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DEZ COISAS QUE NÃO CAUSAM ESTUPRO

O estupro é uma violência que possui dois lados. A sociedade trata a questão como um crime horrível, pelo menos na teoria e se a situação envolver uma “vítima perfeita”. No entanto, uma simples lida nos jornais diários mostra os inúmeros casos de crianças, adolescentes e mulheres sendo estupradas por familiares, amigos, desconhecidos, colegas de trabalho ou conhecidos da igreja, faculdade, balada, entre outros (pena que a abordagem no geral é tão sensacionalista e pouco profunda nas raízes da questão). Pessoas do sexo masculino são as que mais cometem esse tipo de agressão e pessoas do sexo feminino são as que mais sofrem – o que não impede que existam situações em que violências sexuais ocorram seguindo outro roteiro.

A discussão sobre o assunto acontece por vários meios, informalmente ou de modo organizado. Porém, muitos preconceitos e simplismos acabam sendo disseminados nesse debate, e questões importantes são deixadas de lado. Por isso, vou abordar aqui neste post as dez hipóteses mais estúpidas entre as que já li como as possíveis causas de estupro (mas existem muito mais), e propor uma conversa mais centrada na realidade: a culpa é sempre do estuprador. E ponto final.

1) Roupa curta não causa estupro

Isso é um consenso que feministas estão cansadas de repetir: a mulher tem o direito de usar a roupa que quiser. Pode ser um vestido rosa e curtinho, tipo o da Geisy Arruda, biquíni grande ou fio dental, burca, camiseta larga, shortinho, saia longa ou qualquer outro tipo de vestimenta. Achou o look feio, bonito, atraente, repulsivo, muito descolado ou super brega? Problema seu. Se você for homem, deixe esse espírito de predador sexual com pinceladas de crítico de moda no armário, porque roupa não justifica agressão. Se for mulher, não jogue pedras nas outras para provar o próprio valor ou achar que isso vai te proteger de alguma coisa (spoiler: não vai). E a tentativa de encontrar alguma desculpa que tire a culpa do estuprador e transfira para a roupa da vítima é uma forma de naturalizar não apenas o comportamento violento do homem, mas a ideia de que respeito é algo que a mulher deve “merecer” para ter. Sem contar que pessoas usando todos os tipos de roupa aqui citados já foram estupradas, o que mostra que o problema está muito além de qualquer vestimenta.

2) Bebidas ou drogas não causam estupro

Muita gente acha que uma mulher alcoolizada ou sob efeito de drogas “merece” ser estuprada. Aposto que, alguma vez na vida, você já ouviu alguém falar que “cu de bêbado não tem dono”, não é mesmo? Se as pessoas começassem a frequentar botecos e baladas com o intuito de buscar homens bêbados para serem empalados com cabos de vassoura, isso não seria uma violência terrível? No entanto, por que mulheres na mesma situação são estupradas com o aval da sociedade? Pessoas bebem ou consomem substâncias para se divertir, afogar as mágoas, por vício, depressão ou outros motivos, e você não precisa concordar com isso – dá para problematizar o uso de álcool e drogas por um ângulo de saúde pública ou do tráfico, por exemplo. Mas culpar uma vítima de estupro que estava entorpecida é, mais uma vez, defender o estuprador e a ideia de que homem é um animal descontrolado.

No mais, uma pessoa viciada precisa de ajuda, uma pessoa dormindo precisa de sono e uma pessoa com a consciência alterada não consegue responder por si mesma. De novo: desliga aí o suposto instinto predador, homem, porque sexo nessas condições não é ‘sexo fácil’, é estupro mesmo (caso sua empatia falhe ainda assim, aqui vai mais um incentivo: e é crime). E se você tem impulsos agressivos e violentos quando usa alguma coisa (ou não), procure ajuda (ou se tranque em casa, obrigada). Ah, vale lembrar que alguns caras colocam sedativos na bebida de mulheres ou as obrigam a inalar substâncias entorpecentes também – algo que, somado à violência sexual que sucede tais práticas, contabiliza uma dupla quebra de consentimento.

3) Ruas pouco movimentadas também não causam estupro

Vários fatores tornam a rua um ambiente inseguro para mulheres: homens, primeiramente, e coisas como iluminação ruim, falta de movimento e de segurança, demora no transporte público e outros itens que as colocam em situação de vulnerabilidade. Portanto, o ideal é que sejam elaboradas estratégias de educação e segurança pública que tornem a rua um espaço menos hostil para pessoas do sexo feminino. Tenho uma fantasia que envolve um toque de recolher para homens até que eles, enquanto categoria, se eduquem, rs. Mas tô brincando. Queria mesmo era um monte de poste, gente e ônibus pra todo lado e, principalmente, pessoas com a consciência humana aflorada.

E vale lembrar que a ideia do estupro como algo que só acontece em um local ermo, com um cara ameaçando a mulher com uma faca, não é necessariamente o retrato fiel da situação: muitos algozes estão dentro da casa da vítima ou nas redondezas, o que significa que ~tomar cuidado por onde se anda~ não é sempre o necessário para evitar uma agressão sexual (mas a gente toma mesmo assim).

4) A falta de uma ~bola de cristal~ não causa estupro

Algumas vítimas são cobradas por não terem se preparado para enfrentar a agressão sexual e escutam coisas como: “mas por que você não gritou?”, “devia ter saído correndo”, “não percebeu que ele ia chegar perto de você?”, “você não anda com spray de pimenta na bolsa?”, “por que ficou sozinha em casa com ele?”, “não sabia que isso podia acontecer?” e etc. Frases do tipo não fazem o tempo voltar, cada pessoa tem uma reação diferente quando está em perigo e existem casos em que não é muito seguro reagir a uma situação de violência (e não tem como saber, de antemão, quais). Não vamos cair, mais uma vez, na armadilha de culpar quem não tem culpa. No caso de estupros cometidos por amigos, parentes ou vizinhos, como a vítima iria descobrir as reais intenções de homens, teoricamente, “de confiança”? E se a violência for cometida por um estranho em um local inusitado ou em uma situação inesperada, como a vítima poderia adivinhar? E tem mais: nem sempre um estupro acontece de forma explícitamente agressiva. Cada caso é um caso – e o que todos possuem em comum é que a culpa não é da vítima. E não existe uma bola de cristal capaz de prever quando um estupro pode ocorrer.

5) Crise ou pobreza não causam estupro

Lembram quando o responsável pela Secretaria de Segurança de São Paulo, Mágino Alves Barbosa Filho, falou que a crise econômica tem a ver com estupro, porque o cara acaba ficando frustrado demais, sem emprego, bebendo e cometendo esse tipo de coisa?  Isso é uma estratégia que busca voltar o debate público para a criminalização de pessoas pobres, e não para a busca de soluções efetivas para os problemas que as mulheres enfrentam. Breaking news: filhinhos de papai que nunca precisaram sequer pensar em trabalho também estupram. Jovens universitários de classe média também estupram. Autoridades de governo também estupram. Cantores famosos também estupram. Filhos de donos de grupos de comunicação também estupram. Sabe o que não estupra? Ah, essa pergunta eu deixo no ar…

Essa relação entre pobreza e violência já foi desmistificada pelas ciências sociais há pelo menos três décadas. A socióloga feminista Helleieth Saffioti bem dizia que a violência contra a mulher é extremamente democrática porque ela atinge a todas as classes sociais.

Um homem que perde o emprego não é um estuprador em potencial. Homens numa sociedade patriarcal são estupradores em potencial porque têm uma certa legitimidade social (ainda que não legal) para violar os direitos de uma mulher, violar sua integridade e sua dignidade, seu corpo e sua vida. O que acontece em geral é que nas classes altas, a violência contra a mulher e o estupro são escondidos sob um manto de hipocrisia e dupla moral, onde não se registra, não se denuncia e não se expõe homens ricos, homens de altos cargos, frente a suas práticas violentas. Existe um silêncio e uma impunidade brutal com um professor universitário, um juiz, um político – o que não acontece com um pedreiro, um motorista de ônibus ou um trabalhador das classes populares, por exemplo.

Izabel Solyszko, feminista, assistente social, professora e doutora em Serviço Social pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Leia mais opiniões de especialistas aqui. 

6) Funk não causa estupro

Esse é outro argumento que tenta colocar pessoas negras e pobres como as únicas culpadas por agressões sexuais. O objetivo, mais uma vez, não é o bem-estar de mulheres, mas calar a cultura que surge na periferia, encarcerar essas pessoas e criar uma diferenciação entre os “homens de bem e civilizados” e os estupradores. No entanto, a lista de astros do rock que cantam letras machistas de música – e/ou estupraram adolescentes e mulheres  – é grande, por exemplo. Não precisa nem ser um astro, o meio independente está cheio desses exemplares também. Música popular brasileira, música brega, sertanejo, música pop… Se a gente cavar, acha coisas problemáticas em todos os estilos. Não estou dizendo que não existam funks machistas e com letras horríveis, ou funkeiros com comportamentos questionáveis, só quero chamar atenção para o fato de que isso não é exclusividade do gênero – que, como todos os outros, tem partes ruins e boas.

Existe um machismo no funk que não é exclusivo no funk. É que sua linguagem é muito direta em relação a tudo. Não há floreio, a batida é reta, seja para falar de amor, sexo e violência. É sempre uma linguagem muito direta, o papo reto, como dizem. Com o machismo, não é diferente. E existe uma reação escancarada a ele. Com as mulheres falando de sua liberdade sexual, da escolha de parceiros, sobre o que fazer com o corpo e exercitar seu desejo. E elas abordam todos esses assuntos em um ambiente masculino, como é o da música popular — ressalta Adriana [Facina, antropóloga e professora da UFRJ], que destaca a ascensão das mulheres dentro do cenário funk nos últimos anos. Leia mais aqui.

7) Não é a falta de armamento que causa estupro

Mais uma vez, a pauta conservadora tenta cooptar os debates feministas. Alguém realmente acha que é assim que as coisas vão ser resolvidas? A jornalista Nana Queiroz pesquisou o assunto e constatou o que a gente já imaginava: essa não é a solução. Muitos estupradores são pessoas próximas, o fator “surpresa” dos ataques dificulta a ação, mulheres são socializadas para serem mais passivas e, quando em ambientes violentos, assimilam aquela situação como normal, entre vários outros fatores. Leia a matéria aqui.

Uma sociedade toda armada mas carregando os mesmos valores de sempre vai resultar em um constante tiroteio, gente. Só isso. Antes de qualquer coisa, temos que começar grandes campanhas nacionais para discutir sobre papeis de gênero e afins. E, de acordo com a jornalista, “a maioria dos casos de estupro à brasileira não é fruto de problemas de segurança pública, mas de uma cultura machista que prega um poder do homem sobre a mulher. O crime de estupro tem uma característica no Brasil: a cifra negra. A expressão ‘cifra negra’ significa que um número muito pequeno de ocorrências de um determinado crime chega ao conhecimento das autoridades. Deste já pequeno número, uma ínfima parcela chega ao conhecimento do judiciário, e uma menor ainda resulta em condenações”.

8) ~Excesso de libido~ masculina não causa estupro

Não é o ~excesso de desejo~ masculino que faz com que as mulheres sejam estupradas (aliás, engraçado como são as feministas as que mais batem na tecla de que os homens não são “animais irracionais” e as mais acusadas de vê-los como tais). A sexualidade do ser humano é um terreno complexo e envolve mais do que a mera vontade de transar. Existe toda uma construção de ideias anterior ao ato sexual – e à violência sexual também – que faz com que o sexo seja algo que vai muito além dos órgãos genitais. Portanto, propostas que envolvem a castração química, por exemplo, vindas de pessoas que querem impedir que a sociedade discuta e debata questões de gênero, ainda por cima, estão muito mais perto de algum tipo de fetiche com violência e tortura do que de empatia com vítimas de estupro.

Em uma reportagem do Uol, o psiquiatra Danilo Baltieri, coordenador do Ambulatório de Transtornos da Sexualidade da Faculdade de Medicina do ABC, afirma que o termo “castração química” é, inclusive, mentiroso. O que ocorre, na realidade, é uma diminuição de impulsos sexuais. Porém, o interesse continua. “Em casos de estupradores não é apenas uma questão orgânica que importa, o problema também é ‘intelectual’. É claro que a castração não cura, não transforma a ideologia. Mesmo se não tiver ereção, o agressor pode praticar violência sexual de outras maneiras”. Leia a matéria completa aqui 

9) Vida sexual ativa não causa (nem justifica) estupro

Vamos deixar uma coisa bem clara: sexo é o encontro de corpos que se desejam mutuamente. Se não existe consentimento de alguma parte, é estupro. Mesmo que esses corpos já tenham se desejado mutuamente em alguma ocasião anterior, é preciso que o acordo seja reafirmado a cada novo encontro. E se esses corpos já estiveram com outros corpos, não significa que vão querer estar com todo mundo que aparecer pela frente. Tem homem que acha que mulher é igual máquina de refrigerante: se ela já transou com ele ou com outras pessoas alguma vez na vida, ele tem direito a refil automático. Não é assim mesmo. Sexo não é uma obrigação, e sim uma escolha autônoma.

Tem gente que diz coisas tipo “ah, mas ela nem era virgem” e eu sempre fico meio chocada, me perguntando em que século pessoas assim vivem. Vasculhar o passado sexual de vítimas de estupro é reafirmar o corpo da mulher como público e violável. Essa imposição histórica não é natural e, por isso, a luta que busca construir a equidade de gênero e destruir a misoginia (que tem bases profundas na inferiorização do corpo do sexo feminino) é fundamental. E tem mais: mulheres não dizem não querendo dizer sim. Não é não, e não importa o que elas já fizeram antes na cama (ou no chão, no sofá, na barraca de camping ou na areia).

10) Estupro não tem nenhuma justificativa aceitável, na verdade

Falamos em ~construção social~ com o intuito de não essencializar comportamentos ruins, porque acreditamos na possibilidade de humanidade em vocês, homens (algo que, infelizmente, não parece recíproco em muitos momentos). Logo, não acreditamos que um rapaz nasça automaticamente querendo fazer mal às mulheres e sim que ele cresce absorvendo mensagens diversas — da religião à pornografia, passando por esferas como arte, medicina, música, ambiente de trabalho e outros — onde uma hierarquia sexual existe e ele precisa reforçar a própria masculinidade, bem como estreitar laços com outros caras e demarcar seu papel de ‘poderoso’ (no âmbito do controle do espaço público e dos corpos femininos pelo menos) por meio de práticas que inferiorizem e subjuguem o sexo feminino. Por isso, nós, mulheres, precisamos urgentemente do reconhecimento de que somos humanas também.

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Crédito: Eduardo Valente

E se fosse haver algum apelo ou alguma questão nesse grito, seria essa: por que vocês são tão lentos? Por que vocês demoram tanto para entender as coisas mais simples – não as ideologias complicadas. Vocês entendem essas. Mas as coisas simples, os clichês. Que as mulheres são humanas precisamente no mesmo degrau e qualidade que vocês são.

(…) O poder exercido pelos homens no dia a dia é um poder institucionalizado. É protegido por lei. É protegido pela religião e pela prática religiosa. É protegido pelas universidades, que são fortalezas da supremacia masculina. É protegido pela polícia. É protegido por aqueles que Shelley chama de “os legisladores não reconhecidos do mundo”: os poetas, os artistas. E contra todo esse poder, nós temos silêncio.

É uma coisa extraordinária tentar entender e confrontar o motivo pelo qual os homens acreditam – e eles acreditam – que eles têm o direito de estuprar. Eles podem não acreditar quando perguntados diretamente. Quem aqui acha que tem o direito de estuprar, por favor levante a mão. Poucas mãos vão subir. Mas é na vida que os homens acreditam que têm o direito de forçar sexo – que eles não chamam de estupro. E é algo extraordinário tentar entender que homens realmente acreditam que têm o direito de bater e de machucar. E é igualmente extraordinário tentar entender que homens realmente acreditam que têm o direito de comprar o corpo de uma mulher para fazerem sexo – e que isso é o seu direito. E é também surpreendente tentar entender que os homens acreditam que essa indústria de 7 bilhões de dólares, que traz vaginas para as suas vidas, é algo a que eles têm direito.

(…) Eu acho que, se você quer olhar para o que o sistema faz com você, então é aqui que você deveria começar: as políticas sexuais da agressão, as políticas sexuais do militarismo. Os homens estão com medo dos outros homens. Isso é algo que muitas vezes vocês tentam discutir em grupos pequenos, como se, caso mudassem suas atitudes uns com os outros, deixariam de sentir medo.

Mas enquanto sua sexualidade tiver relação com agressão, enquanto seu senso de direito sobre a humanidade significar ser superior a outras pessoas – e tem tanto desprezo e hostilidade nas suas atitudes com mulheres e crianças – como vocês podem não ter medo? Eu acho que vocês percebem, corretamente, mesmo sem conseguir lidar com isso de forma política, que homens são perigosos: porque vocês são.

Andrea Dworkin. Trechos de discurso feito em em 1983, intitulado “Eu quero 24 horas sem estupro”. Leia aqui.

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Quando o “não” vira sentença de morte

Voltei de uma viagem na última sexta-feira e, assim que pisei em casa, resolvi procrastinar o momento de desfazer as malas dando aquela olhadinha nas redes sociais. Me deparei com um post muito triste de uma moça pedindo ajuda para encontrar a irmã dela, que estava desaparecida desde a noite anterior. Porém, antes que eu pudesse pensar em qualquer hipótese sobre o assunto, pipocavam comentários na postagem desejando força para a família e afins. Cliquei nas notícias linkadas e li sobre a morte cruel da jovem Louise Ribeiro, de 20 anos. A estudante de biologia foi assassinada pelo ex-namorado (e colega de curso) Vinícius Neres, de 19 anos, dentro da Universidade de Brasília (UnB). É uma história muito chocante. Fiquei muito mal, os olhos marejados, o peito apertado… Até quando um homem que não sabe lidar com rejeição e enxerga uma mulher como posse vai se achar no direito de tirar a vida dela? Quando iremos alterar o paradigma desse roteiro tão comum?

Enquanto ainda digeria o acontecido, uma história muito parecida apareceu nos jornais do Distrito Federal menos de 48 horas após a morte de Louise: a estudante de gestão pública Jane Fernandes Cunha, de 20 anos, foi assassinada pelo ex-companheiro Jhonatan Pereira Alves, de 23 anos. O cara atirou nela e, em seguida, se matou. Embora ambos os crimes sejam igualmente terríveis, o caso de Jane possui um agravante: ela já havia feito uma denúncia contra o ex na Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam) por conta de frequentes intimidações. Porém, não adiantou, como em diversos outros casos (um maior uso de dipositivos eletrônicos que apitam, como pulseiras, sendo mais utilizados em casos de medidas protetivas podem auxiliar, será? Algo precisa ser feito, é desesperador). Ele era mais um desses desequilibrados que ~não aceitam o fim do relacionamento~ e, ao invés de assistir uns filmes tristes ou buscar algum tipo de apoio psicológico, preferiu resolver as coisas da pior forma possível. E as mulheres é que são chamadas de “histéricas” e “descontroladas”… Estranho, não?

O caso de Louise está ganhando ampla repercussão por ter acontecido dentro de uma universidade, e entre pessoas muito jovens e de classe média (Jane era da periferia do DF) – e creio que também pelo fato de o assassino estar vivo e não corresponder ao estereótipo que se cria de “bandidos”. Ele tem um visual “nerd”, é frio, indiferente, bem articulado e tem sido protagonista de entrevistas enojantes onde posa feito um popstar narrando um crime brutal com a banalidade de quem está fazendo um novo show. E a mídia carniceira e sensacionalista dá corda e faz perguntas que não levam a lugar algum, desinformam e acabam por tentar tirar o rapaz do lugar que ele pertence: de assassino misógino para um “garoto perturbado”.

Precisamos conversar claramente sobre todas essas questões e acabar de uma vez por todas com o mito de que o agressor é um “monstro” ou um “doente” – a não ser que a gente comece a concordar que a masculinidade em si pode, muitas vezes, ser uma espécie de doença mental epidêmica que é instalada na pessoa do sexo masculino por meio da socialização. Se o Mapa da Violência de 2015 mostra que grande parte da violência contra a mulher – e dos assassinatos – são cometidos por familiares e ex-parceiros, isso significa que existem criminosos aos montes, eles não são exceções. Logo, invocar o “monstro” quando estamos falando de um comportamento corriqueiro é fechar os olhos para uma situação generalizada, como se apenas alguns caras estivessem fazendo algo ruim porque possuem algum problema (embora existam transtornos que façam uma pessoa matar outra, mas isso é outra questão) e não porque estão inseridos em uma cultura onde o valor da mulher é baixo.

Aliás, temos que ir mais longe e radicalizar (lembrando que “radical” tem a ver com ir até a raiz): qualquer homem que seja contra uma mulher livre e autônoma é um agressor em potencial, e isso não é uma hipérbole, mas uma realidade. São muitos os que, de forma explícita ou velada, se incomodam com a existência de mulheres que querem decidir o que fazer, o que vestir, o que estudar, onde trabalhar e com quem se relacionar. E esse incômodo resulta em um alto número de violências físicas, psicológicas e verbais contra as mulheres. Portanto, temos um problema sério em mãos a ser resolvido, e ele envolve mais do que segurança pública, melhoria nos aparatos judiciais ou iluminação nas ruas, mas também muita educação.

Quantas vezes não achamos um cara meio estranho, raivoso, machista e as pessoas ao redor tentam abafar, dizendo que ele é assim mesmo, que está só brincando, que é um pouco exagerado no modo de falar, que teve problema com drogas, está deprimido ou sofreu alguma rejeição? “Apesar de tudo, ele é gente boa”. Nananinanão, parem de inventar desculpas. Misoginia é misoginia, e esse tipo de gente ser levada a sério é um sintoma grave de que odiar mulher não tem problema algum. É um absurdo que a gente viva em uma sociedade conivente com homens que dizem que mulheres são inferiores ou devem ser submissas e que vociferam coisas como “vadias”, “putas”, “piranhas” assim que percebem que não podem controlar comportamentos e sentimentos alheios. A necessidade masculina de afirmar a própria identidade a partir da dominação do sexo feminino – e também do sexo masculino dissidente do estereótipo macho e heterossexual – é tóxica para todos os envolvidos. E a misoginia escorre por todos os lados, inclusive da boca daqueles que pregam respeito às minas, basta prestar atenção nos detalhes.

Pensando na construção histórica do que é ser mulher, que envolve a demarcação do corpo do sexo feminino como menos valioso e violável, é possível perceber que a dualidade sobre a qual somos obrigadas a caminhar desde que nascemos permite com que a gente seja qualquer coisa, menos um ser humano. De santa a puta, de vaca a cachorra, de nobre mãe a vadia degenerada, de musa a bruxa, estamos sempre nos equilibrando sobre a ponta de uma faca que, em algum momento, fura a nossa carne por conta do peso insuportável da pressão. Ou então somos punidas, de alguma maneira, por não cumprir os papeis de gênero pré-determinados. E é necessário muito pouco para ser considerada uma rebelde: ás vezes é só dizer não (aliás, vale muito a pena ler o texto “O não também nos pertence”, escrito por Thaís Campolina).

O pai de Louise disse, em uma matéria, que a jovem era muito estudiosa e não era de baladas. Infelizmente, ao contrário do que muitas pessoas pensam, não existem premissas reais que protejam a mulher de um feminicídio, ainda que ela tente ser um exemplo, uma “moça direita” ou qualquer coisa do tipo. Nascer mulher no mundo atual é um risco por si só, afinal, os homens crescem nos objetificando e achando que podem fazer o que quiser. Eles crescem pensando em carros, status, conquistas profissionais e mulheres (percebam que estamos sempre em um balaio de “coisas”), como se ter tudo o que desejassem fosse um direito garantido a todo ser do sexo masculino que ~performa~ a masculinidade.

Os caras precisam aprender a lidar com frustrações e a culpar os inimigos corretos (tem muito frustrado por questões materiais que desconta em mulher, por exemplo, quando a falta de sucesso dele é causada por um sistema desigual que visa manter o status quo – e as mulheres estão muito longe do topo desse sistema, mesmo as privilegiadas). E precisam também tirar essa visão bélica de cima dos relacionamentos, tratando tudo como uma guerra que tem que ser vencida a qualquer custo. Estar com alguém (seja em um casamento ou em uma ficada de uma noite) é uma construção em conjunto que, em um determinado momento, pode parar de dar certo.

E tem mais: quando termos como friendzone (pra quem não sabe o que é, aqui tem uma explicação com uma visão feminista) são utilizados até mesmo por homens adultos, que já estão bem longe do período da adolescência, é que é possível perceber a naturalização da mulher como objeto sexual. Oras, quem essas “vadias” acham que são para achar que merecem atenção e respeito só por serem legais e inteligentes, não é mesmo? Pra muito cara, amizade com mulher “de graça” não existe. E vários idealizam o ~pegar mulher~ desse modo descartável que a sociedade machista prega como se isso fosse um troféu, mas é uma babaquice sem tamanho, pô. Qual o sentido em perder seu tempo com pessoas que você despreza e sequer considera dignas de respeito? Isso, pra mim, é um claro sinal de ódio por si mesmo que, em algum momento, vai acabar respingando em quem está ao redor e é “inferior” (as mulheres também odeiam a si mesmas, mas isso se manifesta mais contra elas do que contra os outros – até nisso a gente sai “perdendo”).

Rejeição dói, eu sei. Quem nunca tomou um pé na bunda traumatizante que atire a primeira pedra. Mas existem bilhões de pessoas no mundo (e, com a internet, ficou ainda mais fácil acessá-las). Existem mil atividades que podem ser feitas para esfriar a cabeça. Eu entendo, teoricamente, o que move um feminicídio, o sentimento de posse e controle, mas não consigo entender, na prática. Quanto mais penso no assunto, mais meu cérebro trava. Quer dizer, um cara escolhe carregar o peso de ter tirado uma vida pelo simples fato de não saber lidar com um término? Isso é muito surreal, bobo, infantiloide, cruel e inconsequente. Não tem nada mais patético do que a necessidade de lavar a “honra” masculina, porque não lava coisa nenhuma. Só suja mais e contribui com a manutenção de um ciclo de terror e ódio.

niuma

#niunamenos – Maitena

E, como muitas feministas alertam faz tempo: comportamentos abusivos precisam parar de ser romantizados. Não é fofo um cara que dá uma crise de ciúme e puxa a mulher pelo braço pra fora de uma festa, que vigia as redes sociais da namorada, que faz chantagem emocional e tenta diminuir a autoestima de uma mina para mantê-la fragilizada e perto dele. É essa linha de pensamento que contribui com a evolução de um soco para uma facada. A ideia de amor é vendida como essa intensidade que abarca “tapas e beijos”, mas a realidade mostra que a marca dos tapas é muito mais permanente do que o alívio dos beijos. Se tem violência, não tem amor. Não existe “crime passional”, e sim feminicídio. A Lei do Feminicídio, inclusive, completou um ano recentemente e se mostra realmente muito necessária. Para entender mais e o porquê, clique aqui.

Temos que lembrar que a realidade macro é composta também a partir da catalogação de vários acontecimentos dos micro universos se repetindo e se cruzando constantemente. Tipo assim, não é uma piadinha sobre estupro que vai causar diretamente a morte de uma mulher, entende? Mas essa piada faz parte de um cenário em que a violência masculina é tida como normal, a mulher é vista como inferior, roupa curta e bebedeira são usadas como justificativas para assédio sexual, maridos se acham donos das esposas, pessoas do sexo feminino são assassinadas principalmente por homens do próprio convívio, funcionárias são contratadas pela aparência para cargos que precisam apenas de competência, agressores são acobertados, vítimas são expostas, delegacias não sabem lidar com crimes contra as mulheres (mesmo as especializadas), e assim vai. Essa lista, infelizmente, poderia ser imensa, praticamente infinita.

E o que quero dizer com tudo isso é que uma pequena coisa esbarra em outra pequena coisa e, juntas, elas se tornam uma coisa média, que se aglutina com outra e, de repente, temos uma coisa bem grande acabando com a vida de alguém. Não existem acontecimentos isolados, tudo tem uma consequência. Portanto, precisamos desmantelar desde a base uma cultura que é conivente que o estupro e a violência contra a mulher, entre outros absurdos (como racismo, homofobia e afins). Nesse quadrinho maravilhoso da Lovelove6, que desenha a Garota Siririca, é possível refletir sobre essas questões.

O Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê) da UnB contribui com a reflexão sobre a violência contra a mulher e a banalização disso em ambientes que deveriam abrigar e acolher todos os tipos de pessoas, mas acabam sendo excludentes por conta de negligência com as especificidades de cada grupo  (texto na íntegra aqui):

Nos últimos anos, a UnB vem se tornando um espaço cada vez mais marcado por casos de violência contra minorias. Tivemos o caso da “lésbica nojenta” espancada no estacionamento. Tivemos ameaça de bomba porque “na UnB só tem puta e viado”. Tivemos pichação misógina, LGBTfóbica e racista nas paredes de centro acadêmico. Tivemos trote sexista que fez calouras lamberem linguiça com leite condensado. Temos trote homofóbico que berra nos corredores do Minhocão que todo arquiteto é bicha e homem mesmo é engenheiro civil (essa escutei ontem, às 13h30, no ICC norte). Sempre – é bom ressaltar, sempre – tivemos os recorrentes casos de estupro nos matagais no caminho para a L2. Aliás, estupro em festa de CA também não é nenhuma novidade, e nunca vi a polícia dar andamento aos casos denunciados pelas vítimas. Uma vez, a administração superior (a.k.a. Ouvidoria) me informou que no caso de uma denúncia de estupro em festa feita fora da universidade não havia nada para a administração superior fazer, ainda que a festa tenha sido organizada por estudantes, divulgada por estudantes, realizada por estudantes e com o objetivo de “integrá-los”. A violência de gênero sempre esteve presente entre nós. Agora, temos um feminicídio dentro das dependências da universidade. Qual é a resposta institucional que a universidade vai tomar?

E mais: qual a resposta que nós, enquanto sociedade, daremos para essas violências? Eu quero um mundo onde as mulheres possam dizer não sem que isso vire uma sentença de morte – e que “ser mulher” não seja considerado algo pejorativo, engraçado e inferior. Por que é tão difícil assim?

karina

Imagem da artista Karina Buhr. Arte inspirada nesta notícia: http://goo.gl/4B7xns

 

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Achar que o Brasil não é racista já é racismo

Hoje é 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra. E o que isso significa? Bem, a data marca a morte de Zumbi dos Palmares, que foi líder do Quilombo dos Palmares e representa um ícone da resistência negra durante o período de escravidão no país. O dia coloca em evidência a luta da população negra do Brasil contra o preconceito e a discriminação, e serve também para gerar reflexões coletivas na sociedade por meio de debates, resgates históricos e da divulgação da cultura afro-brasileira.

Ainda que a escravidão tenha acabado há algum tempo, as marcas do período continuam presentes em nosso povo: os negros e negras são os que mais possuem desvantagens econômicas e sociais, e são sistematicamente dizimados de forma covarde e silenciosa – esse extermínio é noticiado com menos frequência do que furtos bobos em lojas, casamentos de subcelebridades ou protestos “atrapalhando” o trânsito, por exemplo.

Uma breve – muito breve mesmo – história da escravidão de pessoas negras no Brasil

A raiz da desigualdade racial e social do país está no seu processo de colonização, que teve Portugal como um dos atores principais. Em 1500, o Brasil foi “descoberto” – ou violentamente roubado da população nativa? – e, pouco depois, o território começou a ser moldado de acordo com as vontades e necessidades de seus “novos donos”. Na época, a demanda por mão-de-obra aumentava cada vez mais. Estimativas afirmam que, em trezentos anos de escravidão, mais de 4 milhões de pessoas negras foram retiradas forçadamente do continente africano e trazidas para cá.

Algum tempo atrás, dei uma folheada no livro “Do reclame à comunicação – A pequena história da propaganda no Brasil”, de Ricardo Ramos, e vi anúncios nos classificados de jornais do período da escravidão com pessoas negras sendo vendidas como produtos mesmo: “bons dentes e forte”, “troco escravo por isso e aquilo”, “empresto ama-de-leite”, etc. Horrível demais – embora, infelizmente, não seja nenhuma surpresa. Um pouco de estudo ou uma simples conversa com pessoas que tem antepassados que foram escravizados nos mostra como era pesada, violenta e desumana a realidade da população negra aqui no Brasil – e ainda é, só que de outras formas. O racismo institucional, a discriminação, o difícil acesso a educação formal e a mecanismos de ascensão social e econômica, a exploração da força de trabalho e o extermínio de negros e negras nos mostra que a nossa sociedade ainda carrega uma herança sombria desse passado não muito distante. Vale ressaltar que as mulheres eram – e ainda são – tratadas como objetos sexuais e estupradas de forma repetida.

Além de tudo isso, os africanos não podiam praticar suas próprias religiões e rituais, mas isso não os impediu de manter a cultura africana viva aqui no Brasil. As pessoas escravizadas resistiam, e além das fugas, dos embates e tantos outros acontecimentos, a perpetuação da própria cultura foi também uma forma de resistência. Podemos ver que é possível conectar muito do que aconteceu no passado com a nossa história atual: praticantes de religiões de matriz afro-brasileira, como o Candomblé, são constantemente perseguidos e têm seus terreiros atacados, enquanto igrejas Evangélicas ou Católicas são vistas como os lugares “corretos” para se expressar religiosamente.

Em 1888, foi instituída a Lei Áurea, que previa a extinção da escravidão no Brasil. Ela foi precedida pela Lei do Ventre Livre (1871) e pela Lei dos Sexagenários (1885), que, respectivamente, davam liberdade a filhos de pessoas negras escravizadas e libertava quem tivesse mais de 65 anos. Nada disso aconteceu porque os brancos ficaram bonzinhos de uma hora para a outra e decidiram “libertar” quem estava sendo escravizado, ok? Isso tem muito mais a ver com fatores econômicos: ex-escravos se tornariam um novo mercado consumidor e não dariam mais “prejuízo” por morar “de graça” na casa dos patrões, por exemplo.

No entanto, paralelamente a tais medidas, não existiu o planejamento de ações que qualificassem e incluíssem essa nova classe trabalhadora dentro da sociedade. De escravizados, os negros e negras libertos tornaram-se força de trabalho barata. Quem continuava em vantagem eram os ex-escravocratas, enquanto ex-escravos encontravam-se sem instrução, renumeração justa ou acesso a bens e serviços. Outro agravante à condição da população negra era uma visão institucionalmente racista por parte da sociedade e governo da época (que permanece até hoje), que passou a estimular a vinda de imigrantes europeus para o Brasil, com o intuito de “embranquecer” a população (as teorias eugenistas eram, inclusive, socialmente aceitas e aplicadas). Ao contrário dos africanos, eles receberam incentivos e não foram trazidos à força. Esses imigrantes trabalharam bastante, sim, mas ainda que pudessem se encontrar em situação precária, tiveram acesso a recursos e terras, entre outros benefícios que nunca foram concedidos à população negra. Aliás, por um certo período, foi proibida a entrada de mais negros e também de asiáticos no país.

De acordo com o Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2010, 82 milhões, dos cerca de 200 milhões de habitantes do Brasil, se declararam pardos e 15 milhões, negros. Em comparação com o Censo de 2000, houve aumento na autodeclaração negra e parda no país. Dados da Pesquisa Nacional de Amostras de Domicílios (Pnad) de 2013 mostram que, em dez anos, a população autodeclarada preta no país cresceu e passou de 5,9% do total de brasileiros em 2004 para 8% em 2013. Além dos pretos, cresceu também o número de pessoas autodeclaradas pardas. Ainda de acordo com o Censo de 2010, existe grande diferença entre população negra e branca no que diz respeito ao acesso a educação: entre pessoas de 15 a 24 anos que frequentavam o nível superior, por exemplo 31,1% dos estudantes eram brancos, 12,8% negros e 13,4% pardos. Foram encontradas diferenças salariais também (sendo a população branca a que recebe mais), entre outras.

Leia também: “A história da escravidão negra no Brasil”.

E por que estou falando tudo isso?

Se você acha que não vivemos em um país racista (ou melhor, em um mundo), isso já é racismo. O período da escravidão passou, mas as consequências da época continuam vivas em nossa sociedade. Acreditar em mérito quando o próprio destino já está traçado de forma positiva é fácil. Quem tem a pele branca geralmente tem muito mais chances de frequentar escola, universidade, de ter o que comer, o que vestir, de ver a própria cara representada em produtos midiáticos como sinônimo do sucesso e com mais nuances de personalidade, entre outras questões. É cruel afirmar que racismo não existe e cada um consegue o que quiser se trabalhar para isso, porque não é bem assim. Isso é naturalizar as diferenças, como se elas não tivessem sido geradas por sistemas políticos e sim pela capacidade de cada indivíduo.

É correto afirmar que uma pessoa negra que não veio de uma família que acumula bens há gerações, por exemplo, e que precisou trabalhar em empregos exploradores a vida inteira para sobreviver (o que tirou o tempo de estudo e lazer), além de ter tido a autoestima abalada constantemente por comentários racistas e perdido oportunidades por conta de discriminação não passou no vestibular ou não conseguiu um emprego melhor porque “não conseguiu”? Eu considero que essa pessoa sequer teve a chance de tentar.

Claro que existe quem consiga ultrapassar barreiras que pareciam antes intransponíveis, mas em uma sociedade justa não deveriam ter grupos com enormes obstáculos para vencer, enquanto outros sequer precisam pular um degrauzinho. E por isso é importante revisitarmos nossa própria história, para que a gente não caia no conto de que a vida é feita de indivíduos escolhendo viver como querem e sofrendo as consequências disso. Na real, nem sempre existem escolhas, apenas imposições que são fruto justamente de acontecimentos anteriores vividos por um mesmo grupo.

Estou tratando de assuntos básicos nesse texto porque acho importante lembrar, nessa data de hoje, um pouco das condições que criaram os abismos sociais, econômicos e raciais que temos hoje em nosso país. No último dia 18, aconteceu a Marcha das Mulheres Negras aqui em Brasília (DF), e ficou evidente a vontade de alguns em manter esses abismos: elas foram ameaçadas e atacadas com bombas e tiros por membros daquele acampamento bizarro – praticamente uma milícia – que está montado ali na frente do Congresso já faz um tempão (e que, finalmente, está sendo “convidado a se retirar”, digamos assim).

Além da violência a que essas mulheres foram expostas, acredito que tais atos buscaram tirar o foco dos temas relacionados à elas. Leiam o texto “Mulheres negras em marcha: racistas não passarão!”, de Carmela Zigoni, em que ela informa melhor sobre como foi o dia e destaca as pautas importantes do movimento (e cliquem aqui e aqui para ver fotos maravilhosas dessas guerreiras).

“A Marcha das Mulheres Negras de 2015 defende diversas pautas, dentre estas, o fim do femicídio de mulheres negras, o fim do racismo e do sexismo nos veículos de comunicação e no ambiente de trabalho, a titulação e garantia das terras quilombolas, especialmente em nome das mulheres negras, o fim do desrespeito religioso e a garantia da reprodução cultural de práticas ancestrais de matriz africana. Aqui você encontra o manifesto da marcha com as reivindicações na íntegra” (via página do Ministério da Cultura no Facebook). 

As negras passam por situações específicas relacionadas à aparência, afetividade, oportunidade de estudo e emprego. Muitas vezes, o feminismo, por exemplo, homogeniza as questões das mulheres como se todas estivessem partindo de um mesmo local, com as mesmas experiências (no dia 20 de novembro do ano passado, postei um texto da Sueli Carneiro que fala sobre essa questão: “Enegrecer o Feminismo: A Situação da Mulher Negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero”). Portanto, vamos aproveitar o dia de hoje para refletir as raízes históricas da desigualdade racial em nosso país. Como eu já disse no texto sobre o filme “Que horas ela volta?”, nenhuma pessoa é naturalmente inferior. Chega de racismo e misoginia tentando minar a autonomia e a garantia de direitos das mulheres negras brasileiras.

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Foto por Janine Moraes durante a Marcha das Mulheres Negras de 2015

LEIAM MULHERES NEGRAS:

À Margem do FeminismoBelezas de KiandaBlogueiras Negras; Cidinha da SilvaFavela Potente; Geledés – Instituto da Mulher NegraGorda e Sapatão; Eu, Mulher Preta; Identidade Negra; Mônica Aguiar SouzaMulher Negra & CiaNegra Solidão; Poema Preta; População Negra e SaúdePreta ‘Dotora’Preta & Gorda; Preta MaternaServiço de Preta.

Fiquem à vontade para deixar mais dicas nos comentários! :}

P.S: Em 2009, fiz o curso de extensão “Pensamento Negro Contemporâneo”, na Universidade de Brasília (UnB), com o professor Sales Augusto dos Santos. Foi excelente e meus olhos se abriram de forma que não tem mais volta. Por isso, bato novamente na tecla de que estudar e conhecer a história do nosso país é algo muito importante. E quem realmente entende de racismo é quem passa por ele, não é mesmo?

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Estupro é invenção de maluca

Claro que não, né?

Mas é o que muita gente acha.

Uma amiga postou um texto no Facebook sobre consentimento (que era uma transcrição desse vídeo aqui). E desabafou sobre a vontade de enviá-lo para “uma longa lista de machos estupradores” que ela conhece. Um rapaz – que até então era nosso amigo, mas deletou a gente, rs – não se solidarizou com o fato de ela saber de tantos casos. Nem buscou entender melhor a questão ou debater de forma adulta. Muito pelo contrário. Ele chegou cheio de ironia questionando se existiam tantos estupradores assim, porque ele não conhecia. Deixou no ar que a minha amiga estava mentindo, exagerando. Mulher. E feminista. Só pode ser uma louca exagerada, não é mesmo?

Ela falou que ele provavelmente não sabia de nada ou não sabe de muitos casos porque nenhuma mulher iria contar pra alguém que já chega duvidando assim. Eu pensei o mesmo, me meti na conversa e especulei uma vista grossa da parte dele. Porque vista grossa é o que todo mundo acaba fazendo, na maioria das vezes. Até mesmo feministas fazem, gente. Homens, então, nem se fala.

Vejam bem, não estou dizendo que a minha amiga é inquestionável, ou eu ou qualquer outra pessoa. Mas esse é um comportamento comum de muitos homens. Eles automaticamente invalidam o que uma mulher diz, de forma arrogante, ~gaslaiteadora~  e infantilizada. “Será?”, “isso aconteceu mesmo?”, “você tem certeza?”, “você não está exagerando?”, “você não está confundindo as coisas?”, “você não entendeu errado?”, “não sei do que você está falando” ou “tá bravinha?” são coisas comuns ditas às mulheres, com o intuito de impedir que elas perturbem, com verdades dolorosas, a ordem estabelecida. Porque é muito mais fácil calar a mulher do que ter que cortar laços com amigos da balada ou acreditar que um determinado cara super profissional no que faz seja um agressor, por exemplo. Mulher sempre foi abusada mesmo… O que é só mais um sexozinho? E qual o problema da falta de consentimento uma vezinha só? Ou duas?

E assim tudo continua como está…

Olha, vou contar uma coisa pra vocês, que era pra ser óbvia, mas não parece ser: ninguém sai gritando por aí algo tipo “olá, que lindo dia, estuprei alguém hoje!”. Como eu já disse uma vez, nesse texto aqui, tem homem que sequer sabe que NÃO EXISTE DIFERENÇA entre sexo sem consentimento e estupro.

*facepalm*

Então aqui vai outra informação óbvia: um cara que tenta ou consegue fazer sexo com uma pessoa sem o consentimento dela, bem… Está tentando estuprar ou está efetivamente estuprando essa pessoa. No texto que acabei de indicar no parágrafo anterior, falo sobre isso. Que consentimento envolve uma pessoa ADULTA, ACORDADA, SEM ESTAR BEBAÇA, DROGADA, SOB EFEITO DE REMÉDIOS, HESITANTE OU DIZENDO NÃO. É bem simples. E, infelizmente, estupro é algo bem democrático: homens de todas as cores, tamanhos ou condições financeiras cometem esse crime, de várias maneiras. Existem caras que se sentem sem poder e se afirmam por meio da violação do corpo alheio. Existem caras que se sentem poderosos demais e acham que podem fazer o que querem por aí. Etc. Poderíamos passar o dia teorizando sobre poder & estupro, coisas extremamente conectadas.

Um outro ponto também, que é importante: o homem acaba se beneficiando do regime machista em que vivemos, que automaticamente coloca tudo que uma mulher diz em dúvida. Se alguém fala algo sobre ele, basta falar que a mina é vadia, que ela se insinuou, foi atrás, provocou, que ela deu em cima, mandou mensagem, que ela é maluca, barraqueira. Sei lá. Qualquer coisa assim. E a vida continua. Ele pode ter o desconforto de ter que lidar com alguns olhares tortos por aí, mas nada demais. Ninguém nem vai se preocupar em confirmar se ele fez algo de errado ou não. Mesmo se for confirmado, não faz diferença. Quem nunca teve que lidar com um agressor no círculo social que atire a primeira pedra. Já a garota ás vezes é extremamente exposta, julgada, isolada socialmente e, como consequência disso tudo, fica traumatizada e se sentindo culpada.

Aliás, hoje em dia eu duvido muito do caráter de caras que precisam ficar xingando mulheres que já estiveram com eles (ou qualquer mulher, na real), seja em namoro, sexo casual, tanto faz. Uma coisa é falar de forma objetiva que uma pessoa fez algo que você não gostou e te chateou, tipo, sei lá, roubou um gibi seu ou nunca mais atendeu suas ligações. Outra coisa é ficar xingando de “vadia”, “piranha” ou justificando (sem ninguém perguntar, muitas vezes) que a garota que ficou atrás ou é do tipo que “pega” todo mundo. Esses comentários sempre me parecem coisa de quem já está preparando terreno para se safar de alguma acusação mais séria, bem naquela lógica do “mas ela estava de vestido curto, mereceu!”.

Eu conheço, inclusive, diversos caras que agem de forma totalmente inaceitável. Que perseguem mulheres, inventam mentiras, adjetivam garotas de forma machista, são homofóbicos, violentos, forçam a barra pra ficar com alguém, levam a falta de comprometimento com parceiras como modus operandi, entre outras coisas. No entanto, eles são tratados como “irreverentes”, “doidinhos”, “excêntricos”. É muito difícil mesmo combater o que se chama de “cultura do estupro”, porque ela não é relacionada apenas ao estupro em si, mas a todos os comportamentos que citei nesse texto que colocam o homem em vantagem e a mulher em desvantagem e, consequentemente, colaboram com esse cenário em que a falta de respeito em relação ao corpo & subjetivo da mulher se torna um tabu, um elefante no meio da sala.

O que as pessoas querem é uma vítima perfeita. Uma que seja virgem, nunca tenha tirado foto pelada, beijado na boca, bebido, mandado mensagem ou falado palavrão. Que não seja lésbica ou nunca tenha viajado. Que não cante, dance em festas ou estude, que nunca tenha trocado de namorado. O que as pessoas querem é uma mulher que não existe, porque as que existem sempre vão dar algum motivo pra merecer algo de ruim – mesmo que o crime delas tenha sido apenas existir perto de um homem.

Tem outra coisa que eu quero contar, mas essa não é tão óbvia. Quando uma mulher é abertamente feminista ou envolvida em grupos e movimentos sociais, ela tem cada vez mais acesso à relatos de violência. Não só por conta de leitura de textos ou relatórios ou pesquisas. Mas porque as mulheres ao redor começam a se sentir confortáveis, percebem que pode rolar mais empatia e um entendimento mais profundo da questão. É um novo mundo que se abre, de compartilhamento de ideias e informações que muitos de vocês, que são homens, nunca vão entender. Mas independente disso, é real. E dói. Porque os números deixam de ser números e viram rostos de pessoas ao seu redor que você nunca imaginaria que tinham sofrido alguma violência.

E um monte de cara legal deixa de ser legal.

E dá raiva. Dá raiva do grupinho de amigos que faz merda com uma mina pra rir dela depois – male bonding por meio da violência, nenhuma novidade. Dá raiva dos urubus de porta de escola que ficam caçando novinhas, dá raiva do fótografo de mulher pelada que só quer tirar uma casquinha (aliás, a cada pedido que leio por aí de ~modelos pra fotos belas artísticas nu feminino~ meus olhos rolam tão fundo que quase afundam). Dá raiva das passadas de mão, dos beijos à força, do cara que trancou a mulher no quarto, que abriu a calça da menina dormindo, que forçou sexo sem camisinha e tirou onda, do stalker se fazendo de coitado apaixonado, dá raiva, dá raiva, dá raiva… Dá raiva e as linhas borram tanto que eu nem sei mais distinguir quem é quem. A conivência também é parte da violência.

E tem outra questão. Sendo o estupro também uma pauta política do feminismo, é preciso discutir estratégias, leis, comportamentos e tudo mais. Porém, o assunto é bem espinhoso, complicado e passa por questões muito subjetivas e por questões de vivência que, ás vezes, teorias e dados não alcançam.

E ainda existe o mito de que estuprador é somente aquele cara que sai do mato com uma faca. Ou é um homem com algum distúrbio psicológico. Essas ideias blindam o “homem comum” de culpa e transformam o estupro em um acontecimento excepcional, sendo que ele é comum e acontece dentro de famílias, entre “amigos” e assim vai. Isso emperra ainda mais a discussão e, ao mesmo tempo, naturaliza a violência que a mulher sofre por parte de conhecidos.

E enquanto debatemos se as mulheres estão mentindo ou não, muita gente corre impune por aí.

E as intolerantes são as que não querem mais ser estupradas e não os estupradores.

Mundo estranho esse.

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Mulheres não gostam de sexo ou homens não gostam de mulheres?

Antes de começar esse texto, gostaria de dizer que ele é voltado para relações entre mulheres e homens. E gostaria também de deixar duas frases em destaque:

  • Mulher “dá” quando ela quiser. Ou seja, pode ser no primeiro encontro. Ou no décimo. Ou nunca.
  • Ele só quer transar com você? Cai fora.

Como assim?

Por que estou escrevendo estas coisas? Bem, tenho visto muitos textos circulando por aí enfatizando que mulheres que se relacionam afetiva e sexualmente com homens podem “dar” no primeiro encontro sim. Outros dizem que é de boa que os homens só queiram sexo, se isso for o que a mulher quiser também. Que mulheres também sentem tesão. Etc. Não vou citar nenhum texto específico, porque meu intuito é falar de um problema generalizado, que é algo muito bem explicado nesse texto aqui: “A falácia da liberação sexual e as novas formas de dominação”.

Vejam bem, o fato de que mulher também sente tesão nem deveria estar em jogo. Os problemas que alguns seres humanos vivenciam hoje em dia no âmbito sexual não acontecem por essa questão, em geral (embora exista quem acredite que sim). A maior parte das pessoas – do sexo masculino ou feminino – sente desejos sexuais, se excita e possui a capacidade de alcançar orgasmos. No entanto, construímos narrativas sexuais diferentes para cada sexo. Basicamente, é aquele clichê: o homem tem que ser o garanhão e a mulher uma “dama recatada”. Essa pobreza de nuances deixa todo mundo no prejuízo – principalmente as mulheres, claro. Os homens podem sofrer com problemas eréteis, ejaculação precoce (uma sexóloga me disse uma vez, em uma conversa informal, que a maioria desses problemas é de origem psicológica) e uma pressão tremenda para corresponder a papéis que eles não querem ou conseguem. Mas, ainda assim, se na sociedade como um todo o poder é deles, todos os espaços acabam reproduzindo isso, o que engloba relacionamentos amorosos/sexuais. Logo, as mulheres, por estarem na parte inferior da hierarquia de gênero, estão infinitamente mais suscetíveis a abusos e violências.

(Sem contar que a ideia de “sexo”, no geral, é baseada principalmente no pênis-penetrando-a-vagina, o que torna a vivência sexual de todo mundo pouco ampla).

Se relacionar com homens é um constante risco

O sexo, na vida da mulher, é algo vivenciado de forma muito mais coercitiva e amedrontadora. Tipo, ela não pode transar, porque vai ser chamada de vadia, ao mesmo tempo em que tem que lidar, o tempo todo, com homens forçando a barra para transar com ela – ás vezes, os mesmos que vão chamá-la de vadia depois. É um ciclo confuso. E tem o fato de que ela é induzida a acreditar que o próprio valor vem da sua aparência e da sua capacidade de despertar desejo sexual, embora ela não queira ser resumida apenas a um corpo. E os discursos de liberação sexual buscam desconstruir toda a “repressão” da mulher como se ela fosse ~naturalmente~ reprimida, e não a sociedade que tentasse controlar o corpo dela (mas esquecem de falar da violência do homem). Daí surge um outro paradigma, que é a mulher que faz muito sexo mesmo, que não está nem aí. Porém, ainda assim, a problematização da violência masculina continua de lado e todas as mulheres, independente do que façam, continuam vulneráveis à situações desagradáveis e até mesmo criminosas (infelizmente são muitos os homens que acham que existe diferença entre sexo sem consentimento e estupro, por exemplo).

Quando falo de violência, não me refiro apenas a sexo forçado e outros atos explicitamente violentos. Estou me referindo também a violência psicológica, que se manifesta por meio de mulheres sendo chantageadas, isoladas e difamadas por conta de conduta sexual, mulheres transando sem querer transar, incitação à baixa autoestima feminina, controle e manipulação de corpos e comportamentos das mulheres, entre outras coisas.

Homens são ensinados a objetificar as mulheres

Vamos lá: a socialização do homem envolve a objetificação da mulher e o esvaziamento do subjetivo dela. Muitos homens, por exemplo, conseguem transar com mulheres que desprezam apenas pelo simples prazer de “conquistar” um novo “território”. Não vamos fingir que isso não acontece. A mulher, para ele, é uma coisa, e quanto mais coisas um homem conquista, mais poderoso se sente. Então quando um homem quer só sexo com uma mulher, eu aconselho que ela mantenha os olhos bem abertos.

“Deixa de ser moralista, aff”, você pode estar pensando. Eu já pensei assim também. É muito comum que misturem conservadorismo e críticas à desumanização da mulher em um mesmo balaio, para que a gente se sinta constrangida, chata e uncool e deixe esse papo de querer ser respeitada pra lá (a forma que as críticas contra a pornografia são tratadas são um belo exemplo disso).

Só que, hoje em dia, eu não acredito em “só sexo” (acho que nunca acreditei, na verdade). Com isso, não quero dizer que todas as relações devam se transformar em casamento-felizes-para-sempre. Por favor, né? Quero dizer que quando um homem diz querer só sexo com uma mulher e não se interessa pela maravilhosa pessoa que existe ao redor da vagina dela, isso é sim objetificação. Isso é resumir a mulher a um buraco de prazer (pra ele) cuja opinião ou pensamento não faz diferença. Como postei no Twitter um dia desses:

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Tanto que não são poucos os relatos de mulheres que praticam sexo casual e afins e depois são maltratadas e ignoradas na rua pelos rapazes com quem se relacionaram. Oras, a função delas foi cumprida, o que mais querem? Amizade? Respeito? Isso é algo que só os bróders e as minas-perfeitas-que-não-transam-cagam-falam-andam-opinam (ou seja, nenhuma) merecem, né?

Então, analisando todo esse cenário, é perfeitamente entendível porque muitas mulheres ainda tenham receio de “transar no primeiro encontro”. Uma simples trepadinha pode transformar uma mina na mártir-da-liberação-sexual-feminina e, gente, que preguiça desse alarde, né? Correr o risco de fazer um sexo que nem vale a pena e ainda ter que aturar isso se transformando em um grande embate ideológico cheio de ataques e defesas é de deixar qualquer uma sem vontade alguma de tirar a roupa. Muito drama pra pouca trama.

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“–Como que uma simples trepadinha pode render tanta dor de cabeça? Aff”

Acho que precisamos parar de pressionar as mulheres a transarem mais – ou menos – e começar a pensar nos homens. Por que eles separam mulheres em categorias? Por que eles acreditam que uma mulher só deve ser respeitada se “merecer”? O que é “merecer”, aliás? Por que dizem que não querem rótulos mas anseiam em rotular certas relações como “só sexo” já de cara? Por que eles tratam mulheres como objetos sexuais e não como seres humanas completas, capazes e interessantes? Por que eles riem e se gabam de histórias em que fizeram mal às mulheres (vide o caso recente do nojento do Alexandre Frota relatando praticamente um estupro em rede nacional)?

Ás vezes vejo discursos “empoderadores” incitando mulheres a transarem com quem elas quiserem e, bem, me parece uma forma de jogá-las aos leões, principalmente quando isso é dito para mulheres muito jovens (ainda mais se formos considerar que o número de predadores voando em cima de jovens é altíssimo. ATENÇÃO CARAS, usem a experiência de vocês pra construir algo que preste e não para manipular garotas inexperientes, vocês são ridículos).

Precisamos, primeiramente, conversar sobre consentimento, cuidado e respeito. Precisamos definir bem o que é “querer” e o que é “estar com a autoestima baixa e topar algo que não quer porque é o que tem pra hoje”. Precisamos definir que chantagem e coerção não são a mesma coisa que amor e desejo. Precisamos explicar que existem homens que rotulam mulheres de “putas” para que elas assimilem isso e fiquem com a autoestima ferida e estejam sempre disponíveis sexualmente. Ou fazem elogios frágeis e dizem que elas “são especiais” ou “não são como as outras” para que elas não se aproximem de mais ninguém e se sintam gratas por serem “valorizadas”.

É tudo muito mais complicado do que parece. Não é “frigidez”. Não é recato. Não é moralismo. É uma sociedade baseada em heterossexualidade compulsória e misoginia (e racismo, mas isso já entra em pontos que não me sinto apropriada para abordar), e que pratica um gaslighting sinistro contra a mulher, dizendo que ela precisa de homem, mas ela não pode transar, mas ela tem que satisfazer um homem, mas o corpo dela é sujo e imundo e fica cada vez mais sujo e imundo quando ela faz sexo, mas ela precisa fazer sexo, mas não muito, mas não pouco, mas não sem pênis. E o senso comum prega a existência de uma mulher infantilizada, sem pelos, maquiada, “sexy”, com a vagina cheirando a flores, com seios perfeitos, sem estrias, celulite, espinhas. É algo tão fora da realidade, que muitos homens se frustram com a mulher real e chegam a ter nojo dela.

Como eu já disse, é um tanto quanto confuso.

Então tá proibido transar?

Meu intuito aqui não é ser “anti-sexo”, mas discutir a forma que mulheres e homens se relacionam amorosa/sexualmente dentro de um regime machista. Muita mulher acha que, com o tempo, vai “mudar” o cara e fazer ele tratar ela direito e coisas do tipo. Temos que ser realistas: isso não acontece e não vai acontecer. E nem tinha que ser assim, porque mulher alguma deveria ter que provar ser “merecedora” de respeito. Os homens é que precisam começar a enxergá-las como reais e dignas de respeito em qualquer situação.

Para a segurança das mulheres, é preciso discutir sobre comportamentos masculinos recorrentes e danosos. Porque somos praticamente inseridas, sem conhecimento e sem consentimento, em relações desiguais e sádicas.

Logo, não estou contra o sexo, mas a favor do sexo bom de verdade, oras. Ou será utópico demais?

   “I believe in the radical possibilities of pleasure, babe”

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“A verdade inconveniente sobre Teena Brandon”

O texto a seguir é uma tradução enorme, feita com muito suor, sobre Teena Brandon  – ou Brandon Teena. Desde que assisti “Meninos não choram”, fiquei intrigada e passei a pesquisar mais sobre a história. Brandon queria realmente “ser homem”? Ou apenas não correspondia ao que se espera de uma pessoa que nasce com o sexo feminino? O que é “ser homem” afinal? E “ser mulher”? Ah, vamos lembrar que Brandon vivia no interior dos Estados Unidos, com diversas pessoas preconceituosas ao redor, não tinha condições econômicas favoráveis, sofreu abuso e estupro sem nunca ter tido seus traumas devidamente cuidados, internalizou diversos sentimentos ruins sobre si e era muito jovem.  Além disso tudo, os médicos pareciam querer se aproveitar da fragilidade e inadequação de Brandon para realizar experimentos em seu corpo.

Este artigo, de Carolyn Gage, escritora lésbica e feminista, traz análises sólidas, que ajudam a pensar em aspectos da história de Brandon que não são discutidos normalmente. Sempre me identifiquei bastante com a narrativa de diversos homens trans porque, como muita gente que nasce com o corpo do sexo feminino, eu sofri com disforia em diversos momentos da vida. E é realmente enojante o ~tratamento especial~ (pra não dizer abusivo e constrangedor) que se dá a corpos que possuem seios e vagina. Descobri que diversas amigas e colegas compartilham o sentimento, o que mostra que estamos em situações parecidas, mas lidando de formas diferentes. Mas isso é assunto pra depois.

O que Brandon realmente sentia ou queria nunca saberemos. No entanto, é válido pensar como a “casta sexual mulher” é aprisionante, aterrorizante e torna legítimo o acesso não autorizado aos corpos de sexo feminino. Leiam e digam o que acham. Os comentários estão abertos para críticas, opiniões e tudo mais.  Ah, como eu já disse antes, não sou nenhuma expert em tradução, então algumas partes podem estar confusas. Obrigada a todo mundo que ajudou, vocês foram fundamentais.

Segue o texto:

A verdade inconveniente sobre Teena Brandon

Carolyn Gage

Teena Brandon é lembrada nos dias de hoje como o transexual feminino-para-o-masculino vítima de um assassinato brutal motivado por transfobia. Quando ela tinha dezoito anos de idade, três anos antes de sua morte, foi aceita em um centro de crise como consequência de uma overdose, que pode ter sido intencional. No período, ela estava muito abaixo do peso por conta de um transtorno alimentar e tomava sete banhos por dia, com sete trocas completas de roupa. Bebia muito, enfrentou doze acusações pendentes de falsificação de documentos e uma possível acusação de agressão sexual contra uma menor de idade, estava sofrendo por conta de um estupro recente, não declarado e não tratado, e estava envolvida em um relacionamento sexual com uma menina de catorze anos de idade, no qual se passava por homem. Ela alegou aos terapeutas que, quando criança, foi vítima de abuso sexual durante anos, cometido por um membro da família do sexo masculino. De acordo com a pessoa responsável pela sua biografia, ela foi diagnosticada com “leve disforia de identidade de gênero”, e relatou aos amigos e amigas que uma cirurgia de mudança de sexo havia sido sugerida. Eu quero falar sobre uma verdade inconveniente. Eu quero falar sobre o fato da pessoa chamada Teena Brandon ter sido uma sobrevivente de incesto. Você não vai ouvir isso ser mencionado em “Boys Don’t Cry” (“Meninos Não Choram”), e não vai ouvir isso ser mencionado no documentário “The Brandon Teena Story” (“A História de Teena Brandon”). Você não vai ler sobre isso na edição atual da Wikipédia. É, como eu disse, inconveniente.

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Cena do filme “Meninos não choram”

“Inconveniente” significa “causando problemas ou dificuldades”. A verdade inconveniente sobre a história de incesto de Brandon causa problemas porque incorporar informação sobre abuso sexual infantil na narrativa de vida de Brandon patologiza a identidade transgênera que ela adotou e a fez se tornar um ícone. Isso é percebido como desrespeitoso e transfóbico — como um ataque à identidade de Brandon e uma tentativa póstuma de se apropriar da identidade da vítima.

Mas omitir a história de incesto de Brandon é desrespeitoso e fóbico para sobreviventes de abuso sexual infantil. Isso, inclusive, constitui uma tentativa póstuma de apropriação da identidade da vítima. Como uma sobrevivente, eu me sinto perturbada pelas histórias revisionistas de Brandon que omitem o status dela como uma vítima de abuso sexual infantil — e todas as verdades inconvenientes que, consequentemente, acompanham esse status.

Verdades inconvenientes tendem a permanecer desarticuladas, porque elas existem fora do quadro de referência em que foram estabelecidas. A primeira dificuldade que uma pessoa encontra ao falar sobre essa inconveniente verdade de Teena Brandon é a questão dos pronomes. Brandon foi sexualmente abusada como uma menina, nascida biologicamente fêmea, por um agressor adulto do sexo masculino que era um membro da família. O gênero da vítima e do agressor são detalhes clínicos importantes e fundamentais para o entendimento da agressão e do impacto dela em Brandon. Por isso, vou usar pronomes femininos para me referir a Brandon quando criança, ainda que, na vida adulta, Brandon se identificasse como homem. Isso coloca minha narrativa fora do protocolo aceitável para um diálogo respeitoso quando se fala sobre identidade trans.

Neste artigo, vou me referir a ela como “Brandon” porque, na vida adulta, ela escolheu adotar o sobrenome como primeiro nome. No título, usei o nome de registro, “Teena Brandon”. É uma outra verdade inconveniente que Brandon nunca tenha usado o nome “Brandon Teena”. Esse nome foi postumamente atribuído a ela, e então utilizado pela mídia. Era uma mentira conveniente, porque se tratava de uma inversão inteligente do nome de nascimento de Brandon, inverter o nome para corresponder com o gênero invertido. “Brandon Teena” é uma metáfora de experts em relações-públicas … e uma ficção.

O Incesto

Na biografia escrita por Aphrodite Jones, “All She Wanted” (“Tudo O Que Ela Queria”), o primeiro relato de abuso sexual aparece na entrevista com Sara Gapp, melhor amiga de Brandon quando Brandon tinha doze anos.”Ela [Brandon] me contou que um de seus parentes estava fazendo algo com ela que ela não gostava. Ela apenas meio que disse que, você sabe, ele colocava aquilo para fora e brincava um pouco com aquilo… e, ocasionalmente, ela disse, ele fazia ela tocar ele e brincava com ela e dizia ‘Você gosta disso. Você sabe que isso é bom… Você sabe que você não quer que eu pare.'” (Jones, 43) De acordo com Sara, “Naquele momento, ela não queria que ninguém soubesse o que aconteceu. Ela não queria o cara com raiva dela… Ela estava envergonhada. Não importava o que ele fez com ela, ela continuava gostando dele.” (Jones, 43)

O terapeuta de Brandon confirmou mais tarde a história de abuso, adicionando que, de acordo com ela, as sessões de abuso duravam horas e o molestamento aconteceu por muitos anos, entre a infância e a adolescência.  Em uma sessão de aconselhamento, Brandon falou sobre o assunto em um confronto com sua mãe JoAnn, mas pediu para que ela não confrontasse o agressor, que pode ter sido um dos parentes de JoAnn. A irmã de Brandon, Tammy, também uma vítima, confirmou a descrição de Brandon. É possível que esse abuso tenha sido um fator decisivo para Brandon deixar sua casa ao dezesseis anos, arrumar um trabalho e ir morar com sua então namorada, Traci Beels, uma colega de escola mais velha.

Respostas da Vítima ao Incesto

Em seu livro “Victimized Daughters: Incest and the Development of the Female Self” (“Filhas Vitimizadas: Incesto e o Desenvolvimento do Ser Feminino”), Janet Liebman Jacobs diz que o incesto representa “a mais extrema forma de objetificação sexual da criança fêmea na cultura patriarcal” (Jacobs, 11). Ela dá argumentos excelentes para demonstrar que o incesto tem um grande impacto no desenvolvimento da personalidade feminina, incluindo identidade de gênero.

O livro de Jacobs destaca importantes questões de desenvolvimento que influenciam a formação da personalidade de filhas abusadas sexualmente, e entre essas é a identificação com o autor. Anna Freud, filha de Sigmund Freud e fundadora da psicoanálise infantil, discorre sobre esse processo:

A criança introjeta alguma característica de um objeto de ansiedade e então assimila uma experiência de ansiedade pela qual ele [ela] acabou de passar… Ao personificar o agressor, assumindo seus atributos ou imitando sua agressão, a criança transforma a si mesmo [mesma] da pessoa ameaçada para a pessoa que faz a ameaça (Freud, 121). Afastando-se de sua mãe, quem ela entende como uma desonesta traidora-de-suas-iguais, a filha vitimizada se espelha no autor masculino, que, por ser seu abusador, é entendido como poderoso, e quem, por ser homem, ainda tem o potencial para idealização objetiva. “Feminino”, para a filha, se tornou o gênero de vítimas e traidoras. Segundo a pesquisadora de trauma Judith Herman, “em suas tentativas desesperadas de manter a fé em seus pais, a vítima desenvolve imagens altamente idealizadas de pelo menos um dos pais… Mais comumente, a criança idealiza o abusivo e desloca toda sua raiva sobre o inofensivo.” (Herman, 106). Descrevendo sua pesquisa com sobreviventes de incesto pai-filha, Herman nota que “com a exceção daquelas que se tornaram feministas conscientes, a maioria das vítimas de incesto pareciam considerar todas as mulheres, incluindo elas mesmas, desprezíveis” (Herman, “Father-Daughter Incest”  — “Incesto Pai-Filha” — 103).

Rejeitando a mãe e a própria identidade feminina, a filha vitimizada começa a imitar o agressor. E. Sue Blume, autora de “Secret Survivors” (“Sobreviventes Secretas”), descreve como a filha se reinventa através da identificação com o autor.

…vítimas crianças frequentemente se auto-recriam, desenvolvendo alter egos que oferecem uma alternativa positiva para elas próprias. Mais comumente, é uma persona masculina: as pacientes mulheres e sobreviventes podem forjar personalidades masculinas alternativas ou se unir a um companheiro que represente uma fantasia masculina. Isso é simples de entender: como uma vítima, e uma mulher, ela associa seu estado vulnerável com estar sem defesa; homens, no entanto, são vistos como fisicamente mais fortes e como um alvo difícil para a vitimização. (Blume, 85)

Expressão de Gênero de Brandon

Brandon não gostava de usar vestidos para ir para à escola. Quando a sua mãe perguntou a razão disso, Brandon disse que vestidos a deixava com frio (isso era em Nebraska) e que os meninos podiam olhar quando as meninas subiam as escadas. Por frequentar uma escola que exigia uniformes, ela usava calças e gravatas que eram o padrão para os meninos, mas que meninas também podiam usar. De acordo com a melhor amiga dela, Sara Gapp, “as pessoas insistiam em dizer que ela se vestia como um garoto. Ela não se vestia… Ela usava roupas que a deixava confortável. Ela não ia na seção de meninos pra comprar roupas. Eram roupas de mulheres que ela estava usando. Ela só gostava de roupas largas. Ela usava cabelos curtos. Isso faz dela um cara?” (Jones, 55)

A escolha de usar roupas largas é compatível com a escolha de muitas sobreviventes de abuso sexual. A “passabilidade” de Brandon como homem começou mais tarde, como uma brincadeira com uma adolescente que ligou para o número de Brandon por acidente e a confundiu com um menino no telefone. De acordo com Sara, “Até Liz Delano [a menina que ligou errado], se você a chamasse de menino, Teena ficava ofendida. Ela não queria ser reconhecida como um homem. Ela não se sentia como um homem.” (Jones, 54)

Brandon também foi descrita como se envolvendo na encenação do papel masculino. De acordo com sua irmã, Tammy:

A igreja era realmente importante pra ela. Nós estudamos em um colégio católico e eu acho que eles meio que fazem uma lavagem cerebral em você desde o jardim de infância para ser padre ou freira. Eles sempre trazem padres e freiras para falar que receberam o chamado e que você saberá quando o receber também… Teena nunca quis ser uma freira, ela sempre quis ser um padre, e eu achava engraçado porque eu tinha que participar de suas missas, eu ficava entediada a maior parte do tempo, pois ela lia a bíblia e nos fazia cantar. Eu acho que era um jogo que ela gostava, de vez em quando ela dizia ‘quero ser um padre algum dia’ (Jones, 34). Será que Brandon estava se identificando com o poder ou com um gênero? Considerando que a Igreja bania mulheres padres e negava que elas recebessem prestígio, cerimônias oficiais e a oportunidade de receber um cargo de liderança associado ao sacerdócio, seria irresponsável atribuir o desejo de Brandon de ser um padre a uma “disforia de gênero” – um termo que, quando aplicado a mulheres, pode também significar “resistência à casta sexual”. Identificação com papéis de gênero em uma cultura não podem ser separados de identificação com os privilégios que acompanham esses papéis. Como nota uma psicanalista pioneira, Karen Horney, “nós vivemos em uma cultura masculina, i.e estado, economia, arte e ciência são criações de homens e estão portanto preenchidas pelo seu espírito.” (Horney, 152).

O desconforto de Brandon com o desenvolvimento do seu corpo foi documentado. Em seu livro, Aphrodite Jones comenta que Brandon odiava a dor causada pelo crescimento dos seus seios e reclamava da dor de cólicas menstruais e da inconveniência de ter que lidar com uma grande quantidade de sangue mensalmente. Seriam essas as objeções de um “homem preso em corpo de mulher”, ou de uma garota particularmente agressiva e articulada, apavorada pela inconveniência, constrangimento e dor de um corpo adulto feminino?

O desconforto de Brandon é muito mais profundo do que apenas incômodo. Ela comentou que a “deixava enjoada” (Jones, 47) quando alguém encarava seu peito. Novamente, uma menina não precisa ser uma sobrevivente de incesto para demonstrar nojo quando alguém objetifica seu corpo em formação, mas uma sobrevivente de incesto que internalizou um ideal masculino tem de enfrentar um diferente conjunto de obstáculos:

Enquanto a puberdade representa uma época dolorida para muitas adolescentes, para filhas de famílias incestuosas essa transição à feminilidade adulta é especialmente difícil e confusa, pois seu corpo sinaliza não apenas a passagem para a maturidade feminina, mas o reconhecimento que o ideal de masculinidade internalizado é uma fantasia de outro e nunca poderá ser o seu verdadeiro eu. (Jacobs, 86) A rejeição ao seu eu feminino explica a frequência de desordens alimentares durante a puberdade de sobreviventes de incesto. Brandon, na época de sua tentativa de suicídio, foi registrada manifestando sérios transtornos alimentares.

Para a sobrevivente de incesto, o seu corpo se torna o símbolo de sua vitimização e, assim, o foco do seu desejo de controle. Além disso, a obsessão por um corpo magro, de “menino”, no lugar de uma expressão de feminilidade, talvez represente uma rejeição inconsciente do seu eu feminino, através do qual a filha tenta integrar o ego masculino internalizado com uma imagem externa de um corpo de criança masculinizado (Jacobs, 88).

A Lesbofobia de Brandon

Brandon relatou que, em outubro de 1990, foi estuprada. No mesmo outono, quando ela tinha quase dezoito anos, Brandon tentou alistar-se no exército. De acordo com seus amigos, ela estava determinada a fazer parte da Operação Trovão do Deserto. Infelizmente ela não passou no teste escrito. Isso parece ter causado uma reviravolta na vida dela. De acordo com sua mãe, “ela estava realmente chateada… Ela começou a mudar.” (Jones, 47)

Uma das maiores questões sobre as escolhas de Brandon era “por que ela não se reconhecia como lésbica?”. Ela talvez estivesse tentando fazer isso quando tentou se alistar. Por que um homem trans tentaria entrar em um ambiente totalmente feminino e estritamente segregado? O exército, apesar de suas políticas homofóbicas e persecutórias, sempre foi atraente para lésbicas por ter historicamente fornecido um ambiente de trabalho e vivência com pessoas do mesmo sexo por quatro anos.

Embora estupro e assédio sexual ocorram no exército, uma sobrevivente que associa sua violação com isolamento e exposição contínua ao ataque masculino pode sentir que existe segurança em um ambiente totalmente feminino, e especialmente se ela acabou de ser estuprada. Inclusive, as regras de uso de uniformes do exército fornecem cobertura protetora que retira a ênfase das características sexuais e desencoraja a objetificação sexual. Seria ingênuo assumir que Brandon, que na época do ensino médio identificou sua atração sexual por mulheres e até foi morar com uma namorada, não estava ciente da associação de lésbicas com o exército. Ela talvez estivesse procurando por lésbicas, o que talvez explique parte de sua reação extrema ao falhar no exame de admissão.

Se esse fosse o caso, por que então ela não procurou por comunidades lésbicas em sua cidade natal? Porque “não pergunte, não conte” (“don’t ask, don’t tell“) não era uma política que se aplicava a gays e lésbicas de classe baixa em Lincoln, Nebraska, em 1990. A homofobia por lá era evidente e potencialmente fatal. O assédio poderia acontecer por meio de ligações anônimas e obscenas, ameaças e insultos na rua e ataques físicos. Por estupro ser considerado como uma “cura” para o lesbianismo, o assédio muitas vezes poderia tomar forma como ameaça de estupro ou o ato em si.

Para uma jovem que tinha horror à sexualidade masculina e que havia dito aos amigos que estupro era um de seus maiores medos, e que tinha acabado de ser estuprada, a possibilidade desse tipo de assédio devia ser aterrorizante. O estupro de outubro deve, de fato, ter sido uma violência homofóbica dirigida contra ela, por ser uma mulher que não namorava homens e que tinha um histórico de morar junto com uma namorada.

Mas havia outro motivo para que Brandon não se identificasse como lésbica: lesbianismo havia se tornado uma questão de poder entre Brandon e sua mãe.

Em março de 1991, pouco tempo após Brandon ter sido rejeitada pelo exército, uma adolescente chamada Liz Delano ligou para um número errado e chegou até Brandon por engano. Liz achou que Brandon fosse um garoto adolescente, e Brandon entrou no jogo, chamando a si mesma de “Billy”. Como uma piada, ela colocou uma meia na sua roupa íntima e encontrou Liz num rinque de patinação. Liz continuou a ligar para a casa de Brandon e perguntar por “Billy” e JoAnn começou a entender que sua filha estava se passando por um garoto. Ela não estava feliz.

Algumas semanas depois, Brandon começou uma relação com Heather, uma garota de 14 anos e amiga de Liz. Ela foi morar com Heather, se passando por homem e chamando a si mesma de “Ten-a”. JoAnn Brandon entendeu que essa relação era sexual, e começou a telefonar para Heather e para a mãe de Heather, insistindo que o jovem rapaz que estava na casa delas era sua filha. Heather, assim como Brandon, era uma sobrevivente de incesto. De acordo com que conta a biografia de Jones, o foco da relação de Brandon era uma intensa interpretação romântica, sem sexo genital, e Heather respondeu imediatamente com gratidão pelo comportamento atencioso e ausência de pressão sexual. Brandon se ressentiu profundamente com a tentativa de JoAnn de sabotar a relação, e ressentiu especialmente a tentativa da mãe de colocá-la no papel de uma predadora sexual lésbica.

Para explicar as insistentes ligações de sua mãe, Brandon disse para Heather que ela nasceu hermafrodita, mas JoAnn tinha escolhido criá-la como uma mulher para “preservá-la.” (Jones, 89) De acordo com Heather, “ele [Brandon] tinha uma resposta legítima para tudo. Ele me diria que sua mãe não aceitava o fato de que ele era homem, que ela queria duas menininhas, que ela estava apenas pregando uma peça.” (Jones, 67) O conhecimento de hermafroditismo veio de um episódio do programa Phil Donahue.

JoAnn conta uma história diferente: “eu sabia que de repente haveriam festas regadas à cerveja e eu teria uma filha de dezoito anos por lá que não deveria estar bebendo ou fazendo coisa alguma.” (Jones, 67) Ela estava ciente de que qualquer atividade sexual entre Brandon e Heather, então com catorze anos de idade, constituiria em estupro presumido. JoAnn estava escandalizada pela alegação de hermafroditismo de Brandon. “Eu dei à luz ela; eu sei de que sexo ela é. Não tinha nenhum ‘anexo’ a ser removido.” (Jones, 68)

JoAnn começou sua campanha para tirar sua filha “do armário”. Ela mandou duas colegas de trabalho lésbicas para a casa da mãe de Heather. Elas tinham fotos de Brandon quando criança e uma cópia de sua certidão de nascimento. Como resposta, Brandon destruiu cada foto sua que encontrou pela frente. Percebendo que o lesbianismo era usado por sua mãe como tentativa de acabar seu relacionamento, Brandon começou a enfaixar os seios, falar mais baixo e usar o banheiro masculino em público.

Em junho de 1991, Brandon entrou com uma queixa contra sua mãe por assédio. Ela e Heather levaram a fita de sua secretária eletrônica para a polícia. Nela estava uma mensagem de JoAnn chamando-as de lésbicas e ameaçando expô-las. A insistência da mãe sobre o lesbianismo de Brandon tornou-se uma questão de poder tão crítica a ponto de envolver a polícia.

Lesbianismo era um problema familiar em outro sentido. No inverno seguinte à tentativa de Brandon alistar-se, sua irmã Tammy deu um bebê para a adoção — para um casal lésbico de San Francisco. Brandon insistiu para a irmã ficar com o bebê. Ela queria desperadamente ser tia. Mais tarde, um dos amigos gays de Brandon relataria como “ele [Brandon] odiava lésbicas; ele era completamente contra lésbicas” (Jones, 93) citando a adoção como razão para seu ódio.

Naquele mesmo verão, Brandon começou a soltar cheques sem fundo para comprar mantimentos e presentes para Heather. Ela conseguiu uma identidade falsa e estava conseguindo empregos como homem. Ela começou a falar para amigos que passou por uma operação de mudança de sexo em Omaha. Em outubro, ela foi citada em duas acusações de falsificação em segundo grau. As atividades ilegais de Brandon começaram a aumentar, e também seu consumo de álcool, comportamentos compulsivos e distúrbios alimentares. Finalmente, Sara, sua melhor amiga, decidiu ela mesma lidar com estes problemas. Ela encontrou com Heather e explicou a ela que Brandon era uma mulher. Heather acabou o relacionamento e Brandon tentou se matar tomando um vidro de antibióticos. Isto a levou a um centro de crise, e lá, finalmente, ela esteve apta a receber conselho profissional.

mugshot

Mugshot de Brandon

O Diagnóstico de Crise de Identidade de Gênero

Brandon ficou sete dias no centro de crise. O Dr. Laus Hartman escreveu o relatório inicial. O histórico de Brandon teria incluído doze acusações pendentes de falsificação de documentos, uma possível acusação de abuso sexual contra uma menor, um estupro não tratado em outubro de 1990, distúrbios alimentares, consumo excessivo de álcool e um relacionamento sexual em progresso com uma garota de catorze anos. O diagnóstico? Um caso leve de crise de identidade. Depois de apenas alguns dias de terapia, Brandon disse a sua mãe que uma operação de mudança de sexo havia sido sugerida por seu terapeuta.

O transexualismo foi ideia de Brandon ou dos terapeutas? Deb Brodtke, médica clinica em saúde mental, pegou o caso de Brandon no centro de crise e continuou a tratá-la por quase um ano como paciente externa. Há registros de Brandon dizendo a Brodtke que queria ser homem, “para não ter que lidar com as conotações negativas de ser lésbica e por sentir-se menos intimidada por homens quando se apresentava como um.” (Jones,83) Se isso for verdade, o que Brandon disse a ela não foi que se sentia como um homem preso a um corpo de mulher, mas uma mulher presa em um mundo em que é perigoso ser fêmea, e especialmente perigoso ser lésbica.

O livro de Jones não relata nenhuma tentativa da parte de Brodtke de desafiar a lesbofobia internalizada de Brandon. Não existe nenhum registro em sua narrativa de esforços para fornecer a Brandon informações acerca da cultura lésbica ou da história lésbica, informações sobre grupos de aceitação ou grupos para jovens lésbicas. Não existe nenhum registro de tentativas de criar contatos entre Brandon e lésbicas adultas que pudessem aconselhar ela. O diagnóstico de “crise de identidade de gênero” (GID, do inglês Gender Identity Disorder) reflete o histórico heterossexismo do campo da saúde mental, que tem tradicionalmente entendido o desejo gay e lésbico como um desejo de se tornar membra/o do outro sexo.

O diagnóstico de Brandon parece não ter incluído alcoolismo. É interessante notar como prevalece o uso e abuso de álcool no documentário, na biografia e no filme ficcional – e ainda assim, como parece estar ausente do plano de tratamento. Se o abuso de álcool houvesse sido identificado como pelo menos um fator contribuinte para o caos e tormento na vida de Brandon, me parece lógico que deveria ter existido alguma tentativa de incorporar um programa de recuperação no plano de tratamento.

E, finalmente, o diagnóstico de GID dado a Brandon, tão repleto de homofobia e preconceito de gênero, também parece ter ignorado o “elefante no meio da sala” — o incesto. A avaliação do tratamento e diagnóstico de Brandon não parece incluir Transtorno de Estresse Pós-Traumático Complexo, síndrome comumente associada a sobreviventes de abuso na infância, e especialmente sobreviventes de incesto. Isso é notável, dado o fato de que Brandon chega na clínica com um histórico de anos de abuso sexual na infância não tratados, um caso de estupro recente, um aumento gradual de atividades criminosas, um histórico de múltiplas identidades, predação sexual a meninas menores de idade, comportamento de risco extremo, evasão de cuidados médicos por medo de exames de rotina, distúrbios alimentares, idealização de suicídio, terror por estar num corpo de mulher, medo de homens, preferência por roupas que protegessem, quantidade compulsiva de banhos — seis ou sete por dia com mudança de roupa. (A obsessão de Brandon com limpeza continuaria por toda sua vida, e, de acordo com amigas/os, mesmo nos seus últimos anos de vida ela ainda tomava três ou quatro banhos por dia.)

Ao invés de um diagnóstico relacionado a trauma, o terapeuta aparentemente mandou Brandon para casa com informações sobre cirurgias de “redesignação sexual”, que incluiriam procedimentos como suturação da vagina, remoção dos seios, ovários e útero, transplantar os mamilos, construção de um “apêndice” usando pele das coxas e administração de esteroides. Amigas/os de Brandon reportaram que ela expressou acentuada ambivalência em relação a essas recomendações.

Sua irmã, Tammy, lembra da reação da família:

Basicamente, nós estávamos ficando preocupados com Teena. E nós não conseguíamos nenhuma ajuda para ela… você sabe, não para ajudá-la a lidar com o fato de ser gay ou qualquer coisa assim, mas para ajudá-la a encontrar quem ela era. Talvez ela precisasse de aconselhamento. E ela havia mencionado para nós o fato de ter tentado cometer suicídio, então nós meio que usamos isso como forma de colocá-la lá [no Hospital Geral Lincoln], e o psicólogo de lá disse que Teena precisava de ajuda a longo prazo… o que eu não sei se era realmente o caso, mas eles mandaram ela para o centro de crise, e… Eu gostaria de ter realmente sabido o que Teena disse a eles ou o que esses médicos disseram a Teena mas, resumindo, ela saiu de lá dizendo ‘Eu quero mudar de sexo’, e… ‘Eles me disseram que eu preciso fazer isso e aquilo.’ E eles podem ter dito isso a ela, mas eu não sei se era o que ela realmente queria fazer.” (Muska) Ao defender a cirurgia que facilitaria a transição de Brandon, o terapeuta a orientou acerca do estabelecido ano de probação, no qual a paciente seria requerida a viver como homem. Teria Brandon descrito suas estratégias correntes para ser vista como homem nas relações – estratégias que envolviam manipulação e estupro de menores inexperientes e ingênuas, que provavelmente não tinham como ser assertivas ou suficientemente educadas para confrontar os subterfúgios sexuais de Brandon? Se o terapeuta chegou a nomear os problemas éticos, legais e de segurança de tais estratégias, Brandon nunca viu nenhuma razão para questioná-las. De fato, armada com o diagnóstico oficial de “Axis 1: transexualismo,” Brandon aumentou suas manipulações e seduções.

Depois do aconselhamento, seu repertório de mentiras se expandiu e passou a incluir histórias sobre sua avó ter planos de enviá-la para a Europa para fazer a cirurgia, e de datas marcadas para mastectomia bilateral em junho de 1993. Ela disse a suas várias namoradas em diversos momentos que sua vagina havia sido costurada, que “algo” havia sido implantado e eventualmente cresceria como um pênis e que ela havia começado terapia hormonal. Assim como as histórias de hermafroditismo que precederam o diagnóstico de transexualismo, todas eram mentira.

Misoginia, dissociação e GID

De acordo com os estudos de Jacobs e Herman, o repúdio da filha vitimizada pela identidade feminina e sua internalização de um homem idealizado representam respostas para o abuso sexual na infância.

Se gênero é considerado um agregado de marcadores de casta sexual em um sistema de dominação baseado no sexo biológico, então é simplista e enganador caracterizá-lo como “performativo”. Visto no contexto da cultura patriarcal, gênero é um emblemático sistema de dominação no qual mulheres são universalmente oprimidas como uma casta.

A filha vitimizada que adota uma persona masculina não está “fodendo com o gênero”. O gênero é que tem fodido com ela e, em uma tentativa de identificar o poder que tem machucado ela, ela passa a adotar a estratégia de uma criança desesperada cuja única opção é alterar a percepção dela sobre si mesma.

O que o movimento transgênero chama de “foder com o gênero” (“gender-fucking”) é simplesmente um exercício de mover marcadores em vez de realizar qualquer mudança fundamental no gênero. O gênero ainda existe. Ainda é uma estrutura de organização para a sociedade. O que muda é que você apenas “representa” ele de forma diferente: passa a ser permitido anexar o gênero em diferentes corpos. O objetivo das políticas transgêneras é permitir que você “seja” o gênero que você “é”. No entanto, ser o seu gênero ainda significa o que você veste, o que você faz, como você se expressa e ainda é algo ligado à noções fundamentais do que é ser homem e mulher… E não é surpresa alguma que o que é ser homem e o que é ser mulher dentro dessa visão segue exatamente o rastro do que já é definido como mulher e homem. (Corson, 3) As políticas transgêneras não destroem as posições de homens e mulheres na hierarquia de gênero e sim “fazem com que a escolha das mulheres de se opor a essa hierarquia (sendo mulheres e em prol das mulheres) se torne incompreensível.” (Corson, 3)

Além da sua participação no amplo sistema político de dominação masculina, o diagnóstico GID atua também em uma frente mais pessoal, para proteger os autores. Se a “disforia de gênero” da filha vitimizada é uma resposta pós-traumática à violência sexual, ela reflete uma tentativa de dissociar, de arrancar o trauma.

Um trauma que não pode ser adequadamente representado ou narrado permanece escondido. É um pedaço alienado de experiência que resiste a qualquer assimilação da pessoalidade do hospedeiro do qual se alimenta. A dissociação também pode ser entendida como um ato narrativo. Narra a fragmentação, fratura, ruptura, disjunção, e incomensurabilidade. (Epstein e Lefkovitz, 193) A dissociação é uma estratégia de sobrevivência.

Ela fornece uma maneira de sair de uma situação intolerável e psicologicamente incongruente (duplo-cego), ergue barreiras na memória (amnésia) para manter acontecimentos e memórias dolorosos esquecidos, funciona como um analgésico para prevenir que se sinta dor, permite que se escape viver o acontecimento e se escape de responsabilidade/culpa, e pode servir como uma negação hipnótica do sentido do eu. A criança pode começar a usar o mecanismo dissociativo espontaneamente e de forma esporádica. A vitimização repetida e a injunção do duplo-cego, ela se torna crônica.  Talvez futuramente se torne um processo autônomo conforme o indivíduo cresce (Courtois, 155). Dissociação é uma maneira de alterar a consciência. Como milhões de sobreviventes podem atestar, essas memórias dissociadas não foram embora realmente. Se elas jamais vão emergir à mente consciente ou não, elas continuam a exercer sua influência por meio de transtornos somáticos, flashbacks, distúrbios do sono, sonhos inoportunos e transtornos dissociativos. Memórias reprimidas não vão embora só porque alguém deseja que elas desapareçam. A sobrevivente assume o controle de sua vida entendendo e assimilando o trauma reprimido, não reforçando a divisão. E esse é justamente o porquê de o diagnóstico GID ser tão potencialmente pernicioso quando aplicado à filha vitimizada.

Quando o diagnóstico GID substitui identificação e tratamento de Transtorno de Estresse Pós-Traumático Complexo, isso reforça a divisão que foi um resultado do trauma infantil. Por mais “queer” que seja o diagnóstico, não se desvia de um modelo de normatividade baseado em papéis de sexo-casta tradicionais. O diagnóstico GID que recomenda transexualismo como uma “cura” compromete seriamente o potencial de recuperação da filha vitimizada dos efeitos de seu trauma. Ao invés de oferecer técnicas para ajudar a reobtenção de sua memória e reintegração do material dissociado, o diagnóstico GID possibilita e encoraja investimentos ainda mais profundos no transtorno, ao oferecer uma promessa falsa de legitimar essa identidade dissociativa “ahistórica” (sem perspectiva histórica ou contexto) por meio de “redesignação” de gênero. Ao invés de desconstruir, isso explora a síndrome.

Revitimização

Finalmente, quando a identidade transgênera é uma extensão e amplificação da identificação da filha vitimizada com o agressor, uma consciência dividida continua caracterizando a psique de sobrevivência, que coloca-se em cenários de revitimazação.

Tanto na ação quanto na imaginação dos sobreviventes, existe uma relação tênue entre o agressor masculino internalizado e a criança feminina violada. Enquanto a introjeção do agressor pode, por vezes, mascarar a identidade da filha como vítima e, assim, contribuir para a construção de uma personalidade falsa, padrões de revitimização revelam a dimensão em que o eu da fêmea desprotegida e violada também caracterizam a personalidade da filha vitimizada. (Jacobs, 99) Revitimização foi a história da curta vida adulta de Brandon, enquanto ela usava várias identidades fraudulentas que resultaram em detenção e encarceramento, seduzia garotas menores de idade que a rejeitavam quando descobriam o segredo dela, e fazia crescentes e perigosas alianças com homens violentos e homofóbicos. Os fingimentos sexuais de Brandon, fingimentos que se intensificaram após seu diagnóstico oficial como transexual, colocaram suas namoradas em risco de formas bem reais. Suas namoradas em Lincoln foram provocadas e assediadas por seus amigos, mas quando Brandon se mudou para a mais provincial Richardson County, os riscos tornaram-se ainda maiores. Ambas as amigas de Brandon de Humboldt, Lisa Lambert e Lana Tisdel, estavam sendo assediadas em seus locais de trabalho e em eventos sociais. Umas das amigas de Lisa descreveu o dilema de Lisa: “Todo mundo em Humboldt sabia sobre Brandon. Lisa não tentou esconder. Lisa não conseguia acreditar que algo assim tinha acontecido a ela. Ela deixou claro que ela estava muito preocupada para impedir a entrada de Brandon. Ela estava brava e magoada em relação a isso, mas ela não queria machucá-lo [Brandon], não queria colocá-lo nas ruas.” (Jones, 205) Sua compaixão custaria sua vida.

A situação de Lana era complicada por sua amizade com os ex-condenados Tom Nissen e John Lotter. Quando Brandon foi presa por falsificação de cheques em 15 de dezembro de 1993, ela telefonou para Lana para socorrê-la, mas Lana estava horrorizada por descobrir que seu “namorado” estava sendo colocado na ala feminina da cadeia. Ao invés de ir ela mesma, Lana mandou Tom, seu ex-namorado, para socorrer Brandon. A prisão foi anunciada naquela semana pelo Jornal de Falls City, tornando pública a identidade biológica de Brandon como mulher, e, consequentemente, a participação de Lana no que seria percebido como um relacionamento lésbico. Amigos de Brandon acreditam que o socorro foi o início do que acabou em um subsequente estupro. Nissen e Lotter parecem ter se sentido enganados e humilhados pela representação de gênero de Brandon. Nas palavras de um amigo, “Ele [Brandon] representou um jogador e [o jogador] foi vingado por isso.” (email privado, 20 de dezembro de 2004)

lana

Brandon & Lana

No entanto, de acordo com Jones, Lana tentara proteger Brandon, mesmo depois de descobrir ter sido enganada. Ela disse a sua família, a Tom Nissen e a John Lotter que tinha visto o pênis de Brandon. Mas Tom e John não se convenceram, e eles realizaram sua própria investigação — despindo e revistando o corpo dela. Ambos eram homens com histórico de violência, e eles decidiram resolver a questão com as próprias mãos. Pode ser que a segurança de Lana estivesse seriamente comprometida uma vez que havia sido descoberto por esses homens que ela tinha estado em um relacionamento sexual com uma mulher biológica e mentiu para proteger o fato.

Três dias depois, Brandon, por insistência de Lana, foi à polícia denunciar o estupro. A polícia questionou John e Tom, mas não os prendeu. John negou o estupro, mas disse que Lana tinha pedido a ele para encontrar um jeito de definir o sexo de Brandon. Em 30 de dezembro, os dois homens foram à casa de Lana procurando Brandon, mas Brandon, que já não era mais bem-vindo por lá, estava abrigado na chácara de Lisa. Lana relatou que John afirmou que “estava se sentindo afim de matar alguém” e disse que ela, Lana, era a próxima. Isso pode ter sido o porquê da mãe de Lana ter dito a eles onde Brandon estava escondido. Depois que eles foram embora, nenhuma ligação foi feita para alertar Brandon ou Lisa que os homens estavam a caminho. Testemunhos conflituosos sugerem que Lana pode na verdade ter estado no carro, ou até mesmo na casa, na noite dos assassinatos.

Considerações sobre o tratamento

Muitos aspectos da vida de Brandon teriam sido mais fáceis numa cultura que não fosse transfóbica, mas a recuperação do trauma do incesto não seria um desses aspectos.

Recuperação de sexualização traumática… começa com o processo de reintegração pelo qual o trauma original é trazido à consciência. Só então a idealização do autor pode dar lugar à realidade de sua violência sexual. Com a desconstrução de um pai idealizado, a filha pode começar a recuperar e redefinir o eu feminino, diminuindo o impacto do agressor internalizado (Jacobs, 165). Quando a internalização desse ideal se torna incorporada à identidade de gênero da filha vitimizada, especificamente como uma resposta ao trauma, esse tipo de desconstrução é impedida. Essas talvez tenham sido tão machucadas pelo incesto que pode parecer mais oportuno e terapêutico adotar uma identidade de gênero diferente que não seja tão aparentemente carregada com associações traumáticas. Essa identidade, no entanto, não pode – por definição – oferecer a integração que caracteriza recuperação.

Então, como a filha vitimizada se cura? Em “Victimized Daughters” (“Filhas vitimizadas”), Janet Liebman Jacobs apresenta alguns estágios associados à recuperação, notando que nem toda sobrevivente vivenciará essas mudanças (Jacobs, 136):

  • Desconstrução do pai idealizado.
  • Reconhecimento do senso de eu construído ao redor do ideal de masculinidade encarnada no autor.
  • Se distanciar do agressor.
  • Identificação de si mesma como vítima (o que pode incluir identificação com outros membros sem poder da sociedade, o que permite a ela desconstruir o “eu ruim” do cerne de seu desenvolvimento).
  • Reconhecimento da vitimização passada integrada no contexto do trauma sexual original (o que pode resultar em estabelecer e manter melhores limites em relações potencialmente vitimizadoras).
  • Recuperação do eu sexual (como um resultado da desconstrução do autor idealizado e desenvolvimento de um senso de eu separado, o que pode envolver respostas dissociativas controladoras e flashbacks inoportunos, e a reestruturação ou eliminação das fantasias sexuais que mostram a vítima se libertando do agressor).
  • Auto-validação e reconexão com a persona feminina (através de transferência terapêutica que modela cuidados respeitosos, reconexão ou empatia com a mãe, ou identificação com o poder espiritual feminino).
  • Reintegração por meio de imaginação criativa.

Conclusões

Durante a vida adulta, Brandon exibiu comportamentos coerentes com o diagnótico de Transtorno de Estresse Pós-Traumático Complexo, uma síndrome associada a sobreviventes de incesto. Disforia de gênero foi identificada clinicamente como uma resposta ao abuso sexual infantil e incesto, e é lógico que se questione se foi terapêutico, no caso de Teena Brandon, ou não o diagnóstico de transexualismo e recomendação de cirurgia de redesignação sexual em vez de focar no diagnóstico e no tratamento do Transtorno de Estresse Pós-Traumático Complexo. Se a cura de abuso sexual infantil e incesto requerem reobtenção e assimilação de material dissociado, é um forte argumento afirmar que o diagnóstico do transexualismo de Brandon serviu para aumentar sua dissociação, impedindo a recuperação do incesto e permitindo um agravamento de comportamentos de alto risco baseados numa identidade dissociada.

Como uma nota de rodapé final, um conhecido de Brandon dividiu essa história ocorrida aproximadamente na semana entre o estupro e o assassinato:

No dia de natal de 1993, quando Lisa trouxe Brandon de volta… de Falls City, [um amigo] encontrou com ele [Brandon] na porta e disse “oi Brandon”. Em resposta [o amigo] ouviu de Brandon que não existia nenhum Brandon, Brandon se foi. Seu nome é Teena. Aquilo não mudou em nenhum ponto na última semana. (email pessoal, 20 de dezembro de 2004).

Notas de Trabalho

“A verdade inconveniente sobre Teena Brandon” é um artigo inconveniente. Ele tem um histórico de publicações rejeitadas. Ele foi entendido como transfóbico, e tem sido intimidado por romper com princípios da Teoria Queer. Isso já era esperado, porque ele é sobre trauma, e trauma é um trauma especificamente porque resiste ser aceito ou assimilado. Se esse paper se encaixasse perfeitamente nas categorias existentes de identidade, não teria necessidade alguma de escrevê-lo e Teena Brandon talvez ainda estivesse com vida hoje em dia.

Esse artigo pertenceria a uma edição de periódico intitulada “As lésbicas serão exterminadas?”. A resposta é “não”, se isso significa que deveria se insistir no fato de que Teena Brandon era realmente uma lésbica com um caso de identidade mal incompreendida. Esse paper não faz essa reivindicação. O que ele reivindica é o status dela como uma sobrevivente de incesto não recuperada e com Transtorno de Estresse Pós-Traumático Complexo, que parecia estar em síndrome ativa até o momento de sua morte.

Eu acredito que esse paper pertence sim a essa edição de Trivia, e por isso o submeti. Muitas lésbicas são sobreviventes de abuso sexual infantil. Na última década, pode-se observar que está aumentando o número de mulheres biológicas que anteriormente se identificavam como lésbicas (como Brandon) transicionando com o objetivo de reivindicar identidades masculinas. Posições nas comunidades lésbicas e trans se tornaram polarizadas, abrindo profundas divisões entre nós. Acusações de “essencialismo”, “patologização”, “misoginia” e “privilégio patriarcal” são gritados pra lá e pra cá nas linhas de batalha.

Pela minha experiência, conflitos prolongados podem ser um indicativo de contextos condebidos de modos inadequados e pouco precisos. A pesquisa de trauma oferece perspectivas identitárias radicais, tanto para lésbicas quanto trans, e abre um novo espaço para diálogo, espaço com possibilidade de pontos em comum. Instruir sobre trauma pode informar o feminismo radical, e eu escrevi esse paper com essa intenção.

Este é um paper lésbico que pertence a um espaço lésbico? Essa questão pode ser debatida de forma acalorada, e o que melhor qualifica a inclusão?

 

Sobre a autora

Carolyn Gage é uma dramaturga lésbica e feminista, performer, autora e ativista. Autora de nove livros e mais de 25 peças, ela é a vencedora de 2009 do Lambda Literary Award, na categoria drama. Seu site é: www.carolyngage.com.

Clique aqui para ler o texto original.

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DEZ COISAS QUE TODA MULHER ODEIA NOS HOMENS

Direto vejo por aí algum link (ou artigo em revista, etc) que fala sobre coisas que homens não gostam nas mulheres. Ou coisas que homens gostam nas mulheres. Links que nos dizem para usar muita maquiagem. Ou não usar nenhuma. Para ceder às vontades deles. Para não ceder. Para ousar, não ousar, ligar na hora do trabalho, não ligar, expressar nossa opinião com cuidado, não expressar de forma alguma, usar calcinha grande, usar calcinha pequena. Isso quando algum macho não resolve vir falar pessoalmente –  sem a gente nem perguntar – o que acha da nossa aparência, corpo, personalidade, etc. Recebemos mensagens diferentes o tempo todo, algumas delas até mesmo divergentes entre si. Mas todas dizem uma mesma coisa: que devemos nos preocupar com a opinião dos homens sobre nós.

Olha minha cara de preocupada kkkkk

Olha minha cara de preocupada kkkkk

O post de hoje vai ser o contrário. Eu poderia falar sobre combinações desastrosas que alguns homens fazem, como papete e meias ou pochete e sunga, mas nossas urgências, infelizmente, vão muito além disso. Ao contrário de alguns deles, nosso maior problema não é unha, cabelo, bigode ou a porcaria de uma conta de restaurante. Então aqui vai o incrível post sobre as DEZ COISAS QUE TODA MULHER ODEIA NOS HOMENS:

1) NÃO AJUDAM NAS TAREFAS DOMÉSTICAS

Mulheres acabam fazendo jornadas duplas – e até mesmo triplas – de trabalho porque, além de inseridas no mercado, a responsabilidade de cozinhar, manter a casa limpa e cuidar de filhos cai toda sobre elas. Logo, o que vemos são mães, filhas, irmãs e/ou esposas completamente sobrecarregadas enquanto muito homem não consegue nem colocar suco no próprio copo ou lavar um garfo sujo. Não basta ajudar em uma coisa ou outra de vez em quando, cada um tem que no mínimo cuidar do que lhe diz respeito e dividir o resto de forma justa.  Cuidar, lavar, cozinhar e limpar cansa — e muito. Rapazes, saiam do videogame e comecem a esquentar o próprio Toddy. Consigo detectar vocês, os famosos fidivó, até mesmo em almoços entre amigos: geralmente são os que acham que o mundo é uma extensão de suas casas e vontades e ficam esperando que tudo fique magicamente pronto e limpo.

Sobre pesquisa “Trabalho remunerado e trabalho doméstico no cotidiano das mulheres”: “Uma outra questão que a pesquisa traz é que quando os homens estão em casa eles aumentam as tarefas de trabalho das mulheres. Aumentam a demanda do trabalho doméstico ou que então atrapalham sua realização” — Leia mais aqui.

2) DÃO CANTADAS, BUZINADAS & AFINS

Rolou a campanha Chega de Fiufiu, do Think Olga (que em breve vai virar documentário), o vídeo da garota que foi importunada 100 vezes ao andar pelas ruas de Nova York durante dez horas, e mais um monte de coisa. O assunto está sempre em pauta. Reclamamos o tempo todo das cantadas de rua. Elas são grosseiras, ofensivas e, mesmo quando proferidas por meio de belas palavras, são um saco. Nós, mulheres, andamos na rua porque precisamos ir à lugares ou queremos passear. É simples! Ás vezes estamos felizes, outras tristes, ás vezes com pressa e de mau humor. No geral, gostaríamos apenas de ficar em paz. Só que sempre tem um homem (um não, vários) que nos “percebe” e transforma qualquer simples caminhada em um tormento. Essas cantadas são muito mais intimidantes que gentis, quase como uma demarcação de espaço, uma lembrança de que o mundo, para nós mulheres, é ainda mais perigoso. E as buzinadas? Ah, basta ser mulher e andar a pé para levar buzinadas e cantadas de todo tipo (tem carro que joga até luz alta na nossa cara). Além da ofensa em si, cantadas são incômodas porque acionam outros medos: de abuso, estupro, assassinato e outras violências. E eu não digo isso por achismo: eu vivo isso todos os dias. Mas ainda assim, muitos homens tentam justificar esse tipo de coisa o tempo inteiro. E continuam importunando mulheres por aí.

thinkolga

3) SE ORGULHAM DE SER ~POLITICAMENTE INCORRETOS~

Tem aquele ~humorista~ (não vou nem perder tempo citando nomes) que achou super engraçado dizer que estuprador de mulher feia merecia abraço e “comeria” uma cantora famosa grávida e o bebê. Tem aquele outro que ofereceu uma banana a um internauta negro e depois quis acionar o mito da democracia racial com um blábláblá sobre o mundo ser uma caixa de lápis de cor, tentando apagar o fato de que “macaco” é sim um xingamento historicamente usado contra pessoas negras. Tem aquele “conselheiro de relacionamentos” (cof, cof, ótimo eufemismo, hein?) do exterior que acha que humilhar mulher é técnica de sedução. Etcetcetc. A internet nos mostra, diariamente, mil exemplos de homens que seguem esse tipo de comportamento, achando que são super rebeldes, engraçados, chocantes, uau. Deixa eu contar uma coisa, se vocês acham que estão subvertendo alguma coisa perpetuando misoginia, machismo, homofobia e racismo, trago más notícias: vocês estão é colaborando para deixar as coisas do jeitinho que estão. São servos do status quo, nada além, e podemos entender o porquê, né? É intencional. Querem posar de autênticos ou divertidões, mas não querem abrir mão de privilégios. Bradam contra a corrupssaum11!! e clamam por ~mudanças~ (desde que não sejam do tipo que coloquem o filho da empregada doméstica na universidade) só pra disfarçar que, em muitos casos, tudo está bem – e até demais – pra vocês.

laerte

4) PAGAM DE ENGAJADOS (OU “A CASA CAIU, FEMINISTO”)

Tem muito homem (hetero, gay, bi, etc) que consegue entender questões feministas. Eles geralmente manjam de teorias e sabem discutir com certa coerência. Tem muito homem que se diz pró-feminismo, pró-isso, pró-aquilo, mas, na prática, menospreza demandas de grupos minoritários dos quais ele não faz parte, tenta definir quais pautas ele considera mais importantes, acoberta colegas agressores e tenta justificar as agressões (isso quando ele mesmo não é o agressor), se infiltra em espaços de articulação de lutas e ideias com o intuito de liderar e alimentar o próprio ego, trata opiniões e sentimentos de mulheres com indiferença, isola e difama quem for “perigosa”, prega o ~poliamor~ e outras práticas ~livres~ apenas para se isentar de responsabilidades e cuidados com outras pessoas, mistura frustração sexual com política e influência com coação, etc, etc, etc. Aprendi, depois de quebrar a cara algumas vezes com diversos homens (e que já foram inclusive defendidos por mim – quem nunca iuzomou que atire a primeira pedra), como é fácil simular um discurso. E é benéfico pro cara. Ele não apenas paga de engajado, como ainda ganha estrelinha por ser, awn, tão bonzinho. Porém, acaba sendo muito do que ele mesmo critica. Pra esse tipo, nossas causas são meros fetiches intelectuais.

sexy

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5) RECUSAM O USO DO PRESERVATIVO

Estatísticas mostram que homens são resistentes em relação ao uso do preservativo. Basta uma googlada para ter acesso a dados diversos e dicas sobre como ~convencer~ o cara usar camisinha, aff. Cem entre cem mulheres que já conversei, que se relacionam com homens, reclamam disso. Os motivos são muitos: “a camisinha não cabe”, “eu broxo de camisinha”, “prefiro sem”, etc. Olha, nada disso é nosso problema, sabe? Mulher tem que ser “mãe” até na hora do sexo? Porque, assim, tem cara que não sabe procurar uma camisinha mais fina sozinho (para algumas pessoas, elas aumentam a sensação de prazer), um psicólogo (certa vez, a mãe de uma amiga, que é sexóloga, disse que grande parte dos problemas de ereção e ejaculação precoce são psicológicos) ou qualquer outra coisa que possa ajudar. Vivemos em uma sociedade falocêntrica que coloca a penetração como a representação máxima do ~fazer sexo~ e com certeza é algo que precisa ser desconstruído. Mas, enquanto isso, não forcem a barra e nem coloquem a saúde de mulheres em risco, caras. Muito menos tentem colocar nelas a culpa dos seus problemas. E gravidez também é um risco de relações sexuais sem preservativo, né? Nem toda mulher pode/quer tomar pílula ou faz uso de algum outro método anticoncepcional.

Clique aqui para acessar o Portal sobre aids, doenças sexualmente transmissíveis e hepatites virais do governo, para saber mais sobre doenças, postos de saúde, distribuição gratuita de medicamentos e preservativos e afins.

Aproveitando a oportunidade, é sempre bom lembrar:

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6) SÃO PAI-QUANDO-DÁ 

O texto Pai quando dá (clique aqui para ler) é certeiro. Conheço bem vários deles. O pai-quando-dá aparece em ocasiões especiais, não faz esforços para ajudar na criação dos filhos e tem sempre outras prioridades quando o assunto é dinheiro. E eles não existem apenas em relações com pais separados. Em lares em que os pais e mães estão juntos acontece bastante de a mãe (e/ou, infelizmente, babás e empregadas domésticas) cuidarem, educarem e alimentarem as crianças, enquanto os pais só aparecem para dar bronca ou brincar um pouquinho. Esse tópico casa com o primeiro: cuidar dos filhos também é dividir tarefas. Mulheres não têm a obrigação de abdicarem da própria vida em favor dos filhos, embora isso seja um mito corrente (e que, mais uma vez, mantém o privilégio masculino). Um fator curioso que já observei é que, com a internet e suas facilidades, tem muito pai-quando-dá que acha que basta postar uma foto do filho ou filha e dizer “PAPAI T AMA NHOMM” para que o mundo acredite em sua ótima atuação na vida desta criança (vejo alguns que sequer moram na mesma cidade que os filhos e não fazem esforço algum para visitá-los usando esse artifício). Só que, opa amigão: like no Facebook ou coraçãozinho no Instagram não coloca leite na mamadeira e nem faz criança dormir, ok? Paternidade acontece na prática, não basta falar sobre o filho.

7) ESTUPRAM

Segundo o Dossiê Mulher 2014, divulgado em agosto deste ano, no estado do Rio de Janeiro, 4.872 mulheres foram estupradas em 2013. Isso significa 13 mulheres atacadas por dia, ou uma a cada duas horas. Com base em informações de 2011 do Sistema de Informações de Agravo de Notificação do Ministério da Saúde (Sinan), pesquisa do IPEA lançada no início deste ano (que causou polêmica por seu resultado – que gerou a campanha “Eu não mereço ser estuprada” – e por errata publicada depois) estima que no mínimo 527 mil pessoas são estupradas por ano no Brasil e que, destes casos, apenas 10% chegam ao conhecimento da polícia. 
Segundo registros do Sinan, 89% das vítimas são do sexo feminino e possuem, em geral, baixa escolaridade. Do total, 70% são crianças e adolescentes. Infelizmente, a ideia geral que se tem é de que um estuprador é aquele cara que sai do mato com um facão, bate na mulher e a obriga a manter relações sexuais com ele. No entanto, isso serve apenas para esconder a realidade: familiares, amigos, vizinhos e outras pessoas próximas oferecem tanto ou mais risco quanto um estranho. E nem sempre a coação envolve força física. Pode envolver chantagem emocional, ameaça, entre outras coisas. Se a pessoa disse não, é estupro. Se a pessoa não tinha condição de dizer não (estava bêbada, dormindo, drogada, é jovem demais e/ou se sentiu intimidada, etc), é estupro. Se ela foi, de alguma forma, forçada, coagida, chantageada, humilhada, ainda que sutilmente, é estupro também.

“O que ainda precisa ser feito? Pensar sobre ajudar vítimas de estupros é uma coisa; pensar sobre acabar com o estupro é outra. E nós precisamos acabar com o estupro. Nós precisamos acabar com o incesto. Nós precisamos acabar com os espancamentos. Nós precisamos dar fim à prostituição e precisamos dar fim à pornografia. Isso significa que nós precisamos nos recusar a aceitar que esses são fenômenos naturais que simplesmente acontecem porque algum cara está tendo um dia ruim”

Trecho do discurso Relembre, resista, não se conforme, de Andrea Dworkin. Clique aqui para ler na íntegra.

8) PRATICAM VIOLÊNCIA DOMÉSTICA 

“A violência contra as mulheres constitui-se em uma das principais formas de violação dos seus direitos humanos, atingindo-as em seus direitos à vida, à saúde e à integridade física. Homens e mulheres são atingidos pela violência de maneira diferenciada. Enquanto os homens tendem a ser vítimas de uma violência predominantemente praticada no espaço público (minha observação: praticadas por eles mesmos e por instituições compostas e legitimadas por eles), as mulheres sofrem cotidianamente com um fenômeno que se manifesta dentro de seus próprios lares, na grande parte das vezes praticado por seus companheiros e familiares. A violência contra as mulheres em todas as suas formas (doméstica, psicológica, física, moral, patrimonial, sexual, tráfico de mulheres, assédio sexual, etc.) é um fenômeno que atinge mulheres de diferentes classes sociais, origens, idades, regiões, estados civis, escolaridade, raças e até mesmo a orientação sexual” — Leia a cartilha Política Nacional de Enfrentamento à Violência Contra as Mulheres na íntegra clicando aqui.

Preciso falar mais?

9) PEDOFILIA E OUTRAS PARAFILIAS

Já li diversas definições para parafilias: perversões, desvios sexuais, preferências anormais, etc. Essa matéria aqui explica um pouco o que são e categoriza algumas. No entanto, esquece de citar coisas importantissímas: são os homens os maiores “portadores” de parafilias, digamos assim. E muitas dessas parafilias envolvem dominação, subjugação, humilhação e tal. Como no caso dos que colocam a pedofilia em prática, dos que exibem suas partes íntimas em público sem o consentimento alheio, se esfregam e/ou se masturbam em cima de mulheres no transporte público e em outros lugares (também sem consentimento). Sem contar os que usam animais ou corpos de pessoas mortas. Ewww. Olha, eu acredito que, no caso dos seres humanos, sexo deve ser praticado com quem tem capacidade de dizer sim. Ou seja, entre pessoas. Vivas. E entre pessoas vivas que possuam idade/maturidade para consentir conscientemente – embora as relações hierárquicas de nossa sociedade torne até mesmo o consentimento de pessoas adultas questionável, caso elas estejam em situação de vulnerabilidade. Vejam bem, até respeito quem curte lamber uns pés, por exemplo, ou se excita vendo balões. Mas usar crianças, animais, pessoas distraídas, desacordadas… Mortas. NÃO! E não entendo como as parafilias, como um todo, são tratadas como situações individuais e não uma questão social que, de alguma forma se relaciona com o modo que a masculinidade é construída — uma construção que de certa forma diz ” é seu direito acessar os corpos que quiser, como quiser”. Esse é um assunto que eu gostaria de outras visões, aliás, pois comecei a pensar sobre não tem muito tempo.

10) COMETEM FEMICÍDIO

“No Brasil, entre 2001 a 2011, estima-se que ocorreram mais de 50 mil feminicídios: ou seja, em média, 5.664 mortes de mulheres por causas violentas a cada ano, 472 a cada mês, 15,52 a cada dia, ou uma morte a cada 1h30. (…) Isto porque além do elevado número de assassinatos por causas violentas – critério adotado no levantamento para indicar o feminicídio – o estudo constatou que o perfil dos óbitos é, em grande parte, compatível com situações relacionadas à violência doméstica e familiar contra a mulher e poderiam ter sido evitadas. Um indicativo nesse sentido é que quase um terço dos óbitos  teve o domicílio como local de ocorrência. (…) “Essa situação é preocupante, uma vez que os feminicídios são eventos completamente evitáveis, que abreviam as vidas de muitas mulheres jovens, causando perdas inestimáveis”, aponta a pesquisa, realizada com base na avaliação e correção de dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde. (…) O feminicídio é definido como crime de homicídio resultante de violência contra a mulher e é caracterizado em quatro circunstâncias: violência doméstica e familiar; violência sexual; mutilação ou desfiguração da vítima; emprego de tortura ou qualquer meio cruel ou degradante” — Leia mais aqui.

Martela, martela, martela o martelão, batendo a mãozinha, na palma da mão

Martela, martela, martela o martelão, batendo a mãozinha, na palma da mão

Bom, tentei ser breve e sucinta (e falhei *risos nervosos*). Com certeza muitas informações poderiam ter sido acrescentadas. Mas espero que este breve apanhado tenha ficado claro. Peguem os seus martelos e entrem no bonde, migas. E continuem acrescentando itens a lista nos comentários! 🙂