobre todas essas questões e acabar de uma vez por todas com o mito de que o agressor é um “monstro” ou um “doente” – a não ser que a gente comece a concordar que a masculinidade em si pode, muitas vezes, ser uma espécie de doença mental epidêmica que é instalada na pessoa do sexo masculino por meio da socialização. Se o Mapa da Violência de 2015 mostra que grande parte da violência contra a mulher – e dos assassinatos – são cometidos por familiares e ex-parceiros, isso significa que existem criminosos aos montes, eles não são exceções. Logo, invocar o “monstro” quando estamos falando de um comportamento corriqueiro é fechar os olhos para uma situação generalizada, como se apenas alguns caras estivessem fazendo algo ruim porque possuem algum problema (embora existam transtornos que façam uma pessoa matar outra, mas isso é outra questão) e não porque estão inseridos em uma cultura onde o valor da mulher é baixo.

Aliás, temos que ir mais longe e radicalizar (lembrando que “radical” tem a ver com ir até a raiz): qualquer homem que seja contra uma mulher livre e autônoma é um agressor em potencial, e isso não é uma hipérbole, mas uma realidade. São muitos os que, de forma explícita ou velada, se incomodam com a existência de mulheres que querem decidir o que fazer, o que vestir, o que estudar, onde trabalhar e com quem se relacionar. E esse incômodo resulta em um alto número de violências físicas, psicológicas e verbais contra as mulheres. Portanto, temos um problema sério em mãos a ser resolvido, e ele envolve mais do que segurança pública, melhoria nos aparatos judiciais ou iluminação nas ruas, mas também muita educação.

Quantas vezes não achamos um cara meio estranho, raivoso, machista e as pessoas ao redor tentam abafar, dizendo que ele é assim mesmo, que está só brincando, que é um pouco exagerado no modo de falar, que teve problema com drogas, está deprimido ou sofreu alguma rejeição? “Apesar de tudo, ele é gente boa”. Nananinanão, parem de inventar desculpas. Misoginia é misoginia, e esse tipo de gente ser levada a sério é um sintoma grave de que odiar mulher não tem problema algum. É um absurdo que a gente viva em uma sociedade conivente com homens que dizem que mulheres são inferiores ou devem ser submissas e que vociferam coisas como “vadias”, “putas”, “piranhas” assim que percebem que não podem controlar comportamentos e sentimentos alheios. A necessidade masculina de afirmar a própria identidade a partir da dominação do sexo feminino – e também do sexo masculino dissidente do estereótipo macho e heterossexual – é tóxica para todos os envolvidos. E a misoginia escorre por todos os lados, inclusive da boca daqueles que pregam respeito às minas, basta prestar atenção nos detalhes.

Pensando na construção histórica do que é ser mulher, que envolve a demarcação do corpo do sexo feminino como menos valioso e violável, é possível perceber que a dualidade sobre a qual somos obrigadas a caminhar desde que nascemos permite com que a gente seja qualquer coisa, menos um ser humano. De santa a puta, de vaca a cachorra, de nobre mãe a vadia degenerada, de musa a bruxa, estamos sempre nos equilibrando sobre a ponta de uma faca que, em algum momento, fura a nossa carne por conta do peso insuportável da pressão. Ou então somos punidas, de alguma maneira, por não cumprir os papeis de gênero pré-determinados. E é necessário muito pouco para ser considerada uma rebelde: ás vezes é só dizer não (aliás, vale muito a pena ler o texto “O não também nos pertence”, escrito por Thaís Campolina).

O pai de Louise disse, em uma matéria, que a jovem era muito estudiosa e não era de baladas. Infelizmente, ao contrário do que muitas pessoas pensam, não existem premissas reais que protejam a mulher de um feminicídio, ainda que ela tente ser um exemplo, uma “moça direita” ou qualquer coisa do tipo. Nascer mulher no mundo atual é um risco por si só, afinal, os homens crescem nos objetificando e achando que podem fazer o que quiser. Eles crescem pensando em carros, status, conquistas profissionais e mulheres (percebam que estamos sempre em um balaio de “coisas”), como se ter tudo o que desejassem fosse um direito garantido a todo ser do sexo masculino que ~performa~ a masculinidade.

Os caras precisam aprender a lidar com frustrações e a culpar os inimigos corretos (tem muito frustrado por questões materiais que desconta em mulher, por exemplo, quando a falta de sucesso dele é causada por um sistema desigual que visa manter o status quo – e as mulheres estão muito longe do topo desse sistema, mesmo as privilegiadas). E precisam também tirar essa visão bélica de cima dos relacionamentos, tratando tudo como uma guerra que tem que ser vencida a qualquer custo. Estar com alguém (seja em um casamento ou em uma ficada de uma noite) é uma construção em conjunto que, em um determinado momento, pode parar de dar certo.

E tem mais: quando termos como friendzone (pra quem não sabe o que é, aqui tem uma explicação com uma visão feminista) são utilizados até mesmo por homens adultos, que já estão bem longe do período da adolescência, é que é possível perceber a naturalização da mulher como objeto sexual. Oras, quem essas “vadias” acham que são para achar que merecem atenção e respeito só por serem legais e inteligentes, não é mesmo? Pra muito cara, amizade com mulher “de graça” não existe. E vários idealizam o ~pegar mulher~ desse modo descartável que a sociedade machista prega como se isso fosse um troféu, mas é uma babaquice sem tamanho, pô. Qual o sentido em perder seu tempo com pessoas que você despreza e sequer considera dignas de respeito? Isso, pra mim, é um claro sinal de ódio por si mesmo que, em algum momento, vai acabar respingando em quem está ao redor e é “inferior” (as mulheres também odeiam a si mesmas, mas isso se manifesta mais contra elas do que contra os outros – até nisso a gente sai “perdendo”).

Rejeição dói, eu sei. Quem nunca tomou um pé na bunda traumatizante que atire a primeira pedra. Mas existem bilhões de pessoas no mundo (e, com a internet, ficou ainda mais fácil acessá-las). Existem mil atividades que podem ser feitas para esfriar a cabeça. Eu entendo, teoricamente, o que move um feminicídio, o sentimento de posse e controle, mas não consigo entender, na prática. Quanto mais penso no assunto, mais meu cérebro trava. Quer dizer, um cara escolhe carregar o peso de ter tirado uma vida pelo simples fato de não saber lidar com um término? Isso é muito surreal, bobo, infantiloide, cruel e inconsequente. Não tem nada mais patético do que a necessidade de lavar a “honra” masculina, porque não lava coisa nenhuma. Só suja mais e contribui com a manutenção de um ciclo de terror e ódio.

niuma

#niunamenos – Maitena

E, como muitas feministas alertam faz tempo: comportamentos abusivos precisam parar de ser romantizados. Não é fofo um cara que dá uma crise de ciúme e puxa a mulher pelo braço pra fora de uma festa, que vigia as redes sociais da namorada, que faz chantagem emocional e tenta diminuir a autoestima de uma mina para mantê-la fragilizada e perto dele. É essa linha de pensamento que contribui com a evolução de um soco para uma facada. A ideia de amor é vendida como essa intensidade que abarca “tapas e beijos”, mas a realidade mostra que a marca dos tapas é muito mais permanente do que o alívio dos beijos. Se tem violência, não tem amor. Não existe “crime passional”, e sim feminicídio. A Lei do Feminicídio, inclusive, completou um ano recentemente e se mostra realmente muito necessária. Para entender mais e o porquê, clique aqui.

Temos que lembrar que a realidade macro é composta também a partir da catalogação de vários acontecimentos dos micro universos se repetindo e se cruzando constantemente. Tipo assim, não é uma piadinha sobre estupro que vai causar diretamente a morte de uma mulher, entende? Mas essa piada faz parte de um cenário em que a violência masculina é tida como normal, a mulher é vista como inferior, roupa curta e bebedeira são usadas como justificativas para assédio sexual, maridos se acham donos das esposas, pessoas do sexo feminino são assassinadas principalmente por homens do próprio convívio, funcionárias são contratadas pela aparência para cargos que precisam apenas de competência, agressores são acobertados, vítimas são expostas, delegacias não sabem lidar com crimes contra as mulheres (mesmo as especializadas), e assim vai. Essa lista, infelizmente, poderia ser imensa, praticamente infinita.

E o que quero dizer com tudo isso é que uma pequena coisa esbarra em outra pequena coisa e, juntas, elas se tornam uma coisa média, que se aglutina com outra e, de repente, temos uma coisa bem grande acabando com a vida de alguém. Não existem acontecimentos isolados, tudo tem uma consequência. Portanto, precisamos desmantelar desde a base uma cultura que é conivente que o estupro e a violência contra a mulher, entre outros absurdos (como racismo, homofobia e afins). Nesse quadrinho maravilhoso da Lovelove6, que desenha a Garota Siririca, é possível refletir sobre essas questões.

O Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê) da UnB contribui com a reflexão sobre a violência contra a mulher e a banalização disso em ambientes que deveriam abrigar e acolher todos os tipos de pessoas, mas acabam sendo excludentes por conta de negligência com as especificidades de cada grupo  (texto na íntegra aqui):

Nos últimos anos, a UnB vem se tornando um espaço cada vez mais marcado por casos de violência contra minorias. Tivemos o caso da “lésbica nojenta” espancada no estacionamento. Tivemos ameaça de bomba porque “na UnB só tem puta e viado”. Tivemos pichação misógina, LGBTfóbica e racista nas paredes de centro acadêmico. Tivemos trote sexista que fez calouras lamberem linguiça com leite condensado. Temos trote homofóbico que berra nos corredores do Minhocão que todo arquiteto é bicha e homem mesmo é engenheiro civil (essa escutei ontem, às 13h30, no ICC norte). Sempre – é bom ressaltar, sempre – tivemos os recorrentes casos de estupro nos matagais no caminho para a L2. Aliás, estupro em festa de CA também não é nenhuma novidade, e nunca vi a polícia dar andamento aos casos denunciados pelas vítimas. Uma vez, a administração superior (a.k.a. Ouvidoria) me informou que no caso de uma denúncia de estupro em festa feita fora da universidade não havia nada para a administração superior fazer, ainda que a festa tenha sido organizada por estudantes, divulgada por estudantes, realizada por estudantes e com o objetivo de “integrá-los”. A violência de gênero sempre esteve presente entre nós. Agora, temos um feminicídio dentro das dependências da universidade. Qual é a resposta institucional que a universidade vai tomar?

E mais: qual a resposta que nós, enquanto sociedade, daremos para essas violências? Eu quero um mundo onde as mulheres possam dizer não sem que isso vire uma sentença de morte – e que “ser mulher” não seja considerado algo pejorativo, engraçado e inferior. Por que é tão difícil assim?

karina

Imagem da artista Karina Buhr. Arte inspirada nesta notícia: http://goo.gl/4B7xns

 

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Nem santas, nem putas: apenas humanas com capacidade de sentir prazer

Quem nunca ouviu algo como “tira a mão daí, menina” ao simplesmente dar uma coçadinha na xoxota que atire a primeira pedra. A vagina, sempre tratada por eufemismos fofos e delicados ou por palavras grosseiras que remetem à esculhambação e mau cheiro, é historicamente demonizada. Por isso, quem nasceu com ela no meio das pernas consequentemente tem o desenvolvimento psicológico, emocional e, ás vezes, até físico afetado por esses conceitos deturpados, que ora infantilizam e romantizam a vagina, ora tratam ela como algo grosseiro e pecaminoso. A misoginia, inclusive, começa com o estereótipo de que vagina (e quem a possui) é inferior, suja e deve ser reprimida, o que contribui com um panorama de mulheres cerceadas não apenas sexualmente, mas em outras esferas da sociedade, como social e econômica. Afinal, se pensarmos bem, minar a autoestima de uma pessoa implantando na cabeça dela inseguranças sobre o próprio corpo – a expressão máxima da existência de alguém no mundo – é um mecanismo de controle bastante eficaz.

O Xotanás, uma parceria entre os blogs Deixa de Banca e Vulva Revolução (eu), surgiu com o objetivo de falar sobre siririca e sexualidade feminina. Mas por que? Bem, resumidamente, a Amanda teve a ideia inicial e me chamou para botar em prática com ela e, juntas, pensamos sobre o assunto. Percebemos que, embora o senso comum acredite na tal história da ~liberação sexual~ e ache que as mulheres já conquistaram tudo o que queriam (quem dera!!!), ainda vivemos dentro de um cenário em que a sexualidade da mulher é regida pelo patriarcado e pela heteronormatividade: ela precisa ser feminina (ou seja, depilada, maquiada, perfeita, sem estrias, usar roupas que realcem as formas do seu corpo – se ela for magra, claro – e inteligente, mas sem tanta opinião) e pensar no prazer do outro. Esse outro é geralmente um homem que irá mudar a vida dela ao penetrá-la com a piroca mágica dele. E a sexualidade da mulher é comumente representada dessa forma, como se o mais importante fosse ser desejada por um homem, fazer um homem gozar, estar cheirosa para um homem, homem, homem, homem…

AFF.

No entanto, recebemos mensagens tão divergentes entre si (acho que o intuito é deixar a gente doida mesmo), que ao mesmo tempo em que somos incentivadas a fazer de tudo porque, uau, liberdade é isso aí, fazer o que os caras querem na cama, ainda existe, no fundo de grande parte das relações heterossexuais, uma mitologia antiga, da mulher que é boa, casta, pura e “para casar”. E enquanto rola um bombardeio sobre as cabeças femininas com mil sugestões diferentes relacionadas a como elas deveriam se comportar, muito pouco é falado sobre a importância do autoconhecimento não apenas para a construção de uma vida sexual satisfatória, mas principalmente para o próprio bem-estar físico e psicológico da mulher, que raramente é aconselhada a pensar nela mesma, apenas nela, e a descobrir o que a faz sentir prazer. Por isso, dentro desse contexto, a gente aqui do Xotanás acredita que siririca tem tudo a ver com autonomia, amor próprio e desconstrução da misoginia internalizada.

Felizmente, essa era internética em que vivemos está colaborando com o nascimento e divulgação de cada vez mais projetos voltados para a sexualidade da mulher. Por meio de textos, desenhos, entrevistas, vídeos e músicas, são travadas diversas discussões que buscam o real empoderamento da sexualidade feminina, sem aquele morde e assopra de revistas que dizem, na primeira página, que toda mulher é linda e poderosa e, na página seguinte, ofertam trezentos produtos de beleza diferentes e ensinam a “segurar” parceiros. Ainda assim, são muitos os relatos que recebemos (estão sendo publicados aos poucos aqui, enviem o de vocês) e que lemos por aí que, ao falar de masturbação, envolvem culpa e repressão familiar.

pollynordevil“The Devil Wears Nada”, ilustração de Polly Nor

Qual será o porquê de todo esse peso jogado em cima do nosso prazer? O livro “Vagina – uma biografia”, lançado pela escritora norte-americana Naomi Wolf recentemente, revela que a concepção ocidental que temos atualmente do órgão sexual feminino, “cheia de vergonha, sexualizada de um modo restrito e funcional, dessacralizada e cientificamente escrutinada”, começou no século XIX. Teorias misóginas de todo o tipo foram disseminadas, como, por exemplo, que o clitóris era a causa da corrupção moral e “boas mulheres” não tinham apetite sexual.  Uma das teorias dizia, inclusive, que permitir que mulheres lessem romances poderia deixá-las com um desejo sexual enlouquecido e descontrolado (ou seja, controle sexual e da emancipação intelectual feminina em uma tacada só).

De acordo com a autora, o clitóris é estudado, esquecido e descoberto novamente desde 1559. No entanto, no período vitoriano a  vagina passou a ser profundamente patologizada e criou-se uma ideia de mulheres “boas” e “más” que vinha da conduta sexual delas: quem não se deixasse afogar pela própria libertinagem poderia ser considerada uma mulher de respeito. E essa libertinagem não estava relacionada apenas ao ato sexual, mas também à masturbação. “Em 1850, os formadores de opinião vitorianos na área médica e social estavam convictos de que a masturbação, para ambos os sexos, levava perigosamente a ‘um espectro de doenças psicológicas terríveis’, que acabariam por levar o masturbador a um estado de loucura”, escreve Wolf.

O livro “A assustadora história do sexo”, do médico e escritor britânico Richard Gordon, mostra retratos clínicos da época, que descreviam pessoas que se masturbavam praticamente como doentes. Ele acredita que isso parte de uma necessidade que a sociedade tem de criar “perigos” que façam as pessoas se sentirem culpadas, pois “um pecado espalhado universalmente tece uma camisa de silício macia” (camisa de silício era uma espécie de túnica incômoda, de tecido grosseiro, utilizada durante penitências). Gordon levanta, inclusive, uma questão interessante: essa culpa sexual (que permanece ainda hoje) tem muito a ver com a culpa “mastigatória” dos tempos atuais, em que médicos advertem contra diversos tipos de comida e o público começa a temer “perigos físicos, estéticos e morais de estarem levemente acima do peso” – o que gera muito lucro para a indústria mundial do emagrecimento.

Homens e mulheres foram torturados em prol da erradicação desse ~grande mal~ que era a masturbação. Porém, assim como as mulheres de hoje são os maiores alvos das “dicas de dietas” (a dieta é o sedativo político mais potente na história da mulher, uma população levemente louca é uma população dócil”, já disse Naomi Wolf em outro livro – “O Mito da Beleza”), a antiga obsessão em erradicar a masturbação era ainda maior se o assunto era siririca, e isso podia ser diretamente relacionado ao medo de educar e emancipar mulheres – o receio geral era de que a leitura pudesse levá-las ao ato de tocar o próprio corpo em busca de prazer. Segundo Wolf, no período pré-vitoriano, mesmo mulheres da elite não eram educadas e nem tinham direito a propriedades, logo, pouco importava se tocavam uma siririca ou não. Só que, no século XIX, as mulheres estavam conquistando mais direitos e a tentativa de frear a autonomia delas – tanto sexual, quando intelectual – talvez fosse uma reação contra isso. “Muitas mulheres, hoje, sentem que sua sexualidade é algo distinto do resto de seu caráter e acabam por privar-se dela em prol de outros papeis mais admiráveis, como o de mães, esposas ou profissionais (…). Esse conjunto de crenças não é uma constante humana – nem mesmo é antigo; isso foi essencialmente inventado quando os críticos culturais na Europa e Estados Unidos ficaram alarmados pela emancipação feminina, e a sexualidade da mulher foi entregue a um profissional masculino, o ginecologista”, conta a autora.

O século XIX criou o problema e a solução: ao mesmo tempo em que patologizava a sexualidade e o corpo feminino, inventava tratamentos e buscava soluções para os “problemas sexuais” das mulheres. A sexualidade feminina era considerada uma grande ameaça à ordem social. Logo, o período vitoriano se viu marcado por avanços científicos que se chocavam com conceitos rasos que buscavam manter a mulher “domada”: o útero era visto como fonte de mau humor feminino, a menstruação era tratada como incapacitante e educar mulheres poderia ser nocivo para elas, porque poderia fazer com que se tornassem masculinizadas e “solteironas”.  Sob o domínio masculino, a ginecologia se desenvolvia; e pelas mãos dos homens, mulheres tiveram seus corpos analisados, estudados e invadidos – o norte-americano J. Marion Sims, por exemplo, criou uma técnica para reparar fístulas vesicovaginais praticando, sem anestesia, em mulheres escravizadas.

“De 1860 a 1890, a brutalidade e a natureza punitiva das práticas ginecológicas masculinas atingiram seu ápice. Nesse período, o uso da clitorectomia se tornou, se não comum, pelo menos não mais inédito no ‘tratamento’ de garotas que insistiam naquele vício pavoroso, a masturbação feminina. O dr. Isaac Baker Brown introduziu a clitorectomia na Inglaterra em 1858, e ainda era muito praticada por ele dez anos depois. O dr. Brown se tornou famoso e muito procurado por sua ‘cura’, que aplicada em garotas fogosas, após a excisão de seu clitóris, fazia que voltassem para suas famílias em um estado de docilidade, mansidão e obediência – um resultado que podemos agora compreender como inquestionavelmente resultante do trauma e também da interrupção da ativação neural. E até mesmo para garotas que não eram ameaçadas com a excisão do clitóris como punição pelo ‘vício solitário’, havia manuais morais e até publicações populares repletas de advertências sobre como uma mulher masturbadora, incitada por ‘romances franceses’ ou ‘novelas sensacionalistas’, poderia ser facilmente identificada por sua lascívia, apatia, palidez, olhos febris e aspecto geral de dissimulação e insatisfação. Havia o entendimento de que a masturbação levava as garotas a uma trajetória cada vez mais descendente, com formas ainda piores de ‘vício’ e lascívia moral; os pais eram aconselhados a ser vigilantes e rígidos com as garotas que persistissem”, explica a escritora.

Para os homens, Gordon relata que a “política de mãos-ao-alto” envolvia ir para a cama com luvas de metal (tipo raladores de cozinha) ou camisa-de-força, uso de cinto que prendia o pênis em molde de metal ou corte de nervo do órgão sexual masculino, entre outras práticas. Embora os rapazes também possam guardar sua parcela de ~culpa masturbatória~ (bom, pelo menos foi o que alguns me disseram), a naturalização da prostituição e pornografia, bem como uma sociedade que atua sob o olhar masculino em grande parte dos seus recortes, são fatos que revelam que a sexualidade masculina é bem menos cerceada – muito pelo contrário, ela é incentivada e celebrada, ainda que de forma doentia, rasa, nociva e extremamente perigosa para mulheres, além física, intelectual e sensorialmente pobre para os homens.

É tudo sobre lucro e dominação.

Como já foi mostrado, resquícios do modelo vitoriano de pensar permanecem em nossa sociedade. Pior ainda: nem sempre são resquícios, muitas vezes são novas roupagens para teorias antigas que buscam demonizar a sexualidade e o corpo feminino e, consequentemente, destruir a autonomia e autoestima de mulheres, porque medo, insegurança, falta de autoconhecimento, vergonha, nojo e culpa são instrumentos que visam nos manter submissas, paralisadas, dóceis e manipuláveis.

Porém, a cada dia, novas pernas femininas ganham as ruas e conquistam espaços pelo mundo, enquanto dedos que na intimidade acariciam o clitóris, em um ritmo suave e gostoso, se levantam, em riste, para sinalizar um grande não a quem grita “tira a mão daí, menina”. Os nossos corpos são nossos, não são sujos e problemáticos e serão explorados por nós mesmas, em uma jornada que celebra o bem-estar feminino. Não somos putas nem santas que merecem mais ou menos respeito, mas apenas humanas com a capacidade de sentir prazer.

Post orginalmente publicado mês passado no Xotanás.

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Achar que o Brasil não é racista já é racismo

Hoje é 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra. E o que isso significa? Bem, a data marca a morte de Zumbi dos Palmares, que foi líder do Quilombo dos Palmares e representa um ícone da resistência negra durante o período de escravidão no país. O dia coloca em evidência a luta da população negra do Brasil contra o preconceito e a discriminação, e serve também para gerar reflexões coletivas na sociedade por meio de debates, resgates históricos e da divulgação da cultura afro-brasileira.

Ainda que a escravidão tenha acabado há algum tempo, as marcas do período continuam presentes em nosso povo: os negros e negras são os que mais possuem desvantagens econômicas e sociais, e são sistematicamente dizimados de forma covarde e silenciosa – esse extermínio é noticiado com menos frequência do que furtos bobos em lojas, casamentos de subcelebridades ou protestos “atrapalhando” o trânsito, por exemplo.

Uma breve – muito breve mesmo – história da escravidão de pessoas negras no Brasil

A raiz da desigualdade racial e social do país está no seu processo de colonização, que teve Portugal como um dos atores principais. Em 1500, o Brasil foi “descoberto” – ou violentamente roubado da população nativa? – e, pouco depois, o território começou a ser moldado de acordo com as vontades e necessidades de seus “novos donos”. Na época, a demanda por mão-de-obra aumentava cada vez mais. Estimativas afirmam que, em trezentos anos de escravidão, mais de 4 milhões de pessoas negras foram retiradas forçadamente do continente africano e trazidas para cá.

Algum tempo atrás, dei uma folheada no livro “Do reclame à comunicação – A pequena história da propaganda no Brasil”, de Ricardo Ramos, e vi anúncios nos classificados de jornais do período da escravidão com pessoas negras sendo vendidas como produtos mesmo: “bons dentes e forte”, “troco escravo por isso e aquilo”, “empresto ama-de-leite”, etc. Horrível demais – embora, infelizmente, não seja nenhuma surpresa. Um pouco de estudo ou uma simples conversa com pessoas que tem antepassados que foram escravizados nos mostra como era pesada, violenta e desumana a realidade da população negra aqui no Brasil – e ainda é, só que de outras formas. O racismo institucional, a discriminação, o difícil acesso a educação formal e a mecanismos de ascensão social e econômica, a exploração da força de trabalho e o extermínio de negros e negras nos mostra que a nossa sociedade ainda carrega uma herança sombria desse passado não muito distante. Vale ressaltar que as mulheres eram – e ainda são – tratadas como objetos sexuais e estupradas de forma repetida.

Além de tudo isso, os africanos não podiam praticar suas próprias religiões e rituais, mas isso não os impediu de manter a cultura africana viva aqui no Brasil. As pessoas escravizadas resistiam, e além das fugas, dos embates e tantos outros acontecimentos, a perpetuação da própria cultura foi também uma forma de resistência. Podemos ver que é possível conectar muito do que aconteceu no passado com a nossa história atual: praticantes de religiões de matriz afro-brasileira, como o Candomblé, são constantemente perseguidos e têm seus terreiros atacados, enquanto igrejas Evangélicas ou Católicas são vistas como os lugares “corretos” para se expressar religiosamente.

Em 1888, foi instituída a Lei Áurea, que previa a extinção da escravidão no Brasil. Ela foi precedida pela Lei do Ventre Livre (1871) e pela Lei dos Sexagenários (1885), que, respectivamente, davam liberdade a filhos de pessoas negras escravizadas e libertava quem tivesse mais de 65 anos. Nada disso aconteceu porque os brancos ficaram bonzinhos de uma hora para a outra e decidiram “libertar” quem estava sendo escravizado, ok? Isso tem muito mais a ver com fatores econômicos: ex-escravos se tornariam um novo mercado consumidor e não dariam mais “prejuízo” por morar “de graça” na casa dos patrões, por exemplo.

No entanto, paralelamente a tais medidas, não existiu o planejamento de ações que qualificassem e incluíssem essa nova classe trabalhadora dentro da sociedade. De escravizados, os negros e negras libertos tornaram-se força de trabalho barata. Quem continuava em vantagem eram os ex-escravocratas, enquanto ex-escravos encontravam-se sem instrução, renumeração justa ou acesso a bens e serviços. Outro agravante à condição da população negra era uma visão institucionalmente racista por parte da sociedade e governo da época (que permanece até hoje), que passou a estimular a vinda de imigrantes europeus para o Brasil, com o intuito de “embranquecer” a população (as teorias eugenistas eram, inclusive, socialmente aceitas e aplicadas). Ao contrário dos africanos, eles receberam incentivos e não foram trazidos à força. Esses imigrantes trabalharam bastante, sim, mas ainda que pudessem se encontrar em situação precária, tiveram acesso a recursos e terras, entre outros benefícios que nunca foram concedidos à população negra. Aliás, por um certo período, foi proibida a entrada de mais negros e também de asiáticos no país.

De acordo com o Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2010, 82 milhões, dos cerca de 200 milhões de habitantes do Brasil, se declararam pardos e 15 milhões, negros. Em comparação com o Censo de 2000, houve aumento na autodeclaração negra e parda no país. Dados da Pesquisa Nacional de Amostras de Domicílios (Pnad) de 2013 mostram que, em dez anos, a população autodeclarada preta no país cresceu e passou de 5,9% do total de brasileiros em 2004 para 8% em 2013. Além dos pretos, cresceu também o número de pessoas autodeclaradas pardas. Ainda de acordo com o Censo de 2010, existe grande diferença entre população negra e branca no que diz respeito ao acesso a educação: entre pessoas de 15 a 24 anos que frequentavam o nível superior, por exemplo 31,1% dos estudantes eram brancos, 12,8% negros e 13,4% pardos. Foram encontradas diferenças salariais também (sendo a população branca a que recebe mais), entre outras.

Leia também: “A história da escravidão negra no Brasil”.

E por que estou falando tudo isso?

Se você acha que não vivemos em um país racista (ou melhor, em um mundo), isso já é racismo. O período da escravidão passou, mas as consequências da época continuam vivas em nossa sociedade. Acreditar em mérito quando o próprio destino já está traçado de forma positiva é fácil. Quem tem a pele branca geralmente tem muito mais chances de frequentar escola, universidade, de ter o que comer, o que vestir, de ver a própria cara representada em produtos midiáticos como sinônimo do sucesso e com mais nuances de personalidade, entre outras questões. É cruel afirmar que racismo não existe e cada um consegue o que quiser se trabalhar para isso, porque não é bem assim. Isso é naturalizar as diferenças, como se elas não tivessem sido geradas por sistemas políticos e sim pela capacidade de cada indivíduo.

É correto afirmar que uma pessoa negra que não veio de uma família que acumula bens há gerações, por exemplo, e que precisou trabalhar em empregos exploradores a vida inteira para sobreviver (o que tirou o tempo de estudo e lazer), além de ter tido a autoestima abalada constantemente por comentários racistas e perdido oportunidades por conta de discriminação não passou no vestibular ou não conseguiu um emprego melhor porque “não conseguiu”? Eu considero que essa pessoa sequer teve a chance de tentar.

Claro que existe quem consiga ultrapassar barreiras que pareciam antes intransponíveis, mas em uma sociedade justa não deveriam ter grupos com enormes obstáculos para vencer, enquanto outros sequer precisam pular um degrauzinho. E por isso é importante revisitarmos nossa própria história, para que a gente não caia no conto de que a vida é feita de indivíduos escolhendo viver como querem e sofrendo as consequências disso. Na real, nem sempre existem escolhas, apenas imposições que são fruto justamente de acontecimentos anteriores vividos por um mesmo grupo.

Estou tratando de assuntos básicos nesse texto porque acho importante lembrar, nessa data de hoje, um pouco das condições que criaram os abismos sociais, econômicos e raciais que temos hoje em nosso país. No último dia 18, aconteceu a Marcha das Mulheres Negras aqui em Brasília (DF), e ficou evidente a vontade de alguns em manter esses abismos: elas foram ameaçadas e atacadas com bombas e tiros por membros daquele acampamento bizarro – praticamente uma milícia – que está montado ali na frente do Congresso já faz um tempão (e que, finalmente, está sendo “convidado a se retirar”, digamos assim).

Além da violência a que essas mulheres foram expostas, acredito que tais atos buscaram tirar o foco dos temas relacionados à elas. Leiam o texto “Mulheres negras em marcha: racistas não passarão!”, de Carmela Zigoni, em que ela informa melhor sobre como foi o dia e destaca as pautas importantes do movimento (e cliquem aqui e aqui para ver fotos maravilhosas dessas guerreiras).

“A Marcha das Mulheres Negras de 2015 defende diversas pautas, dentre estas, o fim do femicídio de mulheres negras, o fim do racismo e do sexismo nos veículos de comunicação e no ambiente de trabalho, a titulação e garantia das terras quilombolas, especialmente em nome das mulheres negras, o fim do desrespeito religioso e a garantia da reprodução cultural de práticas ancestrais de matriz africana. Aqui você encontra o manifesto da marcha com as reivindicações na íntegra” (via página do Ministério da Cultura no Facebook). 

As negras passam por situações específicas relacionadas à aparência, afetividade, oportunidade de estudo e emprego. Muitas vezes, o feminismo, por exemplo, homogeniza as questões das mulheres como se todas estivessem partindo de um mesmo local, com as mesmas experiências (no dia 20 de novembro do ano passado, postei um texto da Sueli Carneiro que fala sobre essa questão: “Enegrecer o Feminismo: A Situação da Mulher Negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero”). Portanto, vamos aproveitar o dia de hoje para refletir as raízes históricas da desigualdade racial em nosso país. Como eu já disse no texto sobre o filme “Que horas ela volta?”, nenhuma pessoa é naturalmente inferior. Chega de racismo e misoginia tentando minar a autonomia e a garantia de direitos das mulheres negras brasileiras.

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Foto por Janine Moraes durante a Marcha das Mulheres Negras de 2015

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Fiquem à vontade para deixar mais dicas nos comentários! :}

P.S: Em 2009, fiz o curso de extensão “Pensamento Negro Contemporâneo”, na Universidade de Brasília (UnB), com o professor Sales Augusto dos Santos. Foi excelente e meus olhos se abriram de forma que não tem mais volta. Por isso, bato novamente na tecla de que estudar e conhecer a história do nosso país é algo muito importante. E quem realmente entende de racismo é quem passa por ele, não é mesmo?