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POSTO, LOGO EXISTO

Se eu não postar, então não aconteceu? Estou te vendo, fala comigo. Se demorar muito, posso perder o interesse. Ou ficar obcecada e te googlar até encontrar fotos que você tirou durante uma viagem de férias em dois mil e sete. E sabe-se lá o que mais. O tempo anda muito acelerado, não temos paciência e nem concentração. Antes, um livro inteiro era devorado em um dia. Hoje, pulo de aba em aba, tentando ler ao menos metade dos textos que guardei para depois. Mas, a cada aba fechada, surgem outras dez abertas.

Alimentamos o presente com um senso de urgência causado por uma constância excessiva de informações. No entanto, não nos damos o tempo da digestão: todo-mundo-tem-que-ter-uma-opinião-sobre-tudo. Agora, neste exato instante. A presença online é um misto de marketing pessoal com doses amargas de autossabotagem. Jogamos The Sims com a nossa própria imagem. Quem sou eu, para além do meu avatar?

Notificações ativam o sistema de recompensa de nossos cérebros. Experimentos behavioristas, entretenimento ou construção coletiva de conhecimento? Like me, please. Pay attention to me. Tecnohedonistas em um panóptico virtual. Vigiar, punir, mandar nudes e ver uns gifs de gatinho. Novos formatos para antigos valores e a velha cooptação empresarial de sempre. A democracia continua a ser um sonho não colocado em prática. O seu desabafo não deixa de ser conteúdo gratuito. Passos mapeados, cliques monitorados e mentes controladas. Como é mesmo que se descobria as coisas antes de elas simplesmente aparecerem em nossas timelines?

Não quero instruções de uso e sim alguém que me ajude a montar. Dizer que faz não é fazer. Confirmar presença não é ir. Digitar dirigindo é vício? De qualquer maneira, deixa meu celular aqui embaixo do travesseiro. Gosto de dar olhadinhas nele antes de dormir e depois de acordar. De manhã, de tarde e de noite. Estamos livres e aprisionados. No que você está pensando agora?

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Este texto é a introdução do zine VULVA CONEXÃO, que lancei em junho de 2017 com o intuito de reunir algumas inquietações pessoais em relação a temas que envolvem principalmente capitalismo, machismo, seres humanos & a nossa querida rede mundial de computadores. Caso queira adquirir, ler na íntegra ou compartilhar os seus próprios pensamentos, deixe um comentário ou mande um email para vulvalarevolucion@gmail.com.

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Pelo direito de ser complexa: uma conversa sobre feminismo

Finalmente estou tirando a poeira do blog e fazendo o primeiro post de 2018. São tantas coisas acontecendo que, às vezes, me sinto tonta, inútil e paro de ver o sentido de ficar postando minhas ideias na internet. Contudo, navegar é preciso, não é mesmo? Por isso, tenho a honra de receber aqui mais uma conversa entre eu e duas mulheres que admiro muito: Clarissa Wolff, do canal A Redoma de Livros e da incrível coluna na Carta Capital com o mesmo título, além de autora do blog Doce (Catárticos); e Amanda V. (Deixa de Banca), jornalista e a mente por trás de um dos blogs mais divertidos que conheço.

Esse formato foi proposto pela Amanda e tem sido muito agradável poder abordar temas importantes de forma descontraída. Espero que vocês estejam gostando de nos conhecer desse modo um pouco mais íntimo! Em nossa primeira conversa, falamos sobre aquilo que nos une: escrever na internet. A segunda abordou reflexões sobre beleza. Agora, na terceira, relembramos como entramos em contato com o feminismo pela primeira vez e discutimos os desdobramentos que o tema trouxe para nossas realidades.

A gente debateu sobre questões atuais que envolvem o feminismo no contexto da internet e de uma sociedade consumista, que dissolve movimentos com o intuito de torná-los palatáveis, e enfatizamos a constante necessidade de práticas realmente politizadas, que priorizem as urgências atuais e tenham um posicionamento ético como norteador. Não deixamos de abordar também contradições e complexidades inerentes ao ser humano! Se liguem:

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Vulva Revolução: Oi, gente! Eu queria falar sobre como o feminismo começou a fazer parte de nossas vidas. E discutir como a relação com o movimento, teoria e afins acaba influenciando tanto a nossa forma de se relacionar com o mundo, quanto como o mundo se relaciona com a gente. Falar de cobranças, exigências de perfeição, benefícios e muito mais.

Pra começar: quando vocês entraram em contato com o feminismo, inicialmente?

Deixa de Banca: Acho que a primeira vez que entrei em contato com o feminismo foi lendo “O diário da princesa”, rs, um livro do começo dos anos 2000. A personagem principal se considera feminista. Um dos conflitos da história inclusive é ela querer ser uma “mulher independente” mas acabar desejando coisas que reconhece como misóginas. Como eu gostava muito desse livro, eu acabei não antagonizando o feminismo, eu o reconhecia como uma parada massa e da qual eu queria fazer parte.

Clarissa Wolff: Minha mãe sempre falou que era feminista, e eu cresci convivendo com essa palavra. Ela não estudava a fundo teoria de gênero na época como veio a estudar mais tarde, era aquele feminismo zero acadêmico, mas muito material: mulher pode fazer tudo que homem pode etc.

Vulva Revolução: Comecei a ler muito cedo e passava muito tempo sozinha lendo livros da biblioteca pessoal do meu tio. Foi assim que descobri o que era, tinha livro que citava ironizando, tinha livro que citava apoiando… Mas foi adolescente que comecei a ouvir bandas feministas, tipo Bikini Kill, e entender mais, embora eu também tenha crescido com essa ideia de que mulheres podem tudo. Ou melhor, quase tudo, pois sofri cerceamentos em um misto de conservadorismo familiar e senso de proteção das mulheres da minha família, que sabiam na pele que estamos expostas à violências específicas e, do modo que consideravam certo, tentavam alertar as mais novas.

Deixa de Banca: Minha mãe nunca se reconheceu como feminista, eu nem ouvia esse termo lá em casa… Mas ela sempre me incentivou a investir na minha carreira e a ter independência financeira em vez de priorizar casar ou ter filhos.

Vulva Revolução: Sobre “O diário da princesa”, o livro falava especificamente de misoginia e esses termos? Eu nunca li, então fico boiando.

Deixa de Banca: Fala sim! Elas falam sobre como a mídia é misógina, zoam os meninos da escola, hahaha. O livro é beeeeem moderno, me faz pensar em como estamos em momento de backlash mesmo.

Vulva Revolução: Gente, e eu sempre olhei com preconceito. Tá vendo que coisa feia, a gente às vezes descarta coisas que parecem “de menininha” automaticamente, rs.

Deixa de Banca: Bridget Jones também fala sobre feminismo aliás, haha.

Clarissa Wolff: Eu li ambos e não lembro disso.

Deixa de Banca: Mas naquela linha pós-feminista, acho que na época era bem forte esse conflito entre sentir que você precisa ser “independente” mas ao mesmo tempo querer viver um amor romântico, ser bonita etc.

Vulva Revolução: Que é o feminismo que a maioria de nós entra em contato primeiramente, não é? Essa ideia que “lava” os preceitos fundamentais do movimento para que ele permaneça vendável e a gente continue pensando a partir de um viés que privilegie a heteronorma e agrade o olhar masculino.

Deixa de Banca: Sim! Na adolescência foi bem forte pra mim essa visão do feminismo enquanto “liberdade sexual”, de poder transar “com quem quiser”.

Clarissa Wolff: Siiiiiim!

Vulva Revolução: Isso me faz pensar que, sei lá, às vezes nossas avós dizendo “não vá sair com esse cara, menina” porque sabem que um desconhecido (e até mesmo conhecido, convenhamos) pode nos causar males que a gente sequer imagina acaba sendo mais feminista na prática do que o que a gente absorve do feminismo mainstream que nos mantém na engrenagem que o sistema quer. Pra falar de liberdade sexual entre quem se relaciona com homens, por exemplo, tem que alertar sobre violência masculina, não tem jeito. É o nosso tempo ainda, infelizmente.

Deixa de Banca: Com certeza! Minha mãe ficava super preocupada comigo, falava que eu não podia confiar nos homens, que eles iam ficar falando mal de mim. E eu ficava com raiva porque achava que ela tava sendo conservadora, haha, mas hoje entendo que ela estava certa. Só mais velha fui ver que não era liberdade nenhuma, eu só tava colaborando com a minha própria objetificação. O que ajudou a despertar pra isso foi ler “Female Pigs Chauvinists”, da Ariel Levy, e o “Intercourse”, da [Andrea] Dworkin.

Clarissa Wolff: Mesma coisa comigo. O que me levou pra uma leitura mais estrutural das coisas foi refletir sobre anorexia e padrão de beleza. Fui ler coisas sobre esses processos, li [Michel] Foucault na época (de novo por causa da mamãe). Foi com essa consciência mais de classe que comecei a refletir as outras, e daí veio a liberação sexual e aquele meu texto que ficou famoso [“A falácia da liberação sexual e as novas formas de dominação”]. Mas sempre primeiro com essas pautas “classe média” que doíam em mim. E daí li esses mesmos livros.

Deixa de Banca: Caramba! Nossa, eu fico muito frustrada com esse ódio que é destilado contra a Dworkin na internet. Muita gente chama ela de desatualizada também. Mas tenho certeza que qualquer mulher que se relaciona com homens pegar um livro dela pra ler vai se identificar de alguma forma

Vulva Revolução: Eu gosto muito daquele texto, Clarissa! Ele super me inspirou a escrever um com desdobramentos do mesmo tema, o “Mulheres não gostam de sexo ou homens não gostam de mulheres?” e até hoje vem gente falar que sentia essas coisas todas, mas não sabia como dizer. Ou pensava que era conservadorismo sentir essas coisas.

Clarissa Wolff: (opa vou ler!)

As pessoas chamam a Dworkin de desatualizada?

Deixa de Banca: Sim, ela e feministas da segunda onda em geral… São “velhas”, a teoria “não se aplica mais” à nossa realidade…

Vulva Revolução: Nossa, sim. E o que me entristece sobre o ódio destilado contra a Dworkin é que foi uma estratégia de desmoralização orquestrada principalmente pela direita norte-americana e por veículos de mídia tipo a Playboy, que faziam charges e textos ridicularizando não apenas as ideias dela, mas a aparência. E isso até hoje reverbera! Até mesmo feministas compram essas ideias de que ela é um ser temível.

Clarissa Wolff: Já vi gente falando que a Dworkin é conservadora (por ser antipornografia etc), mas nunca desatualizada. O argumento não faz nem sentido. Mas tá, ignorando isso…

Deixa de Banca: Sim! Essa ideia de que ela é uma conservadora radical que odeia homens contaminou muitas feministas… E aí muita gente deixa de LER o trabalho dela pra formar uma opinião, que é justamente o objetivo dessa estratégia.

Clarissa Wolff: …eu acho que a Dworkin foi muito diabolizada por ser radical e também porque ela trabalha com conceitos bastante complicados e as pessoas não se aprofundam pra entender. Ler o “Intercourse” de cara é difícil sem ter nada de bagagem teórica anterior. Por isso tem macho que aparece falando que ela dizia que sexo é estupro, quando até na página da WIKIPEDIA tem citação dela dizendo que nunca disse isso.

Vulva Revolução: Vejo pessoas falando que o feminismo dos anos 1970 é desatualizado como um todo. Se for assim, ninguém vai ler nada de filosofia, sociologia e afins nunca mais então, porque sempre é preciso resgatar ideias antigas para pensar o agora.

Deixa de Banca: Exato! Como construir conhecimento sem olhar para o que foi produzido no passado? E às vezes na internet rola muito essa lógica de que se uma parada é “problemática” a gente não deveria ter contato algum com ela… O que é tão contraprodutivo! Porque até pra criticar a gente precisa ter um conhecimento profundo das opiniões adversárias

Clarissa Wolff: Sim!!!!

Deixa de Banca: E foi bem nesse clima que a internet estava quando eu comecei a usar mais redes sociais. Nos grupos “feministas” era quase só briga e gente postando nude, hahaha.

Clarissa Wolff: Hahahaha, caramba! É verdade, rolavam muitos nudes. Em Porto Alegre a gente tinha um grupo mais organizado que foi o primeiro grupo que a gente realmente discutia coisas mais profundas – com briga, mas com argumento teórico, discussão e etc.

Vulva Revolução: Nossa, tinha muito isso mesmo e era bastante desgastante ver tanta gente depositando energia em busca de treta. Sou um pouco mais velha, então peguei uma fase boa no Orkut, com fóruns mais bem organizados e temas sendo discutidos com um pouco mais de profundidade. Tinha um grupo chamado “Feminismo e libertação” que era excelente, me ensinou muita coisa e conheço algumas meninas de lá ao vivo e mantenho contato até hoje. O Facebook deixou tudo mais chato, acho que pelo próprio formato dele. Parece uma arena com um monte de gente falando aleatoriamente com um megafone em busca de visibilidade para si e não em prol de uma construção coletiva de conhecimento…

Deixa de Banca: Sim! Era um uso bem individualista de conceitos que são coletivos. Então era fácil mobilizar as pessoas umas contra outras por tretas individuais como se isso fosse uma grande ação política.

Vulva Revolução: Já participei de lista de emails também que eram bem legais e informativas, mas hoje é tanta coisa o tempo todo que não consigo mais me organizar. Eu abro meu email e tem tanta propaganda, tanta coisa, me sinto zonza. Talvez realmente seja a hora de a gente aprender a organizar o conteúdo que já tem e não só de produzir mais conteúdo? Não sei…

Deixa de Banca: Nossa, sim! Eu também sinto que meu principal problema é não conseguir me organizar pra consumir o conteúdo que eu tenho interesse de consumir. Acaba que eu passo muito tempo lendo potoca no Twitter por já ter me acostumado com esse processo mais passivo das redes sociais, que já fazem toda uma curadoria pra gente

Clarissa Wolff: Eita, como assim?

Vulva Revolução: Não sei, só sinto uma enxurrada de informação me golpeando a todo o instante e às vezes acho que não consigo absorver ou me concentrar em algo como já consegui antes.

Deixa de Banca: Eu nunca usei Google Reader, mas direto vejo gente falando que sente saudade porque ajudava nisso de se organizar

Vulva Revolução: Acho que isso acaba facilitando esse momento atual de dissolução do feminismo e de outros movimentos, né? Todo mundo consumindo manchetes loucamente, todo mundo nessa desorganização e excesso, nesse bombardeio de spam e propaganda, tentando fazer algo útil, mas se sentindo soterrado e absorvendo mais facilmente um feminismo mais clean, prático, rápido.

Clarissa Wolff: Mas será que não foi sempre um pouco assim? O consumo de televisão e revista e jornal e toda a lógica publicitária e de hierarquia de informação existe há 100 anos, fico nervosa com o fatalismo da análise do momento atual, hahahah. Eu acho que qualquer ferramenta é passível de manipulação que gere usos “negativos”.

Vulva Revolução: Ah, sempre! Mas acho que estamos numa transição de modelos e isso traz algumas novidades, embora nem tão novas assim…

Sobre isso de “mobilizar as pessoas umas contra outras por tretas individuais como se isso fosse uma grande ação política”, isso é muito real e me causa muita tristeza. Claro que desnudar machistas, racistas e buscar combater desigualdades e opressões expondo esses comportamentos é importante. Mas vejo essa estratégia sendo usada às vezes com um fundo de rivalidade feminina, quando é contra mulheres, ou com um senso de incompreensão da complexidade humana, exigindo figuras perfeitas.

Clarissa Wolff: A lógica da lacração, né? Nossa, me incomoda muito também.

Deixa de Banca: Nossa, sim. E o pior é ver quem chama esse comportamento de “militância” kkkkkk. Taí mais uma palavra que teve o significado esvaziado.

Vulva Revolução: Uma vez uma moça que mal conheço veio me mostrar prints de uma briga boba que ela teve com outra. Era uma questão que poderia ter sido resolvida entre ambas, envolvia desconfianças e coisas que não eram tão “graves” e tal. Como confiar nessa moça e continuar conversando com ela, por exemplo? Como saber o contexto real daqueles prints? Por que, aliás, eu estava entrando em contato com prints de pessoas que sequer conheço pessoalmente? A gente tem que ficar sempre atenta, porque realmente, há muita confusão entre o que é prática política ou não.

Clarissa Wolff: SIM.

Deixa de Banca: Sim! Pensando nisso, uma coisa que me interessa muito é a recepção ao trabalho criativo de mulheres… Porque se você já fala de uma experiência feminina por um viés um pouquinho mais crítico já colocam aquela etiqueta de FEMINISTA e com ela todo aquele peso que a Vulva falou mais cedo, aquela cobrança de perfeição.

Vulva Revolução: E quando falo dessas coisas, não é em momento algum visando dar munição pra conservadores e pessoas contra o feminismo. Mas pra alertar a nós mesmas sobre como podemos nos machucar, às vezes. A impressão que tenho em alguns momentos é que os homens se unem contra as mulheres, e as mulheres se unem contra elas mesmas. Ou seja, estamos sempre em desvantagem. Queria um senso de ética mais forte entre a gente, de proteção, de saber resolver nossos problemas com diálogo franco e privado, pois nossa liberdade é muito frágil e sempre tem urubus à espreita querendo uma chance pra nos atacar.

Clarissa Wolff: Esses tempos eu entrevistei a Giovana Madalosso, escritora, e ela me falou algo que eu gostei muito. Ela disse “eu sou feminista, minha literatura não”. Porque o trabalho criativo pode ser isento de intenção, saca?

Deixa de Banca: Eu vi essa entrevista! Muito boa. Me identifiquei bastante! Porque a arte não precisa ter um caráter prescritivo, né? E quando a gente entra no campo da política inevitavelmente estaremos discutindo como as coisas deveriam ou não ser. Sem contar que nem sempre a vida pessoal da pessoa vai ser exemplar porque todo mundo é meio confuso… Já vi falarem que a Frida Kahlo não é “feminista” por causa do relacionamento dela com o Diego [Rivera]. Pra começar, por que a gente precisa discutir se a Frida era ou não feminista? Por que a gente não pode entender quem ela é e o que o trabalho dela era, em vez de tentar encaixar ela em expectativas do que uma mulher “forte” ou “livre” deveria ser?

Clarissa Wolff: Sem falar que existe uma diferença entre a nossa compreensão racional e o quanto o nosso emocional nos permite desconstruir na nossa vida. O ser humano é naturalmente incoerente, sabe?

Vulva Revolução: Sim!! Não sei se concordo que o trabalho criativo é isento de intenção exatamente, mas sei que ele pode, muitas vezes, estar trazendo outras facetas que existem dentro de uma pessoa. E a gente precisa complexificar mais o nosso olhar, para entender a complexidade alheia, ao invés de ficar desejando ícones perfeitos e que dialoguem com os nossos anseios de uma forma literal, didática, tatibitati.

Clarissa Wolff: Sim! A gente tem uma tendência de necessidade de ídolos, né? Sobre ser isenta de intenção, me corrijo: não é que ela obrigatoriamente seja, mas pode ser.

Vulva Revolução: Tem aquela moça do Carne Doce, que sempre criticam uma música dela, “Passivo” e, tipo, embora eu nem concorde com muita coisa que já vi ela defendendo, entendo que, enquanto artista, ela explora o que quiser dentro dela e joga pro mundo. Ela não está cantando que quer apanhar enquanto uma líder da ONU, mas enquanto uma artista investigando e apresentando lados diversos de sexualidade e violência, sei lá? Já vi também criticarem uma quadrinista que conheço por ser “falocêntrica” sendo que a personagem que ELA CRIOU está explorando um caminho único que não tem o intuito de ser a representação de todas as mulheres do mundo.

Deixa de Banca: Sim! E essa confusão entre ativista e figuras públicas é prejudicial pra quem de fato se engaja com militância, que tem seu trabalho ignorado

Vulva Revolução: Exatamente! Torna invisível quem está realmente trabalhando para representar ou ser a voz de um grupo. Creio que certas exigências são um tiro no pé por deixarem mulheres que criam de mãos atadas. Acho que tudo é passível de crítica sim, mas a gente tem que criticar com contextualizações. Tentando entender a trajetória da pessoa e não apenas levando em conta nossas expectativas de consumir produtos 100% “empoderados”, rs.

Clarissa Wolff: Exaaaato! Eu acho que existe uma diferença também da mulher falar da experiência PRÓPRIA x o homem falar da experiência do outro, da mulher. Tipo: uma coisa é a mulher falar que (pela condição de mulher e tudo que ela viveu) pode sentir vontade de ser submissa, outra coisa é o homem falar que quer uma mulher submissa. Mas, ao mesmo tempo, tenho um pé atrás com arte que normatiza situações de opressão, tipo “Cinquenta tons de cinza”, porque acho que a cultura e a arte são formas muito poderosas de mudanças e acho que a manutenção da ideologia do status quo passa muito pela arte e pelo entretenimento

Vulva Revolução: Ah, claro! Também acho e critico várias coisas, aliás. Só fico pensando que, às vezes, as mulheres tem um grau de exigência muito alto, tipo “VOCÊ NÃO PODE DIZER ISSO OU DIZER QUE SENTE ISSO” e, sei lá… Eu entendo a análise feminista que fala sobre a mulher erotizar a própria opressão e, ao mesmo tempo, já pedi pra levar uns tapas na hora do sexo?????? Ainda somos frutos desse tempo, em alguns momentos, por mais sofisticados que sejam os nossos pontos de vista, kkkkkkkk.

Clarissa Wolff: Ah, sim, com certeza. E retornando o que foi dito lá em cima, evitar 100% nem sempre é a solução. Me lembra aquele episódio da nova temporada de Black Mirror que a mãe censura o que a filha vê.

Vulva Revolução: Não assisti, mas minha mãe me deu os spoilers todos, rs. Sobre esse lance da perfeição, vocês se sentem cobradas por serem feministas?

Clarissa Wolff: Quando eu ainda era ativa na militância, sim. Hoje em dia que tô afastada, bem menos.

Vulva Revolução: É claro que, assim, com o florescimento da minha consciência feminista, passei a me esforçar pra ser cada vez mais uma pessoa melhor, mais ética e justa. E é muito bom esse sentimento, porque ele parte de um profundo senso de respeito ao próximo e não por medo ou coisas que religiões, por exemplo, tentam impor.

Deixa de Banca: Não. Eu sinto um conflito grande entre querer ter autonomia e ser codependente em relação a homens, mas não vejo em termos de estar sendo menos ou mais feminista. Mas eu nunca tive envolvimento com ativismo feminista, só leio livros sobre o tema e tento aplicar na minha vida pessoal mesmo.

Clarissa Wolff: Mas você não sente essa cobrança externa? As pessoas chegam pra você xingando “como pode gostar de x se é feminista”?

Deixa de Banca: Já rolou cobrança externa sim, por conta de alguns textos que escrevi, mas não me lembro de ter internalizado. Eu sou bem segura comigo mesma nesse ponto (em outros nem tanto). Mas acho que pode ser também porque nunca me envolvi com ativismo, então nunca fui cobrada a um nível que eu realmente considerasse importante. Gente me xingando na internet sempre tá falando besteira, nunca é uma cobrança que eu considerasse de fato válida

Vulva Revolução: Eu sinto que tem gente que tenta usar contra mim. Já me xingaram com termos misóginos, por exemplo, e depois me mandaram artigos acadêmicos sobre ressignificação de xingamentos e se eu fosse feminista mesmo, deveria aceitar e entender, rs. E sempre tentam me colocar nessa berlinda do “se você for feminista mesmo” e aí me empurram uma vontade meramente arbitrária e individual. E isso me deixa até confusa, pois feministas são as piores pessoas do mundo aos olhos do senso comum, mas ao mesmo tempo o senso comum espera as melhores coisas delas.

Você já teve envolvimento com ativismo feminista, Clarissa? Nesses moldes de se envolver politicamente? Eu sempre tive dificuldade, nunca fiz parte de nada organizado e presencial, tipo movimentos, grupos de mulheres, essas coisas. Nos últimos anos comecei a fazer mais eventos relacionados ao blog ou participar de eventos de outras pessoas, tenho um grupo de leitura feminista com outras mulheres, faço atividades em escolas ocasionalmente, ou oficinas em outros lugares, produzo material impresso, mas me sinto sempre muito sozinha. Ou, melhor dizendo, autônoma, independente?

Clarissa Wolff: Eu já, mas meio à distância. Ia em alguns encontros, mas não todos, saca? Também fazia muita coisa por mim, tipo ia em um protesto, fotografava e disponibilizava as fotos, ou produzia festa e doava os lucros. Eram coisas que mantinham um pouco uma distância, porque eu sou uma pessoa muito sozinha, não gosto de sair demais pra coisas presenciais. Então eu ia no que conseguia, tipo uma vez a cada dois meses.

Vulva Revolução: Nunca me sinto bem de me definir enquanto ativista, por nunca ter sido de um coletivo ou algo assim, mas ao mesmo tempo considero minha atuação importante. Acho que, de certo modo, nós todas temos uma personalidade parecida nesse aspecto! De ser mais pra dentro, não pra fora. Pra ser de coletivos e movimentos presenciais tem que ter um fôlego que eu não tenho, perdi o medo de falar em público tem pouquíssimo tempo.

Mas sempre fiquei muito tempo com minhas ideias e acho que a internet é fundamental nesse aspecto, porque se não fosse de outro jeito, eu não sei se estaria me articulando com tanta gente.

Deixa de Banca: Também tenho dificuldade de me relacionar com grupos de pessoas e essa é a questão que mais me afasta de um envolvimento com ativismo.

Clarissa Wolff: Eu acho também que qualquer grupo que constrói algo junto gera muita briga de ego, e isso também me manteve afastada.

Vulva Revolução: Nossa, sim! E nem sempre as pessoas estão na mesma página ou se dedicam com o mesmo afinco a algo que foi decidido conjuntamente. É muito complicado. Entendo que nem todo mundo tenha tempo ou disposição emocional pra se envolver com temas mais abertamente politizados, mas não dá pra negar que às vezes falta uma noção maior de responsabilidade sobre si mesmo. E sobre as próprias ações…

E o ser humano já é complicado por natureza, então acho que quando está lidando com questões tão dolorosas, pessoais, que envolvem direitos, experiências negativas, descobrimentos, tudo fica ainda mais difícil, porque cada pessoa está em uma fase diferente, enfrentando questões diferentes… Só político branco e rico mesmo que consegue achar que política não envolve áreas profundas do próprio subjetivo e fala toda hora em termos técnicos e supostamente imparciais, kkkkkk (cada k uma lágrima).

Clarissa Wolff: kkkkkkk (aqui também).

Vulva Revolução: Mas vamos falar de uma coisa boa: o impacto positivo do feminismo em nossas vidas. Porque temos críticas e anseios, mas acho que é um tipo de conhecimento que traz muita libertação também.

Deixa de Banca: Vamos! Acho que o feminismo foi muito importante para que eu pudesse me desprender de varias expectativas que me faziam mal. Como necessidade de estar maquiada, depilada, de ser sempre compassiva, de não valorizar minha produção intelectual, de antagonizar outras mulheres, de buscar aprovação masculina o tempo todo… E também foi pelo feminismo que eu reconheci meu racismo e consegui desenvolver empatia pelo movimento negro

Vulva Revolução: Eu melhorei minha relação comigo mesma, com os outros, com minha aparência, peso (uau, quem vê pensa que tô vendendo shake da Herbalife) e desconstruí muitas certezas sobre o mundo ao meu redor que me deixaram com um olhar mais aberto para novos modelos de relações amorosas, amizades, que me fizeram entender mais outras mulheres, inclusive as da minha própria família.

Deixa de Banca: Nossa, isso de entender mulheres da família foi muito forte pra mim também. Parei de antagonizar a minha mãe depois do feminismo. Nossa relação ficou muito melhor.

Clarissa Wolff: Eu melhorei muito a minha autoestima, minha relação com o mundo e também entendi melhor quem eu quero ser e como me posicionar pelo que eu acredito. Acho que a relação com as outras pessoas também muda, vira mais verdadeira e a gente perde menos tempo com relações superficiais

Vulva Revolução: A gente para de culpar nossas mães por tudo, né? E começa a entender que elas sofreram ou podem ter sofrido todas as mesmas coisas que outras mulheres por aí, infelizmente (aliás, a gente sempre acaba mencionando nossas mães nessas conversas! Só uma observação curiosa).

Clarissa Wolff: Hahahahaha, é verdade. E, sim, o foco deixa de ser o conflito.

Vulva Revolução: Eu acho legal a gente abordar a parte boa, pra que fique claro que as críticas visam apenas reflexões que tragam melhorias para todo mundo. Já não tenho mais paciência pra umbiguismos, pra mulher branca sendo tratada como universal e mais importante, então se a gente pensa em como as alterações individuais podem ajudar nas mudanças coletivas, a gente vai guiando nosso trem pra trilhos mais firmes…

Clarissa Wolff: Eu admiro muito mulheres como a Gail Dines que seguem firmes no fazer político mesmo depois de tanto tempo.

Vulva Revolução: Nossa, e mesmo com tanta pedrada.

Essa parte de não antagonizar mulheres que a Deixa de Banca falou foi muito importante pra mim, até porque além do bem-estar causado por alimentar amizades profundas, existe também uma parte política importante no agrupamento entre mulheres. A gente ganha mais voz e força mesmo nos âmbitos mais individuais da vida. Só acho que isso precisa agora ser rompido com mais força quando se fala em brancas e não-brancas de modo geral. Às vezes me irrito quando alguém me fala “precisamos levar o feminismo para a periferia” e sempre respondo “você é que precisa conhecer o feminismo feito na periferia”.

Deixa de Banca: Concordo 100%!

Clarissa Wolff: Sim!

Vulva Revolução: Pois enquanto mulheres brancas, percebo que não temos que “levar conhecimento” desse modo paternalista, mas ajudar outras mulheres a ter acesso ao que temos. A maioria das mulheres sabe que não “merece” apanhar, mas não tem acesso aos próprios direitos, não é amparada por leis como deveria, não conhece os trâmites burocráticos (que é diferente de não entender a situação em que se encontra).

Clarissa Wolff: Você falou em Bikini Kill, a Kathleen Hannah largou o riot grrrl por coisas assim.

Vulva Revolução: Sério? Li uma entrevista muito boa dela naquele livro “Não devemos nada a você” em que ela estava em um período de muitos dilemas, mas não sabia. O que ela disse sobre o movimento?

Clarissa Wolff: Eu li no livro “Girls to the front” como o racismo impactou, ela acabou saindo por causa de coisas assim.

Vulva Revolução: Nossa, não sabia! Eu facilitei uma roda de conversa em um espaço no Rio de Janeiro [Motim] e a Bah Lutz, do Bertha Lutz [banda punk e feminista de Minas Gerais], desenvolve um projeto em forma de zine chamado “Preta & Riot” em que ela mapeia mulheres negras envolvidas com o riot grrrl no Brasil. Ela falou bastante sobre a invisibilidade negra nesse meio e sobre a canonização da Kathleen Hanna que acaba centrada nessa cultura de idolização e celebrização que tanto queremos acabar. Isso me fez ver que eu mesma conhecia poucas mulheres negras envolvidas com o riot grrrl e comecei a pesquisar mais e mais, com a ajuda do material dela, inclusive.

Deixa de Banca: Aliás, uma coisa que me incomoda é essa percepção de que o feminismo é branco quando, na real, sempre existiram mulheres negras organizadas para defender os seus interesses. A diferença é que as brancas têm mais credibilidade e visibilidade na sociedade. A bell hooks fala muito sobre isso em “Ain’t I a Woman”. Então às vezes uma crítica ao feminismo que se entende como racialmente consciente na verdade está invisibilizando mais ainda o trabalho de mulheres negras

Vulva Revolução: Sim, isso é! Existem mulheres negras organizadas desde sempre e que precisam de visibilidade enquanto grupo, e às vezes o discurso branco fica se repetindo muito entre “precisamos reconhecer nossos privilégios” e “precisamos incluir mulheres negras” (como se elas estivessem de fora e não como se já estivessem organizadas). Precisamos ler, consumir, assistir, naturalizar a intelectualidade negra e os feitos de pessoas negras em nosso cotidiano, e não só falar da nossa culpa branca e aceitar uma e outra.

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“Pela Moral e os Bons Costumes”

Quem me acompanha sabe que não apenas sou uma grande entusiasta do cenário independente e autoral, mas também me movimento bastante dentro dele, seja frequentando, apoiando, colaborando, escrevendo sobre ou produzindo o meu próprio material. Desde a minha primeira publicação impressa feita enquanto Vulva Revolução, muitas outras surgiram – e ainda vão surgir.

Fui convidada para escrever o texto que apresenta a exposição da MOTIM – Mercado de Produção Independente deste ano, que traz o tema “Pela Moral e os Bons Costumes” e conta com ilustrações diversas, e resolvi compartilhá-lo aqui no blog. O evento acontece em Brasília e, junto com outras iniciativas (como a Feira Dente, que sou muito fã), tem movimentado bastante a produção independente local. Literatura, quadrinhos, fanzines, pôsteres, fine art e música: tudo é possível nesses espaços, onde o que circula surge de mentes e esforços desconectados de uma lógica convencional de mercado.

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Leia o texto, apareça na MOTIM e apoie artistas independentes – ah, e eu vou estar por lá com as minhas coisas, claro! Por mais diálogo e gente que faz, e menos obscurantismo, por favor.

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Para abrir a 4ª edição do MOTIM – Mercado de Produção Independente, a exposição “Pela Moral e os Bons Costumes” traz pôsteres ilustrados por artistas de todo o Brasil. As imagens evocam reflexões sobre o cenário atual do debate político no país, que entre choques e polarizações, anda aflorando bastante os ânimos de uns e outros. Por Deus e pela família, cidadãos e cidadãs de bem rasgam a roupa alheia para limpar as nódoas que mancham os próprios tapetes.

A sujeira que é varrida para os cantos, no entanto, não esconde a moral que acaba por suspender a ética – e se preocupa mais em controlar a individualidade alheia em prol de uma massificação de péssimas práticas disfarçadas de bons costumes. Enquanto problemas concretos se acumulam, secundarizados e sem resolução, o grito agudo do pânico social preenche lacunas com respostas rasas e reducionistas. Ressona alto, é verdade, mas se dissolve no esquecimento na mesma medida em que faz barulho.

Talvez por isso seja tão fácil reciclar slogans que, em uma sociedade que se diz democrática, há tempos deveriam estar enterrados. O autoritarismo de quem quer limar o discurso alheio na porrada é um filho legítimo de um período obscuro do Brasil. Durante a ditadura militar, aparatos de repressão buscavam eliminar as dissidências – fossem elas políticas, sexuais ou sociais – justamente ao defender a tal da moral e dos bons costumes, termos tão abstratos quanto arbitrários no modo em que são utilizados.

Instituições de séculos atrás e figuras de autoridade detentoras de recursos financeiros e poder estão, a todo o momento, tentando disseminar a ideia de que a maior preocupação que possuem é o bem-estar coletivo. Enquanto alistam forças para atuar na linha de frente do ódio e do vigilantismo, trabalham também na sofisticada engrenagem que tem o objetivo de manter o status quo intacto. Artistas são utilizados como bodes expiatórios e taxados de criminosos e canalhas por aqueles que verdadeiramente merecem tais adjetivos.

O mal é tido como uma entidade oculta em manifestações artísticas que descortinam camadas diversas do comportamento humano que, na realidade, merecem análises atentas. Em uma caça maniqueísta que precisa encontrar culpados imediatos, contextualizações são atropeladas por conclusões apressadas e literais que não alcançam subtextos. O deboche, o escracho, a diferença, o desvio ou a crítica, porém, permanecem assinalados – e quem apertar bem os olhos poderá enxergar que estamos todos enrolados na manta de um rei que está nu.

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Hugh Hefner: representante do patriarcado, não da “revolução sexual”

Hugh Hefner morreu. Um ícone de nossa era.

Ícone do ódio às mulheres e da naturalização do pornô e da cafetinagem, como disse a pesquisadora feminista Gail Dines, especialista em pornografia. Segundo a estudiosa, ele chamava mulheres de “dogs” e comoditizou, no jogo capitalista, o corpo feminino. Por fim, acoplou tudo isso à intelectuais, para tornar cool a ideia do império que estava a construir em cima de noções bem misóginas do que é ser mulher.

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Hefner e mulheres que utilizava de acessório para pagar de poderoso

Hefner morreu de causas naturais aos 91 anos, na noite da última quarta-feira, 27 de setembro. Ele estava na Playboy Mansion West, casa em que vivia em Los Angeles (EUA). Desde então, o assunto está sendo abordado em diversos veículos de mídia. Claro, mais um pedaço do século XX se foi em uma figura histórica. É inegável a influência cultural do empresário: a Playboy não é apenas uma revista, é também uma ideia, um estilo de vida. Mas, espera aí… Empresário?

Em um artigo escrito em 2006 sobre os 80 anos de Hefner, Dines e Robert Jensen apontaram que ele é, na verdade, um dos cafetões mais famosos de que se tem notícia. Ele não apenas ajudou a naturalizar a venda de corpos de mulheres, como construiu a própria riqueza em cima dessa venda. E ainda conseguiu ser visto como um representante da “revolução sexual”, mesmo propagando um conceito de liberdade que se relaciona com o “acesso à sexualidade feminina baseado nas necessidades e regras masculinas”, nas palavras dos autores citados acima.

Como disse a feminista Claire Heuchan, que já teve texto traduzido por aqui, “Hefner não era, como alguns clamam, um pioneiro da revolução sexual. Não tem nada revolucionário em homens explorando mulheres para a própria gratificação sexual ou ganho financeiro – isso vem acontecendo por centenas de anos, e se chama patriarcado”. Ouch. Ela acrescentou ainda que, embora ele esteja sendo celebrado como um ícone cultural que mudou o mundo, as mudanças não foram boas: ele ajudou a normalizar a objetificação feminina e pavimentou o caminho para uma cultura pornográfica.

Para quem quiser argumentar dizendo que a Playboy não é pornografia, pense no seguinte: a revista – e a empresa – alimentaram (e ainda alimentam) uma imagem pornificada da mulher que reverberou culturalmente no imaginário coletivo. E a Playboy possui braços em inúmeras áreas, de canais pornográficos a licenciamento de produtos de diversos tipos. Essa atuação múltipla envolvia (e envolve) não apenas uma ~atmosfera pornificada~ mas também pornografia de fato – o que com certeza ajudou na disseminação da atmosfera glamourizada que envolve a marca, inclusive.

O problema é que, de acordo com relatos de várias “coelhinhas”, esse glamour é uma mentira – como sempre costuma ser. Como dizem por aí, marketing é a alma do negócio, não é mesmo? Existem diversas acusações contra Hefner e contra homens que estavam ao redor dele, que envolvem assédios, abusos, agressões e até estupros – o que, infelizmente, não é tão surpreendente assim. O que esperar de pessoas que enxergam mulher apenas como um produto lucrativo ou um brinquedo sexual?

Em 1963, a feminista Gloria Steinem se infiltrou em um Playboy Club que era parte da cadeia de casas noturnas e “entretenimento” da empresa e escreveu o icônico artigo “Eu fui uma coelhinha da Playboy”. Aqui neste blog, de mesmo nome do texto, é possível ler a tradução em português, bem como a repercussão gerada pela publicação de Steinem, que não apenas foi uma das primeiras pessoas a desnudar o falso glamour que era divulgado, como revelou questões trabalhistas problemáticas dentro da Playboy. A gama de problemas encontrada envolvia também invasão da vida pessoal e controle de saúde, sexualidade e aparência das trabalhadoras (as mulheres que trabalhavam nos clubes também apareciam nas revistas e etc, leiam para entender melhor).

Em 1970, Hefner disse que as feministas eram “inimigas naturais” da Playboy e ordenou que fosse escrito uma reportagem “devastadora” que destruísse as militantes. Várias foram as charges publicadas na revista ridicularizando quem se opunha aos ideais do magnata. A escritora feminista Andrea Dworkin, por exemplo, foi perseguida pela publicação diversas vezes. Por isso, é preciso observar atentamente o conteúdo do que homens assim tentam vilanizar para não acabar comprando e endossando a narrativa que eles querem empurrar como certa.

No mesmo ano, a escritora e jornalista feminista Susan Brownmiller disse a Hefner, em um programa de televisão, que o papel que a Playboy dava às mulheres era degradante por colocá-las apenas como objetos sexuais – e não seres humanas completas. E, então, quando perguntou se um dia ele iria aparecer com um rabinho de coelho na bunda, Hefner apenas sorriu e balançou a cabeça.

Claro que não.

Ainda assim, Hefner tentava disfarçar a própria misoginia afirmando apoiar a luta feminina. No entanto, o apoio dele se restringia a questões que o beneficiasse sexualmente, discurso batido que até hoje é fortemente veiculado por aí. Vivemos em uma sociedade que fala muito de sexo, mas sob um viés altamente heteronormativo e patriarcal. Sexo de verdade precisa envolver prazer e respeito mútuo – ideia aparentemente simples, mas que balança muitas estruturas do status quo que buscam dominar e controlar mulheres.

Por isso, considero preocupante que Hefner seja idolatrado e apontado como um herói a partir de um ideal deturpado, infantilizado (c’mon, mulheres gostosas com roupinha de coelho?) e violento do que é ter sucesso. Considero preocupante também que muita gente, ainda hoje, confunda senso crítico com moralismo. Discutir a mercantilização de corpos femininos e construções hegemônicas de sexualidade é importante. Estamos falando de mercados bilionários que moldam subjetividades, exploram pessoas (principalmente mulheres) e lucram bastante, sem sequer repassar isso de maneira justa a quem está na “linha de frente”.

Com a partida de Hefner sinalizando um marco, me pego pensando em como seŕá daqui pra frente. Dines e David Levy escreveram em um artigo sobre como o recente declínio do império Playboy não é uma vitória feminista (lembram quando a empresa estava tentando convencer mulheres a posar de graça?), mas da pornografia mainstream. Eles apontaram, inclusive, que o pornô, cada vez mais acessível, é também cada vez mais agressivo.

E, convenhamos: ninguém fala abertamente sobre sexo, como já lamentei acima, nem sobre os próprios desejos, medos, dúvidas ou anseios. Não se pode discutir esse tema em escolas, não existem programas suficientes que orientem a juventude nesse sentido, fundamentalismos ganham mais e mais espaços… As pessoas estão soterradas em desinformação.

Um pedacinho do patriarcado como conhecemos se foi, mas a tecnologia do século XXI está a todo vapor, criando realidades novas que continuam a carregar valores muito antigos. O que vem agora?

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Por uma sensibilidade que seja mais do que mera ferramenta estética

Ser mulher não é fácil, mesmo em meios alternativos. Assim como muita gente, sempre enxerguei cenários independentes como mais do que um lugar para se estar quando não se consegue fazer parte do mainstream. O considerado alternativo é – ou deveria ser – uma construção que visa peitar a hegemonia de discursos que se baseiam primordialmente em lucro excessivo, padrões impostos e o mito do sucesso individual.

Zines, discos gravados em estúdios caseiros, composições que contestam valores negativos vigentes, blogs, editoras pequenas, shows organizados por amigos ou o simples fato de explorar uma estética visual ou sonora específica porque se identifica e acha interessante constituem maneiras de não apenas fazer valer a própria voz, mas também de tentar orientar o mundo atual para um novo rumo.

Faça-você-mesmo, coletivize, expanda, integre – toda e qualquer pessoa é uma enorme potência.

Porém, estamos inseridos em uma realidade machista, racista, misógina, homofóbica e tudo mais. E isso acaba sendo reproduzido mesmo em ambientes que estão dispostos – pelo menos na teoria – a eliminar discriminações e violências. Daí o que acaba sendo criado pode funcionar mais como uma máscara do que como uma proposta real de ruptura com preconceitos e modelos ultrapassados. Palavras de ordem são esvaziadas em prol de marketing pessoal.

Claro que estou, para fins de entendimento, reduzindo e polarizando questões que são complexas. Na vida real, não é tão fácil assim traçar a linha entre quem está de um lado “bom” ou não, até porque discutir o que se passa em meios alternativos é ir para além de maniqueísmos. Qualquer pessoa pode fazer ou falar merda um dia, somos todos humanos – e a humanidade está fadada à imperfeição. No entanto, existem fatores que devem ser observados: vacilos isolados (desde que não extremos, claro) são coisas bem diferentes da escrotidão como modus operandi.

Muitos homens, infelizmente, repetem constantemente o modo de ser da masculinidade hegemônica em espaços independentes. Construir e somar vira uma simples ideia bonita que, na prática, é substituída por dominação e apropriação – das causas alheias, da força de trabalho alheia, do corpo alheio, do sentimento alheio, que seja. E ao mesmo tempo em que muitos deles agem sem cuidado com o outro, alimentam uma suposta imagem de diferentões e preocupados com causas sociais que só serve para benefício próprio – e também como escudo contra críticas e denúncias.

Certa vez, a artista londrina Polly Nor – que faz ilustrações incríveis, aliás, e quem acompanha o blog já deve ter percebido que sou fã – postou o seguinte comentário irônico no Twitter:

“Ele é um cara muito legal, é apenas meio merdão com as garotas” = Meu colega é ruim com outros seres humanos. Mas só com mulheres. Então quem liga? Eu não.

É exatamente assim que funciona. E é exatamente o que não aguentamos mais.

Mulheres não querem ser objetos, a população LGBTQI não quer ser alívio cômico e pessoas negras não querem ser invisíveis e excluídas. Portanto, é muito importante que artistas tenham em mente que a sensibilidade deve ser mais do que uma ferramenta estética. Mais do que um modo de emocionar, cativar e criar identificação. Para que haja verdade no que se diz e no que se faz, é preciso ser, de fato, sensível. A pluralidade existe, e os meios independentes precisam abraçá-la de forma realmente humana, e não com a mentalidade de usar e descartar – que é o que já acontece, de maneira geral, em diferentes situações.

Contudo, minha concepção de ~sensível~ não envolve andar de roupas brancas em um campo verdejante e sorrindo para os pássaros. Ou simplesmente falar de energias, vibes e amor. O que quero dizer é que é preciso, justamente, escapar desse clichê raso. Valorizar o trabalho alheio, tratar bem quem integra sua comunidade, desmistificar justificativas pessoais que colaborem com um estado contínuo de vacilação, falar sobre sentimentos reais – sejam eles tristes ou felizes – e se colocar em uma posição de escuta e troca de ideias já é um bom começo.

Felizmente, cada vez mais mulheres – e minorias em geral – estão tomando as rédeas da criação artística e ganhando espaço. Ou melhor, conquistando na marra mesmo, à custa de muito suor. Ainda há muito a ser trilhado, obtido e problematizado (de acordo com o recorte que se escolhe analisar, novas questões importantes emergem, em um árduo caminho sem fim), e é essencial estar sempre em movimento, desconstruindo e construindo, para que o próximo passo não seja dado em um buraco sem chão – ou no piso de sempre.

Para finalizar este post, deixo a dica desse vídeo maravilhoso com a cantora, poeta e mil outras coisas, Tatiana Nascimento. Ele foca mais em literatura, mas com certeza vale pra outras áreas também. Ela é uma artista brasiliense, negra e lésbica, que já foi de bandas de hardcore, é doutora em literatura, cuida da Padê Editorial, por onde se autopublicou e publica pessoas LGBTQI, criou a mostra Palavra Preta, que coloca autoras e compositoras negras em evidência, entre muitas outras atividades. Tive a honra de trabalhar com ela em alguns projetos esse ano e foi inspirador. Como afirmou na filmagem, é preciso essa “(…) coisa de ter uma política de anúncio de mundo novo que seja junta, colada, com a de denuncismo das estruturas velhas, que precisam ser derrubadas”. Avante!

Aproveitem também para conhecer mais trabalhos atuais de minas do cenário independente brasileiro. Tem muita coisa boa rolando por aí. Deixo aqui umas dicas de links que possuem várias referências legais de serem aprofundadas e pesquisadas individualmente:

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“Pink”: o novo cinema da Índia traz também novas ideias

Dia desses fui a uma mostra maravilhosa que rolou no Centro Cultural Branco do Brasil (CCBB) aqui de Brasília: a “Novo Cinema Indiano”, que passou também por outras cidades – mas infelizmente não está mais em cartaz. Como o nome diz, o objetivo foi evidenciar trabalhos recentes da Índia (os filmes da exibição foram realizados a partir de 2013) e que estejam, em grande maioria, fora do circuito de Bollywood.

O país é, com certeza, bastante rico e diverso em línguas, regiões, religiões e costumes, e a mostra captou isso muito bem ao dar espaço não apenas para produções de diferentes localidades da Índia, como também ao selecionar obras que abordam conflitos contemporâneos marcantes – e importantes.

Dentre os filmes que tive a oportunidade de assistir, quero falar especificamente sobre um que mexeu bastante comigo – e que tem muito a ver com os temas tratados aqui no blog: Pink (2016), dirigido por Aniruddha Roy Chowdhury e escrito por Ritesh Shah. Ele é uma das exceções da programação, por ser, na verdade, bem bollywoodiano. No entanto, é uma espécie de subversão do estilo: como aponta uma matéria da BBC (em inglês), Pink desafia o discurso padrão dessa indústria cinematográfica, que romantiza coisas como ameaça de estupro e stalking, por exemplo, como se fizessem parte dos ritos amorosos – nada muito diferente da tradicional Hollywood, rs.

Atenção: a partir daqui, contém spoilers.

O começo do filme mostra um carro cheio de homens com raiva – um deles com o rosto sangrando – e indo até a um hospital, entre lamúrias e xingamentos. Paralelamente, um táxi leva três amigas bastante apreensivas e nervosas para casa. A história envolve um grupo de garotas que, após um show de rock, vão tomar mais umas com uns rapazes semi-conhecidos. No entanto, o que era pra ser um pós-noite envolvendo diversão e alguns drinks, termina em confusão.

A cada nova cena, vai ficando claro que essa tensão inicial é, na verdade, um fio condutor que permeia toda a trama. Porém, aos poucos, o que aconteceu vai se tornando menos nebuloso: uma das moças machucou um dos rapazes, mas não se sabe ainda o porquê – embora seja possível notar que não houve uma briga justa entre as partes.

As amigas – Minal (Taapsee Pannu), Falak (Kirti Kulhari) e Andrea (Andrea Tariang) – são também colegas de apartamento e começam a sofrer, no dia a dia, as consequências dessa fatídica noite. Os caras tentam difamá-las o tempo inteiro, fazem ligações repletas de ameaças, as perseguem nas ruas (e chegam a sequestrar e abusar do principal alvo: Minal), intimidam e agridem o locador do apartamento delas, na tentativa de convencê-lo a mandá-las embora, entre várias outras coisas. Eles não querem nenhum tipo de conciliação e sim a propagação de um terrorismo – com ataques físicos e psicológicos – que os mantenha no topo de uma hierarquia de poder que foi ameaçada pela agressão de uma das jovens (e também pela rejeição que eles sofreram de todas elas).

Minal, a “agressora” de Rajveer (Angad Bedi), um playboyzinho filho de um influente político, se recusa a pedir desculpas pelo que fez: ao ser agarrada à força, acaba quebrando uma garrafa de vidro na cabeça dele para se defender e conseguir se soltar. Ela não considera que sua legítima defesa seja, de fato, uma agressão, e sim uma reação à violência iniciada por Rajveer, que não respeitou os limites impostos e utilizou força física e coação para forçá-la a ficar com ele.

Quando Minal, que é bastante forte e decidida, finalmente decide ir à polícia, o que começa a rolar exemplifica o porquê de muitas vítimas não terem coragem de realizar denúncias formais: a situação é tratada com extremo descaso e as moças são apontadas como as culpadas por terem “provocado” os rapazes. Fora a corrupção presente em todo lugar: por conta da influência familiar, Rajveer consegue realizar boletins de ocorrência com data adulterada bem como coloca panos quentes nas denúncias das jovens. O intuito final é fazer com que elas sejam incriminadas, e a desigualdade social somada ao machismo vai colaborar com que o foco dos dedos apontados mirem as vítimas, e não os agressores.

As amigas possuem um vizinho um tanto quanto estranho, que está sempre de butuca, acompanhando tudo. À medida que vai sendo revelado que ele é, na verdade, confiável, o filme vai mudando o tom. Enquanto a primeira metade é uma espécie de suspense urbano, a metade seguinte é um dramão de tribunal. O misterioso Deepak Sehgal (Amitabh Bachchan) não representa perigo: é apenas um homem doente, desencantado com a vida e prestes a perder a esposa. Porém, não consegue deixar de se envolver com o caso – e então é revelado que ele é também um advogado famoso e aposentado, que acaba decidindo fazer a defesa das moças. Uhu!

Não tem como negar que a obra tem uma vibe novelesca e melodramática em muitos instantes. Porém, considero isso uma qualidade: achei bom um tema tão importante ser tratado de modo tão acessível, descomplicado, quase esquemático. Pink fala sobre violência contra a mulher e coloca em debate a questão do consentimento, que é destrinchada de forma bastante didática (até demais, ás vezes, mas melhor pecar pelo excesso do que pela falta, nesse caso) durante o julgamento das moças.

No tribunal, as mulheres são acusadas de serem prostitutas que queriam se aproveitar financeiramente dos pobre rapazes, e são também, o tempo todo, acusadas de serem pobres – como se não ter dinheiro fosse crime! A acusação vasculha a vida inteira de cada uma delas, com o intuito de provar que possuem “cárater duvidoso”, e alega que “o aspecto do consentimento foi introduzido pela defesa porque está na moda hoje em dia”. A maior parte do tempo, a discussão gira ao redor das mentiras que os caras inventaram e dos supostos danos que eles sofreram. Tipo na vida real: é mais importante considerar não estragar o futuro de um agressor do que pensar no bem-estar de uma vítima e prevenir novos crimes.

O advogado de defesa dá umas vaciladas no começo, só pra deixar aquele clima de que tudo vai dar errado, mas depois engata e não para mais. Ele explica que mulheres são inferiorizadas o tempo inteiro apenas por serem mulheres, desmascara esquemas de corrupção, coloca em evidência como homens e mulheres que fazem as mesmas coisas – tipo beber, dançar ou sorrir – são vistos de formas diferentes e deixa bem claro que não é sempre não.

É bem emocionante porque é tipo um alívio. Vitórias – e justiça –  para essas questões ás vezes parecem ainda tão distantes…  Portanto, é gostoso enxergá-las pelo menos na ficção, para fins de inspiração, enquanto a gente vai transformando a realidade. E, querendo ou não, o cinema é também uma possível porta para transformações de realidades, não acham?

De acordo com uma das responsáveis pela mostra, Carina Bini, curadora, produtora e jornalista brasileira que já morou um tempão na Índia, um ponto importante para o sucesso da obra foi a escolha de Bachchan – conhecido também como “Big B” – para o papel de advogado de defesa. Considerado um ídolo nacional, o ator está desde os anos 70 nas telinhas e telonas do país, e ajudou a atrair vários espectadores para o cinema. Grande parte das falas mais impactantes que denunciam o machismo da sociedade indiana saem da boca dele, aliás.

Tal explicação me ajudou a ver de maneira mais positiva aspectos que poderiam ter sido interpretados de outra forma caso eu não estivesse ciente do contexto. Porque, assim, em um primeiro instante, chega a soar quase como mansplaining um filme dirigido e roteirizado por homens ter um outro homem falando pelas mulheres que elas precisam ser respeitadas.

No entanto, assistir uma figura admirada na Índia proferindo argumentações que desmontam o discurso machista e senso comum é impactante. E, sendo ele um advogado de defesa, fica mais coerente fazer isso (mas claro que, ainda assim, o cara é meio que colocado como um herói). Aliás, o cinema é ainda um território bastante masculino, como tantos outros. Será que um filme assim, mas feito e protagonizado por mulheres apenas, seria recebido da mesma forma? Vale uma reflexão. Essa resenha aqui (em inglês) do site Feminism in India discute um pouco essa questão e, a partir de uma ótica feminista, levanta alguns problemas existentes em Pink.

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Uma coisa interessante é que o filme trata de uma história que não envolve vítimas virginais e perfeitas. Mostrar mulheres jovens, que vivem sozinhas em um contexto urbano, trabalham e vão para festas talvez facilite a identificação de pessoas de outros países com a obra – e facilite também o entendimento geral de que violências acontecem em todos os lugares e são cometidas/sofridas por pessoas de diferentes recortes sociais.

E, como já falei antes por aqui, essa “mulher perfeita” (que nunca vai existir) em contraste com todas as outras (que são horríveis e usam roupas curtas e são vadias e merecem apanhar e falam demais e deveriam estar em casa lavando a louça) é uma invenção do machismo, seja ele individual ou institucional, para tentar culpar as vítimas pelas violências que sofrem. Gente, existem casos em que as pessoas conseguem arrumar desculpas para culpar até mesmo crianças que foram alvo de violência sexual, argh!

Outro aspecto interessante que é mostrado é o machismo enquanto um acontecimento coletivo. O universo individual respalda o institucional – e vice-versa – e, a partir disso, o senso de impunidade caminha junto com a inferiorização de quem se encontra fora da esfera do poder masculino. Mentiras, corrupção, agressões verbais, físicas e psicológicas: tudo se torna válido para manter o status quo. Porém, fica evidente também que a sede por vingança dos rapazes é bastante infantil e que a masculinidade é algo paradoxalmente forte, quando se pensa nos estragos que são causados por ela, mas bastante frágil, no sentido de identidade.

A sociedade indiana se organiza por um sistema de castas que expõe principalmente mulheres em um nível “inferior” à violência – mas todas estão sujeitas a sofrer algo (qualquer semelhança com nossa pátria amada não é mera coincidência). E, assim como na China, por exemplo, é estimulado o aborto seletivo de fetos do sexo feminino (nem sempre por “escolha”, li relatos envolvendo coação externa), o que ocasionou na diminuição da população de mulheres do país.

Por lá, acontecem muitos estupros, sejam eles individuais ou coletivos, mulheres são atacadas com ácido, existem problemas de exploração sexual e meninas são obrigadas a se casar com adultos, entre várias outras coisas horríveis. A sociedade brasileira adora apontar para essas questões com o intuito de reforçar a “incivilidade” de países que não sejam os Estados Unidos ou lugares famosos da Europa (que também possuem tretas, não se iludam). Até parece que estamos em uma situação assim tão diferente de vários locais que criticamos (e postamos notícias com comentários tipo “ohhh, que absurdo”), né? Então, no fim, sobra muita coisa pra pensar sobre.

Pink ganhou vários prêmios, foi exibido para a polícia do Rajastão, um dos maiores estados da Índia, com o intuito de sensibilizá-la sobre os direitos das mulheres, e foi também convidado para sessão especial na sede da ONU, em Nova York. Clique aqui e veja o catálogo da mostra “Novo Cinema Indiano” para saber mais sobre os outros filmes que foram exibidos.

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DEZ COISAS QUE NÃO CAUSAM ESTUPRO

O estupro é uma violência que possui dois lados. A sociedade trata a questão como um crime horrível, pelo menos na teoria e se a situação envolver uma “vítima perfeita”. No entanto, uma simples lida nos jornais diários mostra os inúmeros casos de crianças, adolescentes e mulheres sendo estupradas por familiares, amigos, desconhecidos, colegas de trabalho ou conhecidos da igreja, faculdade, balada, entre outros (pena que a abordagem no geral é tão sensacionalista e pouco profunda nas raízes da questão). Pessoas do sexo masculino são as que mais cometem esse tipo de agressão e pessoas do sexo feminino são as que mais sofrem – o que não impede que existam situações em que violências sexuais ocorram seguindo outro roteiro.

A discussão sobre o assunto acontece por vários meios, informalmente ou de modo organizado. Porém, muitos preconceitos e simplismos acabam sendo disseminados nesse debate, e questões importantes são deixadas de lado. Por isso, vou abordar aqui neste post as dez hipóteses mais estúpidas entre as que já li como as possíveis causas de estupro (mas existem muito mais), e propor uma conversa mais centrada na realidade: a culpa é sempre do estuprador. E ponto final.

1) Roupa curta não causa estupro

Isso é um consenso que feministas estão cansadas de repetir: a mulher tem o direito de usar a roupa que quiser. Pode ser um vestido rosa e curtinho, tipo o da Geisy Arruda, biquíni grande ou fio dental, burca, camiseta larga, shortinho, saia longa ou qualquer outro tipo de vestimenta. Achou o look feio, bonito, atraente, repulsivo, muito descolado ou super brega? Problema seu. Se você for homem, deixe esse espírito de predador sexual com pinceladas de crítico de moda no armário, porque roupa não justifica agressão. Se for mulher, não jogue pedras nas outras para provar o próprio valor ou achar que isso vai te proteger de alguma coisa (spoiler: não vai). E a tentativa de encontrar alguma desculpa que tire a culpa do estuprador e transfira para a roupa da vítima é uma forma de naturalizar não apenas o comportamento violento do homem, mas a ideia de que respeito é algo que a mulher deve “merecer” para ter. Sem contar que pessoas usando todos os tipos de roupa aqui citados já foram estupradas, o que mostra que o problema está muito além de qualquer vestimenta.

2) Bebidas ou drogas não causam estupro

Muita gente acha que uma mulher alcoolizada ou sob efeito de drogas “merece” ser estuprada. Aposto que, alguma vez na vida, você já ouviu alguém falar que “cu de bêbado não tem dono”, não é mesmo? Se as pessoas começassem a frequentar botecos e baladas com o intuito de buscar homens bêbados para serem empalados com cabos de vassoura, isso não seria uma violência terrível? No entanto, por que mulheres na mesma situação são estupradas com o aval da sociedade? Pessoas bebem ou consomem substâncias para se divertir, afogar as mágoas, por vício, depressão ou outros motivos, e você não precisa concordar com isso – dá para problematizar o uso de álcool e drogas por um ângulo de saúde pública ou do tráfico, por exemplo. Mas culpar uma vítima de estupro que estava entorpecida é, mais uma vez, defender o estuprador e a ideia de que homem é um animal descontrolado.

No mais, uma pessoa viciada precisa de ajuda, uma pessoa dormindo precisa de sono e uma pessoa com a consciência alterada não consegue responder por si mesma. De novo: desliga aí o suposto instinto predador, homem, porque sexo nessas condições não é ‘sexo fácil’, é estupro mesmo (caso sua empatia falhe ainda assim, aqui vai mais um incentivo: e é crime). E se você tem impulsos agressivos e violentos quando usa alguma coisa (ou não), procure ajuda (ou se tranque em casa, obrigada). Ah, vale lembrar que alguns caras colocam sedativos na bebida de mulheres ou as obrigam a inalar substâncias entorpecentes também – algo que, somado à violência sexual que sucede tais práticas, contabiliza uma dupla quebra de consentimento.

3) Ruas pouco movimentadas também não causam estupro

Vários fatores tornam a rua um ambiente inseguro para mulheres: homens, primeiramente, e coisas como iluminação ruim, falta de movimento e de segurança, demora no transporte público e outros itens que as colocam em situação de vulnerabilidade. Portanto, o ideal é que sejam elaboradas estratégias de educação e segurança pública que tornem a rua um espaço menos hostil para pessoas do sexo feminino. Tenho uma fantasia que envolve um toque de recolher para homens até que eles, enquanto categoria, se eduquem, rs. Mas tô brincando. Queria mesmo era um monte de poste, gente e ônibus pra todo lado e, principalmente, pessoas com a consciência humana aflorada.

E vale lembrar que a ideia do estupro como algo que só acontece em um local ermo, com um cara ameaçando a mulher com uma faca, não é necessariamente o retrato fiel da situação: muitos algozes estão dentro da casa da vítima ou nas redondezas, o que significa que ~tomar cuidado por onde se anda~ não é sempre o necessário para evitar uma agressão sexual (mas a gente toma mesmo assim).

4) A falta de uma ~bola de cristal~ não causa estupro

Algumas vítimas são cobradas por não terem se preparado para enfrentar a agressão sexual e escutam coisas como: “mas por que você não gritou?”, “devia ter saído correndo”, “não percebeu que ele ia chegar perto de você?”, “você não anda com spray de pimenta na bolsa?”, “por que ficou sozinha em casa com ele?”, “não sabia que isso podia acontecer?” e etc. Frases do tipo não fazem o tempo voltar, cada pessoa tem uma reação diferente quando está em perigo e existem casos em que não é muito seguro reagir a uma situação de violência (e não tem como saber, de antemão, quais). Não vamos cair, mais uma vez, na armadilha de culpar quem não tem culpa. No caso de estupros cometidos por amigos, parentes ou vizinhos, como a vítima iria descobrir as reais intenções de homens, teoricamente, “de confiança”? E se a violência for cometida por um estranho em um local inusitado ou em uma situação inesperada, como a vítima poderia adivinhar? E tem mais: nem sempre um estupro acontece de forma explícitamente agressiva. Cada caso é um caso – e o que todos possuem em comum é que a culpa não é da vítima. E não existe uma bola de cristal capaz de prever quando um estupro pode ocorrer.

5) Crise ou pobreza não causam estupro

Lembram quando o responsável pela Secretaria de Segurança de São Paulo, Mágino Alves Barbosa Filho, falou que a crise econômica tem a ver com estupro, porque o cara acaba ficando frustrado demais, sem emprego, bebendo e cometendo esse tipo de coisa?  Isso é uma estratégia que busca voltar o debate público para a criminalização de pessoas pobres, e não para a busca de soluções efetivas para os problemas que as mulheres enfrentam. Breaking news: filhinhos de papai que nunca precisaram sequer pensar em trabalho também estupram. Jovens universitários de classe média também estupram. Autoridades de governo também estupram. Cantores famosos também estupram. Filhos de donos de grupos de comunicação também estupram. Sabe o que não estupra? Ah, essa pergunta eu deixo no ar…

Essa relação entre pobreza e violência já foi desmistificada pelas ciências sociais há pelo menos três décadas. A socióloga feminista Helleieth Saffioti bem dizia que a violência contra a mulher é extremamente democrática porque ela atinge a todas as classes sociais.

Um homem que perde o emprego não é um estuprador em potencial. Homens numa sociedade patriarcal são estupradores em potencial porque têm uma certa legitimidade social (ainda que não legal) para violar os direitos de uma mulher, violar sua integridade e sua dignidade, seu corpo e sua vida. O que acontece em geral é que nas classes altas, a violência contra a mulher e o estupro são escondidos sob um manto de hipocrisia e dupla moral, onde não se registra, não se denuncia e não se expõe homens ricos, homens de altos cargos, frente a suas práticas violentas. Existe um silêncio e uma impunidade brutal com um professor universitário, um juiz, um político – o que não acontece com um pedreiro, um motorista de ônibus ou um trabalhador das classes populares, por exemplo.

Izabel Solyszko, feminista, assistente social, professora e doutora em Serviço Social pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Leia mais opiniões de especialistas aqui. 

6) Funk não causa estupro

Esse é outro argumento que tenta colocar pessoas negras e pobres como as únicas culpadas por agressões sexuais. O objetivo, mais uma vez, não é o bem-estar de mulheres, mas calar a cultura que surge na periferia, encarcerar essas pessoas e criar uma diferenciação entre os “homens de bem e civilizados” e os estupradores. No entanto, a lista de astros do rock que cantam letras machistas de música – e/ou estupraram adolescentes e mulheres  – é grande, por exemplo. Não precisa nem ser um astro, o meio independente está cheio desses exemplares também. Música popular brasileira, música brega, sertanejo, música pop… Se a gente cavar, acha coisas problemáticas em todos os estilos. Não estou dizendo que não existam funks machistas e com letras horríveis, ou funkeiros com comportamentos questionáveis, só quero chamar atenção para o fato de que isso não é exclusividade do gênero – que, como todos os outros, tem partes ruins e boas.

Existe um machismo no funk que não é exclusivo no funk. É que sua linguagem é muito direta em relação a tudo. Não há floreio, a batida é reta, seja para falar de amor, sexo e violência. É sempre uma linguagem muito direta, o papo reto, como dizem. Com o machismo, não é diferente. E existe uma reação escancarada a ele. Com as mulheres falando de sua liberdade sexual, da escolha de parceiros, sobre o que fazer com o corpo e exercitar seu desejo. E elas abordam todos esses assuntos em um ambiente masculino, como é o da música popular — ressalta Adriana [Facina, antropóloga e professora da UFRJ], que destaca a ascensão das mulheres dentro do cenário funk nos últimos anos. Leia mais aqui.

7) Não é a falta de armamento que causa estupro

Mais uma vez, a pauta conservadora tenta cooptar os debates feministas. Alguém realmente acha que é assim que as coisas vão ser resolvidas? A jornalista Nana Queiroz pesquisou o assunto e constatou o que a gente já imaginava: essa não é a solução. Muitos estupradores são pessoas próximas, o fator “surpresa” dos ataques dificulta a ação, mulheres são socializadas para serem mais passivas e, quando em ambientes violentos, assimilam aquela situação como normal, entre vários outros fatores. Leia a matéria aqui.

Uma sociedade toda armada mas carregando os mesmos valores de sempre vai resultar em um constante tiroteio, gente. Só isso. Antes de qualquer coisa, temos que começar grandes campanhas nacionais para discutir sobre papeis de gênero e afins. E, de acordo com a jornalista, “a maioria dos casos de estupro à brasileira não é fruto de problemas de segurança pública, mas de uma cultura machista que prega um poder do homem sobre a mulher. O crime de estupro tem uma característica no Brasil: a cifra negra. A expressão ‘cifra negra’ significa que um número muito pequeno de ocorrências de um determinado crime chega ao conhecimento das autoridades. Deste já pequeno número, uma ínfima parcela chega ao conhecimento do judiciário, e uma menor ainda resulta em condenações”.

8) ~Excesso de libido~ masculina não causa estupro

Não é o ~excesso de desejo~ masculino que faz com que as mulheres sejam estupradas (aliás, engraçado como são as feministas as que mais batem na tecla de que os homens não são “animais irracionais” e as mais acusadas de vê-los como tais). A sexualidade do ser humano é um terreno complexo e envolve mais do que a mera vontade de transar. Existe toda uma construção de ideias anterior ao ato sexual – e à violência sexual também – que faz com que o sexo seja algo que vai muito além dos órgãos genitais. Portanto, propostas que envolvem a castração química, por exemplo, vindas de pessoas que querem impedir que a sociedade discuta e debata questões de gênero, ainda por cima, estão muito mais perto de algum tipo de fetiche com violência e tortura do que de empatia com vítimas de estupro.

Em uma reportagem do Uol, o psiquiatra Danilo Baltieri, coordenador do Ambulatório de Transtornos da Sexualidade da Faculdade de Medicina do ABC, afirma que o termo “castração química” é, inclusive, mentiroso. O que ocorre, na realidade, é uma diminuição de impulsos sexuais. Porém, o interesse continua. “Em casos de estupradores não é apenas uma questão orgânica que importa, o problema também é ‘intelectual’. É claro que a castração não cura, não transforma a ideologia. Mesmo se não tiver ereção, o agressor pode praticar violência sexual de outras maneiras”. Leia a matéria completa aqui 

9) Vida sexual ativa não causa (nem justifica) estupro

Vamos deixar uma coisa bem clara: sexo é o encontro de corpos que se desejam mutuamente. Se não existe consentimento de alguma parte, é estupro. Mesmo que esses corpos já tenham se desejado mutuamente em alguma ocasião anterior, é preciso que o acordo seja reafirmado a cada novo encontro. E se esses corpos já estiveram com outros corpos, não significa que vão querer estar com todo mundo que aparecer pela frente. Tem homem que acha que mulher é igual máquina de refrigerante: se ela já transou com ele ou com outras pessoas alguma vez na vida, ele tem direito a refil automático. Não é assim mesmo. Sexo não é uma obrigação, e sim uma escolha autônoma.

Tem gente que diz coisas tipo “ah, mas ela nem era virgem” e eu sempre fico meio chocada, me perguntando em que século pessoas assim vivem. Vasculhar o passado sexual de vítimas de estupro é reafirmar o corpo da mulher como público e violável. Essa imposição histórica não é natural e, por isso, a luta que busca construir a equidade de gênero e destruir a misoginia (que tem bases profundas na inferiorização do corpo do sexo feminino) é fundamental. E tem mais: mulheres não dizem não querendo dizer sim. Não é não, e não importa o que elas já fizeram antes na cama (ou no chão, no sofá, na barraca de camping ou na areia).

10) Estupro não tem nenhuma justificativa aceitável, na verdade

Falamos em ~construção social~ com o intuito de não essencializar comportamentos ruins, porque acreditamos na possibilidade de humanidade em vocês, homens (algo que, infelizmente, não parece recíproco em muitos momentos). Logo, não acreditamos que um rapaz nasça automaticamente querendo fazer mal às mulheres e sim que ele cresce absorvendo mensagens diversas — da religião à pornografia, passando por esferas como arte, medicina, música, ambiente de trabalho e outros — onde uma hierarquia sexual existe e ele precisa reforçar a própria masculinidade, bem como estreitar laços com outros caras e demarcar seu papel de ‘poderoso’ (no âmbito do controle do espaço público e dos corpos femininos pelo menos) por meio de práticas que inferiorizem e subjuguem o sexo feminino. Por isso, nós, mulheres, precisamos urgentemente do reconhecimento de que somos humanas também.

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Crédito: Eduardo Valente

E se fosse haver algum apelo ou alguma questão nesse grito, seria essa: por que vocês são tão lentos? Por que vocês demoram tanto para entender as coisas mais simples – não as ideologias complicadas. Vocês entendem essas. Mas as coisas simples, os clichês. Que as mulheres são humanas precisamente no mesmo degrau e qualidade que vocês são.

(…) O poder exercido pelos homens no dia a dia é um poder institucionalizado. É protegido por lei. É protegido pela religião e pela prática religiosa. É protegido pelas universidades, que são fortalezas da supremacia masculina. É protegido pela polícia. É protegido por aqueles que Shelley chama de “os legisladores não reconhecidos do mundo”: os poetas, os artistas. E contra todo esse poder, nós temos silêncio.

É uma coisa extraordinária tentar entender e confrontar o motivo pelo qual os homens acreditam – e eles acreditam – que eles têm o direito de estuprar. Eles podem não acreditar quando perguntados diretamente. Quem aqui acha que tem o direito de estuprar, por favor levante a mão. Poucas mãos vão subir. Mas é na vida que os homens acreditam que têm o direito de forçar sexo – que eles não chamam de estupro. E é algo extraordinário tentar entender que homens realmente acreditam que têm o direito de bater e de machucar. E é igualmente extraordinário tentar entender que homens realmente acreditam que têm o direito de comprar o corpo de uma mulher para fazerem sexo – e que isso é o seu direito. E é também surpreendente tentar entender que os homens acreditam que essa indústria de 7 bilhões de dólares, que traz vaginas para as suas vidas, é algo a que eles têm direito.

(…) Eu acho que, se você quer olhar para o que o sistema faz com você, então é aqui que você deveria começar: as políticas sexuais da agressão, as políticas sexuais do militarismo. Os homens estão com medo dos outros homens. Isso é algo que muitas vezes vocês tentam discutir em grupos pequenos, como se, caso mudassem suas atitudes uns com os outros, deixariam de sentir medo.

Mas enquanto sua sexualidade tiver relação com agressão, enquanto seu senso de direito sobre a humanidade significar ser superior a outras pessoas – e tem tanto desprezo e hostilidade nas suas atitudes com mulheres e crianças – como vocês podem não ter medo? Eu acho que vocês percebem, corretamente, mesmo sem conseguir lidar com isso de forma política, que homens são perigosos: porque vocês são.

Andrea Dworkin. Trechos de discurso feito em 1983, intitulado “Eu quero 24 horas sem estupro”. Leia aqui.