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DEZ COISAS QUE NÃO CAUSAM ESTUPRO

O estupro é uma violência que possui dois lados. A sociedade trata a questão como um crime horrível, pelo menos na teoria e se a situação envolver uma “vítima perfeita”. No entanto, uma simples lida nos jornais diários mostra os inúmeros casos de crianças, adolescentes e mulheres sendo estupradas por familiares, amigos, desconhecidos, colegas de trabalho ou conhecidos da igreja, faculdade, balada, entre outros (pena que a abordagem no geral é tão sensacionalista e pouco profunda nas raízes da questão). Pessoas do sexo masculino são as que mais cometem esse tipo de agressão e pessoas do sexo feminino são as que mais sofrem – o que não impede que existam situações em que violências sexuais ocorram seguindo outro roteiro.

A discussão sobre o assunto acontece por vários meios, informalmente ou de modo organizado. Porém, muitos preconceitos e simplismos acabam sendo disseminados nesse debate, e questões importantes são deixadas de lado. Por isso, vou abordar aqui neste post as dez hipóteses mais estúpidas entre as que já li como as possíveis causas de estupro (mas existem muito mais), e propor uma conversa mais centrada na realidade: a culpa é sempre do estuprador. E ponto final.

1) Roupa curta não causa estupro

Isso é um consenso que feministas estão cansadas de repetir: a mulher tem o direito de usar a roupa que quiser. Pode ser um vestido rosa e curtinho, tipo o da Geisy Arruda, biquíni grande ou fio dental, burca, camiseta larga, shortinho, saia longa ou qualquer outro tipo de vestimenta. Achou o look feio, bonito, atraente, repulsivo, muito descolado ou super brega? Problema seu. Se você for homem, deixe esse espírito de predador sexual com pinceladas de crítico de moda no armário, porque roupa não justifica agressão. Se for mulher, não jogue pedras nas outras para provar o próprio valor ou achar que isso vai te proteger de alguma coisa (spoiler: não vai). E a tentativa de encontrar alguma desculpa que tire a culpa do estuprador e transfira para a roupa da vítima é uma forma de naturalizar não apenas o comportamento violento do homem, mas a ideia de que respeito é algo que a mulher deve “merecer” para ter. Sem contar que pessoas usando todos os tipos de roupa aqui citados já foram estupradas, o que mostra que o problema está muito além de qualquer vestimenta.

2) Bebidas ou drogas não causam estupro

Muita gente acha que uma mulher alcoolizada ou sob efeito de drogas “merece” ser estuprada. Aposto que, alguma vez na vida, você já ouviu alguém falar que “cu de bêbado não tem dono”, não é mesmo? Se as pessoas começassem a frequentar botecos e baladas com o intuito de buscar homens bêbados para serem empalados com cabos de vassoura, isso não seria uma violência terrível? No entanto, por que mulheres na mesma situação são estupradas com o aval da sociedade? Pessoas bebem ou consomem substâncias para se divertir, afogar as mágoas, por vício, depressão ou outros motivos, e você não precisa concordar com isso – dá para problematizar o uso de álcool e drogas por um ângulo de saúde pública ou do tráfico, por exemplo. Mas culpar uma vítima de estupro que estava entorpecida é, mais uma vez, defender o estuprador e a ideia de que homem é um animal descontrolado.

No mais, uma pessoa viciada precisa de ajuda, uma pessoa dormindo precisa de sono e uma pessoa com a consciência alterada não consegue responder por si mesma. De novo: desliga aí o suposto instinto predador, homem, porque sexo nessas condições não é ‘sexo fácil’, é estupro mesmo (caso sua empatia falhe ainda assim, aqui vai mais um incentivo: e é crime). E se você tem impulsos agressivos e violentos quando usa alguma coisa (ou não), procure ajuda (ou se tranque em casa, obrigada). Ah, vale lembrar que alguns caras colocam sedativos na bebida de mulheres ou as obrigam a inalar substâncias entorpecentes também – algo que, somado à violência sexual que sucede tais práticas, contabiliza uma dupla quebra de consentimento.

3) Ruas pouco movimentadas também não causam estupro

Vários fatores tornam a rua um ambiente inseguro para mulheres: homens, primeiramente, e coisas como iluminação ruim, falta de movimento e de segurança, demora no transporte público e outros itens que as colocam em situação de vulnerabilidade. Portanto, o ideal é que sejam elaboradas estratégias de educação e segurança pública que tornem a rua um espaço menos hostil para pessoas do sexo feminino. Tenho uma fantasia que envolve um toque de recolher para homens até que eles, enquanto categoria, se eduquem, rs. Mas tô brincando. Queria mesmo era um monte de poste, gente e ônibus pra todo lado e, principalmente, pessoas com a consciência humana aflorada.

E vale lembrar que a ideia do estupro como algo que só acontece em um local ermo, com um cara ameaçando a mulher com uma faca, não é necessariamente o retrato fiel da situação: muitos algozes estão dentro da casa da vítima ou nas redondezas, o que significa que ~tomar cuidado por onde se anda~ não é sempre o necessário para evitar uma agressão sexual (mas a gente toma mesmo assim).

4) A falta de uma ~bola de cristal~ não causa estupro

Algumas vítimas são cobradas por não terem se preparado para enfrentar a agressão sexual e escutam coisas como: “mas por que você não gritou?”, “devia ter saído correndo”, “não percebeu que ele ia chegar perto de você?”, “você não anda com spray de pimenta na bolsa?”, “por que ficou sozinha em casa com ele?”, “não sabia que isso podia acontecer?” e etc. Frases do tipo não fazem o tempo voltar, cada pessoa tem uma reação diferente quando está em perigo e existem casos em que não é muito seguro reagir a uma situação de violência (e não tem como saber, de antemão, quais). Não vamos cair, mais uma vez, na armadilha de culpar quem não tem culpa. No caso de estupros cometidos por amigos, parentes ou vizinhos, como a vítima iria descobrir as reais intenções de homens, teoricamente, “de confiança”? E se a violência for cometida por um estranho em um local inusitado ou em uma situação inesperada, como a vítima poderia adivinhar? E tem mais: nem sempre um estupro acontece de forma explícitamente agressiva. Cada caso é um caso – e o que todos possuem em comum é que a culpa não é da vítima. E não existe uma bola de cristal capaz de prever quando um estupro pode ocorrer.

5) Crise ou pobreza não causam estupro

Lembram quando o responsável pela Secretaria de Segurança de São Paulo, Mágino Alves Barbosa Filho, falou que a crise econômica tem a ver com estupro, porque o cara acaba ficando frustrado demais, sem emprego, bebendo e cometendo esse tipo de coisa?  Isso é uma estratégia que busca voltar o debate público para a criminalização de pessoas pobres, e não para a busca de soluções efetivas para os problemas que as mulheres enfrentam. Breaking news: filhinhos de papai que nunca precisaram sequer pensar em trabalho também estupram. Jovens universitários de classe média também estupram. Autoridades de governo também estupram. Cantores famosos também estupram. Filhos de donos de grupos de comunicação também estupram. Sabe o que não estupra? Ah, essa pergunta eu deixo no ar…

Essa relação entre pobreza e violência já foi desmistificada pelas ciências sociais há pelo menos três décadas. A socióloga feminista Helleieth Saffioti bem dizia que a violência contra a mulher é extremamente democrática porque ela atinge a todas as classes sociais.

Um homem que perde o emprego não é um estuprador em potencial. Homens numa sociedade patriarcal são estupradores em potencial porque têm uma certa legitimidade social (ainda que não legal) para violar os direitos de uma mulher, violar sua integridade e sua dignidade, seu corpo e sua vida. O que acontece em geral é que nas classes altas, a violência contra a mulher e o estupro são escondidos sob um manto de hipocrisia e dupla moral, onde não se registra, não se denuncia e não se expõe homens ricos, homens de altos cargos, frente a suas práticas violentas. Existe um silêncio e uma impunidade brutal com um professor universitário, um juiz, um político – o que não acontece com um pedreiro, um motorista de ônibus ou um trabalhador das classes populares, por exemplo.

Izabel Solyszko, feminista, assistente social, professora e doutora em Serviço Social pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Leia mais opiniões de especialistas aqui. 

6) Funk não causa estupro

Esse é outro argumento que tenta colocar pessoas negras e pobres como as únicas culpadas por agressões sexuais. O objetivo, mais uma vez, não é o bem-estar de mulheres, mas calar a cultura que surge na periferia, encarcerar essas pessoas e criar uma diferenciação entre os “homens de bem e civilizados” e os estupradores. No entanto, a lista de astros do rock que cantam letras machistas de música – e/ou estupraram adolescentes e mulheres  – é grande, por exemplo. Não precisa nem ser um astro, o meio independente está cheio desses exemplares também. Música popular brasileira, música brega, sertanejo, música pop… Se a gente cavar, acha coisas problemáticas em todos os estilos. Não estou dizendo que não existam funks machistas e com letras horríveis, ou funkeiros com comportamentos questionáveis, só quero chamar atenção para o fato de que isso não é exclusividade do gênero – que, como todos os outros, tem partes ruins e boas.

Existe um machismo no funk que não é exclusivo no funk. É que sua linguagem é muito direta em relação a tudo. Não há floreio, a batida é reta, seja para falar de amor, sexo e violência. É sempre uma linguagem muito direta, o papo reto, como dizem. Com o machismo, não é diferente. E existe uma reação escancarada a ele. Com as mulheres falando de sua liberdade sexual, da escolha de parceiros, sobre o que fazer com o corpo e exercitar seu desejo. E elas abordam todos esses assuntos em um ambiente masculino, como é o da música popular — ressalta Adriana [Facina, antropóloga e professora da UFRJ], que destaca a ascensão das mulheres dentro do cenário funk nos últimos anos. Leia mais aqui.

7) Não é a falta de armamento que causa estupro

Mais uma vez, a pauta conservadora tenta cooptar os debates feministas. Alguém realmente acha que é assim que as coisas vão ser resolvidas? A jornalista Nana Queiroz pesquisou o assunto e constatou o que a gente já imaginava: essa não é a solução. Muitos estupradores são pessoas próximas, o fator “surpresa” dos ataques dificulta a ação, mulheres são socializadas para serem mais passivas e, quando em ambientes violentos, assimilam aquela situação como normal, entre vários outros fatores. Leia a matéria aqui.

Uma sociedade toda armada mas carregando os mesmos valores de sempre vai resultar em um constante tiroteio, gente. Só isso. Antes de qualquer coisa, temos que começar grandes campanhas nacionais para discutir sobre papeis de gênero e afins. E, de acordo com a jornalista, “a maioria dos casos de estupro à brasileira não é fruto de problemas de segurança pública, mas de uma cultura machista que prega um poder do homem sobre a mulher. O crime de estupro tem uma característica no Brasil: a cifra negra. A expressão ‘cifra negra’ significa que um número muito pequeno de ocorrências de um determinado crime chega ao conhecimento das autoridades. Deste já pequeno número, uma ínfima parcela chega ao conhecimento do judiciário, e uma menor ainda resulta em condenações”.

8) ~Excesso de libido~ masculina não causa estupro

Não é o ~excesso de desejo~ masculino que faz com que as mulheres sejam estupradas (aliás, engraçado como são as feministas as que mais batem na tecla de que os homens não são “animais irracionais” e as mais acusadas de vê-los como tais). A sexualidade do ser humano é um terreno complexo e envolve mais do que a mera vontade de transar. Existe toda uma construção de ideias anterior ao ato sexual – e à violência sexual também – que faz com que o sexo seja algo que vai muito além dos órgãos genitais. Portanto, propostas que envolvem a castração química, por exemplo, vindas de pessoas que querem impedir que a sociedade discuta e debata questões de gênero, ainda por cima, estão muito mais perto de algum tipo de fetiche com violência e tortura do que de empatia com vítimas de estupro.

Em uma reportagem do Uol, o psiquiatra Danilo Baltieri, coordenador do Ambulatório de Transtornos da Sexualidade da Faculdade de Medicina do ABC, afirma que o termo “castração química” é, inclusive, mentiroso. O que ocorre, na realidade, é uma diminuição de impulsos sexuais. Porém, o interesse continua. “Em casos de estupradores não é apenas uma questão orgânica que importa, o problema também é ‘intelectual’. É claro que a castração não cura, não transforma a ideologia. Mesmo se não tiver ereção, o agressor pode praticar violência sexual de outras maneiras”. Leia a matéria completa aqui 

9) Vida sexual ativa não causa (nem justifica) estupro

Vamos deixar uma coisa bem clara: sexo é o encontro de corpos que se desejam mutuamente. Se não existe consentimento de alguma parte, é estupro. Mesmo que esses corpos já tenham se desejado mutuamente em alguma ocasião anterior, é preciso que o acordo seja reafirmado a cada novo encontro. E se esses corpos já estiveram com outros corpos, não significa que vão querer estar com todo mundo que aparecer pela frente. Tem homem que acha que mulher é igual máquina de refrigerante: se ela já transou com ele ou com outras pessoas alguma vez na vida, ele tem direito a refil automático. Não é assim mesmo. Sexo não é uma obrigação, e sim uma escolha autônoma.

Tem gente que diz coisas tipo “ah, mas ela nem era virgem” e eu sempre fico meio chocada, me perguntando em que século pessoas assim vivem. Vasculhar o passado sexual de vítimas de estupro é reafirmar o corpo da mulher como público e violável. Essa imposição histórica não é natural e, por isso, a luta que busca construir a equidade de gênero e destruir a misoginia (que tem bases profundas na inferiorização do corpo do sexo feminino) é fundamental. E tem mais: mulheres não dizem não querendo dizer sim. Não é não, e não importa o que elas já fizeram antes na cama (ou no chão, no sofá, na barraca de camping ou na areia).

10) Estupro não tem nenhuma justificativa aceitável, na verdade

Falamos em ~construção social~ com o intuito de não essencializar comportamentos ruins, porque acreditamos na possibilidade de humanidade em vocês, homens (algo que, infelizmente, não parece recíproco em muitos momentos). Logo, não acreditamos que um rapaz nasça automaticamente querendo fazer mal às mulheres e sim que ele cresce absorvendo mensagens diversas — da religião à pornografia, passando por esferas como arte, medicina, música, ambiente de trabalho e outros — onde uma hierarquia sexual existe e ele precisa reforçar a própria masculinidade, bem como estreitar laços com outros caras e demarcar seu papel de ‘poderoso’ (no âmbito do controle do espaço público e dos corpos femininos pelo menos) por meio de práticas que inferiorizem e subjuguem o sexo feminino. Por isso, nós, mulheres, precisamos urgentemente do reconhecimento de que somos humanas também.

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Crédito: Eduardo Valente

E se fosse haver algum apelo ou alguma questão nesse grito, seria essa: por que vocês são tão lentos? Por que vocês demoram tanto para entender as coisas mais simples – não as ideologias complicadas. Vocês entendem essas. Mas as coisas simples, os clichês. Que as mulheres são humanas precisamente no mesmo degrau e qualidade que vocês são.

(…) O poder exercido pelos homens no dia a dia é um poder institucionalizado. É protegido por lei. É protegido pela religião e pela prática religiosa. É protegido pelas universidades, que são fortalezas da supremacia masculina. É protegido pela polícia. É protegido por aqueles que Shelley chama de “os legisladores não reconhecidos do mundo”: os poetas, os artistas. E contra todo esse poder, nós temos silêncio.

É uma coisa extraordinária tentar entender e confrontar o motivo pelo qual os homens acreditam – e eles acreditam – que eles têm o direito de estuprar. Eles podem não acreditar quando perguntados diretamente. Quem aqui acha que tem o direito de estuprar, por favor levante a mão. Poucas mãos vão subir. Mas é na vida que os homens acreditam que têm o direito de forçar sexo – que eles não chamam de estupro. E é algo extraordinário tentar entender que homens realmente acreditam que têm o direito de bater e de machucar. E é igualmente extraordinário tentar entender que homens realmente acreditam que têm o direito de comprar o corpo de uma mulher para fazerem sexo – e que isso é o seu direito. E é também surpreendente tentar entender que os homens acreditam que essa indústria de 7 bilhões de dólares, que traz vaginas para as suas vidas, é algo a que eles têm direito.

(…) Eu acho que, se você quer olhar para o que o sistema faz com você, então é aqui que você deveria começar: as políticas sexuais da agressão, as políticas sexuais do militarismo. Os homens estão com medo dos outros homens. Isso é algo que muitas vezes vocês tentam discutir em grupos pequenos, como se, caso mudassem suas atitudes uns com os outros, deixariam de sentir medo.

Mas enquanto sua sexualidade tiver relação com agressão, enquanto seu senso de direito sobre a humanidade significar ser superior a outras pessoas – e tem tanto desprezo e hostilidade nas suas atitudes com mulheres e crianças – como vocês podem não ter medo? Eu acho que vocês percebem, corretamente, mesmo sem conseguir lidar com isso de forma política, que homens são perigosos: porque vocês são.

Andrea Dworkin. Trechos de discurso feito em em 1983, intitulado “Eu quero 24 horas sem estupro”. Leia aqui.

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DEZ COISAS QUE HOMENS FAZEM ERRADO DURANTE O SEXO

Esta postagem foi escrita pela autora do blog Deixa de Banca. 

Homens que se relacionam com mulheres: aprendam alguma coisa aí! Mulheres que se relacionam com homens: comecem a se posicionar cada vez mais! E é isso. Aproveitem a leitura. 

Tudo bem, vivemos numa época de liberação sexual. Embora isso signifique mais sexo, não é a mesma coisa que sexo bom. O discurso da liberdade sexual trouxe pouco para mulheres heterossexuais além de trepadas medíocres. Isso porque, com séculos de sexualidade construída apenas para satisfazer o desejo masculino, homens não sabem trepar com mulheres. Eles não sabem do que a gente gosta. Eles não sabem como o nosso corpo funciona. Por vergonha, por medo, por não entender se o problema é com nós mesmas, ficamos caladas. E aí se perpetua o ciclo do sexo seco, dolorido, sem graça, fingido. Minas, se o cara estiver mandando mal, não se calem! Nenhuma de nós é obrigada a lidar com os erros abaixo:

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Ilustração de Polly Nor

1) Achar que sexo é só penetração

Eu posso estar pelada com um cara na cama, chupar ele, ele me chupar, todo mundo gozar e dormir de conchinha, mas ele não vai considerar que a gente fez sexo. Isso porque o sagrado pau dele não abençoou minha buceta. Por que só é “sexo de verdade” quando rola penetração, sendo que nem é assim que mulheres gozam?

É isso aí. De acordo com diferentes pesquisas, o número de mulheres que gozam com penetração varia de 50% a até mesmo 7%! Quando gozamos com algo dentro da gente, ainda assim provavelmente foi porque nosso clitóris estava sendo estimulado. É nele que está toda a graça! Passei boa parte da minha vida sexual me perguntando se eu tinha algum problema por não sentir tanto prazer assim ao ser penetrada, mas a verdade é que está tudo ok comigo. Eu só estava transando com caras que não reconheciam o poder do clitóris.

2) Começar a te chupar antes de você estar pronta

Você provavelmente já conheceu um cara assim. Ele ama chupar buceta. Muito. Ele gosta de tudo: do cheiro, do gosto, da sensação das suas coxas contra a cabeça dele. Mas, principalmente, ele ama falar sobre o quanto ele adora chupar buceta. É como se, ao te chupar, ele estivesse te fazendo um favor. Um rapaz com quem costumava sair já cometeu o desplante de dizer que eu tinha “sorte de ele gostar de fazer oral”, já que era o único jeito que eu conseguia gozar.

Bom, aí vai um recado: chupar minha buceta não é um favor. Não te faz um cara melhor do que os outros. Não te torna especial. Com esse ego inflado e senso frágil de identidade, você conseguiu transformar até um momento que deveria ser focado no meu prazer em algo sobre você.

Dito isso, muitos homens ficam tão empolgados em conquistar o selo especial de Rei da Chupada que se esquecem do essencial: eu tenho que estar pronta. Se você começar a me chupar do nada, sem nenhuma ação antes, com a minha buceta seca, é bom preparar o fôlego. Porque eu vou demorar para gozar. Bastante. Vou demorar tanto que vou começar a me preocupar se você já não está cansado e fazendo só por obrigação. Será que tem algo errado comigo? E se eu me concentrar bastante?

A partir daí, das duas uma: vou fingir um orgasmo para não ferir seu ego, se eu estiver me sentindo particularmente bondosa. Ou então vou pedir para você parar, porque hoje não vai rolar, tudo bem? Para sua boca encostar na minha buceta, eu tenho que estar implorando por isso. Tem que ser a única coisa em que eu consigo pensar naquele momento. Para me fazer chegar a esse estado, recomendo esse texto aqui.

3) Achar que sexo é performance

“Um cara já me disse que achou broxante porque eu ri do barulho da bola dele mexendo. Sei lá, era engraçado, desculpa. Não tô ali para ser a mulher sensual, perfeita, que só geme e goza. Parece que tem que tudo ser um momento sexy, selvagem, santa por fora, devassa por dentro”, desabafou uma amiga minha.

Acho que boa parte das mulheres passa pela meta-experiência de se imaginar trepando… enquanto trepa. Minha aparência deveria ser a última coisa com a qual eu deveria me preocupar, mas cá estou eu de quatro na cama me perguntando se meus peitos dependurados são realmente tão estranhos assim. De alguma forma sinto que não correspondo aquele ideal de deusa do sexo que me foi incubido, mas percebi que isso não é um problema.

O problema é achar que trepar é igual nos filmes, no pornô, na televisão, nos livros. Não é limpinho e antisséptico. Às vezes acontecem barulhos engraçados. Às vezes eu vou estar com uma calcinha puída. Às vezes eu não vou saber direito fazer alguma coisa. E tudo bem.

4) Bancar o machão

Nós, mulheres, ganhamos a fama de frígidas, mas pouco se fala sobre o quanto homens são travados durante o sexo. Qualquer coisa que ameace a posição deles como cabra macho é considerada um perigo. Parece que curtir ter o mamilo chupado ou levar uma pegada na bunda é “coisa de viado” e, portanto, algo a ser evitado a todo custo. Se soltem. Se deixem gemer. Deixem a gente descobrir os corpos de vocês.

5) Não prestar atenção nas reações da parceira

Tá, a mina não precisa se comportar igual uma atriz pornô, mas se ela estiver estatelada na cama, parecendo mais morta do que viva, alguma coisa está muito errada. Quando a gente curte, a gente mexe o corpo, geme, faz caretas bizarras, olha nos olhos, as pernas tremem. Se nada disso estiver rolando, as chances de você estar mandando mal são de 99%.

Pare e converse com a mina, pergunte se está tudo bem, se ela quer continuar, se tem alguma coisa que você pode fazer. É muito comum que mulheres tenham medo de mandar a real e dizer que não estão curtindo, justamente por termos sido ensinadas a agradar o cara e nos submeter ao que ele quer na cama.

6) Não perguntar nada

Nas cenas de sexo que vemos na televisão e nos filmes, trepar parece tão fácil e natural quanto espirrar. Os corpos se encaixam confortavelmente um no outro, as mãos sempre sabem o que fazer, cada instante é fluido e perfeito. O sexo na vida real tem o ritmo mais parecido com o de um motor que demora para engatar. Vai demorar um tempinho até que você e o seu parceiro saquem o ritmo e as preferências do outro. Algo que pode agilizar esse processo é fazer perguntas. Isso não é broxante. Broxante é achar que está arrasando fazendo uma parada cuja única reação que desperta na mina é vontade de bocejar.

Outra coisa: talvez você tenha preferências mais específicas, como xingar, bater, gozar em determinadas partes do corpo. Nunca é tarde para pesquisar um pouco sobre Andrea Dworkin, mas pode ser que você ainda não se sinta emocionalmente preparado para desconstruir seu comportamento sexual. Então, pelo amor de tudo que é sagrado, pergunte ANTES para a mina se ela curte ser chamada de vadia ou ser amarrada no sofá e obrigada a assistir a uma maratona de Big Bang Theory dublado.

7) Ter nojo

Vamos pensar um pouquinho sobre o que sexo é: você lambendo a genitália de outra pessoa. Você enfiando a genitália de outra pessoa na sua genitália, ou vice-versa. Você passando e enfiando os dedos na genitália dela. Isso envolve saliva, gozo, suor, pêlos, às vezes sangue menstrual. São dois corpos fazendo coisas que corpo fazem, o que pode significar cheiros e barulhos estranhos. É normal. E, sim, mulher tem corrimento, então secreções parecidas com catarro podem sair da vagina dela ou estar na calcinha dela. Superem. E nenhuma mulher vai ter a pele imaculadamente lisa e livre de pelos, a não ser que ela tenha um caso muito grave de alopecia.

Por outro lado, é sempre importante lembrar que uma lavada no pinto nunca é demais.

8) Acelerar o ritmo na hora que percebe que você vai gozar

Parece que o truque de mágica favorito de alguns homens é fazer seu orgasmo desaparecer. Naquela hora em que ele finalmente acerta no ritmo na hora de chupar ou te masturbar, você está quase chegando lá, começa a gemer, as pernas tremem e… o cara acelera feito uma britadeira. Mais uma vez enganado pelo pornô, ele acha que, indo mais rápido, vai fazer você gozar logo. Se você fez alguma coisa que me deixou próxima de gozar, a coisa mais lógica seria continuar, em vez de mudar completamente o que você estava fazendo, certo? A não ser que você seja adepto de tortura sexual.

9) Não usar camisinha

Essa dica é tão óbvia que não deveria estar aqui, mas muitos caras acham que têm um pinto de ouro imune a DSTs. Insistir para que a garota não use camisinha é desrespeitar a saúde dela. Isso sem falar nos Demônios Sexualmente Transmissíveis, também conhecidos como bebês. Portanto: encape o pinto.

10) Exigir boquete a base de empurrões

Vamos supor que você está dando umas beijocas em um rapaz dentro de um carro. Ele começa a fazer um carinho no seu rosto que romântico!, você pensa , até que a mão dele desliza para sua nuca e começa a forçar sua cabeça pra baixo. Esse é um jeito nada sutil que alguns homens encontraram para dizer que querem ser chupados. O ataque pode acontecer do nada, numa situação em que sexo nem havia entrado em pauta. “Mulheres não são acometidas por uma vontade súbita e instantânea de chupar seu pinto do nada”, esclarece uma amiga. Querido, espere a menina tomar a iniciativa ou então peça, com palavras, educação e em contextos adequados. Você consegue.

Leia também (esses foram escritos por mim):

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15 trabalhos de lésbicas maravilhosas – #visibilidadelesbica

Vocês sabiam que 29 de agosto é o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica? Pois é. A data nasceu e 1996, durante o primeiro Seminário Nacional de Lésbicas e Mulheres Bissexuais (Senale), no Rio de Janeiro (RJ). Desde então, foram realizados oito encontros nacionais em diversas cidades do Brasil. O último foi em 2014, em Porto Alegre (RS). No entanto, ainda é longa a caminhada para que mulheres lésbicas consigam direitos, respeito e atenção – e para que a vivência, cultura e identidade delas seja levada a sério! A lesbiandade não é um fetiche sexual, não é uma vergonha, não é “fase” e muito menos “falta de rola”, como muita gente grosseira, imbecil e limitada insiste em dizer.

Com o intuito de celebrar este dia e cumprir a função primordial da data – visibilidade – vou postar aqui 15 trabalhos de lésbicas maravilhosas, para que vocês possam apreciar textos, desenhos, músicas e outras produções de um monte de mulher talentosa. Além disso, quero disseminar o pensamento e a perspectiva de mulheres lésbicas diversas, para auxiliar na reflexão coletiva de questões relacionadas à elas, e também estimular a pesquisa por produção de mulheres lésbicas. Que a partir daqui, muitas pessoas possam buscar outras e outras e outras mulheres. Não é uma lista hierárquica ou definitiva, apenas uma compilação de materiais interessantes que colhi por aí e de trabalhos que já costumo acompanhar faz tempo. Quem tiver dicas interessantes, posta nos comentários, por favor!

1 – “Todas fomos obrigadas a abrir mão das nossas plenas potências de seres humanos porque os homens tornaram secreto nosso discernimento desde a mais tenra infância. Tornaram secretos os símbolos da sexualidade das mulheres e tornaram secretos suas violências sádicas e fetichistas sobre nossos corpos infantis. Os homens violaram muitos dos nossos corpos quando ainda éramos muito, muito pequenas. Talvez sexualmente. Talvez usando a ‘educação corretiva’ como um meio de entendermos que não tínhamos o direito de sermos tão humanas quanto eles porque éramos crianças e, mais precisamente, meninas, aquelas que deveriam aprender a feminilidade. Os homens impuseram sobre as mulheres a cultura do segredo” —– trecho de Uma provocação às lésbicas brasileiras do século XXI”. Clique aqui para ler na íntegra. A autora desse blog (M.I.L.F. WTF?) está lançado um livro independente, o “Língua Inquieta – da heterossexualidade compulsória ao orgulho sapatão”. Para saber mais sobre e encomendar o seu, clique aqui. 

2 – “Assim, ao invés de se preocupar com mulheres lésbicas que seguem enxergando a heterossexualidade como única saída, que estão presas ao regime compulsório no qual foram criadas, o movimento feminista se deixa cooptar e passa a gritar por uma liberdade sexual que de livre não tem nada, num discurso raso que não abrange nem um décimo do que é a vivência lésbica e a importância em negar nossos corpos ao acesso masculino. O feminismo precisa ser lesbocentrado porque a revolução será lesbocentrada ou não será. Isso não quer dizer que toda mulher é ou será lésbica ou que as pautas de mulheres heterossexuais e bissexuais não devem ser atendidas, mas sim que devemos nos reavaliar, colocar nossa sexualidade em questionamento, e tentar ao máximo nos livrar da ideia de que é absurdo ou anormal viver sem homens – porque só entendendo nossos corpos enquanto autônomos poderemos estender esse raciocínio para nossa existência e por consequência nossas atividades, nossa força de trabalho, nossa inteligência e capacidade”  —– trecho de “Lesbofobia e resistência”. Clique aqui para ler o texto completo.

3 – “Queridas pretas lésbicas, por onde vocês andam? Parece que desde que assumi minha identidade preta&lésbica, vocês sumiram. Eu não entendi isso… Me assumo, reivindico e vocês desaparecem? Como assim? Me sinto abandonada. Sem acalento, sem afago. Porque isso agora? Por onde vocês andam, pretas? Não as vejo nas ruas, nas lojas, nos cinemas… Muito menos nas escolas, nas universidades, nas empresas de comunicação social. Não… Acho que já teve uma vez  que as vi… Foi de uma forma muito ruim, zombeteira com a gente. Era retratado um estereótipo bem pesado, sabe? Carregado de duplos sentidos misóginos e racistas, lesbofóbico por regra… Eu não aguentei nos ver diante daquela telinha. Do mais, pra falar a verdade, não lembro se cheguei a vê-las em algum filme na tela grande. Não…. Pode ser que eu lembre e faça um update neste post, mas por enquanto não lembro”—– trecho do texto Onde estão as preta e sapatão?”. Clique aqui para ler na íntegra.

4 – “Closer”, música das irmãs gêmeas (ambas lésbicas) canadenses Tegan & Sara. A faixa esta no Heartthrob, sétimo álbum delas – o último lançado até hoje – e que é o que menos gosto, na real. No entanto, nem sei qual dos outros indicar para quem está iniciando, de tanto amor que sinto por elas – curto desde adolescente. Aliás, porque elas nunca tocaram no Brasil?

5 – Ilustração de Maria Freitas. Veja mais desenhos dela na página “O Mago Rosa”, no Facebook.

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6 – “Eu concordei em participar numa conferência do Instituto de Humanidades da Universidade de New York há um ano, por ter entendido que eu comentaria trabalhos que abordassem o papel da diferença nas vidas das mulheres americanas: diferenças de raça, sexualidade, classe e idade. A ausência dessas considerações enfraquece qualquer discussão feminista sobre o pessoal e o político. É uma arrogância da academia, em particular, assumir qualquer discussão sobre teoria feminista sem examinar nossas várias diferenças, e sem uma perspectiva significativa das mulheres pobres, Negras e Terceiro-Mundistas, e Lésbicas. Ainda assim, coloco-me aqui como uma Negra Lésbica Feminista que foi convidada, nessa conferência, a falar no único painel em que a perspectiva das Negras Feministas e Lésbicas está representada. O que isso diz sobre a visão dessa conferência é triste, num país onde racismo, sexismo e homofobia são inseparáveis. Ler a programação é assumir que mulheres Lésbicas e Negras não têm nada a dizer sobre existencialismo, o erótico, a cultura e silêncio das mulheres, desenvolvimento de teoria feminista, ou heterossexualidade e poder” —– trecho do textoAs Ferramentas do Mestre Nunca Vão Desmantelar a Casa-Grande – Audre Lorde”. Clique aqui para ler na íntegra.

7 – “Visibilidade é termos espaço para falarmos de nós mesmas, de nossas vivências lésbicas, é podermos falar de prevenções sexuais para lésbicas, é conseguirmos que nos vejam como lésbicas e nos respeitem, e que não nos tratem como indecisas, modinha, desviantes que precisam ser ‘corrigidas’. Que tenhamos visibilidade na sociedade, ou seja, que sejamos reconhecidas enquanto lésbicas, e isso implicaria em não termos mais que ter medo de levarmos nossa namorada/companheira conosco a lugares, pois não correríamos mais o risco de sermos rechaçadas e agredidas, em não termos mais que justificar para pessoas heterossexuais o motivo de já termos nos relacionado com homens, e que isso não fizesse com que essas pessoas achassem que têm o direito de nos desrespeitar e de forçar-nos a conhecer homens, visto que, para essas pessoas, só estamos passando por uma fase ‘indecisa’.  É termos nossas relações respeitadas, é termos nossas relações vistas como relações, e não como ‘apenas duas amigas’, ‘colegas’, é termos uma representatividade real, e não essas migalhas estereotipadas que a mídia nos dá como forma de calar a nossa boca” —– trecho do texto “Visibilidade lésbica? Ou invisibilidade?”. Clique aqui e leia completo.

8 – “Dykes to watch out for” é uma série de tirinhas da quadrinista norte-americana Alison Bechdel, autora de livros como “Fun Home” e “ Você é minha mãe?”. Infelizmente, a série nunca foi traduzida para o português (alô, editoras!), mas é ótima e narra diversas histórias interessantes sobre mulheres lésbicas bem diferentes umas das outras. Achei muito legal, porque as personagens são bem multidimensionais – como o ser humano como um todo é, mas ás vezes esquecem isso quando grupos minoritários são o assunto. Mais sobre a série aqui (em inglês).

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9 – A australiana Courtney Barnett acabou de lançar o álbum “Sometimes I sit and think and sometimes I just sit”, e pra quem curte a vibe 90s + um mix de barulho & doçura, recomendo ir fundo. Ela é foda demais. Em “Dead fox”, Courtney começa falando sobre como Jen – de sobrenome Cloher, sua namorada desde 2011 – sempre diz pra elas comprarem vegetais orgânicos e logo começa todo um questionamento tretoso & sagaz sobre agrotóxicos, animais e afins.  “Numbers” foi escrita pelas duas e fala sobre a relação delas. Aqui tem um vídeo onde cantam a música juntas.

10 – Sempre amei esse cover de “Romeo and Juliet” que as Indigo Girls – as norte-americanas Amy Ray e Emily Saliers – fazem da música de Mark Knopfler, é muito melhor do que a original. E sempre pensei na interpretação delas como um romance lésbico, mesmo antes de saber que a dupla era lésbica. Nessa entrevista aqui (em inglês), Amy fala sobre como associar ativismo e música.

11 –  “Audre Lorde foi uma escritora americana de descendência caribenha, feminista lésbica e ativista na luta pelos direitos humanos. Escreveu romances que abordam temáticas como feminismo e opressão, além de direitos humanos. Sua obra poética foi publicada a partir da década de 60. Os temas mais abordados em sua obra são amor, traição, nascimento, classe social, idade, raça, sexualidade, gênero e saúde, haja vista que veio a falecer devido a um câncer de mama. Sua poesia é um espaço também em que ela se afirma como lésbica e feminista negra. Lorde desafiou feministas brancas, questionando seu ponto de vista sobre questões raciais, e se tornou uma voz lésbica negra isolada dentro do movimento feminista, apontando as opressões a que as mulheres brancas submetiam as mulheres negras” —– fonte: Blogueiras Negras. 

NEW SMYRNA BEACH, FL - 1983: Caribbean-American writer, poet and activist Audre Lorde lectures students at the Atlantic Center for the Arts in New Smyrna Beach, Florida. Lorde was a Master Artist in Residence at the Central Florida arts center in 1983. (Photo by Robert Alexander/Archive Photos/Getty Images)

“Mulheres são poderosas e perigosas”

12 – “E foi assim que eu te encontrei. Bonita, peituda, cheirosa, pedante, teimosa. Fazendo fita. De vez em quando você vem, chegando, bulindo, aplaudindo, somando e assumindo. Pintando a sete”, canta Mart’nália em “Tava por aí”. A artista é uma das poucas que me lembro que é famosa no mainstream brasileiro e diz com todas as letras que é lésbica. Nessa entrevista aqui, ela fala, de forma bem-humorada, que o pai dela, Martinho da Vila, tem as mulheres dele (lembram da música? “Já tive mulheres, de todas as cores…” ) e ela as dela.

13 – A cantora Cássia Eller também teve essa coragem de assumir sua lesbiandade para o Brasil inteiro. Leia aqui entrevista deste ano de Maria Eugênia Martins, que foi companheira de Cássia, falando sobre maternidade, Chicão e relação com a cantora. Lembro que estudei com uma sobrinha de Cássia, durante o período escolar, e vivíamos fazendo perguntas sobre a cantora. A menina disse uma vez, no almoço, que ela comia cebola e falava “comi cebola, pra namorar”. Nunca esqueci. Adoro saber as bobeiras alheias!

14 – “Primeiro, é importante lembrar que, alheias aos discursos pós-identitários da contemporaneidade, as violências racista, lesbofóbica, classista se dão em planos discursivos e materiais cotidianamente perceptíveis, e se baseiam em distinções nítidas de ‘nós’ e ‘os outros’ hierarquizantes, às quais o sistema de racialização e generação de corpos tem sido um dos maiores investidores. Cheryl Clarke se refere explicitamente a essa violência e a essa disputa ‘nós’ e ‘os outros’ no poema We are everywhere (2006), traduzido como Nós estamos em toda parte. Aqui, o referencial ‘nós’ vai ser aquelas desde longe constituídas como um ‘outro’ praticamente inadmissível: lésbicas negras visíveis, e autoenunciadas. Outro ponto importante a se lembrar é que Clarke não aceita racializações simplistas de nós negras versus eles brancos. Ela mesma é uma crítica ácida do trabalho de algumas feministas negras, sempre uma questionadora da sororidade compulsória entre mulheres, e uma justa e enfática elogiadora de obras e escritoras que revolucionam dicotomias sexuais, raciais, de gênero, de classe, e disposta a rever críticas anteriores” —– trecho do artigo “Sinais de luta, sinais de triunfo: traduzindo a poesia negra lésbica de Cheryl Clarke”, de Denise Botelho e Tatiana Nascimento dos Santos. Leia aqui. Sou stalker (modo de dizer, gente!) da Tatiana desde adolescente: já li textos que ela escreveu para para zines, blogs e até mesmo trechos da tese de doutorado dela. O que/como ela escreve me impacta e ensina bastante.

15 – “Sim, sou tríbade, sáfica, lésbia, lesbiana, entendida, invertida, transviada, sapatão, sapa, sapata, francha, bolacha, fanchona, paraíba masculina, mulher-macho, gay, sim senhor, machuda, macha, “dyke”, como dizem as americanas, ou como as mexicanas, tortillera, do tupinambá çacoãimbeguira, do latim virago e, brasileiramente falando, roçadeira, saboeira, moquetona, madrinha, pacona, do aló, do babado ou, se preferirem algo mais erudito, ginófila, andrógina, homófila, fricatrix e homossexual. Podem me chamar de tudo isso, eu não me importo. Se me chamam de lésbica ou safista, sinto orgulho e me envaideço: a origem dos termos é nobre. Safo, a grega, foi a maior poeta lírica da Antigüidade, cultuada por Platão e Ovídio e sucesso no Mediterrâneo cinco séculos antes de Cristo. Por acaso, fazia sexo com mulheres, vivia na ilha de Lesbos e, para tocar sua lira e manter as unhas curtas, inventou a palheta, a mesma que roqueiros usam para fazer gemer suas guitarras. Bons dedos e boa lábia. Por que me ofender se me chamam lésbica?” —– trecho de “Ninguém vai me ofender”, texto de Vange Leonel. Leia completo aqui. Autora de livros como “Lésbicas”, “Girls – Garotas iradas” e “Balada para as meninas perdidas”, a cantora e escritora morreu em julho de 2014, em decorrência de um câncer no ovário.

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Estupro é invenção de maluca

Claro que não, né?

Mas é o que muita gente acha.

Uma amiga postou um texto no Facebook sobre consentimento (que era uma transcrição desse vídeo aqui). E desabafou sobre a vontade de enviá-lo para “uma longa lista de machos estupradores” que ela conhece. Um rapaz – que até então era nosso amigo, mas deletou a gente, rs – não se solidarizou com o fato de ela saber de tantos casos. Nem buscou entender melhor a questão ou debater de forma adulta. Muito pelo contrário. Ele chegou cheio de ironia questionando se existiam tantos estupradores assim, porque ele não conhecia. Deixou no ar que a minha amiga estava mentindo, exagerando. Mulher. E feminista. Só pode ser uma louca exagerada, não é mesmo?

Ela falou que ele provavelmente não sabia de nada ou não sabe de muitos casos porque nenhuma mulher iria contar pra alguém que já chega duvidando assim. Eu pensei o mesmo, me meti na conversa e especulei uma vista grossa da parte dele. Porque vista grossa é o que todo mundo acaba fazendo, na maioria das vezes. Até mesmo feministas fazem, gente. Homens, então, nem se fala.

Vejam bem, não estou dizendo que a minha amiga é inquestionável, ou eu ou qualquer outra pessoa. Mas esse é um comportamento comum de muitos homens. Eles automaticamente invalidam o que uma mulher diz, de forma arrogante, ~gaslaiteadora~  e infantilizada. “Será?”, “isso aconteceu mesmo?”, “você tem certeza?”, “você não está exagerando?”, “você não está confundindo as coisas?”, “você não entendeu errado?”, “não sei do que você está falando” ou “tá bravinha?” são coisas comuns ditas às mulheres, com o intuito de impedir que elas perturbem, com verdades dolorosas, a ordem estabelecida. Porque é muito mais fácil calar a mulher do que ter que cortar laços com amigos da balada ou acreditar que um determinado cara super profissional no que faz seja um agressor, por exemplo. Mulher sempre foi abusada mesmo… O que é só mais um sexozinho? E qual o problema da falta de consentimento uma vezinha só? Ou duas?

E assim tudo continua como está…

Olha, vou contar uma coisa pra vocês, que era pra ser óbvia, mas não parece ser: ninguém sai gritando por aí algo tipo “olá, que lindo dia, estuprei alguém hoje!”. Como eu já disse uma vez, nesse texto aqui, tem homem que sequer sabe que NÃO EXISTE DIFERENÇA entre sexo sem consentimento e estupro.

*facepalm*

Então aqui vai outra informação óbvia: um cara que tenta ou consegue fazer sexo com uma pessoa sem o consentimento dela, bem… Está tentando estuprar ou está efetivamente estuprando essa pessoa. No texto que acabei de indicar no parágrafo anterior, falo sobre isso. Que consentimento envolve uma pessoa ADULTA, ACORDADA, SEM ESTAR BEBAÇA, DROGADA, SOB EFEITO DE REMÉDIOS, HESITANTE OU DIZENDO NÃO. É bem simples. E, infelizmente, estupro é algo bem democrático: homens de todas as cores, tamanhos ou condições financeiras cometem esse crime, de várias maneiras. Existem caras que se sentem sem poder e se afirmam por meio da violação do corpo alheio. Existem caras que se sentem poderosos demais e acham que podem fazer o que querem por aí. Etc. Poderíamos passar o dia teorizando sobre poder & estupro, coisas extremamente conectadas.

Um outro ponto também, que é importante: o homem acaba se beneficiando do regime machista em que vivemos, que automaticamente coloca tudo que uma mulher diz em dúvida. Se alguém fala algo sobre ele, basta falar que a mina é vadia, que ela se insinuou, foi atrás, provocou, que ela deu em cima, mandou mensagem, que ela é maluca, barraqueira. Sei lá. Qualquer coisa assim. E a vida continua. Ele pode ter o desconforto de ter que lidar com alguns olhares tortos por aí, mas nada demais. Ninguém nem vai se preocupar em confirmar se ele fez algo de errado ou não. Mesmo se for confirmado, não faz diferença. Quem nunca teve que lidar com um agressor no círculo social que atire a primeira pedra. Já a garota ás vezes é extremamente exposta, julgada, isolada socialmente e, como consequência disso tudo, fica traumatizada e se sentindo culpada.

Aliás, hoje em dia eu duvido muito do caráter de caras que precisam ficar xingando mulheres que já estiveram com eles (ou qualquer mulher, na real), seja em namoro, sexo casual, tanto faz. Uma coisa é falar de forma objetiva que uma pessoa fez algo que você não gostou e te chateou, tipo, sei lá, roubou um gibi seu ou nunca mais atendeu suas ligações. Outra coisa é ficar xingando de “vadia”, “piranha” ou justificando (sem ninguém perguntar, muitas vezes) que a garota que ficou atrás ou é do tipo que “pega” todo mundo. Esses comentários sempre me parecem coisa de quem já está preparando terreno para se safar de alguma acusação mais séria, bem naquela lógica do “mas ela estava de vestido curto, mereceu!”.

Eu conheço, inclusive, diversos caras que agem de forma totalmente inaceitável. Que perseguem mulheres, inventam mentiras, adjetivam garotas de forma machista, são homofóbicos, violentos, forçam a barra pra ficar com alguém, levam a falta de comprometimento com parceiras como modus operandi, entre outras coisas. No entanto, eles são tratados como “irreverentes”, “doidinhos”, “excêntricos”. É muito difícil mesmo combater o que se chama de “cultura do estupro”, porque ela não é relacionada apenas ao estupro em si, mas a todos os comportamentos que citei nesse texto que colocam o homem em vantagem e a mulher em desvantagem e, consequentemente, colaboram com esse cenário em que a falta de respeito em relação ao corpo & subjetivo da mulher se torna um tabu, um elefante no meio da sala.

O que as pessoas querem é uma vítima perfeita. Uma que seja virgem, nunca tenha tirado foto pelada, beijado na boca, bebido, mandado mensagem ou falado palavrão. Que não seja lésbica ou nunca tenha viajado. Que não cante, dance em festas ou estude, que nunca tenha trocado de namorado. O que as pessoas querem é uma mulher que não existe, porque as que existem sempre vão dar algum motivo pra merecer algo de ruim – mesmo que o crime delas tenha sido apenas existir perto de um homem.

Tem outra coisa que eu quero contar, mas essa não é tão óbvia. Quando uma mulher é abertamente feminista ou envolvida em grupos e movimentos sociais, ela tem cada vez mais acesso à relatos de violência. Não só por conta de leitura de textos ou relatórios ou pesquisas. Mas porque as mulheres ao redor começam a se sentir confortáveis, percebem que pode rolar mais empatia e um entendimento mais profundo da questão. É um novo mundo que se abre, de compartilhamento de ideias e informações que muitos de vocês, que são homens, nunca vão entender. Mas independente disso, é real. E dói. Porque os números deixam de ser números e viram rostos de pessoas ao seu redor que você nunca imaginaria que tinham sofrido alguma violência.

E um monte de cara legal deixa de ser legal.

E dá raiva. Dá raiva do grupinho de amigos que faz merda com uma mina pra rir dela depois – male bonding por meio da violência, nenhuma novidade. Dá raiva dos urubus de porta de escola que ficam caçando novinhas, dá raiva do fótografo de mulher pelada que só quer tirar uma casquinha (aliás, a cada pedido que leio por aí de ~modelos pra fotos belas artísticas nu feminino~ meus olhos rolam tão fundo que quase afundam). Dá raiva das passadas de mão, dos beijos à força, do cara que trancou a mulher no quarto, que abriu a calça da menina dormindo, que forçou sexo sem camisinha e tirou onda, do stalker se fazendo de coitado apaixonado, dá raiva, dá raiva, dá raiva… Dá raiva e as linhas borram tanto que eu nem sei mais distinguir quem é quem. A conivência também é parte da violência.

E tem outra questão. Sendo o estupro também uma pauta política do feminismo, é preciso discutir estratégias, leis, comportamentos e tudo mais. Porém, o assunto é bem espinhoso, complicado e passa por questões muito subjetivas e por questões de vivência que, ás vezes, teorias e dados não alcançam.

E ainda existe o mito de que estuprador é somente aquele cara que sai do mato com uma faca. Ou é um homem com algum distúrbio psicológico. Essas ideias blindam o “homem comum” de culpa e transformam o estupro em um acontecimento excepcional, sendo que ele é comum e acontece dentro de famílias, entre “amigos” e assim vai. Isso emperra ainda mais a discussão e, ao mesmo tempo, naturaliza a violência que a mulher sofre por parte de conhecidos.

E enquanto debatemos se as mulheres estão mentindo ou não, muita gente corre impune por aí.

E as intolerantes são as que não querem mais ser estupradas e não os estupradores.

Mundo estranho esse.

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Mulheres não gostam de sexo ou homens não gostam de mulheres?

Antes de começar esse texto, gostaria de dizer que ele é voltado para relações entre mulheres e homens. E gostaria também de deixar duas frases em destaque:

  • Mulher “dá” quando ela quiser. Ou seja, pode ser no primeiro encontro. Ou no décimo. Ou nunca.
  • Ele só quer transar com você? Cai fora.

Como assim?

Por que estou escrevendo estas coisas? Bem, tenho visto muitos textos circulando por aí enfatizando que mulheres que se relacionam afetiva e sexualmente com homens podem “dar” no primeiro encontro sim. Outros dizem que é de boa que os homens só queiram sexo, se isso for o que a mulher quiser também. Que mulheres também sentem tesão. Etc. Não vou citar nenhum texto específico, porque meu intuito é falar de um problema generalizado, que é algo muito bem explicado nesse texto aqui: “A falácia da liberação sexual e as novas formas de dominação”.

Vejam bem, o fato de que mulher também sente tesão nem deveria estar em jogo. Os problemas que alguns seres humanos vivenciam hoje em dia no âmbito sexual não acontecem por essa questão, em geral (embora exista quem acredite que sim). A maior parte das pessoas – do sexo masculino ou feminino – sente desejos sexuais, se excita e possui a capacidade de alcançar orgasmos. No entanto, construímos narrativas sexuais diferentes para cada sexo. Basicamente, é aquele clichê: o homem tem que ser o garanhão e a mulher uma “dama recatada”. Essa pobreza de nuances deixa todo mundo no prejuízo – principalmente as mulheres, claro. Os homens podem sofrer com problemas eréteis, ejaculação precoce (uma sexóloga me disse uma vez, em uma conversa informal, que a maioria desses problemas é de origem psicológica) e uma pressão tremenda para corresponder a papéis que eles não querem ou conseguem. Mas, ainda assim, se na sociedade como um todo o poder é deles, todos os espaços acabam reproduzindo isso, o que engloba relacionamentos amorosos/sexuais. Logo, as mulheres, por estarem na parte inferior da hierarquia de gênero, estão infinitamente mais suscetíveis a abusos e violências.

(Sem contar que a ideia de “sexo”, no geral, é baseada principalmente no pênis-penetrando-a-vagina, o que torna a vivência sexual de todo mundo pouco ampla).

Se relacionar com homens é um constante risco

O sexo, na vida da mulher, é algo vivenciado de forma muito mais coercitiva e amedrontadora. Tipo, ela não pode transar, porque vai ser chamada de vadia, ao mesmo tempo em que tem que lidar, o tempo todo, com homens forçando a barra para transar com ela – ás vezes, os mesmos que vão chamá-la de vadia depois. É um ciclo confuso. E tem o fato de que ela é induzida a acreditar que o próprio valor vem da sua aparência e da sua capacidade de despertar desejo sexual, embora ela não queira ser resumida apenas a um corpo. E os discursos de liberação sexual buscam desconstruir toda a “repressão” da mulher como se ela fosse ~naturalmente~ reprimida, e não a sociedade que tentasse controlar o corpo dela (mas esquecem de falar da violência do homem). Daí surge um outro paradigma, que é a mulher que faz muito sexo mesmo, que não está nem aí. Porém, ainda assim, a problematização da violência masculina continua de lado e todas as mulheres, independente do que façam, continuam vulneráveis à situações desagradáveis e até mesmo criminosas (infelizmente são muitos os homens que acham que existe diferença entre sexo sem consentimento e estupro, por exemplo).

Quando falo de violência, não me refiro apenas a sexo forçado e outros atos explicitamente violentos. Estou me referindo também a violência psicológica, que se manifesta por meio de mulheres sendo chantageadas, isoladas e difamadas por conta de conduta sexual, mulheres transando sem querer transar, incitação à baixa autoestima feminina, controle e manipulação de corpos e comportamentos das mulheres, entre outras coisas.

Homens são ensinados a objetificar as mulheres

Vamos lá: a socialização do homem envolve a objetificação da mulher e o esvaziamento do subjetivo dela. Muitos homens, por exemplo, conseguem transar com mulheres que desprezam apenas pelo simples prazer de “conquistar” um novo “território”. Não vamos fingir que isso não acontece. A mulher, para ele, é uma coisa, e quanto mais coisas um homem conquista, mais poderoso se sente. Então quando um homem quer só sexo com uma mulher, eu aconselho que ela mantenha os olhos bem abertos.

“Deixa de ser moralista, aff”, você pode estar pensando. Eu já pensei assim também. É muito comum que misturem conservadorismo e críticas à desumanização da mulher em um mesmo balaio, para que a gente se sinta constrangida, chata e uncool e deixe esse papo de querer ser respeitada pra lá (a forma que as críticas contra a pornografia são tratadas são um belo exemplo disso).

Só que, hoje em dia, eu não acredito em “só sexo” (acho que nunca acreditei, na verdade). Com isso, não quero dizer que todas as relações devam se transformar em casamento-felizes-para-sempre. Por favor, né? Quero dizer que quando um homem diz querer só sexo com uma mulher e não se interessa pela maravilhosa pessoa que existe ao redor da vagina dela, isso é sim objetificação. Isso é resumir a mulher a um buraco de prazer (pra ele) cuja opinião ou pensamento não faz diferença. Como postei no Twitter um dia desses:

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Tanto que não são poucos os relatos de mulheres que praticam sexo casual e afins e depois são maltratadas e ignoradas na rua pelos rapazes com quem se relacionaram. Oras, a função delas foi cumprida, o que mais querem? Amizade? Respeito? Isso é algo que só os bróders e as minas-perfeitas-que-não-transam-cagam-falam-andam-opinam (ou seja, nenhuma) merecem, né?

Então, analisando todo esse cenário, é perfeitamente entendível porque muitas mulheres ainda tenham receio de “transar no primeiro encontro”. Uma simples trepadinha pode transformar uma mina na mártir-da-liberação-sexual-feminina e, gente, que preguiça desse alarde, né? Correr o risco de fazer um sexo que nem vale a pena e ainda ter que aturar isso se transformando em um grande embate ideológico cheio de ataques e defesas é de deixar qualquer uma sem vontade alguma de tirar a roupa. Muito drama pra pouca trama.

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“–Como que uma simples trepadinha pode render tanta dor de cabeça? Aff”

Acho que precisamos parar de pressionar as mulheres a transarem mais – ou menos – e começar a pensar nos homens. Por que eles separam mulheres em categorias? Por que eles acreditam que uma mulher só deve ser respeitada se “merecer”? O que é “merecer”, aliás? Por que dizem que não querem rótulos mas anseiam em rotular certas relações como “só sexo” já de cara? Por que eles tratam mulheres como objetos sexuais e não como seres humanas completas, capazes e interessantes? Por que eles riem e se gabam de histórias em que fizeram mal às mulheres (vide o caso recente do nojento do Alexandre Frota relatando praticamente um estupro em rede nacional)?

Ás vezes vejo discursos “empoderadores” incitando mulheres a transarem com quem elas quiserem e, bem, me parece uma forma de jogá-las aos leões, principalmente quando isso é dito para mulheres muito jovens (ainda mais se formos considerar que o número de predadores voando em cima de jovens é altíssimo. ATENÇÃO CARAS, usem a experiência de vocês pra construir algo que preste e não para manipular garotas inexperientes, vocês são ridículos).

Precisamos, primeiramente, conversar sobre consentimento, cuidado e respeito. Precisamos definir bem o que é “querer” e o que é “estar com a autoestima baixa e topar algo que não quer porque é o que tem pra hoje”. Precisamos definir que chantagem e coerção não são a mesma coisa que amor e desejo. Precisamos explicar que existem homens que rotulam mulheres de “putas” para que elas assimilem isso e fiquem com a autoestima ferida e estejam sempre disponíveis sexualmente. Ou fazem elogios frágeis e dizem que elas “são especiais” ou “não são como as outras” para que elas não se aproximem de mais ninguém e se sintam gratas por serem “valorizadas”.

É tudo muito mais complicado do que parece. Não é “frigidez”. Não é recato. Não é moralismo. É uma sociedade baseada em heterossexualidade compulsória e misoginia (e racismo, mas isso já entra em pontos que não me sinto apropriada para abordar), e que pratica um gaslighting sinistro contra a mulher, dizendo que ela precisa de homem, mas ela não pode transar, mas ela tem que satisfazer um homem, mas o corpo dela é sujo e imundo e fica cada vez mais sujo e imundo quando ela faz sexo, mas ela precisa fazer sexo, mas não muito, mas não pouco, mas não sem pênis. E o senso comum prega a existência de uma mulher infantilizada, sem pelos, maquiada, “sexy”, com a vagina cheirando a flores, com seios perfeitos, sem estrias, celulite, espinhas. É algo tão fora da realidade, que muitos homens se frustram com a mulher real e chegam a ter nojo dela.

Como eu já disse, é um tanto quanto confuso.

Então tá proibido transar?

Meu intuito aqui não é ser “anti-sexo”, mas discutir a forma que mulheres e homens se relacionam amorosa/sexualmente dentro de um regime machista. Muita mulher acha que, com o tempo, vai “mudar” o cara e fazer ele tratar ela direito e coisas do tipo. Temos que ser realistas: isso não acontece e não vai acontecer. E nem tinha que ser assim, porque mulher alguma deveria ter que provar ser “merecedora” de respeito. Os homens é que precisam começar a enxergá-las como reais e dignas de respeito em qualquer situação.

Para a segurança das mulheres, é preciso discutir sobre comportamentos masculinos recorrentes e danosos. Porque somos praticamente inseridas, sem conhecimento e sem consentimento, em relações desiguais e sádicas.

Logo, não estou contra o sexo, mas a favor do sexo bom de verdade, oras. Ou será utópico demais?

   “I believe in the radical possibilities of pleasure, babe”

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DEZ COISAS QUE TODA MULHER ODEIA NOS HOMENS

Direto vejo por aí algum link (ou artigo em revista, etc) que fala sobre coisas que homens não gostam nas mulheres. Ou coisas que homens gostam nas mulheres. Links que nos dizem para usar muita maquiagem. Ou não usar nenhuma. Para ceder às vontades deles. Para não ceder. Para ousar, não ousar, ligar na hora do trabalho, não ligar, expressar nossa opinião com cuidado, não expressar de forma alguma, usar calcinha grande, usar calcinha pequena. Isso quando algum macho não resolve vir falar pessoalmente –  sem a gente nem perguntar – o que acha da nossa aparência, corpo, personalidade, etc. Recebemos mensagens diferentes o tempo todo, algumas delas até mesmo divergentes entre si. Mas todas dizem uma mesma coisa: que devemos nos preocupar com a opinião dos homens sobre nós.

Olha minha cara de preocupada kkkkk

Olha minha cara de preocupada kkkkk

O post de hoje vai ser o contrário. Eu poderia falar sobre combinações desastrosas que alguns homens fazem, como papete e meias ou pochete e sunga, mas nossas urgências, infelizmente, vão muito além disso. Ao contrário de alguns deles, nosso maior problema não é unha, cabelo, bigode ou a porcaria de uma conta de restaurante. Então aqui vai o incrível post sobre as DEZ COISAS QUE TODA MULHER ODEIA NOS HOMENS:

1) NÃO AJUDAM NAS TAREFAS DOMÉSTICAS

Mulheres acabam fazendo jornadas duplas – e até mesmo triplas – de trabalho porque, além de inseridas no mercado, a responsabilidade de cozinhar, manter a casa limpa e cuidar de filhos cai toda sobre elas. Logo, o que vemos são mães, filhas, irmãs e/ou esposas completamente sobrecarregadas enquanto muito homem não consegue nem colocar suco no próprio copo ou lavar um garfo sujo. Não basta ajudar em uma coisa ou outra de vez em quando, cada um tem que no mínimo cuidar do que lhe diz respeito e dividir o resto de forma justa.  Cuidar, lavar, cozinhar e limpar cansa — e muito. Rapazes, saiam do videogame e comecem a esquentar o próprio Toddy. Consigo detectar vocês, os famosos fidivó, até mesmo em almoços entre amigos: geralmente são os que acham que o mundo é uma extensão de suas casas e vontades e ficam esperando que tudo fique magicamente pronto e limpo.

Sobre pesquisa “Trabalho remunerado e trabalho doméstico no cotidiano das mulheres”: “Uma outra questão que a pesquisa traz é que quando os homens estão em casa eles aumentam as tarefas de trabalho das mulheres. Aumentam a demanda do trabalho doméstico ou que então atrapalham sua realização” — Leia mais aqui.

2) DÃO CANTADAS, BUZINADAS & AFINS

Rolou a campanha Chega de Fiufiu, do Think Olga (que em breve vai virar documentário), o vídeo da garota que foi importunada 100 vezes ao andar pelas ruas de Nova York durante dez horas, e mais um monte de coisa. O assunto está sempre em pauta. Reclamamos o tempo todo das cantadas de rua. Elas são grosseiras, ofensivas e, mesmo quando proferidas por meio de belas palavras, são um saco. Nós, mulheres, andamos na rua porque precisamos ir à lugares ou queremos passear. É simples! Ás vezes estamos felizes, outras tristes, ás vezes com pressa e de mau humor. No geral, gostaríamos apenas de ficar em paz. Só que sempre tem um homem (um não, vários) que nos “percebe” e transforma qualquer simples caminhada em um tormento. Essas cantadas são muito mais intimidantes que gentis, quase como uma demarcação de espaço, uma lembrança de que o mundo, para nós mulheres, é ainda mais perigoso. E as buzinadas? Ah, basta ser mulher e andar a pé para levar buzinadas e cantadas de todo tipo (tem carro que joga até luz alta na nossa cara). Além da ofensa em si, cantadas são incômodas porque acionam outros medos: de abuso, estupro, assassinato e outras violências. E eu não digo isso por achismo: eu vivo isso todos os dias. Mas ainda assim, muitos homens tentam justificar esse tipo de coisa o tempo inteiro. E continuam importunando mulheres por aí.

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3) SE ORGULHAM DE SER ~POLITICAMENTE INCORRETOS~

Tem aquele ~humorista~ (não vou nem perder tempo citando nomes) que achou super engraçado dizer que estuprador de mulher feia merecia abraço e “comeria” uma cantora famosa grávida e o bebê. Tem aquele outro que ofereceu uma banana a um internauta negro e depois quis acionar o mito da democracia racial com um blábláblá sobre o mundo ser uma caixa de lápis de cor, tentando apagar o fato de que “macaco” é sim um xingamento historicamente usado contra pessoas negras. Tem aquele “conselheiro de relacionamentos” (cof, cof, ótimo eufemismo, hein?) do exterior que acha que humilhar mulher é técnica de sedução. Etcetcetc. A internet nos mostra, diariamente, mil exemplos de homens que seguem esse tipo de comportamento, achando que são super rebeldes, engraçados, chocantes, uau. Deixa eu contar uma coisa, se vocês acham que estão subvertendo alguma coisa perpetuando misoginia, machismo, homofobia e racismo, trago más notícias: vocês estão é colaborando para deixar as coisas do jeitinho que estão. São servos do status quo, nada além, e podemos entender o porquê, né? É intencional. Querem posar de autênticos ou divertidões, mas não querem abrir mão de privilégios. Bradam contra a corrupssaum11!! e clamam por ~mudanças~ (desde que não sejam do tipo que coloquem o filho da empregada doméstica na universidade) só pra disfarçar que, em muitos casos, tudo está bem – e até demais – pra vocês.

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4) PAGAM DE ENGAJADOS (OU “A CASA CAIU, FEMINISTO”)

Tem muito homem (hetero, gay, bi, etc) que consegue entender questões feministas. Eles geralmente manjam de teorias e sabem discutir com certa coerência. Tem muito homem que se diz pró-feminismo, pró-isso, pró-aquilo, mas, na prática, menospreza demandas de grupos minoritários dos quais ele não faz parte, tenta definir quais pautas ele considera mais importantes, acoberta colegas agressores e tenta justificar as agressões (isso quando ele mesmo não é o agressor), se infiltra em espaços de articulação de lutas e ideias com o intuito de liderar e alimentar o próprio ego, trata opiniões e sentimentos de mulheres com indiferença, isola e difama quem for “perigosa”, prega o ~poliamor~ e outras práticas ~livres~ apenas para se isentar de responsabilidades e cuidados com outras pessoas, mistura frustração sexual com política e influência com coação, etc, etc, etc. Aprendi, depois de quebrar a cara algumas vezes com diversos homens (e que já foram inclusive defendidos por mim – quem nunca iuzomou que atire a primeira pedra), como é fácil simular um discurso. E é benéfico pro cara. Ele não apenas paga de engajado, como ainda ganha estrelinha por ser, awn, tão bonzinho. Porém, acaba sendo muito do que ele mesmo critica. Pra esse tipo, nossas causas são meros fetiches intelectuais.

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5) RECUSAM O USO DO PRESERVATIVO

Estatísticas mostram que homens são resistentes em relação ao uso do preservativo. Basta uma googlada para ter acesso a dados diversos e dicas sobre como ~convencer~ o cara usar camisinha, aff. Cem entre cem mulheres que já conversei, que se relacionam com homens, reclamam disso. Os motivos são muitos: “a camisinha não cabe”, “eu broxo de camisinha”, “prefiro sem”, etc. Olha, nada disso é nosso problema, sabe? Mulher tem que ser “mãe” até na hora do sexo? Porque, assim, tem cara que não sabe procurar uma camisinha mais fina sozinho (para algumas pessoas, elas aumentam a sensação de prazer), um psicólogo (certa vez, a mãe de uma amiga, que é sexóloga, disse que grande parte dos problemas de ereção e ejaculação precoce são psicológicos) ou qualquer outra coisa que possa ajudar. Vivemos em uma sociedade falocêntrica que coloca a penetração como a representação máxima do ~fazer sexo~ e com certeza é algo que precisa ser desconstruído. Mas, enquanto isso, não forcem a barra e nem coloquem a saúde de mulheres em risco, caras. Muito menos tentem colocar nelas a culpa dos seus problemas. E gravidez também é um risco de relações sexuais sem preservativo, né? Nem toda mulher pode/quer tomar pílula ou faz uso de algum outro método anticoncepcional.

Clique aqui para acessar o Portal sobre aids, doenças sexualmente transmissíveis e hepatites virais do governo, para saber mais sobre doenças, postos de saúde, distribuição gratuita de medicamentos e preservativos e afins.

Aproveitando a oportunidade, é sempre bom lembrar:

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6) SÃO PAI-QUANDO-DÁ 

O texto Pai quando dá (clique aqui para ler) é certeiro. Conheço bem vários deles. O pai-quando-dá aparece em ocasiões especiais, não faz esforços para ajudar na criação dos filhos e tem sempre outras prioridades quando o assunto é dinheiro. E eles não existem apenas em relações com pais separados. Em lares em que os pais e mães estão juntos acontece bastante de a mãe (e/ou, infelizmente, babás e empregadas domésticas) cuidarem, educarem e alimentarem as crianças, enquanto os pais só aparecem para dar bronca ou brincar um pouquinho. Esse tópico casa com o primeiro: cuidar dos filhos também é dividir tarefas. Mulheres não têm a obrigação de abdicarem da própria vida em favor dos filhos, embora isso seja um mito corrente (e que, mais uma vez, mantém o privilégio masculino). Um fator curioso que já observei é que, com a internet e suas facilidades, tem muito pai-quando-dá que acha que basta postar uma foto do filho ou filha e dizer “PAPAI T AMA NHOMM” para que o mundo acredite em sua ótima atuação na vida desta criança (vejo alguns que sequer moram na mesma cidade que os filhos e não fazem esforço algum para visitá-los usando esse artifício). Só que, opa amigão: like no Facebook ou coraçãozinho no Instagram não coloca leite na mamadeira e nem faz criança dormir, ok? Paternidade acontece na prática, não basta falar sobre o filho.

7) ESTUPRAM

Segundo o Dossiê Mulher 2014, divulgado em agosto deste ano, no estado do Rio de Janeiro, 4.872 mulheres foram estupradas em 2013. Isso significa 13 mulheres atacadas por dia, ou uma a cada duas horas. Com base em informações de 2011 do Sistema de Informações de Agravo de Notificação do Ministério da Saúde (Sinan), pesquisa do IPEA lançada no início deste ano (que causou polêmica por seu resultado – que gerou a campanha “Eu não mereço ser estuprada” – e por errata publicada depois) estima que no mínimo 527 mil pessoas são estupradas por ano no Brasil e que, destes casos, apenas 10% chegam ao conhecimento da polícia. 
Segundo registros do Sinan, 89% das vítimas são do sexo feminino e possuem, em geral, baixa escolaridade. Do total, 70% são crianças e adolescentes. Infelizmente, a ideia geral que se tem é de que um estuprador é aquele cara que sai do mato com um facão, bate na mulher e a obriga a manter relações sexuais com ele. No entanto, isso serve apenas para esconder a realidade: familiares, amigos, vizinhos e outras pessoas próximas oferecem tanto ou mais risco quanto um estranho. E nem sempre a coação envolve força física. Pode envolver chantagem emocional, ameaça, entre outras coisas. Se a pessoa disse não, é estupro. Se a pessoa não tinha condição de dizer não (estava bêbada, dormindo, drogada, é jovem demais e/ou se sentiu intimidada, etc), é estupro. Se ela foi, de alguma forma, forçada, coagida, chantageada, humilhada, ainda que sutilmente, é estupro também.

“O que ainda precisa ser feito? Pensar sobre ajudar vítimas de estupros é uma coisa; pensar sobre acabar com o estupro é outra. E nós precisamos acabar com o estupro. Nós precisamos acabar com o incesto. Nós precisamos acabar com os espancamentos. Nós precisamos dar fim à prostituição e precisamos dar fim à pornografia. Isso significa que nós precisamos nos recusar a aceitar que esses são fenômenos naturais que simplesmente acontecem porque algum cara está tendo um dia ruim”

Trecho do discurso Relembre, resista, não se conforme, de Andrea Dworkin. Clique aqui para ler na íntegra.

8) PRATICAM VIOLÊNCIA DOMÉSTICA 

“A violência contra as mulheres constitui-se em uma das principais formas de violação dos seus direitos humanos, atingindo-as em seus direitos à vida, à saúde e à integridade física. Homens e mulheres são atingidos pela violência de maneira diferenciada. Enquanto os homens tendem a ser vítimas de uma violência predominantemente praticada no espaço público (minha observação: praticadas por eles mesmos e por instituições compostas e legitimadas por eles), as mulheres sofrem cotidianamente com um fenômeno que se manifesta dentro de seus próprios lares, na grande parte das vezes praticado por seus companheiros e familiares. A violência contra as mulheres em todas as suas formas (doméstica, psicológica, física, moral, patrimonial, sexual, tráfico de mulheres, assédio sexual, etc.) é um fenômeno que atinge mulheres de diferentes classes sociais, origens, idades, regiões, estados civis, escolaridade, raças e até mesmo a orientação sexual” — Leia a cartilha Política Nacional de Enfrentamento à Violência Contra as Mulheres na íntegra clicando aqui.

Preciso falar mais?

9) PEDOFILIA E OUTRAS PARAFILIAS

Já li diversas definições para parafilias: perversões, desvios sexuais, preferências anormais, etc. Essa matéria aqui explica um pouco o que são e categoriza algumas. No entanto, esquece de citar coisas importantissímas: são os homens os maiores “portadores” de parafilias, digamos assim. E muitas dessas parafilias envolvem dominação, subjugação, humilhação e tal. Como no caso dos que colocam a pedofilia em prática, dos que exibem suas partes íntimas em público sem o consentimento alheio, se esfregam e/ou se masturbam em cima de mulheres no transporte público e em outros lugares (também sem consentimento). Sem contar os que usam animais ou corpos de pessoas mortas. Ewww. Olha, eu acredito que, no caso dos seres humanos, sexo deve ser praticado com quem tem capacidade de dizer sim. Ou seja, entre pessoas. Vivas. E entre pessoas vivas que possuam idade/maturidade para consentir conscientemente – embora as relações hierárquicas de nossa sociedade torne até mesmo o consentimento de pessoas adultas questionável, caso elas estejam em situação de vulnerabilidade. Vejam bem, até respeito quem curte lamber uns pés, por exemplo, ou se excita vendo balões. Mas usar crianças, animais, pessoas distraídas, desacordadas… Mortas. NÃO! E não entendo como as parafilias, como um todo, são tratadas como situações individuais e não uma questão social que, de alguma forma se relaciona com o modo que a masculinidade é construída — uma construção que de certa forma diz ” é seu direito acessar os corpos que quiser, como quiser”. Esse é um assunto que eu gostaria de outras visões, aliás, pois comecei a pensar sobre não tem muito tempo.

10) COMETEM FEMICÍDIO

“No Brasil, entre 2001 a 2011, estima-se que ocorreram mais de 50 mil feminicídios: ou seja, em média, 5.664 mortes de mulheres por causas violentas a cada ano, 472 a cada mês, 15,52 a cada dia, ou uma morte a cada 1h30. (…) Isto porque além do elevado número de assassinatos por causas violentas – critério adotado no levantamento para indicar o feminicídio – o estudo constatou que o perfil dos óbitos é, em grande parte, compatível com situações relacionadas à violência doméstica e familiar contra a mulher e poderiam ter sido evitadas. Um indicativo nesse sentido é que quase um terço dos óbitos  teve o domicílio como local de ocorrência. (…) “Essa situação é preocupante, uma vez que os feminicídios são eventos completamente evitáveis, que abreviam as vidas de muitas mulheres jovens, causando perdas inestimáveis”, aponta a pesquisa, realizada com base na avaliação e correção de dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde. (…) O feminicídio é definido como crime de homicídio resultante de violência contra a mulher e é caracterizado em quatro circunstâncias: violência doméstica e familiar; violência sexual; mutilação ou desfiguração da vítima; emprego de tortura ou qualquer meio cruel ou degradante” — Leia mais aqui.

Martela, martela, martela o martelão, batendo a mãozinha, na palma da mão

Martela, martela, martela o martelão, batendo a mãozinha, na palma da mão

Bom, tentei ser breve e sucinta (e falhei *risos nervosos*). Com certeza muitas informações poderiam ter sido acrescentadas. Mas espero que este breve apanhado tenha ficado claro. Peguem os seus martelos e entrem no bonde, migas. E continuem acrescentando itens a lista nos comentários! 🙂

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Aborto no Brasil: já passou da hora do assunto ser levado a sério

Leia matéria que a Agência Brasil publicou nesta terça-feira:

Quadrilhas envolvidas com abortos chegavam a lucrar R$ 300 mil por mês

A Polícia Civil do Rio de Janeiro desarticulou hoje (14) sete organizações criminosas envolvidas com a prática ilegal de abortos na cidade. Uma delas chegava a lucrar até R$ 300 mil por mês. Segundo o delegado Felipe Bittencourt, da Corregedoria da Polícia Civil, os grupos eram independentes, mas a colaboração entre eles evitava a competição.

Apesar de não terem comando unificado, os grupos respeitavam os territórios de atuação definidos para cada um. Alguns dividiam os bairros de Bonsucesso, Rocha e Tijuca, na zona norte. Outros dois atuavam em Campo Grande e Guadalupe, na zona oeste. Os demais comandavam a prática em Copacabana e Botafogo, na zona sul. Conforme o delegado, 75 pessoas acusadas de integrar as associações criminosas tiveram prisão preventiva decretada pela Justiça.

“O histórico dessas pessoas demonstra que ela atuavam há muitos anos. Alguns haviam sido indiciados na década de 60. É uma história de crimes e de impunidade. Deflagramos hoje uma ação que desmantela vários crimes. A legislação é muito benevolente. Podemos quase afirmar que, pelo retorno financeiro, vale a pena cometer esse crime”, salientou o chefe da polícia fluminense, Fernando Veloso.

Até as 11h30 de hoje, 56 mandados de prisão tinham sido cumpridos. Destes, cinco eram de pessoas que já estavam presas. Entre os presos, estão médicos, policiais civis e militares, advogados e um sargento do Exército.

As clínicas ilegais mantidas pelas organizações criminosas faziam abortos em mulheres com até sete meses de gestação. Os preços variavam de R$ 1 mil (para maiores de 18 anos e em estágio inicial de gravidez) até R$ 7,5 mil (para adolescentes com 23 a 26 semanas de gestação).

O processo conta com depoimentos de 37 mulheres submetidas a procedimentos abortivos. Elas não foram indiciadas pelo crime de aborto, mas poderão responder criminalmente, caso esse seja o entendimento do Judiciário.

Cada grupo tinha um chefe e contava com responsáveis pelas mais variadas tarefas, como procedimento cirúrgico, auxílio de enfermagem, agenciamento das gestantes, segurança do local, medicamentos e transporte das usuárias do serviço clandestino.

Os servidores públicos investigados, entre eles oito policiais civis e quatro militares, seriam responsáveis por tarefas de segurança,  proteção da associação criminosa, administração das clínicas e transporte das gestantes. Além disso, recebiam dinheiro para evitar a repressão ou investigação dos casos.

Entre os crimes apurados, estão aborto (pena de um a quatro anos de prisão), corrupção passiva (dois a 12 anos), exercício ilegal da medicina (seis meses a dois anos), associação para o tráfico (três a dez anos) e associação criminosa armada (um a três anos).

Entre os dez médicos denunciados à Justiça, alguns têm anotações muito antigas por aborto. Um dos acusados, por exemplo, havia sido autuado pela prática em 1962. Uma médica, com processos desde 2001, é suspeita de mais de mil procedimentos.

Secretário estadual de Segurança, José Mariano Beltrame informou que a operação de hoje deve servir para a rediscussão da legislação relativa ao aborto. “Acho o momento muito oportuno para as coisas sereem discutidas. Não vamos dizer o que a lei precisa fazer. Entretanto, a sociedade tem de conhecer o efeito que uma pessoa sofre ao praticar um aborto. É um problema nacional. Temos de acabar com o tabu e recolocar a discussão à mesa”, acrescentou Beltrame.

Acho que, com essa notícia, podemos entender muita coisa. Como funciona todo o processo por trás de um aborto ilegal feito em clínica no Brasil (aliás, no momento que escrevo esse post, passa uma reportagem na televisão falando sobre a operação, frisando as más condições de higiene dessas clínicas). E como manter esse processo na ilegalidade é lucrativo. Tanto que existe toda uma rede de profissionais envolvida, que ganha em cima da falta de amparo que as mulheres sofrem: médicos, policiais, advogados e etc. Vejam bem: UMA clínica chegava a lucrar até R$ 300 mil por mês, o que gera mais de R$ 3 milhões por ano. Sendo cada procedimento entre R$ 1 mil e R$ 7,5 mil, vamos pegar um valor médio de R$ 3500: esse valor significa mais de 80 abortos por mês em, repito, UMA CLÍNICA. Nessa operação, foram desarticuladas SETE organizações, mas claro que existem muitas outras espalhadas pelo país.  Ou seja, os números são muito, muito mais altos do que estes aqui. Então, olha, vamos combinar que não são apenas questões morais que emperram o debate, né!?

Em maio deste ano, o aborto legal entrou para lista de procedimentos do SUS. Isso facilitaria o processo, definindo exatamente qual seria o repasse do governo para os hospitais, entre outras medidas. Porém, pudemos comemorar este avanço por muito pouco tempo: uma semana depois, a portaria que previa a medida foi revogada. O Ministério da Saúde minimizou a questão (que não se sabe se foi causada por pressão de bancada evangélica ou a alegada “falha técnica”), dizendo que era apenas uma mudança burocrática e que o SUS já faz a interrupção da gravidez em casos permitidos pela legislação. No entanto, parte da luta feminista é justamente para colocar a burocracia a favor da mulher, oras. Quanto mais definição e amparo, sem deixar margem para interpretações subjetivas da situação por parte de profissionais que misturam crenças e opiniões onde deveriam ser neutros, mais avanço. Se você quer saber em quais situações o aborto é permitido ou tem outras dúvidas, clique aqui. Existem estimativas de que 1 milhão de abortos aconteçam por ano no Brasil. 

As mortes recentes veiculadas pela mídia de mulheres que foram interromper a gravidez em clínicas clandestinas (leia aqui e aqui), estão trazendo o debate à tona novamente e desmistificam a frase que diz que só mulher pobre morre por conta de aborto. Na verdade, nenhuma mulher está segura. Quem não tem dinheiro está ainda mais vulnerável e exposta à riscos, claro, mas as que têm condições de ir para uma clínica podem se deparar com falsos médicos, entre outros tipos de golpistas, e ambientes sujos. É triste a questão do aborto não ser tratada com a devida urgência.

(Leia: Óbitos em clínicas clandestinas de aborto estimulam debate sobre o tema)

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É preciso acabar com o mito de que facilitar o aborto é “liberar geral, uhu, festa do aborto”. Esse é um procedimento cirúrgico que envolve não apenas o corpo, mas o psicológico da mulher (embora existam as que não sintam culpa ou não sofram em relação ao assunto. Esse é um outro ponto importante também: mesmo quem é a favor do aborto ás vezes espera que as mulheres estejam sempre chorosas e arrependidas, quase como numa espécie de pedido eterno de redenção pelo ato). Aborto é questão de saúde pública. Não importa o que eu faria na minha vida pessoal, a sua religião ou o que o seu vizinho acha moralmente correto. O que importa é a escolha da mulher. Sim, o uso do preservativo deve ser estimulado, educação, planejamento familiar, etcetcetcetc (lembrando que nenhum desses itens é dever apenas da mulher, mesmo que muitos homens se isentem de responsabilidades). No entanto, mulheres engravidam e muitas vezes não podem (ou querem) ter filhos.

E outra, o contexto atual é: muitas mulheres abortam e morrem. De acordo com o DataSUS, o aborto inseguro é a quinta causa de morte materna no Brasil. Como não se importar com a vida dessas mulheres é ser a favor da vida? Como não é muito importante para a sociedade como um todo preservar a vida dessas mulheres?

Clique aqui para ver comparativo sobre as possibilidades legais de aborto em diversos países do mundo (em inglês). Muitos dos países que as pessoas adoram apontar como ~avançados~ e ~desenvolvidos~ estão com as barrinhas completas. Vamos torcer para que não demore para o Brasil preencher todas as barrinhas também.

Clique aqui para ter acesso a guia com 139 perguntas sobre aborto.

Clique aqui para ler “A questão do aborto”.

Clandestinas é um documentário sobre aborto no Brasil onde mulheres contam sua experiência interrompendo uma gravidez. Atrizes interpretam relatos reais.