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TODA MULHER É LOUCA

Certos homens agridem as namoradas na maior cara de pau, e falam da amiga louca. Disseminam preconceitos estéticos e raciais, disfarçando tudo isso de “gosto pessoal”, e falam da professora louca. Saem com qualquer uma que conhecem em qualquer lugar, e falam da colega de trabalho louca. Enchem a cara e agem feito uns idiotas, e falam da esposa louca. Praticam sexo não consentido com mulheres desacordadas ou vulneráveis –  vulgo estupro, sabe? – e falam da irmã louca. Não desfazem laços com caras que já fizeram o mesmo (e os legitimam socialmente), e só julgam a cunhada louca. Desumanizam as garotas com quem saem, separando-as entre as que merecem respeito e as que não merecem, e falam da mãe louca.  Arrumam briga e promovem atos violentos por motivos banais e fúteis, mas louca é aquela tia distante, que vez ou outra vem visitar. Chegam a machucar e até a matar mulheres e também outros homens, simplesmente porque não sabem lidar com diferenças e frustração, mas o foco da conversa? É a ex-namorada louca, claro. Abandonam a família, e apontam o dedo para a cantora louca. Incentivam a rivalidade feminina, fazem comparações entre mulheres e chamam de louca aquela garçonete que trabalha o dia inteiro no restaurante da esquina. Não lavam uma louça, e reclamam da diarista que aparece toda segunda-feira, que é louca. Apesar de adultos, namoram meninas adolescentes e facilmente manipuláveis – e diz para elas tomarem cuidado com as colegas de classe, que são loucas. Fingem que são bonzinhos e abusam de crianças, e falam da ativista louca. Se fazem de pobres coitados, frágeis, abandonados e doentes, mas a prima é que é louca. Exploram funcionários e chamam isso de trabalho, e falam da avó louca. Assediam mulheres em shoppings, hospitais e igrejas, e riem da moradora de rua louca. Dirigem rápido, achando que a vida é um filme de ação, e conversam sobre a vizinha louca. Fazem sexo que nem uma britadeira descontrolada, achando que os ensinamentos da pornografia são válidos, e falam da dentista louca. Aprisionam mulheres em relacionamentos “livres”, e falam da dona de casa louca. São incapazes de demonstrar afeto sem ironia ou constrangimento… E falam que todas, todas, todas, todas, todas as mulheres ao redor, por algum motivo, são loucas.

Desconfiem de adjetivações genéricas, reducionistas, preconceituosas e sem fatos ou análises embasadas como foco. E, não esqueçam: a louca que hoje você ajuda a isolar por acreditar que isso te dará algum tipo de proteção pode ser você amanhã. Mulheres são historicamente taxadas de loucas como forma de controle e dominação. Toda mulher que coloca o privilégio de um homem em risco ou quer romper com as sufocantes regras sociais impostas ao sexo feminino é vista como errada ou perigosa.

Na maioria das vezes, não basta apenas olhar para onde os dedos apontam. É preciso observar também de quem é a mão.

katrene

pintura de kat renee // katrenee.com
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Pessoas brancas criticando “Feminismo Branco” perpetuam privilégio branco

O texto a seguir foi escrito em 2015 por Claire Heuchan, autora do blog Sister Outrider. Feminista radical, negra, lésbica e escocesa, ela é também mestranda em literatura com ênfase em estudos de gênero, e sua pesquisa se foca em Teoria Feminista Negra, ativismo e escrita. Se você lê em inglês, vale a pena procurar outros textos dela por aí. A tradução foi feita por mim e pela Carol Correia, que tem feito um ótimo trabalho em traduzir materiais do inglês para o português com o intuito de disseminar mais informações sobre feminismo em nossa língua. 

Gostei do texto por ser curto e direto. E é um convite à reflexão para as feministas brancas. Lutar contra o racismo é um papel de todas nós, mas é preciso uma postura ativa, que promova mudanças reais e eficazes. Não adianta só repetir palavras vazias e discursos simplistas. O racismo é um sistema complexo que embasa a nossa sociedade e precisamos entendê-lo para exterminá-lo. E é um assunto que deve ser tratado com seriedade, e não como um mero atalho para impulsionar a própria imagem de forma positiva. Boa leitura!

Se você se envolve em discussões feministas online, as chances são que você já tenha notado uma expressão particular se tornando cada vez mais comum: Feminismo Branco. Algumas vezes até mesmo um símbolo de marca registrada é adicionado, para dar ênfase. O termo Feminismo Branco tornou-se uma abreviação para certas falhas dentro do movimento feminista;  das mulheres com um determinado grau de privilégio falhando em escutar as irmãs mais marginalizadas; das mulheres com um determinado grau de privilégio falando por cima dessas irmãs; das mulheres com um determinado grau de privilégio centralizando o movimento ao redor de problemas que abrangem apenas a gama das próprias experiências delas. Originalmente, o termo Feminismo Branco era utilizado por mulheres não-brancas para abordar o racismo dentro do movimento feminista – uma crítica válida e necessária.

Ainda que mulheres brancas estejam em desvantagem pessoal e política por conta da ordem social vigente construída em cima de misoginia, elas também se beneficiam com o racismo institucional – queiram elas ou não.  Mesmo mulheres brancas com firmes políticas contra o racismo não podem excluir que se beneficiam do privilégio branco; que mulheres brancas recebem mais (embora deficiente) visibilidade da mídia do que suas irmãs negras e de minorias étnicas; que existe uma diferença salarial extensa em relação às mulheres não-brancas e que existe um aumento significativo do risco de violência policial que molda a realidade vivida por mulheres negras. É assim que o privilégio branco funciona. Nós vivemos em uma cultura impregnada de racismo, com uma grande quantidade de riqueza do nosso país decorrente do tráfico de escravos. Bem como a misoginia, leva-se muito tempo e reflexões conscientes para desaprender o racismo. É um processo de aprendizagem no qual nunca nos graduamos totalmente. Mulheres não-brancas desafiando o racismo de dentro do movimento feminista nos dá a oportunidade de conscientemente nos desligarmos de comportamentos recompensados pela supremacia branca do patriarcado.

No entanto, a expressão Feminismo Branco não está mais sendo usada exclusivamente por mulheres não-brancas para contestar o racismo que enfrentamos. Recentemente, tornou-se socialmente obrigatório para feministas brancas usarem o termo para descartar outras feministas brancas com as quais elas não concordam como incorporadoras do Feminismo Branco. As pessoas brancas começaram a chamar a atenção de outras pessoas brancas pela… branquitude. Não estou brincando. Em um artigo recente para a VICE, de alguma forma irônico, Paris Lees lamenta que “feministas brancas têm maiores plataformas de mídia…”. A artista Molly Crabapple, com plataforma de mídia e renda considerável (a não ser que se juntar à Samsung tenha sido um ato de caridade), fez tweets para invalidar pontos de vista, por conta do privilégio, das “senhoras brancas chiques“. Mas, daqui de onde estou sentada, ambas Paris e Molly parecem muito confortáveis.

Em vez de amplificar as vozes das mulheres não-brancas, ou de usar as próprias plataformas para destacar a intersecção entre raça e gênero, uma série de feministas brancas liberais sequestraram a crítica ao racismo com o intuito de dar suporte à própria imagem de progressistas – como se fossem o tipo certo de feminista, não uma Feminista Branca. Mas a cooptação da análise das mulheres não-brancas sobre o racismo dentro do movimento feminista é exatamente o tipo de comportamento para o qual a expressão “Feminismo Branco” foi criada para impedir. Pessoas brancas criticando “Feminismo Branco” perpetuam o privilégio branco. Priorizar a própria imagem, colocando-a acima da luta anti-racista liderada por mulheres não-brancas é, na melhor das hipóteses, narcisista, e na pior, racista. Essas ações apoiam a noção de que o racismo enfrentado por mulheres não-brancas é uma questão secundária, não uma preocupação principal dentro do movimento feminista.

Mulheres brancas usando o “Feminismo Branco” como uma vara para bater umas nas outras, e não como uma indução para que o próprio racismo seja considerado, é a branquitude em seu auge. Na corrida para “se lavar do privilégio”, as feministas brancas tornam-se as temidas Feministas Brancas por conta da apropriação indevida das palavras de suas irmãs marginalizadas para ganho pessoal.

Texto original aqui.

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imagem via navy-bleu.tumblr.com

 

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Trolls odeiam mulheres, pelos e a insubmissão feminina

Nos últimos dias, a página da Vulva Revolução no Facebook recebeu ataques de trolls por conta de uma postagem antiga que, por algum motivo, voltou a circular. O post em questão é a imagem abaixo, onde escrevi a seguinte legenda: Até quando vamos chamar nossas características de “defeitos”?.

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Desenho por Fernanda Moreira

Como podemos ver, a ilustração traz o desenho de corpos brancos, negros, gordos, magros, com pelos, estrias e outras características. No entanto, o que era pra ser algo corriqueiro, é encarado como um absurdo. Essa simples postagem de caráter motivacional e empoderador recebeu comentários assim:

Captura de tela 2015-10-21 às 21.57.14

Sendo o espaço virtual uma continuação do que chamamos de “vida real” (ou um cruzamento, visto que não existem fronteiras muito bem delimitadas), essa invasão de trolls é um reflexo de como o ~mundo offline~ percebe (e recebe) as mulheres – principalmente as insubmissas e que querem se aceitar como são. Ainda que não seja fisicamente presencial, a internet é um espaço público. E a entrada de mulheres em espaços públicos é recente e, pelo visto, indesejável. Basta analisarmos o tanto de assédio que recebemos em todo lugar, o tempo todo, para perceber isso.

Todos esses tipos de corpos mostrados – e muitos outros – existem de verdade. Mas vivemos em uma sociedade que prefere ver a diferença como uma doença a ser tratada: laser para retirar estrias, massagem para acabar com a celulite, creme para clarear a pele, cirurgia plástica para diminuir o nariz, depilação em qualquer parte do corpo que tenha pelo, shampoo para controlar o volume do cabelo, escova para alisar os fios, pinça para pinicar a sobrancelha, cinta para afinar a cintura, short modelador para esconder o quadril, lipoaspiração para sugar a gordura localizada, dieta para emagrecer… Ufa! É tanta coisa, que eu poderia passar o dia escrevendo, e ainda assim não caberiam todos os procedimentos estéticos, cirúrgicos e afins que existem para ~consertar~ a mulher.

Porém, uma olhada mais atenta aos itens que acabei de listar nos mostra algo muito importante: o padrão estético atual não é apenas misógino, mas também muito racista. A “mulher ideal” é um mito que quase nenhuma de nós vai alcançar – e é justamente isso que torna o mercado da beleza tão lucrativo. Como ratinhas presas em uma gaiola, as mulheres gastam muito tempo e dinheiro rodando loucamente em busca da suposta “perfeição”. E não é necessariamente porque elas querem ou são fúteis, como muita gente gosta de dizer, reforçando estereótipos misóginos: para muitas, não existe emprego, vida afetiva e um pingo de respeito se não houver um mínimo de adequação ao padrão.

Só que quando a gente começa a perceber e questionar esse sistema publicamente, um movimento contrário começa a querer nos parar. Existem inúmeros relatos de mulheres hostilizadas na rua porque deixaram crescer os pelos do corpo, de patrões que mandaram funcionárias alisarem os cabelos crespos, de mulheres gordas que ousaram ir para a balada e foram maltratadas pela casa noturna, de outras feministas que são perseguidas na internet por trolls, etc. E, além dessas agressões diretas, discursos indiretos que chegam até nós por meio de propagandas, comentários de pessoas conhecidas, programas de televisão e milhares de outras formas reforçam que, eww, pelo é sujo, uma gordurinha de nada é doença e celulite é a pior coisa que uma mulher pode ter na vida.

Mas ninguém para pra pensar que, ué, por que uma perna peluda de homem é observada com tanta naturalidade, enquanto uma mulher que faz o mesmo é vista como A Coisa Mais Repulsiva Do Universo? Qual a diferença fundamental entre ambos? Hm. Acho que sei.

Poder.

Como assim? Vou dizer. Vivemos em desigualdade e uma das formas de controlar a mulher é fazer ela acreditar que a meta da vida dela é ser bonita e atraente – para homens, principalmente, claro. Isso a mantém em um papel de passividade e gera lucro. E os homens também acreditam que a função das mulheres é ter uma aparência que os agrade. Tanto que os trolls que invadiram minha página, por exemplo, e tantos outros que já vi por aí, dizem coisas como “mas eu não quero comer uma mulher peluda”, “eu não enfio meu pau em uma gorda”, “não encosto meu pinto em quem tem celulite”, “gosto de buceta assim e assado”, etc. Já ouvi até conhecidos meus dizendo coisas do tipo, putz.

Rapazes, assimilem uma coisa: a piroca de vocês não é parâmetro pra porcaria nenhuma. A gente não tá nem aí com o que vocês fariam ou deixariam de fazer com ela. É violenta essa mania dos caras de achar que só tem valor a mulher que eles “pegariam” – e que a mulher “ao natural” é nojenta. No fim das contas, ambas se fodem, a que eles pegariam ou não: a primeira por ser assediada por babacas desse tipo e a segunda por ser hostilizada por babacas desse tipo. É tudo agressão, em diferentes níveis.

Outros reclamam que estão sendo “obrigados” a achar qualquer mulher bonita, que beleza não é construção social, e falam de evolução dentro dos contextos mais esdrúxulos possíveis, tipo: “o nojo veio para proteger o homem de comer carne podre e por isso ter nojo de pelo de mulher é normal”. Oi??? Qual a relação? Eu JURO que tive que ler isso. E, mais uma vez: pouco importa o que vocês acham. A gente só quer respeito em qualquer situação, é simples. Se o respeito vem com fatores condicionantes (“ai, mas só respeito mulher que…”), não é respeito, é discriminação com as que não cumprem os requisitos surreais e fantásticos impostos.

E a depilação, por exemplo, faz mais mal do que bem: além do gasto que envolve, muitas mulheres têm alergias a cera ou ficam cheia de bolinhas na pele quando passam lâmina. Sem contar que os pelos na região pubiana barram a entrada de microorganismos e protegem contra o atrito causado no ato sexual. Outros procedimentos voltados para a “manutenção da beleza” são ainda mais perigosos para a nossa saúde e colocam a nossa vida em risco. Portanto, é importante sim que a gente desmistifique essa cultura de mulher-de-plástico, para evitar que a mídia & a indústria enfiem o que quiserem em nossas cabeças. Como eu já disse, a busca pela cura dos nossos “defeitos” movimenta um mercado enorme.

O engraçado é que a invasão de trolls começou após algum deles mostrar o post em um grupo chamado “Libertarianismo”. Essa galera adora fingir que respeita liberdade individual da mesma forma que certos “humoristas” defendem a ~liberdade de expressão~: eles falam o que quiser, mas se você falar também, aí sua boca tem que ser calada a força. Ou seja, liberdade individual que abale as estruturas do status quo não pode. É interessante perceber também como esse tipo sempre anda em bando, na internet ou fora dela, agindo de forma agressiva e intolerante. Chega a ser assustador esse senso de coletividade que surge no homem e tira todo o senso crítico dele: como formiguinhas, eles atacam em grupo e cometem barbaridades que vão desde xingamentos até espancamentos e estupros. Tudo faz parte de uma mesma lógica.

A masculinidade é realmente muito frágil e precisa o tempo todo ser reafirmada pela tentativa de subjugação daqueles considerados inferiores. Por mais bobo que seja, por mais que seja “só internet”, essas tretas são um exemplo de como o elo masculino é construído também pela tentativa de derrubar outras pessoas (as guerras que o digam!):

trolls

E eu até entendo. Esse negócio de repensar os padrões estéticos é perigoso mesmo. Daqui a pouco as mulheres não estarão mais se depilando, nem pintando o cabelo, nem passando fome com o intuito de emagrecer. E elas, que já andam se destacando em escolas, universidades, postos de trabalho e outras atividades, podem acabar percebendo que ser musa é o caramba, o negócio é fazer a arte. E que o valor delas está muito além de um casamento falido com caras que buscam, em um pacote só, empregada doméstica, cozinheira e psicóloga grátis. Elas vão perceber que não precisam ter um relacionamento a qualquer custo, muito menos com um homem, até porque estarão financeiramente e emocionalmente empoderadas. Elas irão viajar e tocar projetos pessoais, escrever, dançar e ocupar todos os espaços que desejarem.

E aí quem vai preparar o Toddy de vocês?

Bônus: 

Captura de tela 2015-10-21 às 17.18.46

Um pouco mais desses ~jênios~ da argumentação pra vocês

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DEZ COISAS QUE HOMENS FAZEM ERRADO DURANTE O SEXO

Esta postagem foi escrita pela autora do blog Deixa de Banca. 

Homens que se relacionam com mulheres: aprendam alguma coisa aí! Mulheres que se relacionam com homens: comecem a se posicionar cada vez mais! E é isso. Aproveitem a leitura. 

Tudo bem, vivemos numa época de liberação sexual. Embora isso signifique mais sexo, não é a mesma coisa que sexo bom. O discurso da liberdade sexual trouxe pouco para mulheres heterossexuais além de trepadas medíocres. Isso porque, com séculos de sexualidade construída apenas para satisfazer o desejo masculino, homens não sabem trepar com mulheres. Eles não sabem do que a gente gosta. Eles não sabem como o nosso corpo funciona. Por vergonha, por medo, por não entender se o problema é com nós mesmas, ficamos caladas. E aí se perpetua o ciclo do sexo seco, dolorido, sem graça, fingido. Minas, se o cara estiver mandando mal, não se calem! Nenhuma de nós é obrigada a lidar com os erros abaixo:

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Ilustração de Polly Nor

1) Achar que sexo é só penetração

Eu posso estar pelada com um cara na cama, chupar ele, ele me chupar, todo mundo gozar e dormir de conchinha, mas ele não vai considerar que a gente fez sexo. Isso porque o sagrado pau dele não abençoou minha buceta. Por que só é “sexo de verdade” quando rola penetração, sendo que nem é assim que mulheres gozam?

É isso aí. De acordo com diferentes pesquisas, o número de mulheres que gozam com penetração varia de 50% a até mesmo 7%! Quando gozamos com algo dentro da gente, ainda assim provavelmente foi porque nosso clitóris estava sendo estimulado. É nele que está toda a graça! Passei boa parte da minha vida sexual me perguntando se eu tinha algum problema por não sentir tanto prazer assim ao ser penetrada, mas a verdade é que está tudo ok comigo. Eu só estava transando com caras que não reconheciam o poder do clitóris.

2) Começar a te chupar antes de você estar pronta

Você provavelmente já conheceu um cara assim. Ele ama chupar buceta. Muito. Ele gosta de tudo: do cheiro, do gosto, da sensação das suas coxas contra a cabeça dele. Mas, principalmente, ele ama falar sobre o quanto ele adora chupar buceta. É como se, ao te chupar, ele estivesse te fazendo um favor. Um rapaz com quem costumava sair já cometeu o desplante de dizer que eu tinha “sorte de ele gostar de fazer oral”, já que era o único jeito que eu conseguia gozar.

Bom, aí vai um recado: chupar minha buceta não é um favor. Não te faz um cara melhor do que os outros. Não te torna especial. Com esse ego inflado e senso frágil de identidade, você conseguiu transformar até um momento que deveria ser focado no meu prazer em algo sobre você.

Dito isso, muitos homens ficam tão empolgados em conquistar o selo especial de Rei da Chupada que se esquecem do essencial: eu tenho que estar pronta. Se você começar a me chupar do nada, sem nenhuma ação antes, com a minha buceta seca, é bom preparar o fôlego. Porque eu vou demorar para gozar. Bastante. Vou demorar tanto que vou começar a me preocupar se você já não está cansado e fazendo só por obrigação. Será que tem algo errado comigo? E se eu me concentrar bastante?

A partir daí, das duas uma: vou fingir um orgasmo para não ferir seu ego, se eu estiver me sentindo particularmente bondosa. Ou então vou pedir para você parar, porque hoje não vai rolar, tudo bem? Para sua boca encostar na minha buceta, eu tenho que estar implorando por isso. Tem que ser a única coisa em que eu consigo pensar naquele momento. Para me fazer chegar a esse estado, recomendo esse texto aqui.

3) Achar que sexo é performance

“Um cara já me disse que achou broxante porque eu ri do barulho da bola dele mexendo. Sei lá, era engraçado, desculpa. Não tô ali para ser a mulher sensual, perfeita, que só geme e goza. Parece que tem que tudo ser um momento sexy, selvagem, santa por fora, devassa por dentro”, desabafou uma amiga minha.

Acho que boa parte das mulheres passa pela meta-experiência de se imaginar trepando… enquanto trepa. Minha aparência deveria ser a última coisa com a qual eu deveria me preocupar, mas cá estou eu de quatro na cama me perguntando se meus peitos dependurados são realmente tão estranhos assim. De alguma forma sinto que não correspondo aquele ideal de deusa do sexo que me foi incubido, mas percebi que isso não é um problema.

O problema é achar que trepar é igual nos filmes, no pornô, na televisão, nos livros. Não é limpinho e antisséptico. Às vezes acontecem barulhos engraçados. Às vezes eu vou estar com uma calcinha puída. Às vezes eu não vou saber direito fazer alguma coisa. E tudo bem.

4) Bancar o machão

Nós, mulheres, ganhamos a fama de frígidas, mas pouco se fala sobre o quanto homens são travados durante o sexo. Qualquer coisa que ameace a posição deles como cabra macho é considerada um perigo. Parece que curtir ter o mamilo chupado ou levar uma pegada na bunda é “coisa de viado” e, portanto, algo a ser evitado a todo custo. Se soltem. Se deixem gemer. Deixem a gente descobrir os corpos de vocês.

5) Não prestar atenção nas reações da parceira

Tá, a mina não precisa se comportar igual uma atriz pornô, mas se ela estiver estatelada na cama, parecendo mais morta do que viva, alguma coisa está muito errada. Quando a gente curte, a gente mexe o corpo, geme, faz caretas bizarras, olha nos olhos, as pernas tremem. Se nada disso estiver rolando, as chances de você estar mandando mal são de 99%.

Pare e converse com a mina, pergunte se está tudo bem, se ela quer continuar, se tem alguma coisa que você pode fazer. É muito comum que mulheres tenham medo de mandar a real e dizer que não estão curtindo, justamente por termos sido ensinadas a agradar o cara e nos submeter ao que ele quer na cama.

6) Não perguntar nada

Nas cenas de sexo que vemos na televisão e nos filmes, trepar parece tão fácil e natural quanto espirrar. Os corpos se encaixam confortavelmente um no outro, as mãos sempre sabem o que fazer, cada instante é fluido e perfeito. O sexo na vida real tem o ritmo mais parecido com o de um motor que demora para engatar. Vai demorar um tempinho até que você e o seu parceiro saquem o ritmo e as preferências do outro. Algo que pode agilizar esse processo é fazer perguntas. Isso não é broxante. Broxante é achar que está arrasando fazendo uma parada cuja única reação que desperta na mina é vontade de bocejar.

Outra coisa: talvez você tenha preferências mais específicas, como xingar, bater, gozar em determinadas partes do corpo. Nunca é tarde para pesquisar um pouco sobre Andrea Dworkin, mas pode ser que você ainda não se sinta emocionalmente preparado para desconstruir seu comportamento sexual. Então, pelo amor de tudo que é sagrado, pergunte ANTES para a mina se ela curte ser chamada de vadia ou ser amarrada no sofá e obrigada a assistir a uma maratona de Big Bang Theory dublado.

7) Ter nojo

Vamos pensar um pouquinho sobre o que sexo é: você lambendo a genitália de outra pessoa. Você enfiando a genitália de outra pessoa na sua genitália, ou vice-versa. Você passando e enfiando os dedos na genitália dela. Isso envolve saliva, gozo, suor, pêlos, às vezes sangue menstrual. São dois corpos fazendo coisas que corpo fazem, o que pode significar cheiros e barulhos estranhos. É normal. E, sim, mulher tem corrimento, então secreções parecidas com catarro podem sair da vagina dela ou estar na calcinha dela. Superem. E nenhuma mulher vai ter a pele imaculadamente lisa e livre de pelos, a não ser que ela tenha um caso muito grave de alopecia.

Por outro lado, é sempre importante lembrar que uma lavada no pinto nunca é demais.

8) Acelerar o ritmo na hora que percebe que você vai gozar

Parece que o truque de mágica favorito de alguns homens é fazer seu orgasmo desaparecer. Naquela hora em que ele finalmente acerta no ritmo na hora de chupar ou te masturbar, você está quase chegando lá, começa a gemer, as pernas tremem e… o cara acelera feito uma britadeira. Mais uma vez enganado pelo pornô, ele acha que, indo mais rápido, vai fazer você gozar logo. Se você fez alguma coisa que me deixou próxima de gozar, a coisa mais lógica seria continuar, em vez de mudar completamente o que você estava fazendo, certo? A não ser que você seja adepto de tortura sexual.

9) Não usar camisinha

Essa dica é tão óbvia que não deveria estar aqui, mas muitos caras acham que têm um pinto de ouro imune a DSTs. Insistir para que a garota não use camisinha é desrespeitar a saúde dela. Isso sem falar nos Demônios Sexualmente Transmissíveis, também conhecidos como bebês. Portanto: encape o pinto.

10) Exigir boquete a base de empurrões

Vamos supor que você está dando umas beijocas em um rapaz dentro de um carro. Ele começa a fazer um carinho no seu rosto que romântico!, você pensa , até que a mão dele desliza para sua nuca e começa a forçar sua cabeça pra baixo. Esse é um jeito nada sutil que alguns homens encontraram para dizer que querem ser chupados. O ataque pode acontecer do nada, numa situação em que sexo nem havia entrado em pauta. “Mulheres não são acometidas por uma vontade súbita e instantânea de chupar seu pinto do nada”, esclarece uma amiga. Querido, espere a menina tomar a iniciativa ou então peça, com palavras, educação e em contextos adequados. Você consegue.

Leia também (esses foram escritos por mim):

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VULVA LA REVOLUCIÓN!

Eu já pretendia falar sobre o VULVA LA REVOLUCIÓN! por aqui, mas a correria da vida acabou atrasando um pouco esse post. Muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, gente… No entanto, aqui estou, pronta pra contar como foi esse lindo dia. Pra quem não sabe, o VULVA LA REVOLUCIÓN! foi um encontro que rolou 26 de setembro e surgiu com o intuito de estreitar laços entre mulheres e celebrar o primeiro ano de existência aqui do blog – e também a nova e exclusiva identidade visual, criada pela artista brasiliense Nana Bittencourt, que foi também a responsável pela arte do evento. Ela é uma mina muito cuidadosa e talentosa em tudo o que faz, com uma sensibilidade incrível.

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O Espaço Criaticidade – um lugar novo em Brasília (DF), que nasceu com o objetivo de movimentar a cena independente local de artistas & arteiros – foi o escolhido para abrigar uma tarde de feirinha, bebidas, músicas, rodas de conversa, jogos e muito, muito amor femininja. Aproveitei a ocasião para recolher roupas e produtos de higiene pessoal para a Casa Abrigo do DF, e livros para entregar para a galera do Slam das Minas, que realizou atividades relacionadas à literatura e poesia na Colmeia, presídio feminino do DF. Muitas doações foram recebidas! Já entreguei os livros, e essa semana entrego o que vai para a Casa Abrigo.

Tinha algum tempo que eu queria fazer algo do tipo. Porém, quem já produziu qualquer tipo de evento sabe o trabalho que dá: durante o VULVA LA REVOLUCIÓN! foi preciso cuidar de divulgação, decoração, entrar em contato com as mulheres dispostas a participar da feirinha, realizar inscrições para as rodas de conversa, comprar materiais para preparar as atividades propostas, montar os jogos, elaborar playlists de música, conseguir som, conversar com umas pessoas ao vivo, ligar para outras, olhar mensagem no celular, nas redes sociais, responder perguntas, analisar gastos, tirar fotos, entre outras milhões de coisas. E um evento independente & feminista, nossa, é ainda mais difícil. Porque não tem fim lucrativo e nem apelo comercial, sexualizado, VIP, drinks, balada, noite, hype, etc.

De qualquer forma, deu tudo certo. Primeiro, porque já trabalhei com produção – e já produzi coisas minhas antes, como a festa ¡LAS LOCAS!, que coloca minas no front na produção, discotecagem, fotografia e músicas selecionadas. E segundo porque sou rodeada de amigas e amigos maravilhosos, que me ajudaram muito e se envolveram no processo de forma bastante ativa e interessada, respeitando e entendendo minha proposta (aliás, muito obrigada, amo vocês).

Rolaram duas rodas de conversa. A primeira foi “Ecofeminismo, saúde e menstruação”, que teve Ariadne Hamamoto como guia (a outra mediadora infelizmente ficou doente e não conseguiu ir). Ela é estudante de design na Universidade de Brasília (UnB), manja muito sobre ciclo menstrual, trabalha com encadernação e desenvolve o projeto Diário da Lua Vermelha (ou Diário Lunar-Menstrual), que serve pra gente registrar e acompanhar nosso ciclo menstrual e o ciclo da lua. A partir de anotações relacionadas às mudanças físicas, emocionais, mentais e energéticas do corpo, fica mais fácil perceber as quatro fases desse ciclo — a menstruação, a pré-ovulação, a ovulação e a pré-menstruação. “Nascemos em uma cultura que é baseada em ciclos solares e masculinos, que menospreza os ciclos femininos e lunares. O resgate da conexão com o ciclo menstrual é o resgate do poder feminino, é empoderamento sobre nosso corpo e nossa fertilidade, é honrar e fortalecer a nós mesmas e a todas as mulheres”, segundo as próprias palavras de Ariadne.

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Mulherada reunida ❤

A segunda roda, “Conversa sobre museus e feminismo”, foi orientada por Laurem Crossetti, que é daqui de Brasília mas atualmente mora em Portugal. Ela é formada em Artes Visuais pela UnB e é especialista em Arte e Cultura, mestre em Estudos Curatoriais e atualmente desenvolve pesquisa de doutorado na Universidade do Porto. Laurem é também uma das idealizadoras do projeto Nós e o mundo, que reúne arte e literatura do Brasil e de Portugal (tem texto meu na série de cartões postais editada por eles, aliás. Entrem na lojinha do site pra ver – e comprar, heh). A conversa teve como base a seguinte pergunta: quais relações podem existir entre os museus e o feminismo?

Confesso que, embora os temas fossem muito atraentes, fiquei com medo de deixar minhas convidadas falando sozinhas. Será que as pessoas iriam querer bater papo no sábado ao invés de ficar em casa de pernas pro ar? Ainda mais com o calor que estava (e ainda está, socorro) fazendo em Brasília… Fui recebendo diversas inscrições por e-mail e me tranquilizando e, no dia, tudo correu bem. Ufa! Mulheres maravilhosas apareceram para contribuir e trocar ideia. Foi bonito demais, sério, fiquei emocionada. Na primeira roda, compartilhamos informações sobre nosso corpo, ciclo, saúde física e psicológica, anseios, angústias, felicidades, tristezas… Já na segunda, falamos de aspectos mais amplos, relacionados à representatividade, espaço e voz no mundo das artes.

Ambas montaram banquinha no evento, que contou também com a participação de mulheres dos quadrinhos, artes plásticas, cinema e artesanatos diversos. Tinha também gente vendendo coletor menstrual, docinho, tatuagem removível, adesivos e imãs com imagens feministas, etc. O foco principal foi no que é único, artístico, criativo e independente, porque apoiar o que é feito localmente é apoiar a economia local. E apoiar as mina é fortalecer as mina! Tive a oportunidade de conhecer não só um monte de gente legal, como também um monte de trabalho maneiro (nota mental: um dia preciso fazer uma compilação de trabalhos interessantes realizados por mulheres para divulgar aqui, a cada dia descubro algo novo). Até hoje tem gente entrando em contato comigo para mostrar ações, trabalhos, pedir sugestões, indicações… Aliás, o som do evento foi bem elogiado e acho que vou até tirar a poeira do meu perfil no 8tracks.

Durante o VULVA LA REVOLUCIÓN! rolaram brincadeiras também. Fizemos a PEPEKA MALUKA, uma vagina gigante com um buraquinho, pra acertar bolinhas coloridas dentro (a criançada adorou), e uma piñata literalmente escrota, para liberar as tensões causadas pelo sistema patriarcal, rsrs. QUEM NUNCA QUIS BATER EM UM SACO ESCROTAL COM UM TACO DE MADEIRA QUE ATIRE A PRIMEIRA PEDRA11!

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Em uma breve troca de e-mail com a galera da Universidade Livre Feminista, recebi uma dica importante: faltam relatos e sistematizações de experiências que incentivem atividades semelhantes. Por isso estou fazendo esse post aqui, ainda que uma semana depois do evento. Porque quero que mulheres & garotas que me leem saibam que é mais possível e viável do que parece organizar atividades coletivas e presenciais. Dá trabalho, mas vale a pena e é super divertido e enriquecedor. Mesmo nos meios alternativos ainda é raro termos a nossa voz colocada em primeiro lugar, até mesmo esses espaços acabam nos usando como isca, produto ou objeto de decoração. Então é muito importante que a gente se reúna e saiba o que a outra está fazendo, pensando, sentindo. Dessa forma, construímos redes de apoio, amizade e divulgação que passam a correr fora dos meios de ~broderagem~ e necessidade de aprovação masculina. E, olha, só posso dizer que a sensação de ver essas redes surgindo é tipo respirar ar fresco na praia depois de tanto tempo sufocada dentro de um quarto abafado.

Mas, para isso, é preciso também que a gente abandone vícios da socialização feminina, como a rivalidade e a implicância. Isso não significa todas nós temos que nos tornar melhores-amigas-para-sempre, e sim que precisamos começar a enxergar umas as outras com respeito e como seres humanas criativas, fazedoras e capazes, e não como “ain, aquela vaca que beijou o meu namorado em 1997” ou “a mina que usa o cabelo de um jeito estranho” ou “aquela que é metida pra caralho”, sei lá. Deixem os estereótipos rasos para as pessoas rasas, só o regime machista em que vivemos ganha com mulheres desunidas. O isolamento nos aliena de nossa própria condição de isoladas – e confinadas, vigiadas e controladas.

Se reunir fora da internet é fundamental. Não adianta só falar de representatividade, a gente precisa é construir essa representatividade nos espaços presenciais (e é ali, no olho no olho, que você vai descobrindo com quem pode contar). Ainda que um pequeno encontro possa parecer algo muito irrelevante, imaginem o peso de milhares de minas realizando pequenos encontros. Eu era apenas uma adolescente na primeira vez em que fui em um rolê de mulheres ouvir sobre assuntos específicos de nossas vivências e isso abriu muito os meus olhos. Eventos de certa forma pequenos, não em importância, mas talvez em alcance, causaram grandes mudanças em mim. Infelizmente já aconteceu de macho vir me dizer “ah, mas é só uma festa” ou “é só um rolê” quando o assunto era esse tipo de evento, mas eles não sabem o que é passar a vida inteira tendo que aturar o ponto de vista deles sobre nós até mesmo em lugares onde as coisas supostamente deveriam ser diferentes. FáCiL FaLaR, DiFíCiL SeR eU, ok? A vibe do VULVA LA REVOLUCIÓN! foi muito leve, agradável e acolhedora, graças a todo mundo que participou. Valeu demais, galera.

Mais fotos aqui.

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Por um feminismo para… mulheres

Primeiro, queria dizer uma coisa: andei bastante ocupada, o que acabou adiando um pouco a produtividade que eu pretendia ter com esse blog. Mas, aos poucos, tudo começa a seguir conforme o planejado. FÉ, IRMÃS. E, após ler tanta briga feminista internética estrapolando o limite da discussão de ideias e afetando seriamente a vida pessoal de várias mulheres, pensei um pouco no início da minha relação com o feminismo e no meu crescimento enquanto feminista. Pensei, mais precisamente, no início da minha relação VIRTUAL e ACADÊMICA com o feminismo e na importância da internet e da leitura como plataformas de disseminação de ideias. É nisso que vou focar aqui, e vocês já vão entender o porquê.

É o seguinte. Como filha de “mãe solteira” e membra de uma família recheada de mulheres, cresci um pouco mais ~atrevida~ do que minhas colegas de ~famílias tradicionais~ e tal. Mas ainda assim, era bem tímida e um pouco insegura. Na adolescência, comecei a escutar bandas de riotgrrrls e entrei em contato com meninas e zines feministas em shows “alternativos”. Mas ainda estava amadurecendo toda a questão, e reproduzia coisas como “yay, eu sou livre e escolhi ficar com o cara mais velho”, “me maquio porque gosto”, “prefiro amigo homem”, “fodam-se essas patricinhas” e etc.

No início da faculdade, escolhi o feminismo como tema para um trabalho (o primeiro de muitos). Os primeiros materias acadêmicos que entrei em contato foram os livros “Feminismo – Que história é essa?”, da Daniela Auad, “Breve história do feminismo no Brasil”, da Maria Amélia de Almeida Teles e o artigo “O novo movimento feminista”, da alemã Frigga Haug. Dei também uma lida incompleta no “A mulher na Sociedade de Classes”, da Heleieth Saffioti (que me empurrou, futuramente, para o ótimo “Gênero, Patriarcado e Violência”, dela também). Foi aí que minha ficha caiu de verdade e vi que feminismo era coisa séria. Foi aí que percebi que minhas vivências como mulher não eram “menores” e solitárias, que minhas “escolhas” não eram sempre uma escolha realmente, que meu corpo não era sujo e que eu não tinha culpa por certas coisas que faziam eu me sentir culpada.

Aqui vai o meu testemunho: fiquei viciada e glorifiquei o feminismo de pé! ALELUIA! Graças ao Orkut (sdds), encontrei comunidades em que poderia continuar debatendo & aprendendo. Era muita peça se encaixando na minha cabeça e eu não tinha quase ninguém pra conversar sobre. A comunidade “Feminismo & Libertação” foi a que mais fui ativa (e por meio dela conheci algumas feministas na vida real, que me apresentaram outras e outras e outras). A comunidade “Prática Feminista” era detestada por muitas por ser relativista demais (alguma semelhança com os tempos atuais? Hehe). Aprendi bastante na comunidade “Antipornografia” também. Entrei em contato com mulheres do Brasil inteiro, comecei a ler mil blogs e descobrir mais mil livros e autoras. E via críticas à Teoria Queer, à Judith Butler, à Camille Paglia (acho que essa parte é um consenso geral) e ao “Feminismo Radical”, que não me parecia tão demonizado quanto hoje, mas pode ser só impressão minha (aliás, se o feminismo em geral sofre com o backlash, o feminismo radical tem o seu backlash próprio, que parte, inclusive, de outras feministas). É que me parecia muito mais fácil discutir violências óbvias como pornografia e prostituição uns anos atrás do que agora. Ou a compulsoriedade da heterossexualidade e  da maternidade. Uns anos atrás, quem me chamava de moralista se eu abordasse os aspectos negativos dessas questões eram geralmente homens. Mas continuando. Fiquei triste quando as discussões no Orkut começaram a morrer. Sorte que grupos, páginas e perfis feministas logo começaram a surgir no Facebook e os debates continuaram!

(Por um tempo, me envolvi com questões relacionadas à transexualidade e assimilei parte do discurso. Porém, me deparei com lacunas com falta de evidências verificáveis e passei a questionar pontos desse ativismo. Não por ser “contra” ou desejar o mal de alguém, mas pelo bem da minha própria evolução e sanidade enquanto feminista.  Mais pra frente, pretendo retomar de forma mais aprofundada esse e vários outros pontos desse texto).

Onde quero chegar com tudo isso? É o seguinte:

Eu aprendi com outras mulheres. Seja nos livros, nos shows, na internet, nos zines, nas letras de música, nas conversas de bar ou em almoços de família.

Mais do que aprender, eu me importei com o que elas tinham a dizer. Isso não significa engolir tudo sem reflexão. Mas significa levar a sério o tempo e a dedicação das mulheres. Significa legitimar os nossos sentimentos e a nossa inteligência. A leitura teve um ponto essencial na minha formação porque foi o que ampliou meu conhecimento e me ensinou a pensar certas questões mais abstratas. Foi o que me deixou esperta em relação a manobras mal intencionadas de pessoas antifeministas e outras nem tão abertamente antifeministas assim (o que mais tem é “mascu” e afins criando lista de mulheres que não devem ser lidas porque eram/são “loucas”, “violentas”, isso e aquilo. Tirando a Valerie Solanas – que foi sim uma ótima escritora – que mulher praticou atos violentos notórios contra homens ou contra outras mulheres? Sequer conheço mulheres que pratiquem discurso de ódio. Nunca vi blog com foto de homem morto e dilacerado. Já entre homens celebrados e admirados, como será que fica essa lista?).

Mas leitura não basta. E nem todo mundo pode ou quer ir para a faculdade. Nem todo mundo tem tempo para ler. Nem todo mundo tem vontade ou coragem de participar de discussões. Mas todo mundo pode escutar, com empatia, as mulheres ao redor. História não é só o que está escrito, mas também o que outras pessoas viveram e podem te contar. Me entristece de verdade quando gente que era “mascu” racista e que ainda hoje reproduz misoginia é mais levado em consideração do que feministas que estão há anos ali, cavando o túnel mais à frente para que companheiras de trás andem com mais tranquilidade dentro dele. Claro que as pessoas mudam, mas vamos aprender a respeitar quem demonstra empatia e mantém sua coerência a mais tempo. Não é questão de “carteirada”, mas de preservação do que construímos e estamos construindo, juntas, unidas por um fio de raiva, amor e vivências em comum que nos guia rumo à libertação. Você quer continuar cavando esse túnel? Então não promova o obscurantismo. Não jogue mulheres fora, o patriarcado já tenta fazer isso desde sempre. Leia e conheça outras mulheres antes de excluí-las da sua vida. Não tenha medo de ir contra o que te mandaram fazer. Tire suas próprias conclusões e construa não apenas o “seu” feminismo, mas um feminismo para todas as mulheres.