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CINCO ANOS DE VULVA REVOLUÇÃO

Amo fazer aniversário, como já falei aqui antes. Contudo, em outras áreas da vida, tenho uma enorme dificuldade em celebrar coisas relacionadas à mim, sejam elas pequenas ou grandes. Tem vezes que é porque não faz sentido. Não me atrai viver nesse modo contemporâneo de hiperexposição em que cada passo dado tem que ser noticiado como se a cura de um câncer estivesse sendo descoberta. Sei lá.

Outras vezes tenho medo de parecer metida ou muito autocentrada. Dia desses li uma escritora que curto muito, a Thaís Campolina (e que conheci ao vivo hoje, finalmente), falando sobre essas coisas também: que acaba falando menos do que gostaria sobre as próprias realizações. Acho (tenho quase certeza, kkkk) de que isso é mais um dos braços da socialização feminina tentando nos manter mansas, quietas, modestas e no nosso devido lugar (um lugar de produtividade silenciosa, com pouco brilho e muita sobrecarga).

De qualquer maneira, acho importante dizer que, em 2019, o projeto Vulva Revolução completou cinco anos (e só agora consegui sentar para escrever sobre, é a vida). Uau… Passa muito rápido! Hoje em dia chamo de projeto, e não apenas de blog, pois muitas coisas aconteceram a partir desta plataforma online aqui. E vou contar um pouco sobre isso tudo pra vocês. Considero importante que gente comum, como eu, perceba que pode realizar coisas ótimas sem precisar de patrocínio. Que nem tudo na vida é like, métrica, #publipost ou programa de televisão.

Existem muitas pessoas por aí que estão, de fato, buscando estabelecer redes de informação, conhecimento, diálogo e troca de experiências de uma forma mais ampla e horizontal. Ninguém merece simplesmente girar ao redor de uma imagem específica de alguém que abraça o mundo e fala de tudo sem realmente falar de nada só para impulsionar a própria fama. A coletividade é possível. Ou, ao menos, tentamos fazer ser (e nada é mais deprimente do que a cultura de celebridade que está cada vez mais ampliada e permeia tantas esferas sociais atuais).

Me interesso por feminismo tem muito tempo, mais de quinze anos. Ouvia falar do movimento aqui e ali e, de repente, estava escutando bandas punks feministas, indo a shows, colecionando zines. Fui crescendo e descobrindo que existia toda uma área de estudos voltada para o tema, parti para os livros e comecei a ler mais e mais. O blog nasceu em 2014, por conta da minha vontade de sistematizar ideias, compartilhar leituras, realizar traduções, organizar materiais e escoar, em algum lugar, angústias e pensamentos.

No primeiro ano da plataforma online, em 2015, fiz um evento de comemoração que deu muito trabalho, mas foi incrível: o VULVA LA REVOLUCIÓN. Contei com o apoio de muita gente, e aqui falo um pouco sobre todo o processo. Teve feira com artes e produtos feitos por mulheres, rodas de conversa, música, comidinhas, bebidinhas, essas coisas. Fiz também um evento para celebrar os três anos do blog, em 2017, em conjunto com um ateliê de arte chamado Gruta, que estava sendo inaugurado (infelizmente ele já fechou as portas, mas as integrantes seguem firmes & fortes no rolê). Foi nos mesmos moldes do primeiro e, mais uma vez, foi bem legal.

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Boloceta feito pela minha amiga Luiza Ramos para comemorar os três anos de Vulva Revolução ❤

Junto com algumas das mulheres da Gruta (mais especificamente: Tais Koshino, Livia Viganó, Camila Ligabue e Gabi Lovelove6), com a Bia Cardoso, das Blogueiras Feministas, e com as minhas amigas Ludmilla Brandão e Talita Ramos, fizemos o Gruta de Estudos Feministas. Nos encontrávamos mensalmente para discutir temas e textos previamente selecionados e, por um ano, fizemos encontros e debates com lanchinhos, poesia, conversa e troca de ideias. Em algumas ocasiões, alguns encontros eram abertos para o público e envolviam discussões que estavam acontecendo no momento, como na época em que a questão do aborto estava sendo discutida no Superior Tribunal Federal (STF).

Tudo isso rolou em Brasília (DF), minha cidade natal.

Um outro evento que nasceu a partir do blog foi o MULHERAJE, que idealizei & realizei em 2018 e 2019 com a minha querida amiga Amanda Dias, em São Paulo (SP), em um espaço chamado A LAJE. A nossa proposta era evidenciar mulheres-que-fazem por meio de uma feira com artesanato, livros, zines, pôsteres, cerâmica, quadrinhos e tudo mais. Sempre rolam shows, bebidinhas e afins também. Na primeira edição, por exemplo, conheci o ótimo trabalho da BEX, compositora, beatmaker e produtora musical que mescla jazz e ritmos eletrônicos, e colou no dia para uma apresentação.

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MULHERAJE 2018 (montagem feita pela Amanda)

A partir da Vulva Revolução, comecei também a fazer publicações impressas. Zines mesmo. Misturei paixões adolescentes com práticas da vida adulta e passei a sistematizar ideias e leituras também nesse tipo de material. Cheguei até a me arriscar artisticamente e criar zines costurados à mão, com textos mais literários, fiz colagens, aprendi um pouquinho de diagramação etc. O primeiro deles, o Vulva Revolução #1, surgiu a partir de um pequeno financiamento coletivo de sucesso apoiado por quem curte o blog e contou com várias colaborações de artistas do Brasil todo. Teve até festa em parceria com uma produtora de Brasília, a Moranga, para ajudar na divulgação e arrecadação de grana. Foi muito divertido. A galera da produção fez uma decoração especial e chamou só mina pra discotecar (e todas muito fodas), como a Carol Stérica, do Sapabonde, e a Mari Perrelli, que anda bombando Brasil afora.

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Eu e as criadoras do Conspiração Libertina, uma marca de acessórios feministas (que teve sua estreia em um dos meus eventos), na Moranga Vulva Revolução, 2016

Depois, fiz também os zines Vulva Conexão, que discute tecnologia, internet e feminismo; Solidão Involuntária, que traz um texto melancólico repleto de crises existenciais; Lucrativa, com colagens que criticam a indústria da beleza e Feminismo Suave Não Liberta, Mas Gera Lucro, uma adaptação deste texto aqui. O zine mais recente, lançado ano passado, aborda aspectos críticos diversos sobre algo que, usualmente, nos parece muito corriqueiro: alimentação. A publicação foi idealizada por mim e conta com valiosas colaborações de autoras como a já citada Thaís Campolina, além de Laura de Araújo, Amanda Valmori (parceira, amiga querida e que admiro demais como escritora, autora do extinto e maravilhoso blog Deixa de Banca) e Glênis Cardoso (que faz parte do incrível projeto Verberenas). O projeto gráfico, belíssimo, é do multitalentoso Estêvão Vieira, ou Stêvz, que é designer, compositor e cartunista, com fotos de Ana Cortez.

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Por conta dos zines, comecei a participar de feiras de publicação independente por todo o Brasil. Isso é um ótimo jeito de ter um contato mais próximo com outras pessoas que também estão no corre de fazer os próprios projetos acontecerem e é uma maneira muito legal de estar em contato com o público, trocar ideias, estreitar laços. Recebi convites variados e fui para escolas conversar com alunos e alunas sobre temas sensíveis, como gênero e violência contra a mulher; mediei rodas de conversa; participei de debates em cineclubes; realizei oficinas em universidades e fiz curadoria de eventos voltados para “empoderamento feminino” (ainda que eu tenha questionamentos sobre o uso indiscriminado dessa expressão, mas isso é papo pra depois e, de qualquer modo, mulheres reunidas em prol  de assuntos importantes é sempre válido).

Em 2016, conheci o Pará por meio do projeto Imaginárias, da minha grande amiga Gabriela Sobral, uma jornalista e poeta incrível e que, desde os tempos da faculdade, está ao meu lado e no meu coração. Foi uma experiência enriquecedora, tocante, um aprendizado forte. O projeto reuniu pessoas de áreas diversas para realizar oficinas com jovens de Soure, pequeno município da Ilha do Marajó. Teve fotografia, escrita, pintura, colagem, desenho e, no fim de tudo, ajudei a garotada a selecionar e editar o próprio material para consolidar uma publicação impressa. Tudo de modo bem horizontal, explorando a paisagem local e levando em consideração as vontades e os conhecimentos de quem estava participando dos encontros. Aproveitei ainda para visitar Belém (me apaixonei) e participar de eventos por lá.

Mantendo a sanidade 

No meio de todos esses acontecimentos,  trabalhei em muitos lugares, com muita coisa (pra quem não sabe, sou jornalista). A Vulva me manteve ativa em uma época em que eu estava em um emprego horrível, que defendia coisas que não acredito e me mantinha enfurnada em um porão em que ninguém me valorizava (mas, pelo menos, eu tinha a adorável companhia de uma colega de trabalho maravilhosa). Eu precisava do dinheiro e da experiência, não aguentava mais freelas precarizados, então foi muito importante estar lá. Paralelamente, estava sempre escrevendo e planejando atividades que me relembravam quem eu realmente era.

Com o tempo, consegui me inserir mais e mais dentro de áreas que têm mais a ver comigo: assessorei projetos, artistas, escrevi para veículos diversos, essas coisas. Hoje, colaboro com uma revista que gosto muito e escrevo sobre cultura. Me especializei em gênero, sexualidade e direitos humanos na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e, desde o ano passado, estou lá como mestranda da área de comunicação e saúde. Em breve lanço meu primeiro livro de contos (eita), que não possui relação direta com o blog, mas tem a ver com o meu processo de me autorizar a escrever, falar, ser. Queria estar mais feliz, mas confesso que meu estômago borbulha de medo e ansiedade o tempo inteiro.

O que aprendi com isso tudo?

Que precisamos tirar ideias da cabeça. Várias vão dar errado, mas muitas vão dar certo também. Falhe mais, falhe melhor, não tenha medo de falhar. Aprendi que articulações sem fama e sem grana exigem muita transparência e diálogo (deveria ser sempre assim, na verdade). É preciso apoiar quem te apoia e buscar meios de oferecer outras recompensas, como espaço em um evento, escambo de serviços. Sei lá. Mas, de verdade, transparência é muito importante mesmo. Tem que chegar na pessoa e falar: “Eu preciso disso e daquilo, você tem interesse em me ajudar? Posso fazer algo por você depois também”, sabe? E não ficar fingindo que a ajuda que você precisa é, na verdade, um favor pra outra pessoa (tipo: “Nossa, isso vai te trazer visibilidade!” – muitos risos). Já fui parar em uma entrevista de emprego que era, na verdade, um trabalho voluntário oferecido com ares de salvação mundial por alguém querendo abrir um site megalomaníaco sem ter um real pra isso. Isso não se faz.

O rolê #DIY exige uma ética que envolve respeito e comunicação. Mas nem sempre as coisas acontecem do jeito que a gente espera. Por isso que é muito importante também saber ouvir não, entender o tempo do outro e aceitar que afinidades temáticas e políticas não necessariamente vão resultar em amizades eternas ou personalidades compatíveis. E tudo bem. Coisas ótimas podem ser feitas mesmo assim.

A Vulva é totalmente independente, não gera lucro. Tudo o que já ganhei até hoje com vendas de materiais como zines ou camisetas, por exemplo, foi usado no próprio projeto (para pagar a confecção de materiais, domínio de blog e afins, por exemplo). Emprestei meus conhecimentos e minha força de trabalho pra muita gente. E muita gente fez o mesmo por mim. Pode parecer clichê, mas é real: no que deu certo ou no que deu errado, ficou sempre um grande aprendizado – e para acertar ou para errar, tem que botar a mão na massa, né? Quem vê close, não vê corre.

CADA PESSOA É ÚNICA E TUDO É IMPORTANTE

Falo das minhas experiências sem esperar que elas sejam reproduzidas por alguém, pois o que passei tem a ver com a minha trajetória, com os meus interesses, com o que sei fazer. O que quero, na verdade, é inspirar as pessoas a encontrarem algo que as toca para que, a partir daí, coloquem esse algo em prática de um modo que crie articulações e laços. Tenho amigas que gostam de ir para o mato estudar plantas, e isso é importante. Tenho amigas que usam o conhecimento que possuem em exatas para dar aulas de matemática para meninas, e isso é importante. Tenho amigas que cortam cabelo, pintam, dançam, tocam instrumentos, trabalham em escritórios de advocacia, lojas de shopping e realizam feitos diversos do jeito que podem e conseguem. E tudo isso é importante. O que você sabe fazer? O que você gosta de fazer? O que você gostaria de aprender?

ESCREVERESCREVERESCREVER

Este ano, a Vulva vai ficar mais quieta. Entre mil coisas, tenho uma dissertação pra concluir. Ando, também, cansada das dinâmicas atuais das redes sociais como um todo. Já falei sobre aqui, brevemente, mas tenho muito mais a desenvolver sobre o assunto, na verdade. Dia desses rascunhei umas ideias sobre o tema e qualquer hora escrevo sobre com calma. Quem sabe.

Escrever com calma, aliás, sempre foi a proposta desse blog, que é tocado no meu tempo livre, sem nenhuma obrigação comercial ou algo do tipo. Gosto de ler bastante sobre um assunto, pesquisar, conversar com outras pessoas… Só que estudar um tema envolve mergulhar em livros, filmes, artigos, histórias de vida e muito mais. Por isso, me angustia bastante quem trata a escrita como mera “produção de conteúdo” e cospe um monte de porcaria com muita polêmica e pouca profundidade. De qualquer maneira, fico feliz por, ao longo desses anos, ter postado pouco, mas com intensidade. Muitos textos viajaram – e ainda viajam – bastante e minha meta de trocar ideias e estimular debates com certeza foi alcançada.

Já fui lida por pessoas de todo o país, já fui repostada por páginas da Índia, já vi texto meu sendo utilizado em evento de arte em Portugal, já fui citada em artigos acadêmicos, já soube de psicólogas e professoras que recomendaram algo que escrevi para pacientes ou alunos… A lista é imensa. Tudo isso me ajuda ver que alimentar um projeto pessoal não é tempo perdido. Foram muitas as pessoas que, ao longo desses anos, compartilharam coisas íntimas comigo, dúvidas, medos, vontades, inspirações, e considero um privilégio poder acessar um pouco do universo interior de tanta gente a partir da partilha de meus próprios pensamentos.

O que eu queria mesmo, no entanto, era um dia pegar parte do material que produzi durante esses cinco anos, juntar com umas coisas inéditas e lançar um livro, para que esse período fique registrado de um modo mais organizado – e para que as coisas não se percam se, um dia, eu desistir de manter esse espaço virtual (eventualmente pode acontecer, tanto pela falta de tempo, quanto pela minha vontade de me dedicar a outros interesses). ALÔ, EDITORAS! TENHO VÁRIOS LEITORES & LEITORAS! FALEM COMIGO EM VULVALAREVOLUCION@GMAIL.COM, OK? BEIJOS.

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Nem tudo são flores

Porém, ser “publicamente” feminista tem hora que é muito chato, pois tem gente que usa isso como desculpa pra praticar um vigilantismo controlador e competitivo bastante nocivo. Fora quando te cobram que você fale disso, faça aquilo… Me dá vontade de gritar “SOU SÓ UMA PESSOA QUE TOCA UM PROJETO INDEPENDENTE NAS HORAS LIVRES, NÃO SOU UMA ONG E MUITO MENOS UMA EMPRESA”, sério. As pessoas precisam parar de jogar a responsabilidade da ação para o outro ao invés de se tornarem indivíduos mais politicamente proativos. E reclamar de quem está tentando fazer algo é sempre cômodo pra quem quer fingir que faz algo também e, na verdade, não está fazendo nada (isso não significa que críticas não sejam válidas, mas tem gente que só quer miar o rolê alheio, e não construir junto).

Cinco anos não são cinco dias

De qualquer modo, não tem como não celebrar tudo o que aconteceu, todos os textos, leituras, encontros, eventos, parcerias, colaborações. Com certeza deixei um monte de coisa de fora, mas acho que consegui trazer um panorama geral dos principais acontecimentos relacionados à Vulva. Uma rede incrível foi mobilizada diversas vezes e ideais com propósitos feministas, buscando descentralização de poderes e novas formas de se observar a realidade, foram divulgados.

Uma vez, dentro da minha atuação como jornalista, entrevistei uma quadrinista feminista que gosto bastante, e ela falou da importância de contarmos as nossas próprias histórias, para que não sejam apagadas ou jogadas à margem – que é o que acontece muito com mulheres e minorias em geral. E é, de fato, um exercício um tanto quanto difícil esse de se enxergar com o devido respeito e seriedade. Estamos sempre acostumadas a nos diminuir ou a tratar os nossos feitos como irrelevantes.

No grande carrossel da existência, o que acaba sendo visto como importante nos dias de hoje envolve títulos, sobrenomes, verbas altíssimas, celebrização de indivíduos e uma constante recriação do mito do self-made man em uma versão customizada para todos os gostos, inclusive progressistas. E, na verdade, por trás de toda “grande pessoa” existem sempre várias pessoas do mesmo tamanho. Ninguém faz nada sozinho, mas todo mundo pode fazer alguma coisa. E essa alguma coisa é essencial para que nós, pessoas comuns, possamos nos sentir mais vivas e menos impotentes. Que a gente siga em frente, juntos e juntas, tateando o desconhecido em busca de laços mais firmes e propostas de um mundo melhor.

[E APROVEITEM PARA FAZER PARTE DA MINHA CAMPANHA “DÊ UNFOLLOW EM INFLUENCERS & GRANDES EMPRESAS E APOIE PROJETOS INDEPENDENTES“]

Obrigada a cada pessoa que fez parte disso tudo, de alguma maneira.

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Ruga na testa

Quando acordo de manhã, sempre tomo banho e depois me olho no espelho. Minha ruga na testa grita, todas as vezes, como quem diz “estou aqui, querida” e grito de volta, por dentro, impactada com o fato de que a passagem do tempo realmente se instala em nossa carne de maneiras definitivas. Minha mãe tem uma ruga como a minha, que veio da minha avó, e provavelmente minha bisavó e tataravó e tatatatatataravó tinham também esse selo ancestral que nos une por meio de uma inscrição na pele. A do meu pai é severa, profunda, parece uma facada, e espero, sinceramente, que a minha “ruga da raiva”, como gosto de chamar, nunca evolua para esse nível.

Ela apareceu sem que eu nem percebesse, vinda de lugares que não faço ideia. Será que foram as noites em claro em festas, as tardes estudando, as lágrimas, a tensão constante, os passeios alegres sob o sol que me forçaram a franzir a região dos olhos ou é simplesmente uma questão genética? Não sei. O que sei é que ela me incomoda, faz com que eu me sinta ainda mais imperfeita do que já sou, ainda que eu tenha plena noção de que esse sentimento é uma construção social que se moldou por meio de diferentes frentes. O antropólogo francês David Le Breton fala sobre como tratamos o corpo como um objeto imperfeito, “um rascunho a ser corrigido” e tido, vez ou outra, como um mero “acessório da presença”.

Entendo isso tudo, conceitualmente, mas a racionalização de certas coisas, ainda assim, não impede que elas deixem de ser sentidas. A filósofa francesa Simone de Beauvoir evidenciava, já na década de 40, que não existe um destino biológico, psíquico, econômico que “define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade”; a cena social é que qualifica o ser mulher — que é algo que ninguém nasce, de fato, mas torna-se. Coço o queixo com uma mão e, com a outra, passo os dedos bem forte sobre a ruga, na esperança de que desapareça, enquanto reflito sobre o quanto do meu tornar-se mulher não envolveu também vigiar a mim mesma de forma pouco carinhosa, tratando características físicas e psicológicas perfeitamente humanas como imperfeições, defeitos.

Lembro de quando eu nem tinha ruga ainda, mas alisava o cabelo. Ou de quando não alisava o cabelo, mas tentava perder peso. Ou de quando não tentava perder peso, mas ficava quietinha, no canto da sala, com medo de expressar alguma dúvida ou consideração e acabar falando besteira. Tornei-me mulher sempre buscando corrigir esse corpo-rascunho em busca de uma rigidez que sequer gosto quando vejo em outras pessoas, espelhando o comportamento de mulheres ao redor, com queixas e mais queixas sobre si mesmas, como se o autoamor fosse inalcançável e até mesmo ofensivo. Tornei-me mulher aprendendo o autossilenciamento para evitar o constrangimento de ser, de fato, silenciada pelo outro. Mesmo atualmente, consciente de tudo isso, eu, justo eu, que agora estudo medicalização do envelhecimento feminino, esfrego minha ruga na testa esperando que ela suma e dou minha opinião em voz alta muito menos do que gostaria — e deveria.

Percebo, então, que minha ruga na testa não é necessariamente a questão, notar a existência dela é que é a denúncia de um sintoma que, observado mais de perto, aponta para causas muito mais profundas, imbricadas e historicamente produzidas do que a minha mera insatisfação pessoal. Sempre tem um problema e a vida vai passando e um outro problema vai surgindo e a vida vai passando e problemas, problemas e mais problemas acabam sendo sempre o foco. De fato, o gostar de si é um trabalho difícil, principalmente em uma sociedade com constantes bombardeios midiáticos, publicitários, religiosos, familiares e afins em cima do corpo e mente de todas as pessoas.

Talvez seja a busca por desfazer esses nós e religar os fios em novas conexões, mais amplas e mais humanizadas, que faz com que eu pesquise o que pesquiso. Para mim mesma, para o outro, para indivíduos e para a coletividade, porque o ser humano só existe em comunidade — mas existem diferentes maneiras de estar junto e de estar consigo mesmo. Priorizar o bem-estar de pessoas ao invés de colaborar com uma teia de manutenção de inseguranças que é antiquíssima e que gera bastante lucro: é possível?

Como diria a escritora feminista Naomi Wolf, talvez buscar o prazer, esquecer a necessidade de levar estranhos a nos admirarem e finalmente aguardar o envelhecimento do rosto com expectativa positiva sejam boas maneiras de considerar o nosso corpo como mais do que um monte de imperfeições, “já que não há nada em nós que não nos seja precioso”. O envelhecer é intrínseco ao nascer e nossas marcas são as memórias de nossas experiências.

Cecile

Ilustração da artista francesa Cécile Dormeau. Os potinhos de creme dizem “você é nojenta”, “você é velha” e “ohmeudeus, você tem mais de 18”. Pode a mulher envelhecer em paz?

***

Esse meu texto foi publicado originalmente na coluna “Pós-Tudo” da Radis de novembro passado, a revista da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), tanto no papel quanto no site da publicação. Conheça (e assine, é de graça e vale muito a pena): radis.ensp.fiocruz.br. Estou no primeiro ano do mestrado em Informação e Comunicação em Saúde da instituição e, uau, que experiência boa! Um dia, com mais tempo, falo mais sobre, quem sabe (na verdade, até hoje não falei por aqui nem da especialização que fiz lá, e que foi ótima também). Muita coisa acontecendo ao mesmo tempo (que bom, de certo modo, né). 

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Cartas de amor de três mulheres notáveis da história

No livro Cartas de Amor de Mulheres Notáveis, a inglesa Ursula Doyle reuniu mensagens românticas enviadas por importantes figuras femininas da história mundial. A publicação, que busca mostrar o que sentiam e pensavam algumas mulheres de séculos atrás, é uma resposta ao best seller lançado anteriormente pela mesma organizadora, o Cartas de Amor de Homens Notáveis. Nos dias de hoje tal forma de comunicação perdeu um pouco o espaço para a interação instantânea promovida pelas tecnologias atuais. Mas a ideia de enviar ou receber uma carta de amor não deixa de ser algo que ainda guarda muito charme e beleza, não é mesmo?

Na obra mais recente, Ursula encontrou algumas curiosidades. Enquanto as cartas masculinas variavam de estilo, sentimento e até mesmo sinceridade, visto que alguns homens escreviam de olho na posteridade ou usavam a prática como um exercício para demonstrar o próprio gênio criativo, as mulheres tinham mais prudência nas próprias palavras. Isso não significa que elas fossem necessariamente mais francas, embora aparentassem, sim, mais profundidade. Além disso, é inquestionável que o destino de muitas era definido pelo casamento e isso gerava angústias e reflexões fortes tanto nas que seguiam o curso natural do que era esperado por uma mulher quanto nas que avidamente desafiavam as convenções sociais.

Os homens notáveis enxergavam o “objeto de amor” como mais um aspecto da vida, entre tantos outros. A paixão nem sempre era o centro. Eles possuíam espaço e incentivo para obter realizações em outras esferas, como ciência, política, arte e afins. A notabilidade de muitas mulheres da coletânea, no entanto, está relacionada com os homens que elas se envolveram. Muitas cartas só foram preservadas, nas palavras da organizadora, “graças à ligação das autoras com seus ilustres cônjuges ou descendentes.”

De qualquer modo, o legado de muitas significativas figuras do sexo feminino se perpetuou, mesmo com todas as adversidades que foram encontradas pelo caminho. Vamos espiar um pouco os profundos sentimentos que invadiram o coração dessas mulheres. O amor é algo intenso, mas diverso — e, como afirma Ursula, pode assumir formatos variados: indulgente, equivocado, ambíguo, ambicioso, erótico, casto, alucinado e muitos outros. Confiram:

Mary Wollstonecraft (1759–1797)

A escritora inglesa Mary Wollstonecraft é conhecida como uma das “fundadoras” do movimento feminista como se conhece atualmente. Percursora em perceber e falar sobre as diferenças de gênero, ela escreveu a Reivindicação dos Direitos das Mulheres, por exemplo, como uma resposta à Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão dos revolucionários franceses. Paralelamente à uma prolífica carreira literária, caminhou uma conturbada vida amorosa, que envolveu uma tentativa frustrada de ménage à trois com um pintor bissexual e a esposa dele e uma paixão por Gilbert Imlay, um capitão e empresário norte-americano notório por ser um conquistador infiel e que machucava corações.

Em 1797, a escritora se casou com o filósofo político e novelista William Godwin e o que se sabe é que era um amor mútuo, profundo e mais tranquilo que o anterior. Em agosto do mesmo ano, nasceu Mary Wollstonecraft Godwin, que futuramente tornou-se Mary Shelley (ela mesma, a criadora do clássico Frankenstein) e a mãe infelizmente acabou falecendo pouco após o nascimento por conta de uma febre puerperal.

Mary Wollstonecraft

Foi escolhido um trecho de uma carta para Imlay com o intuito de mostrar que a angústia de amar um homem ausente passa, ah, se passa — e abre espaço para novas paixões:

Para Gibert Imlay

Paris, sexta-feira pela manhã, 1793

(…) Agora a recordação prende meu coração a ti; mas não à tua personalidade ambiciosa, embora não possa ficar seriamente insatisfeita com um esforço que faz crescer minha admiração, ou isso seria o que eu deveria esperar do teu caráter. Não, tenho diante de mim tua expressão honesta — relaxada pela ternura, um pouco ferida por meus caprichos, e teus olhos brilhando de aprovação. Então, teus lábios são mais macios do que a própria maciez, e eu apoio o meu rosto contra o teu, esquecendo o mundo inteiro. Não deixei fora da imagem as cores do amor — o brilho rosado; e creio que a fantasia cobriu dessa tonalidade minha própria face, pois sinto que ela queima, enquanto oscila em meus olhos uma lágrima deliciosa que seria toda tua se uma emoção agradecida dirigida ao Pai da natureza, que assim me despertou para a felicidade, não tivesse dado mais calor ao sentimento compartilhado. Preciso fazer uma pausa por um momento.

Preciso dizer-te que estou tranquila após escrever-te essas palavras? Não sei porque, tenho mais confiança em tua afeição quando estás ausente do que na tua presença; não, penso que deves me amar, pois, com a sinceridade do meu coração, deixa que eu diga, acredito merecer tua ternura porque sou fiel e tenho um grau de sensibilidade que podes ver e saborear.

Sinceramente, Mary.

Emily Dickinson (1830–1886)

Emily Dickinson (IanDagnall Computing/Alamy Stock Photo)

Considerada uma das maiores poetas do século XIX, Emily Dickinson foi uma figura misteriosa que, ao longo da vida, passou a se isolar gradualmente da sociedade — menos da família. A vida de reclusão gerou uma produção intensa, que envolve mais de 1800 poemas. Contudo, uma amizade profunda foi alimentada desde a infância com Susan Gilbert, que Emily conheceu ainda no período escolar.

Mais de trezentas cartas foram escritas para Susan! Embora algumas pessoas enxerguem a prosa florida e intensa trocada entre ambas como algo comum da época, muitos especialistas acreditam que Emily foi apaixonada por Susan — que acabou se tornando cunhada da autora ao casar com o irmão dela e entrar em um matrimônio tido como bem infeliz. De qualquer modo, Emily fez juras de amor verdadeiro à “amiga” diversas vezes. Isso não se faz a qualquer pessoa, não acham? Logo, apreciem um trecho de uma das correspondências trocadas entre elas e tirem suas próprias conclusões:

Para Susan Gilbert (Dickinson), 6 de fevereiro de 1852

Deixarás que eu venha, querida Susie — assim como estou, com o vestido sujo e gasto, meu grande e velho avental e meu cabelo — oh, Susie, o tempo é curto para uma descrição detalhada da minha aparência, porém eu te amo tanto quanto se estivesse bem-cuidada, portanto não te importarás, não é mesmo? Estou tão feliz, querida Susie — que nossos corações estejam sempre limpos, sempre bem cuidados e adoráveis, de modo a não causar vergonha. Esta manhã estive mergulhada no trabalho e deveria estar trabalhando agora, mas não posso negar a mim mesma o prazer de ter um minuto ou dois contigo.

(…) Oh, minha querida, há quanto tempo estás longe de mim, como estou cansada de esperar e procurar e chamar por ti; ás vezes, fecho os olhos e fecho meu coração para ti e me esforço muito por esquecer-te, porque me causas tanta dor, mas nunca irás embora, oh, nunca irás — diz-me, Susie, promete mais uma vez, e eu irei sorrir de leve — e tomar novamente a minha pequena cruz de triste — triste separação. Como parece inútil escrever quando se sabe como sentir — como é muito melhor estar sentada a teu lado, falar contigo, ouvir as inflexões da tua voz; é tão difícil “negar a si mesmo, pegar a cruz e seguir” — dá-me forças, Susie, escreve-me palavras de esperança e amor e de corações que resistiram e grande foi para eles a recompensa do “nosso Pai que está nos Céus”.

(…) Amor sempre, e para sempre, e verdadeiro! Emily.

George Sand (1804–1876)

George Sand

Amandine Aurore Lucile Dupin nasceu em uma rica família da França. Casou-se aos 19 anos. Aos 27, insatisfeita com a relação, deixou o marido e os dois filhos no interior em que moravam e foi para Paris. Na cidade luz, passou a conviver com um grupo de escritores. Em 1832, publicou Indiana, seu primeiro romance, sob o pseudônimo George Sand. O livro criticava desigualdades da lei francesa que regulavam o casamento e clamava por igualdade e educação para mulheres — ousada para a época, hein?

A autora, inclusive, possuía hábitos escandalosos para o período em que esteve ativa: usava roupas masculinas, fumava e tinha muitos amantes, por exemplo. Romances, peças e ensaios foram produzidos aos montes, criando uma aura atraente ao redor de George, que ao mesmo tempo era rechaçada pelas crenças e estilo de vida que possuía. Entre os famosos casos de amor que experimentou, estão um envolvimento com o poeta Alfred de Musset e uma poderosa paixão pelo médico veneziano Pietro Pagello — mas o relacionamento com ele durou bem pouquinho. A carta a seguir, no entanto, mostra uma reflexão profunda e válida até mesmo nos dias atuais:

Para Pietro Pagello

Veneza, 10 de julho de 1834

Nascemos sob céus diferentes e não temos os mesmos pensamentos ou o mesmo idioma — será que teremos corações semelhantes?

O clima suave e enevoado de onde venho dotou-me de sentimentos brandos e melancólicos; com que paixões terás sido agraciado pelo sol generoso que bronzeia tua face? Sei como amar e como sofrer; e tu, o que sabes do amor?

O ardor de teus olhares, o violento amplexo dos teus braços, o fervor do teu desejo são para mim tentações e motivos de temor. Não sei se devo combater tua paixão ou compartilhá-la. Não se ama dessa forma em meu país; a teu lado sou apenas uma estátua pálida que te olha com desejo, com perturbação, com espanto. Não sei e nunca saberei se de fato me amas. Mal conheces algumas palavras de meu idioma, e eu não conheço palavras suficientes do teu para tratar dessas questões sutis.

(…) Talvez tenhas sido criado com a ideia de que as mulheres não têm alma. Acha que elas a têm? Não és cristão ou muçulmano? Civilizado ou bárbaro — és um homem? O que existe nesse peito masculino, por trás dessa fronte soberba, desses olhos leoninos? Alguma vez tens um pensamento mais nobre, mais refinado, um sentimento fraternal? Quando dormes, sonhas que estás voando em direção ao céu? Quando os homens te prejudicam, ainda confias em Deus? Serei tua companheira ou tua escrava? Tu me desejas ou me amas? Quando tua paixão for satisfeita, tu me agradecerás? Quando eu te fizer feliz, saberás como dizer isso?

(…) Quando me olhares com ternura, acreditarei que tua alma olha a minha; quando olhares para o céu, acreditarei que tua mente se volta para a eternidade onde foi gerada. Vamos permanecer assim, não aprendas meu idioma e eu não procurarei encontrar no teu as palavras que expressem minhas dúvidas e meus medos. Quero ignorar o que fazes da tua vida e que papel desempenhas entre teus companheiros. Não quero nem mesmo saber teu nome. Oculta de mim tua alma, para que eu sempre possa acreditá-la bela.

Ouch.

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Texto escrito originalmente para um extinto projeto literário que fiz parte em 2017, e que republico aqui por trazer reflexões que considero pertinentes às questões abarcadas pelo blog. Nos tempos atuais, o amor é um assunto sempre em debate em nossas mentes e corações, não importa o período político que esteja em voga e, portanto, é sempre bom refletir criticamente sobre o tema. É válido ressaltar que, embora o post cite mulheres notáveis da história mundial, o livro mencionado no texto, que é escrito por uma inglesa, acaba por privilegiar figuras europeias.

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Pensamentos soltos de uma mulher cansada

Ontem estava chovendo e mais uma vez passei em frente a um muro com um lambe que trazia a imagem de Marielle Franco, um pôster grande que estampava também a fatídica pergunta que tanto se faz por aí em busca de respostas concretas e oficiais do que todo mundo já desconfia e possui indícios aqui e ali: quem a matou? Lembrei do dia em que tudo aconteceu, a tempestade que acompanhava as tristes notícias, a sensação horripilante de que as coisas no país não eram as melhores e podiam ainda piorar.

Claro que, infelizmente, outras figuras políticas e lideranças importantes já foram assassinadas em outras ocasiões. Mas essa morte foi muito marcante e explícita, aconteceu no centro do Rio de Janeiro e em um momento em que minorias com pautas e identidades semelhantes às de Marielle estavam – e estão – em evidência. O crime simboliza também o que viria depois, a ascensão miliciana em um país dominado pelo que tenho chamado de Jesuscracia Neoliberal. Que tempos.

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Disputa de discursos e Marielle

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Eu já andava desanimada com o blog e comecei a escrever cada vez menos por aqui desde então. Tudo me parecia pequeno, bobo, raso. Como falar sobre sexo ou música em um mundo em pleno desmoronamento? Perder a fé na humanidade é uma frase que muita gente bem intencionada utiliza com uma certa constância enquanto passeia pelas notícias trágicas que diariamente povoam as redes sociais virtuais. Contudo, o que sinto não é nem uma perda de sentimentos, mas uma desesperança que é sedimentada a partir da constatação de que disputas violentas de espaço, poder e discurso estão postas e se desdobram de modo difuso e altamente complexo a cada segundo – e já era assim bem antes de sequer existirmos nesse planeta.

Mas chega de ter esperança, como diria o Comitê Invisível, né? Eles alegam no livro Motim e destituição do agora que a esperança acaba por ser uma ferramenta que nos mantém passivamente acreditando em uma solução abstrata que virá do futuro enquanto, na verdade, deveríamos estar construindo algo agora. Agora, aliás, é uma palavra que carrego no corpo, em forma de tatuagem e com a letra de fôrma de um amigo querido, como uma espécie de âncora para uma mente que está sempre se alternando entre o que já foi ou o que ainda pode ser. A ansiedade torna o agora um lugar muito difícil de se estar e ela é também o que fundamenta essa nossa era recheada de imagens, informações, palavras de ordem, capitalismo exacerbado, modelos de aparência e de comportamento, dissolução de valores e repaginação de preconceitos – tudo isso junto e misturado em um grande remix.

A questão é: perder a fé na humanidade me parece, na real, algo até bem otimista considerando que, historicamente, são muitos os fatos que evidenciam motivos para que ela não devesse sequer existir.

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Venho recebendo a newsletter da jornalista Sofia Perpétua, uma mulher incrível que conheci recentemente em um evento de literatura, e me acalenta o coração ler textos tão bem escritos que trazem o que ela vê, o que ela pensa, o que ela gosta, onde ela foi, tudo de modo tão bonito e bem amarrado com belas fotografias. Existem outras newsletters muito interessantes por aí (como as das maravilhosas Stephanie Borges, Aline Valek ou Carla, do Outra Cozinha) e isso tem me feito olhar com ainda mais amor pra esse lance de sistematizar e compartilhar ideias por meio da escrita de um modo mais afetivo.

Para mudar um pouco de ares, me inspirei a voltar aqui hoje e escrever de um jeito mais livre, leve e solto. Sem revisar o texto mil vezes ou demorar uma semana para colocá-lo no ar. Sem a obrigação de destrinchar um tema específico com alguma profundidade. Quero apenas falar sobre aflições e vontades. Mas trazendo sempre a tal da perspectiva feminista, em algum momento, porque é pra isso que este blog existe. Escrevo o tempo todo, profissionalmente e academicamente, mas nem sempre do jeito que eu gostaria. Aqui rola de fazer uns experimentos, né?

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Porém, tenho experimentado também o lado ruim de colocar as próprias ideias online. Existe um forte movimento de apropriação e cooptação do que pequenos grupos estão fazendo. Isso acontece em prol de algum tipo de lucro pessoal que, por vezes, é econômico também. Ou social. Vários tipos de capitais em questão, esses lances. As coisas mudaram e o ambiente virtual, que já foi o esconderijo aconchegante de muita gente, virou uma grande vitrine.

Sinceramente não aguento mais a figura do digital influencer que cospe um monte de besteira genérica em um ritmo frenético e ainda por cima utiliza pautas sociais de modo distorcido e dissolvido apenas para impulsionar a própria imagem. Não aguento mais grifes falsamente inclusivas e cheias de frases prontas. Não aguento mais gente achando que pesquisar conteúdo significa roubar ideias e formatos alheios. Não aguento mais a sensação de que a conversa no ambiente virtual está parecendo mais produção gratuita de conteúdo para empresas (inclusive para as próprias mídias sociais) e pessoas aproveitadoras.

Pesquisa envolve enfiar a cara em livros, revistas e sites, visitas a lugares, passeios pelas ruas, viagens, conversas com pessoas e afins para, a partir daí, construir a própria trajetória – uma trajetória que dê o devido crédito a quem fez parte dela. Então isso acaba sendo outro fator que me deixa desanimada. Fico muito feliz com o reconhecimento que vez ou outra recebo, com o diálogo que estabeleço com pessoas ótimas, mas ver gente ganhando edital, fazendo matérias ou vídeos no YouTube a partir de coisas que pensei, criei, produzi (e sem autorização) me deixa triste. Dinheiro e crédito são coisas importantes nesse mundo. Mas isso não é nenhuma novidade e acontece em movimentos sociais, culturais, artísticos e etc o tempo todo, como uma dança espelhada e esquisita.

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Esse negócio de apropriação me faz pensar também na memória de Marielle Franco, que foi quem abriu este texto. É importante que ela esteja sempre em pauta, mas de modo respeitoso e humano e não como nome de hambúrguer vegano de trinta reais ou de coleção de lingerie. Não de modo superficial e preguiçoso, com uma representação que traga a mera imagem dela repleta de buracos de bala em uma roupa de marca. Tudo isso aconteceu – e é pavoroso. É pavoroso não estar sendo feita metade da reflexão que é necessária em um país que tem suas bases construídas em cima do racismo e da misoginia. No capitalismo tudo é um produto, realmente.

O Dia das Mães passou e, mais uma vez, discutiu-se no âmbito virtual sobre ser mãe de pet (e agora teve até mãe de planta???) ou maternidade compulsória (tema importante, não nego). Quem lembra das mães que possuem a maternidade interditada pelo genocídio de seus filhos negros, por exemplo, para além das próprias militantes do feminismo/movimento negro? Uma amiga minha estudou essa questão e não vejo a hora de essa dissertação estar logo disponível de alguma maneira, para que todos possam ver. E ela cita Marielle, academicamente, resgatando também o legado teórico de uma pessoa que lutou em variadas frentes. Um salve para toda a mulherada que está no corre pensando no coletivo – sejam faxineiras, cozinheiras, pesquisadoras, escritoras, doulas, arquitetas e afins. Não é fácil, mas sempre tem alguém por alguém em algum lugar. E nessas horas até cogito ter a tal da fé.

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Falando em coletividade, recentemente conheci de perto muitas pessoas que admiro e outras que passei a admirar. Me sinto energizada por essa rede de troca que me traz, cotidianamente, tantos novos conhecimentos. Minha amiga de tantas aventuras, a querida Gabriela Sobral, idealizou uma feira de publicação independente intitulada Bancada, que aconteceu no Rio de Janeiro dia desses, e fiz parte da organização e curadoria. Pudemos reunir muitas dessas pessoas inspiradoras em um lugar só. Foi muito legal.

Além das minhas obrigações mais oficiais envolvendo estudo e atuação como jornalista, tenho trabalhado com feiras de publicação independentes, principalmente na parte de assessoria de comunicação. Vez ou outra organizo meus próprios eventos ou dou pitaco nos eventos dos outros. Acho esses rolês muitos potentes, horizontais e importantes: o compartilhamento de experiências é imediato e o público pode se perceber como parte fundamental na construção de um cenário em que grandes empresas e shoppings não precisem sempre ser intermediários entre seres humanos e artefatos culturais. Além disso, gosto de conversas cara a cara, de encontros presenciais. São importantes. São necessários.

Bancadarua

Bancada ❤

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Um sonho: pequenos produtores (de alimentos, livros, roupas e afins) em grande escala e não grandes escalas de coisas sendo produzidas por poucas empresas. Pessoas com tempo para cozinhar, ouvir música, dançar e compartilhar experiências sem esse peso do medo e da insegurança preenchendo corpos, mentes e existências com afetos de tristeza e terror – um quadrinista que sou fã me aconselhou ler Espinosa após me ver surtada no período das eleições, mas ainda sou nova no assunto. A crise é um projeto político, sabemos, e me sinto em uma música da Legião Urbana, com meus amigos procurando emprego, todo mundo sem dinheiro e a sensação de que estamos voltando a viver como anos atrás.

Mas, repito, sei que as coisas não estavam perfeitas. Muito pelo contrário.

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O agora escorre entre meus dedos e tento agarrá-lo. A cada passo que dou, me sinto entrincheirada entre passado e futuro (alô, Boaventura!), quase como em uma espécie de paralisia que nubla meus sentidos e me enche de dúvidas. Mas a dúvida é o combustível de toda caminhada, e a incerteza é a única certeza que podemos ter, não é? Por isso esse post com tantas perguntas, poucas conclusões e muitos acontecimentos soltos.

Respiro fundo e tento me localizar no agora, o agora de agora que não é mais o agora que escrevi a alguns minutos atrás. Que bom é estar aqui nesse instante silencioso em que nada mais existe e tudo importa. De qualquer maneira, ainda assim, me sinto exposta, mesmo estando dentro do meu próprio espaço, apenas porque escrevi de um jeito que nunca escrevi antes por aqui, seguindo a ordem desconexa dos meus próprios pensamentos. Respiro fundo de novo. É estranho viver no caos, mas já não deveríamos estar acostumados?

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Um beijo, um abraço e fiquem bem. <333

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Beleza, feiúra, estigmas e xingamentos como ferramentas para silenciar mulheres

“Quando se atrai a atenção para as características físicas de líderes de mulheres, essas líderes podem ser repudiadas por serem bonitas demais ou feias demais. O resultado líquido é impedir que as mulheres se identifiquem com as questões. Se a mulher pública for estigmatizada como sendo ‘bonita’, ela será uma ameaça, uma rival, ou simplesmente uma pessoa não muito séria. Se for criticada por ser ‘feia’, qualquer mulher se arrisca a ser descrita com o mesmo adjetivo se se identificar com as ideias dela”

Naomi Wolf em O Mito da beleza: como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres

Desde cedo, garotas são doutrinadas a acreditarem que são inferiores e incompletas. “Menina não pode fazer isso”, “se você falar assim, ninguém vai te querer”, “tira a mão” daí” ou “comporte-se como uma mocinha” são frases comumente utilizadas durante todo o processo de tentar transformar um ser humano do sexo feminino em uma mulher. É claro que o repertório varia de acordo com fatores como cor de pele, condição econômica, etnia, peso e afins, até mesmo porque existem hierarquias entre as próprias mulheres. Enquanto se exige força de umas ou delicadeza de outras, por exemplo, é possível detectar a existência de alguns pontos em comum. Um deles é a validação masculina como um mecanismo que, a partir de premissas irreais e excludentes, define o quanto uma mulher vale.

A partir da crença de que é incompleta, uma mulher começa a ser vista como menos despedaçada a partir da legitimação de um homem – ou de vários. Porque não basta um ficante, um namorado, um marido, é preciso também agradar aos passantes na rua, o vizinho, o chefe e o olhar masculino generalizado que embasa os padrões atuais de beleza e de comportamento. Em 1975, o conceito de male gaze (ou olhar masculino, em tradução livre) foi cunhado no artigo Visual Pleasure and Narrative Cinema, da feminista e crítica britânica Laura Mulvey. O texto basicamente argumenta que as mulheres são representadas nas telonas como objetos que devem agradar a ótica do homem “padrão” – ou seja, do cara que possui algum poder de consumo e respaldo no meio em que vive. A provocação ainda hoje gera debates e foi estendida por diversas teóricas feministas para a sociedade como um todo pois esse olhar vai além dos enquadramentos de câmera.

Pouco antes da Mulvey, o crítico cultural John Berger, também britânico, escreveu no livro Ways of seeing (que tem série televisiva de mesmo nome) sobre como homens olham para as mulheres enquanto as mulheres olham para si mesmas sendo observadas pelos homens. Ainda que o foco dele tenha sido nos cânones da arte ocidental, essa análise pode se enquadrar também para além das galerias e afins. Logo, considerando tudo isso e partindo desses pontos, as mulheres se pegam constantemente preocupadas com a própria aparência, com o próprio comportamento, com as próprias escolhas. Com tudo. Não é possível falar ou viver livremente pois a necessidade de aceitação é mais do que uma questão social: em muitos casos, significa também algum tipo de segurança, ainda que ilusória.

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Ilustração exclusiva pela artista Mariana Destro

Ilusória pois, na prática, as mulheres que agradam o olhar masculino também sofrem assédios e coisas do tipo, ainda que as que não agradem costumem sofrer mais violentamente e constantemente as consequências de serem quem são. Como já falei, a respeitabilidade da mulher é medida por quanto um homem – ou um conceito que parte do olhar masculino – define o valor dela. A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie discute em Sejamos todos femininistas (famoso discurso que virou também um livro) sobre como perdemos muito tempo ensinando as meninas a se preocuparem com o que os meninos pensam delas.

É desde cedo que as mulheres aprendem a observar a si próprias a partir de fundamentos que partem do olhar do outro – e se constroem com base nessa visão. A autora fala também que os homens são pressionados a serem sempre durões e acabam com o ego muito frágil, afinal, quem consegue ser “machão” e indestrutível o tempo todo? Isso faz com que as mulheres acabem empurradas para estarem sempre cuidando do frágil ego masculino. Não basta terem que lidar com as expectativas que os homens possuem delas, é preciso também cuidar dos sentimentos deles em relação a eles mesmos. Esse trabalho emocional é extenuante e faz com que as mulheres se diminuam para que a grandeza masculina possa ser enaltecida.

Portanto, é possível perceber que o olhar masculino não é apenas um enquadramento reducionista, mas também utópico: deseja mulheres perfeitas e imóveis, como pinturas a óleo, ao mesmo tempo em que é desejável que elas sejam emocionalmente e/ou fisicamente fortes e façam tudo por eles. O objetivo é que elas continuem a servir como esposas-acessório ou mão-de-obra precarizada sem reclamar muito e, apesar de tudo, sonhando com um príncipe encantado que mostre para o mundo, a partir do reconhecimento dele, o quanto elas são valorosas e merecedoras de coisas boas. Dentro desse cenário, o discurso da mulher é fortemente atrelado à aparência dela e, como mostrado na frase da Wolf que foi colocada ali no início deste texto, não existe saída.

Uma mulher considerada bonita será tratada como uma ameaça ou terá o rótulo de burra atrelado à ela, para que suas palavras percam força. Uma mulher considerada feia será ridicularizada, e todos os seus questionamentos serão tidos como frustração, queixa, bobagem. Além disso tudo, existe uma força patriarcal que busca desunir as mulheres fazendo-as terem medo de ter uma opinião. “Nossa, mas você é tão inteligente, e concorda com essa daí, que é burra, e só conseguiu publicar um livro porque dormiu com alguém, porque é bonita?” ou “claro que você concorda com essa baranga, você é baranga também kkkkkkk” ou “quem pensa igual à Fulana é porque é feia que nem ela” ou “quem pensa igual à Cicrana é porque é fútil que nem ela” são algumas das muitas frases possíveis, e o intuito de todas elas é o mesmo: calar a voz de mulheres – e diminuir a força do discurso delas.

No período das últimas eleições isso foi exemplificado com clareza. Quem votasse em sei lá quem era mais bonita, quem fizesse isso ou aquilo era feia. Perceba que as que recebiam elogios eram sempre as que estavam de acordo com a vontade dos homens que proferiam as categorizações, óbvio. E isso acontece o tempo inteiro, em todos os espectros políticos, mas não dá para negar que mais em uns do que em outros.

Quanto mais medo uma mulher tem de expor as próprias opiniões ou de endossar a opinião de outras mulheres, mais difícil fica unir demandas em comum. Não é à toa que tantos homens gostam de rotular feministas como feias, peludas, mal comidas, lésbicas e etc, como se, oh, essas coisas todas fossem muito ofensivas. São justamente as feministas que estão tentando libertar as mulheres das amarras do patriarcado e, por isso, são consideradas perigos que devem ser combatidos. E não é à toa também que, infelizmente, mulheres em geral e até mesmo muitas que se consideram feministas tentam se vender como dóceis, tranquilas, depiladas e heterossexuais para não serem colocadas no mesmo pacote das que desagradam o olhar masculino.

É uma armadilha perfeita essa em que as mulheres foram colocadas: voz, aparência e, consequentemente, peculiaridades e necessidades acabam soterradas embaixo do constante medo de sofrer violência, rejeição e tudo mais. Consideradas e tratadas como incompletas, um rompimento brutal com um sistema machista que julga e oprime se torna difícil, afinal, é preciso sobreviver. Além disso, afeto, autoestima, segurança, emprego e afins são também coisas importantes que podem estar em jogo quando uma mulher se posiciona assertivamente, se veste e comporta como quer ou abala as estruturas de poder ao redor dela. A possibilidade da estigmatização está sempre por perto, como um sopro quente na nuca que causa medo e incômodo. Como uma eficaz tática de vigilância.

O que fazer, então? Também estou tentando descobrir. Penso em algumas saídas, como, por exemplo, seguir lutando cotidianamente contra os mil tentáculos do racismo, uma das maiores ferramentas utilizadas para manter padrões de beleza e, principalmente, desigualdade social e econômica. No Brasil, o fenótipo que mais sofre preconceito é também o que mais precisa garantir os próprios direitos, e isso não é coincidência. Não é coincidência perceber que quando uma mulher negra levanta as próprias questões logo tenha o próprio comportamento rotulado como “raivoso” ou escute alguma ofensa em relação à própria aparência, porque o intuito não é apenas silenciá-la naquele momento e sim fazer com que ela se desgoste tanto a ponto de silenciar-se nas próximas vezes por conta própria – e internalize o papel de subalternidade.

Outra coisa importante é que mulheres em geral rompam com o ciclo da vigilância e parem de julgar umas às outras por conta de roupa, peso, cabelo, relacionamento e afins. Isso é algo que só colabora com a criação de mais estigmas e com a desunião feminina. A vadia de amanhã sempre pode ser você. A feia de amanhã também. A isolada. A que não merece nada. E assim vai. Isso não significa que todas as mulheres devem ser melhores amigas ou que nunca possam ser criticadas, só significa que é importante ultrapassar as fronteiras da misoginia para que mulheres possam ser julgadas, para o bem ou para o mal, a partir de motivos concretos e relevantes.

Não acaba por aí. Seria interessante se as mulheres tivessem um olhar mais justo e amoroso não apenas com as companheiras ao redor, mas com elas próprias. É preciso tentar construir um novo universo em que a luz interior emane de dentro para fora, e não o contrário. É preciso aceitar a própria humanidade e imperfeição ao tentar edificar uma percepção nova sobre si mesma que não parta apenas do olhar do outro. Longe de mim tentar soar como uma espécie de autoajuda cretina. Só acho que, em um nível individual, pode ser importante tentar se conhecer melhor para, a partir daí, se definir a partir dos próprios gostos e desejos e não da mera vontade alheia. Isso ajuda mulheres a observarem melhor quem são, quem querem ser e quem podem ser para além das expectativas do desejo masculino. E ajuda também a bloquear julgamentos destrutivos.

A partir do ponto anterior, é possível ampliar o olhar em relação a mulheres admiráveis e buscar referências e informações que valorizem mais do que rostinhos considerados bonitos. Tenho uma amiga que é fã da Marilyn Monroe, por exemplo, e ela sabe várias coisas interessantes sobre a carreira dela que envolvem aulas de atuação e envolvimento com política. E existem mulheres de muitas outras áreas que merecem reconhecimento porque escrevem, cantam, ensinam, tocam um instrumento, pilotam aviões, rebocam paredes, pesquisam ou fazem milhões de outras coisas de uma maneira formidável.

Muitos são os homens reconhecidos pelos talentos e habilidades, inclusive homens considerados feios pelo padrão vigente. No entanto, essa sociedade faz com que as mulheres precisem sempre passar por avaliações estéticas e a partir do momento em que agradam ou não o olhar masculino é que o destino delas é traçado. E nesses tempos hiperimagéticos, principalmente, muitas pessoas são glorificadas simplesmente por se “manterem jovens”, possuírem dinheiro e estarem dentro de um padrão branco e heteronormativo de beleza. Ultrapassar esse ciclo é não apenas reconhecer o trabalho de outras mulheres, mas adquirir mais conhecimentos e trabalhar a própria inteligência – porque esse culto à aparência é também uma forma de estimular emburrecimento coletivo, controle social e gatilhos de consumo, né?

Dentro de uma sociedade que se organiza a partir de hierarquias diversas, as mulheres se tornam ainda mais vulneráveis (psicologicamente, economicamente e afins) dependendo do lugar em que se encontram dentro dessa escala – embora, de um certo modo, todas estejam correndo riscos. Sim, meu sonho é chegar em um patamar que ofensas ridículas não façam nem cócegas em mulher alguma e todas apenas sigam em frente, conquistando mais e mais vitórias. Mas sei que não é fácil e que cada uma tem sua realidade específica, com problemas e questões específicas.

De qualquer modo, conseguir construir essa noção de que uma atuação em rede fortalece grupos e de que o poder estabelecido realmente possui uma estratégia em curso que tem o intuito de silenciar mulheres e desmobilizar a luta feminina por direitos é fundamental. Dessa maneira, fica mais fácil erguer um escudo que auxilie nos momentos difíceis e blinde de ofensas gratuitas. Ah, um idiota te chamou de feia? Isso diz menos sobre sua aparência e mais sobre a capacidade argumentativa dele e sobre os medos de um frágil ego masculino que teme mulheres com poder, autoestima e espaço. A admiração condicional, passageira e nem sempre verdadeira do olhar masculino é infinitamente menos importante do que as reais vontades, necessidades e desejos de uma mulher. Que todas possam um dia falar e ser, sem medo.

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O problema não é o “gênero”

As pautas ditas “morais” são prioridade de quem quer acabar com ~tudo isso aí que tá errado~ e, enquanto todo mundo se preocupa com quem o outro dorme, nossos direitos vão escorrendo pelo ralo. Uma das grandes medidas aprovadas após a retirada de Dilma Rousseff do poder foi a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 241, que congela o gasto com “despesas” do país por alguns anos. Isso significa que serviços públicos de saúde, educação e afins podem sofrer ainda mais baques nos próximos tempos. Contudo, pensando mais profundamente, essas coisas são realmente despesas ou, na verdade, são investimentos? Vários pontos de vista devem ser analisados.

Existem estudos que asseguram que o ideal é que países em crise, enfrentando momentos de austeridade, sigam com práticas de seguridade social para o bem da população e até da economia. Dessa maneira, suicídios podem ser evitados e doenças podem ser controladas. Além disso, levando em consideração um contexto capitalista, trabalhadores sem saúde produzem menos e geram mais demandas aos sistemas públicos. O dinheiro que deixa de ir para saúde ou educação não vai magicamente para o bolso de quem precisa, muito pelo contrário. Cortar política social ou restringir serviço público, por exemplo, não reduz corrupção, até porque favorece corruptos que estão no mercado querendo emplacar os próprios negócios.

Bom, mas o que esperar de uma bancada política altamente conservadora e comprometida com o dinheiro, e não com as pessoas, não é mesmo?

Outras medidas não tão benéficas para a população também estão em destaque, como a reforma da previdência, a flexibilização de leis trabalhistas e afins. A retirada de direitos é um projeto e, para que isso seja acobertado, foi criado um monstro feio e horripilante a ser combatido: a “ideologia de gênero”. Criou-se um mito de que existem professores-doutrinadores passando vídeos pornográficos nas escolas enquanto toca Pabllo Vittar (adoro) e merendas são distribuídas em mamadeiras de pinto. Isso é um desrespeito infinito com a classe educadora do Brasil, que não é reconhecida como merece e ainda precisa lidar com acusações absurdas.

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Gênero: mais polêmico que mamilos! Foto de Lailson Santos (reprodução).

Mas, afinal, o que é gênero?

A resposta para essa pergunta é longa e complexa. Muitas são as pessoas que estudam o tema (sou uma delas) e os conflitos, questionamentos e divergências são variados, mesmo entre quem aparentemente está do mesmo lado. Em um resumo bem rápido, gênero é um termo que floresceu a partir do objetivo de separar o lado biológico e o lado social do ser humano. Um corpo do sexo feminino pode, na maioria dos casos, gestar uma criança, por exemplo. O gênero é a construção social que dita que todo corpo capaz de gestar uma criança é uma mulher, e que toda mulher deve sonhar com ser mãe, ter filhos, agradar o marido e coisas do tipo.

O gênero, portanto, pode ser uma narrativa imposta aos corpos com o intuito de regulá-los de acordo com as expectativas de uma determinada sociedade. Ele não é “natural” e, por isso, é raramente acolhido de forma unânime (mulheres estudando quando era proibido já era um rompimento de barreira, entre vários outros exemplos). Supõe-se, inclusive, que as diferenciações sexuais hierarquizantes nascem como estratégia de controle social, reprodutivo, econômico e tudo mais. Logo, discutir gênero envolve debater um universo inquantificável de assuntos. E eles vão muito além da questão meramente moral (que tem sua importância) e abrangem gravidez, abuso sexual, divisão do trabalho e outros temas que atravessam a vida de todas as pessoas de modo bem concreto.

Desmistificar que “homem que é homem resolve briga na porrada” ou que “mulher tem que aguentar tudo” também significa conversar sobre gênero. Bem como explicitar que uma pessoa com pênis pode ter cabelo grande e adotar um nome considerado feminino ou que uma pessoa com vagina pode jogar futebol e cortar o cabelo bem curto. Existem muitas angústias e violências a serem resolvidas. E as pessoas precisam ter a chance de se sentirem mais confortáveis na própria pele ou de abandonarem papeis que foram empurrados à força. Além disso, desmistificar papeis femininos e masculinos e aliar isso à educação sexual ajuda crianças, adolescentes e jovens a identificarem situações de abuso.

E tem mais: um homem que mata uma mulher porque “não aceitou o fim do relacionamento” é, na verdade, uma pessoa que assimilou a hierarquia de gênero de modo tão profundo e natural que chega se torna legítimo aniquilar a existência de quem não mais quer ser posse dele. E é também alguém que não aprendeu a lidar com frustrações e sentimentos de rejeição de uma forma emocionalmente equilibrada.

Porque “homem não chora”.

Por isso, o debate de gênero envolve, fundamentalmente, o respeito ao próximo, ao corpo do próximo, às vontades do próximo, às escolhas do próximo, à orientação sexual do próximo, à maneira de ser do próximo e assim vai. E falar sobre gênero é falar sobre liberdade de expressão e liberdade para expressar a si mesmo.

Os que falam em combater a tal da “ideologia de gênero” e fingem estar preocupados com a “defesa da família” querem, na verdade, a manutenção do poder patriarcal. E querem as pessoas presas nos papeis de sempre e vigiando umas às outras, porque assim é mais fácil controlá-las. E assim são criados bodes expiatórios e respostas simplistas que serão úteis caso a desigualdade social aumente ainda mais por conta das medidas tomadas pelos tais “defensores da família”. Porém, incitar desconfiança entre semelhantes (não somos todos iguais?) e dificultar a melhoria de vida da população é realmente uma maneira de defender alguém? Ou é uma cortina que busca distrair todo mundo de problemas reais enquanto direciona ódio para quem não tem culpa de nada?

O problema não é o “gênero”, pode acreditar.

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POSTO, LOGO EXISTO

Se eu não postar, então não aconteceu? Estou te vendo, fala comigo. Se demorar muito, posso perder o interesse. Ou ficar obcecada e te googlar até encontrar fotos que você tirou durante uma viagem de férias em dois mil e sete. E sabe-se lá o que mais. O tempo anda muito acelerado, não temos paciência e nem concentração. Antes, um livro inteiro era devorado em um dia. Hoje, pulo de aba em aba, tentando ler ao menos metade dos textos que guardei para depois. Mas, a cada aba fechada, surgem outras dez abertas.

Alimentamos o presente com um senso de urgência causado por uma constância excessiva de informações. No entanto, não nos damos o tempo da digestão: todo-mundo-tem-que-ter-uma-opinião-sobre-tudo. Agora, neste exato instante. A presença online é um misto de marketing pessoal com doses amargas de autossabotagem. Jogamos The Sims com a nossa própria imagem. Quem sou eu, para além do meu avatar?

Notificações ativam o sistema de recompensa de nossos cérebros. Experimentos behavioristas, entretenimento ou construção coletiva de conhecimento? Like me, please. Pay attention to me. Tecnohedonistas em um panóptico virtual. Vigiar, punir, mandar nudes e ver uns gifs de gatinho. Novos formatos para antigos valores e a velha cooptação empresarial de sempre. A democracia continua a ser um sonho não colocado em prática. O seu desabafo não deixa de ser conteúdo gratuito. Passos mapeados, cliques monitorados e mentes controladas. Como é mesmo que se descobria as coisas antes de elas simplesmente aparecerem em nossas timelines?

Não quero instruções de uso e sim alguém que me ajude a montar. Dizer que faz não é fazer. Confirmar presença não é ir. Digitar dirigindo é vício? De qualquer maneira, deixa meu celular aqui embaixo do travesseiro. Gosto de dar olhadinhas nele antes de dormir e depois de acordar. De manhã, de tarde e de noite. Estamos livres e aprisionados. No que você está pensando agora?

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Este texto é a introdução do zine VULVA CONEXÃO, que lancei em junho de 2017 com o intuito de reunir algumas inquietações pessoais em relação a temas que envolvem principalmente capitalismo, machismo, seres humanos & a nossa querida rede mundial de computadores. Caso queira adquirir, ler na íntegra ou compartilhar os seus próprios pensamentos, deixe um comentário ou mande um email para vulvalarevolucion@gmail.com.