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“Pela Moral e os Bons Costumes”

Quem me acompanha sabe que não apenas sou uma grande entusiasta do cenário independente e autoral, mas também me movimento bastante dentro dele, seja frequentando, apoiando, colaborando, escrevendo sobre ou produzindo o meu próprio material. Desde a minha primeira publicação impressa feita enquanto Vulva Revolução, muitas outras surgiram – e ainda vão surgir.

Fui convidada para escrever o texto que apresenta a exposição da MOTIM – Mercado de Produção Independente deste ano, que traz o tema “Pela Moral e os Bons Costumes” e conta com ilustrações diversas, e resolvi compartilhá-lo aqui no blog. O evento acontece em Brasília e, junto com outras iniciativas (como a Feira Dente, que sou muito fã), tem movimentado bastante a produção independente local. Literatura, quadrinhos, fanzines, pôsteres, fine art e música: tudo é possível nesses espaços, onde o que circula surge de mentes e esforços desconectados de uma lógica convencional de mercado.

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Leia o texto, apareça na MOTIM e apoie artistas independentes – ah, e eu vou estar por lá com as minhas coisas, claro! Por mais diálogo e gente que faz, e menos obscurantismo, por favor.

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Para abrir a 4ª edição do MOTIM – Mercado de Produção Independente, a exposição “Pela Moral e os Bons Costumes” traz pôsteres ilustrados por artistas de todo o Brasil. As imagens evocam reflexões sobre o cenário atual do debate político no país, que entre choques e polarizações, anda aflorando bastante os ânimos de uns e outros. Por Deus e pela família, cidadãos e cidadãs de bem rasgam a roupa alheia para limpar as nódoas que mancham os próprios tapetes.

A sujeira que é varrida para os cantos, no entanto, não esconde a moral que acaba por suspender a ética – e se preocupa mais em controlar a individualidade alheia em prol de uma massificação de péssimas práticas disfarçadas de bons costumes. Enquanto problemas concretos se acumulam, secundarizados e sem resolução, o grito agudo do pânico social preenche lacunas com respostas rasas e reducionistas. Ressona alto, é verdade, mas se dissolve no esquecimento na mesma medida em que faz barulho.

Talvez por isso seja tão fácil reciclar slogans que, em uma sociedade que se diz democrática, há tempos deveriam estar enterrados. O autoritarismo de quem quer limar o discurso alheio na porrada é um filho legítimo de um período obscuro do Brasil. Durante a ditadura militar, aparatos de repressão buscavam eliminar as dissidências – fossem elas políticas, sexuais ou sociais – justamente ao defender a tal da moral e dos bons costumes, termos tão abstratos quanto arbitrários no modo em que são utilizados.

Instituições de séculos atrás e figuras de autoridade detentoras de recursos financeiros e poder estão, a todo o momento, tentando disseminar a ideia de que a maior preocupação que possuem é o bem-estar coletivo. Enquanto alistam forças para atuar na linha de frente do ódio e do vigilantismo, trabalham também na sofisticada engrenagem que tem o objetivo de manter o status quo intacto. Artistas são utilizados como bodes expiatórios e taxados de criminosos e canalhas por aqueles que verdadeiramente merecem tais adjetivos.

O mal é tido como uma entidade oculta em manifestações artísticas que descortinam camadas diversas do comportamento humano que, na realidade, merecem análises atentas. Em uma caça maniqueísta que precisa encontrar culpados imediatos, contextualizações são atropeladas por conclusões apressadas e literais que não alcançam subtextos. O deboche, o escracho, a diferença, o desvio ou a crítica, porém, permanecem assinalados – e quem apertar bem os olhos poderá enxergar que estamos todos enrolados na manta de um rei que está nu.

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Hugh Hefner: representante do patriarcado, não da “revolução sexual”

Hugh Hefner morreu. Um ícone de nossa era.

Ícone do ódio às mulheres e da naturalização do pornô e da cafetinagem, como disse a pesquisadora feminista Gail Dines, especialista em pornografia. Segundo a estudiosa, ele chamava mulheres de “dogs” e comoditizou, no jogo capitalista, o corpo feminino. Por fim, acoplou tudo isso à intelectuais, para tornar cool a ideia do império que estava a construir em cima de noções bem misóginas do que é ser mulher.

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Hefner e mulheres que utilizava de acessório para pagar de poderoso

Hefner morreu de causas naturais aos 91 anos, na noite da última quarta-feira, 27 de setembro. Ele estava na Playboy Mansion West, casa em que vivia em Los Angeles (EUA). Desde então, o assunto está sendo abordado em diversos veículos de mídia. Claro, mais um pedaço do século XX se foi em uma figura histórica. É inegável a influência cultural do empresário: a Playboy não é apenas uma revista, é também uma ideia, um estilo de vida. Mas, espera aí… Empresário?

Em um artigo escrito em 2006 sobre os 80 anos de Hefner, Dines e Robert Jensen apontaram que ele é, na verdade, um dos cafetões mais famosos de que se tem notícia. Ele não apenas ajudou a naturalizar a venda de corpos de mulheres, como construiu a própria riqueza em cima dessa venda. E ainda conseguiu ser visto como um representante da “revolução sexual”, mesmo propagando um conceito de liberdade que se relaciona com o “acesso à sexualidade feminina baseado nas necessidades e regras masculinas”, nas palavras dos autores citados acima.

Como disse a feminista Claire Heuchan, que já teve texto traduzido por aqui, “Hefner não era, como alguns clamam, um pioneiro da revolução sexual. Não tem nada revolucionário em homens explorando mulheres para a própria gratificação sexual ou ganho financeiro – isso vem acontecendo por centenas de anos, e se chama patriarcado”. Ouch. Ela acrescentou ainda que, embora ele esteja sendo celebrado como um ícone cultural que mudou o mundo, as mudanças não foram boas: ele ajudou a normalizar a objetificação feminina e pavimentou o caminho para uma cultura pornográfica.

Para quem quiser argumentar dizendo que a Playboy não é pornografia, pense no seguinte: a revista – e a empresa – alimentaram (e ainda alimentam) uma imagem pornificada da mulher que reverberou culturalmente no imaginário coletivo. E a Playboy possui braços em inúmeras áreas, de canais pornográficos a licenciamento de produtos de diversos tipos. Essa atuação múltipla envolvia (e envolve) não apenas uma ~atmosfera pornificada~ mas também pornografia de fato – o que com certeza ajudou na disseminação da atmosfera glamourizada que envolve a marca, inclusive.

O problema é que, de acordo com relatos de várias “coelhinhas”, esse glamour é uma mentira – como sempre costuma ser. Como dizem por aí, marketing é a alma do negócio, não é mesmo? Existem diversas acusações contra Hefner e contra homens que estavam ao redor dele, que envolvem assédios, abusos, agressões e até estupros – o que, infelizmente, não é tão surpreendente assim. O que esperar de pessoas que enxergam mulher apenas como um produto lucrativo ou um brinquedo sexual?

Em 1963, a feminista Gloria Steinem se infiltrou em um Playboy Club que era parte da cadeia de casas noturnas e “entretenimento” da empresa e escreveu o icônico artigo “Eu fui uma coelhinha da Playboy”. Aqui neste blog, de mesmo nome do texto, é possível ler a tradução em português, bem como a repercussão gerada pela publicação de Steinem, que não apenas foi uma das primeiras pessoas a desnudar o falso glamour que era divulgado, como revelou questões trabalhistas problemáticas dentro da Playboy. A gama de problemas encontrada envolvia também invasão da vida pessoal e controle de saúde, sexualidade e aparência das trabalhadoras (as mulheres que trabalhavam nos clubes também apareciam nas revistas e etc, leiam para entender melhor).

Em 1970, Hefner disse que as feministas eram “inimigas naturais” da Playboy e ordenou que fosse escrito uma reportagem “devastadora” que destruísse as militantes. Várias foram as charges publicadas na revista ridicularizando quem se opunha aos ideais do magnata. A escritora feminista Andrea Dworkin, por exemplo, foi perseguida pela publicação diversas vezes. Por isso, é preciso observar atentamente o conteúdo do que homens assim tentam vilanizar para não acabar comprando e endossando a narrativa que eles querem empurrar como certa.

No mesmo ano, a escritora e jornalista feminista Susan Brownmiller disse a Hefner, em um programa de televisão, que o papel que a Playboy dava às mulheres era degradante por colocá-las apenas como objetos sexuais – e não seres humanas completas. E, então, quando perguntou se um dia ele iria aparecer com um rabinho de coelho na bunda, Hefner apenas sorriu e balançou a cabeça.

Claro que não.

Ainda assim, Hefner tentava disfarçar a própria misoginia afirmando apoiar a luta feminina. No entanto, o apoio dele se restringia a questões que o beneficiasse sexualmente, discurso batido que até hoje é fortemente veiculado por aí. Vivemos em uma sociedade que fala muito de sexo, mas sob um viés altamente heteronormativo e patriarcal. Sexo de verdade precisa envolver prazer e respeito mútuo – ideia aparentemente simples, mas que balança muitas estruturas do status quo que buscam dominar e controlar mulheres.

Por isso, considero preocupante que Hefner seja idolatrado e apontado como um herói a partir de um ideal deturpado, infantilizado (c’mon, mulheres gostosas com roupinha de coelho?) e violento do que é ter sucesso. Considero preocupante também que muita gente, ainda hoje, confunda senso crítico com moralismo. Discutir a mercantilização de corpos femininos e construções hegemônicas de sexualidade é importante. Estamos falando de mercados bilionários que moldam subjetividades, exploram pessoas (principalmente mulheres) e lucram bastante, sem sequer repassar isso de maneira justa a quem está na “linha de frente”.

Com a partida de Hefner sinalizando um marco, me pego pensando em como seŕá daqui pra frente. Dines e David Levy escreveram em um artigo sobre como o recente declínio do império Playboy não é uma vitória feminista (lembram quando a empresa estava tentando convencer mulheres a posar de graça?), mas da pornografia mainstream. Eles apontaram, inclusive, que o pornô, cada vez mais acessível, é também cada vez mais agressivo.

E, convenhamos: ninguém fala abertamente sobre sexo, como já lamentei acima, nem sobre os próprios desejos, medos, dúvidas ou anseios. Não se pode discutir esse tema em escolas, não existem programas suficientes que orientem a juventude nesse sentido, fundamentalismos ganham mais e mais espaços… As pessoas estão soterradas em desinformação.

Um pedacinho do patriarcado como conhecemos se foi, mas a tecnologia do século XXI está a todo vapor, criando realidades novas que continuam a carregar valores muito antigos. O que vem agora?

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Por uma sensibilidade que seja mais do que mera ferramenta estética

Ser mulher não é fácil, mesmo em meios alternativos. Assim como muita gente, sempre enxerguei cenários independentes como mais do que um lugar para se estar quando não se consegue fazer parte do mainstream. O considerado alternativo é – ou deveria ser – uma construção que visa peitar a hegemonia de discursos que se baseiam primordialmente em lucro excessivo, padrões impostos e o mito do sucesso individual.

Zines, discos gravados em estúdios caseiros, composições que contestam valores negativos vigentes, blogs, editoras pequenas, shows organizados por amigos ou o simples fato de explorar uma estética visual ou sonora específica porque se identifica e acha interessante constituem maneiras de não apenas fazer valer a própria voz, mas também de tentar orientar o mundo atual para um novo rumo.

Faça-você-mesmo, coletivize, expanda, integre – toda e qualquer pessoa é uma enorme potência.

Porém, estamos inseridos em uma realidade machista, racista, misógina, homofóbica e tudo mais. E isso acaba sendo reproduzido mesmo em ambientes que estão dispostos – pelo menos na teoria – a eliminar discriminações e violências. Daí o que acaba sendo criado pode funcionar mais como uma máscara do que como uma proposta real de ruptura com preconceitos e modelos ultrapassados. Palavras de ordem são esvaziadas em prol de marketing pessoal.

Claro que estou, para fins de entendimento, reduzindo e polarizando questões que são complexas. Na vida real, não é tão fácil assim traçar a linha entre quem está de um lado “bom” ou não, até porque discutir o que se passa em meios alternativos é ir para além de maniqueísmos. Qualquer pessoa pode fazer ou falar merda um dia, somos todos humanos – e a humanidade está fadada à imperfeição. No entanto, existem fatores que devem ser observados: vacilos isolados (desde que não extremos, claro) são coisas bem diferentes da escrotidão como modus operandi.

Muitos homens, infelizmente, repetem constantemente o modo de ser da masculinidade hegemônica em espaços independentes. Construir e somar vira uma simples ideia bonita que, na prática, é substituída por dominação e apropriação – das causas alheias, da força de trabalho alheia, do corpo alheio, do sentimento alheio, que seja. E ao mesmo tempo em que muitos deles agem sem cuidado com o outro, alimentam uma suposta imagem de diferentões e preocupados com causas sociais que só serve para benefício próprio – e também como escudo contra críticas e denúncias.

Certa vez, a artista londrina Polly Nor – que faz ilustrações incríveis, aliás, e quem acompanha o blog já deve ter percebido que sou fã – postou o seguinte comentário irônico no Twitter:

“Ele é um cara muito legal, é apenas meio merdão com as garotas” = Meu colega é ruim com outros seres humanos. Mas só com mulheres. Então quem liga? Eu não.

É exatamente assim que funciona. E é exatamente o que não aguentamos mais.

Mulheres não querem ser objetos, a população LGBTQI não quer ser alívio cômico e pessoas negras não querem ser invisíveis e excluídas. Portanto, é muito importante que artistas tenham em mente que a sensibilidade deve ser mais do que uma ferramenta estética. Mais do que um modo de emocionar, cativar e criar identificação. Para que haja verdade no que se diz e no que se faz, é preciso ser, de fato, sensível. A pluralidade existe, e os meios independentes precisam abraçá-la de forma realmente humana, e não com a mentalidade de usar e descartar – que é o que já acontece, de maneira geral, em diferentes situações.

Contudo, minha concepção de ~sensível~ não envolve andar de roupas brancas em um campo verdejante e sorrindo para os pássaros. Ou simplesmente falar de energias, vibes e amor. O que quero dizer é que é preciso, justamente, escapar desse clichê raso. Valorizar o trabalho alheio, tratar bem quem integra sua comunidade, desmistificar justificativas pessoais que colaborem com um estado contínuo de vacilação, falar sobre sentimentos reais – sejam eles tristes ou felizes – e se colocar em uma posição de escuta e troca de ideias já é um bom começo.

Felizmente, cada vez mais mulheres – e minorias em geral – estão tomando as rédeas da criação artística e ganhando espaço. Ou melhor, conquistando na marra mesmo, à custa de muito suor. Ainda há muito a ser trilhado, obtido e problematizado (de acordo com o recorte que se escolhe analisar, novas questões importantes emergem, em um árduo caminho sem fim), e é essencial estar sempre em movimento, desconstruindo e construindo, para que o próximo passo não seja dado em um buraco sem chão – ou no piso de sempre.

Para finalizar este post, deixo a dica desse vídeo maravilhoso com a cantora, poeta e mil outras coisas, Tatiana Nascimento. Ele foca mais em literatura, mas com certeza vale pra outras áreas também. Ela é uma artista brasiliense, negra e lésbica, que já foi de bandas de hardcore, é doutora em literatura, cuida da Padê Editorial, por onde se autopublicou e publica pessoas LGBTQI, criou a mostra Palavra Preta, que coloca autoras e compositoras negras em evidência, entre muitas outras atividades. Tive a honra de trabalhar com ela em alguns projetos esse ano e foi inspirador. Como afirmou na filmagem, é preciso essa “(…) coisa de ter uma política de anúncio de mundo novo que seja junta, colada, com a de denuncismo das estruturas velhas, que precisam ser derrubadas”. Avante!

Aproveitem também para conhecer mais trabalhos atuais de minas do cenário independente brasileiro. Tem muita coisa boa rolando por aí. Deixo aqui umas dicas de links que possuem várias referências legais de serem aprofundadas e pesquisadas individualmente:

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“Pink”: o novo cinema da Índia traz também novas ideias

Dia desses fui a uma mostra maravilhosa que rolou no Centro Cultural Branco do Brasil (CCBB) aqui de Brasília: a “Novo Cinema Indiano”, que passou também por outras cidades – mas infelizmente não está mais em cartaz. Como o nome diz, o objetivo foi evidenciar trabalhos recentes da Índia (os filmes da exibição foram realizados a partir de 2013) e que estejam, em grande maioria, fora do circuito de Bollywood.

O país é, com certeza, bastante rico e diverso em línguas, regiões, religiões e costumes, e a mostra captou isso muito bem ao dar espaço não apenas para produções de diferentes localidades da Índia, como também ao selecionar obras que abordam conflitos contemporâneos marcantes – e importantes.

Dentre os filmes que tive a oportunidade de assistir, quero falar especificamente sobre um que mexeu bastante comigo – e que tem muito a ver com os temas tratados aqui no blog: Pink (2016), dirigido por Aniruddha Roy Chowdhury e escrito por Ritesh Shah. Ele é uma das exceções da programação, por ser, na verdade, bem bollywoodiano. No entanto, é uma espécie de subversão do estilo: como aponta uma matéria da BBC (em inglês), Pink desafia o discurso padrão dessa indústria cinematográfica, que romantiza coisas como ameaça de estupro e stalking, por exemplo, como se fizessem parte dos ritos amorosos – nada muito diferente da tradicional Hollywood, rs.

Atenção: a partir daqui, contém spoilers.

O começo do filme mostra um carro cheio de homens com raiva – um deles com o rosto sangrando – e indo até a um hospital, entre lamúrias e xingamentos. Paralelamente, um táxi leva três amigas bastante apreensivas e nervosas para casa. A história envolve um grupo de garotas que, após um show de rock, vão tomar mais umas com uns rapazes semi-conhecidos. No entanto, o que era pra ser um pós-noite envolvendo diversão e alguns drinks, termina em confusão.

A cada nova cena, vai ficando claro que essa tensão inicial é, na verdade, um fio condutor que permeia toda a trama. Porém, aos poucos, o que aconteceu vai se tornando menos nebuloso: uma das moças machucou um dos rapazes, mas não se sabe ainda o porquê – embora seja possível notar que não houve uma briga justa entre as partes.

As amigas – Minal (Taapsee Pannu), Falak (Kirti Kulhari) e Andrea (Andrea Tariang) – são também colegas de apartamento e começam a sofrer, no dia a dia, as consequências dessa fatídica noite. Os caras tentam difamá-las o tempo inteiro, fazem ligações repletas de ameaças, as perseguem nas ruas (e chegam a sequestrar e abusar do principal alvo: Minal), intimidam e agridem o locador do apartamento delas, na tentativa de convencê-lo a mandá-las embora, entre várias outras coisas. Eles não querem nenhum tipo de conciliação e sim a propagação de um terrorismo – com ataques físicos e psicológicos – que os mantenha no topo de uma hierarquia de poder que foi ameaçada pela agressão de uma das jovens (e também pela rejeição que eles sofreram de todas elas).

Minal, a “agressora” de Rajveer (Angad Bedi), um playboyzinho filho de um influente político, se recusa a pedir desculpas pelo que fez: ao ser agarrada à força, acaba quebrando uma garrafa de vidro na cabeça dele para se defender e conseguir se soltar. Ela não considera que sua legítima defesa seja, de fato, uma agressão, e sim uma reação à violência iniciada por Rajveer, que não respeitou os limites impostos e utilizou força física e coação para forçá-la a ficar com ele.

Quando Minal, que é bastante forte e decidida, finalmente decide ir à polícia, o que começa a rolar exemplifica o porquê de muitas vítimas não terem coragem de realizar denúncias formais: a situação é tratada com extremo descaso e as moças são apontadas como as culpadas por terem “provocado” os rapazes. Fora a corrupção presente em todo lugar: por conta da influência familiar, Rajveer consegue realizar boletins de ocorrência com data adulterada bem como coloca panos quentes nas denúncias das jovens. O intuito final é fazer com que elas sejam incriminadas, e a desigualdade social somada ao machismo vai colaborar com que o foco dos dedos apontados mirem as vítimas, e não os agressores.

As amigas possuem um vizinho um tanto quanto estranho, que está sempre de butuca, acompanhando tudo. À medida que vai sendo revelado que ele é, na verdade, confiável, o filme vai mudando o tom. Enquanto a primeira metade é uma espécie de suspense urbano, a metade seguinte é um dramão de tribunal. O misterioso Deepak Sehgal (Amitabh Bachchan) não representa perigo: é apenas um homem doente, desencantado com a vida e prestes a perder a esposa. Porém, não consegue deixar de se envolver com o caso – e então é revelado que ele é também um advogado famoso e aposentado, que acaba decidindo fazer a defesa das moças. Uhu!

Não tem como negar que a obra tem uma vibe novelesca e melodramática em muitos instantes. Porém, considero isso uma qualidade: achei bom um tema tão importante ser tratado de modo tão acessível, descomplicado, quase esquemático. Pink fala sobre violência contra a mulher e coloca em debate a questão do consentimento, que é destrinchada de forma bastante didática (até demais, ás vezes, mas melhor pecar pelo excesso do que pela falta, nesse caso) durante o julgamento das moças.

No tribunal, as mulheres são acusadas de serem prostitutas que queriam se aproveitar financeiramente dos pobre rapazes, e são também, o tempo todo, acusadas de serem pobres – como se não ter dinheiro fosse crime! A acusação vasculha a vida inteira de cada uma delas, com o intuito de provar que possuem “cárater duvidoso”, e alega que “o aspecto do consentimento foi introduzido pela defesa porque está na moda hoje em dia”. A maior parte do tempo, a discussão gira ao redor das mentiras que os caras inventaram e dos supostos danos que eles sofreram. Tipo na vida real: é mais importante considerar não estragar o futuro de um agressor do que pensar no bem-estar de uma vítima e prevenir novos crimes.

O advogado de defesa dá umas vaciladas no começo, só pra deixar aquele clima de que tudo vai dar errado, mas depois engata e não para mais. Ele explica que mulheres são inferiorizadas o tempo inteiro apenas por serem mulheres, desmascara esquemas de corrupção, coloca em evidência como homens e mulheres que fazem as mesmas coisas – tipo beber, dançar ou sorrir – são vistos de formas diferentes e deixa bem claro que não é sempre não.

É bem emocionante porque é tipo um alívio. Vitórias – e justiça –  para essas questões ás vezes parecem ainda tão distantes…  Portanto, é gostoso enxergá-las pelo menos na ficção, para fins de inspiração, enquanto a gente vai transformando a realidade. E, querendo ou não, o cinema é também uma possível porta para transformações de realidades, não acham?

De acordo com uma das responsáveis pela mostra, Carina Bini, curadora, produtora e jornalista brasileira que já morou um tempão na Índia, um ponto importante para o sucesso da obra foi a escolha de Bachchan – conhecido também como “Big B” – para o papel de advogado de defesa. Considerado um ídolo nacional, o ator está desde os anos 70 nas telinhas e telonas do país, e ajudou a atrair vários espectadores para o cinema. Grande parte das falas mais impactantes que denunciam o machismo da sociedade indiana saem da boca dele, aliás.

Tal explicação me ajudou a ver de maneira mais positiva aspectos que poderiam ter sido interpretados de outra forma caso eu não estivesse ciente do contexto. Porque, assim, em um primeiro instante, chega a soar quase como mansplaining um filme dirigido e roteirizado por homens ter um outro homem falando pelas mulheres que elas precisam ser respeitadas.

No entanto, assistir uma figura admirada na Índia proferindo argumentações que desmontam o discurso machista e senso comum é impactante. E, sendo ele um advogado de defesa, fica mais coerente fazer isso (mas claro que, ainda assim, o cara é meio que colocado como um herói). Aliás, o cinema é ainda um território bastante masculino, como tantos outros. Será que um filme assim, mas feito e protagonizado por mulheres apenas, seria recebido da mesma forma? Vale uma reflexão. Essa resenha aqui (em inglês) do site Feminism in India discute um pouco essa questão e, a partir de uma ótica feminista, levanta alguns problemas existentes em Pink.

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Uma coisa interessante é que o filme trata de uma história que não envolve vítimas virginais e perfeitas. Mostrar mulheres jovens, que vivem sozinhas em um contexto urbano, trabalham e vão para festas talvez facilite a identificação de pessoas de outros países com a obra – e facilite também o entendimento geral de que violências acontecem em todos os lugares e são cometidas/sofridas por pessoas de diferentes recortes sociais.

E, como já falei antes por aqui, essa “mulher perfeita” (que nunca vai existir) em contraste com todas as outras (que são horríveis e usam roupas curtas e são vadias e merecem apanhar e falam demais e deveriam estar em casa lavando a louça) é uma invenção do machismo, seja ele individual ou institucional, para tentar culpar as vítimas pelas violências que sofrem. Gente, existem casos em que as pessoas conseguem arrumar desculpas para culpar até mesmo crianças que foram alvo de violência sexual, argh!

Outro aspecto interessante que é mostrado é o machismo enquanto um acontecimento coletivo. O universo individual respalda o institucional – e vice-versa – e, a partir disso, o senso de impunidade caminha junto com a inferiorização de quem se encontra fora da esfera do poder masculino. Mentiras, corrupção, agressões verbais, físicas e psicológicas: tudo se torna válido para manter o status quo. Porém, fica evidente também que a sede por vingança dos rapazes é bastante infantil e que a masculinidade é algo paradoxalmente forte, quando se pensa nos estragos que são causados por ela, mas bastante frágil, no sentido de identidade.

A sociedade indiana se organiza por um sistema de castas que expõe principalmente mulheres em um nível “inferior” à violência – mas todas estão sujeitas a sofrer algo (qualquer semelhança com nossa pátria amada não é mera coincidência). E, assim como na China, por exemplo, é estimulado o aborto seletivo de fetos do sexo feminino (nem sempre por “escolha”, li relatos envolvendo coação externa), o que ocasionou na diminuição da população de mulheres do país.

Por lá, acontecem muitos estupros, sejam eles individuais ou coletivos, mulheres são atacadas com ácido, existem problemas de exploração sexual e meninas são obrigadas a se casar com adultos, entre várias outras coisas horríveis. A sociedade brasileira adora apontar para essas questões com o intuito de reforçar a “incivilidade” de países que não sejam os Estados Unidos ou lugares famosos da Europa (que também possuem tretas, não se iludam). Até parece que estamos em uma situação assim tão diferente de vários locais que criticamos (e postamos notícias com comentários tipo “ohhh, que absurdo”), né? Então, no fim, sobra muita coisa pra pensar sobre.

Pink ganhou vários prêmios, foi exibido para a polícia do Rajastão, um dos maiores estados da Índia, com o intuito de sensibilizá-la sobre os direitos das mulheres, e foi também convidado para sessão especial na sede da ONU, em Nova York. Clique aqui e veja o catálogo da mostra “Novo Cinema Indiano” para saber mais sobre os outros filmes que foram exibidos.

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DEZ COISAS QUE NÃO CAUSAM ESTUPRO

O estupro é uma violência que possui dois lados. A sociedade trata a questão como um crime horrível, pelo menos na teoria e se a situação envolver uma “vítima perfeita”. No entanto, uma simples lida nos jornais diários mostra os inúmeros casos de crianças, adolescentes e mulheres sendo estupradas por familiares, amigos, desconhecidos, colegas de trabalho ou conhecidos da igreja, faculdade, balada, entre outros (pena que a abordagem no geral é tão sensacionalista e pouco profunda nas raízes da questão). Pessoas do sexo masculino são as que mais cometem esse tipo de agressão e pessoas do sexo feminino são as que mais sofrem – o que não impede que existam situações em que violências sexuais ocorram seguindo outro roteiro.

A discussão sobre o assunto acontece por vários meios, informalmente ou de modo organizado. Porém, muitos preconceitos e simplismos acabam sendo disseminados nesse debate, e questões importantes são deixadas de lado. Por isso, vou abordar aqui neste post as dez hipóteses mais estúpidas entre as que já li como as possíveis causas de estupro (mas existem muito mais), e propor uma conversa mais centrada na realidade: a culpa é sempre do estuprador. E ponto final.

1) Roupa curta não causa estupro

Isso é um consenso que feministas estão cansadas de repetir: a mulher tem o direito de usar a roupa que quiser. Pode ser um vestido rosa e curtinho, tipo o da Geisy Arruda, biquíni grande ou fio dental, burca, camiseta larga, shortinho, saia longa ou qualquer outro tipo de vestimenta. Achou o look feio, bonito, atraente, repulsivo, muito descolado ou super brega? Problema seu. Se você for homem, deixe esse espírito de predador sexual com pinceladas de crítico de moda no armário, porque roupa não justifica agressão. Se for mulher, não jogue pedras nas outras para provar o próprio valor ou achar que isso vai te proteger de alguma coisa (spoiler: não vai). E a tentativa de encontrar alguma desculpa que tire a culpa do estuprador e transfira para a roupa da vítima é uma forma de naturalizar não apenas o comportamento violento do homem, mas a ideia de que respeito é algo que a mulher deve “merecer” para ter. Sem contar que pessoas usando todos os tipos de roupa aqui citados já foram estupradas, o que mostra que o problema está muito além de qualquer vestimenta.

2) Bebidas ou drogas não causam estupro

Muita gente acha que uma mulher alcoolizada ou sob efeito de drogas “merece” ser estuprada. Aposto que, alguma vez na vida, você já ouviu alguém falar que “cu de bêbado não tem dono”, não é mesmo? Se as pessoas começassem a frequentar botecos e baladas com o intuito de buscar homens bêbados para serem empalados com cabos de vassoura, isso não seria uma violência terrível? No entanto, por que mulheres na mesma situação são estupradas com o aval da sociedade? Pessoas bebem ou consomem substâncias para se divertir, afogar as mágoas, por vício, depressão ou outros motivos, e você não precisa concordar com isso – dá para problematizar o uso de álcool e drogas por um ângulo de saúde pública ou do tráfico, por exemplo. Mas culpar uma vítima de estupro que estava entorpecida é, mais uma vez, defender o estuprador e a ideia de que homem é um animal descontrolado.

No mais, uma pessoa viciada precisa de ajuda, uma pessoa dormindo precisa de sono e uma pessoa com a consciência alterada não consegue responder por si mesma. De novo: desliga aí o suposto instinto predador, homem, porque sexo nessas condições não é ‘sexo fácil’, é estupro mesmo (caso sua empatia falhe ainda assim, aqui vai mais um incentivo: e é crime). E se você tem impulsos agressivos e violentos quando usa alguma coisa (ou não), procure ajuda (ou se tranque em casa, obrigada). Ah, vale lembrar que alguns caras colocam sedativos na bebida de mulheres ou as obrigam a inalar substâncias entorpecentes também – algo que, somado à violência sexual que sucede tais práticas, contabiliza uma dupla quebra de consentimento.

3) Ruas pouco movimentadas também não causam estupro

Vários fatores tornam a rua um ambiente inseguro para mulheres: homens, primeiramente, e coisas como iluminação ruim, falta de movimento e de segurança, demora no transporte público e outros itens que as colocam em situação de vulnerabilidade. Portanto, o ideal é que sejam elaboradas estratégias de educação e segurança pública que tornem a rua um espaço menos hostil para pessoas do sexo feminino. Tenho uma fantasia que envolve um toque de recolher para homens até que eles, enquanto categoria, se eduquem, rs. Mas tô brincando. Queria mesmo era um monte de poste, gente e ônibus pra todo lado e, principalmente, pessoas com a consciência humana aflorada.

E vale lembrar que a ideia do estupro como algo que só acontece em um local ermo, com um cara ameaçando a mulher com uma faca, não é necessariamente o retrato fiel da situação: muitos algozes estão dentro da casa da vítima ou nas redondezas, o que significa que ~tomar cuidado por onde se anda~ não é sempre o necessário para evitar uma agressão sexual (mas a gente toma mesmo assim).

4) A falta de uma ~bola de cristal~ não causa estupro

Algumas vítimas são cobradas por não terem se preparado para enfrentar a agressão sexual e escutam coisas como: “mas por que você não gritou?”, “devia ter saído correndo”, “não percebeu que ele ia chegar perto de você?”, “você não anda com spray de pimenta na bolsa?”, “por que ficou sozinha em casa com ele?”, “não sabia que isso podia acontecer?” e etc. Frases do tipo não fazem o tempo voltar, cada pessoa tem uma reação diferente quando está em perigo e existem casos em que não é muito seguro reagir a uma situação de violência (e não tem como saber, de antemão, quais). Não vamos cair, mais uma vez, na armadilha de culpar quem não tem culpa. No caso de estupros cometidos por amigos, parentes ou vizinhos, como a vítima iria descobrir as reais intenções de homens, teoricamente, “de confiança”? E se a violência for cometida por um estranho em um local inusitado ou em uma situação inesperada, como a vítima poderia adivinhar? E tem mais: nem sempre um estupro acontece de forma explícitamente agressiva. Cada caso é um caso – e o que todos possuem em comum é que a culpa não é da vítima. E não existe uma bola de cristal capaz de prever quando um estupro pode ocorrer.

5) Crise ou pobreza não causam estupro

Lembram quando o responsável pela Secretaria de Segurança de São Paulo, Mágino Alves Barbosa Filho, falou que a crise econômica tem a ver com estupro, porque o cara acaba ficando frustrado demais, sem emprego, bebendo e cometendo esse tipo de coisa?  Isso é uma estratégia que busca voltar o debate público para a criminalização de pessoas pobres, e não para a busca de soluções efetivas para os problemas que as mulheres enfrentam. Breaking news: filhinhos de papai que nunca precisaram sequer pensar em trabalho também estupram. Jovens universitários de classe média também estupram. Autoridades de governo também estupram. Cantores famosos também estupram. Filhos de donos de grupos de comunicação também estupram. Sabe o que não estupra? Ah, essa pergunta eu deixo no ar…

Essa relação entre pobreza e violência já foi desmistificada pelas ciências sociais há pelo menos três décadas. A socióloga feminista Helleieth Saffioti bem dizia que a violência contra a mulher é extremamente democrática porque ela atinge a todas as classes sociais.

Um homem que perde o emprego não é um estuprador em potencial. Homens numa sociedade patriarcal são estupradores em potencial porque têm uma certa legitimidade social (ainda que não legal) para violar os direitos de uma mulher, violar sua integridade e sua dignidade, seu corpo e sua vida. O que acontece em geral é que nas classes altas, a violência contra a mulher e o estupro são escondidos sob um manto de hipocrisia e dupla moral, onde não se registra, não se denuncia e não se expõe homens ricos, homens de altos cargos, frente a suas práticas violentas. Existe um silêncio e uma impunidade brutal com um professor universitário, um juiz, um político – o que não acontece com um pedreiro, um motorista de ônibus ou um trabalhador das classes populares, por exemplo.

Izabel Solyszko, feminista, assistente social, professora e doutora em Serviço Social pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Leia mais opiniões de especialistas aqui. 

6) Funk não causa estupro

Esse é outro argumento que tenta colocar pessoas negras e pobres como as únicas culpadas por agressões sexuais. O objetivo, mais uma vez, não é o bem-estar de mulheres, mas calar a cultura que surge na periferia, encarcerar essas pessoas e criar uma diferenciação entre os “homens de bem e civilizados” e os estupradores. No entanto, a lista de astros do rock que cantam letras machistas de música – e/ou estupraram adolescentes e mulheres  – é grande, por exemplo. Não precisa nem ser um astro, o meio independente está cheio desses exemplares também. Música popular brasileira, música brega, sertanejo, música pop… Se a gente cavar, acha coisas problemáticas em todos os estilos. Não estou dizendo que não existam funks machistas e com letras horríveis, ou funkeiros com comportamentos questionáveis, só quero chamar atenção para o fato de que isso não é exclusividade do gênero – que, como todos os outros, tem partes ruins e boas.

Existe um machismo no funk que não é exclusivo no funk. É que sua linguagem é muito direta em relação a tudo. Não há floreio, a batida é reta, seja para falar de amor, sexo e violência. É sempre uma linguagem muito direta, o papo reto, como dizem. Com o machismo, não é diferente. E existe uma reação escancarada a ele. Com as mulheres falando de sua liberdade sexual, da escolha de parceiros, sobre o que fazer com o corpo e exercitar seu desejo. E elas abordam todos esses assuntos em um ambiente masculino, como é o da música popular — ressalta Adriana [Facina, antropóloga e professora da UFRJ], que destaca a ascensão das mulheres dentro do cenário funk nos últimos anos. Leia mais aqui.

7) Não é a falta de armamento que causa estupro

Mais uma vez, a pauta conservadora tenta cooptar os debates feministas. Alguém realmente acha que é assim que as coisas vão ser resolvidas? A jornalista Nana Queiroz pesquisou o assunto e constatou o que a gente já imaginava: essa não é a solução. Muitos estupradores são pessoas próximas, o fator “surpresa” dos ataques dificulta a ação, mulheres são socializadas para serem mais passivas e, quando em ambientes violentos, assimilam aquela situação como normal, entre vários outros fatores. Leia a matéria aqui.

Uma sociedade toda armada mas carregando os mesmos valores de sempre vai resultar em um constante tiroteio, gente. Só isso. Antes de qualquer coisa, temos que começar grandes campanhas nacionais para discutir sobre papeis de gênero e afins. E, de acordo com a jornalista, “a maioria dos casos de estupro à brasileira não é fruto de problemas de segurança pública, mas de uma cultura machista que prega um poder do homem sobre a mulher. O crime de estupro tem uma característica no Brasil: a cifra negra. A expressão ‘cifra negra’ significa que um número muito pequeno de ocorrências de um determinado crime chega ao conhecimento das autoridades. Deste já pequeno número, uma ínfima parcela chega ao conhecimento do judiciário, e uma menor ainda resulta em condenações”.

8) ~Excesso de libido~ masculina não causa estupro

Não é o ~excesso de desejo~ masculino que faz com que as mulheres sejam estupradas (aliás, engraçado como são as feministas as que mais batem na tecla de que os homens não são “animais irracionais” e as mais acusadas de vê-los como tais). A sexualidade do ser humano é um terreno complexo e envolve mais do que a mera vontade de transar. Existe toda uma construção de ideias anterior ao ato sexual – e à violência sexual também – que faz com que o sexo seja algo que vai muito além dos órgãos genitais. Portanto, propostas que envolvem a castração química, por exemplo, vindas de pessoas que querem impedir que a sociedade discuta e debata questões de gênero, ainda por cima, estão muito mais perto de algum tipo de fetiche com violência e tortura do que de empatia com vítimas de estupro.

Em uma reportagem do Uol, o psiquiatra Danilo Baltieri, coordenador do Ambulatório de Transtornos da Sexualidade da Faculdade de Medicina do ABC, afirma que o termo “castração química” é, inclusive, mentiroso. O que ocorre, na realidade, é uma diminuição de impulsos sexuais. Porém, o interesse continua. “Em casos de estupradores não é apenas uma questão orgânica que importa, o problema também é ‘intelectual’. É claro que a castração não cura, não transforma a ideologia. Mesmo se não tiver ereção, o agressor pode praticar violência sexual de outras maneiras”. Leia a matéria completa aqui 

9) Vida sexual ativa não causa (nem justifica) estupro

Vamos deixar uma coisa bem clara: sexo é o encontro de corpos que se desejam mutuamente. Se não existe consentimento de alguma parte, é estupro. Mesmo que esses corpos já tenham se desejado mutuamente em alguma ocasião anterior, é preciso que o acordo seja reafirmado a cada novo encontro. E se esses corpos já estiveram com outros corpos, não significa que vão querer estar com todo mundo que aparecer pela frente. Tem homem que acha que mulher é igual máquina de refrigerante: se ela já transou com ele ou com outras pessoas alguma vez na vida, ele tem direito a refil automático. Não é assim mesmo. Sexo não é uma obrigação, e sim uma escolha autônoma.

Tem gente que diz coisas tipo “ah, mas ela nem era virgem” e eu sempre fico meio chocada, me perguntando em que século pessoas assim vivem. Vasculhar o passado sexual de vítimas de estupro é reafirmar o corpo da mulher como público e violável. Essa imposição histórica não é natural e, por isso, a luta que busca construir a equidade de gênero e destruir a misoginia (que tem bases profundas na inferiorização do corpo do sexo feminino) é fundamental. E tem mais: mulheres não dizem não querendo dizer sim. Não é não, e não importa o que elas já fizeram antes na cama (ou no chão, no sofá, na barraca de camping ou na areia).

10) Estupro não tem nenhuma justificativa aceitável, na verdade

Falamos em ~construção social~ com o intuito de não essencializar comportamentos ruins, porque acreditamos na possibilidade de humanidade em vocês, homens (algo que, infelizmente, não parece recíproco em muitos momentos). Logo, não acreditamos que um rapaz nasça automaticamente querendo fazer mal às mulheres e sim que ele cresce absorvendo mensagens diversas — da religião à pornografia, passando por esferas como arte, medicina, música, ambiente de trabalho e outros — onde uma hierarquia sexual existe e ele precisa reforçar a própria masculinidade, bem como estreitar laços com outros caras e demarcar seu papel de ‘poderoso’ (no âmbito do controle do espaço público e dos corpos femininos pelo menos) por meio de práticas que inferiorizem e subjuguem o sexo feminino. Por isso, nós, mulheres, precisamos urgentemente do reconhecimento de que somos humanas também.

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Crédito: Eduardo Valente

E se fosse haver algum apelo ou alguma questão nesse grito, seria essa: por que vocês são tão lentos? Por que vocês demoram tanto para entender as coisas mais simples – não as ideologias complicadas. Vocês entendem essas. Mas as coisas simples, os clichês. Que as mulheres são humanas precisamente no mesmo degrau e qualidade que vocês são.

(…) O poder exercido pelos homens no dia a dia é um poder institucionalizado. É protegido por lei. É protegido pela religião e pela prática religiosa. É protegido pelas universidades, que são fortalezas da supremacia masculina. É protegido pela polícia. É protegido por aqueles que Shelley chama de “os legisladores não reconhecidos do mundo”: os poetas, os artistas. E contra todo esse poder, nós temos silêncio.

É uma coisa extraordinária tentar entender e confrontar o motivo pelo qual os homens acreditam – e eles acreditam – que eles têm o direito de estuprar. Eles podem não acreditar quando perguntados diretamente. Quem aqui acha que tem o direito de estuprar, por favor levante a mão. Poucas mãos vão subir. Mas é na vida que os homens acreditam que têm o direito de forçar sexo – que eles não chamam de estupro. E é algo extraordinário tentar entender que homens realmente acreditam que têm o direito de bater e de machucar. E é igualmente extraordinário tentar entender que homens realmente acreditam que têm o direito de comprar o corpo de uma mulher para fazerem sexo – e que isso é o seu direito. E é também surpreendente tentar entender que os homens acreditam que essa indústria de 7 bilhões de dólares, que traz vaginas para as suas vidas, é algo a que eles têm direito.

(…) Eu acho que, se você quer olhar para o que o sistema faz com você, então é aqui que você deveria começar: as políticas sexuais da agressão, as políticas sexuais do militarismo. Os homens estão com medo dos outros homens. Isso é algo que muitas vezes vocês tentam discutir em grupos pequenos, como se, caso mudassem suas atitudes uns com os outros, deixariam de sentir medo.

Mas enquanto sua sexualidade tiver relação com agressão, enquanto seu senso de direito sobre a humanidade significar ser superior a outras pessoas – e tem tanto desprezo e hostilidade nas suas atitudes com mulheres e crianças – como vocês podem não ter medo? Eu acho que vocês percebem, corretamente, mesmo sem conseguir lidar com isso de forma política, que homens são perigosos: porque vocês são.

Andrea Dworkin. Trechos de discurso feito em em 1983, intitulado “Eu quero 24 horas sem estupro”. Leia aqui.

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8 de março: apagamento histórico

Flores, bombons, cursos de automaquiagem e homenagens que exaltam a beleza, a delicadeza e a generosidade feminina são coisas que começam a pipocar para todo lado assim que o calendário marca 8 de março, data celebrada como o Dia Internacional da Mulher. Observando superficialmente, parece tudo muito bonito e até bem-intencionado, afinal, precisamos presentear e enaltecer essas guerreiras que conseguem trabalhar fora, cuidar dos filhos, dos maridos e da casa, né? E elas fazem tudo isso de salto alto, ainda por cima! Que legal… Será?

É importante contextualizar que a data surgiu no início do século XX com o intuito de gerar reflexões sobre a luta de mulheres operárias que reivindicavam melhorias de vida por meio da garantia e expansão dos próprios direitos. Pouco antes desse período, trabalhadoras de fábricas têxteis, por exemplo, chegavam a passar até 16 horas por dia na labuta – e recebendo, muitas vezes, menos da metade do salário dos homens. A ideia da homenagem surgiu em 1910, a partir de uma sugestão da professora, jornalista e política alemã Clara Zetkin durante a Segunda Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, na Dinamarca.

No entanto, o que acontece hoje em dia é um apagamento histórico desse cenário de luta em prol do consumo e da manutenção de valores que, há muitos anos, diversos grupos de mulheres tentam derrubar. O ato de entregar medalhas àquelas que aguentam jornadas triplas de trabalho e se submetem ao rigoroso padrão de beleza, por exemplo, é uma forma de naturalizar toda a pressão colocada nas costas femininas como algo aceitável e, até mesmo, positivo. Elogiar “boa aparência” e “bom comportamento” é o outro lado de quem xinga mães que frequentam festas; critica esposas que quiseram se divorciar de maridos violentos ao invés de aguentar tudo de forma altruísta, colocando uma relação ruim acima do próprio bem-estar; censura estudantes que denunciam abusos de colegas e professores; chama de “exagerada” a amiga que manifesta desconforto perante comentários machistas e assim vai. A “mulher de verdade” é a que come pouco, mas compra muito, fala quase nada, mas faz bastante coisa (pelos outros, principalmente). Essa sim é celebrada. Mas ela existe?

Plantar a insegurança feminina e depois vender a solução para a vida das mulheres por meio de produtos estéticos e domésticos é a solução perfeita… Para o bolso das empresas. Pra que falar de “coisas chatas”, como divisão de tarefas do lar? Vamos vender aparatos que facilitam a vida da “dona de casa” (e, na verdade, acabam virando mais louça para ela lavar e mais entulho guardado na cozinha). Pra que falar de melhorias nas condições de emprego para mulheres? Isso só vai colocar mais coisa na cabeça dessas empregadas “folgadas” que, vejam só, têm a coragem de querer a própria carteira de trabalho assinada!

O incentivo ao consumo desenfreado e a homenagem genérica e vazia de sentido que a cooptação do 8 de março propõe não cria apenas um nicho muito lucrativo, mas funciona também como estratégia de marketing empresarial ou pessoal para quem quer fingir preocupação com mulheres sem precisar fazer nada que realmente mexa nas estruturas que emperram a vida delas. Chefes, filhos, maridos, pais, irmãos, netos e amigos podem expiar toda a culpa de serem negligentes ou sobrecarregarem as mulheres que convivem com o simples ato de depositar dinheiro em um objeto que represente a importância e o valor da homenageada. Dessa maneira, ações que dependem também de todos aqueles que estão ao redor da mulher saem de cena à francesa. Reflexões e mudanças de atitude não são consideradas tendências porque não são comportamentos vendáveis – e ainda flertam com terrenos perigosos, como o despertar coletivo de consciências.

Texto publicado originalmente na coluna ‘Água & Óleo’ da Revista Traços, na edição de março de 2016. Por conta da limitação de caracteres, o foco foi no apagamento geral e na cooptação mercadológica do dia. No entanto, existem outros aspectos importantes a serem abordados quando se aprofunda no tema, como a historicidade da data (antes Dia da Mulher Trabalhadora), ou a questão das mulheres negras e o trabalho forçado, que acaba naturalizado em seu esquecimento (na mesma coluna e mesma edição, a militante negra e feminista Dalila Fernandes escreveu sobre isso), entre outros. 

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Feminismo suave não liberta, mas gera lucro

Por que o feminismo existe? Puxo essa provocação com o intuito de iniciar uma reflexão ampla e não de buscar uma verdade absoluta. No meu caso, por exemplo, acredito que uma desigualdade histórica entre os sexos – e não necessariamente entre os gêneros apenas – levou (e leva) pessoas do sexo feminino a forçarem o próprio acesso a espaços de educação, poder, lazer e outros. Assim como desigualdades em outros aspectos da sociedade, como a exploração e a discriminação de pessoas negras, fizeram com que grupos que compartilhavam opressões semelhantes precisassem (e ainda precisem) se organizar para conquistar direitos. Aliás, grupos minoritários diversos possuem histórias de luta igualmente diversas para contar. E elas se entrecruzam: existem mulheres negras e lésbicas, por exemplo, o que as tornam possivelmente mais suscetíveis a violências e exclusões motivadas por preconceito.

Claro que estou resumindo bastante questões que são bem complexas e abrangentes, mas faço essa introdução para que a gente possa começar a se entender. O que quero dizer é que o corpo é um território de disputa ou, como diria a artista Barbara Kruger, um campo de batalha. Portanto, dentro de um esquema que envolve a necessidade de domínio de corpos para criação e manutenção de poder, nascem diferentes narrativas sobre grupos sociais específicos com o intuito de confiná-los em papeis previamente determinados. Desse modo, se garante uma engrenagem onde muitas pessoas possuem deveres e poucas possuem direitos – e menos ainda possuem privilégios.

Se formos pensar no feminismo, ele é um movimento social que tem o objetivo de gritar para o mundo que os estereótipos sobre as mulheres estão errados: elas não são fracas, burras, incapazes, fúteis, inferiores, loucas por homens ou nasceram para a maternidade. No entanto, precisamos sempre lembrar do caráter político do movimento. Para que nossa humanidade seja levada em conta, não basta que a gente se sinta humana, não ligue para o que os outros digam e simplesmente aceite continuar vivendo na precariedade. O que busca nos desumanizar são ações específicas e cotidianas e a construção da nossa humanidade parte da destruição dessas ações. Um sentimento por si só não constrói creches ou aprova leis a nosso favor.

No Brasil, por exemplo, enfrentamos problemas como mulheres sendo mortas por parceiros e outros homens próximos, como se fossem objetos descartáveis, apenas por não desejarem mais manter um relacionamento. Existe também um alto nível de violência física, psicológica e sexual contra pessoas do sexo feminino em geral. E desde cedo precisamos nos acostumar com assédio de estranhos nas ruas – o que vejo como uma forma de terrorismo contra nossa “invasão” ao espaço público, que é relativamente recente. No espaço virtual, somos as mais atacadas. O aborto ainda não é descriminalizado no país, embora a pesquisadora Débora Diniz tenha a esperança de ver essa conquista tomar forma por aqui um dia. Mulheres negras ganham menos do que todo mundo e possuem menos acesso ao mercado formal de trabalho – e são as que sempre estiveram aí, na labuta. Adolescentes engravidam de homens mais velhos, mas o senso comum trata a questão como mera “safadeza” da parte delas, e esquece a responsabilidade que adultos deveriam ter. Entre outras coisas.

Em 1999, a pesquisadora Karen Giffin escreveu, em um artigo chamado “Corpo e conhecimento na saúde sexual: uma visão sociológica”, que “agora colocada na agenda feminista como direito, a definição da saúde sexual não tem avançado além do abstrato (…)”. E aponta questões que precisam de atenção, como o “novo perigo da AIDS feminilizada, da prostituição infantil internacionalizada no turismo sexual, da violência sexual globalizada contra mulheres e crianças, etc”. Será que dezoito anos após a publicação do artigo, conseguimos dizer, sem buscar no Google, quais as respostas que temos para tais questões, ainda tão atuais e urgentes?

De cabeça, provavelmente não. Mas se utilizarmos o Google, poderemos perceber que, sim, existem debates, propostas e outros artigos. Mas a maior parte das discussões aprofundadas estão restritas a círculos específicos. Os direitos sexuais e reprodutivos da mulher – que envolvem direito ao próprio corpo e a própria sexualidade, expressa como e com quem quiser – ainda protagonizam ferrenha disputa. A constante reformulação do mito da mulher como máquina-de-fazer-bebês, a pouca atenção que se dá à saúde sexual da mulher lésbica ou a prostituição sendo tratada primordialmente pelo viés da “escolha” mostra que ainda temos muitas batalhas. E que precisamos tomar as rédeas do debate público ao invés de procurar meios de dissolver o feminismo para torná-lo palatável.

Ás vezes me pergunto se estamos cometendo erros estratégicos. Onde estamos falhando? Já é 2017 e ainda é difícil debater questões relacionadas a pornografia, estética, violência sexual ou prostituição sem cair dentro da mesma ladainha de sempre, de que “mulher faz o que quiser”. A mídia mainstream e os homens adoram essa frase, mas apenas quando mulheres-fazendo-o-que-querem significa “liberdade sexual” e nudez (de corpos brancos e magros). Muitas feministas de grande alcance, principalmente as do tipo que utilizam o movimento para impulsionar a própria imagem sem necessariamente possuir um comprometimento coletivo, acabam abraçando essa falácia para que não precisem lidar com temas que não são populares. É uncool falar de abuso sexual, apontar agressores, problematizar a indústria da beleza – uma das poucas a não entrar em crise no país – ou desestabilizar muito o status quo, por exemplo. Corre o risco de a coisa fica chata demais.

Aliás, percebo que é nessa junção de mídia e homens (ou instituições historicamente masculinas – ou seja: quase todas, risos) legitimando o feminismo “correto” que um feminismo lavado passa a existir. Um feminismo chique, com roupas de marca, caras, bocas, batom, orgasmos múltiplos e cantoras pop postando fotos do grupo de amigas loiras com legendas tipo “girl power” ao mesmo tempo em que diminuem denúncias de racismo de colegas de profissão negras. Um feminismo que gosta de afirmar que é feminino, que não é como aquelas despenteadas, peludas, histéricas, exageradas, odiadoras de homem – ew, imagina ser confundida com uma lésbica!  Um feminismo que separa mulheres entre boas e más, que menospreza a construção teórica elaborada por pessoas do sexo feminino, que descarta o valor do envelhecimento e da experiência e propaga um sem-fim de frases feitas sem saber o porquê. E não questiona, profundamente, salários, acordos e papeis sociais. Um feminismo que poupa os homens e aponta todos os dedos para as “manas”. E que se estabelece mais como uma tribo urbana do que como um movimento social de fato: legal mesmo é ser uma it girl feminista.

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barbie. se você pode sonhar, você pode ser — uau, agora vai, hein! // propaganda da mattel, de 2014.

Em “Backlash: o contra-ataque na guerra não declarada as mulheres”, de 1991, a escritora Susan Faludi mostra como mídia, políticos, líderes trabalhistas e outras figuras tentaram (e ainda tentam) promover a ideia de que a mulher já conquistou tudo, mas se tornou infeliz por culpa do feminismo – como se tripla jornada ou desilusões amorosas fossem consequências do movimento, por exemplo. No entanto, ela prova como, na época, vários direitos ainda não tinham sido conquistados, mesmo com uma suposta autonomia da mulher sendo celebrada. Quando ela fala sobre “a natureza do backlash de hoje”, referindo-se aquele período, parece que estamos lendo algo sobre o momento em que estamos agora:

A mulher reprimida do atual backlash distingue-se das suas predecessoras pois quer fazer parecer que escolhe a sua condição duas vezes – primeiro como mulher e segundo como feminista. A cultura vitoriana definia “feminilidade” como sendo aquilo que “uma verdadeira mulher” deseja; na estratégia de mercado da cultura contemporânea, também é o que uma mulher “liberada” almeja. Da mesma forma que Reagan assumiu ares populistas para vender um programa político que favorecia os ricos, os políticos, os meios de comunicação e a publicidade adotaram uma retórica feminista para passar adiante políticas que feriam a mulher, revendendo os mesmos velhos produtos de sempre ou escondiam opiniões antifeministas. Bush prometeu “maior poder” para as mulheres pobres – como substituto dos muitos programas de assistência social que ele estava cortando. Até a Playboy afirmou estar do lado do progresso feminino. “As mulheres avançaram tanto”, garantiu o porta-voz da revista à imprensa, “que já não é um estigma posar nua.” A cultura dos anos 80 suprimiu o discurso político das mulheres e depois redirecionou sua auto-expressão para os shopping centers. A consumidora passiva foi reeditada como sucedâneo feminista, exercendo o seu “direito” de comprar produtos, fazendo as suas próprias “escolhas” ao chegar no caixa. “Você pode ter tudo”, prometia um anúncio de cerveja a uma jovem em malha de ginástica – mas por “tudo”, a cervejaria queria dizer que o seu produto não dava a barriguinha de chope. Criticado por dirigir-se a jovens mulheres nos seus anúncios, um indignado vice-presidente da Philip Morris esbravejou que este tipo de censura é “sexualmente discriminatório” pois sugere que “mulheres adultas não têm capacidade para tomar as suas próprias decisões de fumar ou não”. A reivindicação feminista exortando que cada uma siga os próprios instintos tornou-se um apelo publicitário para se obedecer às solicitações do mercado – um apelo que enfraqueceu e aviltou a busca feminina de uma verdadeira autodeterminação. (…)

O atual contra-ataque aos direitos da mulher proporciona ainda outra tática inerente aos livros de estratégia dos antigos contra-ataques: a pose de uma sofisticada e irônica distância dos seus próprios fins destrutivos. A lista de emoções falsas do backlash –piedade pelas mulheres solteiras, preocupação com o esgotamento das que trabalham, envolvimento com os problemas da família –, a ofensiva atual acrescenta um escarnecedor cinismo em relação a quem ousa apontar mensagens discriminatórias ou antifemininas. (…) Ficar falando de injustiça sexual não só é feminino, mas não pega bem porque já não está com nada. A revolta das mulheres, assim, como qualquer outro tipo de revolta social, é alegremente descartada – e não por falta de conteúdo, mas simplesmente por falta de “classe”.

Já é bastante difícil desmascarar sentimentos antifeministas quando eles se vestem com roupas feministas. Mas é muito mais difícil enfrentar um inimigo que diz não se importar. O feminismo “cheira tanto a anos 70”, afirmam com tédio os papas da cultura popular. Agora somos “pós-feministas”, informam, não para dizer que a mulher chegou à igualdade de direitos e ultrapassou essa fase, mas para sugerir que eles mesmos se adiantaram tanto que já não pretendem nem mesmo importar-se com o assunto. É uma falta de compromisso que, no fim, pode representar o golpe mais devastador contra os direitos da mulher.

Logo, é importante pensarmos na raiz das coisas, para não ficarmos eternamente brincando de encenação política, feito hamsters na gaiola, enquanto permanecemos lucrativas. Claro que, dentro do capitalismo, que não irá sucumbir tão cedo, é importante que existam produtos de beleza também para peles escuras ou cabelos crespos ou roupas estilosas para pessoas gordas, e que propagandas sejam questionadas quando são preconceituosas, por exemplo. Não acho que esse tipo de coisa seja irrelevante. Aliás, não julgo ninguém, individualmente, por suas atitudes. Ainda vivemos em um mundo que valoriza muito a aparência, que conecta o “se sentir bem” com “se sentir bonita” e que, em certos momentos, sequer dá alguma chance de a mulher fingir que pode escolher. Existem empregos, por exemplo, que exigem salto e maquiagem, e pronto.

A caminhada ainda é longa, mas a nossa rede e a nossa força possuem potenciais enormes, que nos são mostrados diariamente: querendo ou não, estamos aqui, ainda que os nossos recursos sejam infinitamente menores que os dos detentores do poder. Existem conquistas para trabalhadoras domésticas, existem leis específicas para a violência contra a mulher, a  obstetrícia atual está em debate, entre várias outras coisas, mas claro que poderia ser muito melhor. É importante a gente continuar sempre a pensar na utopia, para que ela se concretize. Desejo que ruas iluminadas (segurança pública também é questão de gênero), para que mulheres igualmente brilhantes andem por elas, sejam uma realidade concreta e metafórica.

Por isso, precisamos entender que uma camiseta em uma loja de departamento com “feminista” escrito nela não significa muita coisa, principalmente se os funcionários continuam trabalhando muito e ganhando pouco, se artistas continuam tendo ilustrações roubadas para estampar produtos e se peças terceirizadas continuam sendo confeccionadas por meio de trabalho escravo. Relativizar depilação ou procedimentos de beleza ou minimizar os pontos negativos de cirurgias plásticas, como riscos ou o processo pós-operatório, também não são coisas que se enquadram exatamente em um viés feminista acolhedor e informativo, funciona mais como propaganda gratuita e marketing espontâneo e positivo para empresas mesmo.

Como analisou a teórica Nancy Fraser, no artigo “O feminismo, o capitalismo e a astúcia da história” (que chegou até mim por meio do coletivo Não Me Kahlo), houve uma fragmentação da crítica feminista que auxiliou na “incorporação seletiva” e “recuperação parcial” de algumas de suas tendências. Ou seja, de acordo com o interesse vigente, uma coisa ou outra é aleatoriamente pinçada sem levar em conta o seu contexto. E isso acaba auxiliando não na construção de uma nova realidade para mulheres, mas em uma nova forma de manter a organização social nos moldes hierárquicos de sempre. E mais:

É dito frequentemente que o sucesso relativo do movimento em transformar cultura permanece em nítido contraste com seu relativo fracasso para transformar instituições. Esta avaliação tem duplo sentido: por um lado, os ideais feministas de igualdade de gênero, tão controversos nas décadas anteriores, agora se acomodam diretamente no mainstream social; por outro lado, eles ainda têm que ser compreendidos na prática. Assim, as críticas feministas de, por exemplo, assédio sexual, tráfico sexual e desigualdade salarial, que pareciam revolucionárias não faz muito tempo, são princípios amplamente apoiados hoje; contudo esta mudança drástica de comportamento no nível das atitudes não tem de forma alguma eliminado essas práticas. E, assim, frequentemente se argumenta: a segunda onda do feminismo tem provocado uma notável revolução cultural, mas a vasta mudança nas mentalités (contudo) não tem se transformado em mudança estrutural institucional.

Acredito que mudar a pintura externa de uma casa não significa necessariamente reformar por dentro. Logo, não podemos nos deslumbrar com a festa feminista que tentam, literalmente, nos vender. Mulheres libertas não geram lucro, corpos autônomos são mais difíceis de controlar e pessoas conscientes da própria complexidade ameaçam a narrativa de papeis unidimensionais. Minha vontade é muito ambiciosa: não quero que as mulheres se sintam lindas e sim que se sintam – e sejam, de fato – livres. Vamos juntas?